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Entrevistas / HQ



Papo com Lobo Ramirez, editor do selo Escória Comix: “O que realmente importa é a essência de ir contra qualquer pensamento ignorante, falsos moralismos e fanatismos”



Escrevi na segunda edição da Sarjeta, minha coluna sobre quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural, sobre os trabalhos dos quadrinistas e editores Lobo Ramirez e Panhoca à frente dos selos Escória Comix e Pé-de-Cabra. Comentei algumas obras publicadas por eles e chamei atenção para a importância dos disparates lançados pelos dois em tempos de conservadorismo crescente como aqueles que estamos vivendo.

Compartilho aqui no blog as entrevistas que fiz com os dois autores antes de escrever a coluna, tratando da história de seus selos, de algumas das percepções deles em relação à cena de HQs na qual eles estão inseridos e sobre planos futuros de suas editoras.

No papo com Lobo Ramirez, ele ainda lembra de seu primeiro contato com alguns dos autores de obras que hoje compõem o catálogo da Escória Comix – como Arame Surtado (Ketacop – A Anticop), Emilly Bonna (Esgoto Carcerário) e Victor Bello (O Alpinista). Você lê a Sarjeta #2 clicando aqui, lê a entrevista com Panhoca clicando aqui e lê a seguir a minha conversa com Lobo Ramirez. Ó:

“Eu precisava de um nome que deixasse bem claro qual era a linha da editora…”

Quadro de Victor Bello presente em Úlcera Vórtex

Como surge a Escória Comix? Quando surge a Escória Comix?

Não lembro exatamente, mas acho que foi 2013 ou 2014 que comecei a lançar o zine ESCROTUM pelo selo Gordo Seboso. Era de forma despretensiosa, só pela diversão de fazer quadrinhos e por conta disso comecei a frequentar feiras de publicações independentes, como a Feira Plana e a Ugra Fest. Fui entendendo a maneira que as editoras funcionavam e como era publicar de forma independente. Depois de um tempo fui percebendo que a maioria das publicações eu não gostava, nenhum problema em ter uma esmagadora maioria de material que a gente não gosta sendo publicado, mas eu  sempre senti falta de ter o meu nicho também, então em 2016 decidi começar uma editora que agrupasse autores que seguissem uma linha editorial bem clara e específica, quadrinhos toscos, radicais, mal-educados, grosseiros, vulgares, despretensiosos e por último mas não menos importante com humor. 

Eu sabia que se mantivesse o foco todo dia, toda semana, todo mês, todo ano, uma hora ia dar certo, e se não desse, pelo menos eu tentei e poderia desistir sem peso na consciência.  Sigo focado na Escória Comix.

Por que o nome Escória Comix?

Eu precisava de um nome que deixasse bem claro qual era a linha da editora. Na época eu estava lendo Transmetropolitan, do Warren Ellis, e tinha um termo no quadrinho que era Nova Escória, achei interessante e tomei o ESCÓRIA como nome. A ideia é que tudo que é considerado marginal, desprezível, insignificante, tosco, estranho  pela sociedade é a escória. 

“Aos poucos a Escória Comix vem se tornando autossuficiente”

A capa de Esgoto Carcerário, HQ de Emilly Bonna publicada pelo selo Escória Comix

Qual é o público dos quadrinhos da Escória Comix?

Existe o público que eu gostaria de estar atingindo, ou que eu acho que poderia atingir, e o público de fato. Vou me basear em parte numas estatísticas do Instagram e  Facebook pra responder essa pergunta. A maior parte é de São Paulo, depois vem as cidades de Rio de Janeiro, Curitiba, Brasília, Porto Alegre e Fortaleza. 48% do público é de pessoas entre 25 e 34 anos, 24% tem entre 18 e 24 anos e 20% de pessoas entre 35 e 44 anos, sendo 79% de homens. A maior parte, eu percebo, é de pessoas que estão acostumadas a consumir material independente e alternativo. No geral o público da Escória Comix é bem variado mas não tanto como eu gostaria. Existe uma parte que compra os quadrinhos e gosta e uma parte menor de leitores fiéis que SÃO a escória e tem a mesma paixão que eu com essa tosqueira. Sou eternamente grato a essa gangue. Quem é sabe. 

A Escória Comix é um negócio rentável? Você administra a editora dentro de algum plano de negócios?

Não é, mas aos poucos a Escória Comix vem se tornando autossuficiente. Administro tudo sozinho e sou desorganizado e nem tenho formação ou conhecimento na área. A verdade é que eu me baseio na tentativa e erro, algo deu certo, tento replicar, se deu errado, tento não repetir. Total intuição. Sempre penso o que gostaria publicar e depois o que preciso fazer para realizar, nessa entram os outros produtos, tipo bonés, meias, jaquetas, etc. Cada muamba comprada ajuda no custo dos quadrinhos, que ainda não vendem tanto para se tornarem rentáveis. 

A capa do segundo volume de Úlcera Vórtex, de Victor Bello

Você vive exclusivamente da Escória Comix?

Não. Eu trabalho com ilustração e desenho para tudo que alguém precisar, como rótulos de cerveja, camisetas, capa de álbuns, logomarcas, etc…

Qual o maior sucesso de vendas da Escória Comix?

Sem sombra de dúvidas, eu diria que é o Úlcerta Vortex – Volume I do Victor Bello, mas  não tenho exatamente os números em mãos, pode ser que o NÓIA- Uma História de Vingança, do Diego Gerlach, tenha vendido mais, ou o Asteróides, já que se encontra praticamente esgotado.  

Como foi o seu primeiro contato com o trabalho do Victor Bello? O que você vê de mais especial no trabalho dele?

Foi quando me indicaram o zine dele, Feto em Conserva. Foi uma explosão de frescor e diversão ler aquele zine A5, preto e branco, em sulfite, grampeado, simples, mas potente. O Victor Bello tem um traço próprio bem desenvolvido e claramente possui um estilo de narrativa com abordagem 

“Acho que a única influência que eu sempre tive nas obras é sobre a capa, de resto é totalmente com o autor, eu sou meio chato com a capa”

A capa de O Alpinista, de Victor Bello

Como foi o seu primeiro contato com o trabalho da Emilly Bonna? O que você vê de mais especial no trabalho dela?

O Luiz Berger me enviou uns perfis de Instagram de ilustradores que poderiam ser a cara da Escória e o mais foda era um que usava o nome de NECROSE , era a Emilly Bonna. Curti demais os desenhos nojentos de criaturas deformadas, sempre amei monstrinhos. Ela tem um traço próprio e, desde que conheci o trabalho dela, só a vejo melhorando .

