Prêmio Grampo 2016/2025: 10 anos de curadoria das melhores HQs publicadas no Brasil


O Prêmio Grampo de Grandes HQs chegará à sua 10ª edição em 2025. Escrevo com a aba do lado aberta em um um documento com a contagem dos votos para a próxima premiação. Ainda não temos data para anunciar o resultado – alguns membros do júri estão atrasados e levamos um tempinho para formatar os rankings e deixar tudo no ponto até divulgarmos os posts com o ranking final.

Acho que posso falar em nome dos meus amigos Lielson Zeni e Maria Clara Carneiro, editores do Balbúrdia e coorganizadores do prêmio, que gostaríamos muito de ter planejado algo grandioso e especial para o 10º Grampo, mas não vai rolar. Quer dizer, vai rolar o prêmio em si, o que já é enorme. Dá a maior trabalheira e é uma tremenda prestação de serviço que prestamos ao mercado editorial. E é legal para caramba fazer.

Na verdade, é mais ou menos legal. Curto receber as listas dos nossos jurados, gosto de montar os posts com o resultado e depois compartilhá-los com o mundo. Talvez minha parte preferida desse processo todo seja conversar com o Lielson e a Maria sobre o resultado. De resto, caramba, ficamos na maior correria e com dor de cabeça do tanto de detalhe que precisamos administrar. Depois que anunciamos o resultado, geralmente passamos uns meses de ressaca, falamos de tudo, menos HQs.

Nem entro no mérito do alcance e da repercussão do Grampo, porque isso é muito bem resolvido para mim: não diz respeito a audiência. Assim como o blog é um trabalho pro bono, o Grampo é um compromisso anual que faço não só porque gosto, mas porque acho que precisa ser feito. É um registro do mercado brasileiro de quadrinhos no ano. Injusto e parcial, mas um registro.

Primeiro ano

O logo da primeira edição do Prêmio Grampo, criação de Jairo Rodrigues

Eu e o Lielson Zeni criamos o Prêmio Grampo em 2016 inspirados no prêmio de melhores do ano do Gibizada, saudoso blog de quadrinhos do jornalista Télio Navega no site do jornal O Globo. Na época, o Télio havia saído do Globo e o Gibizada chegou ao fim. E 2015 foi grandioso para os quadrinhos no Brasil, com a primeira vez do combo Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) e Comic Con Experience (CCXP) em um mesmo ano. Foram muitos lançamentos.

Pensei em dar sequência à proposta do prêmio da Gibizada aqui no Vitralizado, mas com algumas variações. Cogitei chamar 30 pessoas (!!!) para mandar uma lista composta por apenas três títulos, os três melhores do ano. Não levei a ideia adiante. Aí no dia 17 de novembro de 2015 o Lielson me perguntou no Messenger: “Não quer organizar uma votação tipo o Télio fazia no Gibizada?”

Mensagem de Lielson Zeni em 17 de novembro de 2015 propondo a criação do que viria a ser o Prêmio Grampo

Já tinha me convencido da dor de cabeça que seria e não topei. Na época, o Balbúrdia ainda não existia, então o Lielson disse que ia propor para a Mitie Taketani, sócia da Itiban Comic Shop, fazer o prêmio no blog da loja. No dia 23 de novembro, voltei atrás. Escrevi para o Lielson: “Cara, andei pensando sobre aquela eleição de melhores”. O resto é história.

Divulgamos o resultado do primeiro Grampo em 18 de janeiro de 2016. O primeiro lugar foi de Aventuras na Ilha do Tesouro (Mino), de Pedro Cobiaco; o segundo de Talco de Vidro (Veneta), de Marcello Quintanilha; e o terceiro de Dupin (Zarabatana), de L.M. Melite.

Eu, Lielson e Maria compusemos o primeiro júri do Grampo na companhia de Aninha Costa (sócia da extinta loja Gibiteria, em São Paulo), Audaci Jr. (jornalista e colaborador do Universo HQ), Cristina Eiko (quadrinista), Dandara Palankof (jornalista, pesquisadora, tradutora e editora), Daniel Lopes (editor da Pipoca & Nanquim), Daniela Cantuária P. Utescher (sócia e editora da Ugra Press), Delfin (designer e ex-editor do site Terra Zero), Gabriela Borges (jornalista e editora do Mina de HQ), Guilherme Kroll (na época editor da Balão Editorial e hoje gerente editorial da Panini Comics), Janaína de Luna (editora da Mino), Liber Paz (quadrinista, pesquisador, professor e membro do Balbúrdia e do Kitinete HQ), Marcelo Bicarato (sócio da extinta loja Monkix Comic Shop, em São Paulo), Milena Azevedo (quadrinista), Mitie Taketani (sócia da Itiban Comic Shop), Paulo Cecconi (tradutor de quadrinhos), Paulo Floro (jornalista) e Vanessa C. Rodrigues (escritora).

O júri do Grampo de 2025 contará com nove pessoas que participaram da primeira edição – sendo que sete participaram em todas as dez edições (eu, Lielson, Maria, Daniela, Liber, Milena e Paulo).

