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Papo com Galvão Bertazzi, autor de Vida Besta: Fim do Mundo: “Gosto dos meus personagens vivendo normalmente em todo esse ambiente incendiário e voraz”

Entrevistei o quadrinista Galvão Bertazzi sobre Vida Besta: Fim do Mundo, coletânea recém-publicada pela editora Mino que reúne a leva mais recente de tiras do autor. Desde 2018 ele incorporou à sua produção o caos e o niilismo do governo Jair Bolsonaro e de uma pandemia que já matou mais de 680 mil brasileiros. Transformei esse papo com o autor em matéria para o jornal Folha de S.Paulo. Você lê o meu texto clicando aqui. Compartilho a seguir a íntegra da minha conversa com Bertazzi:

“Comecei a sentir prazer em desenhar os personagens e os cenários pegando fogo”

Tira de Galvão Bertazzi publicada em Vida Besta: Fim do Mundo, da editora Mino (Divulgação)

O que aconteceu em 2018 que te motivou a dar início a esse leva mais recente e apocalíptica da Vida Besta?

Não foi nada racionalmente pensado. Não pensei: ‘agora vou fazer tiras catastróficas’. Acho que foi um caminho natural dos desenhos e das temáticas que já povoavam meu trabalho de tiras.

Mas eu me lembro que certa hora comecei a sentir prazer em desenhar os personagens pegando fogo, os cenários pegando fogo e as ações acontecendo na história como se o desastre fosse a coisa mais natural do mundo. Pode ser que estejamos vivendo assim atualmente, fingindo uma normalidade enquanto a realidade desaba. Como as tiras sempre foram sobre nosso cotidiano, acho que foi natural que enveredasse para um cenário apocalíptico.

As tiras de Fim do Mundo foram publicadas entre 2018 e 2022, do início do governo Bolsonaro aos estágios mais atuais da pandemia. O quanto esse contexto recente da nossa realidade afetou a sua vida?

Eu vivi e senti a tragédia da chegada do atual governo em 2018. Eu vivi e senti a tragédia do início da pandemia em 2020 . Eu vivi e senti o agravante de se estar no Brasil, governado por Bolsonaro com o plus de uma pandemia. Eu desisti de tentar entender e racionalizar o misto de sentimentos, medos, anseios pelos quais fui atropelado nesse período de pré-pandemia, pandemia e pós-pandemia, com a abertura geral de tudo, aglomerações e gente feliz e contente na rua como se não existisse amanhã… 

Minha vida pessoal entrou em colapso e só agora, depois de passada uma gigantesca rebordosa pós-pandêmica estou conseguindo reestruturar um bocado de coisas que se quebraram.

Faz alguns meses que me entreguei às delícias da indústria farmacêutica moderna pra controlar uma ansiedade que saiu completamente do controle e estou adorando! 

Você vê a humanidade realmente caminhando para o fim de sua existência? Você nos vê de verdade mais próximo do fim do mundo?

Não sei se a humanidade vai deixar de existir, não. Seria bom, se acontecesse. Eu tenho tentado pensar num futuro mais brando, onde o atual sistema consumista não se sustente mais, mas sei que isso é utopia juvenil e eu já me enxergo velho e calejado demais pra imaginar um futuro bonito com todos de mãos dadas se respeitando e ajudando mutuamente. 

Mas não duvido da insistência e teimosia da nossa espécie e é capaz que duremos mais uns bocados de séculos, vagando por uma gigantesco pasto ou plantação de soja, carregando respiradores e roupas com fator UV elevado.

“Não tenho mais urgência em publicar diariamente”

Tira de Galvão Bertazzi publicada em Vida Besta: Fim do Mundo, da editora Mino (Divulgação)

Vermelho, laranja e amarelo sempre estiveram muito presentes em seus trabalhos – e casam muito bem com o tom incendiário e infernal de Fim do Mundo. O que te atrai nessas cores?

Acho que é isso mesmo. Essa idéia de urgência incendiária sempre esteve presente na minha paleta, tanto nas tiras quanto nas ilustrações e pinturas. Eu gosto dessa coisa quente e exagerada e como eu falei ali em cima, gosto de colocar meus personagens vivendo normalmente em todo essa ambiente incendiário e voraz.

Fico com a impressão que seu traço, seus desenhos e seus personagens, estão cada vez mais simples e icônicos. Faz sentido para você? Se sim, como essa simplicidade contribui para a construção das suas tiras?

Acho que isso é relativo. Eu não sei se é uma simplicidade. Creio que é mais uma urgência em resolver a ideia mesmo. Minha noção de tempo está meio bagunçada nesse últimos tempos e tenho até produzido menos tiras do que deveria, justamente por isso. Eu gosto de desenhar, pra mim a tira tem muito mais a ver com o desenho do que com o enredo em si e o meu desenho sempre muda. Se você pegar as primeiras tiras e ir acompanhando até os dias atuais, vai notar que devagarinho os bonecos, os cenários vão se moldando até chegar onde está hoje. Provavelmente daqui uns anos, se o mundo não tiver acabado, eu vou estar desenhando de um jeito completamente diferente. 