Como foi o seu primeiro contato com o trabalho da Arame Surtado? O que você vê de mais especial no trabalho dela?

Mais uma vez eu acho que foi o Luiz Berger que me mostrou pelo Instagram e de cara já curti os desenhos dela, ela claramente tinha as mesmas referências que eu, ou bem parecidas: filmes trash dos anos 80 e muito heavy metal. 

Como foi o seu primeiro contato com o trabalho do Fabio Vermelho? O que você vê de mais especial no trabalho dele?

Foi em alguma Revista Prego e depois na Revista Pé-de-cabra.  Sem sombra de dúvidas, é o desenho dele, o uso de hachuras é um tesão, sempre gostei desse tipo de traço e o Fábio Vermelho realmente sabe usar.  Não tem uma pessoa que, mesmo não gostando, não diga que ele desenha bem.

“Estou fechando uma parte das publicações de 2020 e por enquanto tem umas sete, sendo três delas de autores que nunca foram publicados pela Escória”

Quadro de O Alpinista, de Victor Bello

Como foi o seu primeiro contato com o trabalho do Diego Gerlach? O que você vê de mais especial no trabalho dele?

Acho que foi com algum gibi que ele publicou pela Prego, talvez o Ano do Bumerangue, ou em alguma outra antologia, mas só fui conhecer mesmo o trabalho dele depois que a gente se conheceu pessoalmente numa Desgráfica (não lembro qual ano). O Gerlach chegou num nível de consciência do próprio trabalho que só alguém que produziu bastante e por um longo tempo chega. O domínio da linguagem e o uso dos símbolos do próprio quadrinho são os brinquedos dessa criatura abissal que, por algum motivo sinistro, não ascende ao alto escalão.

Como é a dinâmica do seu trabalho como editor com os autores da Escória?

A primeira vez que me falaram algo do tipo “bom trabalho de editor” eu fiquei sem entender, porque pra mim eu não estava fazendo nada. Eu perguntava se a pessoa queria fazer um quadrinho e o autor entregava, eu só precisava decidir junto com o autor a capa que seria mais legal e mandar pra gráfica, qual era o trabalho? Mas depois, principalmente nas últimas publicações, eu influenciei em grande parte, pedindo pro autor manter um certo número de páginas, mas também não deu certo porque eles não mantiveram – eu sempre digo que a prioridade era a história, se fosse ficar melhor, tudo bem. Acho que a única influência que eu sempre tive na obra é sobre a capa, de resto é totalmente com o autor, eu sou meio chato com a capa e acredito que ela tem que ser impactante, porque isso ajuda a própria divulgação e venda do quadrinho. 

Depois fui descobrir que editor é o cara chato que pede pro autor mudar coisas no PRÓPRIO trabalho. Eu até entendo que em muitos casos a visão de um editor pode melhorar a história, mas pra ser sincero sempre li as histórias dos autores da Escória e nunca tive vontade de mudar nada, meus comentários sempre foram de apoio e o quanto eu estava achando boa a história, mas aos poucos estou começando a propor algumas ideia, porém para isso o autor tem que estar aberto.  No geral, acho que total liberdade é o melhor caminho.

A capa de NÓIA – Uma História de Vingança, de Diego Gerlach

Qual balanço você faz das publicações da Escória em 2019?

Comecei esse ano com altas expectativas, pela primeira vez comprei um calendário daqueles que dá pra ver todos os meses de uma vez e anotei todas as minhas pretensões de lançamentos do ano, eram mais ou menos uns 12 ou 13 títulos e até agora acho que consegui publicar seis. Então o balanço é: pense alto, faça metade que já é muito. Estou feliz principalmente com a qualidade do material publicado em 2019, pra mim foi o melhor ano da Escória.  

Você tem alguma meta para os quadrinhos da Escória para 2020? Você tem em mente algum número de publicações para o próximo ano?

Acho que a meta é tentar manter o ritmo de publicações, ter uma certa frequência de material novo e fresquinho para nossos mutantes do esgoto.  Vou tentar arriscar umas coisas diferentes também em 2020 mas por enquanto não posso falar nada. Estou fechando uma parte das publicações de 2020 e por enquanto tem umas sete, sendo três delas de autores que nunca foram publicados pela Escória. 

“Os três pilares para a Escória continuar existindo são: vendas no site + não levar calote das lojas + feiras de publicação”

A capa de O Deplorável Caso do Dr. Milton, de Fabio Vermelho

O que você vê de mais interessante acontecendo hoje nos quadrinhos brasileiros?

Sinceramente, eu não sei. Quase não leio mais quadrinhos. Acho que talvez o surgimento de várias obras que são consideradas ‘graphic novels’?  Minha percepção é que a 10 anos atrás tinha mais antologias e agora parece que tem mais autores publicando quadrinhos fechados. Mas eu falo muito da cena independente, específica que eu vivo. Acho que também que a quantidade de mulheres fazendo quadrinhos, às vezes parece que tem um monte agora porque a percepção é de um lugar que não tinha quase nenhuma, mas na real ainda tem muito pouca mina, a tendência é só crescer, logo logo vai aparecer a próxima novela gráfica dos quadrinhos brasileiros que vai ser de uma autora. 

Vivemos tempos muito conservadores, qual você considera o papel de uma editora de quadrinhos underground como Escória dentro desse contexto?

Os “quadrinhos underground” fazem parte de uma contracultura que é totalmente oposta ao conservadorismo, mas já que você citou esse termo específico quero dizer que  não gosto de usar o termo underground comix ou quadrinhos underground, porque pode acabar virando apenas um rótulo estético de certas influências, que eu não nego que a Escória Comix tenha com certeza, a gente bebe da fonte, mas o que realmente importa é a essência de ir contra qualquer pensamento ignorante, falsos moralismos e fanatismos. Uma editora que se propõe a ser um caminho fora disso tudo precisa buscar sempre estar de acordo com essa essência dentro do que se propõe que é publicar quadrinhos.

Quadro de O Deplorável Caso do Dr. Milton, de Fabio Vermelho

Qual a importância de feiras e eventos de quadrinhos e publicações independentes para a manutenção das atividades da Escória? 

