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Entrevistas / HQ

Papo com os editores da revista A Zica: “Fazer esta revista com recursos públicos durante este governo é uma retomada de posse e marcação de território para produção cultural” 

A sexta edição da revista A Zica tem como tema “escola, café e videogame”. Com capa de Suryara Bernardi, o mais recente número da publicação editada por Luiz NavarroMarcos Batista e João Perdigão tem 168 páginas e conta com trabalhos de 73 artistas (brasileiros, argentinos, mexicanos, indianos e portugueses). Sua impressão foi bancada via recursos públicos da Lei Aldir Blanc.

Entrevistei os três editores e perguntei sobre a importância do lançamento dessa nova Zica em meio ao governo de Jair Bolsonaro. A resposta: “Quando ela for lida daqui a muitos anos, será entendida neste contexto neofascista, e os trabalhos produzidos vão ser uma nota histórica importante de que tinha muita gente horrorizada e insatisfeita com este anacronismo que é essa extrema-direita no poder”.

No nosso papo, Navarro, Batista e Perdigão também fizeram um balanço sobre esse sexto número da revista, comentaram suas principais surpresas com essa nova edição e refletiram sobre os mais de 10 anos de existência do título, entre outros temas. Aproveito para recomendar a leitura da minha entrevista com o trio na época do lançamento da Zica #5 e deixo, a seguir, a minha nova conversa com os três. Ó:

“Cada vez mais queremos abarcar diversidades de estilos e artistas”

Página de HQ de Beatriz Shiro publicada na sexta edição da revista A Zica (Divulgação)

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas aí? Como vocês estão lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a produção e a rotina diária de vocês?

Absolutamente. Nós três somos escritores, pesquisadores, livreiros, produtores, comerciantes – em maior ou menor grau todos exercemos estas funções – e a pandemia acabou fechando algumas dessas portas para nós. João e Batista lançaram livros durante a pandemia e não puderam fazer uma rotina de lançamento viajando e divulgando seus trabalhos. A própria Zica não pode ter um lançamento com evento festivo e alegre, como a gente gosta. A Feira Canastra que tem entre seus produtores Luiz e João tem data incerta para a próxima edição, a grana ficou curta para todos nós. Mas a gente não adoeceu, e os nossos, em grande maioria, estão bem, então estamos gratos e atentos.

No editorial da revista vocês explicam a escolha de “escola, café e videogame”. Fiquei com a impressão de vocês irem num tema central/factual/urgente da nossa realidade (escola) a dois métodos escapistas muito convenientes para encarar (café) e fugir (videogame) dessa mesma realidade. Vocês podem fazer um balanço entre as expectativas de vocês quando optaram por esses temas e as obras que receberam?

Os temas em geral seguem a lógica de ter um sobre o Zeitgeist do momento da edição (apocalipse, Rússia, América Latina, propaganda), uma mais comportamental (maconha, bullying, vandalismo) e um mais zoeiro-tema livre (vermes, dinossauro, trevas). Mais ou menos assim que vemos a escolha dos temas. Então ficamos nesta edição com escola como o grande tema da temporada (o zeitgeist), o video-game como o comportamental e o café como tema livre. Mas sempre cremos que não há uma hierarquia entre eles, que todos importam da mesma forma, têm o mesmo peso.

Nesta edição a expectativa era que todos temas trariam boas reflexões e múltiplas abordagens, e foi exatamente o que aconteceu. Já teve edições que um dos temas quase não foi abordado, já teve outras que um dos temas era quase onipresente nos trabalhos. Nesta há um equilíbrio e uma diversidade muito satisfatória, que dão uma dimensão bem grande de leitura da revista.

Página de HQ de Diego Melo Gomes publicada na sexta edição da revista A Zica (Divulgação)

E como vocês acham que essa nossa atual realidade sócio-econômica-pandêmica impactou o resultado final da revista? Eu tendo a ver coletâneas como A Zica como espaços muito ocupados por obras de humor e não sei se foi o caso dessa edição nova de vocês. Ela me parece mais séria, com algumas obras mais pessimistas e agressivas, do que encontrei em edições prévias. Vocês concordam?

Concordamos em parte. De fato a maior parte das antologias brasileiras desta natureza têm um foco em humor, creio que é um brilho e uma tradição do país. Mas cremos que A Zica está em constante mudança, nunca primamos por ser uma publicação de humor. Cada edição fica à mercê do que recebemos, e apesar de haver um processo de edição, não temos todo esse poder de direcionar a revista para um lado ou outro pois se recebermos somente quadrinhos, ou somente ilustrações, será uma edição que reflete o conteúdo recebido. Por exemplo, a primeira edição era basicamente com trabalhos de artistas de rua, só com ilustrações e textos (sem quadrinhos), a quinta edição é mais bem humorada, a sexta é mais sóbria, com menos peças de humor e mais reflexão.

Esta última achamos que ficou bem engraçada, muitos trabalhos bem humorados também, mesmo que em um humor que talvez reflita o desespero, o desolamento e o cinismo das pessoas ante este mundo e este Brasil de 2021. Não é uma revista sobre a pandemia, mas uma revista produzida durante a pandemia. Inevitavelmente esse contexto influiu nos trabalhos. E engraçado pensar sobre sua percepção, creio que nenhum de nós pensaria que A Zica seria mais ocupada por humor, talvez sempre vimos ela com mais ênfase no protesto. Mas é a visão de cada pessoa que lê que forma a revista, aliado ao material recebido a cada edição.  

Repito duas perguntas da entrevista que fiz com vocês sobre a edição passada: o que houve de mais singular durante o desenvolvimento desse sexto número d’A Zica? E o que mais surpreendeu vocês em relação aos trabalhos que receberam?

Uma das coisas que mais nos surpreendeu foi receber e publicar tantos trabalhos do universo LGBTQI+. A Zica nunca recebeu tantos trabalhos que versam sobre o queer como nesta edição. É uma coisa que nos deixa feliz, a revista ser vista por artistas como um espaço para publicação de trabalhos que tocam nesta vivência. Foi muito espontânea essa abordagem, pois nós não incentivamos aos artistas que enviassem trabalhos queers, nem os temas desta edição são particularmente sugestivos para que esta vivência fosse abordada. E cremos que o que isso mostra, como já sabemos, é que o queer está embebido no nosso mundo e atravessa todos os assuntos, então falar de video-game, escola e café, ou qualquer outro assunto, permite este tipo de visão das pessoas que estão vivendo e trabalhando sob esta ótica.

Outra questão que marcou nessa edição foi o processo de desenvolvimento da capa. Nós estávamos pensando se escolhíamos entre algum dos trabalhos recebidos ou se convidávamos um artista para produzir a capa. Numa conversa entre o João e uma amiga, a Débora, surgiu a ideia de fazer uma referência às manifestações dos secundaristas que ocuparam as escolas do país entre 2015 e 2016. Essa ideia surgiu a partir da inspiração de um dos trabalhos que recebemos, da Suryara: uma ilustração de uma estudante negra em cima de uma cadeira com uma bandeira de protesto. Nós não conhecíamos a Suryara nem o trabalho dela e fomos pesquisar. Foi surpreendente. Ela tem um traço delicado e muito bonito. Daí, convidamos ela para a capa. A ideia, que foi uma sugestão também da Débora, foi fazer uma releitura de uma foto emblemática daqueles protestos de uma estudante negra chamada Marcela Nogueira disputando uma carteira com um policial militar. O resultado foi incrível e muito forte. Toda a potência da imagem traduzida em um traço muito delicado. Gostamos muito desta capa. E isso revela outro aspecto surpreendente desta Zica: recebemos muitos trabalhos com traços e estilos mais delicados, mais sensíveis. O que derruba um estigma da Zica ter uma identidade hardcore e só. Cada vez mais queremos abarcar diversidades de estilos e artistas e estamos conseguindo.

