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Entrevistas / HQ

Aline Zouvi faz retrospectiva da carreira na exposição Solstício, em São Paulo

As ilustrações e os quadrinhos de Aline Zouvi são os protagonistas da exposição Solstício. A mostra ficará hospedada na 9ª Arte Galeria, em São Paulo, entre os dias 23 e 27 de abril, reunindo 40 trabalhos da artista. Entre as obras que estarão à venda constam páginas, estudos e rascunhos das HQs Síncope e Óleo Sobre Tela (17ª edição da coleção Ugritos), cartuns produzidos para o jornal Folha de São Paulo e ilustrações da série Condição e de sessões de modelo vivo. Você confere outras informações sobre a exposição na página do evento no Facebook.

Coincidentemente, a abertura de Solstício ocorre dois anos após à inauguração da primeira mostra solo de Zouvi. Em abril de 2017, ela expôs em Campinas as 32 artes produzidas por ela para a série Condição. Por isso, a exposição na 9ª Arte Galeria acaba funcionando como uma retrospectiva desse intervalo 2017/2019 na carreira da autora.

Conversei por email com a quadrinista e ela fez um balanço sobre esses dois anos mais recentes de sua vida profissional. Ela também me contou sobre a curadoria de Solstício, comentou suas técnicas preferidas e deu pistas sobre seus próximos trabalhos. Antes da leitura do papo a seguir, recomendo outras três conversas publicadas com Zouvi aqui no blog: uma entrevista sobre Óleo Sobre Tela, uma segunda sobre Síncope e a terceira e mais antiga delas, sobre a exposição dedicada a Condição. Depois volta pra cá e invista nessa conversa sobre a exposição na 9ª Arte Galeria. Ó:

Um dos cartuns de Aline Zouvi que estará em exposição na 9ª Arte Galeria

A minha primeira entrevista com você aqui no blog é datada de abril de 2017, também sobre uma exposição sua, uma mostra reunindo seus trabalhos pro zine Condição. Pensando nesse intervalo entre 2017 e 2019, qual balanço você faz sua história como quadrinista, autora e ilustradora até aqui?

Nossa, verdade! É muito bom poder voltar aqui pra falar sobre uma nova exposição 🙂 Esta minha exposição de agora é, em si, um movimento de balanço, também: pensei em chamá-la de Solstício por haver um movimento de transição e de avaliação do que foi feito até agora – junto à ideia de transição presente no próprio funcionamento da 9ª Arte Galeria, que dispôs este tempo (e continua com o plano de fazê-lo com outros artistas) de uma semana em que a galeria tem o seu andar de cima disponível, enquanto a exposição anterior está sendo desmontada e a seguinte, em fase de montagem (no meu caso, irei expor meus trabalhos entre as mostras de André Dahmer e Marcatti).

Até aqui, acredito que me desenvolvi profissionalmente não apenas em relação a questões de produção e técnica, percurso esperado pra artistas que… bom, que não desistem de desenhar, rs, mas também evoluí junto com os outros artistas (iniciantes ou não) e com o movimento dos quadrinhos na cidade de São Paulo. O que quero dizer é que me vejo mais segura em relação ao meu traço e a meus projetos enquanto quadrinista e cartunista, mas isso sem dúvida também se construiu graças a vivências (conversas, palestras, mesas-redondas…) em espaços como a Ugra, a Loja Monstra, em eventos sobre quadrinhos no Sesc, no CCSP, em livrarias, e, agora, na 9ª Arte Galeria. Isto, claro, sem contar os festivais de quadrinhos, nos quais também pude presenciar discussões que contribuíram, mesmo que de forma indireta, para o desenvolvimento do meu trabalho.

“Tento pensar, sempre ao começar um projeto novo, em como fazer um quadrinho cuja qualidade se concentre no desenvolvimento de sua narrativa”

Um dos cartuns de Aline Zouvi que estará em exposição na 9ª Arte Galeria

Ainda sobre esse intervalo de dois anos: você vê muitas mudanças no seu estilo de fazer e pensar quadrinhos? Suas técnicas mudaram muito de 2017 até hoje?

