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Entrevistas / HQ

O MAU está de volta! Rogério de Campos fala sobre a retomada da publicação após 29 anos, em edição com Robert Crumb, Gilbert Shelton, Simon Hanselmann e Martin Rowson

O MAU está de volta. O editor Rogério de Campos anunciou a retomada do encarte publicado ao longo das 22 edições da lendária revista Animal, encerrada em novembro de 1991. O 24º número será distribuído de graça, a partir de 10 de setembro, em lojas de quadrinhos e livrarias independentes, também podendo ser adquirido como brinde no site da editora Veneta, com a compra de qualquer livro do selo.

Participam da revista Robert Crumb, Gilbert Shelton, Simon Hanselmann, Martin Rowson, Aline Zouvi, Juscelino Neco, João Pinheiro, Rafa Campos Rocha, Carolina Ito, Allan Sieber, Cynthia B., Gustavo Piqueira e Batista. Autora do livro Uma História da Tatuagem no Brasil, a historiadora Silvana Jeha assina um texto sobre o artista plástico Bispo do Rosário, e Rosane Pavam, editora de texto da Animal, produziu um texto sobre Nereu Gargalo, membro do Trio Mocotó.

“Vamos retomar com o número 24 porque na verdade eu perdi a conta”, disse o editor e idealizador do projeto em meio a risos. “O número 23 existiu de maneiras diferentes na cabeça de tanta gente que aí a gente pula e vai para o 24”.

“A minha ideia inicial era fazer um zine. O que acabou acontecendo é que eu falei com umas pessoas e todo mundo disse que queria participar. O Crumb falou: ‘pode pegar o que você quiser’. Aí o Gilbert Shelton mandou uma história nova do gato dos Freak Brothers, o Fat Freddy. Aí o Martin Rowson fez uma especial, linda. Aí ficou melhor que o meu plano original. E ainda tem Allan Sieber, Carol Ito, Aline Zouvi…. Mas não teve muito planejamento, não”. 

E por que retomar o MAU e não a Animal? “A Animal tinha uma certa ambição. Era papel couchê, cor e tudo…. E também porque todo mundo fica me pedindo para ressuscitar a Animal e não vou dar essa satisfação para ninguém. Vai parecer que eu fico atendendo as vontades dos leitores e isso não é uma coisa que me agrada”.

O projeto acabou ganhando fôlego à medida que os artistas convidados pelo editor começaram a enviar seus trabalhos – o que também resultou no corte de algumas histórias maiores que podem ficar para uma possível 25ª edição. Ele disse que apesar de não ter estabelecido nenhum recorte editorial, esse novo MAU reúne histórias principalmente de humor, respostas naturais a tempos reacionários.

“Qualquer sinal de vida é subversivo, né? Esses caras, essa extrema-direita, é anti-humana, né? Então qualquer sinal de vida, de alegria, de risada, de qualquer coisa, é subversão. Dança, riso, samba, rebolado, tudo isso deixa essa gente nervosa”. 

Leia a seguir a íntegra da minha entrevista com Rogério de Campos:

“Agora que acabou o mundo, não tem jeito, vamos fazer

O que você pode me contar sobre esse 24º MAU?

Cara, eu não sei porque eu tô fazendo (risos). A gente fica o tempo todo falando que precisa fazer uma revista, ‘como era bom fazer revista’, e eu fico falando, ‘mas o momento não é mais para isso, agora é mais difícil, não tem jeito’. Mas agora que acabou o mundo, não tem jeito, vamos fazer. Não ia vender mesmo na banca, né? Então vamos fazer desse jeito aí. 

Vai ser uma revista?

A minha ideia inicial era fazer um zine. O que acabou acontecendo é que falei com umas pessoas e todo mundo disse que queria participar. O Crumb falou: ‘pode pegar o que você quiser’. Aí o Gilbert Shelton mandou uma história nova do gato dos Freak Brothers, o Fat Freddy. Aí o Martin Rowson fez uma história especial, linda. Aí ficou melhor do que o meu plano original. E ainda tem o Allan Sieber, a Carol Ito, a Aline Zouvi,… Ficou bom, mas não teve muito planejamento, não. 

E quando sai? Já está pronta?

Tá pronta, já tá na gráfica. Não sei exatamente o que eu vou fazer. A minha ideia é cobrar o frete, a embalagem, o manuseio e pronto, a publicação seria de graça. A ideia é mandar para os pontos de venda, agitar as pequenas livrarias. Então vai ser de graça no site da editora, as pessoas pagam o transporte, a logística e tal, e as gibiterias recebem e resolvem o que fazer com isso (risos).

Vai ser só quadrinho? Tem texto também?

Tem texto, sim. Tem a Silvana Jeha, autora do Uma História da Tatuagem no Brasil. Ela escreveu sobre o Bispo do Rosário. E a Rosane Pavam, que era a editora de texto da Animal, escreveu um texto sobre o Nereu, do Trio Mocotó, que acompanhava o Jorge Ben, um herói nosso.

“Saudade tem limite

Mas por que o MAU e não a Animal?

Porque saudade também tem limite (risos). E vamos com o número 24 porque na verdade eu perdi a conta. Aí comecei com o número 24. Mas o número 23 existiu de maneiras diferentes na cabeça de tanta gente que aí a gente pula isso e vai para o 24. 

A coleção original terminou na 22?

Eu acho que sim, mas não tenho muita certeza (risos).

Então, de graça, nas lojas independentes e no site de vocês, certo?

É, vai ser nas livrarias independentes, nas livrarias pequenas… Ainda tô vendo como fazer com esse negócio do frete. A ideia é ser de graça com as pessoas pagando os custos da logística. Como se fazia fanzine na época, né? O cara pagava o selo.

“Um monte de gente fica me pedindo para ressuscitar a Animal e não vou dar essa satisfação para ninguém

Só voltando, acho que você não respondeu, por que não a Animal?

Para falar a verdade, a Animal tinha uma certa ambição. Era papel couchê, cor e tudo…. E também porque todo mundo fica me pedindo para fazer a Animal, um monte de gente fica me pedindo para ressuscitar a Animal e não vou dar essa satisfação para ninguém. Vai parecer que eu fico atendendo as vontades dos leitores e isso não é uma coisa que me agradar (risos).

E como foi o convite para os artistas? Você ligou para o Crumb, explicou o projeto, perguntou se ele tinha algum trabalho…

Não, no caso do Crumb ele falou que liberou o que eu quisesse usar da obra dele. No caso do Gilbert Shelton ele falou que estava preparando um negócio e ia me mandar. Já o Martin Rowson, ele perguntou ‘como você quer e tal?’, aí eu falei que era para ele fazer o que quisesse, ele disse que foi o melhor briefing que já teve. 

Como você selecionou os autores nacionais?

Fui chamando as pessoas que estavam mais próximas mesmo. Ficou bastante o povo da Veneta, teve gente que não entrou porque na hora de fechar precisamos derrubar algumas coisas. Ficaram coisas lindas para a próxima, se ela existir. Então foram os autores que estavam próximos: João Pinheiro, Juscelino Neco, Carol Ito… Pessoas que estavam próximas, como acontece em um fanzine.

“Não tem filtro nenhum

Você passou algum tema ou recorte? Você estabelece alguma linha editorial?

Na verdade eu gastei mais tempo explicando para o povo que não tinha nenhuma linha editorial e não tinha filtro nenhum. A Cynthia B e o Batista queriam fazer uma história grandona e tal, aí não cabia aquilo tudo e eles ficaram com cinco páginas, mas ficou muito bom. 

Você falou de “próxima”. Já tem uma próxima edição em mente?

Vai depender desse número. Na verdade a Animal nunca foi mensal, ela saía de vez em quando (risos). 

Por que fazer isso agora?

Porque me deu na veneta (risos).

“Qualquer sinal de vida é subversivo

Com a edição já fechada, você já consegue fazer um balanço dessa revista? O que ela representa para você?

Tem um negócio que eu sinto um pouco de falta, e que a internet até supre um pouco: o humor nos quadrinhos. Acho que o MAU tem esse negócio de humor. Você vê muita produção melancólica… O formato leva um pouco a isso: o quadrinho underground é um quadrinho de humor, principalmente de humor. E com o formato livrão as coisas ficaram um pouco mais sérias, né? Então foi uma diversão. 

É, quando eu conversei com o Simon Hanselmann recentemente…

Ele também está na revista!

Ele me falou sobre o papel do humor como subversão. 

Ah, cara, qualquer sinal de vida é subversivo, né? Esses caras, essa extrema-direita é anti-humana, né? Então qualquer de vida, de alegria, de risada, de qualquer coisa, é subversão. Dança, riso, samba, rebolado, tudo isso deixa essa gente nervosa. 

Post atualizado com a capa do MAU #24:

Entrevistas / HQ

Papo com Juscelino Neco, autor de Reanimator: “Tentei estabelecer uma trama que vai escalonando a bizarrice a níveis cada vez mais absurdos”

Escrevi na 11ª edição da Sarjeta, minha coluna sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural, sobre Reanimator, obra do quadrinista Juscelino Neco livremente inspirada tanto no conto Herbert West-Reanimator, de H.P. Lovecraft (1890-1937), quanto no longa Re-Animator: A Hora dos Mortos-Vivos (1985), do diretor Stuart Gordon.

Neco é um dos meus quadrinistas preferidos. Autor da surtada Parafusos, Zumbis e Monstros do Espaço (2013), da intensa Matadouro de Unicórnios (2016) e da tensa Cadeado (2017), ele tem em Reanimator seu trabalho mais bruto e brusco.