“A Zica nunca recebeu tantos trabalhos que versam sobre o queer”

Página da HQ de Manda Conti publicada na sexta edição da revista A Zica (Divulgação)

E sobre a proposta da Zica de servir de vitrine para novos talentos: quais autores que nunca tinham saído na revista que mais chamaram atenção de vocês? Confesso ter ficado bastante impressionado com o trabalho de Manda Conti.

Manda Conti foi uma das alegrias que a descoberta traz. Outra é a Suryara, que já comentamos. Falar de nomes é sempre um dodói num tipo de publicação assim, ainda mais pra Zica que novidades e nomes conhecidos são sempre vistos na mesma régua de certa maneira. Mas o trabalho de Ismael Flores é uma surpresa maravilhosa, pois é um ilustrador mexicano de mão cheia que nunca havia publicado um quadrinho, e logo na Zica ele envia um trabalho tão complexo (em termos de execução) e sensível – Memórias de um Mirão, leiam. Temos também os textos, que nesta edição tivemos uma atenção maior em publicar, para que nas próximas edições possamos ter uma adesão maior de quem escreve sem pressão entre quem é jornalista, poeta ou contista, queremos que escritores e escritoras tenham A Zica como um lugar de publicação também. Tem uma participação supimpa do Cecil Silveira que fez nossa primeira duotone, que agora abre as portas para que na próxima edição possamos receber trabalhos em duas cores, e não apenas em escala de cinza. Tem o Diego Gomes que nos divertiu imensamente com sua junção de Hermes e Renato com Charles Darwin, a Bia Shiro com uma porradona riot zoando os macho game. Mas no geral esta é a revista com mais surpresas, o que nos mostra que já circulamos mais do que imaginamos, e mais artistas fora do nosso radar entram em contato conosco, o que nos alegra pois a revista está cumprindo sua missão.

Página da HQ de Marco Vieira publicada na sexta edição da revista A Zica (Divulgação)

Já são mais de 10 anos desde o lançamento da primeira Zica. Na nossa última conversa vocês já falaram sobre as muitas diferenças que notaram no cenário de quadrinhos/publicações independentes no qual A Zica está inserida. Queria saber agora: nesses mais de 10 anos, vocês notam muitas transformações nos interesses e nas investidas estéticas dos autores desse cenário? Se sim, vocês veem essas transformações presentes de alguma forma nessa sexta Zica? 

Totalmente. Os interesses e investidas apresentados nos trabalhos estão bem mais diversos do que o cenário apresentava 10 anos atrás. Como falamos, muitos trabalhos queer, e também mais liberdade e maturidade para falar de sentimentos mais complexos como perdas, amadurecimento e sentimentos íntimos. Creio que de forma inconsciente o habitual de trabalhos passados eram impressionar, pelo visual do trabalho ou pelo choque do discurso. Falo isso não das edições passadas, mas do cenário brasileiro. E assim como a cena artística nacional, que A Zica é mero reflexo, esta edição apresenta trabalhos mais radicais, seja pela honestidade escancarada, sem que o choque seja o gancho que fisgue quem lê, seja pela diversidade de técnicas e estilos, que já não são mais tão espetaculares ou toscos radicais. Temos uma gama de artistas produzindo trabalhos de tudo que é forma, mas menos preocupados em atender uma estética publicitária ou das redes sociais, mas que sejam honestas com a verdade de quem produz, então nesta edição fica bem claro que o desenho mais (tecnicamente) incrível e o mais radicalmente desgraçado não querem agradar uma agenda social, mas sim agradar quem os cria. Ficamos felizes em ver que os artistas e as artistas conseguem veicular mais e melhor suas próprias vozes e verdades, o que talvez fosse ainda incipiente há 10 anos.

A Zica #5 saiu às vésperas das eleições de 2018. Na época perguntei qual vocês consideravam o papel de uma publicação independente, com ares subversivos como A Zica em um contexto de conservadorismo crescente. As coisas pioraram muito de lá para cá. Qual vocês consideram o papel de uma publicação como a Zica hoje, no Brasil de Jair Bolsonaro?

Fundamental, histórica. Nesta edição tivemos noção que ela é um documento histórico para daqui 20, 30, 100 anos. Quando ela for lida daqui a muitos anos, ela será entendida neste contexto neofascista, e os trabalhos produzidos vão ser uma nota histórica importante de que tinha muita gente horrorizada e insatisfeita com este anacronismo que é essa extrema-direita no poder. E para que isso ficasse mais pungente tomamos certas atitudes como inserir os créditos junto das próprias páginas, e não escolher temas correlatos ao momento como a própria pandemia ou o fascimo. Isso contribuiu para que os trabalhos enviados refletissem sobre essas questões de forma mais mundana, dando aos leitores futuros essa noção de que quem viveu e estava ativo durante esse período falava de assuntos da vida, da liberdade, do entretenimento, falando desta realidade atual de forma escancarada ou sutil, formando assim um mosaico mais complexo e completo deste nossos tempos.  

Ter a marca deste governo na quarta capa é a cereja do bolo. Fazer esta revista com recursos públicos (via Lei Aldir Blanc) durante este governo é uma retomada de posse e marcação de território para produção cultural. E criar uma revista que se opõe a tudo que estas marcas impressas na nossa contracapa é uma das coisas mais gostosas que a revista nos permitiu criar.

Outro ponto importante: é um tesão produzir trabalhos editoriais impressos, gráficos, feitos de papel, em pleno 2021, em contraposição à onipresença das telas e dos conteúdos digitais, virtuais. É muito bom criar espaços para artistas produzirem sem os moldes e expectativas de uma mídia como o Instagram.

“É um tesão produzir trabalhos editoriais impressos em pleno 2021”

Página da HQ de Cecil Silveira publicada na sexta edição da revista A Zica (Divulgação)


Última! Pediria para cada um dos três, por favor: você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Batista: minha recomendação é o novo single da banda Isso, de Belo Horizonte, com a música A Estrada, belíssima composição e grande gravação; a biografia do João Perdigão para Guignard, chamada Balões, vida e tempo de Guignard que estou lendo; e o gibi DF Medieval, do Munha da 7 e do Gabriel Mombasca, ambos de Brasília, que contam a história da Idade Média do DF de forma absolutamente engraçada e original (no momento o livro está no Catarse e já atingiu a meta, mas conheço o projeto há anos, e já li boa parte do material publicado em zine, e é incrível).

Luiz: Durante a pandemia, não tem jeito, é surra de Netflix rs. Tenho visto muitos filmes e séries ótimas. Entre os mais recentes que vi, tem o Judas, o Messias Negro e A Voz Suprema do Blues, esse último com atuações muito boas do Chadwick Boseman e da Viola Davis. Nele, me chama a atenção a história da produção cultural independente americana, com suas pequenas gravadoras musicais, e me remete ao que vivemos hoje no universo das publicações, com muitos artistas e pequenas editoras se profissionalizando. O documentário do Elvis Presley também é muito legal pra observar esse universo. Já sobre o universo maluco das artes plásticas, tem o documentário Fake Art, que dá uma ideia de como é doida a forma como o capitalismo lida com a arte. Uma animação: Midnight Gospel, é bem pop mas vale a pena assistir. E tão rolando várias produções não americanas muito boas, como a série sueca Dinheiro Fácil (Snabba Cash), que tem um ritmo e um estilo muito legais. Entre os brasileiros, sugiro o Joaquim, filme biográfico sobre o Tiradentes, do mesmo diretor de Cinema Aspirinas e Urubus, e o Arábia, dos mineiros Affonso Uchoa e João Dumans.  Videogame: tô viciado em Two Dots, um quebra cabeça para celular, muito inteligente e bem feito.

