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Julie Doucet fala sobre Meu Diário de Nova York: “Me sentia caída de paraquedas no meio desses artistas famosos de Nova York”

A quadrinista canadense Julie Doucet evita computador e celular, possíveis gatilhos para seus ataques epilépticos. Ao topar ser entrevistada por mim, tendo em vista a edição brasileira de Meu Diário de Nova York (Veneta), ela pediu que as perguntas fossem enviadas aos assessores da editora canadense Drawn & Quarterly. O meu email foi impresso e entregue a ela, para ser respondido à mão. As respostas foram posteriormente escaneadas e enviadas de volta para mim.

Doucet vive praticamente offline, distante da comoção virtual recente com a descoberta de seu nome por novas gerações.

No último mês de janeiro ela foi premiada com o Grand Prix da 49ª edição do Festival de Angoulême, mais tradicional festival de histórias em quadrinhos do Ocidente. A honraria celebra anualmente o conjunto da obra e as contribuições de um artista para a linguagem dos quadrinhos. Ao anunciar a vitória da autora canadense, os organizadores do festival exaltaram sua arte “sem concessões, radical e subversiva”. Agora, com Meu Diário de Nova York, traduzido por Cris Siqueira, ela ganha sua primeira edição na América da Sul. 

Página de Diário de Nova York, obra de Julie Doucet publicada pela editora Veneta (Divulgação)

As 144 páginas em preto e branco do álbum retratam as vivências de Doucet, durante o período de pouco mais de um ano que ela viveu em Nova York, entre 1991 e 1992. O livro reúne histórias originalmente impressas entre 1995 e 1998 na revista autoral e independente Dirty Plotte. A obra começa um pouco antes da mudança da artista para os Estados Unidos, em 1983, com ela ainda em Montreal, aos 17 anos, em seu primeiro ano na universidade.

O álbum abre com um relato de Doucet sobre sua primeira experiência sexual, depois parte para uma sequência sobre suas frustrações universitárias e amorosas no início da vida adulta. Então ocorre um salto temporal mostrando a ida para Nova York, quando ela já era um nome em ascensão na cena underground de quadrinhos da América do Norte. Grande parte do livro é centrada na vida de sexo e drogas da artista enquanto ela conciliava sua rotina profissional com seus ataques epilépticos e as demandas de um namoro tóxico.

“Para dizer a verdade, não mudaram muitas coisas no meu estilo de vida. Só que agora bebidas alcoólicas me dão enxaquecas”, me diz Doucet sobre os contrastes entre sua rotina frenética em Nova York no início dos anos 1990 e a vida que leva atualmente em Montreal, onde mora.

Sucesso de crítica

Quadro de Diário de Nova York, obra de Julie Doucet publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Meu Diário de Nova York mostra um pouco da formação de Doucet. Nascida em Montreal, ela estudou em uma escola católica frequentada apenas por meninas. No curso de Belas Artes ela se vê em meio a “todos os rejeitados, todas as almas perdidas e sem esperança da faculdade”, como escreve ela no livro. O ambiente underground cercado por homens e as reflexões autodepreciativas e bem-humoradas seguiram com ela a partir daí, sempre retratados nos zines e nas publicações independentes que fizeram sua fama. 

“Oh la la, os anos passam! Isso me deixa muito feliz, claro…”, responde Doucet quando pergunto sobre a atenção recente à sua obra, a edição reunindo seus trabalhos sobre Nova York e sua primeira publicação em português. “Foi muito inesperado, uma bela surpresa. Trata-se da minha primeira edição brasileira, e também na América do Sul, isso não é pouca coisa!”

Hoje aos 56 anos, Doucet vem retomando aos poucos seus trabalhos com quadrinhos. Ela passou os últimos anos mais focada em trabalhos de poesia, colagens e artes plásticas. No fim do ano passado ela publicou Time Zone (inédito em português), HQ também autobiográfica sobre a ida dela para a França no fim dos anos 1980 para encontrar pessoalmente o namorado soldado que só conhecia por cartas.

Ela assume o contraste entre a recepção atual de seu trabalho e aquela entre os anos 1980 e início dos 2000: “Nunca fui uma autora de grandes sucessos. O meu sucesso foi de crítica, nunca comercial. O que quero dizer é que nunca chamei atenção da imprensa, que talvez não estivesse tão interessada ​​em quadrinhos na época. Quadrinhos são mais bem aceitos como meio artístico hoje, com certeza.”

