Papo com Tessa Hulls, autora de Meus Fantasmas: Uma Autobiografia em Quadrinhos: “Escondemos coisas de nós mesmos até estarmos prontos para encará-las”

Conversei com a quadrinista estadunidense Tessa Hulls sobre Meus Fantasmas: Uma Autobiografia em Quadrinhos. A obra recém-lançada no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Érico Assis, ficou marcada por sua vitória Prêmio Pulitzer, na categoria Memória ou Autobiografia, em 2025. A minha entrevista com a autora serviu de base para a reportagem que escrevi sobre o álbum para a Folha de S.Paulo. Você lê o meu texto clicando aqui.

Compartilho abaixo a íntegra da minha conversa com Hulls. Ela me falou sobre sua relação com quadrinhos, o ponto de partida de Meus Fantasmas e o desenvolvimento da obra, além de possíveis paralelos entre os Estados Unidos de Donald Trump e a China de Mao Tsé-Tung. Recomendo a leitura do livro, da minha reportagem e da entrevista com a autora. Papo massa, saca só:

“Escolhi os quadrinhos porque sabia que poderia incorporar alguns dos níveis metalinguísticos da história da minha família ao próprio meio”

Página de Meus Fantasmas: Uma Autobiografia em Quadrinhos (Companhia das Letras), obra de Tessa Hulls (Divulgação)

Você retrata no livro um pouco das origens da sua relação com histórias em quadrinhos, mas gostaria de saber: qual a memória mais antiga da presença de histórias em quadrinhos na sua vida?

Meus pais são ambos imigrantes – minha mãe da China, meu pai da Inglaterra – e meu primeiro contato com quadrinhos foi por meio de um urso britânico chamado Rupert. Todo Natal, meus avós britânicos me presenteavam com a coletânea do Urso Rupert, cujas páginas acompanhavam um urso branco de calças xadrez e um cachecol elegante, perambulando e vivendo aventuras com seus colegas da escola na floresta. Era algo muito britânico, mas o que ficou comigo foi a estrutura. Cada página tinha quatro painéis ilustrados com um dístico rimado logo abaixo, e depois a metade inferior da página trazia a mesma história contada em forma de narrativa. Havia algo nisso – a ideia de que você pode ter uma mesma história contada de três maneiras em uma única página – que claramente se fixou em mim em um nível estrutural profundo.

Também cresci com um grande amor por Calvin e Haroldo, e meus cadernos de desenho da infância estão cheios de versões mal desenhadas das minhas tiras favoritas. Há algumas frases de Calvin e Haroldo que adotei como mantras de vida, incluindo: “Se seus joelhos não estiverem verdes até o fim do dia, você deveria seriamente repensar a sua vida.”

Você também explica no livro como a existência dele faz parte da sua jornada, da sua busca pela sua história e suas origens. Você pode me contar, por favor, por que contar essa história como história em quadrinhos? O que você vê de mais singular na linguagem das histórias em quadrinhos?

Os quadrinhos permitem contar várias histórias ao mesmo tempo e comprimir ou expandir o tempo de maneiras que não são possíveis apenas em um livro apenas com palavras (é assim que passei a chamar os livros escritos). Escolhi os quadrinhos porque sabia que poderia incorporar alguns dos níveis metalinguísticos da história da minha família ao próprio meio, fazendo coisas como colocar palavras e imagens em contradição entre si, para levar o leitor a refletir sobre o que significa viver dentro de uma narrativa em que não se pode confiar no que está sendo contado. Como o livro trata muito da repetição de traumas intergeracionais, há muitos momentos em que eu espelho sutilmente a composição dos painéis ou as minhas poses, as da minha mãe e as da minha avó, para mostrar como o passado se repete através das gerações. E, mesmo que isso não seja percebido de forma consciente, nós, humanos, somos tão inclinados a reconhecer padrões que acredito que isso se internaliza em um nível somático. Trabalhar com quadrinhos me permitiu contar uma história que é, ao mesmo tempo, academicamente densa e emocionalmente íntima, além de mostrar que a história nunca pode ser separada da experiência individual.