Projeto gráfico

O logo da quarta edição do Prêmio Grampo, criação de Jairo Rodrigues

Aliás, tem uma oitava pessoa presente no Grampo desde o começo, o designer Jairo Rodrigues. Ele é o responsável pelo projeto gráfico do prêmio desde a primeira edição. Mantivemos o mesmo logo durante os três primeiros anos, depois o Jairo quis criar algo novo, com um look novo para cada ano.

Conheci o Jairo quando trabalhei no Estadão. Fomos nos aproximando por nossos interesses em comum em cinema e quadrinhos, depois moramos na mesma casa por dois anos. O Jairo é um dos maiores designers do país, está conosco nessa brincadeira desde o começo e torna o Grampo ainda maior.

Lielson, Maria e eu nunca pedimos nada específico ao Jairo. Parte sempre dele o visual – e ele se supera a cada edição. 

Novos parceiros

O logo da quinta edição do Prêmio Grampo, criação de Jairo Rodrigues

No segundo ano do Grampo, eu e Lielson ganhamos alguns parceiros. Enquanto a primeira edição do prêmio foi anunciada apenas aqui no Vitralizado, a partir de 2017 também passamos a divulgar no Balbúrdia – inaugurado em 28 de janeiro de 2016, dez dias depois da revelação do resultado do primeiro Grampo.

A editora Ugra Press esteve envolvida desde o começo, com a participação de Daniela Cantuária P. Utescher no júri, mas em 2017 fizemos o anúncio dos vencedores do prêmio na loja da Ugra, em São Paulo. Repetimos a dose em 2018 e 2019. A partir de 2020, passamos a manter a divulgação nos blogs, seguido de um bate-papo no canal da Ugra no YouTube.

E em 2017 a Maria passa a fazer parte da organização do prêmio. Ela foi uma das juradas de 2016, mas no ano seguinte começou a pensar o Grampo comigo e com Lielson.

E olha, Lielson e eu concebemos a coisa toda, mas acho que Maria é a pessoa que mais investe no projeto. Ela foi a primeira a vislumbrar todo o potencial do Grampo, criando um site à parte para o prêmio e investindo em todos os dados possíveis que podemos tirar da reunião de rankings do nosso júri. Assim como as contribuições do Jairo, o envolvimento da Maria ampliou um monte a credibilidade do Grampo. 

Vale tudo no Grampo

O logo da sexta edição do Prêmio Grampo, criação de Jairo Rodrigues

Com exceção do nosso júri rotativo, o Grampo segue mais ou menos no mesmo formato desde sua primeira edição.

Explicamos assim quando enviamos os convites para os jurados de 2025: “Vale votar em qualquer quadrinho lançado no Brasil entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2024. No caso das webcomics, devem ser materiais publicados por pessoas que vivam no Brasil. Não pode votar em obras nas quais trabalhou ou que produziu ou obras com as quais tenha algum envolvimento profissional (autoria, edição, tradução, revisão, diagramação, design, redação de paratextos, marketing etc)”.

Depois dizemos: “Entendemos por republicação elegível ao Grampo títulos que já tenham sido lançadas no Brasil anteriormente, mas que apareçam em novo formato editorial. Caso inclua uma série na sua lista, a pontuação será atribuída ao conjunto e não aos volumes individualmente”.

Já falei algumas vezes aqui no blog sobre a proposta do Grampo: não se trata de uma premiação exclusivamente das HQs brasileiras, ou de HQs internacionais publicadas no Brasil, ou de HQs independentes, ou de webcomics, ou de edições com capa dura ou de edições grampeadas. Vale tudo. Porque o mercado brasileiro de quadrinhos não é composto apenas por HQs nacionais, nem apenas por HQs internacionais.

A curadoria do Grampo é um reflexo do que nos propomos a fazer no Vitralizado e no Balbúrdia: não escrevemos apenas sobre quadrinhos brasileiros ou exclusivamente sobre publicações estrangeiras.

No caso do meu blog, as matérias que escrevo e as entrevistas que faço têm como proposta registrar o que considero de mais relevante e prestar um serviço público aos meus leitores, mostrando quais publicações considero marcantes a partir do meu filtro. Com o Grampo, convidamos outras pessoas a fazer a mesma coisa e ampliamos essa gama de recomendações.

Independente e best-seller

O logo da sétima edição do Prêmio Grampo, criação de Jairo Rodrigues

Reproduzo algo que escrevi por aqui há alguns anos, sobre a forma como encaro a linha editorial do blog e como ela se reflete no Grampo. O meu primeiro compromisso é ser sincero. Se sou honesto com as minhas crenças e gostos, cumpro meu segundo compromisso, com os leitores. Minha missão é apresentar o que vejo de mais relevante sendo publicado – e é impossível dar conta de tudo. 

Contribuo com a cena brasileira de quadrinho ocasionalmente, tratando de obras nacionais e expondo questões de artistas locais? Sim, mas isso é consequência, não é a minha prioridade. Assim como não é o foco do Grampo, nunca foi – por mais que eu realmente ache que o prêmio ofereça algumas contribuições.