Aluguéis crescentes

Página de Diário de Nova York, obra de Julie Doucet publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Meu Diário de Nova York apresenta os principais elementos que fizeram a fama de Doucet. São histórias extremamente pessoais, relatos íntimos, às vezes escatológicos, com personagens com feições caricatas em contraste com cenários um pouco mais realistas, além do já citado preto e branco. Preto e branco, aliás, que surgiu como uma imposição do alto custo de imprimir colorido, mas acabou caracterizando o trabalho.

“Nós só tínhamos a opção de trabalhar em preto e branco”, diz ela. “Mas com a prática, posso dizer que toda a alma do meu trabalho está no preto e branco, sou irresistivelmente atraída por esse contraste da ausência de cores. Eu gosto de sua franqueza, sua dureza… E dos desafios estéticos decorrentes dele”.

Sobre a trama, entre uma e outra crise epiléptica e briga com o namorado, ela vai conseguindo trabalhos em publicações importantes na época, como Village Voice e New York Press. Em uma página ela retrata uma festinha com a presença de lendas como Art Spiegelman (autor de Maus) e Françoise Mouly (editora de arte da New Yorker), na época editores da lendária revista Raw, e é celebrada por contemporâneos como Charles Burns e Glenn Head.

Página de Diário de Nova York, obra de Julie Doucet publicada pela editora Veneta (Divulgação)

“Eu me sentia meio caída de paraquedas no meio desses artistas famosos de Nova York, chegava a ser intimidante”, conta Doucet sobre suas breves interações com colegas de profissão mais badalados durante o período retratado no livro. “Não fiquei lá tempo suficiente e morava muito longe, no Uptown [região de Nova York que vai do Harlem ao sul do Central Park], e não havia tantas oportunidades de encontrá-los (e o meu inglês naquele primeiro ano nos Estados Unidos não era dos melhores)”.

O álbum explicita esse isolamento de Doucet durante o período em Nova York. Ela diz só ter se sentido parte de um grupo quando se mudou para Seattle – outro pólo de quadrinhos dos Estados Unidos e na época residência de quadrinistas como Peter Bagge e Jim Woodring, amigos da autora. Também fica explícita a ausência de qualquer memória romântica da autora em sua época em Nova York – e ela crê que a cidade só piorou desde então.

“A cidade mudou muito… Mas o mesmo pode ser dito de tantas outras grandes cidades atualmente. Gentrificação, aluguéis crescentes, pessoas pobres e oprimidas cada vez mais longe dos centros, o mesmo valendo para os artistas… Deste ponto de vista a vida com certeza parecia mais fácil naquela época”, reflete ela.

O que ela guarda de melhor desse período retratado em Meu Diário de Nova York é o próprio trabalho dela: “Eu diria que naquela época eu estava no auge da minha arte, pelo menos em termos gráficos. Em termos narrativos, foi meu trabalho mais ambicioso. Olhando para trás, eu gostaria de ter investido em uma abordagem mais complexa, menos convencional, mas tudo bem”.

A capa de Diário de Nova York, obra de Julie Doucet publicada pela editora Veneta (Divulgação)
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Luiz Gê fala sobre HQs, música, Arrigo Barnabé e Fronteira Híbrida

Entrevistei o quadrinista Luiz Gê para escrever para o jornal Folha de S.Paulo sobre Fronteira Híbrida, coletânea recém-lançada pela editora MMarte com republicações e trabalhos inéditos de um dos nomes mais lendários das HQs nacionais. Conto no meu texto sobre o ponto de partida do livro, falo dos experimentos do autor misturando quadrinhos e música e comento um pouco da relação entre Gê e o músico Arrigo Barnabé. Você lê o meu texto clicando aqui.

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Nina Bunjevac fala sobre família, pertencimento, guerra e Terra-Pátria

Conversei com a quadrinista canadense Nina Bunjevac sobre Terra-Pátria, obra recém-lançada em português pela Zarabatana Books (com tradução de Claudio R. Martini). O álbum conta a história da família da autora e a juventude dela na antiga Iugoslávia. A HQ é centrada principalmente na vida do pai dela, membro de um grupo nacionalista sérvio, e da avó materna, sobrevivente da Segunda Guerra Mundial e apoiadora do então presidente iugoslavo Josip Broz Tito (1892-1980). Bunjevac falou comigo sobre família, memória, pertencimento e guerra. Transformei essa entrevista com a artista em matéria para a Folha de S.Paulo e você lê o meu texto clicando aqui.