Recomendo a leitura da Sarjeta, feita a partir de uma entrevista com Juscelino Neco, para você saber um pouco mais sobre os bastidores e o desenvolvimento de Reanimator. Também recomendo que você não deixe passar a HQ. Depois, volte aqui e leia a íntegra da minha entrevista com o quadrinista. Papo bom, saca só:

“Acredito que consegui levar a coisa toda para um novo nível de infâmia”

Quadro de Reanimator, obra de Juscelino Neco publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Queria começar sabendo como você está. Como andam as coisas por aí? Como a pandemia afetou a sua rotina? 

No geral, está tudo bem. Na normalidade que o apocalipse permite. Como sou professor, boa parte das minhas atividades estão paralisadas. Tem um lado bom, já que estou conseguindo colocar a leitura em dia. Mas sinto falta da rotina e, nunca pensei que diria isso, dos alunos também. Fora isso, não perdi nenhum amigo ou familiar. Nesses dias que correm, isso é um grande luxo.

Você pode contar um pouco, por favor, sobre a sua relação com Lovecraft? Você lembra da primeira vez que assistiu ao filme Re-Animator? Quando você viu o filme, já sabia quem era Lovecraft?

Como eu sempre gosto de lembrar, os anos 90 eram tempos selvagens. Passava filmes como Fome Animal e O Último Americano Virgem no meio da tarde. Foi numa dessas que assisti o Re-Animator. Devia ter coisa de 8, 9 anos. Não tinha a menor ideia de quem era o Lovecraft, embora já conhecesse outros filmes com elementos das suas obras: Enigma do Outro Mundo, Uma Noite Alucinante… Bons tempos!

“Quem não leu o conto Herbert West – Re-Animator não perdeu porra nenhuma”

Quadro de Reanimator, obra de Juscelino Neco publicada pela editora Veneta (Divulgação)

E qual foi o impacto tanto do filme quanto do conto na sua formação?

O filme teve um grande impacto, o conto eu li já adulto e não achei grandes coisas. Adoro a mistura de terror e humor que esse filme tem. Os efeitos são ótimos! A violência é maravilhosa. Até a continuação, A Noiva do Re-Animator, dirigido pelo Brian Yuzna, é sensacional. Tem muito a cara do terror dos anos 80, aquele mistura de transgressão, criatividade, baixo-orçamento e picaretagem. Fome Animal e Evil Dead, que tem uma pegada similar, também tiveram muito impacto sobre minha formação.

Já li que o Lovecraft criou Reanimator a partir do Frankenstein, da Mary Shelley. Eu nunca li o livro do Lovecraft, mas Frankenstein é um dos livros de terror mais impactantes que já li. O que mais te interessa em obras de terror? O que você considera mais fundamental para uma boa história de terror?

Quem não leu o conto Herbert West – Re-Animator não perdeu nada, nem porra nenhuma. É uma história bem boba e mal escrita, até pros padrões do Lovecraft. Claramente é inspirado no Frankenstein e até os personagens, aqueles médicos idealistas que querem vencer a morte, se parecem. Mas a história da Mary Shelley é bem mais sofisticada, tem aquela coisa de vingança, de embate, aquelas paixões e ódios intenso, uma coisa maravilhosa. O conto do Lovecraft é um pastiche safado, coisa de começo de carreira. Até o Lovecraft achar seu ‘estilo’, vamos chamar assim na falta de uma palavra melhor, ele fazia muito pastiche de outros escritores, principalmente Edgar Allan Poe. Agora, finalmente, respondendo a sua pergunta, muitas coisas me interessam numa história de terror, a depender da mídia. Tenho muita dificuldade em me engajar em literatura de terror. Gosto de pouquíssima coisa, mas gosto de tudo que li Clive Barker. É muito interessante quando o escritor consegue tratar de uma temática sobrenatural com um estilo limpo e direto. No cinema, me interesso por muitos aspectos, principalmente a atmosfera do filme, essa impressão de estranheza que filmes como Hereditário conseguem passar. Mas sou capaz de assistir um filme de terror só pra ver os efeitos de maquiagem e a criatividade com que as pessoas são assassinadas. Assisto Sexta-Feira 13 apenas pra isso. E o que eu considero essencial para que uma história de terror funcione é a capacidade do autor em criar um conceito novo que trabalhe os medos da mente humana. O medo é uma emoção processada pela parte mais primitiva do nosso cérebro e compartilhada pelo humano de todos os tempos. É universal. Se considerarmos os primeiros rituais fúnebres, dá pra perceber que temos medo dos mortos desde sempre. Por isso que histórias de vampiros e mortos-vivos têm tanto apelo e sempre se renovam. 

“Todos os meus quadrinhos trabalham com essa mistura que os estadunidenses chamam de horror-comedy. Em bom português, terrir”

Página de Reanimator, obra de Juscelino Neco publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Você vê alguma desafio particular para terror funcionar como HQ?

Existe um desafio fundamental em fazer um quadrinho de terror porque boa parte do poder de sugestão da literatura é eliminado. Cada pessoa imagina o Drácula, por exemplo, de uma forma especifica. As cenas de horror que o Lovecraft descreve são sempre melhores na imaginação do leitor do que em qualquer imagem, por mais talentoso que seja o desenhista. Da mesma forma, os quadrinhos carecem dos processos de imersão e realismo que o dispositivo do cinema consegue proporcionar. Você vê um filme de terror e logo percebe que a música tem um papel central. O diretor consegue manipular as emoções da audiência com um jump scare, as cenas de violência conseguem chocar de forma convincente, a atuação funciona como um índice de reconhecimento para que espectador se engaje. Enfim, nada disso funciona nos quadrinhos. Considero que o terror nos quadrinhos são um processo muito mais cerebral, que causa um desconforto quando o leitor reflete acerca da natureza do que está sendo narrado.

Qual foi o ponto de partida desse quadrinho novo? Por que adaptar Reanimator? Aliás, você vê esse quadrinho mais como uma adaptação do livro do Lovecraft ou do filme do Stuart Gordon?

O filme do Gordon sempre foi uma grande influência no meu trabalho, já que mistura elementos de terror e humor. Todos os meus quadrinhos trabalham com essa mistura que os estadunidenses chamam de horror-comedy. Em bom português, terrir. Sendo bem sincero eu acho esse conto do Lovecraft uma merda. Foi publicado originalmente em 1922, então é uma história de quase 100 anos que envelheceu tão bem quando um viciado em heroína. É interessante porque é uma das primeiras histórias de zumbis. Fora isso, não vejo muito valor… Há quem diga que esse conto tem um certo tom de paródia. Não consigo enxergar isso. Não consigo enxergar Lovecraft fazendo qualquer coisa que tenha o menor traço de humor ou jocosidade. Ele tinha uma grande imaginação, mas não acredito que tenha contado uma piada em toda a sua vida…Quanto à adaptação, acho que ela se aproxima mais do filme, já que tem muito sexo e violência. Mas acredito que consegui levar a coisa toda para um novo nível de infâmia.

Lovecraft virou uma bolha gigante

Quadro de Reanimator, obra de Juscelino Neco publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Eu tenho a impressão de uma comoção recente em torno da obra do Lovecraft. Você também nota isso? Você vê algum motivo em particular para esse interesse crescente em torno do trabalho dele?

Certamente. Lovecraft virou uma bolha gigante. Vejo edições luxuosas do trabalho dele, adaptações para quadrinhos, cinema. Acho que boa parte desse sucesso se deve ao fato de que as obras do Lovecraft caíram em domínio publico, então todo mundo quer tirar uma lasquinha. Outro aspecto é o Lovecraft criou uma metanarrativa que funciona bem. É quase que como o Tolkien, tudo é amarradinho, aquela coisa dos grandes antigos, terror cósmico, mitos do Cthulhu. A impressão que eu tenho é que o jovem artista lê aquilo e quer fazer uma coisa dentro daquele universo. É quase como criar uma aventura de RPG dentro de um sistema. Como eu gosto de falar mal dos colegas não perco a oportunidade: os resultados são sofríveis.

Você tem alguma adaptação ou reinterpretação preferida para o trabalho do Lovrecraft?


Sim, um filme do John Carpenter chamado À Beira da Loucura (In The Mouth of Madness, 1994). É a história de um escritor que vai parar numa cidadezinha onde tem de tudo de ruim e Lovecraftiano. Não é a adaptação de nenhuma história, mas tem muitos elementos das narrativas daquela racista safado. 

Acho que um mérito desse seu Reanimator é funcionar sozinho e não depender da obra do Lovecraft para ser compreendido e divertir. Você teve alguma preocupação em particular para ser mais ou menos fiel ao filme e ao livro?

Nenhuma. Peguei só a premissa, que é mais simples que fazer um ‘o’ com uma quenga: um cientista inventa um soro que ressuscita os mortos e se mete em altas confusões. O resto eu inventei.

“Gosto de pensar que faço um tipo de quadrinhos muito simples, direto, sem firula”

Quadro de Reanimator, obra de Juscelino Neco publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Por que a opção pelo antropomorfismo na HQ? Acho que o caso mais famoso de antropomorfismo em quadrinhos é Maus e ali tá bem explícito como foi um artifício para ressaltar a relação entre oprimidos e opressores. No caso desse seu Re-Animator, fiquei pensando no aspecto animalesco e selvagem das ações dos personagens. Era essa a sua intenção?

Na verdade, não. Eu acho que desenhar quadrinhos é uma atividade muito entediante, então começo a inventar coisa pra me divertir um pouco. Meus quadrinhos também tem um elemento de autoreferencialidade muito presente. Gosto de pensar que faço um tipo de quadrinhos muito simples, direto, sem firula. Como os quadrinhos antigos. Então minha intenção foi buscar dentro da tradição dos quadrinhos um estilo que se adequasse ao tipo de história que eu queria contar. Achei que a desconstrução do gênero dos funny animals, perpetrado por autores como Robert Crumb e Mattioli, seria um bom caminho. Além disso, acho que esse quadrinhos tem as cenas mais grotescas que eu já desenhei. Se não fosse o antropomorfismo, essas imagens teriam outro sentido, se afastando muito do tom de humor negro que eu quis imprimir.

