Vitralizado

Entrevistas / HQ

Papo com Gabriel Dantas, autor de Pato Gigante: “O hábito de desenhar todos os dias é, para mim, a mesma coisa que almoçar, escovar os dentes e tomar banho”

O quadrinista Gabriel Dantas diz que chegou a jurar que nunca mais faria uma série em quadrinhos. Ele estava cansado das cobranças de alguns leitores e incomodado com a ansiedade gerada pelas demandas impostas por uma história periódica. Veio a pandemia do novo coronavírus, ele passou a compartilhar alguns rascunhos nas redes sociais e criou uma rotina de passar horas desenhando e compartilhando seus trabalhos. No fim de 2021 ele começou a trabalhar com um Ipad e seus primeiros desenhos foram de um pato amarelo gigante e sua amiga adolescente Letícia.

A série Pato Gigante foi compartilhada no Instagram de Dantas entre novembro de 2020 e dezembro de 2021, em 173 posts/páginas. Agora, a obra ganha versão impressa pela Ugra Press, com 208 páginas, 25 delas inéditas.

“Estou muito feliz com essa versão impressa. Para mim só assim meu trabalho está finalizado mesmo”, me diz Dantas, dono de uma conta com mais de 179 mil seguidores no Instagram e outra com mais de 121 mil no Twitter.

Ele completa: “Eu preciso ver no papel. Acho que tem uma dinâmica diferente, dá pra dar mais atenção para a história, pros detalhes, ler no papel é outra história. Muito melhor. A tela te pede uma urgência, o Instagram pede uma urgência, de ler voando. Ainda tem as notificações do celular. Sei lá, um saco. Fora isso, o livro tem uma beleza, um cuidado, que imortaliza mesmo a parada”.

O uso das redes sociais como principal plataforma de disseminação de seus trabalhos, o ritmo frenético de seus posts, as várias reviravoltas de suas histórias e a honestidade de seus desenhos e suas tramas me fazem ver Dantas como uma espécie de Simon Hanselmann brasileiro. Mas uma versão fofa do autor das HQs protagonizadas por Megg, Mogg, Coruja e Lobisomem Jones – presentes nos álbuns Mau Caminho e Zona de Crise.

Pato Gigante mostra a criatura que dá nome à obra em uma jornada de amadurecimento e desencontros pessoais e amorosos protagonizados por sua amiga Letícia. Conversei com Dantas sobre o desenvolvimento da série, suas rotinas e seus métodos de trabalho. Na entrevista a seguir ele me falou sobre a produção da HQ, a relação com seus leitores, a produção da belíssima capa da versão impressa do quadrinho e outros temas. Papo massa, saca só:

“Tinha até jurado nunca mais fazer uma série…”

Sempre fico curioso em relação ao ponto de partida das histórias. Você lembra do instante em que começou a desenvolver Pato Gigante? O que você pode contar sobre a origem dessa série e dos personagens presentes nela?

Bom, quando eu comecei não era uma série ainda. E nem planejava que fosse. Tinha até jurado nunca mais fazer uma pois não curtia muito a cobrança que me faziam das continuações das histórias e tals. Me deixava um pouco ansioso. Haha! O Pato Gigante veio de um hábito que eu tinha lá no Twitter de postar os meus rascunhos. As postagens estavam alcançando um número legal de pessoas e eu estava intimidado com isso, então para contornar a situação e não parar de atualizar meu perfil, eu fazia esses rabiscos. Basicamente era assim: depois de eu jantar, ligava o computador e ficava horas desenhando e postando, desenhando e postando, desenhando e postando as primeiras coisas que vinham na minha mente. Coisa de doido mesmo. Tinha dias que saía umas 20 e poucas postagens numa só noite. É algo que eu sempre fiz, mas nos meus cadernos de desenho. Aí teve um dia que saiu o Pato Gigante e a Letícia. Achei maneiro a dinâmica, mas não continuei. Estava tentando dar uma cortada em mim mesmo para não virar uma série. Então, mais pro final daquele ano, passei a usar um Ipad para trabalhar junto do programa Procreate (antes eu usava notebook, mesa digital e um programa gratuito chamado Medibang), e as primeiras coisas que desenhei foram o Pato Gigante e a Letícia. A primeira tira que fiz foi deles e postei no mesmo segundo. Deu no que deu.

