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HQ / Matérias

Sarjeta #17: Tom Scioli, Jack Kirby e a biografia do Rei dos Quadrinhos

Está no ar a 17ª edição da Sarjeta, minha coluna mensal sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. Escrevi sobre Jack Kirby – A Épica Biografia do Rei dos Quadrinhos, obra do quadrinista norte-americano Tom Scioli recém-publicada no Brasil pela editora Conrad, com tradução de Érico Assis. O meu texto apresenta trechos da entrevista que fiz com Scioli, tratando principalmente do legado de Kirby para a indústria de quadrinhos dos Estados Unidos.

Na entrevista que fecha a coluna, uma conversa com o quadrinista Xavier Ramos, autor de Urinoir (Ugra Press) e de O Busão.

Você lê a 17ª Sarjeta clicando no link a seguir: Sarjeta #17: Tom Scioli fala sobre a biografia de Jack Kirby e o legado do Rei dos Quadrinhos.

Entrevistas / HQ

Papo com Fábio Vermelho, autor de Eu Fui um Garoto Gorila e 400 Morcegos: “Represento a violência de forma gráfica porque é assim que ela é”

Em 2020 o quadrinista Fábio Vermelho fugiu de seu cenário habitual. Ele deixou os Estados Unidos da década de 1950 para ambientar seu 400 Morcegos no Brasil do fim dos anos 1960. Sem os elementos fantásticos costumeiramente presentes nas histórias do autor, o título publicado pela Escória Comix talvez seja a obra mais violenta do artista até aqui, mostrando as ações de jovens crentes em rituais satânicos que têm como alvo um casal de atores de sucesso.

Já o primeiro trabalho de Vermelho em 2021 retorna à ambientação costumeira de suas HQs. Originalmente publicada entre as edições #3 e #10 da Weird Comix, revista pessoal do autor, Eu Fui um Garoto Gorila agora é reunida em um único volume pela editora Veneta. O álbum narra a história de um adolescente da cidade de West Moss, nos EUA dos anos 1950, que se transforma em um gorila gigante assassino.

O meu primeiro contato com os trabalhos de Vermelho foi em uma HQ de duas páginas na primeira edição da Revista Pé-de-Cabra, publicada em março de 2018. Depois fui atrás de todos os números da Weird Comix e, em seguida, li o violento Assassino na Casa (Ugrito #20) e o doentio O Deplorável Caso do Dr. Milton (Escória Comix). Além de seu traço hachurado, das tramas surtadas e do humor bizarro, me impressiona nos quadrinhos dele a tensão constante de suas histórias.

Dois anos após a minha primeira entrevista com Fábio Vermelho, voltei a conversar com o autor. Focamos esse novo papo em Eu Fui um Garoto Gorila e 400 Morcegos. Ele me falou sobre suas parcerias com as editoras Veneta e Escória Comix, refletiu sobre os temas e as propostas de cada um desses trabalhos, adiantou um pouco sobre a ainda inédita 11ª edição da Weird Comix e comentou a influência dos quadrinhos de Marcello Quintanilha em suas HQs. Saca só:

“Não faz o menor sentido desenhar um gibi com serial killers, assassinato, flagelação e coisas do gênero e não mostrar absolutamente nada”

Página de Eu Fui um Garoto Gorila, de Fábio Vermelho (Divulgação)

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

Está sendo uma montanha russa de emoções. No começo, quando o negócio estourou no mundo todo, fiquei extremamente neurado, então foquei total nos meus desenhos para tentar esquecer. Quando eu terminei de desenhar Morcegos já estava menos neurado, mas ainda estou isolado e hoje em dia só consigo sentir um misto de choque com decepção de ver todo mundo vivendo normalmente por aí, como se nada estivesse acontecendo. Não as pessoas que precisam trabalhar, óbvio, mas as que estão em praias, shows e bares.

Em 2020 você lançou o 400 Morcegos pela Escória e nesse início de 2021 está publicando o Eu Fui Um Garoto Gorila pela Veneta. Você pode falar um pouco sobre as origens de cada um desses trabalhos? Houve alguma inspiração ou ponto de partida em particular para cada uma dessas histórias?

A centelha inicial de 400 Morcegos veio enquanto ainda fazia O Deplorável Caso do Dr. Milton. Falei com o Lobo [Ramirez, editor da Escória Comix] que queria fazer o próximo gibi mais curto e que tivesse algo de satã e sacrifícios, coisas assim. Foi logo aí que bolei a frase da contra-capa (Sangue, Sexo, Satã), que era o que eu queria que tivesse no enredo. E aí, enquanto eu ia terminando o Dr. Milton, fui desenvolvendo a história. Percebi que para fazer um gibi curto não rolava fazer toda a história de um culto grande e tal, então resolvi reduzir para duas pessoas, que acabaram sendo o Walter Victor e a Helô. Um dia, ouvindo Mutantes, me veio a ideia de que o Walter poderia ter toda uma epifania ouvindo a música Trem Fantasma, e que isso tinha que acontecer nos anos 1960, qual década melhor para algum drogado ter epifanias assassinas? Olha o Charles Manson aí que não me deixa mentir. A partir daí, já tendo a ideia inicial, comecei a desenhar. Enquanto ia desenhando esse começo ia pensando no resto, embora eu já tivesse umas e outras cenas que eu queria que estivessem no gibi. Só me faltava encaixar tudo, mas isso vai acontecendo conforme desenvolvo a história.

Já o Gorila foi um processo diferente. Apesar de eu não ter escrito roteiro também, pude ir desenvolvendo a história durante cinco anos. A ideia inicial veio de fazer uma mistura estranha de filmes B dos anos 1950, como I Was a Teenage Frankenstein e I Was a Teenage Werewolf, uma pitada de King Kong e bastante true crime, serial killers, investigadores de polícia e coisas assim. E como fui desenvolvendo ao longo dos anos, desenhei ao mesmo tempo quadrinhos curtos para a Weird Comix, como Goo-Goo Muck, que se passa nessa mesma cidade do Garoto Gorila, West Moss, com alguns personagens recorrentes. É por isso que essa história está no mesmo livro do Gorila.

“Ainda quero fazer HQs com vampiros, zumbis e canibais”

A capa de Eu Fui um Garoto Gorila, de Fábio Vermelho (Divulgação)

Aliás, você começou a sua história como quadrinista como autor independente, publicando a Weird Comix por conta própria. Como é a experiência de publicar dois trabalhos seguidos por editoras? O que mais te surpreendeu dessa experiência com editoras?

Está sendo uma ótima experiência, gosto muito das duas editoras, e cada uma das ideias que o Lobo e o Rogério [de Campos, editor da Veneta] dão. Fico feliz porque são duas editoras que gosto de verdade, então é muito massa ter meus quadrinhos publicados por elas, acho que estão em boas mãos! O que me surpreendeu de verdade foi ver que consigo trabalhar com outras pessoas, ao invés de sozinho. Até então eu fazia tudo só, então se meu gibi fosse um fracasso eu só devia satisfações a mim. Quando comecei a publicar por editoras comecei a me perguntar ‘Mas e se acharem esse gibi uma bosta? E se ninguém comprar e eu falir a editora? Vai ser tudo culpa minha!’. Todo lançamento de gibi é uma nova taquicardia!