Importância VITAL, os três pilares para a Escória continuar existindo são: vendas no site + não levar calote das lojas + feiras de publicação.  Nenhuma dessas coisas por si só segura a bronca no fim do mês, mas todas elas juntas já dão um respiro e aquela injeção na parada toda. As feiras são pontos cruciais é quando a gente pode fazer lançamentos e ter aquela resposta instantânea, divulgar o trabalho direto no olho no olho, conversar com várias pessoas que estão no mesmo rolê e ver uma parte do que está sendo produzido no momento.   

A capa de Asteróides – Estrelas em Fúria, de Lobo Ramirez
Entrevistas / HQ

Papo com Fabio Vermelho, autor da revista Weird Comix: “Quero que as pessoas sintam algo lendo, seja vergonha, diversão, nojo, raiva ou pena”

O meu primeiro contato com o trabalho do quadrinista Fabio Vermelho foi com uma HQ de duas páginas impressa no primeiro número da revista Pé de Cabra, editada pelo também quadrinista Panhoca e lançada em março de 2018. Fui atrás de outras publicações do autor e descobri a existência da revista Weird Comix, projeto solo e independente de Vermelho lançado desde 2014 e atualmente em sua nona edição.

As Weird Comix seguem alguns padrões: são impressas em preto e branco, suas tiragens não vão muito além de 100 exemplares e são escritas em inglês. As histórias giram em torno de crimes e depravações e contam com participações esporádicas de monstros saídos de filmes de terror B. Mesmo quando ambientadas no nosso presente, as tramas e os personagens são retratados como crias dos Estados Unidos da década de 50.

No momento Vermelho está trabalhando na décima edição da Weird Comix, com lançamento previsto para dezembro ou janeiro, e no álbum O Deplorável Caso do Dr. Milton, com a promessa de ser publicado pelo selo Escória Comix até o final de 2019. Um dos quadrinistas nacionais que mais tem chamado minha atenção, Vermelho topou um papo por email com o blog falando sobre sua influências, o início de sua carreira, o desenvolvimento de suas técnicas e o andamento de seus próximos projetos. Conversa bem boa, saca só:

“Lia coisas estilo One Piece, Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball Z, Samurai X, Fullmetal Alchemist, era meio fissurado em mangá”

Quadros de uma HQ de Fabio Vermelho publicada na revista Weird Comix

Você pode contar um pouco sobre os seus primeiros contatos com histórias em quadrinhos? Qual a memória mais antiga de quadrinhos na sua vida?

A memória mais antiga mesmo que eu tenho sobre quadrinhos era ficar lendo uns gibis estilo Zé Carioca, Tio Patinhas, Turma da Mônica e coisas assim na casa de um tio, irmão do meu pai, quando íamos visitá-lo. Isso quando eu era bem criança, então faz muito tempo e nem lembro das histórias que lia. Mas foi meu primeiro contato. Na minha casa mesmo, nem meu pai nem minha mamãe são ligados no assunto. 

Quando eu comecei a ler mesmo, acompanhar algo, foi quando passei a comprar mangás nas bancas, enquanto eu estava na escola. Meu irmão comprava também. Lia coisas estilo One Piece, Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball Z, Samurai X, Fullmetal Alchemist, era meio fissurado em mangá. Foi nessa época também que comecei a desenhar… Eu já era meio obsessivo na época, então ia fazendo vários e vários volumes. Eu comprava um desses caderninhos com pauta, pequenos, com umas 100 páginas, e ia preenchendo. Cada um era um volume e cheguei a fazer dois mangás diferentes, hahaha. Um deles com umas 10 edições e o outro com umas 20. Eu emprestava para o pessoal da minha sala de aula, cada um ficava por uma semana com o volume e depois emprestava para o próximo. Até hoje esses caderninhos estão na casa da minha mãe. 

Aí teve um hiato, entre os anos finais da escola até entrar na faculdade, onde parei de desenhar e também fui perdendo o interesse em mangás. Depois disso conheci coisas como [Robert] Crumb, [Gilbert] Shelton, [Milo] Manara, [Guido] Crepax, e fui começando a desenhar novamente, isso já bem mais recente… De 2010 pra cá. Foi quando comecei a desenhar algo mais parecido com o que faço hoje em dia.

Uma página do quadrinista Fabio Vermelho

Quando você começou a fazer quadrinhos? Qual foi a primeira HQ que você publicou?

Como disse antes, comecei a desenhar quadrinhos com esses mangás na escola, mas não acho que conta… O primeiro publicado foi lá por 2013, na época eu usava bastante o DeviantArt. Apareceu um cara com quem eu conversava às vezes, disse que tinha um roteiro e que precisava de alguém para desenhar e depois mandarmos para uma coletânea que rolava, não sei se sai até hoje, chamada Seqapunch Quaterly. O quadrinho era curto, tinha 16 páginas e se chamava Ennui Dreams. Era uma história muda de uns animais que se portavam como humanos, bem interessante. Meu traço era muito cru naquela epoca, mas até que gosto do quadrinho. Até saiu uma entrevista comigo no livro…

Depois disso, em 2014 comecei a desenhar as Weird Comix e, ao mesmo tempo, comecei a mandar trampos para revistas. Foi em 2014 também que desenhei uma história curta chamada O Contrato, que saiu na Prego #7, se não me engano, um tempo depois…

“Vendo as Weird Comix para leitores da Inglaterra, Espanha, França, Itália, Canadá, Austrália, e a maior parte para os Estados Unidos”

A capa da mais recente edição da revista Weird Comix, do quadrinista Fabio Vermelho

Me fala, por favor, sobre a origem da Weird Comix?

É bem simples, na real… Eu venho fazendo ilustrações pra mim mesmo, sem ser encomenda, desde 2012, mais ou menos. A maioria inspirada em coisas que eu gostava de ler e ouvir: ficção científica, pulp, terror, punk, rockabilly, psychobilly. Eu já tinha desenhado uns poucos quadrinhos curtos, até então, até que para o meu TCC em Design de Produtos, em 2013, resolvi desenhar uma história em quadrinhos um pouco maior. Ela se chamava What’s Inside a Girl? e era vagamente inspirada em uma música dos Cramps. Só desenhei a parte 1, era o que dava tempo, e pouquíssima gente viu. Fiz umas cinco cópias para a apresentação do trabalho, acho que duas ficaram comigo e as outras três estão por aí, não lembro se vendi, dei ou troquei. Nunca rolou a parte 2, mas pretendo aproveitar esse roteiro (que foi o único que escrevi inteiro na vida) e redesenhá-lo um dia. Esse quadrinho foi basicamente um protótipo de como seriam os quadrinhos que eu lançaria na Weird Comix daí pra frente… A diferença é que What’s Inside a Girl? continha apenas o quadrinho, e a Weird Comix é estilo revista, tem ilustrações, tiras, seções com histórias de leitores, e os quadrinhos, claro.