Falando em Maus, como você avalia essa opção do Art Spiegelman pelo antropomorfismo? Você já leu essa carta que o Harvey Pekar publicou em uma edição do Comics Journal questionado essa escolha? Ele diz ser uma metáfora “rasa e óbvia, sem sentido”.

Concordo com o Pekar: a história curta que antecede Maus funciona melhor num nível simbólico. Essa história é uma fábula, os animais encarnam tipos ao estilo do La Fontaine. Já o Maus que saiu em formato de livro se insere na tradição dos funny animals. Enquanto processo metafórico é realmente um pouco raso, mas acho que funciona muito bem como índice de reconhecimento dos personagens. Ele facilita o processo de leitura a partir da simplificação das formas e permite que a ação seja encenada de forma mais clara. Em sua essência, Maus é um quadrinhos clássico: simples, limpo, de fácil leitura. Se um dia você você estiver lendo um quadrinho e tiver a mínima dificuldade de entender a ação que está sendo encenada, jogue-o fora. Esse é um quadrinho bosta.

“Reanimator foi feito à moda antiga, com muito nanquim em papel Canson A3”

Quadros de Reanimator, obra de Juscelino Neco publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Fiquei com a impressão desse trabalho seu estar mais “sujo”, ter mais hachuras, ser mais preto e branco e ter menos espaço para cinzas do que o Matadouro e o Parafusos. Faz sentido?

Sim. Em Matadouro e Parafusos eu utilizei tons de cinza para estabelecer um pouco os volumes dos desenhos, nesse eu utilizei apenas hachuras. É bem decupado do estilo que o Crumb fazia em Fritz – The Cat.

Quais materiais você utilizou na produção desse trabalho novo? É tudo papel e tinta ou tem algum aspecto digital?

Recentemente migrei para o digital, mas Reanimator foi feito à moda antiga, com muito nanquim em papel Canson A3.

“A produção de Reanimator realmente foi meu Vietnã”

Quadro de Reanimator, obra de Juscelino Neco publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Você pode contar um pouco sobre a produção dessa HQ? Foi quanto tempo entre o início desse projeto e o lançamento? Você chegou a finalizar um roteiro antes de dar início às ilustrações?

O roteiro de Reanimator foi finalizado no final de 2016 e, descontando uma pequena alteração na sequência final, se manteve o mesmo até agora. Eu só consigo começar a desenhar depois que o roteiro está finalizado… A produção de Reanimator realmente foi meu Vietnã. Descartei umas duas versões iniciais e, durante todo o processo, muitas vezes tive certeza de que não ia conseguir terminar. Ou melhor, me sentia incapaz de terminar esse quadrinho. Foi um inferno. Ano passado pensei até em queimar tudo e deixar isso pra lá. Felizmente fui dissuadido dessa ideia pelos meus amiguinhos, os astros se alinharam e conseguir finalizar o quadrinho. Fico feliz por deixar o mundo mais estranho.

Houve alguma mudança em particular dos seus métodos de produção dos seus álbuns prévios para essa HQ nova?

Normalmente eu produzo meus quadrinhos num processo de guerrilha, reservo uns dois, três meses, e fico trabalhando 10 horas por dia. Desde que comecei a fazer o Reanimator minha atividades acadêmicas se intensificaram muito e eu não consigo mais tirar esse tempo de folga. Então tenho desenhando quando aparece um tempo. Férias, carnaval, essas coisas. Por isso demorou tanto. Eu não tenho disciplina pra trabalhar na HQ todo dia um pouquinho. Tenho que pensar como resolver isso, porque já estou com o roteiro da minha próxima história e não quero que demore quatro anos pra sair…

“Utilizei muita referência fotográfica da Nova York suja e perigosa do começo dos anos 80”

Quadro de Reanimator, obra de Juscelino Neco publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Acho esse Reanimator o seu trabalho mais bruto. Os personagens não tem muitas nuances, a história é bastante linear e é tudo voltado para expor absurdo e violência. Como foi a experiência de conceber e desenvolver esse livro? Que balanço você faz da criação dessa HQ?

Em Reanimator eu tentei revisitar o estilo e a estrutura de quadrinhos clássicos, onde os personagens não tem muita complexidade. Tudo é estruturado em função da trama e o ritmo é muito acelerado. Em termos de narrativa, eu tentei estabelecer uma trama que vai escalonando a bizarrice a níveis cada vez mais absurdos. Não posso negar que me diverti bastante desenhando as cenas, apesar dos percalços da produção. Em termos de narrativa visual, acho que é meu melhor trabalho. Utilizei muita referência fotográfica da Nova York suja e perigosa do começo dos anos 80 e fiquei bem feliz com o resultado. É quase como se o quadrinho se passasse no universo dos filmes que eu curtia quando criança, como The Warriors e O Assassino da Furadeira.

Você recentemente publicou um quadrinho com uma mensagem esperançosa em relação ao nosso futuro, apesar de todos os pesares que estamos vivendo. Você se considera uma pessoa otimista? 

Eu sou uma pessoa que acredita que o universo é um lugar completamente sem sentido e todas as coisas da vida são sem importância. Mas, como vou ser pai daqui uns meses, tento não nutrir esses pensamentos.

“Ultimamente tenho desenhado num iPad, o que tem deixado minha vida mais fácil”

Quadro de Reanimator, obra de Juscelino Neco publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Você pode me falar como é seu ambiente de trabalho? Você poderia descrever o local no qual Reanimator foi criado?

Eu não tenho estúdio. Meu apartamento inteiro é um amontoado de livros e gibis. Tenho uma mesinha que uso pra tocar meu trabalho de professor e, quando vou desenhar, coloco as pilhas de livros e papeis no chão, limpo a mesa e coloco uma pranchetinha portátil. Ultimamente tenho desenhado num iPad, o que tem deixado minha vida mais fácil e permitido que eu desenhe no sofá. Espero conseguir acelerar o processo de produção dos quadrinhos com esse novo gadget. 

Você poderia recomendar algo que esteja lendo, ouvindo ou assistindo no momento?

Do que li recentemente, recomendo O Mestre e a Margarida, do Mikahail Bulgákov. Uma das histórias mais inventivas, interessantes e absurdas que vi na vida. Colocar o diabo e sua trupe chegando na Moscou dos anos 1930 é coisa de gênio.

A capa de Reanimator, HQ de Juscelino Neco publicada pela editora Veneta (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Simon Hanselmann, autor de Mau Caminho: “Tem tanta bosta medíocre e cheia de si por aí, Megg e Mogg são justamente o oposto disso”

Entrevistei o quadrinista australiano Simon Hanselmann, criador dos personagens Megg e Mogg e autor do álbum Mau Caminho, seu primeiro trabalho publicado publicado no Brasil. A edição nacional foi lançada pela editora Veneta, com tradução do quadrinista Diego Gerlach.

Escrevi sobre as origens dos trabalhos de Simon Hanselmann e apresentei as minhas impressões sobre Mau Caminho em crítica publicada no jornal O Globo. Chamo atenção no meu texto para a dinâmica interna dos personagens de Hanselmann, seus excessos e a indiferença deles em relação ao mundo.

Na minhas conversa com o autor ele falou sobre o desenvolvimento de Megg e Mogg e sobre a repercussão do trabalho dele, abordou a dinâmica de suas publicações no Instagram, contou sobre sua rotina de trabalho e lamentou sobre os rumos do mundo.

Repito: junto com Sabrina, de Nick Drnaso, Mau Caminho é um dos principais lançamentos de 2020. Deixo mais uma vez o link para a minha resenha da obra e reproduzo a seguir a íntegra da minha conversa com Simon Hanselmann, em tradução de Diego Gerlach:

“Meu trabalho é (aparentemente) engraçado e não é condescendente com as pessoas”

Quadros de Mau Caminho, HQ de Simon Hanselmann publicada pela Veneta (Divulgação)

Queria começar sabendo como você está. São tempos muito estranhos, você mora nos Estados Unidos, que junto com o Brasil é o país mais afetado pela pandemia. Você está bem? Como isso tudo impactou a sua rotina? Como essa realidade que estamos vivendo está influenciando a sua produção?

Tenho meio que passado bem. Quadrinhos alternativos parecem ser um negócio à prova de COVID… Tenho trabalhado em casa nos últimos sete anos, então a pandemia não impactou de fato minha atividade diária. Odeio sair de casa, gosto de estar sempre trabalhando, então esse aspecto da quarentena não me desagrada. Também é bom ter minha esposa em casa e não o tempo todo no escritório.

Morro de medo do que está acontecendo do lado de fora, mas dentro de casa estou mais feliz e menos ansioso do que estive em anos. Um viva pra mim por ser um tremendo merda. Muita sorte.

Você nasceu nas Austrália, hoje vive nos Estados Unidos, seus livros já foram publicados em várias línguas e países e agora está saindo aqui no Brasil, em português. Por conta dos temas dos seus trabalhos e do seu estilo, fora de qualquer padrão industrializado, te surpreende a repercussão e o alcance das suas HQs?

Não me surpreende tanto. Meu trabalho é (aparentemente) engraçado e não é condescendente com as pessoas. Gente por toda parte está deprimida, entediada, chapada e precisa de entretenimento que não seja falso e que não tente apenas ser cordial e comportado por temer rejeição. Tem tanta bosta medíocre e cheia de si por aí, Megg e Mogg são justamente o oposto disso. É zoado e DIVERTIDO.