O que você pode adiantar sobre essa edição de Garoto Gorila pela Veneta? Ela tem alguma diferença do trabalho que você publicou originalmente nas Weird Comix?

Não tem diferença na história em si, que está integralmente lá, sem tirar nem pôr. Mas para o livro eu acrescentei, como disse antes, uma HQ curta e também, por sugestão do Rogério, inseri umas ilustrações como respiro entre alguns capítulos, Algumas são ilustrações que saíram nas Weird Comix, outras fiz especialmente para o livro. Também para o livro fiz um desenho que usei de abertura para a história principal do livro, a Garoto Gorila.

Ah, e claro, tem a minha tradução para o português também, já que tudo foi originalmente pensado e escrito em inglês [todas as edições da Weird Comix são escritas em inglês].

Você já me falou uma vez por seu interesse em subverter essa aura de ingenuidade dos anos 50 e essa é uma das características de Garoto Gorila. Mas eu queria saber: tem um ponto de partida esse seu interesse pelos Estados Unidos dos anos 50? Quais obras dessa época você mais gosta e mais contribuíram para a formação do seu imaginário dessa época?

O interesse começou pela música. Primeiro, com o neo-rockabilly dos anos 1980 e em seguida pelo rockabilly original dos anos 1950. Para criar esse imaginário que uso nas minhas histórias, foi uma mistura de um monte de coisa. Tanto filmes clichês e bobos como Grease e American Graffiti, quanto umas coisas mais trashs que saíram na época, como os filmes B que rolavam nos drive-in, e, claro, os quadrinhos da EC Comics que saiam antes do Código. Lendo também livros como O Apanhador no Campo de Centeio, On The Road, Os Subterrâneos, Queer, Almoço Nu, percebi também o óbvio: desajustados existem desde sempre, inclusive nos anos 1950. Os jovens podiam sim se envolver em crimes, usar drogas, desrespeitar as autoridades, matar e morrer. E por que não mostrar tudo acontecendo em uma cidade normal, mas onde coisas esquisitas como monstros, gorilas gigantes e aliens existem?

Li também livros sobre a origem do rock’n’roll, suas raízes e seu público alvo, os jovens. Li livros também sobre os Teddy Boys, uma subcultura jovem britânica que eu acho super interessante, que explodiu nos anos 1950, baseada no rock’n’roll americano e em vestimentas com estilo da Era Eduardiana.   

Provavelmente parte dessa vontade veio de ver como os Cramps subvertem inúmeras músicas dos anos 1960 para trás e as transformam em algo completamente a cara deles. É tudo uma coisa só, um monte de livro, filmes e músicas que acabam se misturando e saindo em forma de quadrinhos de uma forma que nem sei explicar direito.

“Ouvindo Mutantes me veio a ideia de que tinha que acontecer nos anos 1960. Qual década melhor para epifanias assassinas?”

Página de 400 Morcegos, de Fábio Vermelho (Divulgação)

Uma das surpresas do 400 Morcegos foi a ambientação no Brasil dos fim dos anos 60. Como foi a experiência de trabalhar nesse outro cenário e nessa outra época?

Foi demais! Eu sempre desenhei ilustrações e até um quadrinho curto que se passa nos anos 1960, mas nunca tinha feito algo no Brasil.

E essa devia ser uma época bem esquisita no nosso país, toda aquela parada hippie no mundo e aqui rolando uma ditadura. Tentei botar um pouco desse clima meio calor, praia, música, mas ao mesmo tempo policiais sendo truculentos na rua e pessoas aleatórias xingando os outros de comunista. Na verdade parece bastante como Brasil de hoje, olha só, que bosta.

Ainda sobre essa ambientação dos 400 Morcegos, quais tipos de referência você tem do Brasil dessa época? Quais músicas, filmes e outras obras desse período estão mais presentes no seu imaginário e você usou de referência para a construção da HQ?

Essa parte é divertida! Gosto de procurar referências! Muita coisa peguei de filmes, propagandas da época, revistas de moda, etc. Tem um monte de detalhezinho! Aquela parte em que o avião chega no Rio de Janeiro, por exemplo, fiquei procurando propagandas de companhias aéreas da época para ver como eram os aviões e tal. Acho até que a fala da aeromoça foi copiada de alguma propaganda ou trecho de filme… [ver imagem acima].  Os cartazes dos bares, ou coisas grudadas nas paredes, muitas delas procurei coisas da reais da época, apesar de saber que ninguém vai ligar pra isso. 

Apesar de odiar desenhar automóveis, gosto de procurar os carros da época também. Mesmo não gostando de desenhá-los, os carros dos anos 1970 para trás são muito mais bonitos dos que o de hoje em dia. Gosto de procurar as roupas e penteados também, especialmente em filmes e fotos antigas. Eu perdi a conta de quantas fotos do Woodstock eu olhei durante esse tempo. 

Uma outra referência para juntar tudo nesse gibi foram os filmes do Rogério Sganzerla, como O Bandido da Luz Vermelha e A Mulher de Todos. Queria que o gibi soasse como um filme feito naquela época. Não sei se consegui hahaha.

Qual tipo de terror você gosta mais, tanto de ler quanto de produzir: terror real ou com elementos de fantasia? Você vê muitas diferenças entre essas possibilidades do gênero? 

A verdade é que não leio tanto terror. Gosto muito do Edgar Allan Poe, leio quase tudo que encontro dele, mas fora isso só um pouco de Stephen King e Lovecraft. Li os clássicos também, como Drácula e Franskentein, mas não passo muito disso. O que mais interessa no terror são os filmes: assisto tanto os bem antigos como os mais novos, que estão sendo lançados hoje em dia. Todos me interessam, seja de fantasma, possessão demoníaca, serial killers, gore, vampiros, o que seja. Acabo assistindo muita merda por causa disso, mas na maioria das vezes eu gosto, porque há possibilidades infinitas de histórias para se criar, justamente por causa das diferenças entre o terror real e o terror fantasioso. Já fiz quadrinhos com monstros, serial killers, experimentos científicos que deram errado, rituais satânicos, mas ainda quero fazer um quadrinhos com vampiros, zumbis e canibais (não todos juntos haha). O quadrinho com canibais anunciei numa live da Escória e já pretendo começar no meio do ano, só falta pensar melhor no enredo, amarrar umas pontas e tal, mas ainda há tempo. O quadrinho com vampiro também já tenho uma ideia, mas não pretendo começar por enquanto pois já estou fazendo muitos gibis ao mesmo tempo. Mas pretendo começar tão logo eu termine The Rise and Fall of George Pills e ir soltando aos poucos nas Weird Comix. Quadrinhos com fantasmas eu não sei como faria ainda. E nem com zumbis. Mas quem sabe um dia?

