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Entrevistas / HQ

Papo com Victor Bello, autor de Sinuca Paranoide – As Tacadas do Bambino: “Acho que nunca conseguiria criar personagens sérios”

Em Úlcera Vórtex (2017), o quadrinista Victor Bello apresentou ao mundo o entregador de gás Adriano Gás em seu embate contra os habitantes da violenta civilização de Gorgonotúbia – instalada em um buraco negro interdimensional no estômago de um cientista. Depois, em Incontinência Tripária (2018), ele narrou a busca do pedreiro Simão Garfunkel por soluções para seus problemas de saúde. Em seguida foi a vez de O Alpinista (2019), protagonizado por Ladoni, maior alpinista de todos os tempos e que se vê em meio a uma conspiração envolvendo políticos e alienígenas que coloca em risco a vida na Terra.

O mais novo quadrinho de Bello é ambientado no submundo das competições de sinuca. Em sua estreia solo no selo Pé-de-Cabra, ele conta em Sinuca Paranoide – As Tacadas do Bambino a história de Danete Ho, sinuqueiro renomado envolvido em uma trama de vinganças em seguida a uma tragédia familiar.

Já elogiei mais de uma vez os disparates de Bello, os ritmos frenéticos de suas histórias e as tramas aparentemente desencontradas que sempre culminam em dramas grandiosos com finais catárticos. Sinuca Paranoide mantém esse padrão, com o acréscimo de elementos e personagens característicos de filmes de ação dos anos 80 como Rambo, Vingador do Futuro, Robocop, O Sobrevivente e Mad Max.

“Mas se tratando puramente de ação, nenhum desses filmes supera a ação dos filmes dos anos 80 e 90 com Jackie Chan ou Sammo Hung, como Police Story, Projeto China e Eastern Condors”, me diz Bello sobre suas preferências cinematográficas. “Acho que o problema dos filmes americanos é que eles não sabem filmar lutas e as cenas de ação são entediantes quando não tem um Jackie Chan pendurado no carro”.

Victor Bello é um dos meus quadrinistas preferidos. Sinuca Paranoide mantém o padrão surtado de seus trabalhos prévios e me deixa ansioso para uma próxima HQ solo do autor. Torço muito pela manutenção de sua linha de produção anual. Na conversa a seguir, ele me falou sobre o ponto de partida dessa nova HQ, sobre a construção de seus personagens e sobre sua relação com sinuca, entre outros temas. Papo massa, saca só:

“A sinuca sempre me fascinou muito com aquelas bolas coloridas e pesadas”

Página de Sinuca Paranoide, HQ de Victor Bello publicada pelo selo Pé-de-Cabra

Queria começar sabendo como estão as coisas por aí. Como você está lidando com a pandemia? A pandemia afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

Olá Ramon e todo mundo que lê o Vitralizado! Por enquanto tudo bem, seguindo os protocolos da OMS. Quanto a minha rotina e produção, eu comecei a fazer essa história antes do corona e quando começou a pandemia tive que parar um pouco a produção do quadrinho pra dar mais foco em encomendas de desenhos. Eu e Emilly Bonna tínhamos acabado de abrir nossa lojinha e com os correios fechados, fechamos a lojinha também. Aí, começamos a fazer retratos para ajudar na renda e passamos algumas semanas só fazendo retrato e enviando pras pessoas por email. Foram mais de 200 retratos… Ou 20… Não sei.

Tive que sair de casa várias vezes e não sei por que a máscara não foi recomendada pela OMS logo no começo. Uma das minhas obrigações era comprar todo dia seis pães para meus avós e cigarro pro meu tio. Eu tive receio que o meu vizinho Hoffman risse de mim porque eu usava máscara. Depois que todo mundo começou a usar, incluindo o Hoffman, me deu um sentimento bom de alívio. Já faz pelo menos um mês que não compro pão para meus avós.

Acho que eu nunca tinha lido uma HQ sobre sinuca. Como você chegou nesse tema? Você gosta de jogar sinuca? Você tem algum interesse em particular nesse universo?

Eu gosto sim de jogar sinuca, mas a ideia de uma HQ de sinuca surgiu quando eu estava viciado no jogo de sinuca do site Miniclip e pensei que seria legal uma história sobre esse esporte. Um dos meus quatro irmãos é uma lenda desse jogo, não falarei o nome dele para não revelar sua identidade, mas é um dos maiores jogadores de sinuca que já passou por aquele site. Pensei em fazer uma paródia do filme de bilhar do Martin Scorsese, com um personagem que joga sinuca online, mas minha histórinha acabou indo para outro lado. A sinuca sempre me fascinou muito com aquelas bolas coloridas e pesadas, eu tive chaveiros de mini bolas de sinuca quando era criança. E também gostava muito do jogo Side Pocket, de Super Nintendo, que tem uma trilha sonora linda e que me emociona.