João: Trabalho como pesquisador e escritor, mas meu consumo cotidiano geralmente tá relacionado com trabalhos de pesquisa e documentário – amo! O último livro que li e gostei muito foi Enverga, mas não quebra: Cintura Fina em Belo Horizonte, do Luiz Morando, que é um pesquisador monstrão da memória LGBTQI+ de BH, que através de documentos, revela a vida de Cintura Fina, que até então era uma figura mitológica que só era conhecida nossa através de sua representação na mini-série Hilda Furacão – e a abordagem é bem diferente. Outro livro que chapei foi História da poesia visual brasileira, organizado pelo Paulo Bruscky, que fez uma compilação belíssima sobre a produção gráfica nacional dos últimos 100 anos de uma maneira muito bonita. O que conto quando conto como piada, do Batista virou um livro de cabeceira aqui em casa, é pra ler várias vezes e rachar de rir. Já de documentário, tenho pirado muito em festivais que me mostram coisas muito boas produzidas além da bolha Netflix/Amazon, como É Tudo Verdade (de docs), e mais recente, o In Edit Brasil (de docs musicais), além do bom e velho forum makingoff.org, que me aplica outros tantos -destes aí, vou citar  três; Tio Tommy – O homem que fundou a News-Week (2021), sobre o empresário/espião norte-americano que viveu no Brasil, SpeedfreakS: Psicopata camarada (2021), sobre a trajetória do rapper morto misteriosamente em Niterói e Falso ou verdadeiro – Fabricando ignorância (2021), produção do canal de TV alemão DW sobre a invenção de revisionismo científico patrocinado pelas grandes corporações.E de música, vou citar três sons de diferentes gêneros; Matéria Prima, Divergência Socialista e Arca. 

A capa da sexta edição da revista A Zica (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com as editoras da revista A Criatura: “Tendo em vista a conjuntura política atual, surge a urgência de reafirmação da potência revolucionária das publicações independentes”

Está marcado para as 14h de domingo (16/12), em Belo Horizonte, o lançamento da revista A Criatura. A publicação é editada pelas artistas Clarice G. Lacerda, Ing Lee e Maria Trika e reúne o trabalho de 29 mulheres em homenagem ao aniversário de 200 anos do clássico Frankenstein ou O Prometeu Moderno, de Mary Shelley. Você confere outras informações sobre a festa de lançamento da revista na página do evento no Facebook. Além de um bate-papo com a presença das três editoras e de algumas das artistas presentes na publicação, o evento contará com uma exposição de trabalhos impressos na revista e show da banda Não Não-Eu.

As 76 páginas em preto e branco de A Criatura apresentam trabalhos de 29 artistas de estilos e origens distintos, além das três editoras e da responsável pelo projeto gráfico da publicação. A obra também marca a estreia do selo A Zica – capitaneado pelos editores da revista homônima que recentemente chegou ao seu quinto número.

Enviei algumas perguntas por email para Clarice G. Lacerda, Ing Lee e Maria Trika perguntado sobre o projeto. As três falaram sobre a origem d’A Criatura, justificaram a decisão de homenagear a obra-prima de Mary Shelley, trataram do processo de edição da revista e ressaltaram a importância de uma publicação independente composta apenas por trabalhos de artistas mulheres em um contexto de conservadorismo aflorado no país. Reproduzo a seguir a lista com os nomes das 33 artistas envolvidas na produção d’A Criatura e, em seguida, a íntegra da minha conversa com as três editoras da publicação. Ó:

(na imagem que abre o post, trabalho da artista Abajur presente na revista A Criatura)

Qual é a origem da Criatura? Como esse projeto teve início?

Maria Trika: A Criatura partiu de um convite dos meninos d’A Zica zine, que tinha acabado de lançar sua quinta edição através de um financiamento coletivo. O financiamento arrecadou mais do que o necessário e por isso eles decidiram investir no selo A Zica, com o objetivo de expandir e incentivar outras publicações independentes, com um recorte específico. Daí os meninos selecionaram eu, Ing e Cla para mergulharmos nessa e editar a publicação com total autonomia, sendo idealizada e realizada exclusivamente por mulheres, com o apoio financeiro d’A Zica.

Clarice G. Lacerda: Como a Maria colocou, A Criatura surgiu por um convite dos editores d’A Zica. Como felizmente a meta do financiamento coletivo foi inclusive ultrapassada, e tendo os editores recebido críticas sobre um desequilíbrio entre o número de artistas mulheres x artistas homens selecionadas para A Zica #5, optou-se que esta outra publicação, primeira a ser lançada pelo selo A Zica, fosse produzida apenas por mulheres. Em nosso primeiro encontro, os editores da Zica nos sugeriram um viés de trabalho que abordasse a colagem, ou o remix, como me lembro do João Perdigão dizer. E havia também a questão histórica: 2018 marcava o aniversário de 200 anos da criação do Frankenstein ou O Moderno Prometeu, da Mary Shelley. Colocado isso na reunião geral, eu, Ing e Maria seguimos com a conversa, pensando os possíveis de um modo feminino de trabalho, e nos perguntando o que poderia significar isso editorialmente. Conversamos um bocado sobre a obra literária e a autora que optamos por homenagear, era muito impactante pra nós imaginar uma jovem inglesa criando aquela narrativa duzentos anos atrás! Entendemos que esse monstro nunca teve nome próprio, e assim batizamos nosso projeto com o mesmo termo utilizado para nominar tal ser, assim surgiu A Criatura. Nos pareceu instigante pensar as relações entre o clássico, pioneiro da ficção científica, e as muitas formas como seguimos com o desafio de criar, de forma contínua, as mulheres que queremos ser. Decidimos que nossa metodologia de trabalho com A Criatura seria distinta daquela adotada pela A Zica, não nos interessava receber trabalhos prontos para selecionar. A chamada aberta que lançamos era sobretudo um convite ao encontro, ao diálogo, às trocas possíveis quando afirmamos o lugar de fala de cada uma. O desejo era de partilhar leituras e olhares sobre o Frankenstein, enxergar como o livro poderia reverberar hoje, como a obra, produzida num contexto tão distinto do nosso, poderia gerar ligações com o que está sendo produzido contemporaneamente por um grupo heterogêneo de mulheres.

“É uma afirmação da vida e de suas potencialidades tratar as dores que se carrega como combustível para criação de algo”

Trabalho de Paula Puiupo presente na revista A Criatura

Por que homenagear a Mary Shelley e os 200 anos da publicação de Frankstein?

Ing Lee: A obra dela foi inegavelmente um grande marco para a história da ficção científica. A narrativa de Frankenstein teve diversos desdobramentos ao longo de todos estes anos, possuindo relevância até os dias de hoje, por ser uma história que não apenas refletia os anseios de seu tempo, como também questões inerentes à existência humana, ou, ainda, como se lida com a diferença e o lugar do ‘outro’ na sociedade, cujas estruturas de poder marginalizam individualidades consideradas fora da norma vigente.

Maria Trika: Motivos não faltam, na minha opinião. Mary Shelley além de ser uma grande escritora, foi uma das poucas mulheres autoras (mas não foi a única, vale ressaltar outras precursoras como Ann Radcliffe e Jane Austen) da Literatura Gótica, durante o século 19, criando uma de suas maiores obras. Além disso, pessoalmente, tenho grande fascínio por Frankenstein, por suas peculiaridades perante aos demais clássicos sobre monstros, devido ao fato de sua monstruosidade estar relacionada diretamente a questões mais internas e abstratas como a memória, o olhar e a concepção de determinados conceitos como corpo, vida e morte.