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Dash Shaw fala sobre Cosplayers: “Amo a teatralidade e o aspecto artesanal dos cosplayers”

O quadrinista Dash Shaw tinha o hábito de criar programações de convenções fictícias de cultura pop quando era criança. Frequentador assíduo de eventos de quadrinhos e anime desde seus 12 anos, primeiro como fã e depois como autor, ele diz ter vivenciado uma ampla gama de experiências nesses festivais, das mais incríveis às mais horríveis, passando por tudo que existe entre esses dois extremos. Recém-lançado pela editora Conrad, com tradução de Dandara Palankof, o álbum Cosplayers – Fantasiando a Vida foi criado com a intenção de retratar todas essas sensações conflitantes.

“Eu posso oscilar loucamente em uma convenção, de pensar ‘eu amo todas essas coisas’ para ‘é tudo lixo’ para, na maioria das vezes, uma série de sentimentos contraditórios no meio desses extremos”, diz o artista em entrevista ao Vitralizado. “Eu queria que Cosplayers representasse isso e adotasse um tom positivo, mas realista”.

Shaw é conhecido no Brasil por seu trabalho em Umbigo Sem Fundo, lançado por aqui em 2009, como um dos primeiros títulos do selo Quadrinhos na Cia, da editora Companhia de Letras. Suas 720 páginas retratam sete parentes encarando o anúncio do fim do casamento de 40 anos do casal que deu origem à família. É uma mescla de diário coletivo com manual de instruções de um grupo disfuncional com toda vibe intimista e experimental de gibi indie norte-americano do início do século.

Cosplayers segue essa mesma vibe intimista e experimental de gibi indie norte-americano do começo do século, mas pouco lembra Umbigo em termos de forma e conteúdo. Na avaliação do autor, em meio aos seus vários trabalhos, seja como quadrinista ou animador, o grande paralelo entre suas duas únicas HQs lançadas no Brasil está no fato de serem seus dois títulos “mais focados em personagens”.

Quadros de Cosplayers, obra de Dash Shaw publicada no Brasil pela editora Conrad (Divulgação)

O segundo trabalho de Shaw publicado em português narra a jornada de uma cosplayer e sua fiel assistente, fotógrafa e editora de vídeo por convenções de cultura pop nos Estados Unidos. Originalmente publicada em edições avulsas, a série foi reunida em um único volume pela editora Fantagraphics em 2016. A edição da Conrad ainda conta com a HQ Meu Colégio Inteiro Afundado no Meio do Mar – obra que inspirou a animação homônima de 2016 dublada por Jason Schwartzman, Maya Rudolph, Susan Sarandon e Lena Dunham.

Cosplayers é focado no empenho das amigas Annie e Verti para emplacar seus nomes no mundo dos cosplayers. Elas sofrem com a falta de público em seu canal no YouTube, decepcionam-se com projetos malsucedidos envolvendo seus talentos e reclamam de seus colegas de profissão. A dinâmica entre as duas, suas opiniões e seus julgamentos me lembram algo da dupla Enid e Rebecca, do clássico Ghost World, de Daniel Clowes.

“Não era a minha intenção no começo, mas assim que a primeira edição saiu, o editor da Fantagraphics chamou minha atenção para isso”, me responde Shaw quando pergunto das semelhanças entre suas protagonistas e as personagens de Clowes. “Provavelmente porque sou do contra, pensei que seria interessante tentar me aproximar disso em vez de me afastar, então a segunda edição tem um personagem muito característico do Clowes, o estudioso de mangá. Seja como for, eu amo o Clowes. Ele é o melhor.”