O primeiro quadrinho que fiz para a Weird Comix foi o Wet Nightmare, em 2014, levemente inspirado também em uma música dos Cramps. Desenhei com a vaga ideia de já lançar algo por mim mesmo… Tinha bastante coisa fermentando na minha cabeça. Observei como outros quadrinhistas lançavam suas revistas e zines, e em 2015 resolvi juntar a Wet Nightmare com outra HQ curta que eu tinha, Resuscitate The Haze, mais tiras e ilustrações e fiz a primeira edição, com 32 páginas. Antes de vender a primeira eu já tava desenhando a segunda, com outra história curta, Drown at the Lake. A segunda Weird Comix saiu no mesmo ano, no segundo semestre. A partir da edição três comecei a desenhar I Was a Teenage Gorilla-Boy, que é uma história longa e se desenrola até a presente edição. A essa altura eu já tava aumentado cada vez mais o número de páginas do zine, porque eu tava desenhando muita coisa e já não tinha espaço. Hoje em dia o zine tem 48 páginas e tento manter a periodicidade de duas edições por ano, e além das sempre presentes HQs curtas, serializo I Was a Teenage Gorilla-Boy e The Rise and Fall of George Pills no momento. 

Eu assisti uma entrevista na qual você diz ter decidido escrever a Weird Comix em inglês para ampliar o alcance potencial do seu público. Você conseguiu chegar em um público além do Brasil escrevendo em inglês?

Sim! Vendo as Weird Comix para leitores da Inglaterra, Espanha, França, Itália, Canadá, Austrália, e a maior parte para os Estados Unidos, para vários estados, mas principalmente para a Califórnia e Nova York.

“Muita gente tem uma visão meio que inocente dos anos 50, acho legal subverter esse negócio todo”

Página de The Rise and Fall of George Pills, trabalho de Fabio Vermelho publicado na revista Weird Comix

Aliás, quem são os seus leitores? As tiragens da Weird Comix são pequenas, então imagino que você tenha um contato próximo com o seu público. É isso mesmo?

Meus leitores são bem diversos, na verdade. Eu imaginava, quando comecei, que seria um tipo específico de leitor, mas na real tem todo o tipo de pessoa, e uma quantidade quase igual de homens e mulheres. 

E sim, tenho uma relação relativamente próxima com eles, especialmente aqueles que compram desde a primeira ou segunda edição e estão até hoje comprando. Conheci a maior parte pelo Instagram e outros pelo Facebook, e alguns se tornaram até colegas virtuais, de conversar sobre coisas sem ser o meu zine e etc, ainda mais porque as pessoas que lêem Weird Comix tendem a ter um gosto parecido com o meu em relação a música e filmes, por exemplo. 

Tem algum ponto de partida o seu interesse na estética dos Estados Unidos dos anos 50? O que te interessa mais no imaginário visual dessa época?

Começou pela música, na verdade. Ouvindo bandas de rockabilly revival dos anos 80, como Stray Cats e Polecats, por exemplo. Daí comecei a ouvir o rock ‘n’ roll dos anos 50 e o rockabilly, comecei a me interessar pelo assunto, por essa década, fui pesquisando… Assistindo filmes e ouvindo música, aquilo foi crescendo em mim. Os filmes dessa época, por exemplo, tem muita coisa de monstros e ficção científica… Aquilo me atraiu bastante, as histórias dos filmes geralmente são bem simples, sem muita explicação, os monstros são criativos… Coisas como Teenage Werewolf, Teenage Frankenstein, Wasp Woman, Creature from the Black Lagoon, isso me atraiu bastante, gosto de pensar que alguns dos quadrinhos que faço são meio nonsense nesse sentido, tento passar essa atmosfera de filme antigo. Mas no meu caso eu gosto de dar um twist em tudo isso e fazer as coisas mais extremas, mais rebeldes… Como eu acho que deviam ser. Você não vai ver nesses filmes o monstro desmembrar a pessoa, fazer sexo com ela, porque nessa época os filmes não era tão gráficos, vamos dizer assim, haha. Mas eu posso fazer isso com os quadrinhos! Nos filmes de gangue e delinquência juvenil, como, sei lá, Blackboard Jungle, Rebel Without a Cause, você não vê os adolescentes usando drogas, roubando, espancando os outros, fazendo sexo, mas eles faziam isso, essas coisas existem desde o início dos tempos e eu desenho nos meus quadrinhos. Foi a época em que os jovens começaram a ter mais autonomia, gosto de explorar isso. Muita gente tem uma visão meio que inocente dos anos 50, acho legal subverter esse negócio todo.

“Quase tudo nas Weird Comix é relacionado à música, acredito que essa seja minha maior fonte de inspiração”

Ilustração do quadrinista Fabio Vermelho

O que você mais gosta de ler, ouvir e assistir? Quais são as suas principais referências? Quais os quadrinhos que mais te influenciam?

A lista do que eu mais gosto de escutar é bem longa, inclui desde o rockabilly, country, blues, psychobilly até o garage, punk, post-punk, new wave, e por aí vai… Mas do que escuto e mais me influencia na hora de desenhar seria o rockabilly, o country e o blues. Para quem acompanha as Weird Comix já deve ter percebido quantas músicas eu já transformei em quadrinhos curtos, como Riot in Cellblock #9, He’s in the Jailhouse Now e Undertaker’s Blues, fora os que já imaginei mas ainda não tive tempo de desenhar. Todas essas histórias vem na minha mente enquanto estou escutando as músicas, muitas delas têm letras muito boas e me inspiram bastante. Quando não viram quadrinhos viram ilustração… Quase tudo nas Weird Comix é relacionado à música, acredito que essa seja minha maior fonte de inspiração. 

Quanto a leitura, o que mais gosto de ler é ficção científica e terror. Meus escritores preferidos são Isaac Asimov, Philip K. Dick e Edgar Allan Poe. Esse tipo de leitura me influencia bastante na hora de criar minhas histórias também, ainda mais misturando com as músicas… É daí que sai um monte de quadrinhos de alien com rockers dos anos 60, caras que se transformam em gorila e saem matando gente nos anos 50, cientistas que arruinam suas vidas, essa mistureba toda. Gosto muito de ler alguns autores da Beat Generation também, como o Jack Kerouac e o William Burroughs… Talvez daí venha a influência de mostrar o lado mais sujo dos anos 50, as drogas, a rebeldia, o vandalismo e a vagabundagem. Fora o modo como eles trabalhavam, escreviam… Acho que isso influenciou meu modo desorganizado de trabalhar com quadrinhos também, hahaha. Os últimos livros que andei lendo antes de começar a me atarefar com tanto desenho eram justamente Cidade Pequena, Cidade Grande e Queer.