“Adoro os balões de fala do Quintanilha, admito que tentei copiá-los em 400 Morcegos”

Página de 400 Morcegos, de Fábio Vermelho (Divulgação)

As Weird Comix são compostas por várias histórias curtas, mas com algumas exceções mais longas, como é o caso de Garoto Gorila. Da mesma forma, você publicou a 400 Morcegos e a Dr. Milton. Você tem gostado dessa experiência de contar histórias mais longas? Tem algum elemento em particular da construção de uma HQ com mais páginas que te interessa?

Tenho gostado sim! Cada vez mais tenho interesse em fazer quadrinhos longos, como os que você mencionou e o outro que eu disse na pergunta anterior, The Rise and Fall of George Pills (que está na página 90 atualmente e nem está realmente no começo). Não sei bem explicar o porquê, mas acho que as histórias que ando criando estão ficando cada vez mais mirabolantes, não sei. Mas ainda tenho vontade de fazer histórias curtas sim, ainda mais essas que são baseadas em música. Fiz uma de quatro páginas chamada Green Door, que vai sair na Weird Comix 11, e tem outra que quero fazer depois também, chamada Swamp Gal, mas essa provavelmente só para a edição 12. 

Você já me falou que não gosta de escrever uma história toda antes de desenhar, me contou que pensa geralmente em elementos básicos do início, do meio e do fim e vai construindo a história e os diálogos à medida que desenha a HQ. Esse foi o método de Garoto Gorila e 400 Morcegos?

Sim, foi o mesmíssimo método, com a diferença que tive que criar e desenhar 400 Morcegos durante fevereiro e julho de 2020, enquanto que o Garoto Gorila pude desenvolver de 2015 a janeiro de 2020, enquanto ia fazendo outras coisas ao mesmo tempo. E isso vem dando certo pra mim. Por exemplo, se eu estiver sem ideias de como juntar um ponto a outro de 400 Morcegos e já desenhei tudo que tinha pensado até então, posso dar uma pausa e voltar a desenhar George Pills. Faço mais uma ou duas páginas, desenho uma encomenda, faço algum desenho no sketchbook… Nesse meio tempo eu acabo tendo a idéia que eu precisava para o Morcegos e volto à produção dele. Parece meio caótico e dependente de sorte falando desse jeito hahaha Mas tem dado certo. Eu acho que não conseguiria sentar e escrever um quadrinho inteiro antes de começar a desenhá-lo. Só de pensar nisso já me dá dor de cabeça: ter todas as idéias do quadrinho, do início ao fim, de uma vez só. Acho que se algum dia eu fizesse isso, ia acabar mudando o roteiro no meio, enquanto desenho o negócio. Acho que me inspiro demais nas coisas que vejo e leio, então acabo tendo idéias o tempo todo (o que não quer dizer que sejam boas idéias, é só ver os quadrinhos que eu fiz).

Páginas de Eu Fui um Garoto Gorila, de Fábio Vermelho (Divulgação)

Você também já me falou sobre a sua paixão por mangás quando era mais novo. Eu fiquei com a impressão de ver algumas referências a mangás no Garoto Gorila, principalmente na forma como você remete a movimentos em algumas sequências de ação, com alguns traços no fundo das cenas. As suas leituras de mangás foram referência para você nessas passagens?

Na verdade foram, sim, bastante! E o pior é que foi meio inconsciente, saca? Quero dizer… Eu lia muito mangá quando era mais jovem, foi o meu primeiro contato com quadrinhos, porque rolava aos montes nas bancas e na loja de gibis que eu frequentava (infelizmente a loja fechou ainda naquela época). Lia Dragon Ball Z, Rurouni Kenshin, Battle Royale, Fullmetal Alchemist, Shaman King… Mas com o tempo, muitos dos títulos que eu acompanhava, por alguma razão, sumiram das bancas, foram cancelados ou os que continuaram, pareciam que não iam terminar nunca, como One Piece. Então eu meio que acabei abandonando esse negócio de comprar mangás. Eu só fui voltar a comprá-los esses tempos, quando relançaram Uzumaki, que era um gibi que eu queria muito desde aquela época mas era super difícil de encontrar. Só recentemente pude encontrar também cópias usadas dos quadrinhos do Suehiro Maruo, que pra mim é o mais interessante de todos. Os mangás de terror são os únicos que me interessam hoje em dia, ou pelo menos mangás que sejam um livro só, e não esses que são uma coleção eterna.

Mas voltando ao assunto: acho que foi meio inconsciente, pois eu nunca parei para pensar em usar essas linhas de movimento e tal, eu só fiz.  Acho que enquanto eu desenhava as páginas, só me pareceu extremamente natural utilizar esses recursos. Só fui me dar conta disso quando, na Bienal de Quadrinhos de Curitiba, em 2018, eu tava falando com o Rafa Coutinho (ele não deve se lembrar disso) e tava mostrando para ele a revista que eu tava lançando na época, a Weird Comix # 8, que tem o capítulo seis do Garoto Gorila, e enquanto ele folheava comentou algo como ‘muito legal, tem uma influência de mangá, né, essas linhas de movimento e tal’ hahahaha. Para ver como eu não penso muito nas coisas que faço…

“Acho importantíssimo que os personagens pareçam pessoas reais”

Página de Goo-Goo Muck, obra de Fábio Vermelho presente em Eu Fui um Garoto Gorila (Divulgação)

O Marcello Quintanilha assina a quarta capa do seu trabalho para a coleção Ugrito e já vi algumas obras dele na sua mesa em posts seus no Instagram. Ele é uma influência para você? Quais outros autores que você tem tido como referência e estão influenciando seus trabalhos mais recentes?

É até meio ridículo dizer isso, mas sim, é uma influência. Ridículo no sentido de que se alguém pega um gibi do Quintanilha e depois um meu, essa pessoa vai pensar ‘mas o que diabos esse idiota acha que se influencia no Quintanilha? Não há nem como comparar a arte de um com a do outro, coitado desse Fábio’. Mas é mais em algumas coisas pequenas. O caimento das roupas, por exemplo, eu acho magnífico. As roupas antigamente tinham um caimento característico que acho super importante e acho que o Quintanilha faz isso muitíssimo bem. Fora também os ângulos e as cenas de movimento, que acho impecáveis. Mas uma influência mais direta que posso mostrar foram os balões de fala. Eu adoro os balões de fala que ele desenha, e tenho que admitir que tentei copiá-los em determinados momentos de 400 Morcegos. Eu desenhei esse gibi inteiro com pincel e fiz as hachuras com as canetas, porque queria um traço mais fluido. E achei que a forma como ele desenha os balões, especialmente no Fealdade de Fabiano Gorila (olha que coincidência) se encaixaria perfeitamente na minha proposta. Obviamente os meus balões são feios e tortos em comparação com os dele, mas dá para ter mais ou menos a ideia..