Vou sempre citar uma colocação do Lielson na cerimônia do Grampo 2019. Ele lembrou como um título estrangeiro é tão capaz de transformar um sistema quanto uma obra nacional. Nossos autores leem essas obras, assim como os leitores e os críticos. O mercado é feito de livros estrangeiros e nacionais. Se um prêmio se propõe a reconhecer essa estrutura ou não, parte de seus organizadores e da curadoria estabelecida por eles.

O Prêmio HQMix, por exemplo, aceita obras nacionais e internacionais e divide por categorias. A categoria Histórias em Quadrinhos do Prêmio Jabuti reconhece apenas obras de autores brasileiros publicadas pela primeira vez no Brasil no ano anterior. Cada prêmio tem seus méritos e seus problemas. E prêmios são injustos por natureza. O que importa é ter explícita sua proposta e ser coerente com sua missão. O Grampo coloca lado a lado o independente e o best-seller, o nacional e o estrangeiro, sem distinção e a partir da validação de um corpo de jurados diversificado e representativo da área. E isso sempre esteve claro desde sua primeira edição.

Curadoria e registro

O logo da oitava edição do Prêmio Grampo, criação de Jairo Rodrigues

Já votei no Prêmio HQMix, já fui jurado do Prêmio Jabuti e sou um dos responsáveis pelo Grampo. Nunca esteve tão claro para mim como prêmios são injustos. Muitas obras não têm seu devido reconhecimento, jurados têm seus interesses particulares e suas contradições. E, obviamente, ninguém deve se medir por prêmios, mas acho que cada premiação cumpre um papel.

No caso do Grampo, sempre ressalto a importância do registro. É óbvio que ter um vencedor, reconhecer uma obra como a mais celebrada por um júri representativo, amplia o alcance do prêmio – e torna a coisa toda mais divertida. Mas sempre digo que gosto mais de investir meu tempo no conjunto de listas que reunimos do que no post com o anúncio dos títulos mais bem colocados.

E cara, é difícil para caramba montar a lista do Grampo. Acho que o prêmio cresceu com o passar dos anos. O alcance maior também traz mais responsabilidade e, aposto alto, todos os jurados sofrem enquanto montam suas listas. Eu sofro. É difícil montar um ranking, é horrível ranquear obras de arte, e nos propomos a tornar públicas as nossas listas individuais.

O voto público dá muita credibilidade ao Grampo. Ao participar do júri do prêmio, os nossos jurados se dispõem a serem julgados.

Encerro sem saber muito bem onde queria chegar com esse texto. Talvez a minha intenção fosse fazer um registro rápido sobre as origens do Grampo, a proposta do prêmio e a nossa história até aqui. Suspeito que um dia vamos nos cansar e talvez passemos a missão para outras pessoas que queiram seguir com o projeto. Talvez.

Por enquanto, seguimos. Tenho muito orgulho do que fizemos até aqui. Agradeço aos leitores, aos nossos jurados, ao Jairo e aos meus amigos Lielson e Maria. Dez anos é coisa para caramba.

Confira os resultados de todas as edições do Prêmio Grampo:

Prêmio Grampo 2024 de Grandes HQs – O resultado final: as 20 HQs mais votadas;
Prêmio Grampo 2024 de Grandes HQs – Os 20 rankings do júri;
Prêmio Grampo 2023 de Grandes HQs – O resultado final: as 20 HQs mais votadas;
Prêmio Grampo 2023 de Grandes HQs – Os 20 rankings do júri;
Prêmio Grampo 2022 de Grandes HQs – O resultado final: as 20 HQs mais votadas;
Prêmio Grampo 2022 de Grandes HQs – Os 20 rankings do júri;
Prêmio Grampo 2021 de Grandes HQs – O resultado final: as 20 HQs mais votadas;
Prêmio Grampo 2021 de Grandes HQs – Os 20 rankings do júri;
Prêmio Grampo 2020 de Grandes HQs – O resultado final: as 20 HQs mais votadas;
Prêmio Grampo 2020 de Grandes HQs – Os 21 rankings do júri;
Prêmio Grampo 2019 de Grandes HQs – O resultado final: as 20 HQs mais votadas;
Prêmio Grampo 2019 de Grandes HQs – Os 20 rankings do júri;
Prêmio Grampo 2018 de Grandes HQs – O resultado final: as 20 HQs mais votadas;
Prêmio Grampo 2018 de Grandes HQs – Os 20 rankings do júri;
Prêmio Grampo 2017 de Grandes HQs – O resultado final: as 20 HQs mais votadas;
Prêmio Grampo 2017 de Grandes HQs – Os 20 rankings do júri;
Prêmio Grampo 2016 de Grandes HQs – O resultado final: as 20 HQs mais votadas;
Prêmio Grampo 2016 de Grandes HQs – Os 20 rankings do júri.

O logo da nona edição do Prêmio Grampo, criação de Jairo Rodrigues
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Ramon Vitral

Meu nome é Ramon Vitral, sou jornalista e nasci em Juiz de Fora (MG). Edito o Vitralizado desde 2012 e sou autor do livro Vitralizado - HQs e o Mundo, publicado pela editora MMarte.

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