Há alguns anos entrevistei o quadrinista Chris Ware e ele me contou como vê histórias em quadrinhos como “arte da memória”. Ele me disse: “Acho que o potencial dos quadrinhos para capturar o fluxo e refluxo da consciência em toda sua complexidade visual e linguística foi muito pouco explorado”. O seu livro é uma história em quadrinho sobre as suas memórias e as memórias da sua família. Qual é a sua leitura sobre o potencial dos quadrinhos para “capturar a complexidade da nossa consciência”?

Eu amo essa fala do Chris Ware! Sou uma pessoa que vive muito no próprio corpo, então minhas memórias são mais sentidas do que propriamente lembradas, e acho que os quadrinhos me permitem capturar algo dessa sensação. É como a diferença entre uma fotografia e um vídeo; ambos registram um recorte do tempo, mas um deles também consegue mostrar contexto e mudança.

O seu livro retrata muito da sua compreensão como cidadã estadunidense. O que é ser um cidadão dos Estados Unidos para você? O que é os Estados Unidos para você?

Os Estados Unidos são um país em conflito com um mito fundacional que se tornou tóxico, e, em vez de extirpar algo que está envenenando o corpo maior, a atual administração federal se agarra à força ao passado. E esse passado é algo que, na verdade, nunca existiu de fato. Grande parte de como enxergo o momento atual nos Estados Unidos é influenciada pela década que passei estudando a China após a Revolução Comunista de 1949. Os paralelos com as campanhas de Mao para negar a ciência, destruir a educação e expurgar das fileiras qualquer pessoa experiente, substituindo-as por leais ao partido – bem, o passado tem uma tendência a se repetir, e a pesquisa que fiz para Meus Fantasmas talvez me deixe especialmente atenta a esse ciclo específico de repetição.

“Tenho uma enorme confiança na ternura e no cuidado que existem entre grupos de pessoas que escolhem se ver como família”

Página de Meus Fantasmas: Uma Autobiografia em Quadrinhos (Companhia das Letras), obra de Tessa Hulls (Divulgação)

E no livro você conta como é recente que passou a se compreender como uma cidadã estadunidense e entender melhor aqueles que vêm de fora. É uma compreensão que veio em um momento de muita incompreensão dos Estados Unidos em relação ao seu próprio povo e aos estrangeiros. Como você interpreta os rumos conservadores que os EUA estão tomando?

Há muita coisa que eu amo nos Estados Unidos, e me sinto profundamente moldada pela audácia que está no cerne da cultura do país. É algo extremamente estadunidense eu simplesmente ter decidido aprender sozinha a fazer quadrinhos e transformar meu primeiro livro em uma saga que levou uma década. Estamos com medo, e as pessoas fazem coisas idiotas quando estão com medo; e, no caso dos Estados Unidos, infelizmente temos uma enorme quantidade de poder internacional – o que significa que, quando temos acessos de birra, as reverberações geopolíticas são gigantescas.

Aliás, eu terminei o seu livro otimista. Acho que você passa uma mensagem otimista de busca por compreensão. Você é otimista? Você vê potencial para o mundo se tornar um lugar melhor?

No nível da comunidade, sinto um profundo otimismo; em uma escala mais ampla… É difícil sentir muita esperança. A mudança climática é o penhasco em direção ao qual todos estamos correndo, e o fato de os Estados Unidos terem basicamente saído do eixo justamente na última janela de tempo em que ainda poderíamos evitar o que está por vir — às vezes parece um pouco como escolher tocar música no convés do Titanic enquanto o navio afunda. Mas, ao mesmo tempo, tenho uma enorme confiança na ternura e no cuidado que existem entre grupos de pessoas que escolhem se ver como família, e acho que podemos construir vidas belas em meio a uma paisagem mais ampla de ruína. Para citar Jurassic Park: “A vida encontra um caminho.”

Eu queria saber um pouco sobre técnica e métodos de trabalhos. Quais materiais você usou? Você chegou a finalizar um roteiro inteiro do livro antes de começar a desenhar?

