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Entrevistas / HQ

Papo com Gabriela Güllich e Isabor Quintiere, autoras de Jogo de Sombras: “O que mais gosto no terror é a sensação de que algo está fundamentalmente errado com o universo”

A escritora Isabor Quintiere diz ter ido atrás de seus medos de infância quando foi convidada pela quadrinista Gabriela Güllich para desenvolver uma HQ de terror. Ela então resgatou seus incômodos com os apagões recorrentes vivenciados por ela em João Pessoa no fim dos anos 90 e histórias de assombração do interior da Paraíba para conceber a trama de Jogo de Sombras, primeira parceria entre as duas autoras e primeiro quadrinho de terror de ambas.

“A dinâmica de um blecaute funcionaria muito bem com o estilo de desenho da Gabi, de alto contraste”, conta a autora da coletânea de contos A Cor Humana sobre suas reflexões antes de apresentar para a amiga a história que se tornaria um quadrinho de 44 páginas.

E sim, realmente funciona a dinâmica entre a arte em preto e branco de Güllich e a trama de Isabor, ambientada em uma noite de falta de energia nos anos 90 em uma casa no brejo paraibano.

Jogo de Sombras tem início com a chegada da jovem Cícera em sua casa sem luz. Ela então sugere ao irmão e à avó uma brincadeira ingênua com as sombras das mãos usando a luz de velas que acaba por atrair a presença de um quarto elemento na casa.

Conversei com as duas autoras de Jogos de Sombras sobre as origens do quadrinho, o desenvolvimento da obra e a relação de ambas com o gênero de terror. Coautora da reportagem em quadrinhos São Francisco, em parceria com o fotojornalista João Velozo, e da série de entrevistas em quadrinhos Entre Quadros, Gabriela Güllich também falou sobre sua primeira incursão no terror e Isabor Quintiere contou sobre essa sua estreia nas HQs. Papo bem legal, saca só:

“Uma história de terror é excelente quando faz você ficar inquieto com coisas que nem te incomodavam até então”

Quadro de Jogo de Sombras, de Gabriela Güllich e Isabor Quintiere (Divulgação)

Vou começar com uma pergunta que faço para todo mundo com quem conversei nos últimos meses: como estão as coisas aí? Como vocês estão lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma as produções de vocês e suas rotinas de trabalho?

Isabor: Por aqui, na minha casa em João Pessoa, sigo em isolamento desde março do ano passado, trabalhando remotamente. Não tem sido fácil, mas o contato constante com as mídias como videogames e livros ajudou muito a diminuir o impacto negativo disso em mim. Demorou uns meses pra que eu me adaptasse o suficiente ao isolamento e voltasse a produzir, mas enfim retomei o ritmo e estou escrevendo novamente.

Jogo de Sombras é pré-pandemia, mas foi afetado por ela também. Tínhamos planos de lançá-lo em 2020, mas com o caos do coronavírus decidimos ‘esperar até a pandemia acabar’… O que não aconteceu! Hahahah Então conversamos e optamos por lançar mesmo assim.

Gabriela: Cheguei inclusive a conversar contigo no início do ano sobre o cancelamento dos eventos, né, Ramon? A gente queria lançar a HQ no FIQ, mas houve essa mudança de planos. Aqui sigo nos trabalhos remotos também e faço todas as minhas entrevistas para a coluna na Mina de HQ via Zoom. Felizmente, tivemos uma procura muito grande por Jogo de Sombras agora na pré-venda (bem maior do que eu imaginava, confesso! Hahaha) então vai dar pra cobrir todos os gastos.

E qual a memória mais antiga de vocês com obras de terror? Vocês têm uma obra de terror que consideram de alguma forma mais marcante na vida de vocês? Se sim, qual e por quê?

Gabriela: Eu tenho uma memória boa e uma ruim! Minha irmã assinava a revista Mundo Estranho, e teve um especial sobre o filme O Exorcista. Eu era muito criança, peguei pra ler de enxerida e fiquei completamente apavorada com as ilustrações (pensando bem, agora tá na hora de pesquisar quem foi que ilustrou aquela edição porque a arte tava incrível! Hahaha). Fiquei com tanto medo dos desenhos que passei bem uma semana sem dormir direito, acredita que até hoje não vi esse filme? 