Sinuca é um ESPORTE clássico, com ídolos brasileiros e presente na maior parte do Brasil. Eu queria jogar mais vezes sinuca de verdade no bar da esquina, mas com certeza o Hoffman vai me desafiar para uma partida e eu não estou disposto a isso.

O que você pode contar sobre o ponto de partida desse quadrinho novo? Ele surgiu a partir da trama ou dos personagens?

A história surgiu primeiro a partir de uma trama de sinuca, mas logo que pensei no personagem Danete Ho, a história passou a se desenvolver ao redor dele. Sinuca Paranoide é a história desse rapaz, descendente de vietnamitas, neto de uma heroína do Vietnã. Danete passa por uma tragédia muito pesada e parte para uma jornada cheia de humilhações e frustrações. Eu quis que Danete parecesse misterioso, perigoso e genial, mas no fundo ele é apenas um sujeito perdido e, as vezes, muito passivo. Espera-se que Danete seja fodão, que use seu taco como uma arma de artes marciais, mas talvez ele não tenha coragem pra isso.

“Gosto de personagens mudos, ou quase mudos, e como eles se relacionam com tagarelas”

Página de Sinuca Paranoide, HQ de Victor Bello publicada pelo selo Pé-de-Cabra

Quais foram as suas técnicas e os materiais usados por você durante a produção dessa HQ? Foram muito diferentes dos seus trabalhos em O Alpinista e Úlcera Vórtex?

Quanto às técnicas e materiais, nada diferente dos meus trabalhos anteriores: caneta nanquim, pincel e lápis. Os tons de cinza e retícula eu faço no computador, com o programa GIMP.

Fiquei com a impressão que sua arte e algumas páginas nesse quadrinho novo estão de alguma forma mais elaboradas. Você se propôs a fazer algo diferente nessa HQ?

Valeu Ramon! Acho que as vezes meu desenho pode ser mais elaborado e as vezes bem pouco elaborado. Tem alguns quadros que meu desenho chega ao ápice da coisa mais mal feita e relaxada, mas tem algumas vezes que eu tento caprichar, depende muito do tempo, da minha rotina e nem sempre gosto de desenhar. Um problema pra mim, por exemplo, é repetir o desenho dos rostos dos personagens, pois geralmente eu começo com desenhos detalhados e ao longo da historinha os rostos vão se deformando. Isso também acontece em Sinuca Paranoide, mas o Danete Ho é fácil de desenhar, pois seu cabelo cobre a maior parte do rosto. Ele é cabeludo!!!

O que tem de diferente nesse gibi é que fiz umas duas páginas com desenho inteiro, teve página dupla, coisa que não costumo fazer, mas fiz após conversas com o Paulo Gerloff. Por exemplo, aquela página dos túneis do Vietnã era um desenho bem pequeno, mas, após um toque dele, refiz e transformei numa página inteira. Ficou bem melhor.

O que eu mais gosto nos seus trabalhos são os personagens, como você desenvolve a personalidade e as particularidades de cada um. O que você acha que faz um bom personagem? Tem algum personagem de quadrinho, livro ou filme que você acha particularmente interessante?

Obrigado! Eu não sei dizer bem o que faz um bom personagem, mas acredito que quanto mais substância o personagem tiver, melhor (mas ser vazio, ser um nada, também pode ser uma característica interessante). Depende também de como o personagem é colocado, como é a relação dele com os outros. Por exemplo, eu gosto de personagens mudos, ou quase mudos, e como eles se relacionam com tagarelas. E também sou viciado em personagens bem coadjuvantes, tipo a The Egg Lady do Pink Flamingos ou aquele mordomo interpretado pelo John Turturro em A Herança de Mr. Deeds, que tem um pé com micose. São tipos que pra mim ficam marcados por uma característica física, de personalidade ou por uma relação muito específica e cômica com os outros personagens (aliás, o Adam Sandler é um mestre em colocar esse tipo de personagem nos filmes dele). Também acho interessante quando os personagens não aparecem na cena, como o Malão, namorado do Jecagay na Praça é Nossa. O Malão é um cara abusivo, mas sempre é defendido pelo ingênuo Jecagay (ah, o Malinho, do Sinuca Paranoide, não tem nada a ver como o Malão, apesar do nome).

Gosto de vários tipos de figuras, sejam sérias ou esquisitas, mas acho que nunca conseguiria criar personagens sérios.

