O quadrinista, jornalista e editor Fernando Athayde concebeu a coleção Elefantologia de Artistas Brasileiros como uma publicação com histórias em quadrinhos e textos jornalísticos. O recém-lançado primeiro número da revista tem 76 páginas, a maior parte delas dedicada a Aquamarine – O Regresso, HQ de Atópico. A publicação ainda conta com um quadrinho curto de Lobo Ramirez, uma entrevista com Emily Bonna, artigos de Athayde e uma seção de recomendações (com textos curtos assinados por mim e Andrea Santos).
Athayde é autor de uma das minhas HQs preferidas de 2025: O Dragão de Aço, publicada como parte da coleção Mau Gosto Comics, da ditora Mau Gosto Corporations. Também sou leitor voraz de sua ótima newsletter, Elefantes na Sala (mesmo nome do selo/editora pelo qual ele publicou a Elefantologia de Artistas Brasileiros e outros títulos próprios).
Bati um papo por email com Athayde sobre a primeira edição da Elefantologia. Ele me falou sobre as origens do projeto, refletiu sobre a linha ditatorial da coleção, contou sobre a parceria com Atópico na edição de estreia e adiantou seus trabalhos em um próximo número com HQ de Victor Bello (autor dos excelentes Úlcera Vortex e O Alpinista).
Athayde chamou a minha atenção no começo de 2025 com um post no Instagram na qual ele caracterizou o que chama de Gibi Podre, movimento que tem como grandes pilares os surgimentos das editoras Escória Comix (pela qual publicou Cornan – Chifre & Castigo) e Pé-de-Cabra. Ele me disse que a Elefantologia não está ligada “intrinsicamente ao universo trash ou à podreira”, mas a vê como um desdobramento desse movimento: “A ideia é que a Elefantologia possa caminhar por uma trilha própria, pavimentada pela assinatura de cada autor envolvido”.
A seguir, a minha entrevista com Fernando Athayde:
“Um trabalho que inspira underground e respira emoção”

Eu conhecia o Fernando Athayde jornalista e o Fernando Athayde quadrinista, mas agora estou sendo apresentado ao Fernando Athayde editor. Como surge o projeto da Elefantologia de Artistas Brasileiros?
As coisas aconteceram após o lançamento dos meus gibis Cornan – Chifre & Castigo e Bem Normalzinho. Até aí, eu era engajado somente em me provar como um autor sério (sério na medida do possível ahahaha).
Foi então que, em novembro de 2024, participei da feira Ogra, em São Paulo, e fiquei na mesa ao lado da Mau Gosto Corp, de Pablo Carranza. Foi fascinante. Os gibis e tralhas que ele vendia eram tão bem feitos e tão esmerados, que me deu vontade de tentar fazer alguma coisa parecida.
Na ocasião, Cornan tinha sido lançado há alguns meses e a resposta da galera vinha sendo excelente. Então, sem mais questões internas pra resolver, decidi remodelar o Elefantes Na Sala para 2025 com base no que tinha visto na Ogra.
A ideia foi transformar o selo numa editora de fato, incorporando outros autores à casa. Para isso, copiei a ideia fundamental da Mau Gosto Comics, de ser uma coleção com vários artistas, e repensei ela à luz das minhas sensibilidades. Assim surgiu a Elefantologia, que só ficou pronta um ano depois.
Você tem definida qual é a linha editorial da Elefantologia? Você tem uma periodicidade em mente para a revista? Já pensou em outros possíveis artistas convidados?
A linha editorial é combinar sempre uma narrativa longa escrita e desenhada por um autor brasileiro com um anexo jornalístico no final da revista. Dentro dessa perspectiva, minha ideia é manter fixos de edição para edição somente os cabeçalhos em preto e branco que abrem as seções da publicação desde a capa.
Assim, não tenho exatamente um direcionamento estético em relação ao teor das histórias. Gosto muito da ideia de publicar quadrinhos de gêneros diferentes, com abordagens diferentes, às vezes coloridos, às vezes preto e branco.