A memória boa foi a primeira vez que peguei um Dylan Dog pra ler, era com o Johnny Freak. Já gostava muito de preto e branco com contraste forte, também já gostava de ler terror, mas ainda não tinha lido HQs no estilo. Me apaixonei logo de cara, e segue sendo uma das minhas leituras favoritas.

Isabor: A minha memória mais antiga é do filme No Cair da Noite, que eu assisti quando criança. Uma cena dele me marcou muito, que é quando um personagem está dentro do banheiro iluminado e vemos a criatura se movendo no escuro, do lado de fora. É quase impossível distinguir suas formas na escuridão, mas dá pra notar o suficiente pra sabermos que ela está lá. Gostei muito dessa sua pergunta porque ela me fez perceber que eu trouxe para a história de Jogo de Sombras esse mesmo medo do quase-invisível, do pouco-discernível que habita as sombras, sem nem mesmo perceber essa referência tão remota. Foi o subconsciente trabalhando.

Mas a minha obra favorita e que mais me marcou não foi essa, e sim o mangá Uzumaki, de Junji Ito. O que eu mais gosto no terror não é de tomar sustos, mas da sensação de desconforto que fica depois de uma leitura, de que algo está fundamentalmente errado com o universo. Uma história de terror é excelente quando faz você ficar inquieto com coisas que nem te incomodavam até então. Foi o caso desse mangá, que me deixou nervosa com espirais por alguns dias após a leitura.

“Quero sentir apreensão, desconfiança, nervosismo, dúvida”

Página de Jogo de Sombras, de Gabriela Güllich e Isabor Quintiere (Divulgação)

Qual elemento vocês consideram mais essencial para uma boa obra de terror?

Isabor: É fundamental para mim que eu não me sinta ‘bem’ lendo uma obra de terror. Eu quero sentir apreensão, desconfiança, nervosismo, dúvida. Quando termino uma leitura que me causa isso, eu penso: ‘uau, passei mal, 10 estrelas!’ E ajuda muito o fato de eu ser meio covarde. As coisas ficam mais imersivas assim.

Gabriela: Acho que a tensão é um fator muito importante mesmo. Eu não gosto de filmes de terror, não me chamam muita atenção, mas amo ler terror. E o que mais adoro na leitura é segurar as páginas com apreensão, querer e não querer ao mesmo tempo saber o que vai acontecer em seguida.

Vocês podem contar um pouco, por favor, sobre as origens de Jogo de Sombras? Como esse projeto teve início? 

Gabriela: Tudo começou porque eu não aguentava mais embalar livro e comecei a mandar mensagem pras amizades falando ‘ei, bora lá em casa! Comer um bolinho, empacotar umas recompensas, tomar um café…’ Hahahaha Foi bem no fim do Catarse de São Francisco, aí Isabor foi lá em casa me ajudar a organizar os livros. Conversa vai, conversa vem, joguei o verde: ‘bora fazer um quadrinho de terror?’ E fizemos!

Isabor: Gabi tinha vontade de fazer uma HQ de ficção, porque até então só tinha feito jornalismo em quadrinhos, então conversamos e decidimos criar algo juntas. Ela sugeriu que fosse no gênero de terror, e eu fui atrás de procurar, na infância, algo que me causava medo e que eu pudesse explorar em uma HQ. Pensei logo nos apagões dos anos 90 (que eram muito recorrentes aqui) e nas histórias de mal-assombro interioranas. Decidi jogar essa ideia para a Gabi porque a dinâmica de um blecaute funcionaria muito bem com o estilo de desenho dela, que é de alto contraste, com pretos e brancos.

“Queria incitar essa agonia de não enxergar tudo em quem tá lendo”

Quadros de Jogo de Sombras, de Gabriela Güllich e Isabor Quintiere (Divulgação)

Como foi a dinâmica de vocês durante o desenvolvimento do quadrinho? Vocês chegaram a fechar um roteiro antes da Gabriela começar a ilustrar? Como era a troca entre vocês à medida que as páginas eram finalizadas?

Gabriela: Sim, Isabor fez o texto todo em formato de conto, e eu fui adaptando. Tanto é que optamos por deixar algumas partes só de texto no quadrinho, achei que ficava legal intercalar narração e imagem. Até porque, é uma história que se passa numa noite de breu, né? E a gente queria muito incitar essa agonia de não enxergar tudo em quem tá lendo. Aí eu ia fazendo os rascunhos e mandando pra Isabor, a Ana Gabriella que fez o projeto gráfico também recebia e ajudava a dar uns pitacos.