“Minha missão principal é apenas de frisar o absurdo. As contradições escrotas”

Página de Mau Caminho, HQ de Simon Hanselmann publicada pela Veneta (Divulgação)

Aliás, o que você pensa ao ver o seu trabalho sendo publicado em um país como o Brasil? Você fica curioso em relação à forma como seu trabalho é lido e interpretado em uma realidade tão distinta da sua?

A série foi traduzida para 13 línguas ao redor do mundo e já visitei quase todos esses países. Achei as pessoas todas muito parecidas em todos esses lugares. Humanos são humanos. A gente come e caga e procura por distração. Amamos quadrinhos!

Li uma entrevista em que você fala sobre o impacto de ter nascido e crescido em uma cidade pequena e conservadora da Austrália. Como você acha que essa formação impactou seus interesses e o tipo de trabalho que você produz?

No geral, me fez querer me esconder da realidade e daquilo que é convencional. Consumi diversos tipos de arte e mídia, sempre em busca de perspectivas novas e interessantes e de outras maneiras de me comportar. Fugi assim que pude.

E falando em conservadorismo, estamos vivendo em um mundo cada vez mais conservador. Os seus quadrinhos para mim refletem um pouco a depressão de jovens vivendo nesse contexto e instigam certa subversão quase antagônica a esse reacionarismo. Você também vê a sua obra dessa maneira?

Sim, Megg e Mogg existem para as pessoas. São um espelho no qual quem vive por baixo se enxerga, os fodidos e excluídos. Mas também não é super de esquerda, é algo removido de questões políticas de certo modo, é sobre pessoas egoístas que odeiam política e estão às voltas com seu próprio tumulto emocional.

“É ótimo que alguém tenha algum interesse ainda que remoto por meu pequeno teatro de papel”

Página de Mau Caminho, HQ de Simon Hanselmann publicada pela Veneta (Divulgação)

Qual você acredita ser o papel potencial de instigar e praticar subversão e questionar o establishment em tempos tão reacionários como esses que estamos vivendo?

Na maior parte do tempo, estou apenas tentando entreter as pessoas. Arte que não entretém não vai achar um grande público… Minha missão principal é apenas de frisar o absurdo. As contradições escrotas. Me nego a dar lições, quero que os leitores tenham condições de decidir… Provavelmente não deveria confiar tanto nas pessoas. Um monte de gente é estúpida e rápida demais ao reagir, sem a devida consideração de ideias complicadas.

Tenho curiosidade em relação à sua visão do mundo no momento. Vivemos numa realidade na qual Donald Trump é o presidente dos EUA e Jair Bolsonaro é o presidente do Brasil. O que você acha que está acontecendo com o mundo? Você é otimista em relação ao nosso futuro?

Estou cansado de todo esse circo. Todos uns bostas, completos filhos da puta. A essa altura só quero que me deixem em paz. Costumava ter esperança, mas agora só espero pelo fim. Estou aqui no estúdio, esperando as bombas caírem. A qualquer momento.

“Estou cagando para o que pensam, faço quadrinhos pra mim e pros meus amigos, estou tentando agradar apenas a mim mesmo”

Página de Mau Caminho, HQ de Simon Hanselmann publicada pela Veneta (Divulgação)

Eu gostaria de saber sobre a sua relação com a crítica e com esse interesse crescente pelo seu trabalho. O que você sente ao ver o seu trabalho tão analisado e interpretado e tantas pessoas interessadas nos seus quadrinhos?

Gosto de ler as interpretações das pessoas, em especial resenhas negativas. Aprendo um bocado, coisas que eu mesmo não enxergava.

De modo geral estou cagando para o que pensam, faço quadrinhos pra mim e pros meus amigos, estou tentando agradar apenas a mim mesmo. É ótimo que alguém tenha algum interesse ainda que remoto por meu pequeno teatro de papel.

Você poderia me contar um pouco sobre a sua dinâmica de trabalho? Quanto tempo você leva criando um roteiro? E depois quanto tempo você leva no desenho esse roteiro?

Depende. Mau Caminho tomou dois meses para ser roteirizado em thumbnail, uns dois meses para desenhar, e quarenta dias para arte-finalizar as 156 páginas (meu recorde) e aí uns sete meses para colorir. A colorização foi de matar. No total foram 3764 horas.

No momento, estou fazendo apenas uma tira diária no Instagram, que escrevo conforme invento, e aí faço o esboço a lápis, passo tinta e coloro. Leva entre três e oito horas, dependendo do meu grau de ressaca da noite anterior… Quase nunca fico sem trabalhar. Não consigo nunca desligar o modo trabalho do meu cérebro. Estou sempre escrevendo.

Com quais técnicas você trabalhou em Mau Caminho? Você tem preferência por alguma técnica em particular? Quais materiais você utiliza?

É tudo no papel, odeio computadores. Tenho uma lapiseira barata, algumas canetas de ponta fina meia-boca e um pouco de aquarela, guache e corante alimentar. Gosto de usar itens facilmente acessíveis. Nada muito chique. Qualquer um pode fazer, não é nada muito técnico, é só mexer as mãos.

“Odeio webcomics, sou zineiro, tenho fetiche por livros, mas estou adorando colocar essas tiras no Instagram”

Página de Mau Caminho, HQ de Simon Hanselmann publicada pela Veneta (Divulgação)

Qual é a sua abordagem em relação a cores?

Eu só sigo uma vibe naturalística e simples. Madeira é marrom, plantas são verdes, etc. Não viajo muito nisso.

Meu objetivo principal é deixar o trabalho legível para o público, que a informação seja facilmente digerível. Megg é verde, Mogg é cinza, Owl é amarelo. Quando desenho só em preto e branco não fica tão legível, você tem que se esforçar mais para decifrar os componentes individuais. Meu trabalho é todo calcado num ritmo rápido, realístico. Quero que pareça como se fosse uma animação.

Eu gosto da forma como você faz uso dos grids. Você tem alguma motivação em particular por trás desse padrão?

Manter as coisas simples! O leitor deve ser sugado pro mundo dos personagens. Layouts doidos e zoados e balões de fala muito cheios atrapalham a experiência do leitor. Tem que se mover sempre!

Aliás, esse padrão acabou se mostrando muito útil para você no Instagram, no qual a sua produção e seus posts têm sido muito ativos e constantes. Você gosta do Instagram como plataforma de distribuição dos seus quadrinhos?

Sim, desenho minhas páginas do mesmo modo de sempre e tiro fotos dos painéis pro Instagram. Odeio webcomics, sou zineiro, tenho fetiche por livros, mas estou adorando colocar essas tiras no Instagram.

No começo da pandemia, minha gráfica local teve de fechar e meio que fiquei sem escolha… Além disso, realmente queria tentar divertir e ajudar as pessoas a suportarem o isolamento. Entretenimento acessível para as massas. O telefone é o melhor modo de fazer isso. Eu meio que quero continuar essa tira do Instagram pra sempre, mas imagino que terei de parar em algum momento… Se bem que o mundo segue ficando cada vez mais e mais doido… Talvez eu nunca consiga parar? Preciso muito começar a continuação de Mau Caminho… Mas ainda não. Ainda parece estranho escrever sobre o ‘velho mundo’. 

“Dan Clowes visitou meu estúdio no começo do ano e fiquei tão constrangido, já estive no estúdio dele e é muito mais classudo”

Quadros de Mau Caminho, HQ de Simon Hanselmann publicada pela Veneta (Divulgação)

Ainda sobre plataformas e redes sociais. O seu trabalho ganhou repercussão por meio do seu Tumblr, iniciado em 2012. O quanto o Tumblr foi útil para você e sua carreira? O Instagram vem tomando lugar do Tumblr como plataforma para distribuição e difusão de HQs e imagens em geral?

Sim, o Tumblr foi como mostrei meu trabalho pro mundo. Por anos me recusei a colocar meu trampo online, mas finalmente cedi. Fico feliz de ter feito isso, abriu muitas portas. O Tumblr agora está oficialmente morto, faz anos já, virou uma bosta, excluir pornografia foi o último prego no caixão. Estou satisfeito com o Instagram por ora, já temo por sua eventual morte, pois gostam de censurar coisas… Na real fico bem chocado que meu conteúdo passa batido por lá… Se me derrubarem, tô fodido.

Você pode me falar como é seu ambiente de trabalho? Você poderia descrever o local no qual Mau Caminho foi criado?

Tem um quarto vazio na minha casa. Tem uma mesa de café da Ikea e um colchão. É basicamente isso (e alguns manequins e merdas aleatórias). Dan Clowes visitou meu estúdio no começo do ano e fiquei tão constrangido, já estive no estúdio dele e é muito mais classudo. Charles Burns também visitou meu estúdio (mais de uma vez) e senti vergonha. Preciso parar de sentar no chão feito uma criança…

“Quero voltar pra Tasmânia e me entocar nas montanhas, bem longe de todas as facções em guerra”

Quadros de Mau Caminho, HQ de Simon Hanselmann publicada pela Veneta (Divulgação)

Você pode me falar um pouco sobre viver em Seattle? É uma cidade que me parece mais aberta outras culturas e a diversidade do que outras cidades dos Estados Unidos. É isso mesmo?

Se posso, evito sair de casa.  Mesmo antes da quarentena, tentava ficar em casa tanto quanto possível. [Seattle] parece ok… Meio que um buraco deprimente, mas ok. Ainda não levei um tiro. Realmente parece a queda do Império Romano aqui nos States… Quero voltar pra Tasmânia e me entocar nas montanhas, bem longe de todas as facções em guerra. Não quero mais viver em cidades.

Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?

Só tenho assistido DVDs de comédias antigas. Coisas britânicas. Jam, Brass Eye, Darkplace, de Garth Marenghi. Acabei de ler a nova graphic novel do meu camarada Natham Cowdry, Crash Site, que ganhou o prêmio Puchi na Espanha e está prestes a ser publicada, é muito foda. 