A grande questão é a periodicidade, pois desenhar HQs leva muito tempo. Eu já entendi que, como editor, é preciso estar sempre “xavecando” dezenas de artistas ao mesmo tempo, o tempo todo ahahaha. Você fica jogando um verde aqui, outro ali, mais um acolá e, fatalmente, uma hora ou outra alguém aparece com a história. Acho, porém, que posso confirmar, pois ele mesmo falou numa entrevista cedida à minha newsletter: Victor Bello assinará uma edição futura. Ele é um mestre.
E o que você mais curtiu desse trabalho como editor? Qual foi o maior desafio?
Bom, além de me dividir entre jornalismo, quadrinhos e música, há algum tempo eu também estou cursando psicologia. Fazer edição de uma HQ longa e trabalhar com um autor, pelo que tenho entendido, é mais ou menos um processo clínico ahahaha. No caso de Atópico, a gente teve muitos papos. E, como eu gosto muito de conversar, nossos diálogos sempre começavam na história do Aquamarine e desaguavam em reflexões sobre a vida, a existência, as dificuldades de produzir arte no Brasil ou então na boa e velha fuleiragem mesmo.
Devido ao teor da HQ, eu editei muito pouco a história que ele escreveu, mas acho que tive uma grande e importantíssima sacada: as cores.
A arte de Atópico tem muita personalidade e a estilização das figuras e cenário é única. Porém, como ele gosta de trabalhar com contornos de espessura muito semelhantes, achei que se algumas cores fossem incorporadas ao desenho, a leitura visual das cenas ganharia uma outra dimensão. Falei isso pra ele, que decidiu fazer as cores manualmente, com marcadores à base de solvente. Ficou LINDO em caps lock.
“O Gibi Podre é fundamental para a minha vida”

Gosto de um post seu sobre antologias de quadrinhos brasileiros. A Elefantologia não me parece exatamente uma antologia, mas dialoga com o formato, né? Tem alguma publicação em particular que te inspirou?
A Elefantologia é uma coleção antológica, com um autor novo a cada edição. A inspiração foi a Mau Gosto Comics, mas o nome quem deu foi Lobo Ramirez, [editor] da Escória Comix, num dia em que a gente tava conversando qualquer besteira no Whatsapp, o que acontece bastante ahahaha.
Também gosto muito do seu post sobre o movimento Gibi Podre. Eu escrevi bastante sobre a Escória Comix e a Pé de Cabra quando ambas surgiram e gosto que você meio que caracterizou/definiu essa cena. Enfim, não sei bem onde quero chegar com essa pergunta… Talvez: você vê a Elefantologia como um dos desdobramentos desse movimento?
Acho que é um desdobramento, sim, mas não vejo a coleção como algo ligado intrinsecamente ao universo trash ou à podreira.
Ainda que ela só exista por causa do Gibi Podre e tenha muito em comum com esse subgênero, seja pelos envolvidos ou pelo aspecto gráfico da publicação, a ideia é que a Elefantologia possa caminhar por uma trilha própria, pavimentada pela assinatura de cada autor envolvido.
O Gibi Podre é fundamental para a minha vida. Posso dizer seguramente que essa galera mudou minha forma de enxergar o mundo e as pessoas, mas não somente. Um dos meus gibis menos lidos, porém mais profundos é o Bem Normalzinho, que é um trabalho autobiográfico com pouca escatologia e muita filosofia.
Gosto da ideia de que a Elefantologia possa seguir esse caminho também, algo que fica claro com Aquamarine – O Regresso, um trabalho que inspira underground e respira emoção.
Por que começar com o Atópico? O que você vê de mais singular no trabalho dele?
Como diria Lobo Ramirez, “Atópico é a juventude que deu certo”. Ele é um artista muito interessante, cuja arte me fisgou primeiro pelo aspecto gráfico e depois pela profundidade das narrativas. Acho que visualmente ele é único, mas é também um sujeito que faz gibi sobre o que quer fazer, sem tentar se inserir em grupos ou suprir demandas específicas. Se for pra ser podre, será podre; se for pra ser existencialista, será existencialista; se for pra ser cômico, será cômico.
Em consonância a isso, ele também é um sujeito extremamente articulado com sua comunicação e sabe muito bem como projetar seu trabalho nas redes sociais. Isso foi fundamental para que eu o convidasse.