Acho que essa é a primeira HQ de horror de vocês, certo? Qual balanço vocês fazem do uso da linguagem dos quadrinhos para contar uma história de horror? Quais aspectos da linguagem vocês acham que mais contribuem para contar uma história de horror? E há algum aspecto da linguagem que vocês concluíram ser um empecilho para histórias desse gênero?

Isabor: Pra mim, foi um desafio muito divertido transpor o que causa medo na prosa para o que causa medo na arte visual. Na prosa, a gente calcula cada palavra, cria tensão através da construção das frases, através do que a gente descreve ou deixa de descrever. Isso não acontece com a HQ. Nela, a questão foi saber o que mostrar e o quanto mostrar. Decidimos pesar muito no preto para criar essa atmosfera opressiva de escuridão, de só enxergar vultos e poucas luzes. Foi muito bom explorar isso.

Gabriela: Eu acho que o fator principal pra essa história ter dado certo visualmente foi o jogo com as figuras. Logo no início, tem a cena do jogo de sombras da família, que é essencial pros eventos que ocorrem no decorrer da história. Foi a parte que mais gostei de desenhar, Isabor deu a sugestão das figuras que ela queria formar e eu fui assistindo vários vídeos de brincadeiras com velas e lanternas pra estudar as projeções, foi muito interessante poder brincar com isso. O que poderia ter sido um empecilho são as cenas de breu total (meio que difícil de desenhar o que não aparece, né?), mas intercalando com a narração acredito que a gente conseguiu manter a atmosfera de suspense.

Quadros de Jogo de Sombras, de Gabriela Güllich e Isabor Quintiere (Divulgação)

Gabriela, com quais técnicas e materiais você trabalhou nesse projeto? São as mesmas usadas por você no São Francisco?

Gabriela: Foi basicamente o mesmo material de São Francisco: tudo em nanquim. Uma coisa que explorei foi fazer um jogo de cores aplicando uns cinzas no Photoshop, porque achei que seria legal deixar o preto e branco de alto contraste para algumas cenas específicas de mais impacto.

Vocês podem recomendar algo que estejam lendo/assistindo/ouvindo no momento?

Isabor: No momento, estou lendo o novo livro de contos de terror de Bruno Ribeiro, conterrâneo que recebeu o Prêmio Machado Darkside ano passado. Recomendo muito todos os trabalhos dele pra quem curte bastante gore e violência na literatura.

Gabriela: Eu estou lendo O Corpo Dela e Outras Farras, de Carmen Maria Machado, e gostando bastante, ela mistura muito humor e terror. Ah, ouvi MUITO o álbum Se O Caso É Chorar, de Tom Zé, enquanto fazia essa HQ. 

A capa de Jogo de Sombras, de Gabriela Güllich e Isabor Quintiere (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Gabriela Güllich e João Velozo, autores de São Francisco: “A foto não torna o desenho mais verdadeiro, ela constrói a narrativa junto com o desenho”

Está marcado para as 18h de sábado (7/12), em João Pessoa (PB) o lançamento de São Francisco, reportagem em quadrinhos assinada pela quadrinista e jornalista Gabriela Güllich e pelo fotojornalista João Velozo. A sessão de autógrafos será no bar Recanto da Cevada (Rua Bancário Waldemar de Mesquita Três Ruas, Bancários).

São Francisco é fruto de uma jornada de 15 dias e mais de 1000 Km percorridos por Güllich e Velozo, saindo de Belém do São Francisco, no Pernambuco, e indo até Monteiro, na Paraíba, passando por todas as cidades do Eixo Leste da transposição do Rio São Francisco.

O livro de 110 páginas em preto e branco mescla as ilustrações em nanquim da quadrinista com os registro feitos pelo fotógrafo para tratar de três temas principais: água, seca e as obras da transposição. O diálogo mais próximo do álbum é com a trilogia O Fotógrafo, dos franceses Didier Lefèvre e Emmanuel Guibert.

“Nosso objetivo nunca foi usar a foto como uma ferramenta de ‘comprovação’ visual e sim como uma ferramenta de narrativa”, diz Güllich em relação à estrutura pensada por ela e seu parceiro de projeto.