Creio que mudei mais na maneira de fazer e pensar quadrinhos que na técnica em si. Ao longo deste intervalo de dois anos e ainda agora, tento pensar, sempre ao começar um projeto novo, em como fazer um quadrinho cuja qualidade se concentre no desenvolvimento de sua narrativa. Nesse sentido, todas as intenções que eu tinha enquanto autora quando comecei, tento agora remoldá-las em função da construção da narrativa, deixando-a sempre em primeiro lugar. Por exemplo, sempre pensei o fazer quadrinhos como um espaço de resistência e de visibilidade para minorias sociais – e ainda o penso – e procuro me desenvolver como autora para que esta preocupação se faça evidente na mina construção de enredos e personagens. Em relação às técnicas, procuro experimentar quando possível (como foi no caso da produção de Síncope), mas me interessa, também, focar em algo que já me é familiar (no caso, o preto e branco) e tentar melhorá-lo a cada produção.

O que mais me chama atenção na curadoria da sua exposição da 9ª Arte Galeria é a diversidade de suas áreas de atuação. Nessa mostra estão presentes trabalhos seus para HQs, jornais e zines. Existe alguma chave específica na sua cabeça na hora de trabalhar para cada um desses meios? É muito diferente pra você produzir um cartum pra Folha de São Paulo e uma HQ autoral?

Como alguém que se interessa em trabalhar com autoria no desenho, creio que me é tranquila a transição entre a auto-expressão em uma hq autoral e publicações que ofereçam algum tipo de limitação criativa, como um cartum ou qualquer outro tipo de desenho feito sob encomenda. Por mais que o cartum tenha a limitação de uma pauta a ser seguida, o seu formato reduzido, etc, creio que a ‘mudança de chave’ é menos  brusca, pois ainda posso desenvolver, no cartum, o meu traço – e, quanto ao conteúdo, aproveito este contexto de produção dirigida para exercitar outras formas de expressar uma mesma ideia. É muito importante, na minha opinião, poder exercitar o máximo possível destes ‘tipos de produção’ – isso me ajudou bastante no meu crescer enquanto profissional.

Parte de uma das páginas de Aline Zouvi que estará em exposição na 9ª Arte Galeria

Aliás, você pode falar um pouco sobre a curadoria dessa exposição na 9ª Arte Galeria? Como foi o processo de escolha de quais trabalhos entrariam na exposição?

Alexandre e Mona Lisa Martins, os curadores da galeria, me deram total liberdade para escolher quais trabalhos seriam expostos, deixando, desde o início, esta intenção de tentar fazer um apanhado de minha produção até o momento, mesmo que isto significasse reunir desenhos de diferentes formatos e abordagens. Ambos, desde o início, foram bastante atenciosos e mostram uma preocupação importante em oferecer o espaço da galeria a artistas que têm pouca visibilidade e/ou ainda estão no processo de construir seu público.

“O que quero ler e tentar, também, fazer, são quadrinhos que reconheçam, de forma honesta, as suas limitações”

Um registro de uma página de Síncope ainda em produção, a versão finalizada da arte estará em exposição na 9ª Arte Galeria

O que mais te interessa em termos de quadrinhos hoje, Aline? O que você mais tem interesse em ler e tentar fazer e experimentar com a linguagem das HQs?

Ao ler a sua pergunta, tudo em que pude pensar foi: Emil Ferris. Emil Ferris. Emil Ferris! Haha. Zueiras à parte, o que quero ler e tentar, também, fazer, são quadrinhos que reconheçam, de forma honesta, as suas limitações – e que isto não os impeça de serem subversivos, inovadores (e por que não, revolucionários?). Que isso seja, na verdade, a força deles. Eu tô um pouco cansada de quadrinhos que se autoprometem fodas, sabe?