Clarice G. Lacerda: Como a Ing colocou, a homenagem se justifica pela relevância que o livro tem ainda hoje, que o torna tão atual, pela muitas formas como ainda é possível acessá-lo e tecer caminhos de reflexão. Trata-se de uma narrativa densa, que coloca a relação morte-vida em primeiro plano, como colocado pela Maria, que não esconde o lado mais escuro, sombrio e monstruoso que todas nós temos. A narrativa trata do gesto da criação de uma forma não idealizada, mas sim problematizada eticamente, apontando as motivações e os perigos de uma ambição desmedida em desvendar os mistérios, quando há desejo excessivo de controle e poder. Mary Shelley me parece ter elaborado muitos aspectos de sua biografia, rica em doloridos desafios, na produção desta obra, e isso para mim é de relevância ímpar, de valor atemporal. É uma afirmação da vida e de suas potencialidades tratar as dores que se carrega como combustível para criação de algo, e não para a mortificação ou vitimização paralisante do sujeito. Nos debruçarmos sobre a trajetória da autora e mergulharmos em sua obra foi uma oportunidade de atualizarmos esse gesto afirmativo perante a realidade, especialmente quando vivenciávamos um período eleitoral bastante cruel. Foi uma chance de reformularmos perguntas juntamente com as artistas e a publicação é um conjunto de respostas possíveis, são trabalhos que nos colocam diante de mulheres que existem por que criam, resistem, insistem. Mulheres cheias de coragem, que estão abertas a enxergar e encaram de frente o monstro.

O evento de lançamento da revista A Criatura está marcado para o dia 16 de dezembro de 2018 em Belo Horizonte

Vocês podem falar um pouco, por favor, sobre o conteúdo d’A Criatura? Que tipo de trabalho está presentes na revista? Não é uma publicação exclusivamente de quadrinhos, correto?

Ing Lee: A publicação não se limita aos quadrinhos, abrangendo fazeres artísticos que vão desde as artes gráficas até a escrita. Tivemos inscrições de artistas de trajetórias bastante distintas e chegamos a selecionar algumas que trabalham com performance, que se interessaram pelo nosso projeto e se propuseram a experimentar outras linguagens.

Maria Trika: Correto. A publicação não é exclusivamente de quadrinhos. Na real, o conteúdo da revista é uma diversidade de trabalhos artísticos de mulheres que admiramos, que acreditamos na potência dos trabalhos e que teriam haver com a proposta d’A Criatura.

Clarice G. Lacerda: O conteúdo dA Criatura é muito heterogêneo, o que reflete também a equipe editorial formado por nós três. O grupo é formado por artistas de idades e localidades diferentes, que investigam linguagens e modos distintos de produção, o que colaborou para riqueza e potência da publicação, que contempla a diversidade, tramando relações entre singularidades. Em tempos de ‘outrofobia’ (citando um autor, Alex Castro) essa convivência editorial me parece ter grande relevância, para não dizer que se trata de uma proposição necessária.


“O conteúdo da revista é uma diversidade de trabalhos artísticos de mulheres que admiramos”

Trabalho da artista Si Ying Man presente na revista A Criatura

Vocês podem comentar, por favor, o processo de curadoria da revista? Como vocês chegaram nessas 33 artistas que tiveram trabalhos impressos nessa primeira edição?

Maria Trika: A ideia da curadoria das 29 artistas se deu da seguinte forma: após diversas conversas entre nós, as editoras, optamos por fazer abrir uma chamada para mulheres – cis e trans – artistas. No entanto, ao invés de analisarmos trabalhos já prontos, pedimos as candidatas que enviassem seus portfólios e uma ‘carta de intenção’ (só que sem tanta formalidade hahaha) dizendo porquê gostariam de participar d’A Criatura. Optamos por essa forma por acreditarmos em um processo mais harmonioso, cuidadoso, subjetivo e acolhedor, já que desde o início fez-se claro que A Criatura demandaria um trabalho em conjunto, diferente dos moldes normativos (estabelecidos, em boa parte – se não por inteiro – por homens brancos héteros, seguindo uma lógica quase que fálica de lidar com as coisas), que aparentemente, levam o título de alcançarem maior ‘produtividade’.

Ing Lee: Assim como a Maria disse acima, optamos por um processo diferente do que A Zica propõe: ao invés de selecionarmos pelos trabalhos já feitos, selecionaríamos primeiramente as artistas e só assim se iniciaria a feitura dos trabalhos para a publicação, que foi acompanhada de uma forma mais individualizada e levando em conta as particularidades de cada uma. Foi um processo que nós editoras pensamos ser mais acolhedor e visando estabelecer um vínculo mais próximo das artistas envolvidas.

Clarice G. Lacerda: 33 é o total de mulheres da equipe: três editoras, eu, Ing, Maria; Ana Paula Garcia, artista gráfica que integrou a equipe; e as 29 mulheres criadoras. Na real selecionamos 30 mulheres a partir da chamada aberta, mas uma delas optou por se dedicar integralmente à campanha do Haddad depois do resultado do segundo turno da eleição presidencial. Daí ficamos com esse número meio curioso, 29, pois não havíamos selecionado suplentes. Como Ing e Maria disserem, a seleção foi feita a partir da análise das trajetórias e pesquisas das inscritas, recebemos 95 inscrições no total. Levamos em consideração a relação entre o percurso de cada uma com o universo técnico e simbólico da colagem, e as conversas possíveis com questões que nos interessavam na leitura do Frankenstein. Como cada editora tem um perfil muito distinto, ponderamos juntas para chegarmos num grupo que contemplasse as diferenças que já identificávamos entre nós três.


“O resultado final da publicação é uma evidência da consistência que essa escolha editorial mais afetiva proporcionou para A Criatura”

Trabalho de artista Maira Públio presente na revista A Criatura

Vocês podem falar um pouco, por favor, sobre o processo de edição da revista? Como foi o trabalho de editar e reunir todas as publicações que vocês receberam?

Clarice G. Lacerda: Não recebemos publicações. As inscritas nos enviaram portfólios, sites pessoais, etc., para que pudéssemos conhecê-las um pouco. Cada editora teve a chance de se posicionar criticamente diante da trajetória das inscritas, e assim chegamos no grupo de 30, que depois passou a ser de 29. Confiamos nas mulheres que selecionamos, confiamos na abertura ao diálogo, confiamos em nós mesmas, e isso se refletiu na riqueza do processo editorial. Depois da seleção, fizemos uma reunião geral com todas as selecionadas, antes delas produzirem os trabalhos para A Criatura. Nesta ocasião, já havíamos definido o formato estrutural do projeto gráfico, que foi apresentado para o grupo: cada mulher criadora ocuparia o espaço de uma lâmina, frente e verso, e faria também uma parte do corpo, a ser escolhida livremente, para um pôster que a Ana Paula Garcia, nossa artista gráfica, iria compor. A publicação é na verdade um bloco, composto por este conjunto de lâminas, e um pôster que, dobrado, funciona como sobrecapa. É um corpo gráfico formado por partes distintas, que pode ser fragmentado de acordo com o desejo do leitor. Cada parte tem sua autonomia – tanto no bloco como no pôster –, e o conjunto conforma uma composição inusitada, tem um estranhamento ali que nos conecta muito com a ideia do monstro, da criatura da Mary Shelley. O bloco é formado por esses encontros, um tanto ocasionais, pois seguimos a ordem alfabética para ordenação das lâminas. Ao longo do processo criativo, dividimos o grupo das 29 selecionadas entre as três editoras, e assim pudemos dar assistência direta e ter uma interlocução mais próxima com as mulheres em seu processo criativo. Foi essencial esse tipo de metodologia pautada no acolhimento e no diálogo, sinto que o resultado final da publicação é uma evidência da consistência que essa escolha editorial mais afetiva proporcionou para A Criatura.