Li em uma coluna do Érico Assis você comentando que tem dias que faz de “seis a 12 tiras, cinco páginas”. Você pode falar um pouco sobre a sua rotina de trabalho? Você tem algum hábito ou algum método de trabalho? Você teve alguma rotina em particular durante a produção de Pato Gigante?

É, eu não produzo mais dessa maneira, pois hoje reescrevo bastante a maioria das minhas tiras. Antes era tudo muito no improviso, desenhando direto e hoje tô tentando ser um pouco mais cuidadoso. Penso um pouco mais na cor e isso me toma tempo, e por aí vai. Mas todos os dias ainda saio com alguma coisa nova. Eu acordo desenhando e durmo desenhando, mas não que eu passe o dia todo em frente ao ipad, é só que o tempo todo tô pensando em algo novo e fico agoniado se não começar a rabiscar logo. O hábito de desenhar todos os dias é para mim a mesma coisa que almoçar todos os dias, escovar os dentes todos os dias, tomar banho e por aí vai. Meio que tem que ter. Haha. O Pato Gigante começou no improviso, mas teve um momento que eu fiquei mais interessado em fazer uns quadrinhos maiores com eles, com mais quadros e a partir de um momento que já não lembro mais eu comecei a desenhá-lo no papel primeiro e ficava reescrevendo as falas, mudando umas coisas antes de ir para o digital. E no digital eu ainda refazia do zero. Não sei bem o motivo, só gostava de fazer assim. Pra ter certeza que estava satisfeito. Os últimos quadrinhos mesmo do Pato Gigante (Isa ajudando o amigo a invadir a casa do pai para buscar um exemplar de Dragon Ball, o garoto se declarando pra Letícia e ferrando a amizade, a carta de até logo do Pato…), esses aí eu tava levando umas duas semanas para terminar cada um. Sei que é um tempo razoável para a maioria, mas para mim é uma eternidade. haha. Mesmo assim, valeu cada segundo.

“Não sei se eu teria feito essa história dessa forma se não fossem os meus leitores”

Página de Pato Gigante, HQ de Gabriel Dantas publicada pela Ugra Press (Divulgação)

E você pode falar um pouco, por favor, sobre as suas técnicas? Quais materiais você usa? 

Hoje tô totalmente no Ipad com o aplicativo Procreate. Curto demais. Até tentei umas semanas atrás começar um zine novo utilizando papel e nanquim como fazia antes, mas fiquei imaginando a trabalheira que daria escanear, tratar, redesenhar o que eu errava, fazer a revisão, comprar as canetinhas nanquins novas quando essas que tenho começassem a falhar… e bléh. Voltei pro Ipad.

Pato Gigante foi publicada no seu Instagram entre novembro de 2020 e dezembro de 2021. O quanto você tinha definido dessa história quando começou a publicá-la? Quando você deu início a Pato Gigante já tinha em mente o final da história e o desfecho para cada um de seus personagens? 

Foi super no improviso a maior parte dele. Enquanto produzia, vieram vários finais, mas nunca fechei esse final na minha cabeça até chegar o momento de produzir de fato o final.

“O que o Instagram e seu algoritmo pedem, na real mesmo, impede a produção saudável de bons quadrinhos”

Página de Pato Gigante, HQ de Gabriel Dantas publicada pela Ugra Press (Divulgação)

Você tem muitos seguidores no Instagram e seus posts costumam estar cheios de comentários. Você presta atenção na repercussão de cada post ? Se sim, esse retorno dos leitores afetou a história de Pato Gigante em algum momento?

Eu gosto muito de que as pessoas comentem nos meus posts, conversem entre si, desabafem e falem que gostam dos meus personagens e que se importam com eles. Mas evito ler a maioria dos comentários. Na internet tem muita negatividade e maldade e sei que isso pode me afetar. Como eu tô quase sempre desenhando, ler um comentário que me deixe de mau humor pode acabar me fazendo perder alguma ideia maneira, pois só vou ficar pensando naquela pessoa que fez um comentário maldoso e em como eu gostaria que ela se mudasse para outra galáxia. Haha. Dito isso, acho que o amor pelas pessoas pelos meus personagens e vê-las compartilhando e recomendando pros amigos com certeza me incentivou a continuar sem perder o gás. Não sei se eu teria feito essa história dessa forma se não fossem os meus leitores da internet.