Tenho escutado todo tipo de música, em geral durante as pausas para o cigarro ou quando tomo banho. Coisas velhas, coisas novas, coisas de quando era adolescente. Coisas tão embaraçosas que não contaria pra ninguém.

A capa de Mau Caminho, HQ de Simon Hanselmann publicada pela Veneta (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Julio Shimamoto, autor de O Ditador Frankenstein: “Sinto muito orgulho de ter exercido meu papel de cidadão, me servindo da arte como minha arma de protesto”

Entrevistei o quadrinista Julio Shimamoto para escrever sobre a coletânea O Ditador Frankenstein e Outras Histórias de Terror, Tortura e Milicos para a Sarjeta, minha coluna mensal sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural.

O meu texto é focado principalmente nos 18 dias de 1969 que o artista passou preso entre as sedes da Operação Bandeirante (Oban) e da Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS), órgãos do governo militar voltados para a captura, tortura e assassinato de indivíduos considerados subversivos pelas autoridades da época.

Você lê aqui o meu texto sobre O Ditador Frankenstein, obra lançada pela editora MMArte e editada e organizada pelo quadrinista, pesquisador e músico Márcio Paixão Júnior.

Reproduzo agora a íntegra da minha entrevista com Shimamoto. Na conversa a seguir ele aprofunda seus temores sobre o Brasil presidido por Jair Bolsonaro, fala sobre como vem enfrentando seu período de isolamento social durante a pandemia do novo coronavírus e trata de sua busca constante por novas técnicas de trabalho.

“Hoje prefiro lidar mais com ferramentas do que desenhar”

Quadros de uma das HQs presentes na coletânea O Ditador Frankenstein, de Julio Shimamoto (Divulgação)

Antes de tudo, como vai o senhor? Como o senhor está encarando a pandemia do coronavírus?

Aqui  estamos bem, confinados dentro de nosso ‘bunker’, mas quatro vizinhos de nossa quadra se foram devido à COVID-19.

Mesmo como quadrinista, eu jamais seria capaz de imaginar uma pandemia como essa, capaz de deixar o mundo inteiro de joelhos.

O contexto de isolamento social afetou de alguma forma a sua rotina diária?

Sou do tipo eremita, daqueles que pagam para não sair de casa, logo não me sinto nem um pouco afetado por causa do confinamento compulsório. Mas me incomoda o fato de não poder sair para comprar um simples eletrodo numa casa de ferragens, mesmo estando localizada perto de minha casa. Pedi por telefone por recomendação de minhas filhas. Ah, devo esclarecer que hoje prefiro lidar mais com ferramentas do que desenhar…

Qual a memória mais antiga que você tem da presença de quadrinhos na sua vida?

Tinha cinco anos de idade, em 1944, no distante sertão próximo das divisas de São Paulo com Mato Grosso, quando papai, ao retornar de uma viagem, me trouxe de presente três revistas de quadrinhos: Gibi, Globo Juvenil e Guri. Foram os presentes mais marcantes da minha vida.

“O desenhista também pode acabar virando canastrão se seguir produzindo no modo ‘piloto automático'”

Página de uma das HQs presentes em O Ditador Frankenstein, de Julio Shimamoto (Divulgação)

O que mais interessa ao senhor no uso da linguagem dos  quadrinhos?
 
O timing ou o ritmo da narrativa e a ênfase na ação.

Em termos de fantasia e terror, gêneros predominantes em O Ditador Frankenstein, quais são as principais leituras e influências do senhor?

Serei abrangente. Movido por curiosidade, sou um leitor eclético que aprecia ler sobre diversos assuntos. Mas tive minhas fases específicas. Na pré-adolescência li muitos livros de aventura de autores como Rudyard Kipling, Karl May e Monteiro Lobato. Na adolescência mergulhei nos livros policiais de Ellery Queen, Agatha Christie, Conan Doyle e Raymond Chandler. E na ficção científica: Isaac Asimov, H. G. Wells, Julio Verne e Arthur C. Clarke. Passei a ler os livros de terror por necessidade profissional, a fim de estudar a estrutura narrativa do gênero: Edgar Alan Poe, H. P. Lovecraft, E.T.A. Hoffmann,  Bram Stocker. O Ditador Frankenstein é uma coletânea de HQs de terror de vários autores, onde me incluo,  sem influências específicas, a não ser o foco comum no autoritarismo e na repressão. Essas HQs todas foram produzidas no período da ditadura militar no Brasil. 

O Márcio Jr publicou com o senhor o Cidade de Sangue e agora a coletânea O Ditador Frankenstein, são obras produzidas a partir de técnicas muito distintas, correto? O senhor pode falar um pouco sobre as suas técnicas, por favor?

Exatamente. Costumo variar de estilo para não sentir tédio. O desenhista também pode acabar virando canastrão se seguir produzindo no modo ‘piloto automático’. Ninguém gosta de repetir o mesmo prato todos os dias. Ao buscar um traço distinto para cada trabalho, sinto-me desafiado, e bastante motivado.  

O senhor tem alguma técnica preferida no momento?

Sim. Gosto muito do estilo xilográfico, mas não da forma de fazê-lo, entalhando com formão ou goiva a superfície da tábua. É muito trabalhoso e demanda tempo excessivo. Desenvolvi uma técnica bem mais simples, que chamo de ‘esvaziamento’: cubro uma cerâmica ou azulejo branco com tinta acrílica preta fosca, e depois de seca, desenho figuras em cima por raspagem, usando ponta de prego ou de espetinho de bambú. O efeito é de autêntica xilografia.

“Externar essa insatisfação nos quadrinhos era a nossa forma de protestar e expurgar nossa contrariedade”

Página de uma das HQs presentes em O Ditador Frankenstein, de Julio Shimamoto (Divulgação)


Ao longo de O Ditador Frankenstein também são apresentadas algumas técnicas distintas, certo? Quais eram os seus materiais preferidos na época?

Correto. Pincel, bico de pena, palito de dente, aerógrafo e água sanitária.

Como era a dinâmica de trabalho do senhor com os roteiristas e outros profissionais envolvidos na produção das HQs de O Ditador Frankenstein?

Nada excepcional. No Rio de Janeiro, eu ia até as editoras apanhar os roteiros, e das que ficavam em outros estados recebia por correio. Naquela época não havia fax, nem internet. O contato entre roteirista e desenhista era zero.

Por mais fantásticas que sejam, acho que as melhores histórias de terror tratam da nossa realidade, do nosso mundo, do nosso presente. O Ditador Frankenstein assusta exatamente por isso, mesmo as tramas com elementos mais fantásticos estão falando de terrores reais, como censura e tortura. Foi desafiador, de alguma forma, tratar de temas tão sérios e atuais dentro dos gêneros que o senhor e seus parceiros criativos escolheram trabalhar?

Havia o risco de cairmos na malha da censura, mas também era insuportável o sentimento de repulsa em relação ao regime de força a que todos estávamos submetidos. Externar essa insatisfação nos quadrinhos era a nossa forma de protestar e expurgar nossa contrariedade.

O que o senhor pensa ao ver esses trabalhos publicados há tantos anos serem reeditados no Brasil de 2020?

Foi do Márcio Júnior a ideia de republicar esses trabalhos, diante da ameaça da ideologia extremista que está em fermentação crescente no país, e concordei de imediato. Essas HQs podem ajudar os leitores mais distraídos a enxergar o sinal amarelo no nosso cotidiano político.   

“Se desaparecesse naquele quartel, torturado e morto, ninguém no mundo ficaria sabendo”

A capa da coletânea O Ditador Frankenstein, de Julio Shimamoto (Divulgação)


O que representava para o senhor trabalhar em histórias sobre a ditadura durante a ditadura? E o que representa para o senhor hoje ter feito esses trabalhos durante a ditadura e sobre a ditadura?

Acho que foi respondida antes. Essas HQs serviram como nossa válvula de descompressão da raiva contra a ditadura. Sinto muito orgulho de ter exercido meu papel de cidadão, me servindo da arte como minha arma de protesto.  

O senhor vê paralelos entre o Brasil pós-golpe de 64 e a nossa realidade atual? Se sim, quais seriam?

A tensão se assemelha, mas o contexto difere completamente. O golpe de 64 tinha componente externo, motivado pela Guerra Fria (EUA x União Soviética). Nossos generais e nossos políticos conservadores estavam alinhados com os EUA, e o governo vigente exercia a neutralidade,  mantendo intercâmbio com socialistas e com capitalistas. 

Hoje temos um militar no governo eleito democraticamente, mas que está militarizando toda a estrutura para buscar presidir o país monocraticamente, como numa ditadura. Está tentando sufocar o Congresso e o Judiciário.

O Márcio também fala no prefácio sobre o período do senhor detido nas sedes da Oban e do Dops. Quais sentimentos e memórias o senhor tem desse período preso?

Foi uma experiência terrível e única, igual a pesadelo desperto. Imagine ser detido no meio de seu trabalho cotidiano e ser levado preso e jogado num xadrez sujo, sem água na pia, sem leito, sem chuveiro, e sem vaso na privada (apenas um buraco sobre esgoto), e uma única refeição por dia, temperada com salitre para inibir sua libido, servida em prato encardido, mal-lavado de propósito para abater seu moral e sua dignidade. Tinha que dormir no chão sob uma folha de jornal, assaltado pelas pulgas. A insônia era provocada pelos gritos lancinantes, principalmente de mulheres que estariam sendo torturadas. Isso em 1969, e a Oban era dirigida pelo [Carlos Alberto] Brilhante Ustra, coronel carniceiro, reverenciado por Bolsonaro como grande herói nacional.  Isso sem direito a nenhum advogado. Se desaparecesse naquele quartel, torturado e morto, ninguém no mundo ficaria sabendo.

