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Entrevistas / HQ

Papo com João Pinheiro, autor de Depois que o Brasil Acabou: “Ser um país vermelho é nosso destino manifesto desde o nome”

Depois que o Brasil Acabou reúne trabalhos do quadrinista João Pinheiro publicados na revista Cavalo de Teta, na coletânea Na Quebrada – Quadrinhos de Hip Hop #1, no blog da editora Veneta, no programa Convida do Instituto Moreira Salles e outros títulos. São HQs e ilustrações produzidas pelo autor a partir do golpe contra Dilma Rousseff em 2016, centradas na ascensão de Jair Bolsonaro e no caos do Brasil em meio à pandemia do novo coronavírus.

“O recorte para o livro foi reunir essas HQs que tratam da vida social brasileira dos últimos cinco anos”, me contou o autor sobre a coletânea recém-publicada pela editora Veneta.

Pinheiro é autor de Kerouac, (2011), Burroughs (2015), Carolina (2016, em parceria com Sirlene Brabosa) e Diário Vagulino: Desenhos das Quebradas (2017). Depois que o Brasil Acabou consiste em registros das perspectivas e leituras de um dos autores mais relevantes da cena nacional de HQs sobre um país em crise crescente. São histórias curtas, com propostas e abordagens distintas de trabalhos prévios do autor, tanto trágicas quanto divertidas.

Na conversa a seguir, Pinheiro fala sobre suas inspirações, suas técnicas e suas avaliações sobre o Brasil contemporâneo. Saca só:

“Voltamos a ser uma colônia extrativista”

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas por aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

Estamos caminhando, é a resposta mais positiva que consigo dar. Ainda é difícil avaliar, mas parece acertado dizer que essa pandemia será um trauma coletivo para várias gerações. Aqui, aos poucos, fomos nos acostumando com a rotina de cuidados e restrições que, no meu caso, não foi tão alterada na questão do isolamento, já que trabalho a maior parte do tempo em casa há mais de dez anos. Em 2020 fiquei alguns meses paralizado, sem conseguir produzir, apenas trabalhando no necessário pra pagar as contas, mas sem ânimo pra criar nada pessoal. 

João, você pode contar um pouco sobre as origens de Depois que o Brasil Acabou? O álbum reúne trabalhos publicados por você apenas na internet ou em publicações de tiragens menores. Você já tinha em mente reunir esses trabalhos um dia? Qual foi o recorte, o filtro editorial de vocês, durante o processo de edição desse livro?

A origem foi a criação do zine Cavalo de Teta, que começou quando conheci pessoalmente meu ídolo Schiavon, em 2016, durante as manifestações dos book blocs, quando participei com meu escudo do Abajur Lilás, de Plínio Marcos, e o Schiva tava lá com o escudo que reproduzia a capa da revista Dundum número 1. Trocamos ideia e nos identificamos. Depois, quando da ocasião da Ugra Fest, que rolou no SESC Belenzinho, combinamos de fazer um zine, 12 páginas de cada e tal (ele mesmo escreveu sobre aqui). Na empolgação falei de chamar outros caras que eu acompanhava e curtia: Gerlach, Evandro Alves e MZK. Logo na primeira edição pensei no bordão: ‘Cavalo de Teta, a primeira revista pós-Brasil do mundo’. Infelizmente não era um exagero de retórica, pois o clima do golpe já estava todo lá e as garras do imperialismo já faziam sombra do Oiapoque ao Chuí. No entanto, as HQs foram sendo feitas sem a ideia pré-concebida de reuní-las no futuro. Eu estava com vontade de fazer histórias curtas, de experimentar abordagens diferentes e, ao mesmo tempo, de fazer uma revista que fosse divertida para quem lesse. O recorte para o livro foi reunir essas HQs que tratam da vida social brasileira dos últimos cinco anos. 

Página de Depois que o Brasil Acabou, obra de João Pinheiro publicado pela editora Veneta (Divulgação)

Você pode falar, por favor, sobre a escolha do título? Como vocês chegaram em Depois que o Brasil Acabou? Por que esse título?

Inicialmente eu havia sugerido esse título: Quadrinhos Pós-Brasil, porque era uma expressão constante que utilizei durante esse último período pra divulgar a Cavalo de Teta. Porém, o Rogério [de Campos, editor da Veneta] sugeriu Depois que o Brasil Acabou, e eu achei que soava melhor e amarrava bem o conteúdo geral da coletânea. Batemos o martelo nessa segunda opção. Para mim o título não é uma hipérbole, pois acho que realmente deixamos de ser um país oprimido, mas com algum desenvolvimento econômico autônomo, para nos tornarmos uma neocolônia dos EUA e demais países dominantes do capitalismo. 

Aliás, você consegue estabelecer algum ponto específico na nossa história em que esse pós-Brasil tem início? Em meio aos vários ocorridos trágicos recentes, você consegue estabelecer algum fato ou conjunto de eventos em particular que impulsionou a chegada da nossa atual realidade?

A história recente do Brasil é complexa e seriam necessários vários volumes pra dar conta de tantos golpes sucessivos aplicados contra o povo somente nessa quadra histórica que abrange o final da ditadura militar, em 1985, e a chamada Nova República até os dias atuais. Mas resumidamente, e sem querer defender tese sobre o assunto, apenas como um cidadão de 40 anos que presenciou isso tudo da periferia dos acontecimentos, vejo que o povo derrubou a ditadura com as manifestações populares, greves, movimento estudantil etc… Acuados, a burguesia e os militares prepararam o primeiro golpe, que foi o de sequestro dessa luta pelas oligarquias e a consequente eleição indireta do cidadão chamado Tancredo Neves, avô do Aécio Neves, mas provavelmente mais eficaz na arte de realizar maldades contra o povo por ser um homem dos militares e do poder econômico. Daí esse cidadão teve um piripaque providencial e quem assumiu foi o líder dos militares no congresso: o ilmo. sr. José Sarney, que tinha sido o líder do Arena – principal partido militar. Transição melhor que essa não poderia existir, do ponto de vista dos militares é claro. Em seguida, a burguesia fabricou o Collor, com todo seu poder financeiro e midiático, e foi aquele desastre que conhecemos.  Após o governo Itamar, finalmente Fernando Henrique eleito, começa a implementação da política neoliberal que deu início às privatizações de várias estatais importantes seguindo as orientações do Consenso de Washington e FMI. Ali começa verdadeiramente a liquidação do país que levou milhões de brasileiros à fome e liquidou parte substancial da indústria nacional que vinha sendo construída pelo menos desde os anos 1930.

No início desse século o país estava em pedaços e milhares morriam de fome. Nessa situação, o Partido dos Trabalhadores assumiu o governo em 2003 e, através de uma série de programas sociais, conseguiu conter a explosão social que já ocorria concomitantemente nos países vizinhos da América Latina, como resposta desses povos por problemas muito semelhantes. Com algumas concessões, o governo petista conseguiu governar por três mandatos, mas após a crise capitalista de 2008, os capitalistas nacionais e internacionais viram a necessidade de retomar a sanha privatista a fim de salvar o capitalismo agonizante. Ou seja, a alternativa deles diante da crise, foi fazer com que os países pobres do globo paguem a conta da crise. O golpe de 2016 foi dado para retomar essa política iniciada lá atrás de liquidação do país e para os golpistas do momento a ordem é privatizar tudo, liquidar o país. Estão conseguindo. A aprovação do teto de gastos, da autonomia do Banco Central, a retirada de direitos dos trabalhadores etc… Tudo configura a perda total de nossa soberania. Voltamos a ser uma colônia extrativista. 

Acho que Depois que o Brasil Acabou é uma grande amostra da sua versatilidade, tanto em termos de estilo de desenho quanto em termos de investidas em diferentes gêneros. Fico curioso em relação aos seus critérios para optar por uma ou outra abordagem e estabelecer esse ou aquele traço para uma determinada HQ. Como funciona esse processo para você?

Eu sou mais fascinado pela linguagem dos quadrinhos do que por algum estilo, autor ou gênero específico. Acho que ideias são mais legais de seguir do que um estilo. Nos meus diários gráficos sempre experimentei com diferentes abordagens e quando decidi fazer histórias curtas para publicar na Cavalo, achei que era uma boa oportunidade de colocar pra jogo essas propostas diferenciadas. No geral procurei me manter mais fiel a ideia, e ao que determinado argumento pedia, do que a um estilo específico. 

“Acho que ideias são mais legais de seguir do que um estilo”

Página de Depois que o Brasil Acabou, obra de João Pinheiro publicado pela editora Veneta (Divulgação)

Você pode me falar um pouco sobre as suas técnicas preferidas? Quais são os materiais que você costuma usar com mais frequência? Há alguma técnica predominante nos seus trabalhos em Depois que o Brasil Acabou?

O que eu mais gosto é do bico de pena e nanquim sobre papel Bristol. Mas nesse livro temos algumas histórias que foram desenhadas totalmente no computador.

Tem dois trabalhos seus em Depois que o Brasil Acabou com a presença de cores. São cores discretas e usadas com parcimônia, mas estão lá. A maior parte dos seus trabalhos publicados até hoje é em preto e branco. Você tem alguma preferência em particular pelo preto e branco? Como foi essa experiência trabalhando com cores?

Sempre preferi os quadrinhos em preto e branco. Um dos primeiros gibis que lembro de ter lido, foi um do Conan do meu irmão mais velho. Era desenhado pelo John Buscema, com toda aquela elegância que lhe é característica. Depois tiveram as revistas nacionais que em sua imensa maioria eram em PB também. É meio que minha escola. Sei que naquela época as publicações também eram publicadas desse modo por questões econômicas, mas como essas histórias a que você se refere, foram feitas para serem publicadas na internet, aproveitei para usar esse recurso a mais onde auxiliasse a narrativa. 

E é fácil para você alternar os seus “modos de produção”? Digo, é tranquilo para você ir do “João galhofeiro e bem-humorado” de alguns desses trabalhos para o “João mais reflexivo e sóbrio” de outros? A experiência de produção para você é muito distinta, por exemplo, quando você está trabalhando em uma Cloro Maldita de uma Farol de Quebrada?

Sim, porque, na verdade, na infância e na adolescência, eu fazia mais HQs de humor do que ‘sérias’. Meu estilo era mais cartum, mas depois que publiquei meu primeiro livro, um estilo mais realista passou a prevalecer. Até agora. 

Página de Depois que o Brasil Acabou, obra de João Pinheiro publicado pela editora Veneta (Divulgação)

O que mais te interessa hoje na linguagem das histórias em quadrinhos?

Eu sou completamente tarado pela linguagem das histórias em quadrinhos. Os desenhos separados por quadros ou não, o balão e as letras que funcionam como desenhos também, a leitura muito rápida desses vários elementos. Tudo isso é fascinante. Mas o principal é contar histórias.

Acho que Depois que o Brasil Acabou faz um panorama e um registro muito precisos do Brasil pós-golpe. Você fez quadrinhos sobre os golpistas logo após o golpe, escreveu sobre o Temer enquanto ele estava no poder, tratou do início do governo Bolsonaro com ele em curso e fez trabalhos sobre a pandemia ainda no começo dela. Como é para você a experiência de produzir todos esses trabalhos no calor do momento? 

Ao mesmo tempo, me angustia e me obriga a refletir e pesquisar pra tentar entender o que aconteceu. Parafraseando o cineasta Jeferson De: só de raiva, desenho com amor. 

Página de Depois que o Brasil Acabou, obra de João Pinheiro publicado pela editora Veneta (Divulgação)

João, você consegue fazer alguma previsão para o futuro do Brasil? Você consegue vislumbrar alguma perspectiva de melhora para o país?

É muito difícil prever essas coisas que dependem de muitos fatores, mas sim, acho que o povo um dia vai fazer a revolução no Brasil. E pra desespero dos lunáticos direitista só digo o seguinte: Brasil significa Vermelho como uma brasa. Ser um país vermelho é nosso destino manifesto desde o nome. 

