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Simon Hanselmann fala sobre Zona de Crise: “A HQ foi criada para entreter pessoas com senso de humor e enfurecer e confundir todos os babacas ultrapolitizados”

O quadrinista Simon Hanselman diz que odeia soar cuzão, mas parece ser mais forte do que ele. A estimativa é que 1,8 milhão de pessoas morreram de COVID-19 em 2020, mas o autor australiano tem certeza de que o ano passado foi o melhor da vida dele. Ele trabalhou sem parar, vendeu mais livros do que nunca e não foi distraído por visitas inesperadas.

“2020 foi incrível pra caralho”, comemora Hanselman em conversa com o Vitralizado. “As pessoas estavam trancadas em casa e acabaram ficando sem ter o que ver na Netflix, se viram forçadas a comprar livros!”

A rotina dele durante o primeiro ano da pandemia consistia em trabalhar sem parar até terminar sua página diária, geralmente indo até meia-noite. Vez ou outra ele acabava mais cedo e ficava grelhando carne na companhia da esposa ou deitado no pufe jogando vídeo game.

“Eu me divertia também dando um scroll apocalíptico no Twitter, observando todo mundo simplesmente endoidecendo, e me sentindo vastamente superior a todos”, conta o autor de Zona de Crise, com lançamento previsto para janeiro de 2022, pela editora Veneta, com tradução do quadrinista Diego Gerlach.

Hanselman às vezes se confunde com seus personagens. Ele tem um pouco da alienação, do niilismo, da arrogância e da estupidez de Megg, Mogg, Coruja e Lobisomem Jones. Criado pelo autor em 2012, o quarteto teve suas histórias inicialmente publicadas no Tumblr pessoal do autor. Hoje as HQs saem primeiro no Instagram dele e depois são impressas como zines independentes ou álbuns pela editora Fantagraphics.

Zona de Crise foi publicada no Instagram de Hanselmann entre 13 de março e 22 de dezembro de 2020, em atualizações quase diárias. A série rendeu ao autor um Eisner Award, premiação máxima da indústria norte-americana de quadrinhos, na categoria de melhor webcomic. Ele também foi indicado ao Harvey Awards na categoria Digital Book of the Year.

“É a minha comédia política alucinada, uma explosão de insanidade”, resume Hanselmann sobre seu trabalho em Zona de Crise. “Eu mal tive tempo de processar tudo. Geralmente penso em ternos de negócios: é meu trabalho mais ‘popular’ até hoje, minha narrativa mais longa, e o melhor webcomic de todos os tempos. Eu deixei no chinelo qualquer outro artista do planeta.”

“Eu deveria na real ter ganho o prêmio Nobel de literatura, mas acho que todo aquele sexo anal assustou eles. Ao menos ganhou um prêmio Eisner. Me sacanearam no prêmio Harvey.”

“Fiz com que todos me odiassem”

Página de Zona de Crise, HQ de Simon Hanselmann publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Zona de Crise é o trabalho mais surtado de Hanselmann. Ele capturou o espírito de uma época ao retratar as tensões decorrentes da pandemia do novo coronavírus enquanto as mortes causadas por COVID-19 estavam no pico, muito antes do início das campanhas de vacinação. A dinâmica tóxica entre seus personagens chegou ao ápice enquanto eles tentavam sobreviver à COVID-19.

O álbum de 296 páginas, quase todas compostas pelo mesmo design de 12 quadros, é centrado nas respostas de Megg, Mogg, Coruja e Lobisomem Jones à pandemia e o impacto da disseminação da doença em seu convívio. O livro impresso conta com conteúdo extra, painéis inéditos da versão do Instagram e textos complementares do próprio autor.

Megg encontra conforto para seus temores nas redes sociais, Mogg fica paranóico e dissemina teorias da conspiração, Lobisomem Jones vira astro pornô na internet e depois protagonista de série do Netflix e Coruja passa por uma transformação extrema ao deixar de ser o careta do grupo, principal alvo de bullying de seus colegas, para se tornar um grande líder.

