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Entrevistas / HQ

Papo com Naoki Urasawa, autor de Pluto, Monster e 20th Century Boys: “Acabo sendo desenvolvido pela minha própria obra”

Entrevistei o quadrinista japonês Naoki Urasawa sobre a versão brasileira da exposição Isto é Mangá – A Arte de Naoki Urasawa, em cartaz na Japan House de São Paulo até o dia 5 de janeiro de 2020. Escrevi aqui pro blog uma matéria na qual falo sobre a mostra e também sobre a vida e a carreira do autor de obras como Pluto, 20th Century Boys e Monster. Você lê esse texto clicando aqui.

Na minha entrevista com o autor ele comenta sobre a curadoria da exposição na Japan House, fala sobre técnicas e influências, exalta o trabalho de Osamu Tezuka e trata um pouco de sua paixão por música – citando inclusive uma canção brasileira.

Recomendo uma ida à exposição Isto é Mangá – A Arte de Naoki Urasawa e também a leitura dos trabalhos de Urasawa, dos meus quadrinistas favoritos no momento. Agora deixo vocês com a versão completa da minha entrevista com o autor. Papo bão, saca só:

(Na imagem que abre o post, ilustração do quadrinista Naoki Urasawa exposta na mostra Isto é Mangá – A Arte de Naoki Urasawa. Crédito: Divulgação)

“O mangá é uma paixão para mim”

Registro da exposição Isto é Mangá – A Arte de Naoki Urasawa, na Japan House de São Paulo. Crédito: Estevam Romera

Qual a memória mais antiga da presença de mangás na sua vida?

O Astro Boy (o volume que continha o episódio O Maior Robô da Terra), Jungle Taitei (volume depois da metade da história). Na época que eu tinha quatro ou cinco anos, me deram esses dois livros e eu fiquei lendo repetidas vezes.

O senhor pode falar um pouco sobre a origem da exposição Isto é Mangá? Como ela teve início? Qual o seu envolvimento com ela?

O projeto foi realizado por ter sido selecionado como exposição itinerante nas três sedes da Japan House (São Paulo, Los Angeles e Londres), iniciativas do Ministério das Relações Exteriores do Japão.

Quanto à exposição, eu produzi todos os assuntos envolvidos nela, desde o conceito da exposição até a criação do espaço expositivo. O mangá é uma paixão para mim, e por isso pensei na melhor forma de se expor a essência do mangá, que para mim é pela experiência de se ler um capítulo inteiro.

“Quando trabalho com uma obra, sempre me pergunto se ela possui universalidade”

Arte original do mangá Yawara!, assinada pelo quadrinista Naoki Urasawa e exposta na mostra Isto é Mangá – A Arte de Naoki Urasawa

O que o senhor vê de mais interessante na linguagem dos mangás? O que mais te interessa fazer e ler em termos de mangás?

Tem muita coisa interessante no mangá, então é impossível dizer apenas com uma palavra. Histórias maravilhosas, falas que mexem o coração e o mais importante, a originalidade dos desenhos de cada um dos mangakás. 

Acho que o que faz fisgar a coração dos leitores são as emoções vívidas dos personagens que são expressadas, e que por sua vez, expressam a paixão dos mangakás.

Os mangás chegaram com força ao mercado editorial brasileiro nos anos 90. Até então, havia um predomínio dos comics norte-americanos e de obras europeias. Qual você vê como o elemento mais distinto dos mangás em relação às outras formas de quadrinhos ao redor do mundo?

Acredito que a grande diferença entre o mangá e os quadrinhos como B.D e comics americanos seja a quantidade de quadros. Eu acho que o mangá usa vários quadros e páginas em uma cena em que o B.D ou comic americano fariam com apenas um desenho.

Penso que isso transmite com mais profundidade, e de forma mais detalhada, o impacto e a alteração das emoções.

“Tento trabalhar com materiais relativamente comuns e fáceis de achar”

Registro da exposição Isto é Mangá – A Arte de Naoki Urasawa, na Japan House de São Paulo. Crédito: Estevam Romera

Aqui no Brasil já foram lançados três dos seus mangás: Pluto, Monster e 20th Century Boys. Você costuma ter algum ponto de partida em comum para o desenvolvimento do seus trabalhos? O que te inspira?

Meu ponto de partida é a ideia geral da obra, que surge repentinamente, de forma abstrata.

A partir daí, eu pego a ideia geral, que pode ser algo como ‘uma pessoa flutuando no espaço’, e vou amadurecendo ela por um período, entendendo se ela cabe em diferentes realidades e se o tema é universal, inserindo personagens que ganham vida e personalidade própria dentro da minha cabeça, deixando com que eles ajam livremente. E quando esses elementos se transformam em uma certeza, começa o trabalho.

E sobre as suas técnicas: quais materiais você gosta de usar? Você tem algum método preferido de produção? Alguma rotina de trabalho que gosta de seguir?

Eu desenho o name (esboço do esboço, é algo como a planta inicial do mangá) em papel sulfite. 

Não uso o caderno porque preciso rasgar a página quando acho que que errei. Se for papel sulfite, posso jogá-lo logo no lixo.

Fora isso, tento trabalhar com materiais relativamente comuns e fáceis de achar. Usar algo muito raro pode acabar gerando dependência e o medo de que um dia possa ficar indisponível.

“Durante o lançamento do mangá, eu sempre trabalho presumindo o último capítulo da obra”

Quadros do mangá Pluto, HQ do mangaká Naoki Urasawa publicada no Brasil pela editora Panini Comics

Aliás, você pode falar um pouco sobre o seu ambiente de trabalho?

Ultimamente tenho trabalhado com name em cafeterias. Na minha casa tenho muitas coisas do meu hobby (discos, livros, DVD, etc.) e acabo me desconcentrando. Na cafeteria não levo nenhum livro que gosto e proíbo o uso de SNS (social network service). Me concentro apenas no name.

Eu desenho no ateliê e antes trabalhava no mesmo quarto onde trabalhavam os assistentes. Atualmente, peço para os assistentes trabalharem em casa. Quanto ao andamento, confiro e oriento por meio de imagens enviadas por Line.

20th Century Boys é uma série longa, que me marcou muito pelos cliffhangers presentes ao final de cada edição. Como é desenvolver e planejar um projeto longo como esse? O quanto a história já estava finalizada quando você começou a desenvolvê-la?

Durante o lançamento do mangá, eu sempre trabalho presumindo o último capítulo da obra já naquele momento. Em hipótese alguma desenho sem pensar no final.

Quando começo a trabalhar em uma obra, penso, por exemplo: essa série vai ter uns 20 volumes, a duração da série deve ser de uns 5 anos. Penso o volume da obra e nesse momento, na minha cabeça, já tenho a imagem da última cena. Porém, há casos em que depois de passar 5 anos desenhando, a história acabou ficando bastante diferente ao que era previsto. Isso acontece porque um drama gera outro drama, os personagens são desenvolvidos ao longo do tempo e principalmente eu, que sou o autor, acabo sendo desenvolvido pela minha própria obra.

“Acredito que seja muito difícil que o mundo vá em uma boa direção”

Registro da exposição Isto é Mangá – A Arte de Naoki Urasawa, na Japan House de São Paulo. Crédito: Estevam Romera

O que você pensa ao ver o seu trabalho sendo publicado e exposto em um país como o Brasil? Você fica curioso em relação à forma como seu trabalho é lido e interpretado em uma realidade tão distinta da sua?

Quando trabalho com uma obra, sempre me pergunto se ela possui universalidade. E a universalidade pode ter vários caráteres, como temporal e regional. Por isso, o fato das minhas obras serem lidas em vários países é como uma prova de que o que eu exijo de mim estava certo, e fico muito feliz com isso. 

Pluto e 20th Century Boys são obras distópicas, ambientadas em uma realidade futuristas nas quais a humanidade passou por grandes guerras e traumas. O mundo vive hoje momentos políticos muito conturbados. A atual realidade político-social do mundo te assusta? Você acha que existe a possibilidade de estarmos caminhando para cenários semelhantes às suas histórias distópicas?