Além da estética singular, também chamo atenção para as fontes consultadas pelos autores e para a decisão dos dois em não se apresentarem como personagens da HQ – hábito muito comum e nem sempre necessário em projetos de jornalismo em quadrinhos.

Na conversa a seguir, Güllich e Velozo falam sobre o ponto de partida de São Francisco, apresentam alguns bastidores da reportagem e expõem algumas de suas reflexões decorrentes da produção do álbum. Papo massa, saca só:

“Desde o início o formato foi pensado em quadrinho + foto”

Quadros de São Francisco, HQ de Gabriela Güllich e João Velozo

Qual foi o ponto de partida do livro? Vocês sempre estiveram certos em relação ao formato HQ + fotografia?

João: Joguei a ideia pra Gabi há uns dois anos, a gente já tinha trabalhado juntos pra Deutsche Welle e depois também publicamos na VICE Brasil (num modelo mais tradicional, foto minha e texto dela) e achei que tava na hora da gente tentar trabalhar com desenho e fotografia, então desde o início o formato foi pensado em quadrinho + foto. Na época ficou só na ideia porque ainda tinha muita coisa pra amadurecer. Aí no passado a Gabi publicou a HQ Quatro Cantos de Um Todo pelo Sesc Paraíba e já tava trabalhando na HQ-reportagem dela pro TCC sobre agricultoras assentadas na PB e eu estava trabalhando numa reportagem na mesma região do nosso itinerário, e resolvemos que seria um bom momento pra colocar a ideia em prática. Fui premiado com o Yunghi Grant 2018 por esse trabalho, o que garantiu meus custos da viagem, e a Gabi já vinha juntando dinheiro pra isso também. Traçamos um itinerário, fizemos nosso orçamento, decidimos a pauta e em janeiro desse ano fomos pra estrada.

Vocês levaram quanto tempo entre o início do projeto e o lançamento? Que tipo de planejamento vocês fizeram antes de dar início à apuração das histórias?

Gabriela: Considerando como ponto de partida o dia que a gente realmente sentou pra planejar custos, itinerário, pautas etc., que foi em meados de novembro do ano passado, até o lançamento (que aconteceu em novembro em Fortaleza e teremos mais um em João Pessoa e outro em Recife agora em dezembro), deu mais ou menos um ano de produção. Primeiro, nós traçamos um itinerário que seguiu as cidades do Eixo Leste da Transposição. Em seguida, nós escolhemos a pauta que abordaríamos em cada região pra facilitar a estimativa de tempo que passaríamos em cada cidade. E aí veio a questão do orçamento que envolveu basicamente passagens de ônibus, locomoção nas cidades, alimentação, estadia, custos com equipamento e custos com possíveis imprevistos.

Em relação a esse planejamento, o quanto ele mudou a partir do momento em que vocês saíram viajando para produzir o que viria a ser o livro?

João: Tivemos alguns gastos a mais com locomoção e o planejamento com o itinerário variava muito de acordo com as cidades, mas isso era algo que a gente já esperava. Às vezes pode acontecer de perder um dia inteiro de trabalho esperando uma única entrevista e às vezes parece que um dia inteiro rende mais do que uma semana.

“Monto uma estrutura de reportagem e adapto pra narrativa de uma história em quadrinhos”

Quadros de São Francisco, HQ de Gabriela Güllich e João Velozo

Como foi a dinâmica de trabalho entre vocês? O quanto a Gabriela influenciou nos trabalhos do João e vice-versa?

João: No começo da viagem ainda rolou umas adaptações, a Gabi precisava de referência visual pros desenhos e eu precisava focar na fotografia, então fiquei com minha câmera e ela com uma menorzinha mais pra filmar as coisas que interessavam nessa parte de narrativa sequencial do quadrinho.

Como foi o trabalho de decupagem do material que vocês reuniram? Vocês precisaram deixar muita coisa de fora?

Gabriela: A gente já viajou pensando nas três pautas principais, que são os capítulos do livro: água, seca e obra. Então na hora de selecionar os relatos, buscamos aqueles que mais correspondiam a esses temas. Nós entrevistamos muitas pessoas, então tentamos não colocar relatos que fossem muito parecidos e prezamos por aquelas histórias que tinham um pouco mais detalhes. Conseguimos utilizar um pouco mais da metade das entrevistas.