Hanselmann segue focado na dinâmica interna dos quatro, nos excessos e na relação deles com o mundo ao redor. Eles continuam em sua busca incessante por sexo e drogas e maltratando uns aos outros. Apesar de alienados, eles agora precisam lidar com a realidade imposta pela pandemia.

Hanselmann já celebrou seu trabalho com Megg e sua turma pela ausência de “questões políticas”. Em entrevista publicada aqui no blog em 2020, quando Mau Caminho saiu no Brasil, ele disse que seus quadrinhos tratam de “pessoas egoístas que odeiam política e estão às voltas com seu próprio tumulto emocional”. O autor assume que não é o caso de Zona de Crise.

“Sim, Zona de Crise foi super política, foi propositalmente meu ‘quadrinho político’”, quando pergunto sobre o impacto da realidade na obra. “Mas pra mim chega disso, política é um negócio vergonhoso pra caralho. As pessoas que se deixam consumir por isso são chatas pra caralho. Eu vou voltar a escrever sobre junkies, depressão e piadas de piroca.”

O trabalho de Hanselmann foi inclusive facilitado pelos vários absurdos vivenciados pela humanidade desde 2020.

“O que não faltava eram coisas imbecis e loucas vindas de todos os lados. As pessoas realmente piraram ano passado…”, me diz o autor. “Eu meio que queria poder continuar Zona de Crise, para poder tirar onda com essas coisas, colocar elas em perspectiva, mas como eu disse, política é algo vergonhoso.”

“É patético e triste ver comediantes e artistas que um dia respeitei se deixarem consumir por política pura, abandonarem quase completamente a comédia em si. Todos eles parecem exaustos e deprimidos. Enquanto eu estou o mais feliz que já estive em toda minha vida.”

Zona de Crise começa com o início do lockdown da pandemia. Lobisomem Jones se muda com os dois filhos para a casa dividida por Megg, Mogg e Coruja. Um dos quatro pega COVID-19, outro busca pagar as contas com vídeos pornô na internet, eles constroem uma casa na árvore no quintal para abrigar amigos e acabam protagonistas de um reality show do Netflix chamado Anus King. 

Hanselmann nunca se distanciou tanto de sua fonte original de inspiração para os quadrinhos de Megg e Mogg. A dupla foi concebida como uma paródia despretensiosa da série de livros infantis britânicos protagonizados pela bruxinha Meg e seu gato Mog, da escritora Helen Nicoll e do ilustrador polonês Jan Pienkowski, publicados nos anos 1970 e populares no Reino Unido e na Austrália.

“Eu não fazia ideia de como seria, quando comecei Zona de Crise”, me conta o autor. “Eu imaginei que seria um troço de 30 páginas, mas o lance foi ficando cada vez mais louco. Foi basicamente no improviso. Ainda não tive tempo de ler o livro como uma ‘coisa’ grande desde que terminei ele, espero que não seja uma leitura de merda como livro!”

Hanselmann assume que muitos dos rumos da HQ foram ditados pelos comentários frenéticos de cada novo post no Instagram com os painéis inéditos de Zona de Crise. Tanto ao acatar sugestões de seus leitores quanto seguindo rumos opostos àqueles sugeridos por seus seguidores.

“A coisa mais engraçada dos comentários eram todos os babaquinhas políticos raivosos, malucos direitóides e os imbecis de extrema-esquerda, crianças ‘lacradoras’ e arrogantes. Eu fiz com que todos eles me odiassem. Zona de Crise foi criada para entreter pessoas com senso de humor e para enfurecer e confundir todos os babacas ultrapolitizados. Foi divertido.”

E diversão sempre foi o propósito maior do autor: “Minha esposa entrava no estúdio e me via rindo das minhas próprias piadas. Minha declaração de intento com ZC era divertir todo o povo apavorado e trancado em casa, mas principalmente para, de modo egoísta, me divertir, como sempre. Foi realmente divertido. Eu amo pra caralho fazer quadrinhos.”