“Nada supera a ação dos filmes dos anos 80/90 com Jackie Chan ou Sammo Hung”

Página de Sinuca Paranoide, HQ de Victor Bello publicada pelo selo Pé-de-Cabra

As suas histórias e seus personagens dialogam e fazem várias referências a filmes de ação dos anos 80. Quais são seus filmes preferidos dessa época e desse gênero? O que você mais gosta nessas produções dos anos 80 de explosões, guerra e outros elementos do gênero?

Gosto muito do primeiro Rambo, com aquele Stallone completamente perturbado e trazendo a guerra pra dentro dos Estados Unidos. Mas dos anos 80, prefiro filmes de ação com ficção científica, tipo Vingador do Futuro, Robocop, O Sobrevivente (esse eu vi na SBT quando tinha 9 anos na casa do carismático pescador Zica ), The Thing, Mad Max ou filmes de ação com artes marciais. Às vezes gosto mais dos atores do que do filme, então se tiver Schwarzenegger, Van Damme e Dolph Lundgren, não hesitarei em assistir. O que eu mais curto nesse tipo de filme é a diversão mesmo, alguns deles são estúpidos e ridículos e por isso são divertidos. Mas se tratando puramente da ação, nenhum desses filmes supera a ação dos filmes dos anos 80/90 com Jackie Chan ou Sammo Hung, como Police Story, Projeto China e Eastern Condors. Acho que o problema dos filmes americanos é que eles não sabem filmar lutas e as cenas de perseguição são entediantes quando não tem um Jackie Chan pendurado no carro (se bem que A Morte pede Carona e Viver e Morrer em Los Angeles têm cenas prazerosas de perseguição).

“Lobo Ramirez e Panhoca são os melhores editores do ramo”

Página de Sinuca Paranoide, HQ de Victor Bello publicada pelo selo Pé-de-Cabra

Esse é o seu primeiro trabalho solo pela Pé-de-Cabra. Qual balanço você faz dessa experiência? Quais são as principais semelhanças e diferenças das suas dinâmicas com os editores Panhoca e Lobo Ramirez?

Foi uma experiência muito positiva, nota dez pro Carlos Panhoca. Assim como a Escória Comix, a Pé-de-Cabra é uma editora que me deixou muito livre, sem prazo, sem nada. Vou te dizer que não teve diferença nenhuma em fazer um quadrinho pra Escória Comix e pra Pé-de-Cabra, são duas editoras como uma ética de trabalho muito parecidas. Creio que Lobo e Panhoca são os dois melhores do ramo. São pessoas gentis, generosas, do tipo que se eu tiver precisando de um rim os caras vão me dar!! O Lobo talvez entregue o rim numa caixa de pizza e demore um pouco pra enviar. Já o Panhoca não sei se tem dois rins funcionando.

Também queria saber da sua dinâmica com Emilly Bonna nas cores da capa e na criação da contracapa. Como vocês trabalham? Como foi o desenvolvimento dessas artes em conjunto?

A Emilly Bonna me salvou com as cores, porque eu tinha feito a capa com cores digitais e até tinha gostado, mas soube que na impressão as cores iriam mudar, pois usei cores muito saturadas, são cores que só existem no computador.

A Emilly já tinha desenhado a contracapa do Sinuca Paranoide e pintado com cores de lápis de cor, então achei que seria uma boa pedir pra ela pintar a capa também. Muito gentil, ela aceitou a missão de bom coração.

Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento? O que você tem lido/assistido/ouvido para passar o tempo durante a pandemia? Aliás, você gosta de ouvir música enquanto está criando os seus quadrinhos? Se sim, o que você ouviu enquanto criava o Sinuca Paranoide?

Assisti mais filmes durante essa pandemia, mas queria destacar um filme novo, um lançamento de 2019 chamado Greener Grass, que tem um final assustador, e o The Killing of Satan (1983), filme filipino que o Rodrigo Okuyama me recomendou (estou fazendo um cartaz desse filme pra ele). Quanto a leitura, estou lendo no momento o livro Horror Noire, da autora Robin R. Means Coleman.

Quando eu vou criar uma página de quadrinho e preciso também escrever os diálogos não costumo escutar nada, mas quando eu só tenho que desenhar o quadrinho e não preciso pensar, prefiro ouvir algum podcast, vídeos de pessoas falando sobre algum filme, ver jogos da NBA, etc. Mas algumas músicas me inspiraram e coloquei elas no Sinuca Paranoide, como a canção Charuto de Rasta, que fala sobre um charuto que não faz fumaça, Pitch The Baby, do Cocteau Twins, que fala sobre alguma coisa que eu não sei o que é, e até um André Matos que o meu vizinho Hoffman ouve, o André Matos cantando Kate Bush, sabe? Ele ouve músicas de muitos estilos, mas principalmente funk carioca e essa música do André Matos/Kate Bush.