Encerrado esse trabalho de apuração, vocês chegaram a construir um roteiro fechado? Se sim, como foi esse trabalho?

Gabriela: Todo dia assim que a gente chegava do trabalho eu já abria o notebook pra transcrever as entrevistas, isso facilitou muito a produção do roteiro depois porque eu já tinha a fala completa pronta, era só fazer a decupagem. Fiquei responsável pelo roteiro porque já tinha essa experiencia prévia com quadrinho então fui organizando como geralmente faço: monto uma estrutura de reportagem e adapto pra narrativa de HQ.

Quadros de São Francisco, HQ de Gabriela Güllich e João Velozo

Gabriela, quais materiais você utilizou durante a produção desse livro?

Gabriela: Eu trabalho basicamente com tradicional, então levei um caderninho e uma caneta pra fazer rascunhos e anotações durante a viagem e quando realmente fui pra produção do livro trabalhei tudo com nanquim, fiz a arte-final toda na caneta e usei o Photoshop depois só pra ajustes de níveis e contraste mesmo.

Por que a opção pelo preto e branco? Em algum momento vocês cogitaram fazer o livro em cores?

João: O livro sempre foi pensado em preto e branco mesmo, é como eu fotografo na maioria dos meus trabalhos e é como a Gabi prefere trabalhar também.

É explícita a influência de O Fotógrafo no trabalho de vocês, principalmente pela mescla “fotografia + quadrinhos”. Esse trabalho foi a principal influência de vocês durante a produção de São Francisco? Houve alguma outra obra que influenciou o desenvolvimento do quadrinho de vocês?

João: Quando tive a ideia do projeto, emprestei O Fotógrafo pra Gabi dar uma olhada. Acho que foi o pontapé inicial mas não a principal influência, não acho que tenha tido algo muito específico, o livro é uma mistura de vários autores que gostamos junto com o nosso olhar.

“Prefiro deixar o foco da narrativa totalmente na pessoa que conta a história”

Foto presente no álbum São Francisco, HQ de Gabriela Güllich e João Velozo

Um padrão habitual em obras de jornalismo em quadrinhos está nos jornalistas se colocando como personagens das obras. Por que a opção de vocês em não se retrataram na HQ?

Gabriela: Eu prefiro deixar o foco da narrativa totalmente na pessoa que conta a história, é como trabalhei nas minhas produções anteriores também. Particularmente não acho que me desenhar ouvindo a pessoa seja algo necessário na narrativa – e isso eu acho um ponto legal da fotografia: você sabe que tem alguém fotografando, mas o foco visual é em quem tá do outro lado da lente, e é assim que eu prefiro trabalhar minhas reportagens.

Eu gosto de uma reflexão proposta pelo Joe Sacco no livro Reportagens que ele questiona “como conciliar a subjetividade inerente aos desenhos com a verdade objetiva que se aspira em uma matéria jornalística?”. Eu repasso a pergunta para vocês: como? Vocês acreditam que o uso de fotografias auxilia nessa aspiração à “verdade objetiva”?

Gabriela: Acho que seria um pouco presunçoso da nossa parte dizer que chegamos à fórmula secreta de como deixar o desenho ou até mesmo a foto totalmente objetivos. O que a gente busca é ser fiel à história que nos foi contada, mas é impossível retirar toda a subjetividade de um relato até porque o próprio relato já vem carregado da subejtividade de quem conta. O que podemos fazer é buscar estar de olhos e ouvidos abertos durante uma entrevista, tentando não trazer nossas impressões pessoais antes de ouvir o que a pessoa tem a dizer. Nosso objetivo nunca foi usar a foto como uma ferramenta de “comprovação” visual e sim como uma ferramenta de narrativa. A foto não torna o desenho mais verdadeiro, ela constrói a narrativa junto com o desenho.

“Nosso objetivo nunca foi usar a foto como uma ferramenta de ‘comprovação’ visual e sim como uma ferramenta de narrativa”

Quadros de São Francisco, HQ de Gabriela Güllich e João Velozo

Vejo muitos quadrinistas independentes lamentando a falta de um editor. Também sei como é difícil para jornalistas freelancers trabalhar sem o auxílio de um editor. Não consta no expediente da reportagem em quadrinhos de vocês nenhum crédito a editores. Vocês sentiram falta de alguém exercendo essa função? Como foi o trabalho de edição desse quadrinho?