As minhas influências mais recentes, e por conseguinte as usadas em 400 Morcegos, são basicamente Charles Burns, Guido Crepax, Suehiro Maruo… Venho usando cada vez mais o preto sólido também, desde que comecei o Dr. Milton, inspirado pelo Burns. O que é totalmente diferente das referências que usei no Garoto Gorila. Naquela época eu tava pirando demais numas paradas underground como o Crumb (que até hoje me influencia, claro, mas acho que naquela época era mais forte) e o Gilbert Shelton. O Matthias Schultheiss também, e claro, os quadrinhos da EC Comics, como o Tales from The Crypt, principalmente. Naquela época eu tinha no computador toda a coleção de várias dessas revistas de terror. Tudo isso resultou em um quadrinho extremamente hachurado e torto. Adoro isso hahahahha.

Ainda sobre o Quintanilha, algo muito característico dos trabalhos dele está na voz dos personagens, nos diálogos e na oralidade das falas. Eu vejo você dando muita atenção aos diálogos e às falas presentes nas suas HQs, principalmente por serem obras de época. Esse é um foco de atenção seu? 

Com certeza! Eu acho importantíssimo que os personagens pareçam pessoas reais, para que o leitor possa se envolver o máximo possível com a história. As pessoas podem achar que meus gibis têm muito texto, mas é meu jeito de construir a história. Espero estar indo bem em relação a isso, mas só os leitores podem me responder.

E outro elemento muito característico do seu trabalho é a violência. Tem alguma origem em particular esse seu interesse por violência? O que você mais gosta ao representar a violência de forma tão gráfica como ela é apresentada nos seus trabalhos?

Eu represento a violência de forma gráfica porque é assim que ela é. Eu não sei os jornais de outros estados, mas no Pará rolavam uns jornais que na própria capa figurava um cadáver todo ensaguentado de algum coitado que foi morto pela polícia, e eu olhava pra isso na fila do balcão da padaria, saca? Como eu disse antes, quero que o leitor se envolva com a história, quero que ele sinta que está lá, quero que fique nervoso, enojado, envergonhado, amedrontado com tudo que acontece com os personagens. E isso inclui, às vezes, ver corpos desmembrados, estraçalhados, nus, deformados, decapitados e por aí vai. Muitos filmes gore mostram esse tipo de coisa, filmes que eu assistia na década 2000, como O Albergue, A Casa de Cera ou Jogos Mortais. Por que não mostrar esse tipo de coisa nos quadrinhos também? Ainda mais levando em conta que as possibilidades nos quadrinhos são infinitas, já que não preciso matar ninguém de verdade ou gastar grana com efeitos de maquiagem. Não faz o menor sentido para mim desenhar um gibi com serial killers, assassinato, flagelação e coisas do gênero e não mostrar absolutamente nada. Claro que depende do caso, óbvio, mas estou falando especificamente do que eu quero passar com meus quadrinhos. Não estou dizendo que todo mundo tem que fazer assim.

“Na Weird Comics eu publico tudo que eu quero sem interferência externa alguma”

Página de La Tentacion, HQ de Fábio Vermelho que será impressa no próximo número da revista Weird Comix (Divulgação)

Você já está trabalhando em um próximo número da Weird Comix? O que você pode adiantar sobre essa próxima edição? 

Estou sim, na edição 11! Em primeiro lugar, posso adiantar que ao invés de duas por ano, vou lançar apenas uma edição por ano agora. De 2019 para trás eu me dedicava somente a elas, então o tempo era infinitamente maior. Agora que comecei a lançar gibis em português para editoras, as Weird Comix ficaram em segundo plano. Mas com certeza continuarei lançando, porque são basicamente onde eu publico tudo que eu quero sem interferência externa alguma, sejam meus quadrinhos curtos baseados em músicas, minhas ilustrações, minhas tiras, meus textos sobre aleatoriedades. Acho que todo mundo que quer publicar gibi e fica se sentindo desmotivado porque as editoras não lhes dão atenção, deveria se auto-publicar antes. É uma experiência muito legal, você se sente muito mais perto dos leitores e tem liberdade total.

Em segundo lugar, posso adiantar que vou continuar lançando The Rise and Fall of George Pills, o quadrinho longo que venho serializando na revista desde a edição 5; vai ter também uma história curta chamada Green Door, que falei antes, e é baseada em uma música que os Cramps fizeram cover; vai ter uma outra história curta, La Tentación, baseada em uma música homônima de uma banda punk chamada Kaka de Luxe, que saiu originalmente na coletânea Quadrinhos que Podem Desgraçar Sua Vida (Ou Não), em 2018.

Basicamente a mesma coisa de sempre, para quem tá acostumado com a revista. Acho que sai lá pelo meio do ano, depois que sair o Eu Fui um Garoto Gorila.

Depois dos seus trabalhos publicados pela Escória e pela Veneta, você já tem algum próximo título sendo desenvolvido para alguma editora?

No momento estou desenhando um gibi em parceria com o Yuri Moraes. Estamos criando a história juntos, mas ele escreve o roteiro e eu desenho. É a primeira vez que crio um gibi junto com alguém, está sendo uma experiência ótima. Não sabemos ainda como vamos publicar, mas estamos no começo, na página 50. Provavelmente vai ser bem longo, então esse está previsto para 2022 ou, quem sabe, 2023.

Também já tinha falado com o Lobo, enquanto desenhava o Morcegos, sobre lançar um gibi curtinho pela Escória, e eu queria que fosse sobre canibais. O título do gibi é Bebês Maníacos da Lagoinha, e está previsto para outubro. Já comecei a pensar no enredo, mas vou desenvolvendo com o tempo, enquanto desenho os meus outros gibis. Na teoria ele vai ter umas 80 páginas, mas vai saber. Ele pode acabar terminando com 100 ou 105, eu sempre dou essa margem de erro.

Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?

No momento tô lendo um livro do Sartre, A Náusea, mas tô no comecinho, não posso indicar, não sei se vou gostar até chegar no fim hahaha. O livro anterior que li, Os Demônios de Loudun, era bem interessante, mas não recomendo para quem nunca leu nada do Aldous Huxley. Vou indicar então o Admirável Mundo Novo, que é do mesmo autor e apesar de ter sido lançado em 1932, é extremamente atual. De gibi vou recomendar Jeanine, do Matthias Picard, que li recentemente e eu adorei.

Esses tempos ando maratonando e reassistindo todas as temporadas de American Horror Story, uma atrás da outra. É uma série de terror do Ryan Murphy na qual sou viciado. Baixei também toda a temporada clássica de Twilight Zone, a que durou de 1959 à 1964, para reassistir os episódios que já vi e descobrir uns que devo ter perdido.

Quanto a música, estou sempre ouvindo tanta coisa ao mesmo tempo… vou recomendar o Leonard Cohen, algo que ando ouvindo muito ultimamente. E Cramps, é claro, sempre vou recomendar.