A sua rotina de produção de tiras mudou muito ao longo dos anos? Desde o começo da Vida Besta, o que mais mudou na sua rotina? É mais fácil para você produzir hoje uma tira do que nos seus primeiros anos da série?

Mudou demais. Alguns anos atrás eu ainda desenhava diariamente com essa ânsia de desenhar, postar e deixar os seguidores verem quase que em tempo real a tira saindo do forno. 

Minhas tiras sempre foram primeiro pra internet do que pra qualquer veículo impresso. Faz anos que não publico em nenhum jornal ou revista e o feedback na internet sempre foi algo que me abastecia. Isso foi mudando. Eu não me cobro mais em ter essa urgência em publicar diariamente, acho que cansei dessa vida via de mão única das redes sociais e internet. Hoje em dia, eu gosto de sentar com mais calma e resolver uma ou duas tiras sem muita pressa e às vezes nem publicar online. 

E em termos de técnica, mudou muito? Quais materiais você usava quando começou a Vida Besta e quais materiais usa atualmente?

Lá no começo eu desenhava muito com caneta, nanquim e lápis de cor e depois escaneava. Mas isso não durou muito. Eu desenho no tablet, desses de formato antigo de mesa, desde o século passado. As tiras e ilustrações se resolvem muito bem pra mim assim, direto no digital. Consigo simular bem meu traço no papel. Ando ensaiando em voltar um pouco pro papel e lápis de cor, mas tô com preguiça. Mas uma hora vai acontecer.

“A realidade tende ao pessimismo”

Tira de Galvão Bertazzi publicada em Vida Besta: Fim do Mundo, da editora Mino (Divulgação)

A minha leitura de Vida Besta me dá a impressão que você é uma pessoa pessimista. Ou pelo menos alguém que se encontra atualmente pessimista. Você é pessimista?

Cara, não me considero pessimista, apesar de muita gente ao meu redor me achar pessimista. Eu tenho 44 anos agora e já vi muita coisa acontecendo e com tempo você consegue perceber que elas são cíclicas, quase que como um padrão. O mundo é pessimista por si, a realidade tende ao pessimismo e acho que é isso que eu retrato nas tiras. Nada impede que na vida real, coisas boas aconteçam e aí você se surpreende e dá valor nessas pequenas coisas. Mas fiquei aqui pensando enquanto digito essa resposta e olha… Acho que sou sim pessimista. E isso é uma merda.

Fim do Mundo reúne sua fase cobrindo a Laerte na Ilustrada quando ela esteve com Covid. Como foi essa experiência para você?

Ah, foi um misto de emoções. Primeiro porque me coloquei uma responsabilidade gigantesca nas costas pra produzir tiras com uma qualidade alta, mas que nem de perto chegaram perto da genialidade da Laerte e isso me aterrou na labuta da produção diária, num jornal que tem tanto alcance como a Folha. Não escondo de ninguém que gostaria muito de publicar diariamente pra Folha e em outra situação eu teria comemorado. Mas o convite de manter o espaço da Laerte funcionando enquanto ela se recuperava do Covid, me deixou meio confuso. Eu não fiz alarde e procurei fazer o meu trabalho da melhor maneira possível, ansiando loucamente para devolver o posto pra Laerte.

O que vem depois do fim do mundo? Você já nos vê saindo do atual cenário apocalíptico que vivenciamos nos últimos anos? O que você aposta para o nosso futuro?

Eu não aposto em nada porque eu sempre perco. Mas quero muito ver essa era Bolsonaro se acabando e que por mais que demore, quero que o legado desse desgoverno fique apenas como uma memória ruim de uma geração meio burra que não soube cuidar de si mesma e nem pensar nas gerações futuras. Mas eu queria mesmo era que meio kg de café voltasse a custar R$5 reais. Tá foda!

A capa de Vida Besta: Fim do Mundo, obra de Galvão Bertazzi publicada pela Mino (Divulgação)


HQ / Matérias

Galvão Bertazzi fala sobre incêndios, catástrofes e Vida Besta: Fim do Mundo

Desde 1998 o quadrinista Galvão Bertazzi retrata na série Vida Besta a banalidade da vida cotidiana e a falta de um sentido maior para a existência. Nos últimos anos ele incorporou à sua produção o caos e niilismo do governo Jair Bolsonaro e de uma pandemia que já matou mais de 680 mil brasileiros. O álbum Vida Besta: Vida do Mundo reúne as tiras produzidas pelo autor de 2018 para cá, seu periodo mais apocalíptico.

Conversei com o autor sobre a coletânea publicada pela editora Mino e transformei esse papo em texto para a Folha de S.Paulo. Você lê o meu texto clicando aqui.

Cinema / HQ / Séries

Camisetas Vitralizado, por Galvão Bertazzi!

O Vitralizado completa 10 anos em outubro de 2022 e tenho algumas surpresas na manga para os próximos meses. Uma delas revelo agora: está à venda a primeira camiseta do blog, com arte do quadrinista Galvão Bertazzi. A obra da estampa é uma variação do trabalho assinado pelo autor da série Vida Besta para a arte celebrando o aniversário de nove anos do blog, divulgada em outubro do ano passado. A camiseta está à venda por R$ 65 no site Uma Penca – em modelos azul, branco, cinza, preto e amarelo (nos tamanhos P, M, G, GG, 2GG, 3GG e 4GG).