No que mais você está trabalhando no momento, João? Você tem algum outro quadrinho em vista para um futuro próximo? Alguma perspectiva para um possível novo número da Cavalo de Teta?

Estou finalizando uma adaptação da peça Barrela, de Plínio Marcos, para os quadrinhos e minha HQ A Tragédia dos Cães até o final deste ano. Inclusive, a HQ dos Cães tem um site onde pretendo publicar o processo e extras periodicamente.

Eu gostaria muito de fazer uma nova edição da Cavalo de Teta. Se sobrevivermos, vou tentar convencer meus parceiros pra fazermos algo pro ano que vem. 

Você pode recomendar algo que tenha visto, ouvido ou lido recentemente?

Tenho lido HQs brasileiras dos anos 70/80, principalmente de terror. Redescobri uma caixa de HQs antigas com trabalhos do Elmano Silva, Mozart Couto, Shimamoto, Flavio Colin, E.C. Nickel, Watson Portela, Rodolfo Zalla, Jayme Cortez, Eugênio Colonnese… Foi incrível relê-los tantos anos depois e perceber o quanto estão impregnados no meu trabalho sem que eu me desse conta. Também estou lendo toda a obra do William Blake e sua biografia, além de textos sobre as seitas gnósticas do início da era cristã. É um tema fascinante. 

A capa de Depois que o Brasil Acabou, obra de João Pinheiro publicado pela editora Veneta (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Chris Ware, autor de Rusty Brown: “A empatia é o sentido mais importante que o ser humano pode aperfeiçoar; é o único ‘superpoder’ que temos”

Doze anos após o lançamento de Jimmy Corrigan – O Menino Mais Esperto do Mundo em português, Rusty Brown é apenas o segundo álbum do quadrinista norte-americano Chris Ware publicado no Brasil. Recém-lançado pela editora Companhia das Letras, em tradução de Caetano Galindo, o título é uma das publicações mais importantes do mercado brasileiro de HQs em 2021.

Entrevistei Ware e transformei essa conversa em matéria para o jornal Folha de S.Paulo. Você lê o meu texto clicando aqui. Foquei esse meu novo papo com o autor nas percepções dele sobre quadrinhos como uma “arte da memória”. Ele também me falou sobre sua busca constante por empatia, refletiu sobre os paralelos vistos por ele entre HQs e música e contou sobre suas práticas atuais de carpintaria e escultura.

Deixo aqui o link para a minha matéria para a Folha e o link para a minha primeira entrevista com Ware – para a revista Galileu, em 2013. Reproduzo a seguir a íntegra dessa minha segunda conversa com o autor (traduzida pelo jornalista, pesquisador e tradutor Érico Assis):

“Nunca ‘vemos’ o mundo, mas, de certo modo, estamos sempre nos lembrando do mundo”

Página de Rusty Brown, obra de Chris Ware publicada no Brasil pela editora Companhia das Letras (Divulgação)

Você uma vez disse que pensa histórias em quadrinhos como “uma arte da memória” e que tenta expandir essa concepção em quase tudo o que faz. Você pode falar um pouco mais sobre essa sua percepção de quadrinhos como “uma arte da memória”? O que você quer dizer com essa expressão? Como você se propôs a explorar esse conceito em Rusty Brown?

Na época do colégio, eu sentava lá no fundão e deixava minha mente viajar, pensando em quanto tempo a luz leva para percorrer o espaço e me dando conta de que, somando esse tempo ao tempo que meu cérebro leva para processar a informação que entra pelos meus olhos, o que eu entendia como “presente” já tinha acontecido há um tempo e, enquanto isso acontecia, “o futuro” já estava rolando. Também me dei conta que, por conseguinte, o que eu via era uma construção, no mínimo uma reformulação sintética da coisa, pois, na prática, já era memória. As pesquisas atuais da neurociência sugerem que o que entendemos como “memória” sempre é uma espécie de reconstrução, uma maçaroca teatralizada que junta uma coisinha aqui e outra ali a partir da experiência, mas resumida e armazenada em forma de linguagem. E quando eu falo que ela é “distorcida”, quero dizer que pensamos em conceitos e, assim, também vemos em conceitos; a ideia que temos de um “abajur”, por exemplo, influencia a informação que o nosso cérebro vai processar como abajur, tanto quanto o que o cérebro percebe do abajur na nossa frente. Estas sensações ficam mais evidentes quando nos envolvemos com uma obra de arte potente e ela ‘muda o jeito como vemos o mundo’. Em outras palavras, nunca ‘vemos’ o mundo, mas, de certo modo, estamos sempre nos lembrando do mundo. Os quadrinhos se abastecem deste sumário da sensação e da sua reformulação sintética, mas viram a coisa do avesso e transformam em expressão. (Se é que isso não soa um absurdo de pedante; desculpe.)

Quando tinha uns 7 ou 8 anos, minha filha disse que estava furiosa com os meninos que só viam máquinas do tempo como trecos metálicos cheios de controles, botõezinhos e luzes. Ela achava imbecil porque todo mundo tem uma Máquina do Tempo: “A máquina do tempo está dentro da sua cabeça! Na sua mente, você pode ir aonde quiser!” A diferença entre imagens que vemos e aquelas em que “pensamos” é uma coisa difícil de descrever e de classificar; nunca paramos para ver as coisas enquanto olhamos, e o que olhamos na nossa mente pode ser diferente, se é que não apaga totalmente o que estamos vendo. Acho que é tipo não prestar atenção no professor da sétima série.

“O jeito mais fácil de ter empatia é me esforçar para entender e ver a pessoa de todos os ângulos”

Página de Rusty Brown, obra de Chris Ware publicada no Brasil pela editora Companhia das Letras (Divulgação)

Já li uma entrevista sua na qual você aponta paralelos entre quadrinhos e música. Um colega seu, o Sr. Seth, já apontou paralelos entre quadrinhos e poesia. De alguma forma, acredito que vocês estão falando de coisas parecidas que dizem respeito a ritmo, composição e o impacto desses elementos nos leitores. Como essa sua interpretação impacta o desenvolvimento dos seus quadrinhos?

Sempre que eu tento falar de música e quadrinhos, tento chegar na sensação inefável do que os quadrinhos produzem na minha mente, que eu penso como uma espécie de “música silenciosa”, que capta os ritmos do gestual humano que ‘ouvimos’, inconscientemente, quando vemos a pessoa se movimentar, algo similar ao que entendemos como música e, acho eu, retoma a experiência do mundo que pode ser até pré-linguística, quando nos comunicávamos por gestos e urros – música e dança, basicamente. Contradizendo a minha filha só um pouquinho, se pudéssemos mexer nos controles e nas luzinhas da máquina do tempo metálica e voltássemos aos tempos das cavernas, acho que íamos encontrar os peludos corcundas um cantando pro outro. A música é uma coisa tão profunda e essencial, tão inexplicável, que acho que ela se vincular a uma que coisa que foge à razão, primordial e, no mais, inexplicável.

Vejo nos seus quadrinhos um empenho constante em apresentar diferentes perspectivas de uma mesma personalidade e diferentes pontos de vista sobre um mesmo evento, às vezes até de toda uma vida. Penso na empatia que sinto pelo Jordan Lint, por exemplo, ela vem toda da passagem de Rusty Brown dedicada a ela. Você se propõe a instigar esse sentimento de empatia dos seus leitores ao explorar todas essas perspectivas?

A empatia é o sentido mais importante que o ser humano pode aperfeiçoar; é o único ‘superpoder’ que temos, e quando a pessoa é quadrinista, artista, escritora, música ou mecânica de automóveis (uma coisa tão importante quanto artista ou escritor), a pessoa sempre tem que tentar entender os outros do jeito mais refinado e clemente que puder. É coisa para a vida toda, que não dá para desistir se quisermos superar nosso histórico vergonhoso de violências, imposições e insensibilidades. Sendo escritor, acho que o jeito mais fácil de ter empatia é me esforçar para entender e ver a pessoa de todos os ângulos (e isso é o oposto do que o Twitter tende a nos incentivar, e é por isso que eu odeio o Twitter.)

“A linguagem dos quadrinhos em si também anda se provando mais resistente e expressiva e abrangente do que eu achei que fosse”

Página de Rusty Brown, obra de Chris Ware publicada no Brasil pela editora Companhia das Letras (Divulgação)

Você trabalha principalmente com papel e tinta e também com capintaria e esculturas. Por que essa sua abordagem tão artesanal para os seus trabalhos? O quanto você acredita que essa abordagem tão “antiquada” para os seus trabalhos determina o desenvolvimento das suas criações? O quanto você acha que ela determinou o desenvolvimento de Rusty Brown?

Tem alguma coisa na sensação de se sentar à mesa, olhar para a folha em branco e imaginar lugares e pessoas que não existem ou não existem mais que pode ser cansativo e deprimente às vezes. Quando se trabalha com madeira ou ‘construindo coisas’, a necessidade de solucionar problemas, a meu ver, é o antídoto perfeito para a opressão da prancheta. E acontece tanta autoanálise quando eu boto o lápis no papel que a parte tátil de medir e encaixar as coisas na madeira elimina grande parte, talvez até erradique, completamente, essa matutação corrosiva. Além do mais, esculpir é simplesmente mais divertido. Eu ando fazendo umas besteirinhas mais experimentais que combinam o processo do nanquim e o de ler quadrinhos a objetos, um tanto inspirado na obra do Saul Steinberg e em umas bobeiras que eu pensei quando estava cursando artes, há mais de 30 anos. São muito mais divertidas de se trabalhar do que só desenhar histórias.

O que mais te interessa hoje na linguagem das histórias em quadrinhos? O quanto esse interesse se faz presente nos seus trabalhos mais recentes e em suas próximas publicações?  

Bom, para começar, hoje tem mais artistas que pensam a fundo e que são experimentais fazendo quadrinhos do que já houve na história da mídia. Ou seja, os quadrinhos estão mais vivos do que nunca e esses artistas, ou os melhores desses artistas, estão tentando chegar num resultado genuíno, que emociona, em vez de só querer fama e trocados. A linguagem dos quadrinhos em si também anda se provando mais resistente e expressiva e abrangente do que eu achei que fosse; quando era mais moço, eu só queria saber se ia conseguir me fazer sentir e, com sorte, fazer o leitor sentir alguma coisa que não uma diversão bobinha. Fiquei muito surpreso em descobrir que quadrinhos conseguem transmitir não só tristeza, mas também tudo que existe entre diversão e tristeza. Por fim, como eu já falei várias vezes, quadrinhos são uma arte descartável baseada na reprodução, de modo que, em essência, são lixo. Este status cultural permite uma conexão direta, sincera, com o leitor, exatamente o oposto da honestidade que a pessoa tem diante das artes plásticas, que sempre enxergamos por trás de uma gaze de teoria e notoriedade, quando não a pessoa se dando conta da sua ignorância em história da arte. Pelo menos essa é a minha experiência no geral; é provável que outras pessoas sejam bem ajustadas.

A capa da edição brasileira de Rusty Brown, obra do quadrinista Chris Ware publicada em português pela editora Companhia das Letras (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Ciro Inácio Marcondes, autor de ZIP – Quadrinhos & Cultura Pop: “O novo só vem se olharmos adequadamente ao passado”

ZIP – Quadrinhos & Cultura Pop (Editora Metrópoles) é o primeiro livro do crítico e pesquisador Ciro Inácio Marcondes, um dos editores do blog Raio Laser. Uma das principais referências nacionais em termos de reflexão sobre histórias em quadrinhos, Marcondes reuniu na obra 70 dos principais textos da coluna homônima ao livro publicada durante três anos no portal brasiliense Metrópoles. A obra não se limita a tratar de HQs, mas quadrinhos são o principal foco de suas 352 páginas.

Fui leitor assíduo de Marcondes ao longo de seu período publicando a ZIP, assim como sempre acompanhei o trabalho dele no Raio Laser – inclusive mediei a edição especial do podcast Lasercast celebrando o aniversário de 10 anos do blog, já ouviu? Por isso ressalto a importância da coletânea da ZIP não apenas por seu registro da história recente dos quadrinhos lançados no Brasil, mas principalmente pelas ideias e análises singulares apresentadas por seu autor.