“Não aguento mais quadrinho-poesia”

Página de Zona de Crise, HQ de Simon Hanselmann publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Apesar de sua paixão pela própria profissão, Hanselmann revela estar em busca de uma nova plataforma para compartilhar seus trabalhos. Após ver o Tumblr minguar com suas políticas de censura para conteúdo proibido para menores de 18 anos, ele se vê alvo de suspensões cada vez mais constantes no Instagram e teme perder sua conta.

“Seria um desastre para minhas finanças”, diz sobre a possibilidade de se ver excluído do Instagram. “Comecei a ter que censurar um monte de merda que posto lá. Não tenho planos de serializar trabalho inédito por lá de novo, atualmente procuro por plataformas alternativas. Instagram é pros covardes!”

Ele também não se vê muito confortável como parte da cena de quadrinhos autorais norte-americana. Nascido na Tasmânia em 1981, ele vive em Seattle há vários anos.

“A cena atual na América do Norte é predominantemente composta por maricas chorões. Gosto mais da cena na Europa, da cena do México, da cena britânica. Mas tem babacas chatos em tudo que é canto. Eu só meio que ignoro todo mundo hoje em dia, vivo na minha ilha deserta, não tenho vontade de estar conectado a nenhuma cena.”

“Espero que a cena norte-americana se torne um pouco mais divertida nos próximos anos, com menos ostentação política e resmungos, e mais diversão… Veremos… Tenho curtido o Nate Garcia, ele tem 19 anos e é muito engraçado, faz quadrinhos cretinos e divertidos. Mais coisas assim, por favor. Não aguento mais quadrinho-poesia e punhetas de vanguarda tediosas.” 

Página de Zona de Crise, HQ de Simon Hanselmann publicada pela editora Veneta (Divulgação)
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Chris Ware fala sobre empatia, tempo, música, quadrinhos e Rusty Brown

Entrevistei o quadrinista norte-americano Chris Ware sobre Rusty Brown, obra recém-lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras em tradução de Caetano Galindo. Transformei essa conversa em matéria para o caderno Ilustrada do jornal Folha de S.Paulo. Foquei esse meu novo papo com o autor nas percepções dele sobre quadrinhos como uma “arte da memória”. Ele também me falou sobre sua busca constante por empatia, refletiu sobre os paralelos vistos por ele entre HQs e música e contou sobre suas práticas atuais de carpintaria e escultura.

Leiam Rusty Brown, definitivamente um dos quadrinhos mais importantes publicados no Brasil em 2021. Leiam a minha matéria para a Folha de S.Paulo e também a entrevista que fiz com ele em 2013 para a revista Galileu.

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Sarjeta (2019-2021)

Fui colunista convidado do site do Instituto Itaú Cultural durante dois anos, entre setembro de 2019 e setembro de 2021. O convite inicial era para um período de um ano escrevendo mensalmente sobre histórias em quadrinhos. Ampliamos para 18 meses e fechamos com dois anos.  Batizada de Sarjeta, a minha coluna apresentou reportagens, entrevistas e análises. Conversei com autores nacionais e estrangeiros e escrevi sobre HQs brasileiras e gringas. Reúno a seguir os links para as 24 edições da coluna:

