Shiko ruma ao poético e ao sobrenatural em Carniça e a Blindagem Mística – Parte 4: A Filha da Mulher Morta


Havia muito em jogo na quarta e última edição da série Carniça e a Blindagem Mística. O quadrinista Shiko deu início à série no fim de 2020, com Carniça e a Blindagem Mística – Parte 1: É Bonito o Meu Punhal. Em junho de 2021 saiu Carniça e a Blindagem Mística – Parte 2: A Tutela do Oculto e em janeiro de 2023 foi publicada Carniça e a Blindagem Mística – Parte 3: A Morte Anda no Mundo. A intenção original do autor era fechar a história em três volumes, mas ele estendeu a obra até Carniça e a Blindagem Mística – Parte 4: A Filha da Mulher Morta.

O escopo emocional e visual da série cresceu ao longo das três primeiras edições, acompanhando a escalada de fúria e violência das protagonistas.

É Bonito o Meu Punhal mostrou Carniça resgatando sua filha Jurema e a incorporando a seu bando em Alagoas no início dos anos 1920. A Tutela do Oculto focou nas origens da heroína que dá título à obra e seus poderes sobrenaturais. A Morte Anda no Mundo concluiu grande parte da saga de vingança do bando contra os abusos do passado. Havia poucas pistas e muitas expectativas sobre o desenrolar da quarta edição.

A Filha da Mulher Morta é um epílogo épico para aquela que talvez seja a obra mais grandiosa de Shiko até aqui. A conclusão da série se volta para os aspectos sobrenaturais da história de Carniça. Após alcançar sua desforra, a heroína precisa se acertar com as autoridades em seu encalço e com as entidades que lhe deram proteção. A quarta parte de Carniça e a Blindagem Mística talvez seja a mais violenta da série, mas também a mais poética e menos mundana.

Shiko, aliás, sintetiza o tom desse fechamento em trecho que diz: “Toda vingança é poesia que só o ódio acha rima”.

Rugas e chuva

Talvez minhas obras preferidas de Shiko até aqui fossem Lavagem (Mino, 2015) e Três Buracos (Mino, 2019). Além do meu gosto pelo preto e branco, acho que o nanquim da primeira e o lápis da segunda casam com a brutalidade de suas tramas. Também são obras mais ousadas em termos narrativos, com investidas mais propositivas do autor em relação ao uso da linguagem dos quadrinhos.

Quadrosde Carniça e a Blindagem Mística – Parte 4: A Filha da Mulher Morta, obra de Shiko (divulgação)

Em termos de designs de páginas e experimentações narrativas, Carniça e a Blindagem Mística é mais conservadora. Trata-se de uma opção coerente com a proposta da obra. É uma história maior, com ares operísticos, envolvendo mais personagens e com uma ambientação mais complexa. Gosto do contraste entre a trama mais rebuscada e a praticidade do contar da história.

E a arte do quarto Carniça é tão refinada, com tantas metáforas visuais e tantos detalhes no traço de Shiko, que qualquer outra investida estética tornava-se desnecessária. É uma arte virtuosa, mas sem ostentação. Tudo ali tem razão de ser, das rugas dos personagens aos pingos de chuva de uma das sequências de ação da HQ. 

Anos 2020

É cedo para apontar o significado de Carniça para os quadrinhos brasileiros, mas não hesito ao incluí-la desde já entre as grandes HQs nacionais dos anos 2020. Aposto em sua presença em várias listas de melhores de 2025, e adianto que estará na minha. Torço para que as quatro edições sejam reunidas em um único volume e cheguem a ainda mais leitores.

Carniça é uma obra de época, ambientada em um passado próximo, mas extremamente atual como retrato da nossa realidade. Trata de injustiças de um Brasil contemporâneo, mas vai além dos lamentos e desabafos acerca dos absurdos ao nosso redor. Tem tudo isso, mas, talvez principalmente, é divertida para caramba e uma puta HQ.

Passei os últimos quatro anos sob a companhia de Carniça e seu bando, no aguardo do desenrolar de sua jornada por vingança. Lamento que a saga das quatro heroínas da série tenha terminado, mas celebro o final grandioso dado por Shiko à HQ.

A capa de Carniça e a Blindagem Mística – Parte 4: A Filha da Mulher Morta, obra de Shiko (divulgação)
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Ramon Vitral

Meu nome é Ramon Vitral, sou jornalista e nasci em Juiz de Fora (MG). Edito o Vitralizado desde 2012 e sou autor do livro Vitralizado - HQs e o Mundo, publicado pela editora MMarte.

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