Pra encerrar, no que você está trabalhando agora? Você já tem alguma próxima publicação em vista? Se sim, o que pode falar sobre ela?

Eu estou há bastante tempo elaborando uma narrativa mais longa, que agora está em fase da escrita do roteiro, depois de muitas idas e vindas em relação à elaboração do argumento. Infelizmente não posso falar mais do que isso, mas tô me esforçando pra que seja uma boa história 🙂 no meio do caminho irei elaborar uma hq mais curta, para ser lançada na CCXP.

Um dos cartuns de Aline Zouvi que estará em exposição na 9ª Arte Galeria

Entrevistas / HQ

Papo com Aline Zouvi, a autora da 17ª edição da coleção Ugritos: “Se há alguma sensação que quero passar, talvez seja essa de que o estranho e o familiar andam juntos”

Um dos principais lançamentos da Bienal de Quadrinhos de Curitiba 2018 será o 17º número da coleção Ugritos. A publicação é assinada pela quadrinista Aline Zouvi e tem o título Óleo Sobre Tela. A HQ de 16 páginas é toda ambientada dentro de um museu, tem como pano de fundo uma exposição das obras do pintor surrealista belga René Magritte (1898-1967) e acho melhor parar por aqui e não adiantar muito mais em relação à sinopse.

Com o lançamento do excelente Síncope no final de 2017, Zouvi se tornou um dos principais nomes da nova safra de quadrinistas brasileiros. Óleo Sobre Tela reforça a autora como uma artista a não se perder de vista, por conta de seu traço singular e sua narrativa ímpar. Conversei com a quadrinista sobre as origens e inspirações de seu mais novo lançamento, publicado pela editora Ugra Press. Dá uma conferida:

É a explícita a proposta surrealista de Óleo Sobre Tela e o diálogo do quadrinho com os trabalhos do René Magritte. O que veio antes: a história que você queria contar ou essa abordagem tratando dos trabalhos do Magritte?

O que veio antes foi a história. Há bastante tempo eu queria fazer um quadrinho sobre observar pessoas em museus – eu gosto bastante da temática, genericamente falando, dos bastidores. Perceber o estranho presente nas pequenas coisas que a gente faz todo dia, reconhecer esse silêncio confortável daquilo que acontece por detrás dos panos para que outras coisas legais possam acontecer. Gosto muito de pensar nesses tipos de histórias – sobre cochias de teatro, funcionários de museus, pessoas geralmente escondidas. O trabalho do Magritte me veio depois, de forma natural, pois sou apaixonada (obviamente, haha!) pelo seu modo de olhar as coisas.

Acho que mais do que uma história, o seu Ugrito se propõe mais a brincar com sensações e sentimentos. Algo bem parecido com os trabalhos do Magritte. Você tinha algum/alguma sentimento/sensação específico/especifica que queria passar para o leitor enquanto produzia esse quadrinho?

Acho perigoso fazer uma hq (ou qualquer outra obra) com um objetivo específico em mente, principalmente sabendo que não irei controlar a interpretação do outro sobre o que fiz. Se há alguma sensação que quero passar com este Ugrito, talvez seja essa de que o estranho e o familiar andam juntos. Essa leveza que vem dos quadros do Magritte eu considero interessante de trabalhar, como um exercício de reconfigurar minha visão de mundo e, quem sabe, transmitir isso pra mais alguém também. Mesmo enquanto não tão velhos, a gente já tem uma visão muito engessada da vida. Não tem muito espaço pra brincar, pra ser flexível, sabe?

O seu quadrinho me fez pensar muito na minha relação com museus, como esses espaços que lembram uma espécie de realidade paralela em que o tempo flui num ritmo diferente. Como é a sua relação com museus?