Infelizmente, acredito que seja muito difícil que o mundo vá em uma boa direção. Acho que o mangá pode ter tanto a função de alertar a sociedade quanto um oferecer um lazer para as pessoas que vivem o duro cotidiano. Além disso é uma cultura de fácil entendimento como a música rock, por isso, penso também que seria muito bom se o mangá se tornar uma ponte que liga as pessoas do mundo inteiro.

“O Osamu Tezuka deixou muitas obras fantásticas, mas para mim, a mais importante é Hi no Tori”

O símbolo do personagem Amigo, vilão do mangá 20th Century Boys, obra do quadrinista Naoki Urasawa publicada no Brasil pela Panini Comics

Você tem um interesse grande por música. O que você está ouvindo hoje? Você tem algum conhecimento de música brasileira?

Eu sempre ouço músicas de vários tipos.

Eu sou amante de disco de vinil e fico muito feliz que ultimamente a cultura de vinil tenha voltado. Outro dia, quando estive na loja de discos usados, comprei o Asa Branca, do Quinteto Violado. Lendo a apresentação do disco, descobri o que a palavra ASA significa em português, e a minha mais recente obra ASA DORA é sobre uma menina chamada ASA que é piloto de avião. Fiquei muito emocionado por ter encontrado esse disco, é como um destino.

Você tem alguma obra – seja livro, filme ou mangá – recente que tenha consumido e poderia recomendar?

Tenho muitos livros e filmes que gostaria de recomendar, por isso, é difícil citar só um. Se for filme, eu recomendo o Fargo dos irmãos Coen. A série Fargo que foi inspirada pelo filme é maravilhosa demais e também recomendo para todo mundo.

Apesar do trabalho de Osamu Tezuka ser bastante conhecido no Brasil, algumas publicações mais longas e adultas dele estão saindo em português pela primeira vez, como Ayako. O que você vê de mais especial no trabalho do Osamu Tezuka? Qual obra dele você considera mais importante e indispensável?

Aos 13 anos de idade, descobri a obra Hi no Tori, de Osamu Tezuka e fiquei chocado com a grandiosidade, a estruturação livre e a profundidade do drama humano. O Osamu Tezuka deixou muitas obras fantásticas, mas para mim, a mais importante é Hi no Tori.

O quadrinista Naoki Urasawa em registro feito na versão inglesa da exposição Isto é Mangá, com um dos originais também presente na mostra brasileira. Crédito: Jeremie-Souteyrat
Entrevistas / HQ

Papo com Lelis, autor de Reconexão: “No meu dia a dia vejo como o uso excessivo da tecnologia e a vivência do mundo virtual têm afetado as pessoas. Indistintamente da idade que têm”

Entrevistei o quadrinista Lelis sobre o álbum Reconexão, HQ de 48 páginas recém-publicada pela Abacatte Editorial. Esse papo virou matéria no caderno Pensar do jornal Estado Minas, publicada na sexta-feira da semana passada (25/10) e disponível para leitura clicando aqui.

Reconexão tem como foco a presença crescente de tecnologias digitais na rotina das pessoas. O quadrinho tem início com a mãe do jovem Luiz pedindo para que o filho largue o celular e vá jogar bola com os amigos que o aguardam no campinho de terra em frente à sua casa. O garoto esquece dos colegas, investe no joguinho em seu aparelho e é transportado para uma realidade paralela habitada por robôs que patrulham o local contra a presença das crianças perdidas que acabam por lá. O menino precisa descobrir como fugir dessa cilada virtual.

Recomendo a leitura da minha matéria sobre a obra e depois a entrevista a seguir. Nela Lelis fala sobre o ponto de partida de Reconexão, trata de suas técnicas e materiais de trabalho, comenta sobre a relação dele com tecnologias digitais e adianta um pouco de seu próximo trabalho com o roteirista francês Antoine Ozanam – seu parceiro em Goela Negra. Saca só:

Quadro de Reconexão, álbum do quadrinista Lelis publicado pela Abacatte Editorial

Houve algum ponto de partida específico, algum momento de inspiração em particular, para o início da construção desse quadrinho? 

A história desse álbum é bem curiosa. Um dia marquei um encontro com uma editora aqui de Minas para apresentar um projeto de livro de imagens. O livro trata de questões universais: luto, perdas, ganhos. Enfim, coisas da vida. Montei o PDF com algumas imagens finalizadas e outras em esboço. Sentamos para falar sobre ele enquanto ela via as imagens. No segundo momento, ela me disse que gostaria de fazer o Lobato em quadrinhos e tal. Aí eu fiquei pensando enquanto ela falava. Pensei muito no Lobato, de como vivíamos quando crianças, porque o Lobato me remete a isso. Saí da editora sem uma resposta sobre meu livro de imagens nem tão pouco confirmando que iria adaptar as histórias do Sítio para os quadrinhos. Cheguei em casa e numa sentada escrevi Reconexão. Acho que ouvindo a editora e pensando na minha infância e o tanto de coisas que fazíamos ao ar livre, comparadas às coisas que as crianças e o adolescentes fazem hoje, acho tudo isso me inspirou a escrever o livro.   

Quais técnicas e materiais você utilizou para a produção de Reconexão?

Uma técnica super simples e das mais baratas. Desenho com grafite 2B sobre um papel reciclado, tipo sulfite, aquele de cor creme, e que é super barato. Depois digitalizo a imagem e faço a colorização no photoshop. Só que a paleta de cores e o jeito de pintar em aquarela são tão fortes em mim que até os franceses às vezes se confundem pensando ser um aquarela realmente.

“Acho que nunca entrei naqueles debates sem fim sobre coisas que nunca resolveremos em uma rede social”

Página de Reconexão, obra do quadrinista Lelis publicado pela Abacatte Editorial

Quando você pensa um quadrinho como Reconexão, você costuma ter um público específico em mente? Você produz levando em conta se uma obra é para crianças ou adultos? 

Acho que o Reconexão pensei num primeiro momento em fazer para os jovens. Mas, claro, há um mea culta ali. Por isso é para todas as idades. No meu dia a dia vejo como o uso excessivo da tecnologia e a vivência no mundo virtual têm afetado as pessoas. Indistintamente da idade que tem. 

Eu gostaria de saber sobre a sua relação com tecnologias. Como são os seus hábitos de uso de celular, tablets e afins?

Realmente demorei um pouco a ter um celular tipo smartphone. Mas, depois de algum tempo, e por questões profissionais e também por se mais um instrumento de comunicação com a família, aderi. Tenho um bom computador lap top, que ligo em um monitor maior para fazer os quadrinhos, digitalizar as aquarelas e também para filmar e editar pequenos filmes. Essas máquinas, para artistas gráficos precisam ser boas. Mas paro por aí. Não sou de ficar horas em uma rede social por exemplo. Acho que nunca entrei naqueles debates sem fim sobre coisas que nunca resolveremos em uma rede social. No smartphone sim, sempre olho o wattsapp mas evito compartilhar o que me chega. Participo de 2 grupos e mesmo assim no modo silencioso. Vejo muitas notícias nos portais. Mas o que eu gosto mesmo é de filmes e de futebol. Acho que das tecnologias, essa é que me prende mais. Mas vejo quase que exclusivamente pela TV.

“Para projetos de quadrinhos muito pessoais, quando eu sou o roteirista também e que posso gerenciar meus prazos, prefiro usar aquarela”

Página de Reconexão, obra do quadrinista Lelis publicado pela Abacatte Editorial

Aliás, na maior parte das vezes você faz uso de técnicas de ilustração e pintura manuais. Como é a sua relação com técnicas digitais de ilustração?

Ultimamente tenho usado a técnica de colorização digital para os quadrinhos. Principalmente para o mercado francês. Acho que, das artes, é uma expressão das mais complexas que existem. Imagine só, construir todo um cenário que tem que se repetir por todas essas páginas, dar vida a um sem número de personagens que precisam estar coerentes fisicamente durante toda a sequência do livro, me ater aos prazos curtíssimos da produção do livro e ainda cuidar de minha carreira como ilustrador e escritor de livros infantis. Por isso tudo, tenho optado pelo digital. Sem contar que o material que uso é de primeira linha: papel, pigmentos e pincéis profissionais. Ainda não pagam o suficiente para isso. Agora, para projetos de quadrinhos muito pessoais, quando eu sou o roteirista também e que posso gerenciar meus prazos, aí prefiro usar aquarela mesmo. 