A capa de 400 Morcegos, de Fábio Vermelho (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Riotsistah, autora da Máquina Assassina: “Se for para recomendar um álbum para ouvir enquanto você lê a HQ, seria o Maggot Brain, do Funkadelic”

A jovem Priscila S. foi vítima dos experimentos de um cientista a serviço do governo militar-reptiliano. No lugar de seu braço direito foi implantada uma arma e seu olho esquerdo foi trocado por um visor cibernético. A intenção do projeto era criar agentes secretos ciborgues para a captura de anarquistas, mas Priscila foge, passa a perseguir seus captores e também vira alvo das autoridades locais. 

As 32 páginas em preto e branco de Máquina Assassina (Escória Comix), álbum de estreia da quadrinista Riotsistah, apresentam as aventuras de Priscila como caça e caçadora dos militares a serviço do presidente réptil que transformaram seu corpo. Entre uma ida e outra a uma boate para espairecer, ela aniquila os milicos em seu encalço. 

“Eu só sabia que tinha que misturar política, mas sem ser um negócio sério, sabe?”, me diz a autora quando pergunto sobre o ponto de partida da HQ. 

Também apresentadora de um programa de soul-funk chamado Rádio Raheem na Vírus Rádio Comunitária, Riotsistah desenvolveu a trama de seu trabalho em torno de seu gênero preferido, blaxploitation; sua musa maior, a atriz Pam Grier; e clássicos como Cleópatra Jones (1973). 

“Uma das coisas que mais me atrai no gênero é definitivamente o figurino, sou definitivamente apaixonada pela moda dos anos 70”,  conta a artista. “E também pelas trilhas sonoras dos fimes, que são sempre ótimas. E obviamente o protagonismo negro”. 

Na entrevista a seguir, Riotsistah fala sobre sua relação com histórias em quadrinhos, sua paixão por filmes de blaxploitation, suas técnicas e rotinas de trabalho e suas músicas preferidas. Papo massa, saca só: 

“Sou apaixonada pela moda dos anos 70”

Página de Máquina Assassina (Escória Comix), de Riotsistah (Divulgação)

Vou começar com uma pergunta que faço para todo mundo com quem conversei nos últimos meses: como estão as coisas aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

Estão bem na medida do possível, né. Eu tô desempregada e achar um emprego nessa crise não tá fácil, mas pelo menos me dá bastante tempo pra desenhar e fazer colagens.

Máquina Assassina é a sua primeira HQ publicada, certo? Você pode me falar um pouco, por favor, sobre a sua relação com histórias em quadrinhos?

Isso, a primeira. Bom, eu fui uma adolescente muito nerd então lia tudo quanto é quadrinho de super-herói e fantasia. Mas aí fui ficando mais velha e conhecendo o cenário alternativo dos Estados Unidos e do Brasil e foi mais ou menos nessa época que eu conheci a Escória Comix e me apaixonei.

“Eu só sabia que eu tinha que misturar política, mas sem ser um negócio sério”

Página de Máquina Assassina (Escória Comix), de Riotsistah (Divulgação)

Queria saber também sobre a sua relação com com o gênero blaxploitation. Você lembra do seu primeiro contato com obras do gênero? O que mais te atrai em trabalhos desse gênero? Quais são as suas principais referências de blaxploitation?

Bom, eu só tenho 22 anos então quando o movimento surgiu eu nem tava pensando em nascer. Meu primeiro contato foi a partir de Todo Mundo Odeia o Chris. Eu era (e ainda sou) obcecada pela série então eu buscava TODA referência que aparecia lá e ai eu conheci Superfly e entrei para esse mundo. Uma das coisas que mais me atrai no gênero é definitivamente o figurino, sou apaixonada pela moda dos anos 70. Mas também pelas trilhas sonoras dos filmes que são sempre ótimas. E obviamente o protagonismo negro. Minhas principais referências são todos os filmes da Pam Grier no gênero, Cleopatra Jones e Black Dynamite.

Você pode contar, por favor, um pouco sobre o ponto de partida de Máquina Assassina? Essa história teve alguma origem em particular?

Cara, pra ser bem sincera, não. No fim de 2019 o Lobo [Ramirez, editor da Escória Comix] perguntou se eu queria fazer um quadrinho pra Escória e eu topei, passei a noite pensando numa história meio por cima pra ver se ele gostava e essa foi a primeira ideia. Eu só sabia que eu tinha que misturar política, mas sem ser um negócio sério, sabe?

“Minhas principais referências são os filmes da Pam Grier

Página de Máquina Assassina (Escória Comix), de Riotsistah (Divulgação)

As trilhas sonoras de filmes de blaxploitation costumam ser muito marcantes. Você ouvia música enquanto produzia Máquina Assassina? Você consegue imaginar alguma canção ou artista que poderia servir de trilha para o seu quadrinho?

Nossa, eu ouvia muito. Me amarro muito em soul-funk (inclusive tenho um programa de soul-funk na Vírus Rádio Comunitária, chamado Radio Raheem) e era o ritual botar algum disco do gênero enquanto desenhava. No próprio quadrinho aparecem algumas músicas em determinadas situações que já servem meio como uma recomendação mas se fosse para eu recomendar um álbum pra ouvir enquanto você lê o quadrinho seria o Maggot Brain, do Funkadelic.

Como foram os seus métodos de trabalho durante o desenvolvimento dessa HQ? Como você trabalha? Você seguiu alguma rotina?

Olha, eu diria que eu fui meio descobrindo enquanto fazia. Mas eu percebi que fluía melhor no fim da tarde e a noite e sempre com música e uma cerveja do lado pra não ficar tensa.

Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?

Pior que no momento eu terminei séries e livros e tô em busca de novos, mas tem uma série que saiu em 2019 e eu não superei até agora é a minissérie de Watchmen. Já vi, revi e recomendo compulsoriamente para as pessoas. Ah! E tem um pouquinho de blaxploitation nela! E eu tô ouvindo bastante uma rapper dos anos 90 chamada Heather B, a muié é muito braba!

A Capa de Máquina Assassina (Escória Comix), de Riotsistah (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Gabriela Güllich e Isabor Quintiere, autoras de Jogo de Sombras: “O que mais gosto no terror é a sensação de que algo está fundamentalmente errado com o universo”

A escritora Isabor Quintiere diz ter ido atrás de seus medos de infância quando foi convidada pela quadrinista Gabriela Güllich para desenvolver uma HQ de terror. Ela então resgatou seus incômodos com os apagões recorrentes vivenciados por ela em João Pessoa no fim dos anos 90 e histórias de assombração do interior da Paraíba para conceber a trama de Jogo de Sombras, primeira parceria entre as duas autoras e primeiro quadrinho de terror de ambas.

“A dinâmica de um blecaute funcionaria muito bem com o estilo de desenho da Gabi, de alto contraste”, conta a autora da coletânea de contos A Cor Humana sobre suas reflexões antes de apresentar para a amiga a história que se tornaria um quadrinho de 44 páginas.

E sim, realmente funciona a dinâmica entre a arte em preto e branco de Güllich e a trama de Isabor, ambientada em uma noite de falta de energia nos anos 90 em uma casa no brejo paraibano.