Página de Cosplayers, obra de Dash Shaw publicada no Brasil pela editora Conrad (Divulgação)

Diálogos ocasionais à parte, Cosplayers tem vida própria e reflete as paixões de Shaw pelo universo de fãs que se fantasiam como seus personagens preferidos. Ele me disse:

“Eu amo a teatralidade e seu aspecto artesanal. Eu amo que seja uma fusão da fantasia com a realidade. Desenhar cosplayers é interessante porque os personagens se originam em desenhos, mas eles foram filtrados pela realidade, e agora estou filtrando-os de volta para a fantasia. Foram adicionados elementos que não estavam lá antes: o Gambit usa óculos agora, o Batman tem bigode, o traje é um pouco instável ou ‘folgado’, ou personagens mudaram de gênero ou raça. Renderizar essas diferenças ou idiossincrasias foi mais poderoso para mim do que desenhá-las para se parecerem com o personagem que as inspirou.”

Cosplayers também evidencia a influência cada vez maior das experiências de Shaw como animador – assim como seus filmes têm jeito de HQ animada. Ele atribui esse diálogo ao seu interesse antigo por “animações limitadas”, exemplificadas por ele com dois clássicos, a primeira temporada de Astro Boy e o curta O Natal do Charlie Brown.

“Gosto de ambos por suas próprias linguagens cinematográficas particulares surgidas dos quadrinhos”, me fala o autor sobre as duas animações citadas por ele. “Você pode ver, por exemplo, naquela primeira temporada de Astro Boy como [Osamu] Tezuka criou um modo cinematográfico específico a partir de suas habilidades como quadrinista. É diferente da animação ‘comprimir e esticar’, é uma coisa própria. Eu vi isso conectado ao cinema independente, o ethos de ‘menos é mais’”.

Hoje aos 38 anos, Shawn diz guardar boas memórias de sua visita ao Brasil, há quase 13 anos, para o lançamento de Umbigo Sem Fundo. Ele conta que a ida ao Rio de Janeiro para participar da Bienal do Livro de 2009 serviu de inspiração para uma sequência de seu próximo trabalho.

Ele lembra: “Fui à Bienal do Livro do Rio de Janeiro quando Umbigo saiu e adorei. Também visitei São Paulo. Eu tinha vinte e poucos anos e foi perfeito. Visitei o Fábio Moon e o Gabriel Bá. Acho que o Rafael Grampá também estava por lá. Tenho boas lembranças dessa viagem e de ver a arquitetura no Rio de Janeiro. Em um livro em que estou trabalhando atualmente, um personagem vai ao Rio de Janeiro, inspirado nessa viagem”.

Página de Cosplayers, obra de Dash Shaw publicada no Brasil pela editora Conrad (Divulgação)
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Simon Hanselmann fala sobre Zona de Crise: “A HQ foi criada para entreter pessoas com senso de humor e enfurecer e confundir todos os babacas ultrapolitizados”

O quadrinista Simon Hanselman diz que odeia soar cuzão, mas parece ser mais forte do que ele. A estimativa é que 1,8 milhão de pessoas morreram de COVID-19 em 2020, mas o autor australiano tem certeza de que o ano passado foi o melhor da vida dele. Ele trabalhou sem parar, vendeu mais livros do que nunca e não foi distraído por visitas inesperadas.

“2020 foi incrível pra caralho”, comemora Hanselman em conversa com o Vitralizado. “As pessoas estavam trancadas em casa e acabaram ficando sem ter o que ver na Netflix, se viram forçadas a comprar livros!”

A rotina dele durante o primeiro ano da pandemia consistia em trabalhar sem parar até terminar sua página diária, geralmente indo até meia-noite. Vez ou outra ele acabava mais cedo e ficava grelhando carne na companhia da esposa ou deitado no pufe jogando vídeo game.

“Eu me divertia também dando um scroll apocalíptico no Twitter, observando todo mundo simplesmente endoidecendo, e me sentindo vastamente superior a todos”, conta o autor de Zona de Crise, com lançamento previsto para janeiro de 2022, pela editora Veneta, com tradução do quadrinista Diego Gerlach.

Hanselman às vezes se confunde com seus personagens. Ele tem um pouco da alienação, do niilismo, da arrogância e da estupidez de Megg, Mogg, Coruja e Lobisomem Jones. Criado pelo autor em 2012, o quarteto teve suas histórias inicialmente publicadas no Tumblr pessoal do autor. Hoje as HQs saem primeiro no Instagram dele e depois são impressas como zines independentes ou álbuns pela editora Fantagraphics.