Maria Trika: Acredito que a Cla pode dizer melhor sobre isso, por ter mais experiência nessa questão. Talvez, eu consiga dizer mais sobre o processo afetivo, desde sua concepção, já estava estabelecido que A Criatura lidaria com muita pluralidade, por tratar-se de sensibilidades, subjetividades e, literalmente, corpos diferentes unidos para criar um só – que seria a publicação. Diante desse fato, nos, editoras, optamos por transformar essa união em potência de vida e não de morte. Transformar em vida, a junção de várias partes mortas (não necessariamente), como acontece com a criatura do livro. A partir daí, o processo foi de muita paciência, dedicação, respeito e aprendizado. Digo por mim, mas isso foi extremamente desafiador em certos momentos. Cada um habita o mundo de um jeito e fazer com que a diversidade mantenha-se enquanto potência, exige que a gente se flexibilize em alguns pontos, se desapegue de outros, resista em alguns momentos, fale e, principalmente, pare para ouvir e olhar o outro – de fato – (taí algo revolucionário, na atual conjuntura mundial e brasileira). E essa movimentação-dança entre sua existência e a do outro já é um aprendizado imenso, agora imagine isso enquanto ponto de partida para criar algo-outro corpo-mundo.

Quais as principais expectativas que vocês tinham em relação à revista e o que mais surpreendeu vocês em relação ao resultado final?

Clarice G. Lacerda: Eu tinha a expectativa de que uma metodologia editorial baseada em acolhimento, empatia, diálogo e reflexão conjunta gerasse uma publicação consistente, que desse um passo além, e mais aprofundado, em relação ao lugar comum, e um tanto simplista, que costumamos tratar a ideia de monstruosidade. O que me surpreendeu foi a maneira generosa e engajada como as mulheres realmente toparam encarar de frente a tarefa, enquanto atravessávamos um período de muita instabilidade no Brasil, a coragem do grupo em superar os efeitos deste terror e se afirmar criativamente no mundo chega a me dar arrepios. Os trabalhos d’A Criatura demonstram uma disposição, um fôlego para desmontar e reordenar formas de encarar ‘o lado mais negro’ que me chega como sopro de lucidez e saúde num contexto apinhado de perversidades. É muito bom se surpreender com a força feminina, dá uma esperança e um aconchego, estamos juntas e somos fortes.

Ing Lee: Nunca tive experiência como editora antes, então pra mim tudo foi muito novo e diferente, não tinha muito como prever o que sairia dali, mas desde o início fiquei bem animada com a proposta! O resultado final foi incrível, fico feliz por poder participar de uma iniciativa que abre espaço para várias mulheres criadoras de lugares e vivências tão distintas entre si. Tivemos a presença de artistas mais experientes e outras mais novas, combinação que deu super certo e que foi muito gratificante.

Maria Trika: A gente sempre se surpreende quando a ideia torna-se corpo, né?! E nesse caso a surpresa foi enorme, não por esperar menos das meninas ou algo assim, muito pelo contrário. A surpresa se deu porque ficou ‘lindimais’ e sentir esse encantamento, orgulho e admiração de uma só vez surpreende a capacidade de sentir da gente.


“Não estamos reafirmando um suposto feminino docilizado e bem comportado, estamos revelando o monstro, olhando ele nos olhos, arrancando suas vísceras e fazendo arte com elas, criando outra coisa, parindo o novo”

Trabalho da artista Elisa Carareto presente na revista A Criatura

A revista está saindo às vésperas da posse de Jair Bolsonaro na presidência e em um contexto de conservadorismo crescente no país. Qual vocês consideram o papel potencial de uma publicação independente como A Criatura, editada por mulheres e com obras apenas de mulheres, dentro desse cenário catastrófico?

Clarice G. Lacerda: Como disse antes, A Criatura, em seu próprio processo de criação, já refletiu muito uma das respostas que nos foi possível dar para esse tipo de cenário. Para mim, a catástrofe, como tudo, é transitória. Não creio ser produtivo exaltar uma narrativa dramática, de lamento e vitimização. Enxergo nesses momentos de crise uma oportunidade de desmoronamento e renascimento únicas, é um presente dependendo da forma como optamos encarar e nos posicionar diante da dor e do horror, que são essencialmente parte da vida desde que o mundo é mundo. Aqui reside a beleza da escolha e do livre arbítrio, do sujeito que é autor real de sua narrativa de vida singular. Sinto que a escolha do Frankenstein e a escuta da voz de Mary Shelley foram muito acertadas para esse momento. Não estamos reafirmando um suposto feminino docilizado e bem comportado, estamos revelando o monstro, olhando ele nos olhos, arrancando suas vísceras e fazendo arte com elas, criando outra coisa, parindo o novo. A potência do feminino, para mim, está muito nisso, no dom de gestar a vida no escuro das entranhas, de suportar a dor dilacerante para dar à luz ao outro. É a beleza da cadela lambendo a cria recém-nascida e comendo a própria placenta para ter energia e assim gerar o leite que amamentará a ninhada. O amor é também escatológico, tudo que vive gera resto. Falo da gestação, do parto e da criação como forças simbólicas, para além daquela fisiologia literal. É a força enlaçada da vida e da morte, pulsantes nisso que nada nem ninguém poderá calar, como dizem algumas mulheres que muito admiro, a força que faz o novo vir é inegociável. É isso, diante do horror, a nossa resposta foi criar A Criatura, e ela veio em bloco.

Ing Lee: Não é de hoje que corpos racializados, LGBTQ+, periféricos, de mulheres e pessoas com deficiência sofrem com marginalizações… A luta segue como sempre seguiu, ela é contínua e forte. Mas é preciso repensar e redefinir estratégias de resistência. Tendo em vista a conjuntura política atual, surge a urgência de reafirmação da potência revolucionária das publicações independentes. Penso esta postura não somente em relação à nossa Criatura, mas para o cenário independente como um todo, que é justamente buscar meios de resistir por meio da união e acolhimento, priorizando a circulação dos trabalhos e ocupando espaços.

Maria Trika: A resposta é meio manjada já né. As mulheres, xs negrxs, LGBTQ+ e as pessoas periféricas, representam tudo que o governo que o dito novo presidente da república, ou pelo menos a imagem dele, é contra, que matar, aniquilar, violentar, oprimir e repreender. Por isso A Criatura já é parida no mundo calcada com o signo de resistência.


“É muito bom se surpreender com a força feminina, dá uma esperança e um aconchego, estamos juntas e somos fortes”

Há planos para que A Criatura seja uma publicação periódica? 

Clarice G. Lacerda: Estou completamente dedicada à parir, como o devido cuidado e rigor, essa Criatura que será lançada muito breve. Não gestamos gêmeos, vai vir um ser só por agora. O depois, é sempre um mistério.

Ing Lee: Por enquanto não temos nenhuma previsão disso. Não vejo sentido em uma continuidade d’A Criatura em si, mas espero que nossa publicação engatilhe novas articulações do gênero e estou sempre aberta à novas propostas!

Maria Trika: Isso ainda não foi conversado formalmente, mas nunca se sabe.

A capa e a 4ª capa da revista A Criatura

Entrevistas / HQ

A Zica está de volta: “Não estamos aqui para publicar historinhas sobre crises existenciais românticas, estamos aqui pra zoar o plantão”

A revista A Zica está de volta. O quinto número da publicação editada por Luiz Navarro, Marcos Batista e João Perdigão será lançado no sábado (22/9), na galeria de arte Mama/Cadela, em Belo Horizonte – você confere outras informações sobre a festa na página do evento no Facebook. Com capa assinada pelo quadrinista Diego Gerlach, o mais novo número da publicação iniciada em 2010 teve como tema ‘vermes, astronautas e América Latina’ e contou com a participação de 64 artistas.