Aliás, falando sobre o Instagram, tenho visto muitas reclamações por parte de artistas em relação ao alcance cada vez menor de cada post. Isso também tem acontecido com você? Se sim, isso impacta de alguma forma a sua produção?

Eu nunca me importei muito com isso, pois já faz um tempo que eu não posto a quantidade certa para o algoritmo me ajudar a enviar para as pessoas. Acho que tem algo assim. Deve ser bom você postar frequentemente, numa hora certa. Se passar umas semanas sumido, ferra um pouco teu alcance. E é justamente isso que faço, dou uma sumida. Conto com os meus leitores fiéis, que vão parar um pouco seu tempo para ler com calma meus quadrinhos, ver o que tenho a dizer. Não conto com aqueles que veem na velocidade da luz e partem para o post seguinte já esquecendo automaticamente do que fiz. É massa ter atenção das pessoas, claro, mas o que o Instagram e seu algoritmo pedem, na real mesmo impede a produção saudável de bons quadrinhos.

Em um papo rápido pelo Facebook, uma vez você comentou comigo que não é muito habituado à leitura de quadrinhos digitais. Por que não? E o que Pato Gigante ganha em sua versão impressa? O que significa para você ver esse trabalho saindo no papel?

Ainda sou assim. Não curto quadrinhos digitais, nem livros digitais, nem nada do tipo. Não criei esse hábito e pra mim, ficar vidrado numa tela só se for pra fazer meus quadrinhos mesmo. Não consigo nem ver filme aqui no meu quarto, fico meio agoniado, pausando direto. Sei lá, doidera. É por isso que estou muito feliz com a versão impressa do Pato, para mim só assim meu trabalho tá finalizado mesmo. Eu preciso ver no papel. Acho que tem uma dinâmica diferente, dá pra dar mais atenção para a história, pros detalhes, ler no papel é outra história. Muito melhor. A tela te pede uma urgência, o Instagram pede uma urgência, de ler voando. Ainda tem as notificações do celular. Sei lá, um saco. Fora isso, o livro tem uma beleza, um cuidado, ali que se imortaliza mesmo a parada. Eu vou atualizando o meu perfil com mais quadrinhos, mais tirinhas, e a saga que me deu anos de trabalho vai ficando lá embaixo, lá embaixo mesmo, caindo no esquecimento da galera, dos novos leitores… o livro impede isso. E para os que acompanharam no Insta, ainda tem uma conteúdo inédito.

Página de Pato Gigante, HQ de Gabriel Dantas publicada pela Ugra Press (Divulgação)

Você pode me contar um pouco por favor sobre a capa do livro [confira a capa no fim do post]? É um bordado, certo? Por que essa opção? Como vocês chegaram nessa arte?

Sim, é um bordado feito pela Dona Darcy Cantuária, também conhecida como mãe da Dani [Utescher, sócia da Ugra Press] e sogra do Douglas [Utescher, sócio da Ugra Press]. Haha. Quando o livro foi fechado, tentei pensar em várias capas para ele, mas não conseguia tirar da cabeça essa ideia de que deveria ser um bordado. Meio inspirado pelos jogos da Nintendo, principalmente o Yoshi’s Crafted World. Quando falei que queria algo assim para o Douglas, já esperava receber um não pela possível dificuldade em fazer isso acontecer, mas na real ele se animou muito e topou no mesmo segundo. Fiquei sem acreditar, haha. Depois disso, desenhei a capa como um desenho normal já com as dimensões que viria ser capa, lombada e quarta capa juntas. Douglas passou esse desenho para um tecido que serviria de guia para que Dona Darcy bordasse, e após ela bordar perfeitamente, foram feitos uns testes. Se ficaria melhor escaneando ou fotografando o bordado, e preferimos ir pelo caminho da foto pois destacava muito mais o relevo. Aí deu umas tratadinhas no photoshop e deu no que deu. Estamos todos muito orgulhosos.

Você já me disse que se interessa por quadrinhos “que se comuniquem bem com os leitores”. Vejo como um de seus principais méritos a clareza das histórias que você se propõe a contar, do seu traço e das falas dos seus personagens – e imagino que isso facilite a sua comunicação com seus leitores. Esse diálogo com seus leitores também é uma prioridade da sua produção?