A capa de Sinuca Paranoide, HQ de Victor Bello publicada pelo selo Pé-de-Cabra
Entrevistas / HQ

Papo com Victor Bello, autor de O Alpinista e Úlcera Vórtex: “Quando começo a desenhar eu nunca sei no que vai dar”

É difícil lembrar um quadrinho de estreia tão impactante e visceral na história recente das HQs nacionais como Úlcera Vórtex. Lançada em duas partes pelo selo Escória Comix em 2017, a HQ não foi a primeira obra do quadrinista Victor Bello, mas foi seu primeiro trabalho longo. As pouco menos de 100 páginas da HQ narram os feitos de Loépio de Deus e Adriano Gás na companhia da lagartixa Valdir Vegeta destruindo tudo o que veem pela frente contra os habitantes do violento mundo de Gorgonotúbia – instalado em um buraco negro interdimensional no estômago de um clone de Loépio.

De 2017 pra cá, Bello publicou Incontinência Tripária, 15ª edição da coleção Ugrito, e O Cegueta de Cristo, HQ curta impressa na segunda edição da revista Pé-de-Cabra. Trabalhos excelentes, mas apenas amostras do que viria a ser o grande feito do quadrinista em seguida a Úlcera Vórtex: O Alpinista.

Quadro de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pelo selo Escória Comix

Recém-publicado pela Escória Comix, o novo quadrinho de Victor Bello é um épico de 220 páginas em preto e branco narrando os dramas de Landoni, maior alpinista de todos os tempos, superado apenas em sua escalada derradeira, uma missão trágica que põe fim à sua carreira. Meses depois, o destino de Landoni vai ao encontro das investigações conduzidas pela detetive Norma Leprexau e seu parceiro Charles Bauduco em meio a uma conspiração envolvendo políticos e alienígenas que pode levar ao fim da vida na terra.

Espécie de repentista em quadrinhos, Victor Bello desfila personagens e tramas aparentemente improvisadas na construção de uma história grandiosa, com arte impactante e final catártico. Sempre exigindo fôlego do leitor. Dois anos após Úlcera Vórtex, o lançamento de O Alpinista sacramenta Bello como um dos grandes das HQs nacionais e a Escória Comix, do editor Lobo Ramirez, como uma das principais casas dos quadrinhos brasileiros.

Bati um papo com Victor Bello sobre O Alpinista. Na conversa a seguir ele fala sobre as inspirações e o desenvolvimento de seu novo trabalho, apresenta um pouco de sua formação como quadrinista e revela o início das atividades da Bufa Produções – parceria dele com a quadrinista Emilly Bonna que deve resultar em uma revista inédita no início de 2020. Saca só:

“Se tratando de esporte, não posso deixar de citar os filmes do Will Ferrel como uma influência, sabe aquele da patinação artística? E o da Nascar? E o de basquete? São tantos filmes bons!”

Página de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pela Escória Comix

Você pode contar um pouco, por favor, sobre o ponto de partida de O Alpinista? Houve alguma inspiração em particular que te levou a começar a produzir esse trabalho?

Olá Ramon! Obrigado pelo espaço! Então, há muitos anos eu tinha na minha cabeça uma idéia boba de dois alpinistas que viviam disputando pra ver quem era o melhor. Até que um deles morre em um ato heróico e é considerado o melhor pra sempre, o que frusta totalmente o outro alpinista. Isso ficou guardado/esquecido e quando surgiu a vontade de fazer um novo quadrinho pra Escória Comix, vi que poderia usar isso para começar a minha nova história. Inspiração em particular eu não lembro, mas estava com muita vontade de fazer uma história sobre algum esporte. Peguei o alpinismo, que é um esporte praticado em todo o mundo, praticado até por bebês e velhinhos senis, e vi que poderia abordar muitas questões com isso. E, se tratando de esporte, não posso deixar de citar os filmes do Will Ferrel como uma influência, sabe aquele da patinação artística? E o da nascar? E de basquete? São tantos filmes bons!

Duas coisas que me impressionam muito nos seus trabalhos: a quantidade de personagens, sendo cada um deles muito desenvolvidos, e a as várias reviravoltas e tramas paralelas que você cria. O que vem primeiro na sua cabeça: os personagens ou as histórias que você quer contar? Ou eles vão se desenvolvendo ao mesmo tempo?

Obrigado! Acredito que primeiro vem a história. Conforme vou desenvolvendo a história, aí surgem os personagens.

“Todo mundo pode aparecer e todos os personagens têm história, assim como todas as pessoas no mundo tem sua história também! “

Quadros de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pela Escória Comix

Enquanto o Úlcera Vórtex era protagonizado principalmente pelo Adriano Gás, o Alpinista tem vários coprotagonistas. Como você administra a presença, o desenvolvimento e a participação de cada um desses personagens no quadrinho?