Jogo de Sombras tem início com a chegada da jovem Cícera em sua casa sem luz. Ela então sugere ao irmão e à avó uma brincadeira ingênua com as sombras das mãos usando a luz de velas que acaba por atrair a presença de um quarto elemento na casa.

Conversei com as duas autoras de Jogos de Sombras sobre as origens do quadrinho, o desenvolvimento da obra e a relação de ambas com o gênero de terror. Coautora da reportagem em quadrinhos São Francisco, em parceria com o fotojornalista João Velozo, e da série de entrevistas em quadrinhos Entre Quadros, Gabriela Güllich também falou sobre sua primeira incursão no terror e Isabor Quintiere contou sobre essa sua estreia nas HQs. Papo bem legal, saca só:

“Uma história de terror é excelente quando faz você ficar inquieto com coisas que nem te incomodavam até então”

Quadro de Jogo de Sombras, de Gabriela Güllich e Isabor Quintiere (Divulgação)

Vou começar com uma pergunta que faço para todo mundo com quem conversei nos últimos meses: como estão as coisas aí? Como vocês estão lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma as produções de vocês e suas rotinas de trabalho?

Isabor: Por aqui, na minha casa em João Pessoa, sigo em isolamento desde março do ano passado, trabalhando remotamente. Não tem sido fácil, mas o contato constante com as mídias como videogames e livros ajudou muito a diminuir o impacto negativo disso em mim. Demorou uns meses pra que eu me adaptasse o suficiente ao isolamento e voltasse a produzir, mas enfim retomei o ritmo e estou escrevendo novamente.

Jogo de Sombras é pré-pandemia, mas foi afetado por ela também. Tínhamos planos de lançá-lo em 2020, mas com o caos do coronavírus decidimos ‘esperar até a pandemia acabar’… O que não aconteceu! Hahahah Então conversamos e optamos por lançar mesmo assim.

Gabriela: Cheguei inclusive a conversar contigo no início do ano sobre o cancelamento dos eventos, né, Ramon? A gente queria lançar a HQ no FIQ, mas houve essa mudança de planos. Aqui sigo nos trabalhos remotos também e faço todas as minhas entrevistas para a coluna na Mina de HQ via Zoom. Felizmente, tivemos uma procura muito grande por Jogo de Sombras agora na pré-venda (bem maior do que eu imaginava, confesso! Hahaha) então vai dar pra cobrir todos os gastos.

E qual a memória mais antiga de vocês com obras de terror? Vocês têm uma obra de terror que consideram de alguma forma mais marcante na vida de vocês? Se sim, qual e por quê?

Gabriela: Eu tenho uma memória boa e uma ruim! Minha irmã assinava a revista Mundo Estranho, e teve um especial sobre o filme O Exorcista. Eu era muito criança, peguei pra ler de enxerida e fiquei completamente apavorada com as ilustrações (pensando bem, agora tá na hora de pesquisar quem foi que ilustrou aquela edição porque a arte tava incrível! Hahaha). Fiquei com tanto medo dos desenhos que passei bem uma semana sem dormir direito, acredita que até hoje não vi esse filme? 

A memória boa foi a primeira vez que peguei um Dylan Dog pra ler, era com o Johnny Freak. Já gostava muito de preto e branco com contraste forte, também já gostava de ler terror, mas ainda não tinha lido HQs no estilo. Me apaixonei logo de cara, e segue sendo uma das minhas leituras favoritas.

Isabor: A minha memória mais antiga é do filme No Cair da Noite, que eu assisti quando criança. Uma cena dele me marcou muito, que é quando um personagem está dentro do banheiro iluminado e vemos a criatura se movendo no escuro, do lado de fora. É quase impossível distinguir suas formas na escuridão, mas dá pra notar o suficiente pra sabermos que ela está lá. Gostei muito dessa sua pergunta porque ela me fez perceber que eu trouxe para a história de Jogo de Sombras esse mesmo medo do quase-invisível, do pouco-discernível que habita as sombras, sem nem mesmo perceber essa referência tão remota. Foi o subconsciente trabalhando.

Mas a minha obra favorita e que mais me marcou não foi essa, e sim o mangá Uzumaki, de Junji Ito. O que eu mais gosto no terror não é de tomar sustos, mas da sensação de desconforto que fica depois de uma leitura, de que algo está fundamentalmente errado com o universo. Uma história de terror é excelente quando faz você ficar inquieto com coisas que nem te incomodavam até então. Foi o caso desse mangá, que me deixou nervosa com espirais por alguns dias após a leitura.

“Quero sentir apreensão, desconfiança, nervosismo, dúvida”

Página de Jogo de Sombras, de Gabriela Güllich e Isabor Quintiere (Divulgação)

Qual elemento vocês consideram mais essencial para uma boa obra de terror?

Isabor: É fundamental para mim que eu não me sinta ‘bem’ lendo uma obra de terror. Eu quero sentir apreensão, desconfiança, nervosismo, dúvida. Quando termino uma leitura que me causa isso, eu penso: ‘uau, passei mal, 10 estrelas!’ E ajuda muito o fato de eu ser meio covarde. As coisas ficam mais imersivas assim.

Gabriela: Acho que a tensão é um fator muito importante mesmo. Eu não gosto de filmes de terror, não me chamam muita atenção, mas amo ler terror. E o que mais adoro na leitura é segurar as páginas com apreensão, querer e não querer ao mesmo tempo saber o que vai acontecer em seguida.

Vocês podem contar um pouco, por favor, sobre as origens de Jogo de Sombras? Como esse projeto teve início? 

Gabriela: Tudo começou porque eu não aguentava mais embalar livro e comecei a mandar mensagem pras amizades falando ‘ei, bora lá em casa! Comer um bolinho, empacotar umas recompensas, tomar um café…’ Hahahaha Foi bem no fim do Catarse de São Francisco, aí Isabor foi lá em casa me ajudar a organizar os livros. Conversa vai, conversa vem, joguei o verde: ‘bora fazer um quadrinho de terror?’ E fizemos!

Isabor: Gabi tinha vontade de fazer uma HQ de ficção, porque até então só tinha feito jornalismo em quadrinhos, então conversamos e decidimos criar algo juntas. Ela sugeriu que fosse no gênero de terror, e eu fui atrás de procurar, na infância, algo que me causava medo e que eu pudesse explorar em uma HQ. Pensei logo nos apagões dos anos 90 (que eram muito recorrentes aqui) e nas histórias de mal-assombro interioranas. Decidi jogar essa ideia para a Gabi porque a dinâmica de um blecaute funcionaria muito bem com o estilo de desenho dela, que é de alto contraste, com pretos e brancos.

“Queria incitar essa agonia de não enxergar tudo em quem tá lendo”

Quadros de Jogo de Sombras, de Gabriela Güllich e Isabor Quintiere (Divulgação)

Como foi a dinâmica de vocês durante o desenvolvimento do quadrinho? Vocês chegaram a fechar um roteiro antes da Gabriela começar a ilustrar? Como era a troca entre vocês à medida que as páginas eram finalizadas?