Ver alguma presença de tecnologia em Reconexão me fez notar como tecnologias e modernidades estão pouco presentes ou completamente ausentes de seus trabalhos prévios. Como você chegou na estética desse universo paralelo tecnológico retratado no quadrinho?

Pois é. Foi um desafio. A primeira coisa que me ocorreu é que eu teria que criar um cenário formado por placas de computador, fusíveis (acho que nem usam isso mais), conectores, essas pecinhas todas. Então eu fui pesquisar. Salvei um monte de fotos de placas, de componentes e também pesquisei alguns nomes dessas peças para ficar no contexto. O resto foi só imaginação mesmo. Fui montando tudo, buscando coerência. Por exemplo: sempre ouvimos falar sobre lixo tecnológico. Então imaginei que esse lixo deveria estar depositado no fundo do mar que é um dos lugares mais puros da terra e também um dos mais sensíveis aos agentes poluentes. 

“Esperança está na raiz do que eu acredito”

Página de Reconexão, obra do quadrinista Lelis publicado pela Abacatte Editorial

O final de Reconexão me soou ligeiramente sombrio, de certa forma coerente com a realidade pouco esperançosa em que estamos vivendo. Como você vê o mundo hoje?

Ramon, sou um Cristão Protestante. Esperança está na raiz do que eu acredito. Obvio que os embates do dia a dia nos fazem amolecer às vezes. Há tantas desigualdades, tantas injustiças que por vezes até essa esperança titubeia. Mas a questão é, e é assim que acredito, que somos falhos. Temos a natureza caída e precisamos sempre lutar contra essa queda. Às vezes esperamos atitudes altruístas das outras pessoas mas se examinarmos a nós mesmos, não somos assim naturalmente. Precisamos nos esforçar muito para agirmos assim. Então, se eu sei que naturalmente eu não sou assim, fica mais fácil fazer diferente, algo inusitado, contra a minha natureza. É uma espécie de vitória. 

Você é otimista?

Sim, claro. Tem um negócio que é o muito certo. Sempre, principalmente aqui no Brasil, precisamos de um super-herói que vai nos salvar dos nossos males. E depositamos todas as nossas fichas nesse ídolo. Mas, se cada um de nós começasse a cuidar da sua rua, do seu bairro, do seu vizinho, da sua cidade, talvez, com o tempo, nem precisássemos mais da figura do político como está instituída. Todos nós seríamos um, no melhor sentido da palavra. 

Você tem esperanças por melhorias?

Só individuais, que repercutirão no coletivo. Nada desse negócio de cima pra baixo.  

“Estou cercado de miséria, de amor, de ódio, de desavenças, de perdão, de riqueza, de arrogância, de medo, de coragem, de saúde, de doença. Tudo isso é mote para histórias”

Página de Reconexão, obra do quadrinista Lelis publicado pela Abacatte Editorial

Como as suas impressões em relação à nossa realidade impactam os seus trabalhos?

Estou cercado de miséria, de amor, de ódio, de desavenças, de perdão, de riqueza, de arrogância, de medo, de coragem, de saúde, de doença. Tudo isso é mote para histórias. Em 2001 escrevi um livro chamado Saino a Percurá. Uma das histórias se chama Mudernidades. Nela, o vaqueiro Jovino de Tião Ferrêra acha uma TV e fica tão fascinado com ela que se esconde de todo mundo dentro de um poço. Para ele, aquela realidade era tão mais interessante que sua vida real que acaba morrendo lá mesmo, no poço, grudado na TV. Acho que essa é a mesma história de Reconexão. Só a tecnologia dos dias de hoje ficou mais avançada e mais viciante.

Como leitor e autor, o que mais te interessa hoje em termos de histórias em quadrinhos?

Eu gosto do Cris Ware mas ele me deixa tonto. 

Há algum plano de lançamento de Popeye no Brasil? 

Que eu saiba não.

O que você pode adiantar sobre o seu próximo projeto com o Antoine Ozanam?

Ah, é uma história pessoal do Antoine. Ele ainda vai me enviar a sinopse completa, só fiz as primeiras 10 pranchas. Só sei que é profundamente francesa, com relatos bem pessoais se rementendo a um lugar e personagens bem específicos. Ou seja, terei que me tornar um francês para fazer esse novo álbum. Nem se for um francês caipira.

A capa de Reconexão, obra do quadrinista Lelis publicado pela Abacatte Editorial
Entrevistas / HQ

Kainã Lacerda expõe originais na 9ª Arte Galeria, em São Paulo

O quadrinista Kainã Lacerda selecionou 32 obras originais – entre rascunhos, ilustrações e páginas de quadrinhos – para expor em sua mostra solo na 9ª Arte Galeria (R. Augusta 1371, loja 113), em São Paulo. A exposição terá abertura na noite de hoje, 29 de outubro, e ficará em cartaz até o próximo sábado, dia 2 de novembro. Você confere outras informações sobre a abertura da mostra na página do evento no Facebook.

Autor das revistas Cintaralha Comix, Lacerda tem como principais características obras com forte teor pornográfico – e possivelmente ofensivas para muitos -, extremamente técnicas e marcadas pelo uso do nanquim – prática inspirada pelos trabalhos de autores como Daniel Clowes e Peter Bagge.

“Desde que eu comecei a fazer quadrinhos eu tenho estudado bem mais narrativa. Ultimamente eu tenho lido coisas com olhos mais críticos. Como tal cara constrói uma página e quais os benefícios disso. É uma parada que eu tô sempre pensando pra me melhorar como  quadrinista e deixar a leitura mais fluida e prazerosa pro leitor”, diz o autor sobre uma de suas reflexões enquanto fazia a curadoria dos trabalhos que serão expostos a partir de hoje.

No papo a seguir, Lacerda fala sobre os bastidores de sua mostra na 9ª Arte Galeria, a repercussão de seu trabalho nas redes sociais e sua próxima publicação. Saca só:

“Me deram carta branca pra eu colocar o que eu quisesse na exposição”

Quadro de uma das artes de Kainã Lacerda que estarão expostos na 9ª Arte Galeria

Você pode falar um pouco sobre a curadoria dessa exposição na 9ª Arte Galeria? Ela é feita a partir de algum recorte específico do seu trabalho?

Não necessariamente. Eles me deram o máximo de liberdade possível pra fazer a exposição da forma que eu queria. Eles me deram carta branca pra eu colocar o que eu quisesse lá na exposição e a partir daí eu selecionei alguns dos meus trabalhos que estavam mais direitinhos pra colocar lá e eu recebi toda a atenção e ajuda necessária do pessoal. 

Todos os seus trabalhos que estarão expostos são obras produzidas com nanquim. O que mais te interessa no uso do nanquim? Você tem alguma técnica e material de trabalho preferidos?

Eu trabalho muito com nanquim e caneta pincel. A maioria dos meus primeiros trabalhos foram feitos dessa forma e mesclados com digital. Eu comecei a usar nanquim porque é o material que todas as minhas influências usam pra produzir quadrinhos. Eu lembro de uma entrevista com o Daniel Clowes que ele fala que passou uma eternidade tentando achar o material certo pra conseguir o efeito que ele queria nos desenhos dele, até ele descobrir que os profissionais trabalhavam com pincel e nanquim. Eu nunca consegui me adaptar muito bem pra usar pincel, aí eu uso o mais próximo disso, que é uma canetinha com ponta de pincel. 
Eu gosto muito de aquarela também, mas eu sou péssimo haha. 

Além disso, eu tenho trabalhado muito no digital ultimamente. O Cintaralha 3 foi produzido todo no digital e estou gostando muito do resultado. Meu traço fica mais limpo e certinho quando eu trabalho no digital, além de ser bem mais rápido. A única desvantagem é que eu fico sem original pra expor hehe. 

“Parece que tá todo mundo num estado de desenvolvimento interrompido”

Quadros de uma das artes de Kainã Lacerda que estarão expostos na 9ª Arte Galeria

Eu imagino que uma exposição como essa acaba também sendo uma oportunidade para você refletir e pensar sobre a sua produção. Isso aconteceu com você? Você nota muitas mudanças e transformações na forma como você pensa e faz quadrinhos ao longo dos anos?