Bati um papo com Marcondes sobre ZIP – Quadrinhos & Cultura Pop. Entre outros temas, falamos sobre o ponto de partida da coluna, a edição do livro, a relação de quadrinhos com outras linguagens, a crítica brasileira especializada em HQs e os principais focos de interesse dele hoje em termos de gibis. Conversa bem legal, saca só: 

“O projeto ZIP certamente foi bem além do que eu havia despretensiosamente imaginado no início”

O livro ZIP é uma coletânea dos textos da coluna ZIP, que você publicou no Metrópoles durante três anos. O Metrópoles é um site de grande circulação e alcance. Você pode contar, por favor, como surgiu a coluna? Qual foi a encomenda feita a você para a coluna?

Quando comecei a ZIP em 2017, já fazia a Raio Laser desde 2011. E a Raio Laser era um blog (ou espécie de revista eletrônica), como é até hoje, que buscava pensar quadrinhos de forma ampla e aprofundada na medida do que fosse possível. Mas a Raio era conhecida também sobretudo por ser de autores de Brasília (por exemplo eu, Pedro Brandt e o Lima Neto), que cobria bastante a cena local. E talvez nem todos saibam, pois hoje o Metrópoles é nacional, mas ele fica sediado em Brasília. Eu dou aula em cursos de Comunicação aqui no Distrito Federal há mais de 10 anos, e venho de uma família de jornalistas. Então conhecia bastante gente que trabalhava no Metrópoles, incluindo ex-alunos meus, entusiastas do meu trabalho na Raio Laser. Daí tive a ideia de propor uma coluna (ou um dos “blogs”, que existem até hoje) que fosse uma espécie de “Raio Laser light”. Pra quem conhece a Raio, sabe que a gente faz um trabalho de texto muitas vezes inviável para qualquer meio mais comercial ou de grande alcance. Textos muito longos, às vezes muito idiossincráticos ou acadêmicos. Então propus a eles que fosse uma coluna voltada mais aos fenômenos mainstream da cultura pop (tipo super-heróis, séries, desenhos animados), com tom mais iniciático, porém sem perder o rigor que sempre me coube nos meus outros trabalhos. Essa era a proposta inicial, que foi acatada. Na medida em que a coluna foi evoluindo, no entanto, acabei mudando um pouco o escopo e adensando as análises. 

E como foi para você a experiência de levar a ZIP ao longo desses três anos? O fato de ser uma coluna em um portal noticioso, sobre generalidades, determinou de alguma forma o conteúdo dos seus textos e a sua escrita?

A experiência foi excelente, eu diria que a melhor possível. Às vezes me pegava pensando “devo ser um dos únicos caras do Brasil que de fato tem um salário pra escrever semanalmente sobre quadrinhos”, o que me deixava bastante surpreso. Eu escrevo em sites, sobre coisas diversas (como cinema, música, etc.) desde o início dos anos 2000, e sempre tive muita disposição pra esse negócio de texto, coluna, opinião, etc. Foi por isso que fundei a Raio Laser. Como eu disse na resposta anterior, a ZIP acabou se transformando com o tempo, foi ficando mais “quadrinhos além” (como é o lema da Raio), mas isso não significa que eu não fosse limitado pela natureza jornalística do Metrópoles. Meus textos eram editados, muitas vezes cortados, quase todos os títulos que eu dava eram trocados, e às vezes eu era simplesmente pautado. Eu entendia que esse era o processo de qualquer redação jornalística, então não chegava a ser nada traumático. Também, como sou professor universitário, muitas vezes meu tempo ficava muito curto, e eu tinha que escrever esses textos na pressão de uma ou duas horas. O livro resgata os textos tal que eu os concebi originalmente, e eles são ampliados por notas de rodapé.

Os textos do Ciro pesquisador não são os mesmos do Ciro da Raio Laser, que também são diferentes do Ciro da ZIP. É fácil para você transitar nesses diferentes ambientes? Você consegue ligar e desligar com tranquilidade a chave para cada “modo Ciro” de escrita em função dos espaços que está ocupando e do que você está se propondo a fazer?

Como eu disse, escrevo desde muito cedo. Há ainda outros modos, como “Ciro escritor”, “Ciro poeta”, etc. Uma coisa que está na minha tese de doutorado é que cada forma de pensar é uma frequência na mídia invisível da razão, e eu tenho plena consciência de que preciso mudar essas frequências quando devo escrever em outro registro intelectual. Um texto para a Raio Laser é rigoroso, mas é uma navegação longa e sem muitas interrupções de um “superego”, digamos assim. Ali eu escrevo absolutamente tudo o que quero, em termos de estilo e conteúdo, sem me preocupar com mais nada. Na ZIP eu tinha uma série de limitações, como tamanho (me pediam no máximo 1,5 páginas, mas eu quase sempre ultrapassava), a popularidade do tema, a clareza na comunicação, etc., mas eu sempre procurei usar isso como obstruções úteis, justamente para testar essas outras frequências. Já um texto acadêmico é uma espécie de edifício intelectual que você constrói, extremamente rigoroso, lapidado obsessivamente, e submetido a muitos critérios.

Acho que filmes, quadrinhos, desenhos animados, livros, música e arte fazem parte da mesma família

Estudos de Pedro D’Apremont para a capa de ZIP – Quadrinhos & Cultura Pop, de Ciro Inácio Marcondes (Divulgação)

A coluna e o livro são principalmente sobre quadrinhos, mas não exclusivamente sobre quadrinhos – e acho que isso reflete um pouco do interesse público crescente em HQs e da percepção de quadrinhos como parte da indústria do entretenimento. Como você vê essa mudança de olhares leigos em relação aos quadrinhos? Aliás, você vê essa mudança?

Quadrinhos sempre fizeram parte de fenômenos transmídia, isso não é nenhuma novidade. Aliás, estou saindo agora para fazer um pós-doutorado em que vou procurar verificar como ocorriam estas interfaces ainda no final do século XIX e começo do século XX. De que maneira quadrinhos e cinema, por exemplo, já se comunicavam diretamente no nascedouro das formas modernas destas mídias? Séries, por exemplo, não são novas: já eram exibidas nos cinemas na década de 1910, e eram muito populares. Escrevi muito sobre as incríveis séries fantásticas de Louis Feuillade na minha tese de doutorado. Acho também que as pessoas perderam um pouco a noção da popularidade que alcançavam por exemplo aquelas séries antigas do Flash Gordon, Superman do George Reeves, etc. Portanto, acho que, mais do que uma mudança, há um continuum, que se exponenciou com as proporções colossais que a indústria do entretenimento alcançou na era do neoliberalismo, dos grandes conglomerados de mídia. Porém, eu particularmente não gosto de pensar as coisas de forma compartimentada. Imagem e texto são coextensivos. Acho que filmes, quadrinhos, desenhos animados, livros, música e arte fazem parte da mesma família.

Quando e como surgiu a ideia para o livro? Qual foi o seu filtro para os textos que entrariam e ficariam de fora da edição? Como foi o processo de edição do livro?

Chega a ser irônico, porque, afinal, a coluna foi cancelada em 2019, mas eu e o Pedro Brandt (da Raio Laser) achávamos que, no final das contas, um material rico tinha emergido da ZIP, e sabíamos que o Metrópoles tinha um editora nova interessada em publicar material dos autores do próprio portal. Então, propusemos isso ao Luiz, editor-chefe, e colocamos o Pedro Brandt como coeditor. Acho que vendemos bem o peixe, porque o projeto foi aceito, mas tocado um tanto lentamente. Lá se vão dois anos desde que começamos a trabalhar no livro. O principal filtro para selecionar os textos era o texto em si. Se ele não tivesse uma certa graça (às vezes literalmente), ou não fosse uma análise bacana, bem refinada, acho que não valia a pena. Era preciso que o livro mantivesse a intenção de ser iniciático, para o leitor novo (intenção que havia na coluna), mas também que minhas marcas enquanto crítico se mantivessem. Muitos textos eram pautas quentes, entrevistas, etc., e tudo isso foi limado. Textos de fraca inspiração, ou que fossem sobre um assunto muito local ou desinteressante, também saíram. Depois, com os 70 textos selecionados, pensamos que eram tantos gêneros, movimentos e autores, que valia a pena tentar costurar algum tipo de narrativa, tirá-los de ordem cronológica, refazer tudo em um sentido mais livresco mesmo. Daí veio a divisão em seis capítulos, e escrevi uma introdução especial para cada um deles.

“O que mais me interessa em termos de quadrinhos hoje é o passado”

Estudos de Pedro D’Apremont para a capa de ZIP – Quadrinhos & Cultura Pop, de Ciro Inácio Marcondes (Divulgação)

Você pode falar um pouco, por favor, sobre a concepção da capa do livro? O Pedro D’Apremont é um colaborador de longa data da Raio Laser. Por que chamá-lo para fazer a capa do livro? Qual foi a encomenda que você fez a ele para essa arte? Como foi a dinâmica entre vocês até chegar na arte final?

Conheço o Pedro D’Apremont desde 2013, quando fui seu professor na disciplina “Oficina de Histórias em Quadrinhos” na Faculdade de Comunicação da UnB, quando fiz estágio docente lá. Curiosamente nesta mesma turma estavam outros quadrinistas que hoje têm dimensão nacional, como Lovelove6, Lucas Marques e Diana Salu. Fiz muitos amigos nesta turma, e Pedro foi um deles. É um cara inteligentíssimo, que me apresenta inúmeras referências legais de tudo quanto é tipo de coisa, e me coloca num outro radar. Além disso, é um artista que evoluiu, digamos, gargantuescamente nestes anos. Ele é um mestre em processar suas referências sem que elas transpareçam ou pareçam cópias de outras coisas. Acho o estilo dele o mais, digamos, “cool” do quadrinho brasileiro atual. Seu traço tem uma pegada que lembra os indie comics americanos, mas ao mesmo tempo é bem brasileiro, e bem brasiliense. Tipo uma mistura de Daniel Clowes com black metal e uma pitada de Legião Urbana (foi mal Pedro!). O desenho dele tem essa coisa esperta e “low profile” que faz parte da cultura daqui de Brasília. Acho que combina com meus projetos. Ele ilustrou camisetas nossas, o banner atual da Raio, inúmeros cartazes, etc.

Para a capa do livro, primeiro eu pedi pra ele pensar livremente, que tivesse suas próprias ideias, a partir do que entendia do projeto. Ele pensou muitas coisas loucas, e fez vários rafes. Cada ideia parecia melhor que a outra, e foi difícil chegar nessa capa final. Lembro que ele sugeriu uma ideia que parodiava a clássica capa “elétrica” da Zap comix, só que comigo como personagem, e escrito “ZIP”. Em outra, ele propôs desenhar o Ignatz (do Krazy Kat) tacando um tijolo na minha cabeça, com a onomatopeia “zip”, que era típica desse quadrinho, como título. Genial! Creio que a capa final, com esse aspecto meio “Steve Ditko”, foi coletivamente pensada por mim, por ele e pelo Pedro Brandt. Muita coisa nessas concepções depende de com sai no rascunho, e lembro que desde sempre o rascunho da capa final nos impressionou muito: dava pra demonstrar a introspecção do trabalho, botar uns easter eggs, revelar meus malditos vícios, etc. Sou muito grato ao Pedro D’Apremont porque ele teve de retrabalhar essa capa milhões de vezes.

E como foi a sua experiência concebendo e desenvolvendo o livro? Qual balanço você faz desse “projeto ZIP” (entre o início da coluna e a publicação do livro)?