“Eu acho maravilhoso estar vivo”

Página de uma das HQs presentes em O Ditador Frankenstein, de Julio Shimamoto (Divulgação)


O que o senhor sente quando vê o atual presidente se dizer um admirador de Carlos Alberto Brilhante Ustra?

Deveria sentir arrepio, mas tal afirmação só me desperta profundo desprezo e asco.

Tenho curiosidade em relação à visão de mundo do senhor no momento. O que o senhor acha que está acontecendo com o mundo? O senhor é otimista em relação ao nosso futuro?

Eu acho maravilhoso estar vivo, apesar dos meus 81 anos de vida. As coisas que vivenciei até agora, boas e más, fazem parte desse fenômeno que é viver. Sei que não viverei muito tempo, e estou sendo muito sovina com o tempo que me resta, e não planejo mais fazer quadrinhos, salvo alguma exceção extraordinária. Estou ilustrando capas e fazendo ilustrações avulsas, mas o que prezo mesmo é lidar com ferramentas, até onde eu tiver forças e lucidez. O mundo não será pior nem melhor, será sempre o que foi, com gerações se revezando em conflitos e em paz. Com pandemia ou sem pandemia.

O quadrinista Julio Shimamoto (Divulgação/Márcia Yumi)
Entrevistas / HQ

Papo com Panhoca, editor da revista Pé-de-Cabra: “A televisão nos permite sair da nossa bolha e ter contato com o Brasil de verdade”

Os trabalhos dos 44 artistas responsáveis pelas 108 páginas da revista Pé-de-Cabra tem como foco televisão. O curador e editor da publicação, Carlos Panhoca, disse ter escolhido o tema porque acredita que a TV permite acesso ao “Brasil de verdade”.

“O campo de batalha REAL, político e social, é todo ali”, diz Panhoca. “Presidentes tomam golpes, carreiras são arruinadas, Geisy Arruda é alçada ao estrelato. Tudo acontece ali”.

Lançada anualmente desde 2018, a revista teve a capa de sua edição de estreia assinada pelo francês Pochep, a capa do segundo número com arte de Emilly Bonna e agora a ilustração da capa ficou com Benson Chin, membro do coletivo O Miolo Frito.

Assim como fiz às vésperas do lançamento da primeira e da segunda edições, volto a entrevistar Panhoca. Falamos principalmente sobre o tema escolhido por ele para esse terceiro número, mas também sobre o impacto da pandemia na cena brasileira de HQs e sobre as investidas dele como entrevistador na série De Frente com Panhoca.

Compartilho a seguir os nomes dos artistas participantes da nova Pé-de-Cabra e, depois, a minha conversa com o editor. Ó:

Benson Chin, Bernardo França, Karina D’Alessandre, Fralvez (responsável pelo quadro que abre o post), Andre Nicolau, Victor Bello, Bruna MZF, Beatriz Shiro, Adriane Palmira, Renan Cesar, Fabio Lyra, João B. Godoi, Emilly Bonna, Señor Gualda, Moletom Fantasma, Arame Surtado, Bruno Nascimento, Mari Sori, Chico Feliz, Pietro Soldi, Guilherme Caldas, Olavo Rocha, Kellen Carvalho, Iara Darkka, Leonardo Prado, Paulo Patrocinio, Thiago Souza, Victor Stephan, Marco Viera, Pedro D’Apremont, Lobo Ramirez, Fabio Zimbres, Kainã Lacerda, Sama, Adriano Janja, Batista, Carambola, Eme Podre, Jadiel Jorake, Carlos Carcasa, Cynthia B., Braian Malfatti e Galvão Bertazzi.

Qualquer um que esteja assistindo De Férias com o Ex sabe o que o brasileiro pensa

Quadro da HQ de Fabio Lyra presente na Pé-de-Cabra #3

Queria começar dizendo que me sinto intimidado em entrevistar aquele que se tornou o maior entrevistador dos quadrinhos nacionais. Como tem sido para você a experiência como entrevistador na série De Frente com o Panhoca?

Hahahaha, são seus olhos, Ramon. Isso aí tem sido interessante. Na realidade a maior parte das entrevistas foram feitas em quatro dias, num momento de extremo tédio e pouca paciência de checar se os amigos estavam bem perguntando um por um “e aí, tudo bom?”. Paralelamente a isso, aumentou a quantidade de amigos que não são leitores assíduos de gibi nacional e me perguntavam por recomendações de leituras. Acho que funciona um pouco como divulgação e forma de mostrar que estamos relativamente bem.

E como você tá? Como a pandemia e o cenário político horrendo que estamos vivendo tão influenciando a sua rotina e a sua produção? Aliás, foi difícil para você optar por lançar a revista mesmo com a pandemia?

Cara, eu tô fodido, né? Eu pego pelo menos quatro ônibus por dia pra ir pro meu trabalho porque eu trabalho na cidade vizinha. Aqui em Curitiba eles reduziram a frota (?) pra evitar aglomerações. Aí quando me mandaram voltar pro trabalho eu pedi férias. Em algum momento isso vai acabar e eu vou ter que contar a sorte pra sobreviver à rotina. Mas voltando pra produção: eu fico em casa e desenho sempre que vem uma ideia boa (às vezes a ideia boa é ruim). Então o ritmo é bem maior, antes eu desenhava só na hora do almoço do meu emprego ou no ônibus. A decisão de lançar a revista no meio de uma pandemia é totalmente kamikaze, eu fico dependente unicamente de tentar vender a revista com postagens nas redes sociais. Não sei ainda se dessa vez ela vai se pagar. Espero que sim. Eu planejava vender toda a tiragem dela esse ano e fomentar as outras publicações e, quem sabe, realizar um sonho de ter um felino de porte grande no meu apartamento. Vamos ver o que tem por aí.

“UBA, UBA, UBA, Ê!”

Quadro da HQ de Kellen Carvalho presente na Pé-de-Cabra #3

Por que televisão como o tema dessa terceira edição?

Direto ao ponto: eu sou um viciado. Eu acho a televisão fascinante porque ela nos permite sair da nossa bolha e ter contato com o Brasil de verdade. A gente fala muito sobre furar a nossa bolha e não temos noção nenhuma da forma como a lavagem cerebral se dá com todos aqueles canalhas humilhando classes mais pobres em auditórios para reformar seus carros ou tunnar a sorveteria da família, etc. A televisão, assim como as equipes de vôlei, são instrumentos antropológicos extremamente subestimados como estudo de sociedade. Qualquer um que esteja assistindo alguma temporada de De Férias com o Ex sabe o que o brasileiro pensa e como ele se comporta. O campo de batalha REAL político e social é todo ali. Presidentes tomam golpes, carreiras são arruinadas, Geisy Arruda é alçada ao estrelato. Tudo acontece ali.

Nós dois temos mais ou menos a mesma idade, acho que grande parte da sua infância também foi nos anos 90, sendo o Gugu uma figura muito emblemática do imaginário televisivo brasileiro. A morte dele no final do ano passado pesou de alguma forma na escolha desse tema?

UBA, UBA, UBA, Ê!! hahahahahaha Eu não sei quantos anos você tem, mas eu to nos meus 30 já. O Gugu fez parte da infância desde os hits ridículos do Pintinho Amarelinho até toda a pornografia disfarçada de quadro vespertino. O tema já tinha sido escolhido na época da morte dele, mas acho que uma coisa acabou se mesclando à outra. Por algumas semanas todos nós falamos muito do Gugu. Eu tenho uma tatuagem do Gugu (do gibi, o Gugu Punk) na perna. O Gugu fez pela televisão brasileira algo que os outros não fizeram: ele extrapolou todos os limites da sanidade testando até onde o brasileiro acredita em qualquer merda que passe na televisão. A autopsia do ET de Varginha, a entrevista dos falsos membros do PCC, quando ele desenterrou o corpo de Dercy Gonçalves para verificar se ela realmente havia sido enterrada de pé. Eu acho isso tudo fascinante. Pra mim, foi como se eu tivesse perdido um amigo, um irmão.

“Costumo ver o Fofocalizando pra me antenar no mundo dos famosos”

Quadro da HQ de Pietro Soldi presente na Pé-de-Cabra #3

Eu queria saber sobre a sua relação com televisão. Quais foram os programas de TV que marcaram a sua infância? Quais são as suas séries preferidas? Você tem algum apresentador de TV preferido?

Eu adoro televisão. Quando eu era pequeno eu gostava muito de Supermarket, de O Mundo de Beakman, das propagandas do Walter Mercado e do Chaves. Hoje em dia eu costumo ver, sempre que posso, o Fofocalizando pra me antenar no mundo dos famosos e ver o programa do Rodrigo Faro, onde aprendo incríveis cantadas e conhecimentos para relacionamentos duradouros. Eu gostei muito da participação do João Kleber em A Fazenda, mas depois dele fazer propaganda pra Havan eu não consegui mais olhar para ele. De séries eu assisti recentemente todo o Bojack Horseman (série incrível, recomendo demais), eu assisto sempre que sai temporada nova Kobra Kai (que é uma continuação com os atores originais do Karate Kid, um dos melhores Sessão da Tarde existentes) e eu também vejo sempre que possível Largados e Pelados e Todo Mundo Odeia o Cris. Eu também vejo muito desenho animado. Os brasileiros tão apavorando agora. Um abraço pra equipe do Oswaldo e do Irmão do Jorel. E também não posso deixar de fora o De Férias com o Ex e defendo que Jhenyfer Bifão é a grande personagem televisivo dessa década.

Você anunciou a convocatória para esse terceiro número lá em dezembro, quando o coronavírus ainda tava mais ou menos limitado ao território chinês. A revista tá saindo em um momento em que as pessoas estão em quarentena (ou pelo menos não deveriam estar saindo de casa). A sua relação com a televisão mudou de alguma forma desde o início dessa realidade de isolamento social?