Ah, sim, com certeza. Eu nunca liguei pros meus originais, eu nunca achei que eles tinham valor, e ainda não sei se eu acho. Mas ir lá na galeria e mostrar minhas folhas de quadrinho me fez pensar que talvez eu devesse desenhar em um papel um pouco melhor que chamequinho, haha. Desde que eu comecei a fazer quadrinhos eu tenho estudado bem mais narrativa e tal. Ultimamente eu tenho lido coisas com olhos mais críticos. Como tal cara constrói uma página e quais os benefícios disso e tal. É uma parada que eu tô sempre pensando pra me melhorar como  quadrinista e deixar a leitura mais fluida e prazerosa pro leitor. 

O seu trabalho apresenta muitas cenas de nudez e sexo – o seu Inktober inclusive foi denunciado e censurado mais de uma vez no Instagram. Que leitura você faz da repercussão que uma produção como a sua acaba tendo em dias retrógrados como os que estamos vivendo?

Até o final desse mês o meu Instagram ainda vai ser excluído, haha. Eu acho que tem muita gente puritana por aí, ou gente que interpreta o que eu faço de uma forma escrota e mal-intencionada. Eu já ouvi muita merda em relação a isso, já tive gente me tratando esquisito e tal, mas eu acho que isso faz parte quando tu faz um conteúdo igual ao que eu faço. Eu não ligo muito. Ligava mais antes. 

Recentemente eu vi uma palestra com a youtuber Lindsay Ellis, no qual ela conta sobre como ela estava sendo perseguida pela Alt-Right e por esses 4channers neonazi. Ela conta sobre como isso fodeu com a cabeça dela e ela foi parar numa instituição psiquiátrica por causa disso. Horrível. Eu morro de medo de cair na mira dessa gente. Eu morro de medo de bolsominions de internet em massa. Espero continuar fora do radar deles. Eu não tenho emocional pra lidar com esses psicopatas. Ler comentários de Facebook me deprime. Quando teve aquela parada da Escória, que o filho do bolsonaro retuitou uma foto do maluco com a pochete do Adriano Disk Gás, eu fui ler os comentários e aquilo acabou comigo. Eu me sinto péssimo vendo essa galera tão ignorante no mundo. Parece que tá todo mundo num estado de desenvolvimento interrompido. Tá todo mundo na terceira série fazendo piada homofóbica e racista como se fosse a parada mais groundbreaking do mundo. Eu odeio essa galera com todas as minhas forças. 

“O meu objetivo é  fazer um gibi que, se não fosse meu, eu ia gostar de ler”

Quadro de uma das artes de Kainã Lacerda que estarão expostos na 9ª Arte Galeria

O que mais te interessa em termos de quadrinhos hoje? O que você mais tem interesse em ler e tentar fazer e experimentar com a linguagem das HQs?

Ultimamente eu tô obcecado por Hate, do Peter Bagge. Eu não consigo parar de ler. A forma como ele escreve os diálogos e monta a história é absolutamente incrível. Parece que tu tá vendo uma conversa de verdade acontecendo ali. Eu queria fazer isso. Os quadrinhos que eu gosto muito de fazer são quadrinhos que são quase inteiramente monólogos. Personagens conversando com o leitor. Mas quando eu vou criar duas pessoas conversando não sei se fica tão fluído assim, tão natural. Mas é algo que eu quero fazer. Deixar o texto dos meus quadrinhos parecendo uma conversa real, que tu pode entrar na história e sentir que aquilo poderia ser uma conversa que tu tá ouvindo quando tu tá na rua. Texto pra mim é fundamental. Se eu tô lendo um quadrinho que a história é boa, os desenhos são bons, a narrativa é irada, mas o texto é mecânico, isso me frustra um pouco. E é isso que eu quero melhorar mais. A gente é muito autocrítico e isso atrapalha um pouco às vezes, mas meu objetivo é  fazer um gibi que, se não fosse meu, eu ia gostar de ler.

Uma pergunta que tenho feito bastante aqui no blog: desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que é a nossa sociedade hoje. Você é otimista em relação ao nosso futuro?

Eu vario bastante entre estar otimista e pessimista. O Bolsonaro é o reflexo do cidadão brasileiro. Ele é a imagem cuspida e escarrada do teu tio fascista. Ele não tá lá sozinho. Ele não tá lá porque ele enganou a população. Ele tá lá porque tem muita gente que pensa exatamente igual a ele. E isso é profundamente assustador. Eu cresci com varias pessoas que sempre falaram exatamente o que o Bolsonaro tá falando agora pro Brasil todo ver. O que me fode é um cara desses chegar ao poder e fazer as merdas que ele tá fazendo. A gente tá vivendo numa época que parece que mundo inteiro tá andando pra trás. A KKK tá aí marchando pela rua dos EUA. Nós temos nazistas se sentindo empoderados por esses caras. Antes eu achava que essa gente era a exceção, mas agora parece que é a regra. A gente essencialmente tá dividindo o país com uma porcentagem gigantesca de mongolóides nacionalistas tementes a deus que valorizam padrões arcaicos de família tradicional branca conservadora que advogam por ideias medievais de hegemonia. Mas meu lado mais positivo, porém, acredita que isso seja uma coisa passageira. Eu já escutei uma vez que antes de algum progresso existir, a sociedade precisa mostrar a sua cara feia. E acho que talvez seja isso que estamos vivendo hoje, a sociedade se declarando abertamente como podre. E eu espero que a partir daí, exista algum progresso substancial. 

Quadros de uma das artes de Kainã Lacerda que estarão expostos na 9ª Arte Galeria

Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Eu terminei de ver Sopranos outro dia. Uma das melhores séries de todos os tempos e que abriu espaço pra séries picas de hoje. Breaking Bad não existiria sem Sopranos, por exemplo. Eu sempre recomendo os filmes do Ari Aster, um dos meus cineastas favoritos atualmente, o filme mais recente dele, Midsommar, é uma obra de arte.

Fora séries e filmes eu fico muito tempo assistindo vídeos no YouTube. Recomendo a ContraPoints e o Hbomberguy, que são pessoas que tão fazendo uns vídeos incríveis sobre a sociedade atual. Recomendo muito o vídeo sobre Incels, da ContraPoints e da Terra Plana, do Hbomberguy. São umas análises do caralho. 

Meu gosto musical é bem bizarro. Eu vou usar essa oportunidade pra indicar um dos melhores álbuns de todos os tempos, Emotion, da Carly Rae Jepsen. 

“Fazer uma história mais longa tá me dando oportunidade de explorar coisas que eu não conseguia antes”

Quadro de uma das artes de Kainã Lacerda que estarão expostos na 9ª Arte Galeria

Pra encerrar, no que você está trabalhando agora? Você já tem alguma próxima publicação em vista? Se sim, o que pode falar sobre ela?

Eu tô terminado o próximo Cintaralha Comix. Essa é a maior história que eu fiz até agora. Tá com 52 páginas e três epílogos. Eu comecei a fazer essa história porque eu queria expandir um personagem que eu criei em 2017, chamado Bebe-Mijos. Esse próximo Cintaralha vai ser a primeira parte de três, da história da ascensão, auge e queda desse personagem. O que eu posso falar sobre essa história é que ela não é o que vocês imaginam que ela vai ser. Eu tô sentindo que fazer uma história mais longa tá me dando oportunidade de explorar coisas que eu não conseguia antes. Eu tô me divertindo fazendo. Tô sentindo que eu tô aprendendo bastante em questão de estrutura de história e de ritmo e tal. Eu tô bem empolgado pras pessoas lerem. Eu quero ver se consigo lançar agora em dezembro, numa tiragem pequena. Vamo ver se rola! 

Quadro de uma das artes de Kainã Lacerda que estarão expostos na 9ª Arte Galeria
Entrevistas / HQ

Papo com Una, autora de Desconstruindo Una: “Sem o feminismo, minhas experiências não faziam sentido”

A quadrinista inglesa Una está no Brasil. Autora do álbum Desconstruindo Una, vencedor do Prêmio Grampo de Bronze em 2017, ela estará a partir das 19h de hoje (23/10) na loja Ugra (Rua Augusta, 1371, loja 116), em São Paulo, participando de bate-papo seguido de sessão de autógrafos. Um dos focos da conversa será Una – Dedicado a Todas as Outras, espetáculo organizado pelo grupo de teatro Coletivo Rubra, da cidade de Mauá, que adapta para os palcos o álbum de Una publicado em português.