Minha relação com museus é familiar à posição daqueles que desenham: não visitamos museus 100% por trabalho, nem 100% por lazer. Há sempre um limbo a ser percorrido, e devo dizer que este limbo é muito agradável, apesar de às vezes poder ser sufocante. Me interessa muito esta ideia do museu como realidade paralela, pois o tempo realmente flui de outra forma quando nos deixamos absorver por uma exposição. De todo modo, ocupar e apoiar um museu não deixa de ser, também, um ato político. Escrevo isto um dia depois da tragédia do Museu Nacional (no Rio de Janeiro), e a perda histórica, material (e, por que não, sentimental) que sinto e que vejo meus amigos sentirem mostra bem essa nossa relação ambígua com museus: talvez não os visitamos tanto como devíamos, mas sua presença em nossas vidas, enquanto sociedade, é imprescindível.

Uma das graças dos Ugritos está na forma como cada autor faz uso desse formato fechado e pequeno, com um número limitado de páginas. Foi desafiador pra você trabalhar dentro dessas restrições?

Foi muito desafiador pensar em uma história de 16 páginas que tivesse um bom desenvolvimento e, principalmente, um desfecho interessante para o leitor. É como se não houvesse espaço pra respirar. Para mim, foi um desafio muito importante! Eu achava que pensar em narrativas longas era complicado mas, com esta experiência do Ugrito, vejo que o demônio mora, mesmo, nas 16 páginas. Haha!

No que você está trabalhando agora? Você tem mais alguma publicação à vista pra 2018?

Estou trabalhando na publicação que irei lançar na CCXP de 2018. Pretendo fazer uma coletânea de tiras de formato quadrado, pensadas especialmente para publicação via instagram. Estas tiras foram algumas das primeiras publicações que comecei a fazer, quando ainda estava experimentando linguagens e traços. Minha intenção é ordená-las (assim como produzir tiras novas) de modo que construam uma narrativa, quando postas em conjunto.

HQ

Som & Fúria: confira uma prévia do zine de Aline Zouvi sobre a história do teatro

Já comentei por aqui como gosto do trabalho da quadrinista Aline Zouvi e como Síncope foi uma das grandes surpresas dos quadrinhos brasileiros no ano passado. Daí que a artista produziu pro FIQ um zine chamado Som & Fúria, contendo 12 páginas contando a história do teatro, com cada página apresentando máscara de uma época diferente, começando lá da Grécia antiga até os dias de hoje. Junto com cada ilustração, consta um trecho do texto de William Shakespeare pra Macbeth.

“Eu queria aproximar de alguma forma a arte sequencial e o teatro, algo que pode parecer menos natural (do que uma aproximação com o cinema, etc.), mas conforme fui desenhando as máscaras me dei conta do poder que elas têm de resumir informações graficamente, assim como um cartum”, diz a artista em papo rápido com o blog por email. Saca uma prévia da obra enviada por Zouvi aqui pro blog (Ah! Também recomendo um pulo lá no Balbúrdia pra ler o texto da autora sobre o trabalho dela como cartunista):

HQ

5ª (14/12) é dia de lançamento de Síncope, de Aline Zouvi, em SP

Tá em São Paulo? Tem planos pra 5ª (14/12)? Recomendo um pulo na Ugra pro lançamento de Síncope da Aline Zouvi. Trabalho muito bonito sobre o qual falei na minha matéria de 10 HQs brasileiras lançadas na CCXP 2017. O evento rola a partir das 18h e a Ugra fica na loja 116 do número 1371 da Rua Augusta, você confere outras informações lá na página do lançamento no Facebook. Aproveito a deixa pra reproduzir a íntegra da entrevista que fiz com a quadrinista pra minha matéria pro UOL. Ó:

Eu lembro de você distribuindo alguns dos seus zines na Comic Con Experience de 2016. Um ano depois, você vai estar na CCXP 2017 com uma mesa própria e lançando seu primeiro quadrinho. Quais são as suas expectativas pro evento?