O que mais gosto de assistir, sem dúvida, são filmes de terror. Tanto os antigos como os novos, sou viciado. Gosto também de suspense, comédia, podreiras e coisas assim… 

Quantos aos quadrinhos, a verdade é que não sou um ávido leitor. Já li várias coisas, mas não é meu passatempo preferido. Não tenho muitas graphic novels preferidas… Na verdade o que eu mais gosto de ler e que me influencia são revistas como a Eightball, do Daniel Clowes; a Weirdo, do Crumb; a Peepshow, do Joe Matt; Rip Off Comix, do Gilbert Shelton; Naughty Bits, da Roberta Gregory; Chiclete com Banana, do Angeli; e Tales from the Crypt. Gosto de ler várias seções diferentes, as cartas, os quadrinhos serializados, coisas assim. Mas até que tem quadrinhos longos que gosto, nada muito fora da curva ou diferente… Adoro Black Hole, acho o Charles Burns incrível. Adoro Watchmen também. Nova York, do Eisner. Hoje é o Último Dia do Resto da sua Vida da Uli Lust. Qualquer coisa do Crepax, como Valentina, Dracula, Vênus das Peles, A História de O… Todos os do Crumb que li até hoje… Sin City, Ranxerox, Tom of Finland, Moebius, Matthias Schultheiss, Junji Ito, Eric Stanton… Diomedes, do Mutarelli, acho muito foda também. Meu gosto por quadrinhos não tem nada a ver com nada, hahahaha.

“Posso ter a situação que quiser, o cenário que quiser, os personagens que quiser, as coisas mais absurdas! É só eu desenhar. As possibilidades são infinitas”

A capa da sétima edição da revista Weird Comix, do quadrinista Fabio Vermelho

O que mais te interessa em quadrinhos hoje? Por que usar essa linguagem para contar as histórias que você conta?

Hoje em dia não compro mais tanto quadrinho como antigamente… faz uns cinco anos que me mudei da casa dos meus pais e desde então a grana ficou curta. O que faço com mais frequência é trocar zines e gibis com outros artistas, sejam brasileiros ou gringos. Tenho vários zines desconhecidos, de artistas que conheço há bastante tempo pelo Instagram. Estou sempre acompanhando o trabalho deles. Acompanho e tenho também trabalhos do D’apremont, do Victor Bello, do Gerlach, entre outros…

Eu uso essa linguagem para contar minhas histórias por dois motivos: primeiro, porque é bem prática, digamos assim… Você só precisa de papel, caneta, e um pouco de habilidade. Não precisa de altas granas, como fazer um filme. É incrível! Posso ter a situação que quiser, o cenário que quiser, os personagens que quiser, as coisas mais absurdas! É só eu desenhar. As possibilidades são infinitas. E o segundo motivo é que adoro desenhar quadrinhos. Tem uma hora ou outra que o trabalho fica meio massante, mas 99% do tempo eu amo fazer isso. Desenhar, no geral. Quadrinhos, cartazes, capas de álbuns, seja o que for. Eu passo a maior parte do meu dia desenhando, é tipo um vício. Eu faço vários quadrinhos ao mesmo tempo, se eu não estiver desenhando um, estou desenhando outro, ou alguma encomenda. 

“Não curto muito a ideia de escrever a história inteira antes de desenhar”

A capa da quinta edição da revista Weird Comix, do quadrinista Fabio Vermelho

Eu queria saber um pouco mais sobre as suas técnicas. Você chega a trabalhar com um roteiro fechado antes de começar a desenhar? Você desenha tudo à mão? Qual material você usa?

Quanto ao roteiro, acho que tenho um problema com isso, porque não curto muito a ideia de escrever a história inteira antes de desenhar. Eu geralmente penso no início, no meio e no fim da história, sem pensar detalhe por detalhe em exatamente tudo que vai acontecer, mas tendo uma linha de raciocínio. Aí vou seguindo minha intuição. E sempre com o quadrinho em mente, vão sempre surgindo novas ideias. Ele vai ser formando de acordo com o andamento da coisa. Provavelmente esse processo soe extremamente desorganizado e caótico para alguns, mas tem funcionando pra mim, gosto dessa espontaneidade. 

Eu desenho tudo à mão mesmo, gosto de sentir a caneta no papel, aquele barulhinho dela arranhando a folha. Uso photoshop no processo, mas é mais para mexer nos níveis, deixando mais escuro, ou quando preciso colorir. Algumas vezes preciso fazer uma ou outra intervenção, mas é bem pouco. Geralmente colocar uma fonte, não sei. É raro. 

Uso canetas recarregáveis desegraph, papel canson e uma prancheta que vai fazer uns 10 anos de idade, por isso posso carregar meu material numa mochila para tudo que é lugar, é bem prático. 

Você está trabalhando em algum número novo da Weird Comix?

No meio do ano, após lançar a Weird Comix #9, eu estava. Comecei desenhando a nova série Unsung Rockabilly Heroes, que seria tipo uma segunda parte de A Brief Story About 1950s Teenagers and Rock ‘n’ Roll Music, que saiu na Weird Comix 2. Desenhei também umas ilustrações, mas aí meu prazo com os trabalhos que preciso terminar começaram a apertar e passei a me dedicar 100% à eles. Pretendo voltar à Weird Comix 10 em outubro e, se tudo der certo, terminá-la e lançá-la até dezembro. Caso não dê tempo, fica pra janeiro.

“Tem sangue, gente morrendo, suspense, depravação, assassinato… Só não tem monstros e não se passa nos anos 50”

Página de O Deplorável Caso do Dr. Milton, trabalho de Fabio Vermelho que será publicado pelo selo Escória Comix

Como está o andamento de O Deplorável Caso do Dr. Milton? O que você pode contar sobre esse trabalho?

Começou mais devagar, lá pelo final de janeiro até final de abril eu tava desenhando meia página por dia… Do final de abril ao final de julho já tava fazendo uma página por dia. Agora que estou na reta final e o desespero bate na porta, nem sei mais quantas páginas tô fazendo por semana, só tô desenhando o dia inteiro. 