Você confere outras informações sobre o encontro com a presença da quadrinista inglesa na página do evento no Facebook.

Lançado originalmente em 2015, Desconstruindo Una é uma mistura de pensata com jornalismo e histórias em quadrinhos para tratar de violência contra mulheres, desigualdade de gênero, culpa e responsabilidade social. A autora britânica narra sua infância em uma Inglaterra extremamente conservadora e machista no fim dos anos 1970 e sua experiência como sobrevivente de violência sexual para refletir sobre algumas das questões mais importantes do mundo hoje.

A conversa a seguir com a autora reúne perguntas feitas em duas entrevistas com Una, uma realizada em 2016 e outra na semana passada, ambas conduzidas pela jornalista Carolina de Assis. A quadrinista fala sobre o desenvolvimento de Desconstruindo Una, trata da sua formação como feminista e leitora de histórias em quadrinhos, celebra a repercussão de seu trabalho no Brasil e lamenta a ascensão da extrema-direita no mundo. Papo massa, saca só:

“O clima em torno da violência sexual e do abuso histórico estava mudando enquanto eu escrevia o livro”

Quadro de Desconstruindo Una, obra da quadrinista inglesa Una Publicada no Brasil pela editora Nemo

Como começou o processo de produção de Desconstruindo Una?

Foi um processo bastante longo, porque a princípio eu não estava de fato escrevendo um livro, eu estava fazendo alguns desenhos. Eu estava pensando em escrever algum tipo de graphic novel e já tinha começado a testar algumas ideias. Eu estava trabalhando em uma escola de artes e também trabalhava como artista já fazia um bom tempo, mas eu estava interessada em quadrinhos, em quadrinhos sérios. Eu estava pensando em produzir um quadrinho e estava apenas rabiscando esses desenhos no meu horário de almoço, às vezes em casa e apenas ver o que aconteceria. Então, quando eu comecei a escrever o livro, fazia parte desse processo. E foi só quando percebi que poderia ter algo importante a dizer que comecei a levar mais a sério o projeto. Quando pensei nisso como um projeto, o mostrei a uma eminente professora universitária feminista em Leeds com quem eu tinha estudado e pensei “vou mostrar para ela porque ela vai ser capaz de fazer um julgamento crítico sobre se isso é uma obra de arte, o que é que eu estou fazendo, devo continuar fazendo, ou se só tem alguma utilidade para mim pessoalmente”. Tivemos uma conversa muito interessante sobre isso, e sobre memórias, imagens, imagens inadvertidamente pornográficas, sobre evitar isso, todo tipo de coisa, e ela foi muito legal comigo. Comecei a me sentir muito melhor sobre o projeto e pensei sim, vou continuar fazendo isso.

E realmente demorou bastante tempo para se desenvolver, e durante esse tempo eu desenvolvi todas as ideias visuais e é por isso que acho que existem diferentes registros no livro, porque eu estava testando diferentes maneiras de desenhar e escrever e combinar as duas coisas. E também o clima em torno da violência sexual e do abuso histórico estava mudando enquanto eu escrevia o livro, especialmente no Reino Unido. Foi um período em que várias coisas aconteceram enquanto eu estava escrevendo o livro, e a maior coisa foi Jimmy Saville, uma celebridade muito conhecida, e aquilo [a revelação de que Saville havia abusado de dezenas de pessoas, inclusive crianças] aconteceu e o resultado foi que muitas e muitas pessoas começaram a denunciar abusos históricos e eu pensei: isso é muito interessante e agora tenho que tratar de duas coisas, na verdade. Tenho que ser capaz de incorporar a essa narrativa esse novo clima que, quando comecei a escrever, o livro era principalmente sobre as razões de as mulheres não denunciarem e ainda é sobre por que as mulheres não denunciam, isso ainda é um elemento da história, mas então eu tive que tentar incorporar esse novo tipo de movimento de mulheres que estão começando a falar muito mais abertamente sobre o que aconteceu com elas e os homens também estão começando a falar muito mais abertamente sobre os abusos que sofreram nas mãos de homens predadores na infância.

Acho que, especialmente entre mulheres e entre feministas, tornou-se um movimento bastante significativo, porque é claro que é uma experiência tão comum e, embora parte da minha experiência seja bastante extrema em um tipo de espectro de abuso, elas ainda são muito mais comuns do que as pessoas pensam que são, então é algo que eu acho realmente interessante e acho que é por isso que o livro como um todo tem sido muito bem-sucedido em diferentes países, porque, embora teoricamente não haja mais nada universal, essa parece ser uma experiência universal. Novamente, elas são extremas, mas a maioria das mulheres e meninas experimentou, em certa medida, algum tipo de assédio ou abuso com motivação sexual em sua vida, ou violência.

“A maioria das mulheres e meninas experimentou, em certa medida, algum tipo de assédio ou abuso com motivação sexual em sua vida”

Página de Desconstruindo Una, obra da quadrinista inglesa Una Publicada no Brasil pela editora Nemo

Por que você optou por fazer Desconstruindo Una como uma história em quadrinhos?

O livro tem uma estrutura bastante complexa, mas talvez esteja definindo um novo gênero, que eu acho que só pode acontecer nos quadrinhos porque você tem esse tipo de interação entre imagem e texto e também os quadrinhos podem fazer algo sobre histórias realmente sérias que eu acho que é apenas diferente, é diferente do livro narrativo textual normal. Acho que, como você pode experimentar com o visual e com o design e como você pode ter muitas camadas de história, a história se desenrola de uma maneira completamente diferente… Se você está lendo uma linha de texto, a história se desenrola uma palavra de cada vez, em sequência, enquanto nos quadrinhos você pode ter vozes diferentes vindas de fora, quero dizer, no meu livro eu tenho uma pessoa que não tem voz, mas que se comunica por meios visuais, e então eu tenho uma pessoa, a mesma pessoa, falando em retrospectiva, que tem uma voz e meio que narra e explica a história. Então eu tenho uma espécie de terceira pessoa, que também sou eu, que descreve as informações estatísticas, e então eu tenho vozes de personagens, vozes sociais externas, na verdade existem muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo e a única maneira de você poder fazer isso é em quadrinhos. Talvez eu seja uma das pessoas que está trabalhando em quadrinhos dessa maneira experimental e acho realmente interessante, acho que a publicação mais interessante do momento é o que as pessoas chamariam de quadrinhos alternativos.

De várias maneiras, estou tentando enfrentar alguns dos problemas de gêneros específicos, como dos livros de memórias, por exemplo. Acho que “memórias tristes” são um gênero em si, e acho que digo em certo ponto do livro: “isso não é um livro de memórias tristes”, e eu realmente acredito nisso, porque é muito triste em algumas partes, mas não é primariamente uma história triste, para as pessoas sentirem pena… Não é para isso que ele existe. Acho que um dos problemas dos livros de memórias, das memórias tristes em particular, é o impulso de ter uma história descontextualizada, quase separada do panorama cultural em que ocorreu. E, em alguns casos, acho que pode ser bonito em última análise, existem alguns exemplos realmente bonitos disso, mas acho que eles são uma minoria. O que é mais útil para o público, para escritores e para a cultura é colocar o pessoal em um contexto, um contexto cultural, social e político, e tentar entender o contexto maior, suponho. Então, nesse sentido, não acho que seja um livro de memórias. É parcialmente um livro de memórias. Acho que talvez seja um livro de polêmica [no contexto filosófico]. E agora que penso sobre isso, li muito do trabalho de Andrea Dworkin [ativista feminista], que só pode ser descrito como polêmico, então talvez seja isso. Não faço ideia, para ser sincera. Eu penso no livro como uma obra de arte, na verdade. É arte.

“Eu não teria tentado escrever o livro se eu já não me sentisse liberada e não tivesse feito a catarse antes de começar”

Página de Desconstruindo Una, obra da quadrinista inglesa Una Publicada no Brasil pela editora Nemo

Como a produção de Desconstruindo Una mudou ou impactou como você se sente em relação ao seu trauma?

