Vitralizado

Posts por data agosto 2019

HQ / Matérias

David Lloyd fala sobre V de Vingança, distopias, fascismo, Bolsonaro, Trump e Boris Johnson

V de Vingança é um dos maiores clássicos dos quadrinhos mundiais. Com roteiro do Alan Moore e arte do David Lloyd, a HQ é ambientada em um futuro distópico e pós-apocalíptico do Reino Unido após uma guerra nuclear que devastou grande parte da população mundial. O anarquista mascarado protagonista do quadrinho tem como missão destruir o governo neofascista, LGBTfóbico, racista e fanático religioso que está no poder.

O David Lloyd estará no Brasil nos próximos dias, como convidado da Comic Con RS e da festa de aniversário de um ano da loja Monstra, em São Paulo. Entrei em contato com o artista e perguntei se ele se ele vê alguma relação entre o cenário distópico de seu trabalho mais famoso e a nossa realidade habitada por Bolsonaro como presidente do Brasil, por Donald Trump como presidente dos Estados Unidos e por Boris Johnson como primeiro-ministro britânico. Você lê a resposta dele no meu texto pro portal UOL.

Um quadro de V de Vingança, clássico das HQs com roteiro de Alan Moore e arte de David Lloyd
Entrevistas / HQ

Papo com Lovelove6, autora de Lombra, 19ª edição da coleção Ugrito: “Esse formatinho me encorajou a experimentar uma história em quadrinhos sem texto pela primeira vez”

A quadrinista Lovelove6 é a autora da 19ª edição da coleção Ugrito, publicada pelo selo Ugra Press. Batizada de Lombra, a HQ será lançada no sábado (3 de agosto), na loja da Ugra, em São Paulo, a partir das 16h – você confere outras informações sobre o lançamento na página do evento no Facebook

A HQ de 16 páginas é o primeiro trabalho de Lovelove6 integralmente sem texto e a sinopse oficial de Lombra fala em como a autora leva seus leitores a um ambiente onírico para apresentar “uma história sobre vulnerabilidade, coragem e esperança”.

Bati um papo por email com a quadrinista na qual ela falou sobre o ponto de partida de Lombra, apresentou as técnicas utilizadas por ela durante a produção do quadrinho e expôs seu interesse crescente por narrativas longas. Papo massa, saca só:

“Tenho me interessado muito mais por novelas gráficas e ficcionais, tramas de estruturas tradicionais e com uma estética e pensamento mais próximos do cinema”

Um dos personagens de Lombra, HQ de Lovelove6 publicada na 19ª edição da coleção Ugrito

Uma das graças dos Ugritos está na forma como cada autor faz uso desse formato pequeno e curto, com um número limitado de páginas. Foi desafiador pra você trabalhar dentro dessas restrições?

Tanto o tamanho pequeno quanto o número limitado de páginas são regras que eu tenho aplicado nos meus quadrinhos mais recentes, então por um lado eu estava confiante em relação ao formato do Ugrito. Esse formatinho me encorajou a experimentar uma história em quadrinhos sem texto pela primeira vez.

O conflito do Ugrito para mim foi definir o estilo de narrativa, porque inicialmente eu queria fazer uma história que me parecia ser melhor contada num estilo autobiográfico e de fluxo de pensamento, como as histórias que desenhei para o site A Nébula em 2015 e 2016. 

Atualmente porém eu tenho me interessado muito mais por novelas gráficas e ficcionais, tramas de estruturas tradicionais e com uma estética e pensamento mais próximos do cinema. 

Eu me sinto traindo um pouco os quadrinhos limitando as possibilidades dessa linguagem incrível aos limites das visualidades e narrativas cinematográficas, mas ao mesmo tempo eu tenho sentido que gosto mais de inventar histórias do que de desenhar.

Um dia eu queria mesmo é que me pagassem pra consultoria de roteiros, tipo script doctor, então a minha ideia é fazer muitas mais narrativas como a da Lombra pra construir essa moral. =p

Uma página de Lombra, HQ de Lovelove6 publicada na 19ª edição da coleção Ugrito

Qual foi o ponto de partida dessa história? Teve alguma reflexão ou inspiração em particular que te motivou a criar a trama de Lombra?

Um dia eu ganhei um bud de maconha que era muito cheiroso e em vez de fumar eu o guardei pra continuar sentindo o cheirinho toda noite. Foi assim que surgiu a ideia da história Lombra.

Você pode me falar, por favor, um pouco sobre suas técnicas? Você chegou a fechar um roteiro antes de começar a desenvolver Lombra? Você usa papel ou trabalha no computador? Como foi o desenvolvimento dessa HQ?

Como é uma história curta e sem diálogos, que eu já vinha elaborando na cabeça há muito tempo, comecei direto com os esboços em miniatura das páginas.  

Depois desenho maior e com a ajuda de uma mesa de luz passo todos os desenhos a limpo em folhas de gramatura boa, que recebem a arte final com uma pen brush e nanquim. 

Detalho e corrijo com guache branca e pincel, depois faço o tratamento e adiciono os tons de cinza digitalmente no computador. A imagem a seguir compara o esboço em miniatura com a página desenhada.

O esboço em miniatura em comparação com uma página desenhada de Lombra, HQ de Lovelove6 publicada na 19ª edição da coleção Ugrito

Lombra me fez pensar sobre confronto e esperança. Esses temas são caros para você?