Complicado, é algo mais instintivo. No Alpinista, depois da introdução, fiquei num pingue-pongue entre duas histórias separadas. Tento apresentar os personagens e a história individual de cada um deles aos pouquinhos, com mais sugestões do que revelações, pra atiçar a curiosidade e a imaginação da leitora e do leitor. Sem isso a história fica mortinha. Quanto à participação deles, como são muitos para administrar, prezo sempre pelo ritmo mais acelerado, cenas curtas, com rápida resolução ou um gancho. As vezes o personagem nem era pra ter importância, como o Guguto Milk. Neste caso, a história foi pra uma direção que acabou fazendo ele ser importante, aí vou vendo a necessidade de apresentar mais características dele, desenvolvê-lo, etc. No Úlcera Vortex, por exemplo, o dono da Agropecuária Iron Maide não ia aparecer, mas aí eu penso: por que não? Todo mundo pode aparecer e todos os personagens têm história, assim como todas as pessoas no mundo tem sua história também!

“O principal eu consegui fazer: colocar uma cena de onda gigante no gibi, coisa que não consegui em Úlcera Vortex. Se eu morrer hoje, morro feliz”

Um quadro de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pela Escória Comix

Voltando à trama: O Alpinista tem muitos personagens e a história é repleta de reviravoltas. Eu precisei ir e voltar algumas vezes para não me perder no enredo. Como você construiu essa história? Você também teve alguma dificuldade para não se perder durante a trama?

Então, não há muito método em como construo a história, eu faço uma página e vou imaginando todos os possíveis desenrolos da trama, o que mais me agrada é colocado nela. A parte da investigação foi mais difícil, pois tive que voltar mais vezes na história para não deixar furos. Como os investigadores são meio burrinhos, é uma característica dessa trama uma certa dose de confusão, eles vão construindo o caso a partir de pistas que parecem não fazer sentido ou tirando conclusões precipitadas, indo por caminhos estranhos, etc. Acho que as pessoas podem se perder em algum momento… Ficaria feliz se todos tiverem essa paciência de voltar, ler de novo… Esse comprometimento com a história é legal e importante. Mas não sei como as pessoas vão receber, espero que se divirtam. De qualquer modo, o principal eu consegui fazer: colocar uma cena de onda gigante neste gibi, coisa que não consegui em Úlcera Vortex. Se eu morrer hoje, morro feliz.

Aliás, você chega a finalizar um roteiro antes de começar a desenhar? Como foi a dinâmica de produção de O Alpinista? Quanto tempo levou pro quadrinho ficar pronto?

É tudo bem amador hahaha Não consigo escrever roteiro. Anoto, claro, algumas idéias soltas e palavras chaves. Tem coisa que eu guardo na cabeça e depois esqueço, aí já era, mas se eu esqueci não era importante. Quando começo a desenhar eu nunca sei no que vai dar, então é mais fácil ir pra vários caminhos, criar histórias paralelas e vários personagens. O quadrinho demorou mais ou menos um ano. Comecei a produzir pra valer a partir de setembro de 2018. Mas em janeiro daquele ano eu já havia feito as primeiras cinco ou oito páginas. Terminei no final de julho de 2019.

“No começo ia ter 70 páginas, depois 100. De repente tinha 150, mas falei pro Lobo que não passsaria disso. Quando contei no final tinha 210, por aí” 

Página de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pela Escória Comix

Você pode me falar, por favor, um pouco sobre as suas técnicas? Que materiais você usa? É tudo feito com papel e caneta? Tem algum elemento digital?

Trabalho com papel no formato A5, lápis e caneta nanquim. Em alguns momentos usei nanquim diluído em água. No computador eu pinto de preto as partes maiores dos desenhos. Também utilizo alguns tons de cinza e também aplico algumas retículas.

Como é a dinâmica do seu trabalho com o editor da Escória, Lobo Ramirez?

O cara é o chefe, né… A gente tem que respeitar. No caso do Alpinista, ele sabia pouco do que eu tava produzindo, mas é um carinha que confia em mim. Tinha mandado umas sete páginas pra ele, disse que seria uma história de um alpinista serial killer e eu até ia fazer isso, mas a história não rolou na minha cabeça, não ficava legal (inclusive acabo citando esse plot num diálogo entre Jimy Ioiô e Landoni). No começo ia ter 70 páginas, depois 100. De repente tinha 150, mas falei pro Lobo que não passsaria disso. Quando contei no final tinha 210 por aí, nem sei quantas páginas tem na verdade hahaha

“Hoje sonhei que dava uma bochada na cara daquele Weintraub, o incel, enquanto chutava os bago do Paulo Guedes, o babidi”

Página de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pela Escória Comix

Em maio de 2019 Carlos Bolsonaro fez um post imbecil no Twitter atacando um leitor do Úlcera Vórtex que fez uma homenagem ao quadrinho nas redes sociais. O que você pensa dessa galera que tá no poder e das merdas que eles têm feito?