Esse é o meu primeiro livro. Estou muito feliz com ele. Foi extremamente trabalhoso chegar ao resultado final especialmente porque, além de tocar a Raio Laser, o Lasercast e participar de projetos em cinema e quadrinhos, eu sou professor universitário. E este é um trabalho que consome muito tempo e energia, e é um trabalho de imensa responsabilidade. Então o projeto do livro foi sendo gestado lentamente, quando dava, mas ele acabou sendo acelerado nos últimos meses justamente porque eu precisava lançar antes de sair do Brasil, no começo de setembro, para fazer esse pós-doc. O projeto ZIP certamente foi bem além do que eu havia despretensiosamente imaginado no início. Não posso reclamar, é uma grande alegria deixar alguma contribuição ao mercado editorial de quadrinhos do Brasil. O que eu aprendi com ele é isso que aprendo em quase todos os meus projetos: sementes plantadas lá atrás germinam coisas bonitas lá na frente. A vida é um jogo de paciência. Requer, ao mesmo tempo, uma combinação de planejamento e aleatoriedade, de foco, rigor, e espontaneidade, despretensão. Mas ei! Quem disse que o projeto acabou? Talvez haja mais novidades… 

Você já escreve e pesquisa sobre quadrinhos há alguns anos. O quanto o seu interesse sobre HQs mudou ao longo dos anos? O quanto o seu foco de estudos e interesses mudou do início de sua vida profissional/acadêmica com HQs até os dias de hoje? O que mais te interessa hoje em termos de histórias em quadrinhos?

Quando lancei a Raio Laser em 2011, achava que o conteúdo sobre quadrinhos na internet era essencialmente jornalístico, muitas vezes amador. Não que eu não fosse também amador, mas o slogan “quadrinhos além” servia pra gente procurar pensar os quadrinhos como fenômeno cultural complexo, de dimensões filosóficas, estéticas, sociológicas, etc. Terminei meu mestrado em 2008, e estava empolgado em empregar algumas coisas que havia aprendido nessa pesquisa (no caso, sobre cinema) também nessa função de escrever crítica de quadrinhos. Daí veio uma multidão de textos loucos  e erráticos, muitas vezes equivocados (outros ainda hoje certeiros), sobre quadrinhos e diversas outras coisas: filosofia, filmes, livros, etc. Sempre pensei a mim mesmo como um cara muito transdisciplinar. Tanto que eu me formei em Letras, fiz mestrado em literatura, doutorado sobre cinema, dou aula na Comunicação e tenho um livro sobre quadrinhos. Quem conhece minha trajetória como professor e pesquisador sabe que a coisa sobre a qual mais escrevi na vida foi cinema mudo. Então essas flutuações são sempre assim, e me interessam que sejam assim. Esta nova pesquisa de pós-doc tenta juntar tudo: comunicação, filosofia, cinema mudo, quadrinhos antigos, etc. E, como sempre, o que mais me interessa em termos de quadrinhos hoje é o passado. Ali é que está a verdadeira fonte da juventude. Num Pogo, num Li’l Abner, num Little Orphan Annie, num Bécassine, Les Pieds Nickelés, etc. Tenho lido os livros do Töpffer, absolutamente encantado. Aquilo ali já era romance gráfico! Se em algum momento pensarmos que os quadrinhos se estagnaram, basta voltar ao começo, às comic strips. Ali havia tantas invenções que a gente até se esquece de grande parte delas. Defendo isso também para o cinema, para a literatura, para a música, etc. O novo só vem se olharmos adequadamente ao passado. A prática da arqueologia das mídias.  

“A crítica e o jornalismo estão submetidos a uma lógica perversa, que é a das condições dadas para que os algoritmos deem visibilidade à sua produção de conteúdo”

Qual balanço você faz da crítica, do jornalismo e da produção de conteúdo especializado em quadrinhos no Brasil atualmente? Sei que é uma pergunta bem abrangente e generalista, mas você consome muito conteúdo sobre histórias em quadrinhos? E você gosta do que lê/ouve/assiste?

Olha, certamente está bem melhor que em 2011! Com certeza ainda somos muito pequenos, em qualquer dimensão que se olhe. Gravamos um Lasercast sobre isso com o Alexandre Linck, do Quadrinhos na Sarjeta, que tem uma entrada muito legal tanto com o público acadêmico, quanto com o público geral de quadrinhos, e discutimos muito os paradoxos da circulação de quadrinhos no Brasil hoje. Há muitos canais de Youtube e contas no Instagram, mas eu diria que 90%, não importa o público, não acrescentam nada aos seus ouvintes. A crítica e o jornalismo estão submetidos a uma lógica perversa, que é a das condições dadas para que os algoritmos deem visibilidade à sua produção de conteúdo. Uma lógica utilitarista, vinculada a uma mecânica de monetização e a uma autoexposição quase pornográfica da figura do jornalista, do crítico ou do youtuber. O texto, o conteúdo em si, importa menos que uma performance direcionada a uma sistemática de cliques que sabemos ser robótica e viciante. Além disso, há a perda do texto, que acho muito grave. Nossa sociedade foi estruturada na linearidade proposta pela lógica textual. A quebra desse paradigma com a digitalização de tudo tem ainda consequências imprevistas, mas não me parece estar indo num caminho legal, já que parecemos estar dando nossa intimidade de graça para corporações despidas de humanidade e que parecem oferecer muito pouco, socialmente, em troca. O texto é uma modalidade muito rica e complexa de pensamento (e é ridículo ter de ressaltar uma obviedade dessas), e perdê-lo, eu acho, leva a uma reação em cadeia de desinformação e suspeição em relação à realidade.

Mesmo assim, eu consumo sim muito do que é produzido em termos de circulação de informação sobre quadrinhos no Brasil. Há canais que fazem um grande serviço, como o próprio Quadrinhos na Sarjeta, o Ilha Kaijuu, o Formiga Elétrica, o Pipoca e Nanquim, etc. Sinto falta de uma tradição textual que já tivemos academicamente, ou mesmo de jornalistas que coloquem a crítica de quadrinhos dentro da chave da crítica cultural, como aqui no Brasil faz o André Forastieri em relação à música, ou o falecido Cid Nader fazia em relação ao cinema. A crítica como produção cultural. É por isso que valorizo muito o trabalho do Vitralizado, do Érico Assis, do Thiago Borges, do Ticiano Osório, do pessoal do Balbúrdia. Ou o de revistas como Plaf, Banda e Mina de HQ. Cada um desses, com suas iniciativas (muitas delas heróicas) faz resistir isso que acho que está sendo trocado por outra cultura, muito videográfica e digital, que tem proporções maiores, mas cujos resultados ainda são incertos para a cultura de quadrinhos e para o crescimento da mídia.

Você pesquisa e dá aulas sobre quadrinhos, tem um blog e um podcast sobre HQs e agora está publicando um livro. O que você ainda planeja fazer relacionado a quadrinhos que ainda não teve oportunidade para fazer?

Ora, essa é fácil! Fazer meus próprios quadrinhos! Eu não desenho, mas vivo bolando ideias de histórias, geralmente coisas meio megalomaníacas que envolvem surrealismo jodorowskyano, ficção científica subversiva e algumas coisas moralmente ultrajantes. Tem uns três romances gráficos na minha cabeça. Vamos se algum dia encontro uma pessoa louca o suficiente pra embarcar nessa comigo. Na minha adolescência eu escrevia muitos contos, e tem ali ainda algumas ideias que podem passar por um “revamp” e ficarem mais legais.

Qual a memória mais antiga da presença de quadrinhos na sua vida?

As minhas memórias mais antigas, curiosamente, estão associadas à minha própria produção infantil. Como eu era uma criança introspectiva, passava horas e horas de meus dias, durante anos, fazendo quadrinhos. Isso desde que eu tinha uns 7 ou 8 anos. Eram histórias bastante engraçadas, bem surtadas, de um jeito ao mesmo tempo cotidiano e surrealista, sobre dois irmãos extremamente idiotas e paspalhos. Desde pequeno sempre apreciei um humor muito sarcástico. Desenhar aquilo era a minha vida. Ninguém lia, mas a gente se envolvia naquela potência solipsista infantil. Foram anos de plena realização artística, que nunca precisei mostrar pra ninguém e nem dar continuidade enquanto adulto. Tudo se resolveu ali naquela prática que depois se transmigrou para outras coisas. Tem um texto sobre isso no livro, e é o meu favorito de todos.

A capa de ZIP – Quadrinhos & Cultura Pop, com arte de Pedro D’Apremont (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Joe Sacco, autor de Palestina: “O que os palestinos têm a favor deles, além de sua própria humanidade?”

Entrevistei o quadrinista e jornalista maltês Joe Sacco. O foco da conversa foi o relançamento de seu mais conhecido e celebrado trabalho no Brasil, o clássico Palestina, pela editora Veneta. A obra retorna às livrarias nacionais às vésperas do aniversário de 30 anos da viagem do autor ao Oriente Médio que serviu de base para a produção da HQ. Transformei essa conversa com Sacco em matéria para o caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo.

Compartilho agora a íntegra da minha entrevista com o artista. Conversamos por vídeo, com ele falando de sua casa em Portland, no estado norte-americano do Oregon.

Sacco refletiu sobre os 30 anos de Palestina; falou sobre o impacto da ascensão de líderes de extrema-direita no recrudescimento da ofensiva de Israel contra os palestinos; apontou paralelos entre o roubo de terras na Palestina, no Canadá e no Brasil; analisou os 10 anos da Primavera Árabe; e contou um pouco sobre o livro que está desenvolvendo sobre os Rolling Stones. Entre outros temas.

Recomendo a leitura de todos os títulos de Sacco. São grandes quadrinhos e excelentes reportagens. Leia (ou releia) a nova edição de Palestina, também o meu texto para a Folha e confira a íntegra da minha conversa com o autor:

“Israel serve a um propósito na dinâmica do poder, no contexto colonial”

Quadro de Palestina, HQ de Joe Sacco (Divulgação)

Palestina está sendo relançado no Brasil 21 anos após sua primeira publicação e 30 anos após o início da série nos Estados Unidos. Você vê muitas mudanças no conflito entre Israel e Palestina do início dos anos 1990 até o nosso presente?

Acho que piorou. É uma coisa muito infeliz de se dizer, mas acho que o livro Palestina ainda tem sua relevância porque a ocupação continua. Mas eu diria que tudo aumentou: o nível de violência aumentou, o número de colonos aumentou, e a ocupação se fortaleceu. E temos visto muitos indícios disso. As demolições de casas estavam acontecendo quando eu estava lá e estão se intensificando. Portanto, as pessoas ainda estão sendo expulsas de suas terras, e eu acho que o projeto final de remover os palestinos ou separá-los de alguma forma de suas terras continua.

Você vê algum impacto da ascensão recente de líderes de extrema-direita nos debates e no desenrolar dos conflitos entre Israel e Palestina nos últimos anos?

Muitos destes líderes de direita também são apoiadores ferrenhos das políticas israelenses. [Donald] Trump, obviamente, fez o que muitos presidentes norte-americanos falavam… Quando se está falando sobre o contexto norte-americano, quase todos os políticos apoiam bastante Israel e vão apoiar as políticas israelenses, e vão dizer exatamente as mesmas coisas. Trump apenas empurrou a coisa para onde já estava indo de qualquer maneira. Pode-se dizer que ele foi mais grosseiro ou mais brutal ou o que seja, mas também pode-se dizer que ele representa algo que é verdadeiramente norte-americano e estava sempre indo nessa direção. Bolsonaro também é um amigo de Israel; Modi [Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia] é um amigo de Israel; Orbán [Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria] é um amigo de Israel; talvez Erdogan [Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia] nem tanto; mas sim, é uma ascensão da direita e a ascensão de certa brutalidade na política. E isso sempre me faz pensar que, no contexto dos Estados Unidos, o período de, digamos, o início dos anos 1970 até meados dos anos 1980 foi uma espécie de bolha em que vivemos. Achamos que as coisas iam ficar mais tranquilas. Políticas públicas tendiam a ajudar mais as pessoas. E acho que estamos vendo algo diferente agora. Acho que vivíamos em uma bolha naquela época, e agora estamos apenas vendo a realidade do poder, como o poder se expressa e certamente como o poder tem se expressado no contexto de Israel e Palestina. Quero dizer, o que os palestinos têm? O que eles têm a favor deles, além da humanidade deles? A humanidade deles simplesmente não funciona neste contexto, ou certamente não funciona com aqueles que estão no poder. Israel cumpre certas funções para os Estados Unidos. Israel meio que se colocou no papel, como Biden disse, de basicamente ser nosso porta-aviões no Oriente Médio. É um aliado dos Estados Unidos. Quero dizer, não é apenas o lobby aqui, ou o forte apoio dos cristãos evangélicos. Claro, tem muito a ver com isso. Mas na verdade tem a ver com o fato de que Israel serve a um propósito na dinâmica do poder, no contexto colonial.

“Há aspectos do poder que sempre vão atuar contra pessoas que pensam nas coisas de uma maneira mais ampla”

Página de Palestina, HQ de Joe Sacco (Divulgação)

Já vi o seu trabalho descrito como humanitário. E nesse contexto atual de ascensão da extrema-direita e de toda essa brutalidade que você mencionou, vejo um predomínio de tudo que compreendo como oposto de humanitário ou humanista. Enfim, você vê alguma causa em particular para a ascensão dessas lideranças de extrema direita?

Essa é uma grande questão. Não tenho certeza se estou totalmente qualificado para respondê-la, mas diria que muita gente está sendo deixada para trás, e posso falar sobre o que conheço melhor, que são os Estados Unidos. Talvez se aplique a outros contextos, como até mesmo o seu. Mas nos Estados Unidos temos esse tipo de conceito liberal de que todos serão ajudados, todos serão puxados para cima. Você vai conseguir o seu plano de saúde, você vai conseguir isso, você vai conseguir aquilo. E na verdade, não tem funcionado assim. Se você olhar para as cidades norte-americanas – eu moro em Portland, Oregon, e o establishment aqui é totalmente democrata. Não é um establishment republicano. Está muito à esquerda ou é assim que eles se representam. Muito progressista, sabe, mas eles são muito brutais com as pessoas em situação de rua ou sem moradia. A polícia aqui é muito violenta. E, sabe, muitas pessoas estão realmente excluídas desse papo liberal. Elas estão realmente do lado de fora. E acho que foi isso que aconteceu nos Estados Unidos. Se você for para o meio dos Estados Unidos, os lugares estão fechados com tábuas. Não há empregos. A única comida é fast food, fast food gorduroso. Você tem que dirigir 45 minutos até um Wal-Mart, ou uma dessas grandes redes de lojas, para conseguir vegetais de qualquer tipo, e não os melhores vegetais, sabe. Então, é como se muitos lugares tivessem ficado para trás enquanto ouvíamos coisas como a retórica elevada de Barack Obama, sabe, como se tudo estivesse ótimo.

E no meu contexto em Portland, com meus amigos progressistas, tudo parece muito bom. Mas a realidade é que, para muita gente do lado de fora, não tem sido bom e elas são ignoradas e demonizadas, eu diria, pela mídia progressista. Eu não vou justificar a direita de forma alguma, mas há muitas pessoas que, se tivessem sido ajudadas, ajudadas de verdade, e se simplesmente não tivessem ouvido tanta retórica… Talvez as coisas fossem um pouco mais fáceis, um pouco mais tranquilas neste país, mas não são, porque muitas pessoas perderam suas casas. Muitas pessoas não têm emprego. Os salários são muito baixos. E um demagogo como Trump atrai essas pessoas, porque embora ele seja um milionário e nada parecido com essas pessoas, e provavelmente as deteste a portas fechadas, ele fala a língua delas. E acho que é o que funciona agora. Sabe, sobre o contexto brasileiro, não sei. Quero dizer, você olha para alguém como Bolsonaro, você nem consegue imaginar que alguém assim conseguiria chegar ao poder. Mas se você olhar para o que aconteceu com Dilma e Lula, eles foram tirados do poder. Não sei se você quer entrar na política brasileira…

Sim, claro. E eu concordo com você.

Sim. Quer dizer, eles [políticos de direita] jogam bem pesado. E alguém como Lula obviamente atrai muita gente. Mesmo assim, você pode encontrar maneiras de, se controlar certos aspectos do poder, tirar essas pessoas de lá. E mesmo no contexto dos Estados Unidos, alguém como Bernie Sanders, sabe, não o apoio cem por cento, mas acho que ele representava algo melhor. Mas mesmo o establishment do Partido Democrata garantiu que ele nunca chegaria perto da indicação [à candidatura democrata para a Presidência dos EUA]. E parecia que ele tinha uma chance. Mas, sabe, simplesmente há aspectos do poder que sempre vão atuar contra aquelas pessoas que pensam nas coisas de uma maneira mais ampla. Quer dizer, o poder funciona para certos interesses, sabe, quais são os interesses? Acho que essa é a grande questão. Quem está realmente por trás dessas pessoas?

“Quando as pessoas dizem que não vão sair, é aí que sinto esperança”

Página de Palestina, HQ de Joe Sacco (Divulgação)

O seu trabalho mais recente, Paying the Earth, também diz respeito a disputas territoriais. E aqui no Brasil também há um debate crescente sobre o roubo de terras indígenas. Crimes do tipo não são recentes, mas eles parecem estar sendo mais noticiados atualmente. Ou você acha que eles estão realmente se tornando mais frequentes ao redor do mundo?

Sim, é verdade. Temos essas fronteiras nacionais, digamos o Brasil, mas na verdade existe um projeto de colonização interna, assim como foi no Canadá. Você tem uma fronteira, Canadá, mas então você tem que realmente colonizar o Canadá e você tenta colonizar da maneira que puder. E a terra é e sempre será uma questão. Não vamos conseguir contornar a terra e o apego das pessoas à terra. E os paralelos que se podem ver entre o contexto palestino e o contexto dos povos indígenas no Canadá, no Brasil ou onde quer que seja, é que as pessoas que querem aquela terra, por qualquer motivo, seja um espaço para viver, para manter o seu próprio povo, como no contexto palestino; ou no contexto brasileiro, para derrubar florestas e plantar lavouras, soja, ou criar gado ou o que tiver lá; ou no contexto indígena no Canadá, pelos recursos, é a separação. Você tem que separar as pessoas de suas terras, e há maneiras de fazer isso: ou você as expulsa da terra ou as mata, ou faz uma combinação de ambos, ou tenta culturalmente separar as pessoas de suas terras, como fizeram no Canadá.

Não foi tanto um ataque explícito como tivemos nos Estados Unidos, ou uma série de ataques explícitos. Foi mais algo como pegar as crianças, colocá-las numa escola, quebrá-las, bater nelas quando elas falam suas próprias línguas; você corta qualquer relação delas com sua cultura. Então, quando elas voltam para suas casas, elas não podem mais falar a língua. E em um lugar onde as tradições são transmitidas oralmente, se elas não conseguem mais falar o idioma, elas não vão ouvir o que os anciãos têm a lhes dizer. Assim foi feito lá. Sabe, existem maneiras diferentes, existem maneiras mais sutis. E agora, claro, vemos no Canadá mais um reconhecimento do que aconteceu. Mas você pode passar gerações e gerações pensando “ah, bem, as pessoas indígenas estão nas escolas, isso é bom, elas vão aprender a ler e escrever”. Mas, sabe, há algo mais acontecendo. É um projeto. É um projeto para roubar a terra, obter o que está nela para seus próprios fins. Está acontecendo no Brasil, está acontecendo na Palestina, está praticamente concluído nos Estados Unidos e está acontecendo no Canadá.

E fico curioso, em meio a todos esses casos de extermínio e roubo de terra, você consegue se sentir de alguma forma otimista por um futuro melhor?

Sou otimista porque acho que as pessoas resistem. E acho que nunca podemos dizer que vamos chegar a um ponto em que vamos vencer. É uma luta constante. Você tem sorte se conseguir recuperar algo do que eles tiraram, mas eles sempre tentarão tirar mais de você. Apesar de tudo o que aconteceu com os povos indígenas do Canadá, você vê uma parte da população — algumas pessoas se sentem meio derrotadas, mas uma parte da população resiste, toma consciência, se apega à sua cultura, tenta encontrar força através da cultura. Você vê isso com os palestinos. Quero dizer, olhe o que está acontecendo [em referência aos protestos da população palestina que aconteceram em maio]. Ainda há resistência acontecendo. Os palestinos estão tentando fincar os pés na terra o máximo possível e eles basicamente estão dizendo “não vamos sair”. E quando as pessoas dizem que não vão sair, é aí que sinto esperança. Quando elas vão embora, quando elas se resignam, quando elas cedem, é aí que eu começo a perder a esperança. Mas ainda sinto que em todo o mundo as pessoas fincam os pés na terra. Até no Brasil existe uma reação. Mas é sempre uma luta, que estará sempre conosco.

“A Primavera Árabe foi uma decepção em muitos aspectos, mas ainda não sabemos as consequências dela”

Página de Palestina, HQ de Joe Sacco (Divulgação)

Falando sobre lutas e esperança, a Primavera Árabe completou 10 anos em 2021. Como você analisa esse movimento após 10 anos? Na época, enquanto ocorria, me pareceu muito mais revolucionário e esperançoso do que acabou sendo. Você concorda?

Sim, eu fui uma das pessoas que ficaram extremamente animadas com aquilo. E [a Primavera Árabe] de fato mostrou o poder das pessoas nas ruas. Mostrou quanta força as pessoas têm. Se você olhar para o caso do Egito, por exemplo, eles se livraram de Mubarak [Hosni Mubarak, que foi presidente do Egito entre 1981 e 2011], e isso foi incrível. Mas o problema era que havia outro grupo. Havia a Irmandade Muçulmana, que por muitas décadas vinha construindo um movimento. E era um verdadeiro movimento social, eles estavam ajudando as pessoas. Eles podem ter valores com os quais eu não concordaria, mas eles eram um movimento de longo prazo e meio que sequestraram aquela vitória das pessoas nas ruas, que eram estudantes e pessoas assim. Eles meio que tomaram aquela vitória para eles. E então, é claro, eles estragaram tudo. E o exército está de volta ao poder. Mas há certos lugares que têm correntes opositoras muito fortes. O exército no Egito é muito forte. Ele controla muito da economia. O exército no Egito é uma potência manufatureira, produz geladeiras, tem muito dinheiro e poder. As pessoas meio que esperavam que o exército ficasse do lado delas. E, no fim das contas, não é assim que as coisas funcionam.

Acho que a Primavera Árabe foi uma decepção em muitos aspectos, mas ainda não sabemos as consequências dela. É como se você pudesse falar sobre o Occupy Wall Street, que se inspirou muito na Primavera Árabe. Você pode dizer que [o Occupy] foi derrotado também. Mas quais são as implicações? [O Occupy] ainda mantém algumas brasas acesas de algo vivo? E sim, ainda há ditadores no poder, mas por outro lado, você vê o poder das pessoas nas ruas tentando formular suas ideias. Sabe, é sempre um projeto contínuo. Se você olhar para um período, você pode dizer “ah, foi derrotado”. Mas, em outro sentido, o que disso ainda veremos no futuro? O que isso vai inspirar no futuro? Não podemos realmente dizer.

O foco dos seus trabalhos costuma ser na perspectiva civil em cenários de conflito. Você evita, por exemplo, expor vozes oficiais. Por que essa sua opção em tratar de conflitos globais pelo ponto de vista de civis e de pessoas que costumam não ser ouvidas por grandes meios de comunicação? 

Para ser honesto, é algo meio acidental, porque quem sabe o que eu teria sido se tivesse saído imediatamente, quando me formei em jornalismo, quem sabe que tipo de jornalista eu seria, se tivesse ido direto para a grande mídia. Digamos que eu trabalhasse para a NBC News. Eu provavelmente teria me tornado um jornalista que estaria nos corredores do poder falando com os poderosos. E eu provavelmente teria aceitado muitas das opiniões deles e teria reportado a um chefe da grande mídia que queria certas histórias. Felizmente, eu não tinha dinheiro, nada por trás de mim, nenhuma grande instituição me dando apoio. Então, sempre que eu ia aos lugares, eu meio que encontrava meu próprio caminho. E a única maneira de encontrar meu próprio caminho foi viver com muito pouco. Nunca pude pagar para me hospedar em hotéis com os outros jornalistas; eu tive que morar ou ficar em albergues, ou tive que alugar um quarto na casa das pessoas, como na Bósnia, em que morei com uma pessoa idosa que estava alugando um quarto. Então você começa a ver as pessoas nesse nível. Eu não estava passando meu tempo com outros jornalistas. E não tenho nada contra isso necessariamente, mas eu simplesmente via uma perspectiva diferente, e essa se tornou minha perspectiva. E sou muito grato por isso. Honestamente, sou grato por não ter começado a trabalhar com uma grande instituição por trás de mim. Isso me faz pensar que talvez… Não sei, não me dou tanto crédito, eu poderia ter me tornado um tipo de pensador muito convencional. Mas quando você está se misturando com as pessoas, quando você está frequentando os cafés delas, quando você não tem grana para tomar um drinque no Holiday Inn ou seja lá o que for, você está em uma seara diferente. E esta seara meio que se torna aquilo em que você se interessa, aquilo a que tem acesso. E isso se torna uma história sobre os civis, sobre as pessoas que não têm nada, porque você meio que não tem nada. Sabe, você está meio que nessa mistura. Agora, tudo isso dito, não sou necessariamente contra estar com as forças militares. Estou interessado em como eles percebem as coisas. Não passei muito tempo com as Forças de Defesa de Israel, mas passei alguns dias com elas em Rafa [cidade palestina na Faixa de Gaza]. E passei algumas semanas com fuzileiros navais norte-americanos no Iraque. Sabe, eu sou um jornalista. Estou interessado em tudo.

“Para mim, entreter é, na verdade, fazer alguém querer continuar lendo”

Página de Palestina, HQ de Joe Sacco (Divulgação)

Palestina foi muito importante para a minha formação como leitor de quadrinhos, li o seu livro quando tinha 15 anos. E uma coisa que me impressionou muito na época eram os seus designs de página e como você mesclava os textos com a arte. Depois, quando estudei jornalismo tive várias aulas tratando de hierarquização de informação. Enfim, como você pensa e constrói uma página? Como você administra a relação entre textos, ilustrações e as informações que você quer passar? Não sei se faz sentido, talvez eu esteja querendo saber o grande segredo por trás dos seus trabalhos…

Esta é uma pergunta interessante… Não é uma questão de design, não se trata de pensar em desenhar uma página. Obviamente, desenhar [a página] é importante e é divertido e tudo mais. Mas, na verdade, é uma questão de atitude. Eu estudei jornalismo, assim como você, mas os livros que realmente me cativaram, no que diz respeito a livros de jornalismo, foram as obras de pessoas como Hunter S. Thompson ou Michael Herr, que escreveu um livro chamado Dispatches, sobre a Guerra do Vietnã. Eles tinham uma atmosfera. E eu li outros livros sobre a Guerra do Vietnã escritos por jornalistas realmente bons. Eles me deram informações realmente boas, mas não me deram esse gosto na boca de como era estar ali. E se você leu Michael Herr ou leu Hunter S. Thompson, talvez Fear and Loathing [in Las Vegas] no contexto da campanha eleitoral da eleição de 1972 nos Estados Unidos, é um livro incrivelmente apaixonante, incrivelmente engraçado, ele vai removendo as camadas de baboseira e está realmente entrando nisso. Mas, por outro lado, Hunter S. Thompson realmente entendia o projeto eleitoral norte-americano e realmente se importava com os Estados Unidos. E toda aquela paixão, você pode sentir na página.

Então, de certa forma, é meio que pegar essa atitude e colocá-la nos desenhos. Não se trata apenas de informações secas. Na verdade, é tão fácil entediar as pessoas com jornalismo. É tão fácil transformar um tema muito interessante como a Palestina em um trabalho longo e arrastado. E toda a minha ideia era que [o quadrinho] não seria um trabalho longo e arrastado. Seria algo que alguém vai continuar virando a página. E eu não uso essa palavra levianamente, mas tem que ter algo de entretenimento. E não digo isso de maneira frívola; para mim, entreter é, na verdade, fazer alguém querer continuar lendo. Isso é entretenimento para mim. Como se você estivesse muito envolvido naquilo. É atraente. E foi isso que tentei fazer, e por isso não é tanto uma questão de como eu desenho uma página. É mais sobre qual estética estou trazendo para esse desenho.

“[O livro sobre os Rolling Stones] É sobre muitas coisas que sempre estiveram na minha mente, mas que não se enquadram bem nos limites do jornalismo”

Quadro de Palestina, obra de Joe Sacco (Divulgação)

Falando sobre entretenimento, li que você está trabalhando em um livro sobre os Rolling Stones. Você tem reportagens sobre artes e música, mas é conhecido principalmente sobre suas obras tratando de conflitos. O que você pode contar sobre esse próximo projeto? O que difere entre a produção de um trabalho político e uma obra sobre artes e cultura?

Bem, o livro dos Rolling Stones meio que começou como um livro sobre os Rolling Stones, mas realmente se tornou algo que, não sei como dizer exatamente, mas ainda é sobre um conflito. É sobre muitas coisas que sempre estiveram na minha mente, mas que não se enquadram bem nos limites do jornalismo. Porque, com jornalismo, você se interessa pelo fato, pelo que aconteceu aqui, quem fez o quê a quem. É disso que se trata Palestina. É sobre tentar chegar a um conjunto de coisas que podemos dizer que são fatos e descobrir o que está acontecendo, o que está ligado a isso. Mas há muitas coisas que um escritor de ficção pode fazer que um jornalista nunca pode fazer. Porque se um jornalista não consegue provar… Um jornalista pode descobrir isso e descobrir aquilo, mas não pode realmente ligar esses pontos. Mesmo que o jornalista saiba que eles estão conectados, ele não pode provar isso. Enquanto um escritor de ficção pode fazer isso. Estou me movendo em um espaço que não vou chamar de ficção, mas um espaço de uma espécie de ensaio onde estou pensando mais sobre a psicologia humana, por que as coisas são como são, em lugar de pensar quem fez o quê a quem. É disso que se trata o livro dos Stones. Além disso, espero que seja muito divertido. Estou curtindo muito, mas é mais profundo do que inicialmente pensei que seria. Tornou-se algo realmente muito maior. É muito difícil para mim descrever o que ele é.

E você já tem alguma previsão de lançamento? 

Bem, se eu continuar trabalhando nele nesse ritmo, provavelmente você o veria em três anos. Mas a questão é que tenho um livro de jornalismo estrito que tenho que terminar, então tenho que interromper [o trabalho no livro dos Stones]. E esse livro é sobre uma revolta que ocorreu na Índia. Então eu ainda tenho meus projetos de jornalismo, mas eu meio que preciso desse livro [dos Stones] porque os diários e projetos, depois de um tempo, ficam muito pesados, o jornalismo rigoroso é muito pesado, então eu preciso do livro dos Stones também.

A capa de Palestina, obra de Joe Sacco republicada pela editora Veneta (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Marcello Quintanilha, autor de Escuta, Formosa Márcia: “Nada é mais urgente do que parar o genocídio”

Conversei com o quadrinista Marcello Quintanilha sobre Escuta, Formosa Márcia, mais novo trabalho do autor de obras como Luzes de Niterói, Talco de Vidro e Tungstênio. Transformei essa entrevista em matéria para o caderno Ilustrada, do jornal Folha de S.Paulo, que você lê clicando aqui. Tratei no meu texto, principalmente, das distinções entre esse novo título do artista e alguns de seus trabalhos prévios. Escrevi sobre a trama do livro, as cores da obra e algumas leituras recentes do autor que acabaram impactando o desenvolvimento da HQ.

Compartilho agora a íntegra de minha conversa com Quintanilha. Ele me falou sobre técnicas e materiais de trabalho, me contou sobre a influência do teatro do absurdo e de Fiódor Dostoiévski, tratou de sua paixão por música e Hugo Pratt e expôs suas avaliações sobre o atual contexto sócio-político-pandêmico do Brasil.

Escuta, Formosa Márcia é o meu quadrinho preferido de 2021 até aqui. Recomendo sua leitura assim que possível. Também recomendo a leitura da minha matéria sobre o livro para a Folhaassim como o meu texto para o jornal sobre Luzes de Niterói e a entrevista que fiz com o autor no início de 2019. Depois, volte aqui, e leia a conversa a seguir, minha mais recente entrevista com Marcello Quintanilha:

“A linha preta é mínima, discreta, quase uma concessão, permitindo que as cores explodam nos enquadramentos”

Página de Escuta, Formosa Márcia, obra de Marcello Quintanilha (Divulgação)

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas por aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

A dor da perda atingiu a todos em maior ou menor medida e talvez ainda seja cedo para dimensionar a tragédia. Pessoalmente, vivi menos complicações do que outras pessoas a minha volta, muitas das quais passaram por situações realmente extremas, familiar e profissionalmente. 

No Luzes de Niterói você usou papel, grafite, pastel oleoso e guache com a colorização digital. Nesse livro novo você usou alguma técnica ou material diferentes?

Escuta, formosa Márcia é integralmente digital. Para ela, desenvolvi uma paleta que consiste em apenas 28 cores que se alternam diegeticamente em calidez, frieza e acidez, sem, no entanto, corresponder a seu equivalente no mundo tangível, porque pretendia espelhar a progressiva desconexão com a realidade tão característica dos dias atuais. 

A linha preta é mínima, discreta, quase uma concessão, permitindo que as cores explodam nos enquadramentos, cores que traduzem o estado de ânimo daqueles que são capazes de gargalhar de alegria, mas nunca sorrir de verdadeira felicidade. 

“O teatro do absurdo é a chave do páthos de Escuta, Formosa Márcia”

Página de Escuta, Formosa Márcia, obra de Marcello Quintanilha (Divulgação)

Os seus trabalhos já foram associados mais de uma vez ao cinema neorrealista italiano. Qual é a sua relação com o cinema neorrealista italiano? Você tem algum filme ou diretor preferido desse movimento? Tem algum aspecto das obras desse movimento que chame mais a sua atenção ou tenha um apelo maior para você?

É uma relação muito profunda, porque me interessa o caminhão de honestidade com que o neorrealismo abasteceu a história do cinema depois do cerceamento de ideias promovido pelo regime fascista.

Vittorio de Sica foi, é e sempre será parte do meu panteão sagrado. 

Entre os aspectos mais destacáveis do movimento, está imbricação entre ficção e realidade, a tal ponto que podemos apreciar imagens documentais inseridas em uma construção ficcional, como é o caso de Roma, Cidade Aberta, de Rossellini.

Da mesma forma, me interessa grandemente o free cinema de Tony Richardson, assim como sua sucessora francesa no âmbito dos temas sociais, a nouvelle vague.

Escuta, Formosa Márcia, por sua vez, tem referências ainda mais específicas, fundamentalmente, três obras: Os Demônios, de Dostoiévski, Esperando Godot, de Beckett, e A Juventude de Corto Maltese, de Hugo Pratt.

O primeiro, por essa filigrana técnica da qual Fiódor lança mão para contar sem contar uma trama subjacente à vivida por Stiepan Trofimovitch e cia., que nos dá a medida da efervescência política que campeava na Rússia da segunda metade do século XIX e que resultaria naqueles dez dias que abalaram o mundo em 1917. Narrar sem narrar é uma das experiências mais sedutoras no campo da escrita.

Quanto a Beckett, sou fascinado pelo teatro do absurdo, por sua contundência em questionar o propósito da existência em si mesmo, fruto do trauma advindo da segunda guerra mundial; por seu empenho em esvaziar as palavras de seu significado dicionarizado e mesmo os personagens de sua identidade enquanto indivíduos, além de subverter a própria estrutura da ficção como relato. Nada mais concomitante com o século XXI. 

Se a atmosfera do neorrealismo e do free cinema estão sempre presentes, recriadas em muitas das minhas obras, o teatro do absurdo é a chave do páthos de Escuta, Formosa Márcia.

Hugo Pratt fez o então jovem Corto Maltese caminhar de um lado a outro, bailando com seu nêmesis Rasputin sobre terreno acidentado, entrando e saindo, indo e voltando, em um teatro de operações de escassos metros quadrados. Até hoje esse álbum é uma das minhas principais referências, pela concisão no desdobramento da história, pela mecânica que conduz as ações e pelo despojamento lírico do traço.

E como é a sua relação com mangás? Tem algum autor, alguma obra ou algum gênero dos quadrinhos japoneses que chamam mais a sua atenção?

A primeira vez que folheei um mangá, quase o confundi com uma história em quadrinhos, veja você… 

Tatsumi é uma luz no fim, no meio e no começo do túnel. Mushi-shi despertou meus mais arraigados terrores infantis. Na Prisão me prendeu para sempre. Nenhuma das histórias do Lobo Solitário deveria chegar ao fim. Nenhuma. Nunca. Maruo não é autor, é omen.

“Me seduz tratar do ser humano em sua natureza mais crua, independentemente de um imperativo geográfico”

Página de Escuta, Formosa Márcia, obra de Marcello Quintanilha (Divulgação)

O que mais te interessa hoje na linguagem das histórias em quadrinhos?

Exatamente o mesmo que me interessava no passado, ou seja, a sequencialidade em si. Nunca houve nenhuma mudança.

A comunicação com o leitor mediante uma simplória sequência de quadros continua sendo a expressão mais poderosa pra mim.

O que você considera mais importante na construção de um personagem?

Não há uma faceta mais importante que outra, então não consigo dar uma resposta objetiva. Quando crio um personagem, me desfaço de qualquer espécie julgamento, porque nada dos seus valores ou visões de mundo me (nos) é realmente alheio, por mais antagônicas às minhas (nossas) que possam parecer, uma vez que compartilhamos a mesma precariedade da condição humana. 

Nunca os prendo às amarras do enredo ou os encaixoto em perspectivas identificadas com a brasilidade, porque seria condescender com uma série de generalizações com as quais estou em franco desacordo a maior parte do tempo. Não me interessa apresentar uma ideia de brasileiro, definir uma forma de ser que corresponda ao que se entende por brasileiro. Acho que por isso minhas histórias têm sido tão bem recebidas fora do Brasil ao longo dos anos, porque me seduz tratar do ser humano em sua natureza mais crua, independentemente de um imperativo geográfico.

Me vejo constantemente refém dos personagens e de suas reivindicações como protagonistas. Eles decidem os rumos das histórias. Um caso emblemático é o da personagem Caju, que transformou toda a trama de Tungstênio, ao exigir ser muito, muito mais que um coadjuvante.

“A música me inspira diretamente e muitas vezes trabalho para reproduzir em traço sua tensão rítmica”

Página de Escuta, Formosa Márcia, obra de Marcello Quintanilha (Divulgação)

Você pegou o título do quadrinho emprestado de uma modinha de salão, gênero típico do Brasil imperial, que tinha o Rio de Janeiro como capital. Vejo uma imagem muito romantizada do Rio imperial que contrasta bastante com o Rio violento e miliciano do nosso presente. Você também nota esse contraste?

Me parece incongruente que se romantize um recorte de tempo que tem a escravidão como base de seu sistema econômico, a menos que você se refira ao estrato aristocrático/ burguês de então, esse sim, idealizado, mas em detrimento de seus coetâneos de classes inferiores. 

O que identifico é uma correlação direta com aquele período, na repetição de sistemas de opressão dos quais determinadas instâncias não pretendem abrir mão facilmente (nem dificilmente).

Você pode falar um pouco, por favor, sobre a sua relação com música? O que você gosta de ouvir? Você lembra dos seus primeiros contatos com modinhas de salão?

Ouço música profana a maior parte do tempo. Sobretudo, rock. Quanto à música sacra, ou seja, samba, choro, quadrilha, coco, forró, etc., ouço bem menos, porque sou facilmente arrebatado por ela, então, preciso ter cuidado.

A música me inspira diretamente e muitas vezes trabalho para reproduzir em traço sua tensão rítmica. Sucessivamente me pego pensando em que tipo de música melhor nos condensa ou, dizendo de outro modo, que música seríamos se em vez de pessoas fossemos música. De ser assim, adoraria que minha contraparte sonora fosse Sabão, de Patápio Silva.

No começo dos anos 1990, eu frequentava assiduamente a livraria Mário de Andrade, no Centro do Rio, que comercializava o acervo da FUNARTE, e mergulhava em dezenas de monografias sobre figuras icônicas da MPB, entre elas, Patápio Silva, flautista, chorão, morto aos 26 anos, acometido de uma febre misteriosa (o que, talvez, tenha suscitado as teorias sobre seu assassinato). Granadilha, história que integra o álbum Almas Públicas, de 2011, é frenética e escandalosamente dedicada a ele. Mas Chão Bento, do mesmo álbum, também é reverencialmente dedicada a um compositor, a um sambista, a um pai — Silas de Oliveira, morto em um terreiro de samba, ambiente que frequentou desde cedo, contra a vontade do pai, pastor protestante.

Mas meu suspiro pelas modinhas não veio do encantamento pelo choro. Modinhas já eram o pão de cada dia desde que a paixão pela obra de Mário de Andrade me conduziu a suas pesquisas sobre música brasileira e à publicação de Modinhas Imperiais, onde Mário reunia tanto as modinhas recolhidas por Spix e Martius em seu Viagem pelo Brasil, de 1823 (entre elas, Escuta, Formosa Márcia), quanto as publicadas na coleção de Filippone e Tornaghi ou as espalhadas por folhetos e águas fortes que circulavam no fim do século XIX.

O que acontece é que, antes de adquirir esse volume, Villa-Lobos me doutrinara na cultura popular com as Bachianas Brasileiras, o que nos leva diretamente aOs Choros de Câmara em sua primeira gravação completa, de 1977, mas isso só depois que Machado de Assis me esmagasse narrando como Sinhazinha Mota perguntava ao pianista, compositor de modinhas, que se dirigia à janela durante o sarau da viúva Camargo, na Rua do Areal, se ele era o Pestana.

Tudo só pra dizer que não tenho ideia de quando as modinhas entraram na minha vida. Quando percebi, elas já tinham dominado o mundo.

“O atual governo representa um retrocesso assustador”

Página de Escuta, Formosa Márcia, obra de Marcello Quintanilha (Divulgação)

Entre vários temas, Escuta, Formosa Márcia trata bastante sobre o impacto da corrupção dos poderes públicos na vida do cidadão comum. Nos últimos quatro anos, sete políticos que ocuparam os cargos de governador ou prefeito da capital do estado foram presos ou afastados do mandato. Como você vê essa institucionalização da corrupção na realidade do Rio de Janeiro?

Vejo como decorrência natural de nosso passado macabramente idílico, edificado na promiscuidade entre poder público e agentes, digamos, contrários à higiene de seu alicerce burocrático, panorama sensivelmente agravado pela aliança entre ditadura militar, auxiliada por sua extensão policial instrumentalizada, e setores à margem da lei, o que resultou na profissionalização do crime organizado no estado.

Escuta, Formosa Márcia tem algumas das sequências mais tensas e trágicas que já li em um trabalho seu. Como a atual realidade sócio-econômica-política brasileira tem afetado a sua produção?

Ela não afeta propriamente por ser atual, mas por fazer parte de um processo histórico que me interessa em sua totalidade.

Ainda sobre essa atual realidade sócio-econômica-política brasileira, você se vê de alguma forma mais pessimista em função desse Brasil dos últimos anos?

Nunca fui otimista em nenhum momento da vida, não vejo por que deveria começar a ser agora. 

No entanto, a discussão em torno de conjunturas negativas não se trava na esfera do otimismo ou do pessimismo, mas sim dentro dos marcos institucionais.

Quadros extremos de desagregação social podem ser revertidos — sempre mais vagarosamente do que o desejável, é certo — a partir de consensos que precisam ser alcançados entre as diferentes correntes políticas e da permanente participação da sociedade no debate público, embora propostas administrativas de longo prazo, que nos permitam integrar todas as pessoas aos requisitos mínimos de cidadania não sejam as vedetes do processo eleitoral.  O atual governo representa um retrocesso assustador nessa dinâmica, porque nada se tornou mais urgente no Brasil de hoje do que sua retirada do poder, não apenas pela via do Impeachment, mas pela consequente superação de seus cargos remanescentes. Nada é mais urgente do que parar o genocídio.

A capa de Escuta, Forma Márcia, obra de Marcello Quintanilha (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Ed Brubaker, autor de Pulp e Criminal: “De repente, é como se algumas pessoas não quisessem admitir que os nazistas eram os bandidos”

Não lembro do meu primeiro contato com um quadrinho com roteiro do norte-americano Ed Brubaker. Talvez tenha sido Batman – O Homem que Ri ou a série Gotham Central, originalmente publicada em português como Gotham City Contra o Crime. Lembro que gostei muito das duas leituras, mas só passei a dar atenção especial aos trabalhos dele após ler os primeiros encadernados de Criminal, lá para o fim dos anos 2000.

Há alguns meses reli os primeiros Criminal, terminei a série e fui atrás de outros títulos do roteirista em parceria com o ilustrador Sean Philips. Me impressiona a regularidade e o volume de trabalho dos dois. Eles não se propõem a refletir ou experimentar em relação às possibilidades da linguagem dos quadrinhos, mas são claros e extremamente eficazes em sua proposta de divertir.

Aproveitei o anúncio do lançamento de uma série de títulos de Brubaker e Philips em português, pela editora Mino, e fui atrás do roteirista. Entrevistei o escritor e transformei esse papo em texto para a edição de julho da Sarjeta, minha coluna sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. A conversa rolou no início de junho, algumas semanas antes dos dois troféus do Prêmio Eisner recém-conquistados pelo autor – melhor novo álbum gráfico, por Pulp, e melhor quadrinho digital, por Friday, parceria com Marcos Martin.

O foco principal da entrevista com Brubaker foi em Pulp, primeiro dos títulos dele com Philips a ser lançado pela Mino. Mas ele também falou sobre a construção do universo de Criminal, comentou sobre sua dinâmica de trabalho com o parceiro criativo de mais de 20 anos e expôs algumas das mágoas que guarda de sua passagem pela Marvel. Você lê a Sarjeta clicando aqui e confere, a seguir, a íntegra da minha entrevista com Ed Brubaker:

“É um faroeste, mas ambientado na década de 1930”

Quadros de Pulp, HQ de Ed Brubaker e Sean Philips (Divulgação)

Eu quero começar sabendo como você está. Como você está lidando com a pandemia? A pandemia afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

Sim, para o bem e para o mal. Finalmente voltei a ler livros o tempo todo, o que é bom, e decidimos fazer graphic novels em vez de séries mensais, então o trabalho foi realmente produtivo. Mas não saí muito, nem fiz muitos exercícios, e estou pagando por isso agora, tentando voltar um pouco à forma.

E como você acha que isso vai afetar o seu ambiente profissional? Imagino que você esteja conversando com outros autores e com seus editores sobre isso tudo. Como você acha que isso pode mudar a forma como se produz e vende quadrinhos?

Eu não sei, honestamente. Acho que intensificaram coisas como a publicação via Kickstarter, mas as grandes editoras americanas parecem ter sobrevivido muito bem. Na verdade 2020 foi um dos maiores anos para os quadrinhos em muito tempo, eu acho, em termos de vendas. Mas acho que mais pessoas estão pensando em vender direto aos consumidores e coisas do tipo.

Pulp é protagonizado por fora-da-lei aposentando tentando viver em um ambiente urbano, mas não apenas. Qual era a sua proposta quando você começou a escrever esse quadrinho?

O livro foi feito principalmente para ser um estudo de personagem sobre um fora-da-lei que envelhece à medida que o fascismo está varrendo o mundo. Vendo aquela ligação entre os proprietários de terras do Velho Oeste com seus próprios exércitos privados, e a semelhança entre isso e o fascismo, como o capitalismo sempre teve esse lado sombrio. No final das contas, é um faroeste, mas ambientado na década de 1930.

