Já não me lembro mais quando conheci o trabalho do quadrinista Alexandre S. Lourenço, nem qual foi a primeira obra dele que li. Suspeito que tenha sido alguma HQ publicada no blog Robô Esmaga, apresentado a mim pelo editor, quadrinista, crítico e pesquisador Lielson Zeni na primeira metade da década de 2010. Depois, Robô Esmaga viraria o título da coletânea de quadrinhos de Lourenço publicada pela editora JBC em 2015. E ele e Zeni ganhariam o Prêmio Literário Biblioteca Nacional em 2024, na categoria Histórias em Quadrinhos, por Damasco, publicado pela Brasa Editora.
Perco-me em relação às memórias de quando conheci os trabalhos de Lourenço, mas não esqueço da afeição imediata que senti por sua abordagem em relação às histórias em quadrinhos. Para mim, história é detalhe (quase irrelevante); me interessa muito mais a forma como se explora essa linguagem. Em seu álbum mais recente, a coletânea Algumas de Suas Verdades Ainda Moram em Mim (Conrad), Lourenço me assombrou tanto pelo uso da narrativa quanto por suas histórias. É a grande HQ brasileira de 2025 até aqui.
A coletânea Robô Esmaga reuniu algumas das melhores tiras de Lourenço publicadas em seu blog. São quadrinhos curtos sobre a vida e a rotina opressiva do mundo moderno, as correrias do dia a dia e a passagem do tempo. Depois veio a excelente Você é um Babaca, Bernardo, publicada em 2016 pela editora Mino. Escrevi sobre o livro para a revista Rolling Stone e celebrei, principalmente, as soluções encontradas por ele para o cotidiano banal e pouco inspirado de seu protagonista. Em 2017, ele lançou a independente Boxe, republicada na íntegra em Algumas de Suas Verdades Ainda Moram em Mim.

Lourenço também participou da Série Postal, projeto de quadrinhos em cartão-postal que publiquei entre 2017 e 2018. A obra assinada por ele abriu o segundo ano da coleção e serviu de ponto de partida para outra das HQs presentes em seu livro mais recente.
Aí veio Damasco, em 2023. Escrevi sobre a obra para a Folha de S.Paulo, a partir de uma longa entrevista que fiz com seus autores.
Lourenço me disse na época: “Acho que estou me percebendo cada vez menos interessado em história. Isso tanto como leitor quanto como quadrinista. Gosto de quando um quadrinho sabe que é um quadrinho. Quando se apresenta como quadrinho. Quando faz o espaço na página funcionar como em nenhum outro lugar poderia funcionar.”
Em novembro de 2024, ele publicou devolve minha cabeça., 37ª edição da coleção Ugritos, da editora Ugra Press.

Algumas de Suas Verdades Ainda Moram em Mim reúne cinco HQs: Boxe, Durma Bem, Monstro, Saudações Vascaínas, Raio Rubro e Notas (ou algumas de suas verdades ainda moram em mim). Apesar do título com ares “complementares”, a história que fecha o livro talvez seja sua grande razão de ser – uma reflexão mais ampla acerca das temáticas que permeiam a obra.
Algumas de Suas Verdades Ainda Moram em Mim fala sobre família, pais e filhos. Também sobre futebol e boxe. E sobre histórias em quadrinhos.

Boxe mostra um confronto de seis rounds entre dois boxeadores pelo Título Municipal de Boxe Amador de São José dos Pinhais. De um lado, Raul “Seis Cabeças” Quintino, do outro, Fabrizio “Fabuloso” Figueiredo, “O Rei do Boqueirão”. As 12 primeiras páginas da HQ são centradas no embate. São mais de 300 cenas de trocação de golpes desenhadas por Lourenço. Nenhum movimento dos lutadores se repete, e o confronto ganha contornos dramáticos a partir do terceiro round. Encerrada a luta, o quadrinho ganha outro tom, ainda mais emocionante que o combate entre os boxeadores, focando na relação entre Figueiredo e seu filho.
Durma Bem, Monstro saiu de forma independente em 2018. Talvez seja o grande experimento narrativo de Lourenço até aqui. Trata-se de outra história sobre pais e filhos, com uma mesma página retratando diferentes momentos da vida de uma família e de seus membros. É uma HQ que precisa ser decifrada. É um uso muito particular da linguagem dos quadrinhos. É a obra de Lourenço que mais remete ao trabalho do Chris Ware, instigando múltiplas possibilidades de leitura, tal qual Building Stories, obra mais ousada do autor norte-americano.
Aí vem Saudações Vascaínas. Já está ali junto com Luzes de Niterói, de Marcello Quintanilha, como uma das grandes HQs brasileiras sobre futebol. E aqui, óbvio, Lourenço impressiona ao retratar os vários movimentos e lances de uma partida, mas a mágica está nas emoções que ele evoca ao abordar a relação entre um pai e um filho por meio do futebol. Apesar de toda a ação do quadrinho, de todo o dinamismo atrelado à partida, a trama se desenrola no silêncio e na estaticidade de seus personagens.

Minha relação com o futebol vai bem além de campo, bola e títulos. Saudações Vascaínas diz respeito exatamente a isso: o esporte como canal para os mais diversos sentimentos. Fosse eu torcedor do Club de Regatas Vasco da Gama não precisaria de mais nada para ser feliz em 2025.
Raio Rubro é a obra mais divertida do álbum de Lourenço. É o autor dando vazão à sua paixão por quadrinhos de super-heróis. Aliás, não só por HQs de supers, mas por um tipo bem específico de obras do gênero: as mais ingênuas, publicadas no tradicional formatinho da Editora Abril. A HQ mostra toda a saga de uma família de supers ao longo dos anos.

Aqui volto àquele disclaimer lá do começo do texto: Raio Rubro é um desdobramento da HQ de Lourenço para o segundo ano da Série Postal, lançada em 2018. No postal, ele se propôs a narrar essa mesma saga super-heroística/familiar em 89 quadros. No álbum da Conrad, ele se desapega dessas limitações narrativas e se aprofunda nos vínculos e dramas pessoais dos personagens.
O livro fecha com Notas (ou algumas de suas verdades ainda moram em mim). O título leva a crer que se trata de uma espécie de apêndice, mas talvez seja o coração da obra. É Lourenço refletindo sobre sua relação com os quadrinhos e explicando as origens das três HQs prévias enquanto precisa resgatar o filho do sequestro de um ninja.
Acho um tremendo privilégio ser contemporâneo de Lourenço, vê-lo publicar seus quadrinhos e propor novas ideias sobre o uso da linguagem das HQs. Talvez ele realmente não esteja mais tão interessado assim em histórias, mas segue contando as maiores delas. Na verdade, talvez histórias mínimas, mas grandiosas nas formas como as conta e nos sentimentos que elas ecoam. Repito: Algumas de Suas Verdades Ainda Moram em Mim (Conrad) é a grande HQ brasileira de 2025 até aqui. Acho extremamente improvável que saia outra mais embasbacante até o fim do ano.