O Alessio Esteves postou uma foto com a coletânea Porta do Inferno e alguns apetrechos do Adriano Gás e uma jaqueta do Asteroides (do Lobo), disse que ia dar porrada em bolsominions e foi muito engraçado a repercussão. Bom, o Carlos Bolsonaro, que fez o post, é um dos brasileiros mais burros e filhos da puta do momento, junto com seu pai e aquela trupe bizarra de ministros (hoje sonhei que dava uma bochada na cara daquele Weintraub, o incel, enquanto chutava os bago do Paulo Guedes, o babidi). Depois do golpe que deram na Dilma e da tramóia que fizeram pra prender o Lula não tem como esperar coisa boa. O Bolsonaro é a encarnação de tudo que há de mais repulsivo na sociedade e política brasileira, representa um Brasil vira-lata, racista, que odeia pobres… Um cara envolvido até o pescoço com merda pesada, com milícia. Ele, e quem tá do lado dele, só vai fazer merda, quem espera o contrário merece uma enxadada nas costas também.

“Eu e Emilly Bonna, autora de Esgoto Carcerário, criamos a Bufa Produções e pretendemos lançar uma revista de quadrinhos já no início de 2020”

Um quadro de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pela Escória Comix

Pergunta meio injusta porque você acabou de lançar um quadrinho de mais de 200 páginas e imagino que mereça um descanso, mas acho importante fazer: você já está trabalhando em algum projeto novo? Se sim, o que você pode adiantar?

Sim! Eu e Emilly Bonna, autora de Esgoto Carcerário, criamos a Bufa Produções e pretendemos lançar uma revista de quadrinhos já no início de 2020. Além disso, quero começar um novo gibi, de umas 40 páginas, mas ainda não confirmei com a editora que vai publicar, por isso não dá pra revelar muita coisa haha. Mas envolve sinuca!

Qual a memória mais antiga da presença de quadrinhos na sua vida?

Uma caixa cheio de gibi da Turma da Mônica, era a única coisa que eu lia quando criança. Gostava muito de uma história do Cascão no ferro-velho. E também meu irmão me dando um Teia do Aranha que ele tinha comprado num sebo.

Página de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pela Escória Comix

O que mais te interessa em termos de HQs atualmente? Que tipo de quadrinho você gosta de ler? Tem algum autor ou alguma obra que te chama mais atenção?

No momento estou lendo pouco quadrinhos, infelizmente. Gosto dos desenhos do Derf Backderf, Johny Ryan, Lawrence Hubbard, Hideshi Hino… Muitas coisas que só vi pelo Google Imagens. Mas o que mais acompanho é essa cena independente de quadrinhos do Brasil, mais voltado pro humor e nojeira, o que vem sendo publicado pela Escória Comix, Pé-de-cabra, etc. Tem muita coisa aí que gostaria de ler, mas ainda não li. Fora isso estou com muita vontade de ler Carolina, da Sirlene Barbosa e do João Pinheiro.

Você pode recomendar algo que esteja lendo /assistindo /ouvindo /jogando no momento?

Recomendo muito o seriado Nathan for You, que só consegui legenda em português para as duas primeiras temporadas. Se tem alguma boa alma que sabe legendar e esteja lendo isso, por favor, legende as outras temporadas de Nathan For You.

Página de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pela Escória Comix
A capa de O Alpinista, HQ de Victori Bello publicada pela Escória Comix
Entrevistas / HQ

Papo com os autores da coletânea Porta do Inferno: “A gente vê o diabo diariamente e faz de conta que não”

Os editores e quadrinistas Lobo Ramirez (Escória Comix) e Luiz Berger (Gordo Seboso) uniram forças para lançar a coletânea Porta do Inferno. O álbum de 76 páginas reúne histórias assinadas pelos dois editores e outros quatro artistas: Emily Bonna, Victor Bello, Diego Gerlach e o quadrinista mexicano Abraham Diaz. A obra tem início com um enredo assinado por Berger mostrando a abertura da porta do inferno na terra e as HQs seguintes apresentam algumas das consequências desse ocorrido, tendo o narrador Caio Tira-na-Cara como o responsável por conduzir o leitor ao longo do álbum.