A história de O Deplorável Caso do Dr. Milton é relativamente diferente das que serializo nas Weird Comix, mas tem todos os elementos que sempre tem nos meus quadrinhos. Tem sangue, gente morrendo, suspense, depravação, assassinato… Só não tem monstros e não se passa nos anos 50. São temas que passam bastante pela minha cabeça, acho difícil eu bolar um enredo que não tenha nada disso.

Não sei se consigo dizer muito sobre o quadrinho sem contar nenhuma supresa… Porque tem muita coisa nele que eu acho que o leitor não deveria saber antes de ler. Então eu espero que ninguém dê uma longa folheada por toooodo o quadrinho antes de começar, porque vai saber de antemão ou ver cenas que só deveria ler na hora. Digo isso porque eu sou esse tipo de leitor que pega o livro, abre na última página e sai folheando de trás pra frente, vendo tudo hahahahaha. Mas espero que não façam isso.

Quanto ao Milton, ele é um personagem esquisito, não tenho certeza do que as pessoas vão achar dele… o quadrinho é basicamente sobre ele, que é um cientista numa cidade pacata, e como as suas decisões afetaram a vida dele próprio e de muitos à sua volta, de maneira irremediável. Por causa de coisas que ele vai fazendo para consertar o problema, sua vida vai virando uma merda maior, cada vez mais. Eu queria que as pessoas se engajassem na história, que se colocassem no lugar dos personagens. E queria que lessem o gibi de uma vez só, outra coisa que não faço hahaha. Acho que fica melhor se a pessoa ler direto… Apesar de ter mais de 100 páginas, não acredito que seja uma leitura massante. Dei para uma amiga ler e pareceu que o texto flui bem. 

Quero que as pessoas sintam algo lendo, seja vergonha, diversão, nojo, raiva ou pena. Ou que pelo menos pensem que foi uma doidera ler esse gibi, hahaha. Espero que curtam!

Teaser de O Deplorável Caso do Dr. Milton, trabalho de Fabio Vermelho que será publicado pelo selo Escória Comix
Entrevistas / HQ

Papo com Emilly Bonna, a autora de Esgoto Carcerário: “É o resultado de um aglomerado de coisas que consumo desde a infância, de Castelo Rá-Tim-Bum a John Waters”

As 40 páginas em preto e branco de Esgoto Carcerário narram a saga de um penico cansado de sua vida como receptáculo de urina e fezes e em busca de seu sonho de virar um vaso de flores. Para alcançar seus objetivos, Nico Penico dá início a uma caça pela criminosa Alzira Morcegona, tendo em vista a recompensa para quem detê-la. Responsável pelo sequestro de três pessoas, Alzira mantém suas vítimas dentro do esconderijo no esgoto no qual vive na companhia de seu comparsa e amigo, o rato Mariano.

A quadrinista Emilly Bonna começou em 2017 a produção de Esgoto Carcerário e a HQ se tornou o primeiro lançamento de 2019 do selo Escória Comix. No projeto original, o título era o mesmo e também tinha Nico Penico como personagem principal, mas a história era outra. “O roteiro era completamente diferente, ficou bastante tempo parada, e quando quis retomar já tinha perdido o fio da meada. Então decidi refazê-la, reaproveitando o título, um penico e a ideia inicial de acontecer dentro de um esgoto”, explica.

Meu primeiro contato com o trabalho de Bonna foi em Portas do Inferno, coletânea publicada no final de 2018 em uma parceria da Escória com o selo Gordo Seboso. Em seu primeiro projeto solo, a autora usa designs de páginas convencionais e um traço singular – fofo e “empelotado de perebinhas gosmentas”, segundo o editor Lobo Ramirez – para narrar uma história com personagens originais e carismáticos como pouco se vê por aí. Bati um papo rápido com a quadrinista e ela me falou sobre a origem do quadrinho, suas inspirações e a produção da belíssima capa do gibi. Saca só:

Quadros de Esgoto Carcerário, HQ de Emilly Bonna publicada pelo selo Escória Comix

Você pode contar, por favor, um pouco sobre a origem desse quadrinho? Você lembra quando e como começou a elaborar a história que resultaria em Esgoto Carcerário?

No final de 2017 comecei uma outra história, anterior a essa, que também se chamava Esgoto Carcerário, acontecia em um esgoto e tinha o personagem Nico Penico. O roteiro era completamente diferente, ficou bastante tempo parada, e quando quis retomar já tinha perdido o fio da meada. Então decidi refazê-la, reaproveitando o título, um penico e a ideia inicial de acontecer dentro de um esgoto.

Quadros de Esgoto Carcerário, HQ de Emilly Bonna publicada pelo selo Escória Comix

Quais técnicas você utilizou para esse quadrinho? Você está acostumada a trabalhar com algum material específico?

Utilizei a técnica que costumo usar muito nos meus desenhos, que é a de pontilhismo, e os materiais básicos, papel e caneta nanquim.

Aliás, ainda sobre técnica: eu acho a capa do quadrinho incrível. Você usa nela a mesma técnica presente no miolo da obra?

Obrigada! Na verdade essa capa seria pintada a lápis de cor e colorida, mas o resultado acabou ficando desastroso hahaha. Uma solução foi deixar a pintura em PB, e adicionei alguns traços a caneta. O material do miolo é diferente, nele uso somente nanquim.

Quadros de Esgoto Carcerário, HQ de Emilly Bonna publicada pelo selo Escória Comix

Eu gosto principalmente dos personagens de Esgoto Carcerário. Quando você começou a desenvolver a HQ já sabia o destino e a história de cada um deles?

Cheguei a pensar no destino de alguns, mas os rumos da história mudaram bastante. O destino do Nico Penico foi o único que se manteve mais fiel no que eu tinha estipulado para ele inicialmente.

Quadros de Esgoto Carcerário, HQ de Emilly Bonna publicada pelo selo Escória Comix

Você teve alguma influência maior durante a produção desse quadrinho? Digo, houve alguma obra – seja quadrinho, música, filme, livro ou o que for – que te inspirou durante o desenvolvimento da HQ?

Não consigo citar uma influência específica durante a produção dessa HQ, ela é mais um resultado de um aglomerado de coisas que consumo desde a infância até os dias atuais, de Castelo Rá-Tim-Bum, que eu adorava ver quando criança, até os filmes do John Waters e coisas mais extremas.

Quadros de Esgoto Carcerário, HQ de Emilly Bonna publicada pelo selo Escória Comix

Aliás, o que você gosta de ver, ouvir e ler? Quais são as suas principais referências?