De certa forma, foi libertador, mas acho que eu não teria tentado escrever o livro se eu já não me sentisse liberada e não tivesse feito a catarse antes de começar. Acho que teria sido um erro. Certamente há um elemento disso, mas acho que se existe um elemento de catarse, é mais porque é realmente ótimo, na verdade, poder conversar com as pessoas normalmente sobre isso, em vez de ficar meio encoberto pelo constrangimento, pois embora eu acredite que eu tinha resolvido o trauma, e já estava bastante livre dos sentimentos internalizados de vergonha, ainda assim eu tinha a sensação de não ser capaz de ser eu mesma. Quando conheci uma mulher com quem pensei que poderia me conectar em relação a esse assunto, não existe uma maneira imediata de dizer isso, existe? É uma coisa difícil de abordar, sabe, enquanto tomamos uma xícara de chá e comemos biscoitos em um evento: “Ah é, oi, você também foi estuprada?” Não pega muito bem (risos). No entanto, algo aconteceu na cultura, e isso se tornou mais possível, e não é por causa do que eu fiz — bem, é parte disso, e é sobre isso que eu estava falando antes, que há algum tipo de movimento nesse sentido, e embora ainda seja muito difícil falar a respeito, e difícil dizer, ouvi pessoas falarem sobre isso mil vezes mais frequentemente do que quando eu tinha 20 e poucos anos, por exemplo. Muitas pessoas entraram em contato comigo, as pessoas me contatam por email, Twitter, Facebook, esse tipo de coisa. De certa forma, é muito triste, obviamente, é muito triste ouvir isso, mas, em outro sentido, é realmente ótimo, porque acho que um sentimento de solidariedade e honestidade é realmente importante, é a solução para o problema, na verdade. Ser capaz de ser aberta e honesta sobre isso vai eventualmente resolver o problema em si. Porque é apenas porque isso é meio oculto em segredo, acho, as pessoas se safam quando fazem isso e continuam se safando. E o fato de as pessoas não poderem falar sobre isso adequadamente, acho que também não ajuda na situação. As pessoas, de um modo geral, ainda não conseguem falar sobre isso adequadamente. Acho que elas ainda não sabem o que dizer e acho que ainda há muita vergonha, mas eu diria que isso está mudando lentamente, houve uma mudança de pensamento nos últimos anos.

Por que você acha que essa mudança de pensamento aconteceu?

Acho que em parte por causa da internet, e isso soa bizarro porque a internet, de certa forma, é um lugar muito ruim para as mulheres. Mas de outras maneiras, possibilitou às mulheres mais velhas comparar e compartilhar experiências. Também tornou possível, mesmo que você não queira compartilhar suas experiências… Bem, dá para espreitar, meio que ficar espiando. Assim, mesmo pessoas tímidas ou com vergonha de falar sobre isso podem espiar as conversas de outras pessoas na internet e aprender dessa maneira, e meio que se conectar e sair dali se sentindo menos sozinhas. E acho que isso é muito importante.

“Acho que há muitos bons homens feministas por aí, não acho que seja algo exclusivo às mulheres”

Quadro de Desconstruindo Una, obra da quadrinista inglesa Una Publicada no Brasil pela editora Nemo

Quando você começou a se identificar como feminista?

Eu realmente não lembro bem… Lembro que já no fim da minha adolescência eu zombava das feministas, de um jeito que muitas adolescentes fazem. Eu achava que elas eram hilárias, sabe, e bobas. Então, em que momento isso mudou… Suponho que apenas por me interessar por cultura, por ler coisas e conversar com pessoas, que é o que você faz quando se interessa por ideias, e lentamente essas ideias começam a… Por mais que tenha sido um processo gradual, eu diria que já nos meus vinte e poucos anos eu provavelmente me considerava feminista, mas eu provavelmente não tinha uma boa ideia do que isso realmente significava. Até que eu levei isso a sério e comecei a ler muitos livros – livros feministas, quero dizer, porque eu já lia muitos livros – mas talvez eu já estivesse nos meus 30 anos ou algo assim. E então eles começaram a fazer muito mais sentido e eu era capaz de comparar, e quando comecei a estudar esses textos eu percebi como eu já havia lido muitos textos feministas, mas eu não tinha percebido isso enquanto eu estava lendo, então isso foi bem engraçado. Tem um livro do qual eu gostei muito, da Fay Weldon, que se chama The Fat Woman’s Joke [A Piada da Mulher Gorda, em tradução livre] e eu o li quando era menina ainda, bem jovem, nem sei quantos anos eu tinha. E este foi um dos livros que li e não fazia ideia de que era uma obra feminista até muitos anos depois, e acho isso bem engraçado.

E acho que para mim a coisa mais importante a dizer na verdade é que acho que não sou o habitual entre sobreviventes… Sabe, não gosto dessa palavra, mas não tenho uma palavra melhor. Mas entre sobreviventes que são feministas não sou o habitual, no sentido de que sinto que, sem o feminismo, minhas experiências não faziam sentido. Porque essencialmente, sem o feminismo, eu seria responsável por tudo o que aconteceu comigo, não seria? Em uma visão sem uma análise feminista, eu sou o que as pessoas estavam dizendo sobre mim na época. E acho que não dá para sobreviver a isso. Eu realmente sinto pena, muita pena de mulheres antifeministas, e existem várias delas por aí. Acho que é uma posição terrível na qual se colocar. Alice Walker, eu acho, que disse “claro que sou feminista, é bom que eu esteja do meu próprio lado”, ou algo assim. Acho que é algo útil para os homens também, acho que há muitos bons homens feministas por aí, não acho que seja algo exclusivo às mulheres. Gosto de pensar assim, porque isso meio que recupera minha fé um pouco às vezes.

“O feminismo é sobre amar as mulheres e tentar entender como os papéis que as mulheres recebem devido a estereótipos culturais em torno da feminilidade restringem nossas vidas”

Página de Desconstruindo Una, obra da quadrinista inglesa Una Publicada no Brasil pela editora Nemo

Qual você acha que pode ser o papel do feminismo para os homens?

Se o feminismo tem em seu cerne um exame sério do papel que a feminilidade desempenha em nossa sociedade e nossas culturas, então acho que o feminismo para os homens deve ser um exame sério do papel que a masculinidade desempenha, ou os estereótipos da masculinidade desempenham, na cultura, na sociedade. Mas devo acrescentar também que qualquer exame sério da masculinidade baseado em um simples ódio ao feminismo não vai funcionar, porque não pode ser um exame isolado, um exercício de autoconsciência, talvez. Porque as pessoas gostam de acusar as feministas de odiarem os homens e, claro, tenho certeza de que existem feministas por aí que odeiam homens, mas isso certamente não é a essência do feminismo. O feminismo é sobre amar as mulheres e tentar entender como os papéis que as mulheres recebem devido a estereótipos culturais em torno da feminilidade restringem nossas vidas. 

Então acho que você pode aplicar isso em princípio, que eu ainda chamaria de feminismo, à masculinidade, e você poderia dizer “ok, quais são os papéis que são atribuídos em sua cultura aos homens por conta de ideias sociais e culturais, estereótipos sociais, em torno da masculinidade e como elas limitam você?” Acho que esse seria um exercício interessante na expansão da ideia do que um homem pode ser, da mesma maneira que o feminismo expandiu a ideia do que uma mulher pode ser. 

Eu digo isso porque quero dizer que homens sempre foram gentis e bons. Penso em todos os homens que estão fazendo coisas boas no mundo. Há homens fazendo coisas fantásticas, corajosas, nobres. Eles sempre existiram. Mas de alguma forma, dentro da masculinidade, isso não está em primeiro plano, está? É um tipo de machismo estranhamente agressivo, suponho, que está em evidência. E eu me pergunto como chegou lá, mas aí só precisamos ver como Trump foi eleito nos Estados Unidos – mesmo que Hillary Clinton tenha recebido mais votos – para ver que, embora esse tipo de machismo estranho e agressivo esteja em evidência, essas pessoas não são necessariamente maioria. Temos que ter isso em mente, temos que lembrar que a maioria das pessoas é decente, a maioria das pessoas é boa. A maioria das pessoas está apenas tentando viver seu o dia e não causar mais danos ao mundo do que já existem, certo? Então, há esperança, eu sempre sou esperançosa e otimista.