Sou bem familiarizada com a ideia de confronto, mas não costumo pensar sobre ‘ter esperança’, talvez porque eu associe esperança a ter sorte. 

O que pesou para terminar a Lombra de forma esperançosa foi considerar a recepção e satisfação de leitores, mas nas minhas primeiras ideias da história, ela tinha um final niilista sem-vergonha. O que você acha, eu tomei a decisão certa?

Não faço ideia. Confesso ficar curioso em relação ao final niilista sem-vergonha, acho que ele pode entrar numa versão com extras do Ugrito… Você costuma levar em conta as possíveis recepções dos seus leitores quando está produzindo seus trabalhos?

Sim, com certeza. Costumo publicar muitos dos meus quadrinhos à medida que os desenho e leitores vão acompanhando, dando suas opiniões, compartilhando teorias e seus próprios conhecimentos sobre os temas. Por meio dessas respostas eu consigo ajustar e enriquecer a forma como estou construindo e comunicando a minha história. 

Sendo autora independente também preciso ser minha própria editora, tenho que fazer histórias que sejam boas e que também as pessoas queiram comprar. Espero que eu acerte mais do que falhe.

“A impunidade é a prova de que as instituições governamentais do Brasil são uma farsa”

Uma página de Lombra, HQ de Lovelove6 publicada na 19ª edição da coleção Ugrito

Aliás, falando em esperança, desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que é a nossa sociedade hoje. Você é otimista em relação ao nosso futuro?

Tenho um medo mórbido do futuro e ontem mesmo eu estava pesquisando sobre como conseguir um emprego no Peru ou na China (spoilers: sendo quadrinista não tem como). 

Tem esse governo ideologicamente escroto, tem o genocídio indígena, a treta da Vaza Jato e das milícias associadas à família Bolsonaro, que levam ao assassinato da Marielle Franco e ao genocídio da juventude negra.

A impunidade é a prova de que as instituições governamentais do Brasil são uma farsa.

Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Tenho ouvido muito ao podcast gringo Writing Excuses, sobre como desenvolver bons roteiros e histórias.

A capa de Lombra, HQ de Lovelove6 publicada na 19ª edição da série Ugrito
Cinema / HQ / Séries

Vitralizado #82 – 07.2019

E aí! Tchau julho, bem-vindo agosto e vamos com tudo para o 83º mês de existência do Vitralizado. Gosto do jeitão de tumblr que o blog teve nos últimos 31 dias que ficaram pra trás, com muita imagem e foco em um ou outro quadrinista, mas também com espaço para entrevistas mais aprofundadas e certos conteúdos que você só vê por aqui. Enfim, vamos que vamos. Enquanto isso, deixo vocês com o sumário do Vitralizado em julho de 2019. Ó:

[A arte que abre o post é assinada pelo quadrinista holandês Joost Swarte. Tirei ela do tumblr The Bristol Board e foi impressa originalmente no álbum Jannes op Korfoe]

*Fui convidado a escrever um artigo sobre quadrinhos para a revista Caderno Globo, publicada pela TV Globo. Já leu? É meio que uma síntese sobre o que mais me interessa na linguagem dos quadrinhos no momento;

*Escrevi para o jornal O Globo sobre Viagem em Volta de uma Ervilha, álbum das quadrinistas Deborah Salles e Sofia Nestrovski publicado pela editora Veneta. Depois compartilhei a íntegra da minha entrevista com as autoras por aqui;

*A Série Postal 2018 foi indicada ao 31º Prêmio HQMix na categoria Publicação Independente de Grupo;

*E o Thiago Souto recebeu duas indicações no 31º Prêmio HQMix pelo álbum Por muito tempo tentei me convencer de que te amava, publicado pela Balão Editorial e editado por mim. A HQ concorre nas categorias Melhor Desenhista Nacional e Melhor Edição Especial Nacional;

*Eu entrevistei a quadrinista Helo Dângelo sobre Dora e Eu, trabalho publicado semanalmente por ela no Instagram e em reta final de campanha de financiamento coletivo no Catarse;

*Também bati um papo com o Roger Cruz sobre o álbum Os Fabulosos, paródia dos X-Men da Marvel;

*A Folha de São Paulo publicou dia desses uma matéria que escrevi em julho do ano passado sobre o álbum Roly Poly: A História de Phasma, do quadrinista Daniel Semanas;

*Reproduzi por aqui as 16 páginas de preview de Rusty Brown, próximo álbum do quadrinista Chris Ware, que saíram na mais recente edição da revista New Yorker. Falando em Chris Ware: é dele o logo do Comic Arts Brooklyn 2019, cê viu?;

*Também rolou um monte de Adrian Tomine: reproduzi (aqui e aqui) algumas páginas de The Loneliness of the Long-Distance Cartoonist, próximo álbum do autor e com lançamento previsto para o primeiro semestre do ano que vem. Também compartilhei a ilustração assinada por ele para a crítica da revista New Yorker sobre Era uma Vez em… Hollywood;

*Três rapidinhas: compartilhei aqui no blog a capa de Dédales, próximo álbum de Charles Burns; recomendei esse papo do Seth sobre Clyde Fans com a Debbie Millman, do Design Matters; e publiquei a última atualização da série Je Suis Cídio, do quadrinista João B. Godoi;

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