Totalmente. Eu quero que todos consigam ler os meus quadrinhos e entendam o que estou querendo dizer, o que estou transmitindo. Nunca quis mirar apenas em leitores de quadrinhos, naquelas pessoas que leem gibis antes mesmo do surgimento do Planeta Terra. Gosto de pensar que qualquer um pode pegar o Pato Gigante, por exemplo, e achar maneiro.

“O Pato foi feito durante a pandemia, então foi um misto de muita coisa que já não lembro muito bem”

Página de Pato Gigante, HQ de Gabriel Dantas publicada pela Ugra Press (Divulgação)

Já vi você elogiando o Simon Hanselmann nas redes sociais. Vejo em comum em vocês o ritmo de produção, essa clareza no que vocês se propõe a fazer e as plataformas que usam para divulgar seus trabalhos. Ele é uma influência para você?

Totalmente. Piro muito no trabalho do Simon. Fico relendo os livros dele direto. São meus xodós aqui da minha coleção

Aliás, o que você gosta de ler, ver e ouvir? O que você estava lendo, vendo e ouvindo durante a produção de Pato Gigante? Tem algum autor ou alguma obra que impactaram em maior grau essa série?

Eu tento ler, ver e ouvir de tudo um pouco. Quadrinhos da Fantagraphics, Veneta, livros da Todavia, mangás, zines, reassisto muito os filmes do Paul Thomas Anderson, Wes Anderson, Edgar Wright e Scorsese. Escuto muito Jonathan Bree, Bombay Bicyble Club e The Killers. Também cheguei na fase que não tem mais onde colocar os gibis e tá virando aquelas pilhas totalmente desorganizadas uma em cima da outra. Mas tudo bem. Como o Pato foi feito durante a pandemia, então foi um misto de muita coisa que já não lembro muito bem. Sei que li uma quantidade muito absurda de mangás, não sei o quanto isso teve ter me influenciado. Mas acompanhei Banana Fish, Ao no Flag, Gigant, Spy X Family, Sunny, Paradise Kiss… e por aí vai. Com certeza o Simon Hanselmann tá no meio disso. No meio não, no topo. Te amo, Simon. Se um dia vier pro Brasil, ou melhor, pro Rio Grande do Norte… Cola aqui em casa.

A capa de Pato Gigante, HQ de Gabriel Dantas publicada pela Ugra Press (Divulgação)
Cinema / HQ / Séries

Férias

Ois. Um aviso rápido. Tô de férias e volto lá para junho – pode até ser que não resista e acabe fazendo um ou outro post, mas acho que não. Minha segunda vez de férias desde 2015 (tive uma licença paternidade lá em 2020, mas quem já viveu sabe que não envolve descanso, pelo contrário). Enfim, nos falamos, logo mais apareço. Até.

(arte do abre emprestada daqui)

Cinema / HQ / Séries

Vitralizado #115: 04.2022

Intensos os últimos 30 dias do Vitralizado. As coisas ficaram agitadas por causa do anúncio da sétima edição do Prêmio Grampo 2022 de Grandes HQs. Foram alguns posts com os resultados da eleição anual que organizo com os meus amigos do Balbúrdia, mas também sobrou tempo para uma entrevista e um ou outro post mais de registro. Vamos lá, compartilho a seguir o sumário do blog em abril de 2022:

*O gigante Angeli anunciou o fim de sua carreira como cartunista (peguei a imagem que abre o post lá no site dele);

*Eu, Lielson Zeni e Maria Clara Carneiro orgulhosamente anunciamos os vencedores do Prêmio Grampo 2022 de Grandes HQs: Escuta, Formosa Márcia (Veneta), de Marcello Quintanilha; Manual do Minotauro (Companhia das Letras), de Laerte; e Carniça e a Blindagem Mística – Parte 2: A Tutela do Oculto (independente), de Shiko. Você vê a lista completa com os 20 primeiros colocados e todas as obras citadas pelo júri clicando aqui. E você confere os rankings individuais dos nossos 20 jurados clicando aqui;

*Depois, eu, Lielson e Maria batemos um papo com o editor Douglas Utescher sobre o resultado do Grampo 2022. Já assistiu?;

*Também fiz um post reunindo todo o conteúdo que produzi ao longo do ano passado sobre as obras que ocuparam as primeiras posições no Grampo 2022. E comartilhei o texto que escrevi para o anúncio de Escuta, Formosa Márcia como a grande vancedora do prêmio em sua sétima edição;

*Escrevi para o jornal Folha de S.Paulo sobre Fronteira Híbrida, coletânea publicada pela editora MMarte reunindo alguns dos principais trabalhos do quadrinista Luiz Gê. Também publiquei por aqui a íntegra da entrevista que fiz com o autor para produzir a minha matéria;

*E encerrei as minhas atividades em abril compartilhando a arte que o Adrian Tomine produziu para o cartaz de Paris, 13º Distrito nos cinemas do Japão.