Gabriela: Sim, Isabor fez o texto todo em formato de conto, e eu fui adaptando. Tanto é que optamos por deixar algumas partes só de texto no quadrinho, achei que ficava legal intercalar narração e imagem. Até porque, é uma história que se passa numa noite de breu, né? E a gente queria muito incitar essa agonia de não enxergar tudo em quem tá lendo. Aí eu ia fazendo os rascunhos e mandando pra Isabor, a Ana Gabriella que fez o projeto gráfico também recebia e ajudava a dar uns pitacos.

Acho que essa é a primeira HQ de horror de vocês, certo? Qual balanço vocês fazem do uso da linguagem dos quadrinhos para contar uma história de horror? Quais aspectos da linguagem vocês acham que mais contribuem para contar uma história de horror? E há algum aspecto da linguagem que vocês concluíram ser um empecilho para histórias desse gênero?

Isabor: Pra mim, foi um desafio muito divertido transpor o que causa medo na prosa para o que causa medo na arte visual. Na prosa, a gente calcula cada palavra, cria tensão através da construção das frases, através do que a gente descreve ou deixa de descrever. Isso não acontece com a HQ. Nela, a questão foi saber o que mostrar e o quanto mostrar. Decidimos pesar muito no preto para criar essa atmosfera opressiva de escuridão, de só enxergar vultos e poucas luzes. Foi muito bom explorar isso.

Gabriela: Eu acho que o fator principal pra essa história ter dado certo visualmente foi o jogo com as figuras. Logo no início, tem a cena do jogo de sombras da família, que é essencial pros eventos que ocorrem no decorrer da história. Foi a parte que mais gostei de desenhar, Isabor deu a sugestão das figuras que ela queria formar e eu fui assistindo vários vídeos de brincadeiras com velas e lanternas pra estudar as projeções, foi muito interessante poder brincar com isso. O que poderia ter sido um empecilho são as cenas de breu total (meio que difícil de desenhar o que não aparece, né?), mas intercalando com a narração acredito que a gente conseguiu manter a atmosfera de suspense.

Quadros de Jogo de Sombras, de Gabriela Güllich e Isabor Quintiere (Divulgação)

Gabriela, com quais técnicas e materiais você trabalhou nesse projeto? São as mesmas usadas por você no São Francisco?

Gabriela: Foi basicamente o mesmo material de São Francisco: tudo em nanquim. Uma coisa que explorei foi fazer um jogo de cores aplicando uns cinzas no Photoshop, porque achei que seria legal deixar o preto e branco de alto contraste para algumas cenas específicas de mais impacto.

Vocês podem recomendar algo que estejam lendo/assistindo/ouvindo no momento?

Isabor: No momento, estou lendo o novo livro de contos de terror de Bruno Ribeiro, conterrâneo que recebeu o Prêmio Machado Darkside ano passado. Recomendo muito todos os trabalhos dele pra quem curte bastante gore e violência na literatura.

Gabriela: Eu estou lendo O Corpo Dela e Outras Farras, de Carmen Maria Machado, e gostando bastante, ela mistura muito humor e terror. Ah, ouvi MUITO o álbum Se O Caso É Chorar, de Tom Zé, enquanto fazia essa HQ. 

A capa de Jogo de Sombras, de Gabriela Güllich e Isabor Quintiere (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Tom Gauld, autor de Guarda Lunar: “A arte que mais gosto costuma ser triste e engraçada ao mesmo tempo”

Entrevistei o quadrinista escocês Tom Gauld pela primeira vez em 2019, quando a editora Todavia publicou Golias, primeira obra longa do autor lançada em português. Voltei a conversar com ele há algumas semanas para saber mais sobre as origens e a produção de Guarda Lunar, segundo título longo do artista lançado por aqui.

A nossa conversa de 2019 virou matéria para o jornal O Globo e essa segunda transformei em texto para a Folha de S. Paulo. Dessa vez foquei mais na relação de Gauld com ciência e ficção científica, dois dos temas mais queridos do autor e bastante ligados a Guarda Lunar e às suas tiras para os jornais Guardian e New York Times e para as revistas New Yorker e New Scientist.

Ainda falamos nesse papo mais recente sobre pandemia, negacionismo, os filmes de Jim Jarmusch, ritmo e os próximos trabalhos de Gauld. Deixo outra vez o link da minha matéria e reproduzo a seguir a integra da minha nova entrevista com o quadrinista britânico. Saca só:

“Quanto mais a ciência entra na imaginação popular, mais material eu tenho para trabalhar e me divertir”

Quadro de Guarda Lunar, de Tom Gauld (Divulgação)

Queria começar sabendo como estão as coisas por aí. Estamos no meio de uma pandemia, é um momento de muita tensão e risco para todo o mundo. Como você está lidando com isso tudo? Como essa situação afetou a sua rotina? A sua produção foi influenciada de alguma forma por esse realidade que estamos vivendo?

Estou bem, obrigado por perguntar. Posso trabalhar em casa e estou acostumado a trabalhar sozinho, então tenho conseguido manter o ritmo. Mas há muitas pequenas coisas de que sinto falta. Eu costumava passear por museus e desenhar muito em cafés, mas não posso fazer isso agora. No início, não consegui abordar a pandemia nas minhas tiras semanais porque parecia grandiosa demais e assustadora, mas, mais recentemente, consegui fazer algumas tiras divertidas sobre ela.

Há uma presença intensa de temas científicos nos seus trabalhos e estamos vivendo em uma realidade na qual a ciência é mais necessária do que nunca. Vejo pelas redes sociais um interesse crescente sobre ciência desde o início da pandemia – está todo mundo falando sobre vacinas, contágio e por aí vai. Esse interesse afetou de alguma forma o seu trabalho? Eu imagino que você esteja lidando a cada dia com mais “especialistas”…

Sim, acho que a ciência e os cientistas estiveram mais no centro das atenções no ano passado. No Reino Unido, nosso médico-chefe e cientista-chefe quase se tornaram celebridades. Não consigo pensar de nenhuma maneira específica como isso afetou meu trabalho, mas quanto mais a ciência entra na imaginação popular, mais material eu tenho para trabalhar e me divertir. Também acho bom que as pessoas percebam que a ciência faz parte de suas vidas, não é algo à parte que só importa para professores.

E em relação a negacionistas da pandemia e grupos antivacinas? Você já teve algum problema com leitores do tipo? O que você acha que está acontecendo com o mundo quando ouve sobre questionamentos de fatos e informações científicas? Tem gente por aí que acha que a terra é plana ou que nós nem fomos à Lua…

Quando as minhas tiras são tuitadas pelo Guardian ou pela New Scientist, frequentemente há alguma resposta a elas que nada tem a ver com a tira, mas vem de uma pessoa furiosa com uma teoria conspiratória para compartilhar. Isso me faz perceber quantas teorias malucas existem e quanta energia algumas pessoas colocam para promover essas coisas. A internet e as mídias sociais definitivamente ajudam a gerar essas ideias e acho que a Lei de Brandolini (‘A quantidade de energia necessária para refutar uma besteira é uma ordem de magnitude maior do que produzi-la’) parcialmente explica isso.