Gabriela: Não tive editores nos meus últimos trabalhos em quadrinhos então fui pegando a experiência que adquiri pra montar essa estrutura do livro, mas já trabalhei com editores em matérias só com texto mesmo e sim, faz falta ter esse olhar. O que ajudou nessa parte foi contar com a Ana Gabriella, do projeto gráfico, e a Isabor, nossa revisora. Os apontamentos que elas faziam me ajudaram a construir melhor a edição do quadrinho.

João: Quando começamos a parte da elaboração do livro, falei com a Gabi que gostaria de alguém experiente pra fazer o trabalho de edição de fotografia, por isso convidamos a Cris Veit pra cuidar desse aspecto.

Eu queria saber um pouco sobre a experiência de vocês com o financiamento coletivo. O livro de vocês entrou no Catarse em uma temporada muito concorrida da campanhas de financiamento por conta da Comic Con Experience. Que balanço vocês fazem dessa experiência?

Gabriela: Olha, foi uma correria e tanto. A gente não vai lançar o livro na CCXP, mas eu tô em processo de mudança então não daria pra adiar o lançamento pro ano que vem, acabou que tivemos que pegar essa onda de catarses que é esse período de setembro a dezembro. No começo ficamos com um pouco de receio por não ser algo muito conhecido, o jornalismo em quadrinhos ainda tá ganhando espaço – tanto no mundo do jornalismo quanto no mundo dos quadrinhos -, ainda mais que resolvemos misturar desenho e foto… A campanha deu super certo, conseguimos arrecadar mais do que a meta prevista e foi bem legal perceber o interesse das pessoas no jornalismo independente.

“O que fica é a história e nossa profissão é ser testemunha dessa história, aconteça o que acontecer”

Quadros de São Francisco, HQ de Gabriela Güllich e João Velozo

Uma pergunta que tenho feito bastante aqui no blog: desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que a nossa sociedade é hoje. Vocês são otimistas em relação ao nosso futuro?

João: Não acredito que caiba ao jornalista ser otimista ou pessimista, enquanto jornalistas decidimos abdicar das nossas vivências e vozes para sermos veículos para a voz daqueles que mais precisam. No caso atual do Brasil, creio que devamos focar no nosso trabalho, mesmo com a máquina estatal comprovadamente sendo usada para espalhar mentiras, não há mentira no mundo que supere o julgamento da história. E se nós fizermos nosso trabalho bem feito, acordando todos os dias pela manhã com o ímpeto de contar historias, de contar a verdade, de ser essa caixa de ressonância para as vozes de quem está sofrendo, nós seremos peças fundamentais para que no tribunal da história os fatos sejam considerados e a verdade prevaleça. Esse governo vai passar, e nós passaremos por ele, pode durar quatro anos, pode durar vinte, o que fica é a história e nossa profissão é ser testemunha dessa história, aconteça o que acontecer.

No que vocês estão trabalhando agora? Vocês já têm algum próximo projeto em vista?

João: Por enquanto estamos mais focados em entregar as recompensas dos nossos apoiadores e fazer o livro circular, ainda vamos fazer a venda do livro digital em inglês também então temos vários detalhes a serem cuidados desse projeto ainda.

Gabriela: O João tem engatado projetos de fotorreportagem e eu tenho meus projetos de jornalismo em quadrinhos. Tenho flertado com a possibilidade de trabalhar um pouco com terror, venho conversado com uma roteirista e estamos vendo no que vai dar. Por enquanto, a única coisa certa mesmo é focar em colocar o São Francisco pra rodar.

Para encerrar: o que vocês veem de mais interessante sendo feito hoje no formato de histórias em quadrinhos?

Gabriela: Acho muito interessante o trabalho que a Carol Ito e o Pablito Aguiar vêm desenvolvendo com perfis e matérias curtas nesse campo do jornalismo em quadrinhos. Também tenho gostado bastante de acompanhar o trabalho de quadrinistas que conheci recentemente, como a Brendda Maria e a Débora Santos, do Ceará e a Luiza (ilustralu), do RN.

A capa de São Francisco, HQ de Gabriela Güllich e João Velozo