>> Veja o que rolou no Vitralizado #114 – 03.2022;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #113 – 02.2022;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #112 – 01.2022;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #111 – 12.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #110 – 11.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #109 – 10.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #108 – 09.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #107 – 08.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #106 – 07.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #105 – 06.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #104 – 05.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #103 – 04.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #102 – 03.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #101 – 02.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #100 – 01.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #99 – 12.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #98 – 11.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #97 – 10.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #96 – 09.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #95 – 08.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #94 – 07.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #93 – 06.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #92 – 05.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #91 – 04.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #90 – 03.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #89 – 02.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #88 – 01. 2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #87 – 12.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #86 – 11.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #85 – 10.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #84 – 09.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #83 – 08.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #82 – 07.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #81 – 06.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #80 – 05.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #79 – 04.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #78 – 03.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #77 – 02.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #76 – 01.2019
>> Veja o que rolou no Vitralizado #75 – 12.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #74 – 11.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #73 – 10.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #72 – 09.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #71 – 08.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #70 – 07.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #69 – 06.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #68 – 05.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #67 – 04.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #66 – 03.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #65 – 02.2018;
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>> Veja o que rolou no Vitralizado #63 – 12.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #62 – 11.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #61 – 10.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #60 – 09.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #59 – 08.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #58 – 07.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #57 – 06.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #56 – 05.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #55 – 04.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #54 – 03.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #53 – 02.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #52 – 01.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #51 – 12.2016;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #50 – 11.2016;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #49 – 10.2016;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #48 – 09.2016.

HQ

Valeu, Angeli!

O jornal Folha de S.Paulo noticiou a aposentadoria de Angeli como cartunista após ele ser diagnosticado com afasia. O texto assinado pelo jornalista Walter Porto diz que o artista planeja seguir produzindo, mas não mais como colaborador da publicação. É o fim de uma era, como muitos já disseram por aí.

Compartilho a notícia aqui no blog como registro e homenagem – assim como fiz em maio de 2016, quando ele publicou sua última tira diária. A página de quadrinhos da Ilustrada, com as tiras de Angeli e e Laerte, foi fundamental na minha formação como leitor. E meu contato diário com o caderno de cultura da Folha acabou impactando minhas escolhas profissionais.

Entrevistei Angeli duas vezes, a primeira por telefone, em 2012, quando o blog nem existia, para escrever para o Estadão sobre a exposição dedicada à obra dele para a série Ocupação, do Instituto Itaú Cultural. Foi um papo rápido, mas ele foi muito simpático e a matéria ficou massa (você lê aqui e aqui).

Depois, em 2017, ele me respondeu três perguntas por email sobre a série animada Angeli – The Killer, do Canal Brasil, para matéria que escrevi para a revista Monet. Em uma das respostas ele meio que sintetizou a produção dele até aqui. Encerro o post com essa fala:

“Meu trabalho sempre foi voltado às críticas de costumes, comportamentos e a ideia de expor as falhas humanas – inclusive as minhas – e o humor foi um caminho para tal. Sempre busquei isso com certa acidez, numa tentativa de acertar a ferida e deixar cicatrizes. Não só com o riso mas também através da reflexão que tais críticas poderiam trazer. Acredito que as gerações mais novas trilham um caminho parecido”.

Cinema / HQ

Paris, 13º Distrito, por Adrian Tomine #2

O quadrinista Adrian Tomine compartilhou no Instagram mais um cartaz ilustrado por ele para Paris, 13º Distrito, filme do cineasta francês Jacques Audiard que adapta algumas das histórias de Intrusos – álbum de Tomine originalmente publicado em 2015 e lançado por aqui em 2019, pela editora Nemo, com tradução de Érico Assis. Esse cartaz novo foi encomenda dos responsáveis pela distribuição do filme no Japão. Você confere a arte prévia assinada por Tomine para a produção clicando aqui.