Amo a ideia de criar todo um mundo (ou universo) fictício

Página de Guarda Lunar, do quadrinista Tom Gauld (Divulgação)

Quando terminei Guarda Lunar fiquei curioso sobre a sua relação com ficção científica. Você lembra dos primeiros livros de ficção científica que você leu e os primeiros filmes do gênero que assistiu? Quais são as suas principais referências de ficção científica?

Quando criança, fui extremamente influenciado pelos filmes de Star Wars, eu era absolutamente apaixonado por eles. Acho que foram uma porta de entrada para toda a ficção científica: 2001: Uma Odisséia no Espaço, quadrinhos da 2000Ad, os livros da série Culture de Iain M Banks, William Gibson e etc. Eu amei (e ainda amo) a ideia de criar todo um mundo (ou universo) fictício. Eu também fui influenciado pelos documentários ‘Making of’ que você às vezes via na televisão, com homens barbados fazendo enormes modelos de espaçonaves ou fantoches de alienígenas.

Eu gosto muito do ritmo dos seus livros. Eles não têm pressa nenhuma e isso é algo que relaciono muito com os clássicos da ficção científica – estou pensando em 2001, Solaris, Planeta dos Macacos e Blade Runner, por exemplo. Você vê alguma relação entre esse ritmo mais lento dessas obras e o gênero da ficção científica?

Acho que um dos prazeres da ficção científica é a sensação de visitar um mundo estranho fictício. Não foram os enredos de Blade Runner e 2001 que chamaram a minha atenção, mas seus mundos intrincadamente imaginados e convincentes. Fico feliz em diminuir o ritmo da história, me permitindo revelar todos os detalhes.

E você pode comentar um pouco sobre os ritmos dos seus livros? Como você chegou nessa narrativa mais lenta?

Na faculdade de artes fui influenciado pelos filmes de Jim Jarmusch. Eu gostava da forma como eles brincam com seus gêneros, têm um humor irônico descontraído e são subestimados em suas fluências. Então eu queria fazer algo assim nos meus quadrinhos. Descobri como é divertido brincar com o tempo nos quadrinhos pela distribuição dos painéis na página, e gosto de como você pode sugerir lentidão e passagem do tempo sem entediar o público.

Nas minhas tiras semanais não há muito espaço e, portanto, há menos escopo para brincar com pausas e sequências lentas. Nas graphic novels tenho todo o espaço que quero, então gosto de usá-lo.

Você pode contar um pouco sobre os seus métodos e suas técnicas durante a produção de Guarda Lunar?

Guarda Lunar começou como uma ideia simples para um quadrinho curto. Seriam apenas vinte páginas muito pequenas com alguns poucos painéis em cada uma. Era realmente mais uma piada do que uma história. Mas gostei e queria pensar mais sobre esse personagem e seu ambiente. A história ficou um pouco mais complexa, mas a maior parte do que acrescentei foram detalhes de sua vida e de seu mundo. Fiz muitas anotações e desenhos, imaginando a colônia lunar, como funcionava e como era a história dele.

“Acho que a lua, depois de um ou dois dias, seria um lugar um tanto chato para se visitar”

Página de Guarda Lunar, do quadrinista Tom Gauld (Divulgação)

Quando te entrevistei pela primeira vez você me contou como um brinquedo foi a sua inspiração para esse conto sobre um policial fazendo patrulha na lua. Como você desenvolveu essa história? Como você decidiu qual seria o personagem e qual seria a história que você iria contar? 

Tive uma ideia para o início da história (na verdade, apenas o comecinho mostrando um policial entediado em uma colônia lunar silenciosa e sem crimes) e sabia o final que queria contar (que não vou estragar aqui). Depois, apenas escrevi muitas cenas da vida do policial, tentando imaginar todas as pequenas coisas que poderiam acontecer com ele, pequenos episódios que iriam compor sua vida. Os personagens e as situações cresceram naturalmente enquanto eu imaginava as cenas.

Eu queria usar a linguagem da ficção científica para contar uma história sem armas, guerra, morte e nem mesmo muita ação, sabendo que a diversão viria em parte das memórias do público de toda a ficção científica emocionante, grandiosa e cheia de ação que eles já viram.

Não retornamos à Lua desde 1972 e você nasceu em 1976. Qual é o seu nível de decepção por nunca ter visto uma viagem à Lua ao vivo?

Fico desapontado. O pouso na lua me parece uma conquista humana incrível e otimista e é triste que o espírito de aventura tenha se dissipado depois disso. Por outro lado, é meio compreensível. Acho que a lua, depois de um ou dois dias, seria um lugar um tanto chato para se visitar. As ilustrações que vemos nos anos 60 de hotéis lunares e similares parecem quase infantilmente inocentes.

“Com certeza fui atrás da melancolia”

Página de Guarda Lunar, do quadrinista Tom Gauld (Divulgação)

Para mim o sentimento predominante de Guarda Lunar é de melancolia. Era esse o sentimento que você queria ver presente nesse livro?

Eu com certeza fui atrás da melancolia. A arte que eu mais gosto costuma ser triste e engraçada ao mesmo tempo (mas não completamente sombria). Você teria que perguntar a um psicólogo por que essa combinação me atrai tanto, mas atrai.

Você pode falar alguma coisa sobre o seu próximo trabalho? Qual é o projeto no qual você está trabalhando no momento?

Estou finalizando os últimos trechos do meu trabalho em um livro ilustrado chamado The Little Wooden Robot and the Log Princess. Tem sido um processo fascinante, fazer um livro para crianças e descobrir como usar minha escrita e imagens neste novo gênero. Será lançado em inglês em agosto e logo depois em outros idiomas. Quando terminar, começarei uma nova história em quadrinhos para adultos.

A última! Você poderia recomendar alguma coisa que tenha lido/visto/ouvido recentemente?

Enquanto trabalhava no meu livro infantil li muitos contos de fadas e livros relacionados a contos de fadas. Três livros que realmente me inspiraram foram Complete Grimm’s Tales, de Jack Zipes; The Bloody Chamber, de Angela Carter; e Possession, de A.S. Byatt. Todos eles usam a linguagem de forma brilhante e me fizeram pensar de forma diferente em contos de fadas, especificamente sobre como contar histórias.

A capa da edição brasileira de Guarda Lunar, de Tom Gauld (Divulgação)
HQ / Matérias

Tom Gauld fala sobre Guarda Lunar

Conversei com o quadrinista escocês Tom Gauld sobre Guarda Lunar, trabalho do autor recém-publicado em português, lançado pela editora Todavia em tradução de Hermano Freitas. Transformei esse papo em matéria para a edição de hoje do jornal Folha de S. Paulo.

Escrevi sobre as origens e o desenvolvimento de Guarda Lunar e apresentei alguns trechos dessa minha entrevista, com Gauld falando sobre sua relação com ficção científica e a melancolia predominante em seus trabalhos. Você lê o meu texto clicando aqui.