“Pulp também é sobre eu quase morrendo”

Página de Pulp, HQ de Ed Brubaker e Sean Philips (Divulgação)

Quadrinhos seguem sendo vistos por muitos como obras escapistas. Qual você considera o papel de bons escapismos em contextos tão tristes e pessimistas como o cenário de Pulp e a atual realidade mundial?

Eu acho que realmente depende. Eu sei que nos últimos anos, do jeito que o mundo tem andado, eu tive menos interesse em escrever histórias deprimentes, e quero trazer algo mais divertido para nossos leitores… Mas eu sempre tendo a adicionar algum tipo de tragédia ou tristeza de alguma forma. Isso é apenas vida, eu acho. Quero que as pessoas possam se identificar com as histórias que contamos, bem como se distrair um pouco com elas. Mas é possível fazer as duas coisas. Eu acho O Grande Gatsby tanto imensamente divertido quanto incrivelmente comovente, então esse é sempre o objetivo.

Você pode me falar, por favor, sobre a sua relação com publicações pulp? O que você vê de mais interessante nelas?

Tenho muitas lembranças nostálgicas desse tipo de coisa, desde a infância. Havia essas brochuras de Men’s Adventure quando eu era criança – como The Executioner, The Destroyer, etc – e também reimpressões de personagens antigos como Doc Savage e Conan, com capas pintadas realmente incríveis. Essas coisas realmente me atraíram, e ainda gosto da aparência de todos esses livros daquela época. A estética da coisa toda. Isso é o que nos inspirou, recentemente, para os livros de Reckless, a aparência e sensação daqueles velhos livros de bolso dos anos 1960 e 1970.

Acho que uma grande sacada de Pulp é ser um quadrinho pulp sobre obras pulp. O que veio primeiro: a história de Pulp ou a ideia de desenvolver um quadrinho pulp? Ou veio tudo junto (uma HQ pulp sobre obras pulp)?

Tudo começou porque Sean queria um faroeste e eu não tinha nenhuma ideia. Então comecei a pensar em meus filmes de faroeste favoritos, e aí me lembrei que havia alguns homens nos anos 1930 que afirmavam ser o Butch Cassidy (nenhum deles realmente era, no fim das contas) e a partir daí a história começou a se encaixar. Gostei da ideia de um velho fora-da-lei escrevendo histórias pulp que eram a versão mais feliz de sua juventude.

Além disso, o livro também é muito sobre eu quase morrendo e me preocupando em deixar minha esposa sem nada. Isso me assombrou por cerca de um ano antes de eu finalmente escrever Pulp, então foi uma maneira de processar esses sentimentos como ficção.

“Várias pessoas me acusaram de ser um esquerdista maluco”

Página de Pulp, HQ de Ed Brubaker e Sean Philips (Divulgação)

Vivemos um período de ascensão do fascismo em todo o mundo. Foi de alguma forma satisfatório para você ter um herói em uma missão de encarar fascistas?

Sim, eu pensei que seria muito “pulp” ter os bandidos como nazistas, mas sendo o mais realista possível. Todas aquelas coisas no livro realmente aconteceram em Nova York naquele momento. Muitas pessoas ainda ficam surpresas ao saber sobre aquele comício nazista naquela noite, o que é triste. E várias pessoas me acusaram de ser um esquerdista maluco por fazer dos nazistas os bandidos de uma obra de ficção histórica, o que não passa de insanidade. De repente, é como se algumas pessoas não quisessem admitir que os nazistas eram os bandidos. Eu nunca pensei que isso aconteceria na minha vida, honestamente.

Aliás, a maior parte dos seus trabalhos que li são sombrios, violentos e pessimistas de diferentes maneiras. Você se considera uma pessoa pessimista? 

Acho que depende do dia. Sou pessimista em relação às pessoas e ao nosso futuro. Sou pessimista sobre as mudanças climáticas e nossa capacidade de lidar com elas. Mas na maioria das vezes eu tento não pensar sobre essas coisas e apenas vivo a minha vida da melhor maneira que posso e aproveitando cada dia. Às vezes escrevo coisas sombrias porque são histórias de crime e porque acho que tenho algumas coisas dentro de mim que precisam aflorar.

Apesar de My Heroes Have Always Been Junkies ser um spin-off de Criminal, ela funciona como uma obra autônoma, assim como Pulp. Como é essa experiência para você? Trabalhar tendo em visto um número limitado de páginas? Como esse tipo de restrição espacial contribuiu para o desenvolvimento das suas histórias?

Eu odeio ter que me preocupar com o tamanho de uma história. Prefiro apenas escrevê-las, sem ter uma contagem de páginas definida, mas por causa da realidade do mercado de quadrinhos e dos prazos, temos que ter um objetivo geral antes de começarmos a trabalhar, para descobrirmos quanto vai custar a impressão e coisas do tipo e quanto tempo o Sean vai levar para desenhar.

“Quando já está tudo desenhado, deixo o Sean maluco pedindo um monte de pequenos ajustes”

Página de Pulp, HQ de Ed Brubaker e Sean Philips (Divulgação)

Você tem planos para outras obras fechadas como Pulp e My Heroes Have Always Been Junkies?

Não tem nada certo neste momento. Estamos fazendo livros com o dobro do tamanho agora, e acabando de terminar o terceiro do que será uma série de cinco em sequência.

Você pode me falar um pouco sobre a sua dinâmica com o Sean Phillips? Vocês são parceiros de longa data, como funciona a relação de vocês? Como um contribui para o trabalho do outro? Que tipo de troca ocorre entre vocês?

Fazemos o mesmo desde o início. Dou a ele uma vaga ideia de como será o livro e envio um roteiro de oito ou doze páginas por vez, ele desenha à medida que eu escrevo e nunca quer saber o que virá a seguir. Trocamos muitos e-mails e às vezes peço a ele para alterar algo que não funcione, mas na maioria das vezes nos entendemos perfeitamente. No final, quando já está tudo desenhado e com letras, eu deixo ele maluco pedindo um monte de pequenos ajustes no diálogo ou na narração, ou partes que quero cortar porque soa redundante.

Acho que as cores do Jacob Philips estão contribuindo imensamente para as suas parcerias com o Sean Phillips. Como é a sua dinâmica de trabalho com ele?

Assim como faço com o pai dele, eu envio ao Jake algumas instruções aqui e ali depois que as páginas chegam, e é isso. De vez em quando dou conselhos sobre carreira ou sobre Hollywood para seus outros quadrinhos. Normalmente apenas digo ao Jake o que gosto no que ele está fazendo. E quando Reckless estava começando, enviei a ele algumas fotos e cenas de filmes para ajudá-lo na paleta de cores de Los Angeles na década de 1980.

“Amo a sensação tátil de livros e quadrinhos, bem como as histórias que eles contam”

Página de Pulp, parceria de Ed Brubaker e Sean Philips (Divulgação)

Sobre Criminal, o quanto você já tinha traçado desse universo quando deu início à série lá em 2006? Como se dá essa construção e costura das tramas de Criminal? 

Eu tinha os primeiros três ou quatro livros mais ou menos mapeados e as ligações entre alguns dos personagens. Mas muito disso é apenas instintivo. Eu escrevo todas as histórias que sinto que precisam ser escritas para aquele mundo e não planejo mesmo com antecedência. Por exemplo, enquanto trabalhávamos no ano mais recente de Criminal eu não fazia ideia que ia acabar contando o arco maior de história que tinha em mente desde o começo, Cruel Summer, mas então pareceu certo e fui lá e fiz.

Aliás, vocês têm planos de dar continuidade a Criminal após os eventos de Cruel Summer? Vocês consideram explorar outras tramas com coadjuvantes como fizeram em My Heroes Have Always Been Junkies?

Claro, sempre espero retornar a Criminal para mais histórias.

No ano passado entrevistei um ex-parceiro de trabalho seu, o Jason Lutes, por causa do lançamento da edição brasileira de Berlim. Ele me falou algo que passa para os alunos dele sobre a importância da clareza em uma HQ. Não que elas devam ser desenhados com clareza, mas que as intenções e a forma como você está se expressando devem ser claras. Vejo muita dessa clareza nos seus trabalhos. O que você considera mais importante quando está criando uma história em quadrinhos?

Contar uma boa história, provavelmente. Manter os leitores envolvidos e dar a eles uma história que valha à pena e todo um pacote que valha seu dinheiro. Eu amo a sensação tátil de livros e quadrinhos, bem como as histórias que eles contam. Mas sim, eu, o Jason e todo o nosso grupo de amigos na década de 1990… Tínhamos um grupo semanal que se reunia e conversava sobre quadrinhos e mostrávamos nossos trabalhos uns aos outros, e todos nós estávamos muito interessados em quadrinhos como uma forma de arte a ser explorada. Portanto, não me surpreende que tenhamos várias propostas semelhantes com os nossos trabalhos.

“A Image é como ter a sua própria editora com outra pessoa que investindo todo o dinheiro”

Quadros de Pulp, HQ de Ed Brubaker e Sean Philips (Divulgação)

A Image é uma editora que trabalha com a manutenção dos direitos das obras com seus autores. Como tem sido a sua experiência com eles até aqui?

Excelente. A Image é como ter a sua própria editora com outra pessoa que investindo todo o dinheiro. Consegui um acordo único com eles, que nos permite fazer qualquer coisa que quisermos sem ter que apresentar ideias ou tentar ser comercial e essa foi a melhor coisa que já aconteceu na minha carreira. Liberdade total, propriedade total e controle de todos os aspectos da impressão.

Você falou recentemente sobre sua decepção com a ausência de créditos ao seu nome nas adaptações da Marvel para o cinema com o Soldado Invernal. Esse tipo de crítica e questionamento com as grandes empresas da indústria do entretenimento não é de hoje, mesmo lendas dos quadrinhos como Jack Kirby, Joe Simon e Joe Schuster sofreram com isso. Qual lição você tira dessa sua experiência com os Estúdios Marvel?

Não se trata de falta de crédito, mas de falta de pagamento por esse crédito. Eles percorreram uma longa estrada ao dar mais reconhecimento aos autores dos trabalhos que eles exploram, mas não vai muito além disso. Mas eu sabia que eles eram assim quando trabalhei lá, não é nenhuma novidade. Minha reclamação é mais específica à minha situação pessoal e às coisas que me foram prometidas. Não é surpresa que essas corporações gigantescas não queiram tratar os criadores de maneira justa, essa é a história do mercado editorial e do cinema.

Qual a memória mais antiga da presença de quadrinhos na sua vida?

São as tiras de jornal de Peanuts ou os desenhos animados da Marvel dos anos 60. Depois, quando eu tinha uns 3 ou 4 anos, meu pai deu para mim e para o meu irmão uma caixa enorme de quadrinhos que ele ganhou de amigos do escritório. Muitos quadrinhos antigos de várias editoras, Marvel, Archie, EC. Todo o tipo de coisa. Foi assim que vi pela primeira vez o Homem-Aranha.

Página de Pulp, obra de Ed Brubaker e Sean Philips (Divulgação)

No que você está trabalhando no momento?

Estou tentando terminar o roteiro de Destroy All Monsters, o terceiro livro da série de graphic novels Reckless.

Fico curioso: o que você pensa ao ver o seu trabalho sendo publicado em um país como o Brasil? Você fica curioso em relação à forma como seu trabalho é lido e interpretado em uma realidade tão distinta da sua?

Sim, claro. E eu realmente espero que as traduções sejam ótimas.

Você pode recomendar algo que tenha visto, ouvido ou lido recentemente?

Claro. Se você conseguir encontrar, o sexto episódio da segunda temporada de Mythic Quest é um dos melhores episódios de série de televisão que já assisti. E recentemente assisti a todos os episódios de Columbo, que é bobo, mas divertido. No momento, estou atualizando os livros do [inspetor] Rebus, do Ian Rankin, eles são sempre viciantes.

A capa de Pulp, obra de Ed Brubaker e Sean Philips (Divulgação)