E aproveito a deixa para compartilhar, mais uma vez: a matéria que escrevi para O Globo sobre Intrusos quando o álbum saiu em portuguêsa entrevista que fiz com Tomine em 2019o texto que publiquei no site do Instituto Itaú Cultural quando A Solidão de um Quadrinho sem Fim foi lançado no Brasilminha crítica desse livro mais recente do autor e a conversa que tive com o artista em 2020 – além de todo o acervo do blog dedicado a Tomine.

Entrevistas / HQ

Papo com Luiz Gê, autor de Fronteira Híbrida e Avenida Paulista: “Meu trabalho sempre foi experimental”

Conversei com o quadrinista Luiz Gê para escrever para o jornal Folha de S.Paulo sobre Fronteira Híbrida, coletânea recém-publicada pela editora MMarte com trabalhos antigos e obras inéditas do autor do clássico Avenida Paulista. No meu texto falo sobre as origens e a edição do livro, passo pela relação de Gê com o músico Arrigo Barnabé e apresento algumas reflexões do artista sobre seus trabalhos. Você lê a minha matéria clicando aqui. Reproduzo a seguir a íntegra da minha conversa com Luiz Gê, saca só:

Trechos de HQ de Luiz Gê presente em Fronteira Híbrida, coletânea publicada pela editora MMarte (Divulgação)

Qual sua memória mais antiga relacionada à presença de quadrinhos na sua vida?

Muito difícil me lembrar exatamente. Havia muita HQ naquela época. O dito GIBI. Haviam títulos e personagens que saiam regularmente, mas muito mais que isso. Os gibis estavam por todo lado, casas de primos, amigos, etc. No sítio onde passava férias com primos e primas era comum sempre ver alguém remexendo nas pilhas em uma estante, escolhendo o que ‘leria agora’. Mas não eram apenas gibis. O desenho estava por toda parte. Os anúncios eram praticamente todos desenhados. As revistas famosas (Fatos e Fotos, Cruzeiro, Manchete e outras) tinham muitos desenhos, além de cartunistas fixos. Foi lá que a geração de humoristas do Pasquim (além de outras mais velhas) se tornou famosa antes do Pasquim. As revistas eram a TV da época. Você as podia ver, empilhadas, até em fazendas no interior dos estados. Mas havia uma revista que me marcou, que era publicada em inglês e depois em espanhol (“para que usted entienda!”), a Mecânica Popular (Popular Mechanics). Com fotos e muitos tipos de desenhos, mostrava o que acontecia na tecnologia e ensinava a construir as coisas mais variadas. Construir, e não consumir. Meu pai era um desses que tinha mesa de carpinteiro e sempre estava construindo alguma coisa. Essa relação do desenho com a criação dos objetos, barcos, casas, etc. foi muito marcante. Dois casos em HQ foram impactantes e descobertos relativamente tarde, por mim (onze, doze anos?), o Tintim e o Príncipe Valente. Os dois em formato livro, tinham publicações e impressões muito mais caprichadas que o gibi normal. Mas o roteiro também era.

O que mais te interessa hoje em termos de linguagem das histórias em quadrinhos?

Retornar aos projetos de HQs e às minhas experiências e temáticas que não pude ainda fazer ou finalizar.

Quais foram as principais transformações em relação aos seus interesses e suas percepções sobre a linguagem dos quadrinhos ao longo dos anos?

Difícil dizer. No começo foi uma revista pioneira. Depois mostrar a possibilidade de diferentes formas de uso dos quadrinhos na imprensa alternativa e na grande imprensa, e, consequentemente para outras áreas. Colaborações contínuas para a grande imprensa. Direção de arte. Quadrinhos voltados para a nossa realidade, retratos da cidade de São Paulo. Publicações no exterior. Abri certas temáticas: fui o primeiro a desenhar realística e sistematicamente o cenário urbano, no caso, São Paulo, e, portanto, a realidade brasileira. Esses cenários sempre foram genéricos e com forte influência do quadrinho americano. Ou quando o faziam, focavam coisas folclóricas. Também desenhei o nosso passado com referências mais precisas. Também fiz HQs políticas de cunho internacional, que não vira antes. Criação, edição e publicação de uma revista para as bancas, ‘volta’ aos quadrinhos de página. Pesquisa e mestrado no exterior. Atividade pedagógica e de pesquisa na universidade. Criação de uma primeira ‘novela gráfica’ no Brasil. Quadrinhos e música, quadrinhos 3D, quadrinhos interativos para internet. Quadrinhos e direção visual de óperas. Volta para a grande imprensa. Pesquisas para novas temáticas.