Antes de começar Meus Fantasmas, eu era uma pintora que trabalhava com guache. A cada poucos anos, eu fazia uma exposição individual de pintura e criava um corpo de trabalho coeso, no qual eu havia trabalhado em todas as pinturas simultaneamente. Em um dia comum de trabalho, eu podia alternar entre meia dúzia de pinturas, e eu as prendia na parede para poder vê-las ganhar definição como um conjunto. Foi assim que fiz Meus Fantasmas, só que os desenhos ocupavam cerca de 370 metros quadrados — então usei um programa chamado Scrivener para criar uma espécie de parede digital que pudesse acomodar cada página. Escrevi o livro inteiro primeiro como um ensaio de não ficção criativa de 10 mil palavras, para estabelecer a estrutura geral da obra, mas depois desenhei tudo de forma não sequencial e fui descobrindo a linguagem real de cada página ao essencialmente criar cada peça como se fosse um quebra-cabeça, tendo depois que encaixá-las no final.

Então nunca houve roteiro, thumbnails ou lápis de estudo, e só consegui trabalhar assim porque minha editora nunca havia trabalhado em uma graphic novel antes. O lado positivo dessa abordagem foi que o processo se manteve dinâmico; nunca houve um período de produção em “piloto automático”. Mas isso significava que eu precisava manter o livro inteiro na minha cabeça ao mesmo tempo, já que nunca existiu um mapa geral da obra.

Você cita o Jason Lutes nos agradecimentos do seu livro. Eu também fiz uma entrevista com ele há alguns anos na qual ele me falou sobre um esforço dele em aulas está em passar para seus alunos a importância da clareza. Ele me disse: “qualquer que seja sua intenção, o que quer que você esteja tentando comunicar, clareza é o que vai te ajudar a chegar lá”. Quando você começou Meus Fantasmas, o quanto estava claro para você onde você queria chegar?

Eu sabia, desde o início, que meu objetivo era curar a minha relação com a minha mãe; e, sendo honesta, provavelmente eu sempre soube que, para isso, eu teria que entrar no território emocional do qual passei a vida inteira fugindo. Mas acho que os seres humanos são muito complexos, em camadas, e nós escondemos coisas de nós mesmos até estarmos prontos para encará-las. Então, embora meu subconsciente estivesse claro desde o começo, passei alguns anos mentindo para mim mesma de forma bastante deliberada sobre o que eu estava tentando fazer, afirmando que eu estava fazendo um livro de história, e não um livro sobre trauma e sentimentos.

O seu livro tem várias idas e voltas, diversas digressões, mas está muito clara para mim a linha de raciocínio que você construiu. Foi difícil para você manter essa clareza, uma coerência e um padrão (no seu texto e nos seus desenhos), ao longo de todos esses anos de produção? Aliás, confirma para mim, por favor, os anos em que você começou e terminou o quadrinho?

Comecei o livro em 2015 e ele foi lançado em 2024. Ter que desenhar no mesmo estilo por tantos anos foi uma tortura para mim, e sinto que, mesmo dois anos depois, ainda estou tentando recuperar um senso de fluidez e exploração no meu processo de criação. David Lasky me deu um conselho muito útil antes de começar, que é o de não desenhar desde o início em ordem cronológica, porque em um projeto grande o estilo inevitavelmente evolui depois que você se estabelece nele. Há muitos graphic novels em que isso é visível; a arte vai ficando melhor e mais fluida conforme o livro avança. Então, ao escolher desenhar o livro inteiro de forma simultânea, eu me poupei desse problema — mas isso significava que páginas que poderiam vir em sequência talvez tivessem sido desenhadas com três anos de diferença entre si. Por isso, depois que o livro ficou pronto, eu voltei e redesenhei algumas partes para deixar a representação dos personagens e a qualidade do traço mais consistentes.

“Há algo um pouco estranho em um livro que não foi escrito a partir do desejo de ser lido”

Página de Meus Fantasmas: Uma Autobiografia em Quadrinhos (Companhia das Letras), obra de Tessa Hulls (Divulgação)

O seu livro é muito centrado no impacto das diferenças culturais e sociais da sua família em você e nas dinâmicas da sua família. Já adulta, você viajou bastante e imagino que teve contato com culturas ainda mais diversas. Eu fico curioso, além das diferenças, o que você vê de mais comum entre todas essas culturas? Por exemplo, tem alguma semelhança particular entre os Estados Unidos e a China que você não vê as pessoas reparando?