“‘América Latina’ foi uma escolha política mesmo, para trazermos o olhar para a nossa própria identidade cultural”, conta Luiz Navarro. Em entrevista ao blog, Batista, Navarro e Perdigão falam sobre o processo de edição desse quinto número, tratam dos desafios de dar vida a uma obra independente de mais de 132 páginas via financiamento coletivo, cogitam o futuro da publicação e contam como o caos político brasileiro e dos demais países latino-americanos pesou no desenvolvimento da obra.

Reproduzo a seguir os nomes de todos os envolvidos no projeto e logo depois a íntegra da minha conversa com os editores. Ó: Adão Iturrasgarai, Vinicius Capo (AKOP), Allan Sieber, Annima de Mattos Aruan Emiele, Bernardo Pádua, Breno Ferreira, Carolina Deptulski, Onofre, Warley Desali, Diego Gerlach, Emilly Bonna, Emmanuel Alcala, Estan de Lau, Fabio Cobiaco, Fernando Torelly, Flávio Duarte, Froiid, Gabriel Cerqueira, Gabriel Nascimento, Guilherme Boschi, Guto Respi, Henrique Mourão, Henrique Oliveira, Ian Indiano, Joao Henrique Belo, José Lucas Queiroz, Rafael la Cruz, Larissa Reis, Ana Luiza Lacerda, LOR, Lucas Borges, Luciano Irrthum, Luiz Navarro, Luiza Maximo, Luiza Nasser, Marco Vieira, Marcos Batista, Maria Trika, Mariana Moyses, Matheus Lopes, Maurício Falleiro, Morgana Azul, Narowe, Nava (Latino Toons), Nicole Wafer, Osvaldo Reis, Carlos Panhoca, Paola Rodrigues, Pedro Vó, Matheus Frasan Praia Podre, Ricardo Coimbra, Rodrigo Terra Vargas, Rogério Rodrigues, Rosana Oliveira, Luís Teixeira, Estêvão Vieira, Tenesmo, Thiago Souza, Toni Cesar Graton, Victor Stephan, Xablutz, Yalaki De Sucre, Benson Chin, Estevam Gomes, Hugo de Paula, Batista, Warley Desali, Aline Lemos, Dayane Lima, Binho Barreto e Diego Sanchez.

“A Zica um trampo gigante, um rabo de foguete que a gente topa pegar porque não é só de nós três, é literalmente coletivo”

Trabalho de Adão Iturrusgarai para A Zica #5

Vocês lembram do momento em que decidiram produzir esse número novo da Zica? Antes de vocês darem início à campanha de financiamento coletivo houve algum instante específico em que você decidiram que ela iria acontecer?

Batista: Em 2016, na primeira edição da feira Des.gráfica, o Gerlach veio conversar comigo sobre a Zica, falando como era massa e perguntando quando sairia a próxima. Eu fiquei sem graça de falar para ele que a revista tinha acabado, que fazer a número quatro esmigalhou nossos nervos e que a gente não pensava em fazer mais revista, hehe. E então, além dele mais algumas pessoas vieram me perguntar sobre a revista e a contar casos de carinho com ela, aí percebi que a Zica não era nossa, era de muito mais gente, e de volta a Belo Horizonte, se não me engano reavivei o grupo de chat da Zica, ‘Ei galera, acho que temos que fazer mais algumas Zica…’.

João: Corroborando com o que o Batista falou, realmente, depois da #4, parecia que acabou mesmo, foi bem desgastante – mas olha, isto acontecia desde a #2 (2012). Início de 2017, propus aos caras de voltar, mas como nosso $ havia esgotado, o financiamento era a única forma de reavivar. Topamos, numa ideia que foi praticamente a refundação d’A Zica, pois conseguimos colocar na revista tudo que sempre sonhamos, mas tínhamos limitação financeira – agora não mais.

Luiz: A Zica é assim, é um trampo gigante, um rabo de foguete que a gente topa pegar porque não é só de nós três, é literalmente coletivo, como o Batista falou. Depois da última edição, talvez eu fosse o mais relutante dos três em publicar uma nova edição. Daí Batista e João chamaram pra conversar, sentamos numa mesa e eles colocaram a ideia em pauta, já tava rolando essa possibilidade de um financiamento coletivo. Combinamos uma nova configuração de trabalho pra não ficarmos batendo cabeça em cada detalhe, o que definitivamente é inviável. Isso foi muito importante. Daí pra frente assumimos o risco mais uma vez e mergulhamos nessa loucura de produção que é fazer a Zica. E a campanha, logo que começou, nos trouxe de novo o prazer todo de envolver um monte de gente além de nós mesmos pra fazer a revista acontecer. Isso é muito bom e muito gratificante.

“‘América Latina’ foi uma escolha política mesmo, para trazermos o olhar para a nossa própria identidade cultural”

Trabalho de Aruan Emile para A Zica #5

Porque Vermes, Atronautas e América Latina? Aliás, como vocês determinam os temas de cada edição?

Batista: Não sei responder porque, mas de uma lista de temas que cada uma monta formamos uma maior, e vamos debatendo. Vermes creio que foi o único consenso que saiu dessa lista, e meu voto nele foi pela molecagem que ele carrega em si, o terror, o nojo, a surpresa, o gore que ele podia representar. Astronauta fica na conta do Luiz – nessa edição decidimos nomeá-lo editor chefe, e com isso ele ganhou direito a escolher um tema, e foi esse. E América Latina surgiu após termos definido por Michael Jackson, mas deu uma semana e os outros editores não sentiam firmeza nele. A troca foi bem-vinda pois a Zica sempre tem um tema que é a tônica do seu ano de edição (bullying em 2012, vandalismo em 2013, Rússia em 2015,…), e América Latina está em mais uma de suas notórias ebulições políticas.

João: Quanto aos temas, tem que ter uma liga ilustrativa pra que vire desenho, e que seja inspiradora criticamente ou zoeira, além do fator nonsense. Todo ano tem algum tema mais universal que os outros. Desde a #0: morte, putaria, apocalipse, trevas, Rússia e agora acho que seja América Latina. Só pra completar aqui: bullying foi o tema que achei mais mal-escolhido até hoje, já que a tônica para escolher trabalhos é originalidade e ironia, com bullying acho bem difícil fazer piada sem soar babaca – poderia ter sido meme ou coisa assim, seria mais inspirador. Além do tema universal, sempre tem um tema que não tem nada a ver com os outros, algo pra desconstruir – na #0 classe média, na #1 propaganda, na #2 a tentativa com ‘bullying’, só na #3 que foi tudo darkzera (gosto desse número por ele ser uma ‘cartilha educativa’ de 2013), na #4, dinossauro, e agora astronautas.