Gosto de ver conteúdos diversos, filmes de drama, terror, comédia, trash, desenhos do Cartoon Network de 2001/2008, gore dos anos 60/70, vídeos de brigas do programa A Fazenda entre o Theo Becker e o Dado Dolabella, bizarrices do site eFukt, como um homem enfiando um copo de vidro dentro do próprio ânus e quebrando, etc, etc. Sobre o que eu gosto de ouvir; meus hits do momento são as músicas da banda The Shaggs e as do Tiny Tim, inclusive coloquei no quadrinho uma música interpretada por ele, porque enquanto eu desenhava a cena ela ficava tocando na minha cabeça. A respeito do que leio, vou citar alguns que li recentemente; Confissões de um Crematório, da Caitlin Doughty; O Caso de Charles Dexter Ward, do H.P. Lovecraft, Asteroides: Estrelas em Fúria, do Lobo Ramirez; e Meu Amigo Dahmer, do Derf Backderf.

Eu conheci o seu trabalho por meio da coletânea Porta do Inferno. É muito diferente a experiência de desenvolver um projeto solo e outro com a presença de outros artistas?

Não é tão diferente, a experiência de fazer algo solo torna aquilo mais pessoal, principalmente porque eu posso explorar a temática que eu quiser. Em coletâneas geralmente o tema já está estabelecido, o que é legal também, pois a ideia sobre o que criar em cima dele flui mais rápido, na minha opinião.

A capa de Esgoto Carcerário, HQ de Emilly Bonna publicada pelo selo Escória Comix

Entrevistas / HQ

Papo com os autores da coletânea Porta do Inferno: “A gente vê o diabo diariamente e faz de conta que não”

Os editores e quadrinistas Lobo Ramirez (Escória Comix) e Luiz Berger (Gordo Seboso) uniram forças para lançar a coletânea Porta do Inferno. O álbum de 76 páginas reúne histórias assinadas pelos dois editores e outros quatro artistas: Emily Bonna, Victor Bello, Diego Gerlach e o quadrinista mexicano Abraham Diaz. A obra tem início com um enredo assinado por Berger mostrando a abertura da porta do inferno na terra e as HQs seguintes apresentam algumas das consequências desse ocorrido, tendo o narrador Caio Tira-na-Cara como o responsável por conduzir o leitor ao longo do álbum.

Autor do épico ASTEROIDES – Estrelas em Fúria, lançado em março de 2018, em parceria da Escória Comix com a Ugra Press, Lobo Ramirez é das figuras mais ativas da cena brasileira de quadrinhos. Em 2017 ele publicou os celebrados NÓIA – Uma História de Vingança (Escória Comix/Vibe Troncha Comix), de Diego Gerlach, e os dois volumes do já clássico Úlcera Vórtex, de Victor Bello. Nove meses após ASTEROIDES, ele publica a parceria com Berger para encerrar o ano de seu selo pessoal com a coletânea de histórias de horror, morte e destruição protagonizadas pelos demônios de Porta do Inferno.

Após responder à breve entrevista a seguir e revelar o primeiro lançamento de sua editora para 2019 (O Alpinista, de Victor Bello), Lobo Ramirez entrevistou cada um dos cinco autores de Porta do Inferno para o Vitralizado. Nas conversas, os artistas falam sobre as inspirações para suas histórias na publicação e expõem suas suspeitas em relação à vinda do anticristo à terra. Saca só:

– LOBO RAMIREZ –

As portas do inferno estão abertas em território brasileiro?

Lobo Ramirez: Escancaradas.

Qual foi a inspiração de vocês para esse formato, com vários autores escrevendo histórias com a mesma temática?

Lobo Ramirez: A real é que esse era pra ser um quadrinho longo do Berger, mas ele desencanou de terminar e eu fiquei enchendo o saco pra lançar porque as páginas eram fodas. Então surgiu a ideia de chamar um pessoal e continuar a historia do ponto que ele parou. Eu não sei se tem alguma coisa nesse formato específico, já deve ter, mas de toda forma eu achei interessante o resultado e quero tentar outros títulos nesse mesmo estilo.

Quais será a próxima investida da Escória Comix?

Lobo Ramirez: Bom, oficialmente confirmado e em produção é um quadrinho do Victor Bello cujo título revelarei exclusivamente agora: O Alpinista, um gibi que ele vem produzindo desde o começo de 2018. Mas já tenho previstos outros 14 títulos novos para 2019, então vai ser um ano de varias investidas. Deus me acuda.

Um painel do quadrinista Luiz Berger presente em Porta do Inferno

– LUIZ BERGER –

LOBO RAMIREZ: Você já participou, como convidado e editor, de diversas antologias de quadrinhos, reunindo nomes nacionais e internacionais. Alguns nomes se repetem nessas publicações, por que Porta do Inferno é diferente das outras?

Luiz Berger: Sim, vários nomes se repetem e acho que vão continuar se repetindo nas próximas antologias. Eu gosto de seguir uma linha editorial com uma identidade, que é bem parecida, ou até igual, à do lobo ramirez. O que difere a Porta do Inferno das anteriores, é que nessa não são só histórias que seguem um tema, como a revista Goró, que reunia histórias sobre bebida, colocadas meio que em ordem aleatória. Nesse caso, as histórias começam do mesmo ponto, da porta do inferno que foi aberta no final da primeira história do gibi, e todas estão conectadas pelos comentários do personagem-narrador Caio Tiro-na-Cara, como em várias revistas de terror dos anos 50. Acho que essa revista está muito mais bem amarrada que as anteriores.

LOBO RAMIREZ: Quando você vai largar mão de ser trouxa e começar a produzir quadrinhos de merda com mais frequência?

Luiz Berger: Acho que esse ano eu volto a fazer com muito mais frequência. Editar essa revista me deu um belo ânimo pra voltar com o Gordo Seboso.

– ABRAHAM DIAZ –

LOBO RAMIREZ: Você já participou de várias antologias de quadrinhos, incluindo Goró (Gordo Seboso), que tem três dos quadrinistas presentes na Porta do Inferno. Há muitos outros quadrinistas nesse meio mais podre no México? Ou você acha que há uma cota de retardados dos quadrinhos por país?

ABRAHAM DIAZ: No México, o quadrinho marginal está apenas começando a se desenvolver. Sem dúvida, há muitos cartunistas começando a publicar quadrinhos podres e eu acho que nos próximos anos haverá um boom nos quadrinhos mexicanos e na arte em geral.

LOBO RAMIREZ: Você acha que Porta do Inferno é mais uma imagem de um bando de marginais falando sobre o diabo, cocô, violência e blasfêmias gratuitas?