Parece que faz bem mais de um ano desde a última CCXP! Ao longo de 2017 eu trabalhei bastante para evoluir como quadrinista, e tinha dúvidas se o perfil da CCXP enquanto evento combinaria com o tipo de quadrinho que produzo, que é visto como “alternativo”, por mais sem sentido que hoje esse termo pareça. Minha maior expectativa pro evento é poder fazer meu trabalho chegar a mais pessoas, e pra isso eu aposto na pluralidade do público que atenderá à Comic Con.

Qual é a origem da trama de Síncope? Você lembra do instante em que teve a ideia de desenvolver esse projeto?

Síncope narra um dia na vida de uma personagem com ansiedade, e esta trama vem do meu interesse em representar pessoas com patologias, sejam elas físicas ou mentais. Trabalhei com isso em Condição, série de ilustrações sobre artistas e suas patologias, e queria levar o tema mais adiante em uma HQ – é algo que quero fazer há anos, por isso não me lembro exatamente do instante em que a ideia surgiu. Tentei maturá-la o máximo de tempo que consegui, mas a vontade de desenvolver o projeto foi maior. Pensando em seu lado prático, digamos que passei pelo menos um ano trabalhando nesta HQ, desde a pesquisa por referências até sua entrega na gráfica.

Você pode falar um pouco da técnica utilizada por você na criação do projeto?

Ao longo das aulas de desenho com modelo vivo ministradas por Laerte e Rafael Coutinho em 2017, primeiro no espaço LAJE e, em seguida, no espaço BREU, ambos em São Paulo, tive a oportunidade de trabalhar com técnicas que não me eram muito familiares. O giz pastel oleoso era uma delas, e aproveitei as aulas para explorar as texturas e combinações de cor no momento de desenhar os corpos dos modelos. A liberdade de criação no momento das aulas me permitiu, depois de alguns testes, chegar a um uso de massas de cor que optei usar em Síncope para expressar momentos de ansiedade vividos pela personagem principal. O que me interessa no uso do giz pastel oleoso em quadrinhos é também a ampliação de técnicas consideradas não tradicionais para a produção de HQs – algo que pretendo continuar estudando.

Você tem sido presença constante em eventos de quadrinhos, seja como público ou expositora. O que você vê de mais interessante na atual cena brasileira de HQs?

Em 2017 busquei, de fato, participar do máximo possível de eventos de quadrinhos para entender melhor o que está sendo produzido hoje e como funciona a relação dos quadrinistas entre si, com o público e com sua própria produção. O que vejo de mais interessante na cena brasileira atual independente – que é de onde posso falar -, é a busca de quadrinistas por um aperfeiçoamento profissional cada vez mais significativo, em conjunto com a proliferação (muito bem-vinda, eu acredito) de feiras e eventos de quadrinhos focados em atender a diversidade (de forma e conteúdo) das produções feitas hoje – sem contar os diversos canais para divulgá-los, como o próprio Vitralizado, o Balbúrdia e o Papo Zine, para citar alguns.

HQ / Matérias

Dez HQs nacionais com lançamentos marcados pra CCXP 2017

Ei, vai à Comic Con Experience 2017 e não sabe por onde começar com os vários lançamentos de quadrinhos nacionais marcados para o evento? Conversei com alguns quadrinistas que estarão com publicações novas por lá, montei uma lista com alguns projetos que chamaram a minha atenção e transformei em matéria pro UOL. Não vou entregar o ouro por aqui, mas adianto que no texto tem papo com Wagner Willian, Bianca Pinheiro, Aline Zouvi, Luciano Salles e Felipe Parucci e menções a trabalhos de Paulo Crumbim, Julia Bax, Júlia Helena, Thiago Souto e Debora Santos e Márcio Moreira. Dá uma lida!