Luiz: O momento de escolher os temas é um dos mais divertidos da Zica. Depois da listinha que cada um faz, a gente senta só os três, um olha pra cara do outro, dá um trago numa cerveja ou num cigarro e fala: ‘e aí, qual vai ser?’. A gente se diverte, zoa pra caramba nessa tal reunião. Fala um monte de merda. Sai um monte de coisa que a princípio parece genial, daí passa um tempo alguém fala: ‘peraí galera, cês já pensaram que é bem possível que com esse tema vai ter maluco que vai desenhar um monte de besteira assim ou assado?’. Daí tem que pensar em outro. Foi assim com o Michael Jackson, que era pra ser um dos temas dessa última edição. É um tema incrível, mas corria grande risco de cair num lugar comum de caricaturas clichê. Claro que a maioria dos artistas que manda trampo pra Zica é bem criativo e vai além do óbvio. Mas a gente pensa nessas possibilidades e tenta evitar essas armadilhas. Sobre os temas que definimos, na minha opinião a escolha foi pelo seguinte: ‘vermes’ tem esse tom meio zuero e nojentinho; ‘astronautas’ por todo o potencial narrativo e mitológico que ele traz, além de um potencial iconográfico e ilustrativo muito bom também. E ‘América Latina’ foi uma escolha política mesmo, para trazermos o olhar para a nossa própria identidade cultural. Na real, é uma loucura pensar que essas três palavrinhas que saem dessa reunião vão nortear o nosso trabalho e nossa vida nos próximos muitos meses. E mais loucura ainda pensar em três temas e não ter a menor ideia do que vai sair disso, o que os artistas vão conseguir transformar e produzir com eles.

“Saímos do formatinho e do material convencional de gráfica e arriscamos num projeto editorial vistoso, com mais espaço para os trabalhos”

Trabalho de Narowe para A Zica #5

Eu imagino que cada número da Zica tenha suas peculiaridades em relação a edição e produção. O que houve de mais singular durante o desenvolvimento desse quinto número?

Batista: Para mim, a mudança de formato tanto da revista quanto do modo de trabalho quebrou alguns paradigmas e redefiniu uma nova forma de existirmos. Saímos do formatinho e do material convencional de gráfica e arriscamos num projeto editorial vistoso, com mais espaço para os trabalhos. Por mim, depois dessa mudança, nem sei se a próxima edição terá o mesmo tamanho, por exemplo, não sei mais se A Zica deve seguir um tamanho standard ou cada número é um número. E a forma de trabalhar, com designers responsáveis pelo projeto, e com um de nós destacado como editor-chefe, ajudou muito a ordenar o fluxo de trabalho e a agilidade nas decisões.

João: Além da ousadia do projeto, que foi o mais experimental até hoje, teve o rodízio do editor principal, que nesta edição é o Luiz. O que houve de mais singular, pra mim, além de aumentar o formato, de fazermos stickers, patch fotozine e dois posters em serigrafia foi a concepção de A Criatura, que é um projeto bem ousado que convidamos três editoras para selecionar trampos de minas que ainda tá em andamento. Já fizemos uma coisa ou outra extra A Zica antes, mas só coisa de tiragem pequena. Finalmente uma produção no nosso selo com uma tiragem de circulação razoável e com outra editoria que a gente provocou, que são a Ing Lee (uma quadrinista fodona), a Maria Trilka (que produz colagens inventivas e estuda cinema), e a Clarice G. Lacerda, que é uma editora experiente com larga experiência no mundo das artes.

Luiz: Como João e Batista disseram, essa foi a edição mais ousada da revista até agora. Sem dúvida nenhuma, a gente deu um passo além. Pegamos várias ideias e desejos que já tínhamos e falamos: ‘é agora!’. Talvez o principal, na minha opinião, tenha sido o fato de decidirmos investir num projeto gráfico bem elaborado. Pra isso, precisamos sair do ‘do-it-yourself’ que manteve a Zica lindamente em edições anteriores e contratamos dois designers, Matheus Ferreira e Bruno Rios, pra nos ajudar nessa empreitada. A gente deu uma certa autonomia para eles sugerirem e criarem de acordo com aquilo que eles achavam que podia ficar legal. E essa colaboração deles fez toda a diferença.

Trabalho de Praia Podre para A Zica #5

Quais eram as principais expectativas que vocês tinham em relação a esse número e o que mais surpreendeu vocês nessa edição?

Batista: Minha principal expectativa era em relação a atender o Catarse. Não é fácil fazer pré-campanha, campanha e pós-campanha. Estamos no pós-campanha e ainda temos muito trabalho pela frente, e isso ainda me causa borboletas no estômago. E o que mais me surpreendeu é o apoio recebido por quem contribuiu no Catarse ou de outras formas, como enviando trabalhos para vendermos e usarmos o dinheiro na campanha. De fato, a Zica é do povo!

João: Conseguir captar um trabalho com um valor acima da média no Catarse foi uma façanha. A nossa expectativa de apoios iniciais foi abaixo do esperado. A partir desta constatação levantamos de outra forma, vindo pra realidade e o que mais me surpreendeu nesta campanha foi a mobilização que fizemos off-line, com eventos de arte no mundo real, que deu super certo e ajudou a alavancar o financiamento coletivo de uma forma que não imaginávamos.Torço para que a publicação ainda me surpreenda positivamente a partir de quando estiver circulando entre seus leitores.

Luiz: O financiamento coletivo foi muito emocionante e, apesar da tensão que é normal que rolasse, eu pessoalmente achei bem divertido (vão me cobrar vacilo por dizer isso! hahaha!). Mas além do financiamento, a gente tinha a expectativa de que essa fosse a edição mais especial já produzida. E sem dúvida alcançamos esse objetivo, a revista tá incrível de bonita. Essa dinâmica de abrir chamada e receber trabalho é muito divertida por isso também: sempre nos surpreendemos quando recebemos trabalhos fodas de vários artistas fodas, alguns menos e outros mais conhecidos. Mas, pra mim, a ilustra do Gerlach (que foi convidado) na capa, foi a mais impactante. É impressionante a capacidade que ele tem de construir uma narrativa num único quadro, cheio de detalhes e referências.

Trabalho de Benson Chin para A Zica #5

Uma das propostas da Zica é também servir de vitrine para novos talentos. Nesse novo número, quais novos talentos chamaram mais atenção de vocês?

Batista: Vou falar da Luiza Maximo, que não sei se é bem um novo talento, mas é a primeira vez que ela pinta na revista e tive oportunidade de ver suas aquarelas e sai com lágrimas nos olhos. Tem o Maurício Falleiros, que para mim é a maior aquisição do humor gráfico nacional dos últimos dois anos, e o Allan Sieber, que não é um talento novo mas tem mostrado uma nova face de sua produção como pintor, e nos mandou uma pintura que me deixou arrepiado, e que eu acho a mais bonita das que tive oportunidade de ver.

João: Quanto ao quesito revelação, também gostei muito do quadrinho da Luiza Reis e do Aruan Mattos (apesar de não ser uma revelação pra mim, já admirava o trabalho dele enquanto artista plástico, não sabia que ele fazia quadrinhos) e da ilustra do Toni Cesar Graton. Ah, os posters do Hugo e do Estevam também ficaram sensacionais – já que fora de BH eles são revelação também, pode falar.

Luiz: Essa pergunta é muito boa e tem muito a ver com a anterior, porque uma das melhores coisas da Zica, para nós e acredito que também para quem a lê, é descobrir novos artistas muito fodas. Nessa edição, talvez eu posso citar o Toni Cesar Graton ou a Paola Rodrigues.

“No número zero colocamos o preço na capa, era R$5, coisa que posteriormente nos arrependemos, coisa horrível colocar preço, a gente faz é arte e não $, porra”

Trabalho de Toni Cesar Graton para A Zica #5

De 2010 pra cá, do lançamento do número zero da revista até hoje, quais vocês consideram as principais transformações desse cenário de quadrinhos/publicações independentes no qual A Zica está inserido? Como essas mudanças se fazem presentes na revista?