SIM. A gente pegou TV a cabo depois de trancafiados. Maratonei com minha namorada o Bojack Horseman e agora estamos viciados no Largados e Pelados. É fascinante como o ser humano consegue vencer grandes desafios na selva só com seus conhecimentos de sobrevivência. Frio, animais selvagens, parceiros veganos, insetos, eles mesmos… O ser humano é testado ao limite nessa série, você devia tentar, Ramon. Assistir a série no caso, não saia pelado no meio do mato.

“Sonhei que estava sendo entubado e o respirador era uma Iogurteira TopTherm”

Quadro da HQ de Arame Surtado presente na Pé-de-Cabra #3

O Pochep assinou a capa da primeira revista, a Emily Bonna fez a capa da segunda e o Benson assina a capa da terceira edição. Por que ele? Você passou alguma instrução ou direcionamento para o que queria?

Eu gosto muito do trampo de toda a rapeize d’O Miolo Frito. Acho uma das melhores revistas do gibi nacional. E a capa de uma revista é onde muita gente vai ter o único contato com ela. Se a capa não for boa, talvez não venda. Aí tu soma as cores vibrantes que o Benson usa nos trabalhos dele com as artes com bastante informação que ele faz. Acho que pesou as artes que ele fez pra loja Monstra em São Paulo e o postal que fez no aniversário de seis anos do teu blog. Aquela arte dele do ELE NÃO também foi a minha favorita da época. Acho que foi isso. Ou talvez eu esteja dando vantagem a ele por ser mais bonito que a maioria dos capistas brasileiros. Nunca saberemos.

Na época do lançamento da primeira edição você comentou como foi uma experiência muito mais complicada do que você esperava. No segundo número você falou do excesso de trabalhos enviados, da sua mudança e da briga com um vizinho. O que você pode contar da produção dessa terceira edição?

Porra, a gente acha que vai ficar cada vez mais fácil e cada ano que passa é mais complicado. Dessa vez tive de novo o problema de excesso de material bom. Eu tento não pensar muito nos trabalhos que não usei porque eu tenho realmente dúvidas se eu fiz a melhor escolha possível entre eles. Talvez essa versão da Pé-de-Cabra #3 não seja a melhor versão que eu poderia fazer com o que tinha em mãos, mas foram tantas versões nesse espaço de tempo que eu não quero revisitar esse mundo de stress e escolhas difíceis. Além disso eu tava bem estressado com o avanço do coronavírus no Brasil. Ficar martelando quadrinhos sobre televisão e informações sobre o corona em todos os intervalos da TV definitivamente não fez muito bem pra minha cabeça. Houve uma noite em específico que eu sonhei que estava sendo entubado e o respirador do hospital que eu estava era uma Iogurteira TopTherm. Esse tipo de coisa acaba com o dia de qualquer um. Você passa o resto do dia com a voz da Aracy na cabeça pensando em morte. Teve outra coisa complicada: o conteúdo da nossa TV é totalmente inadequado. A TV brasileira (a gringa também, mas tô fazendo um recorte aqui) é totalmente baseada na exploração do cidadão pobre e na ultrassexualização de absolutamente tudo, desde programa infantil até bandeirinha do futebol. É muito arriscada a escolha de materiais com essas temáticas sem dar corda ou moral pra esse lado. É aquele lance do humor ser um lance vetorial, tem de ver pra onde está apontada a piada. Você não vai rir do coitado que tá sendo explorado ali, você pode usar ele em histórias e mostrar o quão cuzão são os apresentadores ou o telespectador que vibra com essas coisas. Fora isso tudo, ainda tem o lance da diversidade: nós temos canais de ABSOLUTAMENTE TUDO e eu tentei fazer o maior apanhado de temas diferentes dentro da TV, para que a revista parecesse mesmo como se você fosse o jovem Carlinhos Panhoca indo para a casa da Vó Carmelina em São José dos Campos e tendo a sua primeira experiência com uma tv com um monte de canais a mais do que a da tua casa. Enfim, muita coisa, muita escolhas e poucas certezas.

“Fiquei bem feliz com a diversidade de temas explorados por todos os participantes”

Quadro da HQ de Marco Vieira presente na Pé-de-Cabra #3

Essa terceira Pé de Cabra é o sétimo título do selo desde o lançamento da primeira edição da revista. O quanto simplificou e facilitou para você o processo de edição e distribuição de uma obra desde a estreia da revista lá em março de 2018?

A gente fica mais esperto, mais ágil, com mais lábia e alguns quilos mais magro. O que não muda é a minha habilidade de fazer um pacote. Os pacotes continuam todos horrorosos, com muita fita desnecessária e formatos não convencionais.

E agora com a revista impressa, que balanço você faz entre o que tinha imaginado entre o instante em que escolheu o tema e agora que já tem a edição em mãos?

Ela é mais bonita do que eu esperava. Ela sempre fica mais bonita do que eu esperava. Eu fiquei bem feliz com a diversidade de temas explorados por todos os participantes. Uma gama incrível de entretenimento, desde final da Libertadores ao Roda Viva (PROGRAMA CHATO PRA CARALHO). A revista também tem dezoito páginas a mais do que o planejado. Não deu pra manter no tamanho da outra.

“Sou movido a grandes expectativas e esperanças que eu aprendi vendo televisão”

Quadro da HQ de Pedro D’Apremont presente na Pé-de-Cabra #3

O que mais te surpreendeu nesse número? Há algum trabalho específico impresso na revista que te marcou de alguma forma?

Eu me surpreendo com a quantidade de gente que publicou pela primeira vez na Pé-de-Cabra. 50% dos autores dessa edição nunca tinham participado antes. Além disso tive o prazer de publicar a primeira página de gente que nunca tinha publicado fora do Instagram. Isso dá uma satisfação bem grande. E ao mesmo tempo que sai material dessa galera dando uns primeiros passos na publicação tem ao lado gente consagrada como o Zimbres. Quanto a trabalhos específicos é difícil escolher porque no final eu escolhi todos ali porque gostei deles. Acho a HQ do Lyra um tapa na cara muito foda. Acho a HQ do Marco Vieira uma das mais bonitas da edição. O trabalho da Bruna MZF e a da Arame Surtado são muito bons também. Temos uma variedade de estilos e técnicas incríveis nessa edição.

“Em algum lugar do futuro o Marcos Pasquim está se preparando para voltar e nos salvar”

Duas páginas da HQ de Fabio Zimbes presente na Pé-de-Cabra #3

Você já tem em mente um quarto número da revista? Aliás, o quanto a pandemia afetou os seus planos para o selo? O seu planejamento para 2020 foi afetado de alguma forma por conta do coronavírus?

Olha, eu acho que dessa vez fodeu. A maior parte das minhas vendas são em feiras e lançamentos presenciais. Não sei se conseguimos recuperar dinheiro o suficiente para lançar a Pé-de-Cabra #4 em 2021, mas você que está nos assistindo aí em casa, você pode comprar uma AirFryer, um George Foreman Grill a menos no Polishop e fortalecer a gente pra continuar com a revista. É isso mesmo. E ligando agora mesmo você leva de brinde um sinceríssimo OBRIGADO, SENHOR CLIENTE. Mas voltando, ainda tem algum dinheiro em caixa e vamos torrar ele com outras publicações que pretendo soltar esse ano ainda. O próximo gibi, do Chico Felix, tá quase pronto. É um gibi em parceria com a Revista Prego e estamos só fechando uns últimos detalhes de logística antes de começar a mandar ver.

Você é figura constante nas feiras de quadrinhos e publicações independentes ao longo dos últimos anos e esses eventos são fundamentais para a manutenção desse cena de HQs na qual a Pé-de-Cabra está inserida. O quanto você acha que essa nossa atual realidade tende a impactar esse ambiente em um futuro próximo?  

Olha, é difícil imaginar. Eu particularmente fico na torcida por uma vacina já no começo de 2021. Sabe, Ramon, eu sou movido a grandes expectativas e esperanças que eu aprendi vendo televisão. Lembra dos estudos do Dr. Albieri em O CLONE? Lembra das previsões de Eugênio, o menino gênio de Os Mutantes – Caminhos do Coração? Lembra do Esteban do Futuro em Kubanacan? Eu acredito que a realidade imita a ficção e em algum lugar do futuro o Marcos Pasquim está se preparando para voltar e nos salvar.

A capa da Revista Pé-de-Cabra #3, com arte de Benson Chin
Entrevistas / HQ

Papo com Nick Drnaso, autor de Sabrina: “Ninguém acha que está vendo notícia falsa ou distorcida, então, é difícil pensar no que eu mesmo consumo”

É difícil imaginar um quadrinho mais atual e relevante do que Sabrina. Sua repercussão foi muito além do meio dos quadrinhos e a obra de Nick Drnaso se tornou a primeira HQ indicada ao prêmio Man Booker Prize. Sabrina trata de fake news, conspiracionismo e do impacto de boatos e informações falsas nas vidas de cidadãos comuns ao narrar o desaparecimento da mulher que dá título à obra.

Entrevistei Drnaso para escrever sobre o lançamento da edição brasileira de Sabrina, pela editora Veneta, em tradução de Érico Assis (que também traduziu a entrevista abaixo). Esse papo virou matéria para o jornal O Globo. Escrevi no meu texto sobre as origens do livro, o desenvolvimento da obra, as técnicas e métodos do autor e a repercussão da HQ desde sua publicação em 2018. Você lê o meu texto clicando aqui.

Reproduzo a seguir a íntegra da minha conversa com Drnaso, na qual ele ainda fala sobre seu ambiente de trabalho, sua relação com outros quadrinistas e o suas leituras recentes. Leia a minha matéria, leia o quadrinho e depois leia a minha entrevista com o autor.