Autor do épico ASTEROIDES – Estrelas em Fúria, lançado em março de 2018, em parceria da Escória Comix com a Ugra Press, Lobo Ramirez é das figuras mais ativas da cena brasileira de quadrinhos. Em 2017 ele publicou os celebrados NÓIA – Uma História de Vingança (Escória Comix/Vibe Troncha Comix), de Diego Gerlach, e os dois volumes do já clássico Úlcera Vórtex, de Victor Bello. Nove meses após ASTEROIDES, ele publica a parceria com Berger para encerrar o ano de seu selo pessoal com a coletânea de histórias de horror, morte e destruição protagonizadas pelos demônios de Porta do Inferno.

Após responder à breve entrevista a seguir e revelar o primeiro lançamento de sua editora para 2019 (O Alpinista, de Victor Bello), Lobo Ramirez entrevistou cada um dos cinco autores de Porta do Inferno para o Vitralizado. Nas conversas, os artistas falam sobre as inspirações para suas histórias na publicação e expõem suas suspeitas em relação à vinda do anticristo à terra. Saca só:

– LOBO RAMIREZ –

As portas do inferno estão abertas em território brasileiro?

Lobo Ramirez: Escancaradas.

Qual foi a inspiração de vocês para esse formato, com vários autores escrevendo histórias com a mesma temática?

Lobo Ramirez: A real é que esse era pra ser um quadrinho longo do Berger, mas ele desencanou de terminar e eu fiquei enchendo o saco pra lançar porque as páginas eram fodas. Então surgiu a ideia de chamar um pessoal e continuar a historia do ponto que ele parou. Eu não sei se tem alguma coisa nesse formato específico, já deve ter, mas de toda forma eu achei interessante o resultado e quero tentar outros títulos nesse mesmo estilo.

Quais será a próxima investida da Escória Comix?

Lobo Ramirez: Bom, oficialmente confirmado e em produção é um quadrinho do Victor Bello cujo título revelarei exclusivamente agora: O Alpinista, um gibi que ele vem produzindo desde o começo de 2018. Mas já tenho previstos outros 14 títulos novos para 2019, então vai ser um ano de varias investidas. Deus me acuda.

Um painel do quadrinista Luiz Berger presente em Porta do Inferno

– LUIZ BERGER –

LOBO RAMIREZ: Você já participou, como convidado e editor, de diversas antologias de quadrinhos, reunindo nomes nacionais e internacionais. Alguns nomes se repetem nessas publicações, por que Porta do Inferno é diferente das outras?

Luiz Berger: Sim, vários nomes se repetem e acho que vão continuar se repetindo nas próximas antologias. Eu gosto de seguir uma linha editorial com uma identidade, que é bem parecida, ou até igual, à do lobo ramirez. O que difere a Porta do Inferno das anteriores, é que nessa não são só histórias que seguem um tema, como a revista Goró, que reunia histórias sobre bebida, colocadas meio que em ordem aleatória. Nesse caso, as histórias começam do mesmo ponto, da porta do inferno que foi aberta no final da primeira história do gibi, e todas estão conectadas pelos comentários do personagem-narrador Caio Tiro-na-Cara, como em várias revistas de terror dos anos 50. Acho que essa revista está muito mais bem amarrada que as anteriores.

LOBO RAMIREZ: Quando você vai largar mão de ser trouxa e começar a produzir quadrinhos de merda com mais frequência?

Luiz Berger: Acho que esse ano eu volto a fazer com muito mais frequência. Editar essa revista me deu um belo ânimo pra voltar com o Gordo Seboso.

– ABRAHAM DIAZ –

LOBO RAMIREZ: Você já participou de várias antologias de quadrinhos, incluindo Goró (Gordo Seboso), que tem três dos quadrinistas presentes na Porta do Inferno. Há muitos outros quadrinistas nesse meio mais podre no México? Ou você acha que há uma cota de retardados dos quadrinhos por país?

ABRAHAM DIAZ: No México, o quadrinho marginal está apenas começando a se desenvolver. Sem dúvida, há muitos cartunistas começando a publicar quadrinhos podres e eu acho que nos próximos anos haverá um boom nos quadrinhos mexicanos e na arte em geral.

LOBO RAMIREZ: Você acha que Porta do Inferno é mais uma imagem de um bando de marginais falando sobre o diabo, cocô, violência e blasfêmias gratuitas?

ABRAHAM DIAZ: Sim, eu acho que Porta do Inferno é isso, mas eu também acho que não poderia ser outra coisa hahaha

– EMILLY BONNA –

LOBO RAMIREZ: Conte-nos um pouco sobre sua relação com quadrinhos. Você tem um trabalho com ilustração, mas já tinha feito quadrinhos antes? Qual a diferença entre produzir um quadrinho e uma ilustração?