O Elefantes é um selo minúsculo, com um público ainda muito segmentado, então eu precisava de um autor que dominasse a linguagem da internet e pudesse atrair mais leitores. Posso afirmar seguramente que aprendi muito com Atópico nesse ano que passamos trabalhando juntos. Acho que se comunicar é algo muito intuitivo pra ele, a ponto de ser, em certa instância, parte se sua poética.

Me fala, por favor, sobre a capa da Elefantologia. Gosto muito do contraste entre o desenho frenético do Atópico e o cabeçalho mais formal da publicação.
Essa é boa ahahaha. Como a coleção mistura quadrinhos e jornalismo, eu queria que a capa tivesse algo que fosse imediatamente reconhecível e que indicasse ao leitor que aquilo não era somente uma HQ convencional. Não deu muito certo, é verdade, mas vamos começar do começo:
O primeiro layout que eu criei para a Elefantologia foi baseado 100% nas revistas Herói, com aquela diagramação idiossincrática: chamadas das matérias alinhadas à esquerda, título no alto e frase de efeito bombástica na parte inferior. Eu havia gostado tanto do resultado que fiz, que mandei pra Lobo e Carranza, dois dos seres humanos mais criteriosos do universo na hora de conceber a capa de um publicação impressa. Eles foram categóricos: “tá muito foda”.
Então eu fiz o mockup com o Aquamarine e mandei pra Atópico. Muito educadamente, pra minha surpresa, ele disse que estava tudo certo e que me dava sua aprovação, mas que, no fundo, não tinha gostado. Fiquei frustrado, até sem entender direito como, mas eu também não podia conceber a ideia de publicar um gibi cujo autor simplesmente não havia aprovado (de coração ahahaha) o design da capa.
Então fomos conversar. É aquilo que eu disse algumas respostas acima: editar quadrinhos é um processo clínico.
Após algumas horas de Pinterest e inúmeras referências compartilhadas, chegamos à conclusão que, devido ao nosso gap de idade de nove anos, aquela capa não dialogava muito com a geração dele, mas fazia muito sentido para a minha. E como a ideia era que a Elefantologia fosse um produto comercialmente viável, isso realmente não era só uma questão de gosto, e sim um problema.
Nesse momento dia, Atópico me mandou algumas referências do que ele achava legal em se tratando de design editorial e eu comecei uma extensa pesquisa de capas de revistas e fanzines japoneses das décadas de 1970, 1980 e 1990. Algum tempo depois, concebi o cabeçalho que foi impresso.
Você tem alguma recomendação de algo que tenha lido/visto/ouvido recentemente?
Não sei se são recomendações, mas são as últimas coisas que li/vi/ouvi
LIDO: Ayrton, o Herói Revelado, de Ernesto Rodrigues. É a biografia do piloto mais fora da curva de todos, Ayrton Senna, o que não costuma interessar aos entusiastas dos quadrinhos, mas eu sou vidrado em Fórmula 1 e automobilismo em geral. De qualquer forma, é um livro interessante porque nos transporta ao Brasil dos anos 1980 e 1990 e nos lembra que, como disse o cantor Falcão, “é preciso que tudo mude pra que tudo continue igual”.
OUVIDO: Glitterer – Rationale (2024). É o penúltimo disco da banda atual do baixista e vocalista do Title Fight, Ned Russin. Eu acho esse cara incrível e gosto muito do senso estético dele. Dá pra ver que Glitterer é uma banda feita com pouco dinheiro, mas muita sabedoria na hora pensar no que investir. O single No One There é esplêndido.
VISTO: Tank Girl (1995), de Rachel Talalay. Adaptação pro cinema da personagem de quadrinhos que dá nome ao filme. Altamente abestalhado, cheio de humor, acidez e efeitos práticos, o longa é simplesmente perfeito. Lori Petty interpreta Tank Girl, que vive num futuro distópico onde a água é o bem mais precioso. Gatíssima, fetichista e poderosa, ela faz você desejar levar uns tapas na cara. Bãodimai!!!!!!!