“Aconteceu de eu estar pensando em tragédias que ganham grande cobertura”

Quadro de Sabrina, HQ de Nick Drnaso publicada no Brasil pela editora Veneta

Antes de tudo, como você está? Como está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua rotina de trabalho?

Tenho a sorte de conseguir dar continuidade ao meu próximo álbum em casa, em quarentena. Portanto, minha rotina diária não mudou grande coisa. Acho que minha produtividade segue a mesma.

Como você acha que essa realidade que estamos vivendo vai afetar o seu ambiente profissional? Você tem conversado com outros autores e editores sobre essa situação?

Não tenho como especular quanto ao que vem pela frente.

Você pode me contar um pouco sobre o ponto de partida de Sabrina? Você lembra de como surgiu a ideia desse livro?

Aconteceu de eu estar pensando em tragédias que ganham grande cobertura na mídia. Tinha muita coisa acontecendo naquela época, quando houve Sandy Hook aqui nos EUA. A única ideia que eu tinha no começo era que um cara iria morar com um amigo da Força Aérea depois que a namorada do primeiro desapareceu.

“Tudo é desenhado e finalizado no papel, ao modo tradicional, com materiais simples e alguns instrumentos”

Página de Sabrina, HQ de Nick Drnaso publicada no Brasil pela editora Veneta

Você poderia me contar um pouco sobre a sua dinâmica de trabalho? Quanto tempo você leva criando um roteiro? E depois quanto tempo você leva no desenho esse roteiro?

Eu escrevo um pedaço do roteiro de cada vez, algumas cenas por vez, aí passo para o desenho até finalizar. Vou e volto nisso até terminar a história. Aí geralmente eu tenho que voltar lá no início, editar e redesenhar algumas coisas que acabaram não fechando como eu gostaria. Desenhar e colorir sempre tomam mais tempo que escrever; acho que umas 20 ou 30 horas por página.

Com quais técnicas você trabalhou em Sabrina? Você tem preferência por alguma técnica em particular? Quais materiais você utiliza?

Tudo é desenhado e finalizado no papel, ao modo tradicional, com materiais simples e alguns instrumentos. A cor é digital. Tentei colorir tudo à mão com canetinha, mas percebi que o processo ficava lento demais e não me dava muita flexibilidade para mexer no final.

Eu gosto muito ritmo de Sabrina. Acho que os grids e quadros que você usa são fundamentais para determinar o andamento da leitura. Você concorda?

Sim, é certo que o grid que eu usei em Sabrina ditou o ritmo. Comecei o roteiro com esse grid em mente. Com essa possibilidade de quebrar um quadro grande em quatro menores, eu consegui muitas cenas de silêncio. O álbum em que estou trabalhando agora tem outro grid que não condiz com quadros pequenos, então o texto e ritmo são mais contidos. É bom fazer essa mudança depois de Sabrina.

“Tenho alguns arrependimentos em relação ao visual”

Página de Sabrina, HQ de Nick Drnaso publicada no Brasil pela editora Veneta

Você pode contar um pouco sobre o desenvolvimento de seus personagens? Você tem algum hábito particular de observar pessoas na sua rotina diária?

Meu primeiro álbum, Beverly, tinha mais personagens baseados diretamente em gente que eu conhecia. A vida e o emprego do Calvin de Sabrina, aliás, vieram de um amigo que trabalha na Força Aérea no Colorado. É um processo muito natural. Ele meio que surge assim que eu começo a trabalhar. Talvez eu só perceba que o personagem é baseado numa pessoa que eu conheço meses depois de entrar na história, o que sempre acho bizarro.

Há um padrão nas cores de Sabrina e Beverly. Qual é a sua abordagem em relação a cores? Por que essa paleta e esse estilo?

Limitar a paleta me ajudou nos dois álbuns. Tenho alguns arrependimentos em relação ao visual. Entendo onde eu queria chegar e como saí do rumo, mas é coisa do meu olho. Colorir no computador foi um processo relativamente novo pra mim quando comecei Beverly, então tentei ser simples e usar um monte de pastel suave. Mas queria poder voltar e aprimorar, em parte.

Vivemos em um período de extremismos crescentes e de conspiracionistas radicais que acreditam que a terra é plana, são contra vacinas e não querem ficar em quarentena durante a pandemia. São questões muito presentes em Sabrina. Esses temas são caros para você? Você passa muito tempo refletindo sobre os rumos da humanidade?

Eu me interessava pela cultura das teorias da conspiração antes de escrever Sabrina. Agora eu não acompanhado nada, nem por curiosidade.

“Não julgo nenhum tema com pressa, mas sei que eu tenho pontos cegos imensos”

Página de Sabrina, HQ de Nick Drnaso publicada no Brasil pela editora Veneta

E como você lida com fake news?

Olha, ninguém nesse mundo acha que está vendo notícia falsa ou distorcida, então é difícil pensar no que eu mesmo consumo de notícia. Tento fazer o que me é possível e não julgo nenhum tema com pressa, mas sei que eu tenho pontos cegos imensos e um nível de atenção menor do que gostaria de admitir

Tenho curiosidade em relação à sua visão do mundo no momento. Vivemos numa realidade na qual Donald Trump é o presidente dos EUA e Jair Bolsonaro é o presidente do Brasil. O que você acha que está acontecendo com o mundo? Você é otimista em relação ao nosso futuro?

Não tenho a mínima qualificação para responder essa pergunta, que é muito difícil. Se estivéssemos conversando por telefone, eu ia perguntar a você sobre o Brasil com Bolsonaro. Infelizmente não tenho nada de interessante ou particular a dizer sobre a situação dos EUA com Trump que não seja dito milhões de vezes, todo dia, sem parar.

O que você pensa quando um trabalho seu é publicado em um país como o Brasil? Somos todos americanos, mas são culturas muito diferentes. Você tem alguma curiosidade em relação à forma como um trabalho seu será lido e interpretado por pessoas de um ambiente tão diferente dos seu?

Com certeza! Não tenho noção de como nenhum álbum é lido em outro país, mas tenho curiosidade. Provavelmente eu teria que visitar o país para ter noção, mas não viajei muito na vida, até agora. Quem sabe isso mude.

“Sempre me interessei por desenho e era ávido pelos livros do Shel Silverstein quando era pequeno”

Página de Sabrina, HQ de Nick Drnaso publicada no Brasil pela editora Veneta

Você pode me falar como é seu ambiente de trabalho? Você poderia descrever o local no qual Sabrina foi criado?

Comecei a desenhar Sabrina usando o armário do meu apartamento antigo como estúdio. Era o único lugar da casa onde cabia minha mesa de desenho. Aí eu e minha namorada (hoje esposa) mudamos para outro apartamento e consegui montar o estúdio no quarto. Depois nos mudamos para o apartamento atual e, aqui, a mesa de desenho também fica no nosso quarto. É onde estou respondendo essa entrevista.

Eu nunca estive em Chicago, mas sei da relação da cidade com arquitetura, museus, autores de quadrinhos e arte em geral. Você se vê influenciada por esse ambiente tão criativo?

Eu cresci bem perto de Chicago e nunca morei em outra região, portanto é a única que eu conheço. Tive sorte de ver muitos quadrinistas por aqui, assim como escritores, escolas, museus, colégios. Sou muito satisfeito com o ambiente. Gosto da arquitetura e do inverno sombrio. Talvez isso tenha reflexo no jeito como eu desenho.

Qual a memória mais antiga da presença de quadrinhos na sua vida?

Eu só passei a ler e pensar sobre HQ depois que acabei o ensino médio. Sempre me interessei por desenho e era ávido pelos livros do Shel Silverstein quando era pequeno. Acho que foram os primeiros desenhos que me causaram uma reação.

“Gosto de muita coisa que não chega nem perto do jeito como eu trabalho”

Eu gostaria de saber sobre a sua relação com a crítica e com esse interesse crescente pelo seu livro por parte da imprensa. O que você sente ao ver o seu trabalho tão analisado e interpretado e tantas pessoas interessadas no seu quadrinho?

Consigo ler resenhas críticas e positivas sem grandes problemas, mas faço o possível para manter distância de menções ao livro no Twitter e lugares assim. Sou grato a todos que tiverem escrito o que quer que seja sobre o álbum, mas tenho uma autocrítica interna que me impede de absorver algo a fundo, seja bom ou mau.

Eu gostaria de saber o que são histórias em quadrinhos para você. Você tem alguma definição pessoal?

Não, não tenho opinião forte sobre a mídia. O que eu tenho é uma forma de trabalhar que criei pra mim, mas não é algo que eu colocaria pra outros. Gosto de muita coisa que não chega nem perto do jeito como eu trabalho.

“Tenho ouvido muito mais música nesse ano”

Quadro de Sabrina, HQ de Nick Drnaso publicada no Brasil pela editora Veneta

Você poderia recomendar algo que esteja lendo, ouvindo ou assistindo no momento?

Tenho ouvido muito mais música nesse ano. É muita coisa para citar. Estou lendo Praia de Manhatan, de Jennifer Egan, e curtindo. Depois vou ler The Broken Brain, de Nancy Andreasen. Há poucos dias eu e minha mulher assistimos Mal do Século, de Todd Haynes, e achamos ótimo.

Há uma mistura de melancolia e tristeza que está presente no seu trabalho e também nas obras de quadrinistas norte-americanos como Seth, Adrian Tomine, Chris Ware e Daniel Clowes. Você vê esse padrão? Você consegue elaborar alguma justificativa para o predomínio desses temas?

Identifico que há um padrão, mas não sei ao certo qual é. Produto desse ambiente, quem sabe. Ou porque a vida solitária do quadrinista atrai certo tipo de pessoa. Gostaria de ser mais objetivo nesse aspecto, mas me parece difícil, se não impossível.

A capa da edição brasileira de Sabrina, publicada pela editora Veneta