“Vejo o desenho também como forma de pensamento”

Arte de Luiz Gê presente em Fronteira Híbrida, coletânea publicada pela editora MMarte (Divulgação)

Você pode falar um pouco, por favor, sobre o desenvolvimento de Fronteira Híbrida? Como foi pensar o formato desse livro e selecionar seus trabalhos que estariam presentes nessa publicação?

Quando fui indicado como homenageado da Bienal, havíamos planejado exposição (muito linda e já praticamente pronta), palestras, lançamento de livros e de animação. A coisa foi adiada com o primeiro e, depois, com o segundo ano da pandemia. Pensamos em um livro. Tinha apresentado vários projetos. Eles escolheram esse assunto, diretamente ligado à temática daquela Bienal, Música e Quadrinhos. Não foi difícil conceber, embora tenha muita coisa, mas foi muito trabalhoso em muitos aspectos, mais do que pensava. Ainda que tenha tido ajuda, havia muito trabalho braçal que na verdade envolvia muitas decisões em seu processo, nas suas várias etapas, não dava para simplesmente delegar tudo.

Aliás, como você define Fronteira Híbrida? O que é esse livro para você?

Meu trabalho sempre foi experimental. Poderia dizer (hoje, nesse momento) de forma um tanto genérica, que a relação tempo/espaço (bidimensional) sempre foi importante. Mas existem algumas grandes áreas em que esse experimentalismo se manifestou. Uma dela na relação 2 e 3D, ou seja, no espaço, outra na interatividade, nas relações possíveis entre a obra e o leitor, e há uma terceira, que ocorre, muitas vezes permeada ou combinada com as outras (especialmente essas duas últimas) que foi a música, e que se deu principalmente por ter um interlocutor constante nessa área, o Arrigo Barnabé e vice-versa (poderia fazer algo como o Fronteira Híbrida para os outros dois temas mencionados). Então o livro cobre essas experiências relacionadas com a música, não só, mas a maioria com o Arrigo. São trabalhos que vão de HQs que têm trilha sonora à óperas e peças cênico-musicais. Tem bastante material, embora não só com ele, tem trabalhos individuais também. E, como quadrinhos e música, em princípio, tem essa fronteira aparentemente instransponível e a gente rompeu, de algumas formas, veio o título/conceito Fronteira Híbrida.

Você trabalha com várias técnicas e apresenta diversas propostas distintas em relação ao uso da linguagem dos quadrinhos nos seus trabalhos. Fico curioso: em meio a toda essa diversidade, existe um ponto de partida em comum? Existe alguma reflexão básica que você se propõe a fazer antes de dar início a cada obra? Existe algum questionamento fundamental que determina os rumos de cada HQ?

Vejo o desenho também como forma de pensamento. Não sou desenhista que segue linhas comerciais, artistas estabelecidos, muito embora haja muitas vantagens em fazê-lo, muitas. Cada um dos meus projetos tem uma reflexão, sua própria busca e isso afeta as decisões inclusive a forma como o desenho vai ser feito. Não estou dizendo que isso é o melhor e nem sempre dá para fazer. Mas, quando estou produzindo HQs no formato revista ou livro, isso é o mais comum de acontecer. O mesmo vale também para o que diz respeito à linguagem da HQ.

“As frustrações e decepções com a realidade brasileira atualmente são inextravasáveis”

Obra de Luiz Gê presente em Fronteira Híbrida, coletânea publicada pela editora MMarte (Divulgação)

Fronteira Híbrida mostra como você sempre foi muito simpático ao uso de novas tecnologias para a produção de uma HQ. Quais as principais lições que você tirou das suas experiências com a incorporação de novas tecnologias em seus trabalhos?

Que há muito a se fazer. No Fronteira eu começo mostrando uma experiência desse tipo feita em 1972 (Oba Oba), que só pôde ser posta em prática na internet em 1997. Antes disso, tinha dado outro passo propondo nova forma de linguagem interativa em 1990 (Viagem ao centro do universo). Cheguei a desenvolver um projeto de pesquisa na universidade criando o material para essa realização. Isso também é mostrado no livro. Mas eu adoro o papel, pensei tudo isso em interação com a coisa impressa. Mas o nosso país é muito difícil. Coisas que deram muitíssimo certo (como a revista Circo, por exemplo, mas não só isso, claro) foram destruídas por um sistema político e principalmente econômico absolutamente instável. Qualquer coisa dependente só pode ser instável.

Qual é a maior influência do trabalho do Arrigo Barnabé na sua produção? Como a sua amizade e as suas parcerias com ele impactaram os seus interesses atuais em relação a quadrinhos e artes?

De muitas formas. Somos amigos desde 1970. Então, desde sempre houve trocas de ideias e propostas que embora sejam realizadas individualmente com toda a liberdade e independência, sempre acabam se encontrando. O livro é em boa parte a celebração dessa convergência. As influências mútuas devem ser muitas. Mas nenhum dos dois define ou determina o que o outro vai fazer. No prefácio, o Arrigo dá mais informações.

Fiquei pensado nos seus trabalhos misturando música com quadrinhos e pensei numa fala do quadrinista norte-americano Chris Ware sobre o tema. Ele disse: “Sempre que eu tento falar de música e quadrinhos, tento chegar na sensação inefável do que os quadrinhos produzem na minha mente, que eu penso como uma espécie de ‘música silenciosa’, que capta os ritmos do gestual humano que ‘ouvimos’, inconscientemente, quando vemos a pessoa se movimentar, algo similar ao que entendemos como música e, acho eu, retoma a experiência do mundo que pode ser até pré-linguística, quando nos comunicávamos por gestos e urros – música e dança, basicamente”. Enfim, eu fico curioso: você vê muitos paralelos entre as linguagens da música e dos quadrinhos? Se sim, quais seriam?

Bem, é exatamente isso que foi feito pelo Arrigo em Tubarões Voadores (a gente já vinha se falando sobre isso, criar alguma coisa nesse sentido). Ele viu ouvindo a ‘música’, a ‘poesia’ daquilo e criamos esse híbrido, HQ, música e HQ com trilha sonora, ou som com visual. Essa ‘música’ possível da HQ sempre esteve presente na minha mente e na de outros quadrinistas, com certeza. Não de todos é claro, depende.

“Se o Bozzo ganhar, acho que não vai sobrar nada desse país”

Página de HQ de Luiz Gê presente em Fronteira Híbrida, coletânea publicada pela editora MMarte (Divulgação)

Sobre os seus trabalhos recentes com temáticas mais políticas: o quanto eles permitem que você extravase suas frustrações e decepções com a realidade brasileira?

As frustrações e decepções com a realidade brasileira atualmente são inextravasáveis.

As pesquisas recentes sugerem que estamos cada vez mais próximos do fim do governo Bolsonaro. Você já se permite algum otimismo com o provável término desse período de quatro anos sob o governo do atual presidente?

Eu tenho desenhado todo o período de 2016 a 2022, seria legal publicar. Tenho boa parte, título para ela, inclusive, atualizados. Acho que sinto como todo mundo, a fé é na eleição deste ano. Se o Bozzo ganhar, acho que não vai sobrar nada desse país. A destruição que ele provocou é inacreditável, jamais vista. É inacreditável como o país para por conta de um Aras, uma pessoa! Isso é instituição funcionando? Então não está funcionando, ou está só para esses poucos aí. A tal da ‘direita’ deveria ser chamada de ‘errada’. Como deixaram tanta destruição ocorrer? É a barbárie. Civilização passou longe! Isso deve ser o que eles querem, nos destruir.

Aliás, você se vê de alguma forma otimista em relação ao futuro do Brasil? 

As forças contra o desenvolvimento, a educação e a conscientização da maioria vem se impondo não é de hoje. Isso vem desde os anos 1970. Talvez desde 1945. Tivemos uma ótima educação pública que foi desmontada nos anos 1960 e 1970 e jamais reconstituída. Era limitada, mas poderia ter sido expandida. Para reconstruí-la há um passo imprescindível, pagar bem professor. Atrair de novo gente que está indo para outras áreas, de volta para essa instituição que foi arrasada. E construir um país verdadeiramente soberano. Com o fantoche, sem condições, saindo temos boas chances. 

A capa de Fronteira Híbrida, obra de Luiz Gê publicada pela editora MMarte (Divulgação)