O fato de eu ter escolhido fazer a maior parte das minhas viagens de bicicleta significa que eu me coloco no mundo de formas que convidam a muita interação direta e a encontros casuais inesperados, e meu principal aprendizado após 20 mil milhas sozinha de bicicleta é: as pessoas são programadas para oferecer graça, nós apenas criamos um mundo no qual quase não há espaço para que essa graça seja demonstrada. Entramos em carros fechados, onde seguimos pontos em pequenas telas e ouvimos músicas que escolhemos nos nossos celulares. Pedimos a comida que queremos em telas sensíveis ao toque, ficamos em Airbnbs onde nos deixamos entrar por meio de teclados, assistimos a filmes e séries ajustados aos nossos desejos individuais em pequenos retângulos brilhantes, e vemos outras pessoas mediadas por filtros e algoritmos nas redes sociais.

As pessoas temem o desconhecido, e o paradoxo do nosso mundo tecnologicamente hiperconectado é que não temos mais espaços sociais onde as pessoas possam se tornar conhecidas. Somos uma espécie profundamente curiosa, que anseia por conexão, mas eliminamos sistematicamente os lugares onde essa conexão poderia acontecer — e acho que os Estados Unidos são piores nisso do que a maioria dos outros países. Então essa é a minha avaliação em grande escala da cultura.

Acho que todo artista gosta de imaginar suas obras circulando o mundo e sendo reconhecida (seja com prêmios ou leitores). O que significou para você toda a repercussão que Meus Fantasmas teve? Me refiro, por exemplo, a prêmios como o Pulitzer e até mesmo o lançamento da obra em outros países. 

Honestamente, eu não penso nessas coisas. Meu trabalho era fazer o livro para consertar algo que estava quebrado dentro da minha família, e agora que o livro está no mundo — ele está em sua própria jornada, e sou grata por ele já não ser mais a minha jornada. Se a história ajudar alguém, fico feliz que possa ser útil, mas eu realmente não tenho desejo nem necessidade de um público.

Às vezes me pergunto se é por isso que o livro foi recebido da forma como foi; porque há algo um pouco estranho em um livro que não foi escrito a partir do desejo de ser lido. Enquanto trabalhava nele, passei seis meses vivendo sozinha em uma cabana autossuficiente em uma região remota de natureza selvagem no Oregon. Eu basicamente me tornei um animal, e deixei de lado muitos aspectos da sociedade humana que parecem impossíveis de abandonar. E, como parte disso, eu caminhava até o rio todos os dias, e aquelas águas levaram embora qualquer senso de ambição que eu já tive. Parei de sentir qualquer necessidade de que meu trabalho fosse visto, e isso nunca voltou.

Aliás, o que você acha quando o seu trabalho é publicado em um país como o Brasil? Você tem curiosidade sobre como um livro que você fez será lido e interpretado em um contexto tão diferente do seu?

Eu tenho curiosidade, mas também sei que não tenho o contexto necessário para prever ou entender o que vai ou não se traduzir entre culturas. Gosto de chegar às conversas com a mente aberta e disposto a aprender, então estou ansiosa para conversar com leitores brasileiros, mas não tenho ideias pré-concebidas.

A última! Você recomendar algo que esteja lendo, vendo ou ouvindo no momento?

Estou meio que, sem querer, trabalhando em um novo projeto grande, editando uma antologia de escritores (o que não conta como escrever outro livro! Eu estou EDITANDO!) sobre como as bibliotecas os moldaram, com o projeto estruturado como uma campanha nacional de arrecadação de fundos para bibliotecas públicas. Então tenho pensado bastante em bibliotecas e direcionado minhas leituras para esse tema.

A capa da edição brasileira de Meus Fantasmas: Uma Autobiografia em Quadrinhos, obra de Tessa Hulls (Divulgação)

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Ramon Vitral

Meu nome é Ramon Vitral, sou jornalista e nasci em Juiz de Fora (MG). Edito o Vitralizado desde 2012 e sou autor do livro Vitralizado - HQs e o Mundo, publicado pela editora MMarte.

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