*A vanguarda dos quadrinhos nacionais está fora do radar do grande público;
*Escória Comix e Pé-de-Cabra: respostas das HQs brasileiras a tempos sombrios;
*2020 é ano de FIQ e Bienal de Quadrinhos, os principais eventos do calendário nacional de HQs;
*Protesto de quadrinistas contra gigante digital marcou o 2019 das HQs nos EUA;
*Ninguém retratou o futebol em quadrinhos, em suas nuances sociais e estéticas, como Marcello Quintanilha em Luzes de Niterói;
*HQ documental narra a criação do game “Tetris” e os desdobramentos políticos de seu sucesso;
*Quadrinistas relatam prejuízos e queda de produção durante a pandemia;
*Clássico moderno das HQs japonesas, “Sunny” chega ao Brasil aclamada por artistas nacionais;
*Quadrinista preso na ditadura expõe traumas do Brasil militarizado: “Igual a pesadelo desperto”;
*Leituras em tempos de pandemia;
*HQ narra frenesi sexual zumbi em adaptação sem reverência à obra de H. P. Lovecraft;
*Adrian Tomine fala sobre os pequenos fracassos na vida de um quadrinista de sucesso;
*Jason Lutes fala sobre Berlim, épico sobre a ascensão e queda da República de Weimar;
*Fabio Zimbres, Rafael Sica e duas pequenas pérolas em formato de bolso;
*Adaptação de 1984 para HQ tem existência autônoma do livro de George Orwell;
*Carniça e a Blindagem Mística é brutal, crítica e lírica como as melhores HQs de Shiko;
*Tom Scioli fala sobre a biografia de Jack Kirby e o legado do Rei dos Quadrinhos;
*Érico Assis reflete sobre o presente, o passado e o futuro das HQs em seu primeiro livro;
*Isolamento: Helô D’Angelo apresenta microcosmo melancólico e bem-humorado do Brasil durante a pandemia;
*Sobre gibis bons e baratos e o terror de Amanda Miranda;
*Laerte sintetiza o melhor das HQs nacionais: subversão, experimentalismo e bom humor;
*Ed Brubaker fala sobre HQs policiais, mágoas com a Marvel e boas histórias;
*Por que faço jornalismo sobre histórias em quadrinhos?;
*Sobre tempo e espaço, uma despedida e um convite.

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Sarjeta #24: Tempo, espaço e Aqui

Está no ar a 24ª e última edição da Sarjeta, coluna mensal sobre histórias em quadrinhos que mantive ao longo dos últimos dois anos no site do Instituto Itaú Cultural. No meu texto de despedida, escrevi sobre dois dos meus autores preferidos e duas das HQs mais embasbacantes que já li. Falo sobre espaço, tempo, Richard McGuire, Chris Ware, Building Stories e Aqui. Volto a agradecer às pessoas que me leem e à equipe do site do Itaú Cultural pela confiança. Sigo fazendo jornalismo sobre histórias em quadrinhos aqui no blog.

Você lê a 24ª Sarjeta clicando no link a seguir: Sarjeta #24: Sobre tempo e espaço, uma despedida e um convite.

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Sarjeta #23: jornalismo em quadrinhos e jornalismo sobre quadrinhos

Está no ar a 23ª edição da Sarjeta, minha coluna mensal sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. A partir da minha entrevista com o jornalista e quadrinista Joe Sacco, autor de Palestina (Veneta), me propus a responder à pergunta: por que faço jornalismo sobre história em quadrinhos? Na entrevista que fecha a coluna de agosto, uma conversa com Gustavo Nascimento, autore de Cleo.

Você lê a 23ª Sarjeta clicando no link a seguir: Sarjeta #23: Por que faço jornalismo sobre histórias em quadrinhos?.

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Marcello Quintanilha fala sobre Escuta, Formosa Márcia, teatro do absurdo, Fiódor Dostoiévski e Hugo Pratt

Entrevistei o quadrinista Marcello Quintanilha sobre Escuta, Formosa Márcia (Veneta), trabalho mais recente do autor de obras como Tungstênio, Talco de Vidro e Luzes de Niterói. Transformei essa conversa em matéria para o jornal Folha de S.Paulo, focada principalmente nas distinções entre esse título mais recente do artista e algumas de suas obras prévias. Entre outros temas, Quintanilha me contou sobre a influência de Samuel Beckett e seu teatro do absurdo, além do impacto de leituras de Fiódor Dostoiévski e Hugo Pratt nesse seu novo álbum. Você lê o meu texto clicando aqui.

Página de Escuta, Formosa Márcia, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta (Divulgação)