Batista: Bem, acho que a Zica é a única revista que continua sendo publicada desde aquele tempo. Hoje em dia os autores e editores têm investido em trabalhos maiores (hqs e novelas gráficas), coletâneas de trabalho de um autor só ou publicações de coletivos, mas que dificilmente passa de 8 autores. Isso muito graças ao incentivo dos financiamentos coletivos ou pequenas editoras que se formaram. E no momento esse formato ‘revista grande com um tanto de trabalhos’ está sumido. Tínhamos a Quase, Tarja Preta, SAMBA, Grafitti 76%, Prego e algumas outras, que hoje ou estão extintas ou estão adormecidas por seus editores estarem tratando de outros trampos (mas uma hora voltam a publicar, dedos cruzados). Então acho legal numa feira ver que vários autores têm seus próprios livros, mas poucos têm uma publicação colaborativa com mais de 50 autores com uma grande mostra de estilos e linguagens. E que estamos ai fazendo esse tipo de publicação.

João: A transformação veio de centenas ou milhares de talentos revelados no cenário independente desde então e obviamente do mercado que amadureceu e ficou mais plural, aberto a novas experiências. A análise do Batista sobre publicações alternativas tá ótima, a única publicação mais substancial que apareceu na nossa pegada nesses últimos anos foi a Pé de Cabra, cujo editor, Panhoca foi nosso colaborador e apoiador – dos mais empolgados inclusive. Voltando no tempo, pra ilustrar como o mercado era tacanho em 2010, não havia o costume de vender zine (a maioria era distribuição 0800), no número zero colocamos o preço na capa, era $5 – coisa que posteriormente nos arrependemos, coisa horrível colocar preço, a gente faz é arte e não $ porra. As mudanças presentes na revista são através do sangue novo dos artistas que conhecemos através dela e de novos produtos que produzimos, como o patch desenhado pelo Paulo Marcelo Oz, mas se for olhar, sticker, por exemplo, é algo que eu e o Luiz fazíamos/conhecíamos desde 2005 e a gente gosta muito desta cultura de rua, de onde viemos, nunca nos desligamos dela – inclusive o Luiz fez um livro contando o histórico disto aqui em BH, o Pele de Propaganda: Lambes e Stickers em Belo Horizonte [2000-2010], que inclusive voltará a ser vendido no lançamento d’A Zica #5 – momento jabá.

Luiz: Obrigado, João, pelo jabá! Hahahah. E concordo com o que disseram. Quando começamos, o cenário era bem diferente. As revistas primas da Zica que o Batista citou ainda eram bem vivas e nossas maiores referências. Rolava ainda, naquela época, um tesão em se fazer revistas colaborativas de quadrinhos de humor hardcore. Depois a galera deu vazão a outros projetos, o que é normal. A cena de feiras de publicações também mudou muito! Antes havia uma ou outra feira ou festival. Agora rola um calendário com dezenas ao longo do ano no país inteiro. Mas publicações com a proposta como a da Zica já não são tão comuns.

“Não estamos aqui para publicar historinhas sobre crises existenciais românticas, estamos aqui pra zoar o plantão”

Trabalho de Victor Stephan para A Zica #5

Esse quinto número d’A Zica tá saindo às vésperas das eleições de 2018, em meio a um contexto de conservadorismo crescente e crise aflorada. Qual vocês consideram ser o papel de uma publicação independente, com ares subversivos, como A Zica, dentro desse cenário?

Batista: Nosso papel é continuar publicando a revista, ato que por si só é uma resposta a esses tempos. Desde o codex até a impressão digital, quem escreve, desenha, imprime e publica sempre é alvo de crises políticas. Não passamos por nada de novo. Imprimir e editar o que se vive em seu tempo é o grande barato. Deixar o registro das crises, e documentar os erros e acertos de nossos tempos, creio ser a parte mais importante do nosso papel. A gente não responde ao presente, a gente é uma caixa de areia para artistas e leitores pensarem o futuro.

João: Olha, a gente mudou o tema de Michael Jackson para América Latina durante este contexto, para dar vazão a trabalhos politizados, mas não apenas. Isto não quer dizer levantar bandeira e pronto, já que material panfletário/partidário não é nossa onda. Mas ser politizado chega a ser necessário neste momento em que afirmar que a terra não é plana é política, que tristeza né? Tem até um trabalho que publicamos do Maurício Falleiros com a frase ‘Onda conservadora invade América Latina’ que ilustra bem a pergunta, ou seja: ‘This is America…Latina também’. Nosso papel é editar, fazer a revista e pronto, mas não uma coisa que você lê agora e só entende agora, não é nosso interesse, a gente pensa em publicar algo que se for lido daqui 10, 20, 50 anos, a pessoa vai entender. Inclusive, tem uma coisa sobre a criação d’A Zica que nunca falamos em entrevista, nem é nada definitivo, mas A Zica foi criada depois de já termos passado por algumas decepções institucionais e a ideia era que a publicação sempre fosse feita autonomamente. Nunca nos inscrevemos em Lei de Incentivo (até porque, não queremos camisa de força, mas isto também pode mudar, não somos quadrados, mas nunca foi a tônica, quando alguém propuser isto, vou ser advogado do diabo). Engraçado, agora com a chegada galopante do liberalismo sem freio e a eminente ameaça de extinção deste tipo de patrocínio com o abandono de políticas culturais, dá até vontade de ser subversivo de verdade.

Luiz: Concordo com praticamente tudo o que João e Batista disseram, mas acho importante sermos mais explícitos nesse ponto. A Zica é uma publicação que tem uma intenção e uma força política, sim. Isso é muito importante e temos que saber reconhecer. Dada a situação crítica da política institucional e do clima do país, com revisionismos de fatos históricos e de uma força cada vez maior que o reacionarismo e o fascismo ganham no Brasil, publicar uma revista com ‘ares subversivos’, como você disse, é uma necessidade. É claro que fugimos de panfletagem ideológica, mas um trabalho artístico não precisa ser panfletário para ser político. A Zica nasceu para ser provocativa mesmo. Para ser um contraponto a caretice, a pensamentos conservadores, inclusive no mundinho das artes gráficas. Não estamos aqui para publicar historinhas sobre crises existenciais românticas, estamos aqui pra zoar o plantão. E também pra provocar a reflexão nos artistas, para tirá-los de uma zona de conforto e de repente se colocarem pra pensar no lugar onde vivem e o que vivem, sobre a sua própria realidade no mundo, e não apenas no seu umbigo.

Qual o futuro da Zica? Vocês já estão cogitando um sexto número?

Batista: O futuro da Zica é uma briga eterna entre seus editores sendo mediada por um carinho enorme do público. Essa relação é boa, tem funcionado até aqui e seguirá pelas edições 6, 7, 8 e tantas outras que virão, no formato que vierem.

João: Só espero que tenhamos bala na agulha pra continuar. Assim como desejo que o Batista seja o próximo editor, espero que eu também tenha espaço pra ser, completando o rodízio dos editores em novos formatos.

Luiz É isso aí! E que sejamos cada vez mais ousados nas nossas propostas, com cada vez mais fôlego e paz de espírito para encarar a produção e que pelo menos ganhemos algum troquinho!

A capa de Diego Gerlach para A Zica #5

HQ

Está no ar a campanha de financimento coletivo da revista A Zica #5

Acabou de entrar no ar a campanha de financiamento coletivo da quinta edição da revista A Zica. Eu já apoiei e recomendo o mesmo procê. O número cinco d’A Zica é editado por Batista, Luiz Navarro e João Perdigão e terá como tema vermes, astronauta e América Latina. A capa da publicação já está pronta e é assinada pelo quadrinista Diego Gerlach. A pedida pra coletânea ser impressa é de R$ 22,085 e a expectativa de lançamento tá pra junho de 2018. As opções de recompensa são bem diversas e com umas ofertas bastante interessantes. Deixa passar esse projeto não, viu? Saca o vídeo de divulgação da campanha e a capa assinada por Gerlach: