Vitralizado

HQ

Easing Back, por Adrian Tomine

O quadrinista Adrian Tomine foi o responsável por uma das artes mais icônicas dos tempos de isolamento social que estamos vivendo: Love Life, capa da edição de 7 de dezembro de 2020 da revista New Yorker. Hoje foi divulgado o mais recente trabalho do autor para a publicação, a capa da edição do dia 14 de junho de 2021, com o título Easing Back, imaginando um cenário pós-pandemia e o impacto da COVID-19 nas nossas vidas. Como bem disse o João Montanaro no Twitter, “o famoso gatilho essa capa do Tomine”.

Recomendo um pulo no site da New Yorker procê ler o papo que o autor bateu com a editora de arte da revista, Françoise Mouly, sobre sua expectativas para a vida pós-pandemia. Também recomendo as duas entrevistas que fiz com o autor, uma na época do lançamento da edição brasileira de Intrusos e outra quando A Solidão de um Quadrinho Sem Fim chegou às livrarias nacionais. E se você curte o trabalho dele, dê uma conferida nos arquivos do Vitralizado dedicados ao artista. A seguir, estudos iniciais de Tomine para o que viria a ser Easing Back:

Estudos iniciais do quadrinista Adrian Tomine para a capa de 14 de junho de 2021 da revista New Yorker (Divulgação)

Cinema / HQ / Séries

Vitralizado #104: 05.2021

Tá difícil, hein? Mas seguimos. Li em maio de 2021 alguns candidatos potenciais à minha lista de melhores do ano. Escrevi sobre dois deles nas últimas semanas e planejo escrever sobre um terceiro dessa leva em um futuro próximo. Enfim, mês quente com opiniões, matérias e entrevistas. Tudo dando certo, seguimos assim nos próximos 30 dias. Vamos lá, deixo a seguir o sumário com posts do Vitralizado nos 31 dias que ficaram para trás (com um belo Joost Swarte no abre para deixar as casa bonita). Saca só:

*Conversei com a quadrinista Amanda Miranda sobre Aparição, HQ impressa na 24ª edição da Coleção Ugritos. Transformei essa entrevista no tema da 20ª Sarjeta, minha coluna mensal sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. Depois compartilhei por aqui a íntegra desse meu papo com a autora. Já leu?;

*Escrevi para a Folha de S.Paulo uma crítica de Meu Mundo Versus Marta, parceria de Paulo Scott e Rafael Sica publicada pela editora Companhia das Letras. E também conversei com os dois autores sobre o álbum;

*Entrevistei o quadrinista Galvão Bertazzi sobre Olivia Foi Pra Lua, livro infantil ilustrado com previsão de lançamento para junho de 2021 pela editora Beleléu;

*Bati um papo com o jornalista Paulo Floro, um dos editores da revista Plaf sobre o recém-lançado quinto número da publicação. Aliás, Floro também foi o convidado da seção de entrevista que fecha a edição de maio da Sarjeta.

>> Veja o que rolou no Vitralizado #103 – 04.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #102 – 03.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #101 – 02.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #100 – 01.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #99 – 12.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #98 – 11.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #97 – 10.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #96 – 09.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #95 – 08.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #94 – 07.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #93 – 06.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #92 – 05.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #91 – 04.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #90 – 03.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #89 – 02.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #88 – 01. 2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #87 – 12.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #86 – 11.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #85 – 10.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #84 – 09.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #83 – 08.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #82 – 07.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #81 – 06.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #80 – 05.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #79 – 04.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #78 – 03.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #77 – 02.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #76 – 01.2019
>> Veja o que rolou no Vitralizado #75 – 12.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #74 – 11.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #73 – 10.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #72 – 09.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #71 – 08.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #70 – 07.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #69 – 06.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #68 – 05.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #67 – 04.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #66 – 03.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #65 – 02.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #64 – 01.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #63 – 12.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #62 – 11.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #61 – 10.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #60 – 09.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #59 – 08.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #58 – 07.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #57 – 06.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #56 – 05.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #55 – 04.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #54 – 03.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #53 – 02.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #52 – 01.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #51 – 12.2016;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #50 – 11.2016;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #49 – 10.2016;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #48 – 09.2016.

Entrevistas / HQ

Papo com Amanda Miranda, autora de Aparição (Ugrito #24): “O que mais impactou o roteiro foi o sentimento angustiante de, praticamente todos os dias, ouvir algum caso de feminicídio”

Conversei com a quadrinista Amanda Miranda sobre Aparição, 24ª edição da Coleção Ugritos. Esse meu papo com a autora virou o foco da 20ª Sarjeta, minha coluna mensal sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. Você lê o meu texto clicando aqui. Lá eu trato das origens da HQ e apresento algumas falas da autora sobre o desenvolvimento da obra – além de comentar as duas edições prévias dos Ugritos.

Compartilho agora a íntegra da minha entrevista com a quadrinista. Ela falou um pouco sobre as técnicas usadas por ela, expôs algumas de suas preferências no gênero de terror, comentou o formato dos Ugritos e refletiu sobre as peculiaridades de fazer horror em HQ. Então faça assim: leia o meu texto, leia Aparição e leia a minha entrevista com Amanda Miranda. Papo bem massa, saca só:

“Me interesso demais por tensão e lacunas”

Quadro de Aparição, Ugrito da quadrinista Amanda Miranda (Divulgação)

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

Essa eu nem queria responder, sinceramente hahaha Não estão boas, continuo muito preocupada com a saúde da minha família, ano passado perdi uma pessoa próxima, enfim. Um desgaste emocional enorme. Mas poderia estar pior, né? Sempre pode.

Imagino que o formatinho fixo da coleção Ugritos acabe tendo algum impacto no desenvolvimento das histórias. Você já tinha em mente a história de Aparição quando foi convidada para participar da coleção ou ela foi desenvolvida a partir desse convite?

Eu já estava pensando em fazer uma história que fosse mais próxima da minha vida há algum tempo, tocando no interior de São Paulo, a influência pesada do cristianismo nos anos de formação, etc. Mas Aparição foi escrita pensando no Ugrito, mesmo. Tentando criar uma história que funcionasse nesse formato pequeno e curtinho. De maneira aleatória me lembrei dessa notícia sobre a aparição da imagem de uma santa na janela de uma casa, lembro de ver isso na TV quando era criança, a partir dessa lembrança comecei a escrever o roteiro.

E como foi para você trabalhar nesse formatinho dos Ugritos? Qual foi o impacto desse formato para o desenvolvimento do seu quadrinho?

Foi um desafio! muito tempo que eu não pensava num grid de página que desse certo para o formato A6. Mesmo assim, achei bem divertido.

“O horror funciona melhor em mídias que dispõe de maior controle na experiência do público”

Página de Aparição, Ugrito da quadrinista Amanda Miranda (Divulgação)

O que mais te atrai em uma história de horror? O que você considera essencial para uma boa história de horror?

Como é um dos meus gêneros favoritos, eu assisto e leio praticamente qualquer coisa. Mas no meu filtro de referências, me interesso demais por tensão e lacunas. Dar espaço para o leitor participar da narrativa e se relacionar com a história de maneira mais subjetiva. Entre meus subgêneros favoritos entram o horror psicológico, o body horror e as produções experimentais e de baixo orçamento dos anos 70.

E o que você considera mais desafiador em contar uma história de horror em quadrinhos?

O horror funciona melhor em mídias que dispõe de maior controle na experiência do público, quando entrávamos em uma sala de cinema estavamos entregues à própria sorte.  Em HQ é um pouco mais difícil fazer a grande revelação ou tentar assustar de súbito o leitor. Mas é possível causar impacto usando de outras ferramentas narrativas, envolvimento, virada de página, etc. Dentro da técnica de viradas o [Junji] Ito é um mestre, mas tendo a me interessar mais pelo formato do Suehiro Maruo, que assusta através do absurdo, incômodo, desagradável.

Teve alguma obra (filme, música, livro, hq ou o que for) com algum impacto em particular em você durante o desenvolvimento desse quadrinho? Como a nossa atual realidade sócio-econômica-pandêmica influenciou esse seu trabalho? Pergunto tendo em mente as suas várias investidas recentes em trabalhos com ilustrações editoriais para publicações jornalísticas. Imagino que você esteja bastante alerta a tudo que tá rolando no mundo…

Posso citar em HQs: Encruzilhada, do Marcelo D’Salete, e Pretending is Lying, da Dominique Goblet. Na época estava acompanhado uma seleção de documentários da Criterion Collection chamado Tell Me: Women Filmmakers, Women’s Stories e durante toda criação do quadrinho pensei na música Fio de Cabelo, do Chitãozinho e Xororó.

Mas o que mais impactou o roteiro foi o sentimento angustiante de, praticamente todos os dias, ouvir no jornal regional algum caso de feminicídio. Um em específico marcou por ter acontecido no meu bairro, onde um cozinheiro assassinou a ex-esposa na frente dos filhos e depois se suicidou.

Muito tem se falado nos últimos anos sobre novas investidas no gênero de terror no cinema – penso nos filmes do Jordan Peele e da produtora A-24, por exemplo. Vi um pouco dessas propostas, mais pé no chão e psicológicas, no seu Ugrito. Faz sentido? Você se vê influenciada por essas produções?

Sinto que desde Anticristo do Lars Von Trier aconteceu um aumento significativo nas produções que focam nesse horror meio cético e cínico, às vezes só atmosférico (como alguns da A-24), ou de cunho explicitamente político (no caso do Peele). Acompanho e gosto de alguns. A produção brasileira também está bem interessante, gosto muito dos filmes da Gabriela Amaral Almeida e da Juliana Rojas. Mas a maioria das minhas referências e inspirações vêm de filmes antigos, a primeira fase do [David] Cronenberg, a histeria do [Andrzej] Zulawski, a violência desregrada dos anos 70 e até produções mais sutis que nem chegam a entrar 100% no gênero como A Mulher Sem Cabeça da [Lucrecia] Martel.

“Gosto de escrever pensando nas cenas, costurar essas imagens que estão na minha cabeça com texto”

Página de Aparição, Ugrito da quadrinista Amanda Miranda (Divulgação)

Você pode me falar, por favor, um pouco sobre as técnicas e materiais que usou na produção desse Ugrito?

Escrevo no papel, desenho tudo no digital. Pra essa história quis testar uma arte final mais expressiva e próxima do rascunho, mantendo imperfeições.

Não sei se essa pergunta vai soar meio abstrata… Eu queria saber qual é a sua abordagem em relação a uma página? Nesse Ugrito, por exemplo, você trabalha com quadros e também com duplas compostas por um painel único reunindo várias cenas. Como você pensa e chega nessas soluções gráficas? Você chegou a finalizar um roteiro antes de elaborar as artes desse quadrinho?

A inspiração varia, mas sempre vêm o texto antes. Não chega a ser um roteiro todo formatado, mas gosto de escrever pensando nas cenas, costurar essas imagens que estão na minha cabeça com texto, pra daí desenhar. Sempre faço as páginas como se fossem duplas, mesmo quando não são. Gosto de ter a visão completa do que o leitor verá quando a página virar. 

Última! Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Essa semana assisti Jardim de Guerra, do Neville D’Almeida, e gostei muito. Reforço a recomendação de Pretending is Lying, da Dominique Goblet, queria ver esse publicado no Brasil. Voltei a ouvir com frequência o DUMMY, do Portishead.

A capa de Aparição, Ugrito da quadrinista Amanda Miranda (Divulgação)


HQ / Matérias

Sarjeta #20: Três Ugritos e o terror de Amanda Miranda

Está no ar a 20ª edição da Sarjeta, minha coluna mensal sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. Entrevistei a quadrinista Amanda Miranda, autora de Aparição, 24ª edição da Coleção Ugritos, publicada pela Ugra Press. Nossa conversa tratou principalmente sobre terror em quadrinhos, mas também falamos das peculiaridades de desenvolver uma história no formato 10,5 x 15 cm do Ugrito. Apresentei algumas dessas falas da autora e as minhas impressões sobre a obra – e aproveitei para comentar os trabalhos de Felipe Portugal e Gabriel Dantas nos dois Ugritos prévios.

Na entrevista que fecha a coluna, uma conversa com o jornalista Paulo Floro, editor do site Revista O Grito e coeditor da revista Plaf, recém-chegada à sua quinta edição.

Você lê a 20ª Sarjeta clicando no link a seguir: Sarjeta #20: Sobre gibis bons e baratos e o terror de Amanda Miranda.

Entrevistas / HQ

Papo com Galvão Bertazzi, autor Olívia Foi Pra Lua: “O Galvão autor de livro infantil foi um espasmo fofo da minha natureza”

É explícito o contraste entre o Galvão Bertazzi autor da série Vida Besta e o Galvão Bertazzi autor do livro infantil Olívia Foi Pra Lua. Os traços e as cores são os mesmos, mas fica de lado o que o autor chama de sua versão “noiada-paranóica-apocalíptica”, presente nas tiras dele, e vem à tona uma personalidade mais otimista e poética do quadrinista.

Com lançamento previsto para junho de 2021 pela editora Beleleu, Olivia Foi Pra Lua está atualmente em campanha de financiamento coletivo no Catarse. O projeto já alcançou a meta estabelecida para sua publicação, mas continua no ar até o dia 22 de maio de 2021.

Inspirada em uma história contada por Bertazzi para a filha dele antes de colocá-la para dormir, o livro infantil narra o empenho da jovem Olivia em viabilizar uma viagem pessoal para a lua. A arte sempre gritante do autor talvez seja o elemento mais emblemático da obra, mas chamo atenção para a missão bem-sucedida autoimposta por Bertazzi em não subestimar seu público infantil.

Conversei com Bertazzi sobre o ponto de partida e o desenvolvimento de Olívia Foi Pra Lua, suas inspirações por trás da obra e a experiência de ocupar o espaço de Laerte durante o período da autora se recuperando de COVID-19. Papo bem bom (assim como as conversas que tivemos em 2017 e 2019), saca só:

“Um bom livro infantil não subestima a criança”

Página de Olivia Foi Pra Lua, livro infantil do quadrinista Galvão Bertazzi (Divulgação)

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

As coisas estão loucas. Eu estou louco. Perdi a noção de tempo, de espaço. Tenho crianças em casa que pararam de ir pra escola, eu e minha companheira dividimos o tempo de home office, as contas não param, os trabalhos deram uma embananada completa, mas ainda sim consigo desenhar bastante, pintar e tocar guitarra e aos poucos essa anormalidade foi se tornando normal. Eu sou um puta privilegiado por morar numa casa com quintal, mato e espaço pra respirar e pensar. Mas essa coisa de não poder sair quando quer, fazer o que quer é um treco muito bizarro. Resumo, tá tudo louco de forma normal-anormal.

Você contou que o ponto de partida de Olivia Foi Pra Lua é uma história que você contava para a sua filha. Mas como foi o processo de transformar essa história em livro. O quanto da história original se manteve? Como foi essa adaptação de uma história oral para uma versão ilustrada e escrita?

A história original está praticamente ali, o que foi trabalhado e lapidado foi o texto. Me lembro de ter contado essa história pra Olivia, numa noite e enquanto eu estava botando ela pra dormir me veio o estalo: “Um livro infantil!”. O que até o momento era uma coisa que eu ainda não havia feito.

Me lembro dela pegar no sono e eu correr pro computador pra digitar as ideias iniciais e alguns desenhos rápidos do que logo depois seriam as ilustrações. A coisa toda deve ter durado uma semana mais ou menos. Eu tenho essa coisa de não fazer rascunhos antes de começar a desenhar, eu acabei trabalhando assim no processo do livro, tanto com os textos quanto ilustrações.

Eu ia escrevendo cada página e já desenhando o traço. Uma coisa que eu botei na cabeça foi fazer um trabalho meu, sem interferência de críticas, sugestões ou qualquer coisa externa. Eu não queria desconstruir narrativa e muito menos desenho. Foi pura diversão e a coisa fluiu rapidamente de um jeito legal. O texto foi a parte mais trabalhosa porque eu tenho uma tendência a ser verborrágico e ululante (como você pode notar nas minhas respostas). Eu gosto disso, mas tive que ir aceitando que é uma obra infantil, então precisei ser mais comedido

Essa não é a sua primeira experiência com obras infantis, certo? O que você considera mais essencial em uma obra voltada para crianças? Tem algum elemento que você acha que não pode ficar de fora de um livro ou uma HQ infantil?

Eu já ilustrei muitos livros infantis, mas nunca havia me aventurado em escrever e ilustrar. Um bom livro infantil é aquele que não subestima a criança. Eu sou pai de dois filhos, sabe? Uma das coisas que primeiro aprendi nessa maluquice de ser pai é que os moleques, desde muito cedo já estão atentos e compreendem (do jeito deles, claro) o mundo ao redor. E a gente aprende muito mais com eles do que o contrário. Então a primeira coisa que descartei foi a necessidade de passar alguma lição de moral, apresentar valores morais ou essa coisa clássica de enfrentar um grande obstáculo para se conseguir um objetivo final. MInha intenção era deixar tudo fluido e fácil. O mundo real já é chato demais!

“O mundo real é chato demais”

Página de Olivia Foi Pra Lua, livro infantil do quadrinista Galvão Bertazzi (Divulgação)

Acho que nos últimos meses, devido a todo o contexto social-político-pandêmico que estamos vivendo, as suas tiras têm ecoado sentimentos de cansaço, frustração e raiva. Fico curioso: é muito difícil para você desligar o modo Galvão-tiras para o Galvão-autor de livro infantil?

O Olivia Foi Pra Lua foi escrito em 2018, ou seja, nem em minhas previsões mais absurdas sobre o futuro eu poderia imaginar que estaríamos afundados nessa pandemia e o pior, essa pandemia no Brasil. O Galvão autor de livro infantil até o momento foi um espasmo fofo da minha natureza, coisa que ainda não se repetiu. Eu tenho trabalhado em passos lentíssimos num outro livro infantil, mas ao contrário do Olivia Foi Pra Lua que nasceu num lampejo, este está mais demorado que a encomenda.

Então, para todos os efeitos, eu sou apenas o Galvão-noiado-paranóico-apocalíptico-das-tiras-de-humor-duvidoso.

Você pode contar um pouco, por favor, sobre a concepção do projeto gráfico do Olívia Foi Para a Lua?

Os desenhos e as cores meio que já apareciam prontos na minha cabeça a medida que eu escrevia os textos. Os dois foram nascendo juntos e de certa formas resolvidos.  O que eu quis foi usar todo o repertório que eu tenho pra desenhar: linhas, cores, personagens e cenários absolutamente dentro do meu universo pictórico, então tudo surgiu naturalmente. Se eu ficasse preocupado demais em desconstruir desenhos, formas, abstrair as coisas eu teria travado e provavelmente o livro nunca ficaria pronto.

Agora, o pulo do gato partiu da Editora Beleleu. O editor Tiago Lacerda teve uma puta sacada em resgatar aqueles bonequinhos de papel destacáveis, muito comuns em revistinhas e livros infantis dos anos 80, juntamente com um cenário que pode ser montado. É uma coisa simples e que ficou LINDO de morrer. Vai ser um materia legal de se ter em mãos!

“Quis usar todo o repertório que tenho para desenhar”

Uma arte de divulgação de Olivia Foi Pra Lua, livro ilustrado do quadrinista Galvão Bertazzi (Divulgação)

Vi algo de Space Oddity do David Bowie no seu livro, faz sentido?

SIM! Space Oddity estava realmente rolando no repeat nessa época. Aliás Bowie está sempre tocando por aqui.

Você recentemente substituiu a Laerte nas tiras diárias da Folha enquanto ela se recuperava da COVID-19. Como foi essa experiência?

Primeiro, vou usar uma frase que to usando todas as vezes que me perguntam isso. A Laerte é insubstituível! Ou seja, o que eu fiz foi quebrar um galho, enquanto ela se recuperava desse vírus maldito.

Foi uma montanha russa de emoções porque não escondo de ninguém meu desejo de publicar diariamente naquela seção de tiras da Folha, mas levando em conta as circunstâncias, tudo que eu queria era honrar aquele espaço e devolver logo o espaço pra ela. E ufa!! Tudo terminou bem, publiquei umas tiras muito legais e a Laerte voltou melhor do que antes!!

Última! Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Eu gostaria de recomendar muito os livros da Editora Pé de Cabra. Com certeza é um material pros adultos, mas na minha cabeça, é a editora mais bacana da atualidade.

Acabei de receber o último lançamento, o Tiger Fist. Uma HQ divertidíssima e cheia de ação saída da cabeça do Gabriel Góes e desenhada por um time de quadrinistas fantásticos. Conseguiram resgatar com primasia esse gênero, estilo filmes de ação! Acho que tô um pouco de saco cheio de tanta HQ filosófica-existencial, então pra mim foi um prazer ter esse gibi na mão. Recomendo!

A capa de Olivia Foi Pra Lua, livro infantil do quadrinista Galvão Bertazzi (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Paulo Floro, coeditor da revista Plaf: “Existe um desejo legítimo de editores e público de fortalecer a relação entre os quadrinhos latino-americanos”

A quinta edição da revista Plaf está impressa. Uma das principais publicações de jornalismo sobre quadrinhos do país, a revista tem como foco em seu mais recente número a rodução latino-americana de HQs. A arte da capa é do quadrinista Rogi Silva, autor de Pumii do Vulcão, Não Tenho Uma Arma, Aterro, Mergulhão, Planta e Pedra Pome. Assim como fiz na época do lançamentos dos quatro números prévios, voltei a conversar com um dos editores da Plaf para tratar da produção e do conteúdo dessa nova edição.

O papo dessa vez foi com o jornalista Paulo Floro, coeditor da revista junto com Dandara Palankof e Carol Ameida e editor do site Revista O Grito (casa virtual da Plaf). Ele falou sobre a dificuldade de produzir esse quinto número em meio à pandemia do novo coronavírus, expôs algumas de suas reflexões sobre quadrinhos latino-americanos e adiantou um pouco sobre o andamento da sexta edição da Plaf.

Além de HQs inéditas de Rogi Silva, Puiupo, Jessica Groke, Talles Molina e Jarbas, a Plaf #5 ainda apresenta resenhas, entrevista com a quadrinista equatoriana-colombiana Powerpaola, matéria sobre a ida de Will Eisner a Recife para o Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de 2001 e um perfil da letrista Lilian Mitsunaga. Confira a seguir a minha conversa com Paulo Floro, um dos editores da Plaf:

“A revista está permeada pela memória de um mundo em transição”

Trecho da HQ de Jéssica Groke publicada na quinta edição da revista Plaf (Divulgação)

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a produção desse quinto número da Plaf?

Valeu demais por perguntar! Então, eu estou vivendo uma montanha-russa de emoções como a grande maioria das pessoas. Reflete muito essa falta de perspectiva sobre a saída dessa situação, a depressão que é esse desgoverno irresponsável, a falta de empatia das pessoas, a banalização da morte. Mas, na real me sinto realmente sortudo, pois todos na família estão bem de saúde, isolados e protegidos na medida do possível. Mas tem momentos que é difícil, sobretudo com crianças pequenas em casa, isoladas e angustiadas. É bem mais complicado com crianças, mas estamos felizes de estarmos em segurança.

A Plaf 5 demorou muito mais tempo pra fechar por conta da pandemia, pois demoramos a ajustar as dinâmicas da nossa vida à edição da revista. Além disso, a gráfica que contratamos passou um longo período parada ou em um ritmo menor por conta dos decretos de restrições à Covid-19 aqui no Estado. Enfim, foi um desafio, mas estamos bem felizes com o resultado.

Imagino que cada edição da revista tenha suas peculiaridades e desafios específicos. Você destaca ou chama atenção para alguma experiência específica relativa a esse quinto número da revista?

Essa edição foi cercada de expectativa, pois quando começamos a editá-la tínhamos a ideia de levar ao FIQ e à Bienal de Quadrinhos, ambos cancelados por conta da pandemia. Nossa ideia era chegar nesses eventos com bastante força e por isso até imprimimos uma nova tiragem da primeira edição, que estava esgotada. O tempo todo ficávamos “será que tudo isso vai passar rápido”, etc, aquela indefinição seguida do choque de que tudo era bem mais sério do que imaginávamos. Então, a 5 é muito permeada por essa memória de um mundo em transição. Quando vi a edição saindo da gráfica bateu aquela emoção de ter conseguido finalizar algo, palpável, bonito, depois de um ano tão difícil.

“Encontramos mais elementos em comum do que divergências em relação à produção de HQs no continente”

As páginas de abertura da matéria de capa da quinta edição da revista Plaf (Divulgação)

A matéria principal dessa quinta Plaf trata de quadrinhos latino-americanos. Você chegou a alguma conclusão maior ou tirou alguma lição em particular referente às HQs latino-americanas ao escrever essa matéria? Você vê algum elemento em comum ou alguma unidade quando falamos de HQs latino-americanas?

Fazer essa reportagem foi muito difícil, mas ao mesmo tempo bem prazeroso. Além disso, gosto de fazer essas matérias a seis mãos (ao lado de Dandara Palankof e Carol Almeida, que editam a revista comigo). Nós partimos de uma pauta aparentemente simples – a “falta” de conexão entre as cenas de quadrinhos dos países latinos que falam espanhol e o Brasil – mas depois descobrimos que o assunto é bem mais complexo do que isso. Envolve questões históricas, editoriais e sociopolíticas que vão bem além da tal barreira linguística.

Encontramos bem mais elementos em comum do que divergências em relação à produção de quadrinhos no Continente e acredito que existe um desejo legítimo de editores e público de fortalecer essa relação. Dá pra perceber pelo aumento do número de lançamentos, o que reflete o amadurecimento do mercado, mas também pelo maior entendimento sobre nossa identidade e de nossos pontos em comum.

Página da HQ de Rogi Silva publicada na Plaf #5 (Divulgação)

Gostei muito da capa dessa quinta edição. Aliás, acho que o Rogi Silva tá numa fase especial. Por que chamá-lo para ilustrar essa capa? Qual foi a encomenda que vocês fizeram para ele para esse trabalho? O que você vê de mais especial na arte dele?

Somos fãs do trabalho de Rogi e nos dá um orgulho danado tê-lo na capa da Plaf em um momento tão especial da carreira dele. Sei que ele está produzindo uma HQ longa, ou seja, vem coisa muito boa dele por aí. Ficamos amigos de Rogi e já trabalhamos com ele em outros projetos: ele coassinou a HQ online “Gemini”, organizada pelo O Grito! e o Consulado da França no Recife durante uma residência em Nantes e as artes dos Melhores de 2020. Amo como a arte dele evoluiu para um traço mais fluido e experimental, que explora o componente espacial da linguagem dos quadrinhos. Mas é um artista muito versátil. Os gibis independentes dele que saíram em Pedra Pome são lindos e têm um roteiro afetivo e biográfico que conecta o leitor de uma maneira muito especial.

Como sempre fazemos com os artistas que assinam a capa apenas informamos a reportagem de capa da edição, mas sem entregar muitos detalhes. Já gostávamos do trabalho de Rogi, mas a ideia de chama-lo partiu muito da nossa vontade de trazer um artista pernambucano de destaque na nova cena de quadrinhos daqui. Quando ele nos mandou a proposta de capa ficamos maravilhados. Na real, sem falsa modéstia, gostamos muito de todas as capas da revista até agora, lindas.

“Acho importante fortalecer eventos que destacam a produção local”

Quadro da HQ de Talles Molina publicada na Plaf #5 (Divulgação)

Gostei muito da matéria sobre o Festival Internacional de Humor e Qquadrinhos. A última edição do festival foi em 2007, mas parece se tratar de algo de um passado ainda mais distante. Você vê possibilidade de um evento assim voltar em um futuro próximo pós-pandemia?

Em toda reunião para compor uma nova edição a gente sempre tenta buscar uma pauta que traga alguma história sobre a memória da cena de quadrinhos e essa vinda do Eisner ao Recife era algo que sempre atiçava nossa curiosidade. Hoje nos parece tão surreal ter um nome como Eisner no Recife, mas houve uma época em que o Brasil contava com vários eventos voltado para os quadrinhos mais, digamos, autorais e o FIHQ era um dos mais importantes. Fui em várias edições e o clima era muito bom, conheci muitos artistas incríveis. O modelo de negócios das comic cons ainda não tinha chegado por aqui.

Recife (e o Nordeste como um todo) é muito carente de eventos de quadrinhos, o que é uma pena pois temos muitos autores talentosos e sabemos da importância que esses espaços presenciais promovem para o fomento da produção e consumo. Existiam algumas movimentações para pensar em um evento, mas tudo entrou em pausa por conta da Covid. Acho super importante fortalecer esses eventos que destacam a produção local e olham para as HQs como um produto artístico, como o FIQ e a Bienal. Tem consumo também, mas a experiência desses encontros vai muito além disso. Acredito que depois da pandemia tenhamos que ampliar a articulação para um calendário consistente de eventos que envolva festivais e feiras no Nordeste e no Norte do país.

É um desafio enorme fazer jornalismo especializado em quadrinhos”

As duas primeiras páginas da entrevista com a quadrinista Powerpaola publicada na Plaf #5 (Divulgação)

Publicar qualquer coisa impressa no Brasil é cada vez mais difícil. Publicar uma revista de jornalismo sobre quadrinhos me parece ainda mais desafiador. A Plaf está chegando agora ao seu quinto número. Que balanço você faz desse projeto até aqui?

É um desafio enorme, mas ficamos felizes de ver a Plaf tão bem recebida. Tivemos vários contratempos nas quatro primeiras edições que reflete muito essa dificuldade de editar, produzir e distribuir a revista, mas acho que também aprendemos muito nesse processo. E avançamos em muita coisa: temos uma nova loja online, mais robusta e bonita e um novo site onde iremos publicar matérias dos números anteriores e alguns conteúdos exclusivos.

Estamos editando a 6 e 7, mas a 6 está bem adiantada, com capa e quadrinhos já editados. Queremos a partir de agora retomar o nosso plano inicial de ter quatro edições da Plaf ao ano.

Além disso, a Plaf segue como um dos carros-chefe da cobertura de quadrinhos do O Grito!. É um desafio enorme fazer jornalismo especializado em quadrinhos, mas acho que estamos em um momento excelente com colegas incríveis como o Balburdia, o Raio Laser, você aqui com o Vitralizado, sem falar de veteranos como o Universo HQ que seguem em uma fase excelente. Mas ainda há muito a avançar, como uma maior profissionalização, remuneração, etc, mas já avançamos bastante. É um papo que reeeende bastante, envolve muitas questões.

Quadro da HQ de Jarbas publicada na Plaf #5 (Divulgação)

Em que pé tá a produção da sexta edição da Plaf?

A maior parte das matérias estão prontas e em fase de revisão. A capa também – e é linda. É também de um nome novo da cena atual e que também está em um excelente momento da carreira, mas ainda não posso divulgar hehe. As HQs inéditas também. Acabamos de lançar a 5, mas já tô ansioso pra que o público veja a 6.

Última! Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Tenho assistido a muitos filmes, inclusive fazendo um esforço real de ver trabalhos que sempre ouvi falar ou dos quais conheço apenas a estética, como Drácula (1931), O Martírio de Joana Dark, etc. Vejo também muita coisa em família com as crianças, como Príncipe Dragão (excelente), She-Ra e todos do estúdio Ghibli. Também tenho revisto séries e filmes que gosto muito, como forma de dar um reset do excesso de informação. Já revi Community inteiro, Fleabag, Akira e agora estou vendo Parks and Recreation e Arquivo X hehe. De quadrinhos continuo lendo os lançamentos como prioridade, mas criei o hábito de fazer uma pilha com obras que quero reler ou que comprei e nunca li. Tem sido bem legal ter essa leitura mais demorada e desconectada de uma “agenda de trabalho”.

A capa da quinta edição da Plaf, com arte de Rogi Silva (Divulgação)