Zona de Crise foi publicada no Instagram de Hanselmann entre 13 de março e 22 de dezembro de 2020, em atualizações quase diárias. A série rendeu ao autor um Eisner Award, premiação máxima da indústria norte-americana de quadrinhos, na categoria de melhor webcomic. Ele também foi indicado ao Harvey Awards na categoria Digital Book of the Year.

“É a minha comédia política alucinada, uma explosão de insanidade”, resume Hanselmann sobre seu trabalho em Zona de Crise. “Eu mal tive tempo de processar tudo. Geralmente penso em ternos de negócios: é meu trabalho mais ‘popular’ até hoje, minha narrativa mais longa, e o melhor webcomic de todos os tempos. Eu deixei no chinelo qualquer outro artista do planeta.”

“Eu deveria na real ter ganho o prêmio Nobel de literatura, mas acho que todo aquele sexo anal assustou eles. Ao menos ganhou um prêmio Eisner. Me sacanearam no prêmio Harvey.”

“Fiz com que todos me odiassem”

Página de Zona de Crise, HQ de Simon Hanselmann publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Zona de Crise é o trabalho mais surtado de Hanselmann. Ele capturou o espírito de uma época ao retratar as tensões decorrentes da pandemia do novo coronavírus enquanto as mortes causadas por COVID-19 estavam no pico, muito antes do início das campanhas de vacinação. A dinâmica tóxica entre seus personagens chegou ao ápice enquanto eles tentavam sobreviver à COVID-19.

O álbum de 296 páginas, quase todas compostas pelo mesmo design de 12 quadros, é centrado nas respostas de Megg, Mogg, Coruja e Lobisomem Jones à pandemia e o impacto da disseminação da doença em seu convívio. O livro impresso conta com conteúdo extra, painéis inéditos da versão do Instagram e textos complementares do próprio autor.

Megg encontra conforto para seus temores nas redes sociais, Mogg fica paranóico e dissemina teorias da conspiração, Lobisomem Jones vira astro pornô na internet e depois protagonista de série do Netflix e Coruja passa por uma transformação extrema ao deixar de ser o careta do grupo, principal alvo de bullying de seus colegas, para se tornar um grande líder.

Hanselmann segue focado na dinâmica interna dos quatro, nos excessos e na relação deles com o mundo ao redor. Eles continuam em sua busca incessante por sexo e drogas e maltratando uns aos outros. Apesar de alienados, eles agora precisam lidar com a realidade imposta pela pandemia.

Hanselmann já celebrou seu trabalho com Megg e sua turma pela ausência de “questões políticas”. Em entrevista publicada aqui no blog em 2020, quando Mau Caminho saiu no Brasil, ele disse que seus quadrinhos tratam de “pessoas egoístas que odeiam política e estão às voltas com seu próprio tumulto emocional”. O autor assume que não é o caso de Zona de Crise.

“Sim, Zona de Crise foi super política, foi propositalmente meu ‘quadrinho político’”, quando pergunto sobre o impacto da realidade na obra. “Mas pra mim chega disso, política é um negócio vergonhoso pra caralho. As pessoas que se deixam consumir por isso são chatas pra caralho. Eu vou voltar a escrever sobre junkies, depressão e piadas de piroca.”

O trabalho de Hanselmann foi inclusive facilitado pelos vários absurdos vivenciados pela humanidade desde 2020.

“O que não faltava eram coisas imbecis e loucas vindas de todos os lados. As pessoas realmente piraram ano passado…”, me diz o autor. “Eu meio que queria poder continuar Zona de Crise, para poder tirar onda com essas coisas, colocar elas em perspectiva, mas como eu disse, política é algo vergonhoso.”

“É patético e triste ver comediantes e artistas que um dia respeitei se deixarem consumir por política pura, abandonarem quase completamente a comédia em si. Todos eles parecem exaustos e deprimidos. Enquanto eu estou o mais feliz que já estive em toda minha vida.”

Zona de Crise começa com o início do lockdown da pandemia. Lobisomem Jones se muda com os dois filhos para a casa dividida por Megg, Mogg e Coruja. Um dos quatro pega COVID-19, outro busca pagar as contas com vídeos pornô na internet, eles constroem uma casa na árvore no quintal para abrigar amigos e acabam protagonistas de um reality show do Netflix chamado Anus King. 