HQ

Condição: a exposição do zine sobre artistas e doenças de Aline Zouvi

A quadrinista Aline Zouvi expõe a partir de sábado (8/4) em Campinas as 32 artes do zine Condição. O projeto é uma coletânea de retratos ilustrados de artistas de diferentes áreas e épocas listando a doença de cada um. Você vê por aqui quatro dos trabalhos que estarão expostos na Pandora Escola de Artes e outros lá na página da série no Medium. Acho bem legal os trabalhos da Aline. Além do Condição, dela eu também li o zine Cordas e alguns trabalhos ótimos publicados na Folha – dá uma mexida no Medium pra ver algumas dessas publicações.

Pra quem estiver em Campinas, recomendo um pulo na exposição (as instruções estão aqui). Ela fica em exibição até o dia 13 de maio, sendo que na abertura também rola um bate-papo com a autora. Mandei três perguntas por email pra Aline Zouvi, sobre as origens do projeto e a possibilidade da exposição ir pra outros lugares. Papo rápido, mas massa. Ó:

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Como surgiu a ideia da Condição? Como foi a seleção dos artistas retratados na série?

Como quase qualquer outra pessoa, lidei com doenças (físicas e psicológicas, as minhas e as dos outros) a vida inteira. Mas só passei a me focar de fato nessa questão depois que comecei a ter ansiedade – junto com a ansiedade, desenvolvi hipocondria. Por algum tempo, pensar, viver e fantasiar doenças foi parte do meu cotidiano. Eu quis desenhar doenças e/ou pessoas doentes para mastigar essa minha relação estranha com a doença, e, também, por sentir falta de ver uma representação menos clichê/dramática do ser/estar doente em produções culturais em geral. O que me levou a querer representar as doenças de uma seleção de artistas foi a busca por uma identificação, tanto minha quanto de um possível público com eles. Depois que passei a publicar os retratos, algumas pessoas entraram em contato comentando sobre como os ajudou descobrir que tinham tais e tais doenças em comum com aquele ou aquela artista – é uma questão de não estar só, de recuperar sua autoestima e entender que se vive plenamente – e se produz muito – mesmo estando doente. A doença, na maior parte das vezes, foi a própria condição de desenvolvimento para o dom artístico de alguns dos retratados. A condição em que se encontravam – na maioria das vezes, de dor, sofrimento, isolamento – foi fruto de seus trabalhos mais geniais.

Mesmo sem querer, acabo voltando um pouco à questão da representatividade: quis fazer a Condição para tornar a doença algo visível – tentar dar à doença uma visibilidade mais serena, livre de estereótipos. A série de retratos foi se construindo aos poucos, como um exercício. Daí a juntar tudo em um zine foi algo natural para mim, pois me interesso muito em produções gráficas. A ideia da exposição na escola Pandora, em Campinas, foi uma iniciativa do meu ex-professor de quadrinhos e brother Mario Cau (valeu, Marião!). Selecionar quais artistas seriam retratados foi algo mais difícil, pois eu quis compor um grupo heterogêneo de artistas. Em algumas vezes, ao longo do processo, pedi dicas para as pessoas nas redes sociais na hora de pesquisar os artistas e suas doenças. Busquei retratar pessoas negras e lgbt – minha frustração foi não ter conseguido retratar nenhum artista trans, mas ainda é um plano.

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Qual técnica você usa pra produzir esses trabalhos?

Em todos os retratos usei canetas de nanquim descartável e, em alguns, misturei a caneta com aguada de nanquim. Não tive nenhuma referência específica para esta série. Tentei aproveitar para experimentar técnicas diferentes a cada retrato (dentro do limite possível para que os desenhos funcionassem em conjunto).

Você tá com planos pra algum trabalho novo pra breve? Há projeto de levar essa exposição pra outras cidades?

Tenho planos de refazer o zine Ansiedade (que imprimi em fevereiro deste ano) e estou produzindo o Areia, um zine que propõe quadrinizar narrativas de sonhos, junto com o escritor Thiago Sá. Quero muito levar o projeto para outras cidades, mas por enquanto só a exposição em Campinas está confirmada. Quem tiver interesse em abrigar os retratos por algum tempo, pode escrever para [email protected]

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