“Sou uma leitora bastante eclética de histórias em quadrinhos. Posso até dar uma chance ao Batman, se estiver de bom humor”

Página de Desconstruindo Una, obra da quadrinista inglesa Una Publicada no Brasil pela editora Nemo

Quais artistas e obras moldaram a sua formação como autora de histórias em quadrinhos?

Quando eu era criança, costumava ler muitos quadrinhos. Histórias em quadrinhos infantis eram muito comuns. Eu costumava ler todos eles, na verdade; aqueles mais focados nas ilustrações, aqueles bem de menininha, esse tipo de coisa. Mas eu também costumava ler a revista Mad quando conseguia botar as mãos em alguma edição, porque era algo bem para adultos e algumas partes eram um pouco rudes, então meus pais não queriam que eu lesse, era uma coisa bastante adulta. Mas sempre que eu via um exemplar na banca, eu pegava uma cópia e comprava correndo antes que alguém percebesse. Então eu sempre gostei muito desse tipo de história em quadrinhos, mas nunca os super-heróis, especialmente. E depois, quando adolescente, li muito humor bem sujo, de novo os quadrinhos mais engraçadinhos, e de novo não lia quadrinhos de super-heróis. Mas, dito isso, sou uma grande fã de ficção científica, e isso também me influencia. Mas você perguntou o que me formou como uma autora de quadrinhos, e eu acho que quando criança eu lia muitos livros bem sérios, muitos dos quais eu não entendi em nada e só mais tarde eu consegui entender o que li.

Eu li Watchmen, que é uma história em quadrinhos no estilo mais típico que critica o gênero de super-heróis e eu achei simplesmente brilhante. E depois li Persepolis, que é da Marjane Satrapi, e gostei muito da estética em preto e branco, e desde então também gosto muito de David B., um artista francês. Eu gosto muito dessa estética monocromática, meio simples, mas meio decorativa. E então eu li Maus, e daí pensei “ah, ok, se é possível escrever uma história em quadrinhos sobre o Holocausto, então sim, é definitivamente possível escrever uma história em quadrinhos sobre estupro e assassinatos e crimes com motivação sexual”. E pensei sim, vou tentar. Então foi isso que me formou. Quero dizer, isso já faz muito tempo, há quase uma década, e desde então, é claro, eu passei a me interessar muito por quadrinhos, na verdade, estou trabalhando em um doutorado em quadrinhos. Então eu li muitas coisas desde então e minhas ideias sobre o que os quadrinhos podem fazer e esse tipo de coisa mudaram bastante. Sou uma leitora bastante eclética de histórias em quadrinhos. Posso até dar uma chance ao Batman, se estiver de bom humor.

“Sou uma grande fã da arte de Chris Ware sobre vidas comuns / extraordinárias e suas adoráveis ​​e minúsculas sequências incrementais”

Quadros de Desconstruindo Una, obra da quadrinista inglesa Una Publicada no Brasil pela editora Nemo

Como autora e leitora, o que você vê de mais interessante sendo feito hoje nos quadrinhos?

Gosto de quadrinhos interessantes que são bem feitos e produzidos com intenção. Há muitas coisas superficiais e espetaculares por aí que não aproveitam ao máximo as qualidades especiais e específicas dos quadrinhos. Gosto de quadrinhos sobre a vida, mas eles precisam ser atenciosos, bem-feitos, comoventes e sem medo de experimentar um pouco. Minha vida em quadrinhos adultos começou com Fun Home, de Alison Bechdel, e Maus, de Art Spegelman, e acho que, para muitos criadores que trabalham com histórias de vida, esses são textos icônicos, mas agora são textos bastante antigos e formas de arte não devem ficar paradas no tempo, então os quadrinhos contemporâneos precisam construir sobre essas fundações. 

Um trabalho de escrita sobre a vida que eu particularmente gosto é de Ros Chast, Can’t we talk about something more pleasant?, que apresenta fotos reais do apartamento desorganizado dos pais dela, que de alguma forma transmitem o vazio e a dor da perda no fim de um livro cheio de desenhos engraçados e uma escrita sincera de cortar o coração sobre como ela cuidou dos pais na velhice deles. 

Outros livros que eu gosto tendem a ser esquisitices, o que é algo que os quadrinhos fazem bem. Adoro In Pieces (2013, Nobrow), de Marion Fayolle, e A Thousand Colored Castles, de Gareth Brookes (2017, Myriad Editions). Também sou uma grande fã da arte de Chris Ware sobre vidas comuns / extraordinárias e suas adoráveis ​​e minúsculas sequências incrementais. Gostaria de ver muito mais profundidade nos quadrinhos. Sempre haverá espaço para coisas divertidas, mas acho que há muito potencial inexplorado.

“Nessas últimas semanas, enquanto me preparava para a viagem, aprendi mais e espero aprender o máximo possível sobre as mulheres no Brasil”

Você vem ao Brasil em parte porque um grupo de teatro brasileiro adaptou seu trabalho para uma peça de teatro. Como você recebeu a notícia dessa adaptação? O que você acha da repercussão do seu trabalho no Brasil?

Em dezembro de 2018, recebi um contato por meio do meu site de um membro de um grupo de teatro juvenil, dizendo que eles haviam desenvolvido uma peça baseada em Desconstruindo Una e perguntando se eu gostaria de ver a peça. Obviamente, a Inglaterra está muito longe de São Paulo, então eu disse que não tinha certeza de que poderia fazer isso acontecer! Também apontei que é habitual pedir permissão a uma artista para adaptar o trabalho original dela antes de fazê-lo, e não depois. Ok, mas como esse era claramente um grupo de jovens de bom coração, eu dei minha bênção e eles disseram que enviariam algumas fotos da produção. Bem, as fotos me fizeram chorar. Que maravilha ver todas essas jovens de vestidos vermelhos e os jovens atuando com elas e por elas. Eu pensei que aquilo era maravilhoso. Eles não estão produzindo a peça para ter lucro, mas para ajudar as pessoas no Brasil a debater e entender os problemas da violência sexual e da violência contra mulheres e meninas. Aquelas fotos me fizeram pensar que eu tinha que encontrar uma maneira de chegar a São Paulo para vê-las se apresentar, conhecê-las e talvez ajudá-las a promover seu trabalho e também a edição brasileira do meu livro, então quase um ano depois aqui estou no Brasil. Tem sido um esforço de equipe. Eu usei um financiamento público para as artes do Reino Unido para pagar pelo voo e o Coletivo Rubra fez um financiamento coletivo para outras despesas da viagem. Elas são ativas nas redes sociais e têm o cuidado de sempre me creditar como autora do trabalho que deu origem à peça. Espero que essa experiência seja boa para elas, porque elas realmente fizeram algo especial acontecer. A visita será uma semana de apresentações teatrais, um relançamento do meu livro com minha editora brasileira, a Nemo, entrevistas, debates e uma visita à Casa Helenira Preta, um centro de apoio e abrigo para mulheres.

Eu já estava ciente dos problemas de violência que são globais e específicos do Brasil a partir de minha pesquisa sobre violência contra mulheres e meninas, mas nessas últimas semanas, enquanto me preparava para a viagem, aprendi mais e espero aprender o máximo possível sobre as mulheres no Brasil enquanto eu estiver aqui.

“Os melhores livros acontecem quando o autor está tentando entender ou descobrir alguma coisa”

Página de Desconstruindo Una, obra da quadrinista inglesa Una Publicada no Brasil pela editora Nemo

Quando conversamos em 2016, você disse que achava que estávamos “meio que caminhando como sonâmbulos para um período de totalitarismo” e contou que estava trabalhando em uma história em quadrinhos que abordava esse assunto. Você ainda está trabalhando nisso? Pode nos contar um pouco mais sobre esse livro? E como os acontecimentos políticos globais dos últimos anos afetaram seu trabalho?

Sim, ainda estou trabalhando nesse livro. Será publicado em 2020 pela Virago Press, uma editora icônica de Londres que já publicou grandes escritoras como Margaret Atwood e Maya Angelou. O livro chama-se Eve, que é um nome feminino, mas também significa [em inglês] a noite antes de algo acontecer. A história se passa daqui a 10 ou 20 anos no futuro e não é um livro pós-apocalíptico, porque está mais interessado no que vai acontecer se o fim do mundo não chegar, mas, em vez disso, nós, humanos, nos viremos como sempre, fodamos com tudo e não aprendamos com nossos erros. 