Hanselmann nunca se distanciou tanto de sua fonte original de inspiração para os quadrinhos de Megg e Mogg. A dupla foi concebida como uma paródia despretensiosa da série de livros infantis britânicos protagonizados pela bruxinha Meg e seu gato Mog, da escritora Helen Nicoll e do ilustrador polonês Jan Pienkowski, publicados nos anos 1970 e populares no Reino Unido e na Austrália.

“Eu não fazia ideia de como seria, quando comecei Zona de Crise”, me conta o autor. “Eu imaginei que seria um troço de 30 páginas, mas o lance foi ficando cada vez mais louco. Foi basicamente no improviso. Ainda não tive tempo de ler o livro como uma ‘coisa’ grande desde que terminei ele, espero que não seja uma leitura de merda como livro!”

Hanselmann assume que muitos dos rumos da HQ foram ditados pelos comentários frenéticos de cada novo post no Instagram com os painéis inéditos de Zona de Crise. Tanto ao acatar sugestões de seus leitores quanto seguindo rumos opostos àqueles sugeridos por seus seguidores.

“A coisa mais engraçada dos comentários eram todos os babaquinhas políticos raivosos, malucos direitóides e os imbecis de extrema-esquerda, crianças ‘lacradoras’ e arrogantes. Eu fiz com que todos eles me odiassem. Zona de Crise foi criada para entreter pessoas com senso de humor e para enfurecer e confundir todos os babacas ultrapolitizados. Foi divertido.”

E diversão sempre foi o propósito maior do autor: “Minha esposa entrava no estúdio e me via rindo das minhas próprias piadas. Minha declaração de intento com ZC era divertir todo o povo apavorado e trancado em casa, mas principalmente para, de modo egoísta, me divertir, como sempre. Foi realmente divertido. Eu amo pra caralho fazer quadrinhos.”

“Não aguento mais quadrinho-poesia”

Página de Zona de Crise, HQ de Simon Hanselmann publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Apesar de sua paixão pela própria profissão, Hanselmann revela estar em busca de uma nova plataforma para compartilhar seus trabalhos. Após ver o Tumblr minguar com suas políticas de censura para conteúdo proibido para menores de 18 anos, ele se vê alvo de suspensões cada vez mais constantes no Instagram e teme perder sua conta.

“Seria um desastre para minhas finanças”, diz sobre a possibilidade de se ver excluído do Instagram. “Comecei a ter que censurar um monte de merda que posto lá. Não tenho planos de serializar trabalho inédito por lá de novo, atualmente procuro por plataformas alternativas. Instagram é pros covardes!”

Ele também não se vê muito confortável como parte da cena de quadrinhos autorais norte-americana. Nascido na Tasmânia em 1981, ele vive em Seattle há vários anos.

“A cena atual na América do Norte é predominantemente composta por maricas chorões. Gosto mais da cena na Europa, da cena do México, da cena britânica. Mas tem babacas chatos em tudo que é canto. Eu só meio que ignoro todo mundo hoje em dia, vivo na minha ilha deserta, não tenho vontade de estar conectado a nenhuma cena.”

“Espero que a cena norte-americana se torne um pouco mais divertida nos próximos anos, com menos ostentação política e resmungos, e mais diversão… Veremos… Tenho curtido o Nate Garcia, ele tem 19 anos e é muito engraçado, faz quadrinhos cretinos e divertidos. Mais coisas assim, por favor. Não aguento mais quadrinho-poesia e punhetas de vanguarda tediosas.” 

Página de Zona de Crise, HQ de Simon Hanselmann publicada pela editora Veneta (Divulgação)
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Chris Ware fala sobre empatia, tempo, música, quadrinhos e Rusty Brown

Entrevistei o quadrinista norte-americano Chris Ware sobre Rusty Brown, obra recém-lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras em tradução de Caetano Galindo. Transformei essa conversa em matéria para o caderno Ilustrada do jornal Folha de S.Paulo. Foquei esse meu novo papo com o autor nas percepções dele sobre quadrinhos como uma “arte da memória”. Ele também me falou sobre sua busca constante por empatia, refletiu sobre os paralelos vistos por ele entre HQs e música e contou sobre suas práticas atuais de carpintaria e escultura.

Leiam Rusty Brown, definitivamente um dos quadrinhos mais importantes publicados no Brasil em 2021. Leiam a minha matéria para a Folha de S.Paulo e também a entrevista que fiz com ele em 2013 para a revista Galileu.