ABRAHAM DIAZ: Sim, eu acho que Porta do Inferno é isso, mas eu também acho que não poderia ser outra coisa hahaha

– EMILLY BONNA –

LOBO RAMIREZ: Conte-nos um pouco sobre sua relação com quadrinhos. Você tem um trabalho com ilustração, mas já tinha feito quadrinhos antes? Qual a diferença entre produzir um quadrinho e uma ilustração?

Emilly Bonna: Na infância não cheguei a ler muitos quadrinhos, mas me chamava atenção a estrutura deles, que possibilitava contar histórias através de desenhos. Comecei a fazer breves historinhas pra mim mesma aos nove anos e, conforme foi passando os anos, continuei fazendo quadrinhos e zines bem amadores e com pouca circulação. Na ilustração eu posso passar uma ideia rápida do que quero expressar e nos quadrinhos as formas de explorar um tema são mais amplas.

LOBO RAMIREZ: Por que você aceitou fazer parte desta patotinha horrível de pessoas degeneradas? Não tem medo do que vão falar de você na igreja?

Emilly Bonna: Eu estava no culto da igreja Deus é Amor e no meio da oração, Jesus, na forma do piolho da irmã que estava na cadeira da frente, me disse: ‘Participe de uma HQ de alto grau satânico para enaltecer o Diabo, tô brigado com meu pai Deus, quero deixar o véio puto’. E então cumpri o pedido de Cristo, amém. Não tenho medo do que vão falar pois já envenenei todos os membros da igreja com cianeto misturado no suquinhos Tang de uva.

– VICTOR BELLO –

LOBO RAMIREZ: Na história Fuim, o Xupador de Ossos, mesmo em poucas páginas, você insere uma vasta gama de personagens e parece que a qualquer momento podemos acompanhar qualquer um deles com uma história diferente. Nessa história específica, quais foram suas inspirações para os personagens?

VICTOR BELLO: Nessa história eu quis fazer uma investigação estilo Arquivo X. O demônio não teve uma inspiração específica, mas os personagens da gangue que trafica cascos de tartaruga eu me inspirei em personagens aleatórios de filmes da produtora Troma, gente esquisita. Outros, como as vítimas, busquei as características em típicos personagens que morrem em filmes slashers, então uma das vítimas é um jovem pixador que usa drogas, o outro é um pescador que pesca tartaruga em extinção. São pessoas que num filme slasher são descartáveis. O jovem pixador é parecido também com personagens de propaganda cristã anti-drogas.

LOBO RAMIREZ: Não te incomoda os editores dessa revista claramente estarem ganhando milhões às custas de jovens talentos?

VICTOR BELLO: Incomoda. E me incomoda tanto que pretendo roubar toda a fortuna desses dois em um golpe que já está em curso e assim montar minha própria editora. Os contratarei com carteira assinada, pagarei um salário e os tratarei com toda decência.

– DIEGO GERLACH –

LOBO RAMIREZ: Fazer parte do gibi Porta do Inferno é mais uma de suas participações numa antologia de quadrinhos. Qual o lugar você enxerga que essa história tem dentro do seu trabalho? Ela dialoga de alguma forma com a sua produção atual ou cada título,  cada quadrinho, se adequa a necessidades específicas?

DIEGO GERLACH: Acho que tem as duas coisas, sempre dialoga com as outras HQs que tenho feito e por outro lado também sempre supre uma necessidade específica. Essa HQ pra Porta do Inferno tem umas coisas que vinha fazendo em outros trabalhos (grids fixos, desenho digital fotoreferenciado), mas ao mesmo tempo a demanda era específica (e inédita pra mim): uma HQ de terror com uma pegada clássica. Levou um bom tempo pra ser concluída, ela meio que mudou de rumo e acabei incorporando alguns elementos de uma lenda urbana que me foi contada algumas vezes na época em que fazia catequese. O terço final foi criado no intervalo do primeiro pro segundo turno das eleições de 2018.

LOBO RAMIREZ: Você acha que o verdadeiro anticristo vira à terra como um homem de deus?

DIEGO GERLACH: Como ateu criado no catolicismo, o diabo pra mim é o conceito alegórico definitivo… Mesmo que não exista um ‘verdadeiro’. Tem vários ‘homens de deus’ que são o diabo em pessoa (preciso dar exemplos…?), vão na direção diametralmente oposta dos ensinamentos do mito crístico. É isso: a gente vê o diabo diariamente e faz de conta que não. (Como curiosidade, meu avô queria que eu me tornasse padre.)

HQ

Asteróides – Estrelas em Fúria: confira a capa da nova HQ de Lobo Ramirez

Já comentei por aqui algumas vezes como acho demais o trabalho do Lobo Ramirez como editor da Escória Comix. Daí tô com altas expectativas para o próximo lançamento do selo, batizado de Asteróides – Estrelas em Fúria e assinado pelo próprio Ramirez. O álbum terá 120 páginas, formato 15X25 cm, capa colorida, miolo em preto e branco e preço de R$ 35. O lançamento tá previsto pro dia 23 de março, na próxima edição da Feira Plana. Saca a sinopse do gibi:

“Em um futuro não tão distante no qual o governo é controlado por corporações, um esporte ultra-violento conhecido como Salto Ornamental Feminino representa o mundo e três de suas atletas mais poderosas se envolvem em uma trama alucinante de assassinatos e fúria.”

HQ

Sábado (15/7), a partir das 15h, na Ugra: Diego Gerlach e Lobo Ramirez falam sobre sobre Arrecém, Nóia, Rogéria #3 e as atividades da Escória Comix

Sério, caras, anotem aí, essa é imperdível: no sábado (15/7), a partir das 15h, estarei mediando uma conversa com os quadrinistas/editores Diego Gerlach e Lobo Ramirez na loja da Ugra aqui em São Paulo. No mesmo dia estarão sendo lançados os excelentes Arrecém (12ª edição da coleção Ugritos), Nóia – Uma História de Vingança! e o terceiro número da revista Rogéria e os dois convidados vão falar sobre suas respectivas obras e também das atividades do selo Escória Comix.

Quem já leu esses trabalhos mais recentes do Gerlach e os títulos publicados por Ramirez sabe da loucura e da qualidade dos quadrinhos concebidos pelos dois. Certeza de papo bom e recomendo que vocês cheguem cedo na Ugra, suspeito que a casa estará cheia. Você confere as instruções de como chegar na Ugra na página do evento no Facebook.