Camiseta Vitralizado, por Galvão Bertazzi

Sou suspeito, mas estou com os cinco modelos em mãos e ficaram finos, viu?

E como disse, planejo mais uma ou outra novidade para os próximos meses relacionadas às celebrações dos 10 anos do blog. Fique atento. Estarei à sua espera por aqui – torcendo para que você apareça vestido à caráter 😉

Camisetas Vitralizado, por Galvão Bertazzi
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Assista ao debate Indefinidas Tiras em Quadrinhos, com Laerte e Galvão Bertazzi

Mediei o debate Indefinidas Tiras em Quadrinhos, uma conversa com Laerte e Galvão Bertazzi que fez parte da programação do evento Quadrinhos Impossíveis – edição online. O foco do nosso papo foi na produção recentes dos dois artistas, além da rotina de ambos como autores de tiras. Falamos sobre títulos como Manual do Minotauro e Vida Besta e também sobre técnicas e práticas dos dois em suas produções diárias.

Aproveito para recomendar os outros vídeos da programação do Quadrinhos Impossíveis. Ainda não assisti todos, mas foi muita gente boa envolvida, com vários temas interessantes. Tudo de graça no canal da produtora Monstra no YouTube. A seguir, a minha conversa com Laerte e Galvão Bertazzi:

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3ª (21/12) é dia de Indefinidas Tiras em Quadrinhos, papo com Laerte e Galvão Bertazzi no Quadrinhos Impossíveis

Vou mediar o debate Indefinidas Tiras em Quadrinhos, uma conversa com Laerte e Galvão Bertazzi, marcada para as 19h de amanhã, terça-feira, dia 21 de dezembro, como parte do evento Quadrinhos Impossíveis – Edição Online. Você assiste ao papo, de graça, no canal da produtora Monstra no YouTube. O foco da nossa conversa será na produção recentes dos dois artistas, além da rotina de ambos como autores de tiras.

O link para a live tá aqui.

Lembro que: escrevi em junho sobre Manual do Minotauro, coletânea de mais de 400 páginas publicada pela editora Companhia das Letras reunindo o melhor da produção recente de Laerte. E conversei Bertazzi sobre seus trabalhos na série Vida Besta em 2019, quando as tiras publicadas por ele desde os anos 1990 ganharam coletânea pela editora Pé de Cabrae voltamos a nos falar quando divulguei a arte do cartaz de 9 anos do Vitralizado.

Enfim, certeza de papo bom, aguardo a sua presença.

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Quadrinhos Impossíveis – edição online: 20, 21 e 22 de dezembro de 2021

Sou um dos convidados da edição online da Quadrinhos Impossíveis, evento de HQs organizado pela produtora cultural Monstra e marcado para os dias 20, 21 e 22 de dezembro de 2021. Vou mediar uma conversa com Laerte Coutinho e Galvão Bertazzi na próxima terça-feira, dia 21 de dezembro, mas falo mais sobre esse papo nos próximos dias. Compartilho mais abaixo a programação do evento, toda gratuita, no canal da Monstra no YouTube.

Também participam das conversas e oficinas do evento: Fábio Vermelho, Pablo Carranza, Juscelino Neco, Sirlanney, Manhã Ortiz, Carol Ito, Laerte, Galvão Bertazzi, Yuri Moraes, Xavier Ramos, Douglas Utescher, Aline Lemos, Helô D’Angelo, Gabriela Güllich, Marcio Jr, João Pinheiro e Marcello Quintanilha. A arte do material de divulgação é de autoria do lendário Jaca. Segue a íntegra da programação da Quadrinhos Impossíveis:

*20/12, 2ª, 21h: Confissões nas Redes Sociais, com Sirlanney e Manhã Ortiz, mediação de Carol Ito;
*21/12, 3ª, 19h: Indefinidas Tiras em Quadrinhos, com Galvão Bertazzi e Laerte Coutinho, mediação de Ramon Vitral;
*21/12, 3ª, 21h: Quadrinhos Sem Pretensão, com Xavier Ramos e Yuri Moraes, mediação de Douglas Utescher;
*22/12, 4ª, 19h: Quadrinhos dos Dias, com Helô D’Ângelo e Aline Lemos, mediação de Gabriela Güllich;
*22/12, 4ª, 21h, Brasil em Quadrinhos, com João Pinheiro e Marcello Quintanilha, mediação de Marcio Jr.

Também estão marcadas três oficinas online gratuitas, com inscrições em linktr.ee/monstra.art:

*2ª, 20/12, 15h: Diário de Criação – Método de Organização e Criatividade para Produzir Quadrinhos, com Sirlanney;
*3ª, 21/12, 15h: O Método Bertazzi de Fazer Quadrinhos, com Galvão Bertazzi;
*4ª, 22/12, 15h: Abordagens do Zine, com Aline Lemos.