Emilly Bonna: Na infância não cheguei a ler muitos quadrinhos, mas me chamava atenção a estrutura deles, que possibilitava contar histórias através de desenhos. Comecei a fazer breves historinhas pra mim mesma aos nove anos e, conforme foi passando os anos, continuei fazendo quadrinhos e zines bem amadores e com pouca circulação. Na ilustração eu posso passar uma ideia rápida do que quero expressar e nos quadrinhos as formas de explorar um tema são mais amplas.

LOBO RAMIREZ: Por que você aceitou fazer parte desta patotinha horrível de pessoas degeneradas? Não tem medo do que vão falar de você na igreja?

Emilly Bonna: Eu estava no culto da igreja Deus é Amor e no meio da oração, Jesus, na forma do piolho da irmã que estava na cadeira da frente, me disse: ‘Participe de uma HQ de alto grau satânico para enaltecer o Diabo, tô brigado com meu pai Deus, quero deixar o véio puto’. E então cumpri o pedido de Cristo, amém. Não tenho medo do que vão falar pois já envenenei todos os membros da igreja com cianeto misturado no suquinhos Tang de uva.

– VICTOR BELLO –

LOBO RAMIREZ: Na história Fuim, o Xupador de Ossos, mesmo em poucas páginas, você insere uma vasta gama de personagens e parece que a qualquer momento podemos acompanhar qualquer um deles com uma história diferente. Nessa história específica, quais foram suas inspirações para os personagens?

VICTOR BELLO: Nessa história eu quis fazer uma investigação estilo Arquivo X. O demônio não teve uma inspiração específica, mas os personagens da gangue que trafica cascos de tartaruga eu me inspirei em personagens aleatórios de filmes da produtora Troma, gente esquisita. Outros, como as vítimas, busquei as características em típicos personagens que morrem em filmes slashers, então uma das vítimas é um jovem pixador que usa drogas, o outro é um pescador que pesca tartaruga em extinção. São pessoas que num filme slasher são descartáveis. O jovem pixador é parecido também com personagens de propaganda cristã anti-drogas.

LOBO RAMIREZ: Não te incomoda os editores dessa revista claramente estarem ganhando milhões às custas de jovens talentos?

VICTOR BELLO: Incomoda. E me incomoda tanto que pretendo roubar toda a fortuna desses dois em um golpe que já está em curso e assim montar minha própria editora. Os contratarei com carteira assinada, pagarei um salário e os tratarei com toda decência.

– DIEGO GERLACH –

LOBO RAMIREZ: Fazer parte do gibi Porta do Inferno é mais uma de suas participações numa antologia de quadrinhos. Qual o lugar você enxerga que essa história tem dentro do seu trabalho? Ela dialoga de alguma forma com a sua produção atual ou cada título,  cada quadrinho, se adequa a necessidades específicas?

DIEGO GERLACH: Acho que tem as duas coisas, sempre dialoga com as outras HQs que tenho feito e por outro lado também sempre supre uma necessidade específica. Essa HQ pra Porta do Inferno tem umas coisas que vinha fazendo em outros trabalhos (grids fixos, desenho digital fotoreferenciado), mas ao mesmo tempo a demanda era específica (e inédita pra mim): uma HQ de terror com uma pegada clássica. Levou um bom tempo pra ser concluída, ela meio que mudou de rumo e acabei incorporando alguns elementos de uma lenda urbana que me foi contada algumas vezes na época em que fazia catequese. O terço final foi criado no intervalo do primeiro pro segundo turno das eleições de 2018.

LOBO RAMIREZ: Você acha que o verdadeiro anticristo vira à terra como um homem de deus?

DIEGO GERLACH: Como ateu criado no catolicismo, o diabo pra mim é o conceito alegórico definitivo… Mesmo que não exista um ‘verdadeiro’. Tem vários ‘homens de deus’ que são o diabo em pessoa (preciso dar exemplos…?), vão na direção diametralmente oposta dos ensinamentos do mito crístico. É isso: a gente vê o diabo diariamente e faz de conta que não. (Como curiosidade, meu avô queria que eu me tornasse padre.)

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Úlcera Vortex – Volume II: confira uma prévia e a capa da segunda edição da saga criada por Victor Bello

Já comentei por aqui o tanto que gostei da primeira edição de Úlcera Vortex do Victor Bello e como aguardo ansioso pelo segundo volume da série. O pessoal da Escória Comix me mandou a capa e adiantou duas páginas desse próximo número. Ó a sinopse produzida pelos editores da HQ: “Na conclusão dessa saga, Adriano Gás se aventura pelo violento mundo de Gorgonotúbia destruindo tudo pela frente”. Muito promissor. A expectativa é que o quadrinho seja lançado no Ugra Fest 2017, mas também poderá ser encomendado no site da Escória por R$ 20 mais o custo de envio. Altas expectativas, viu?

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