De certa forma, tem sido um momento estranho para escrever um livro como esse, porque os acontecimentos globais têm sido tão rápidos e, às vezes, realmente bizarros. O livro foca em um futuro Reino Unido onde as coisas foram de mal a pior, de estranhas a ridículas a absolutamente perigosas. Às vezes, tive a estranha experiência de escrever ou desenhar uma ideia que parece extremada ou ridícula, depois ligar o rádio e ouvir a mesma coisa no noticiário. Isso me assustou algumas vezes. Cheguei a questionar se as coisas que estavam acontecendo eram minha culpa; como se eu estivesse escrevendo eventos no Reino Unido e fazendo-os acontecer. Não se preocupe, estou brincando, não sou tão paranóica, mas é um efeito estranho. O livro está quase finalizado, está no processo de edição agora.

“É fácil se assustar com pessoas como Bolsonaro e Trump, mas se permanecermos fortes e nos ajudarmos mutuamente, se fizermos o que for possível fazer como indivíduos e como coletivos, não estaremos desamparados”

Ilustração de Desconstruindo Una, obra da quadrinista inglesa Una Publicada no Brasil pela editora Nemo

Você está vindo ao Brasil em um momento em que o país tem como presidente um político de extrema-direita, um homem que repetidamente expressou seu apoio à tortura e suas opiniões racistas, sexistas, xenofóbicas e LGBTfóbicas — e, infelizmente, ele é um reflexo de parte da sociedade brasileira hoje. A situação no Reino Unido parece um pouco menos horrenda, mas ainda assim vocês estão no meio da confusão do Brexit e com Boris Johnson como primeiro-ministro. Como você vê o que está acontecendo no mundo? E como você se sente sobre o futuro do Reino Unido e do mundo?

Não sei ao certo o que pensar disso tudo, por isso tive que escrever um livro sobre isso. Os melhores livros acontecem quando o autor está tentando entender ou descobrir alguma coisa, e espero que Eve seja um desses livros. Líderes como Bolsonaro, Trump, Modi, entre outros, prejudicam a democracia, assim como movimentos populistas como o Brexit no Reino Unido e o movimento Cinco Estrelas na Itália. A esperança é que haja um limite para o que as pessoas comuns vão suportar, porque, por exemplo, recentemente, na Hungria, o clima político mudou e Orbán sofreu algumas sérias derrotas, mas na Polônia isso valeu para o outro lado, então não sei quão otimistas podemos ser. O desespero não vai nos ajudar, porém. 

Acho que é uma boa ideia progressistas e liberais se perguntarem por que falhamos em convencer as pessoas a se afastarem dos ideais populistas com base em um grupo interno e em uma variedade de outsiders. Há anos que faço essa pergunta a pessoas que conheço no Partido Trabalhista do Reino Unido e nunca recebi uma resposta direta: como podemos convencer pessoas comuns que estão inclinadas a ver “forasteiros” como uma ameaça (e que admiram as pessoas ricas, temos que parar de fazer isso!) a votar em partidos que vão agir em seu interesse ao tornar as coisas mais justas para todos os trabalhadores, se eles não conseguirem ver que todos os trabalhadores têm um interesse compartilhado, independentemente de estarem no grupo “de dentro” ou no grupo “de fora”? Como podemos convencer os seguidores dos populistas de que eles deveriam direcionar sua raiva para os ricos parasitas que estão destruindo o mundo por meio da ganância, em vez de culpar e odiar as pessoas comuns que estão lutando para viver uma vida boa, exatamente como são, simplesmente porque têm uma cor de pele, nacionalidade ou sexualidade diferente? Eu me preocupo que pensadores de tendência socialista apenas confiem no bem autoevidente de suas ideias. Muitas pessoas não estão convencidas desse bem. É nosso trabalho convencê-las. É fácil se assustar com pessoas como Bolsonaro e Trump, mas se permanecermos fortes e nos ajudarmos mutuamente, se fizermos o que for possível fazer como indivíduos e como coletivos, não estaremos desamparados. Ainda.

A capa de Desconstruindo Una, obra da quadrinista inglesa Una Publicada no Brasil pela editora Nemo
Entrevistas / HQ

Papo com Giovanna Cianelli, designer, ilustradora e autora do postal de 7 anos do Vitralizado: “O que me encanta mais no quadrinho é justamente essa imersão fantasiosa que sinto quando leio uma boa história”

A designer e ilustradora Giovanna Cianelli é a autora da arte do postal de sete anos do Vitralizado. O postal será lançado oficialmente no próximo fim de semana, dias 19 e 20 de outubro, na Feira Des.Gráfica, realizada no Museu da Imagem e do Som de São Paulo (saiba mais clicando aqui). Eu estarei por lá distribuindo os postais de graça e com alguns poucos exemplares de um pôster com a mesma arte. Fica o aviso: vai acabar rápido!

Fiz o convite para Cianelli produzir o postal por conta da leva recente de trabalhos extraordinários publicados por ela. Passei a acompanhar atentamente sua produção com o lançamento da webcomic Garota Galáctica, uma ficção científica com ares kirbyanos lançada no final do ano passado e produzida em parceria com o editor Daniel Lameira.

Nos últimos meses ela assinou uma leva de projetos gráficos impressionantes. Pela Aleph trabalhou com quadrinista Rafael Coutinho em Ubik, O Homem do Castelo Alto e Blade Runner, os três de Philip K. Dick; e com a artista Marcela Cantuária em A Mão Esquerda da Escuridão e Os Despossuídos, de Ursula K. Le Guin. Também pela Aleph foi a responsável pelo projeto gráfico e pela arte da capa da mais recente edição de Laranja Mecânica, de Anthony Burgess.

Ela é responsável pelos belíssimos projetos gráficos da editora Antofágica – como as novas edições de A Metamorfose, de Franz Kafka, com artes de Lourenço Mutarelli; e A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, com ilustrações de Paula Puiupo – e também pelo design das edições de três títulos recém-anunciados da editora Pipoca & Nanquim: Sob o Solo, de Bianca Pinheiro e Greg Stella; Gastaria Tudo com Pizza, de Pedro Duarte; e A Floresta das Árvores Retorcidas, de Alexandre Callari.

Bati um papo com Cianelli sobre a arte do postal de sete anos do Vitralizado e também conversamos sobre toda essa leva de grandes trabalhos assinados por ela. Ela falou um pouco sobre técnicas e inspirações, prometeu a retomada de Garota Galática em um futuro próximo e adiantou seus planos para outra HQ autoral, Diabo Diabinho – já pronta e em breve em campanha de financiamento coletivo no Catarse. Papo massa, saca só:

“O resultado geralmente é uma colagem de ideias e a partir delas crio a ilustração. É minha forma preferida de criar.”

Quadros de uma página de  Garota Galáctica, HQ de Giovanna Cianelli em parceria com Daniel Lameira

Quando fiz o convite para você produzir a arte do postal eu não dei muitos direcionamentos. Falei dessa minha leitura do blog como um espaço meio anacrônico e antiquado em meio a tantos canais de YouTube e também dos ares cada vez mais retrôs de um blog dentro desse mesmo contexto. O quanto dessa minha orientação ajudou no desenvolvimento do seu trabalho? Geralmente você prefere direcionamentos mais específicos do que esse?

Eu fiquei muito feliz com o convite. Já acompanho o blog há anos e sempre fico impressionada com as entrevistas, os conteúdos e o bom gosto de modo geral. 

A partir do direcionamento que você me deu, comecei a pensar em como representar esse espaço anacrônico. Queria fazer algo mais complexo, não tão fácil de ser entendido em um primeiro momento, algo que prendesse a atenção e fosse mais rico do que poderia parecer a primeira vista. Surgiu uma ideia de trabalhar com vários planos. Pensei que seria interessante usar cômodos de uma casa e brincar com a espacialidade. 

É sempre bom ter liberdade, mas também pode ser bem intimidador. Então, quando os direcionamentos são mais abertos a criação é mais demorada, procuro muitas referências para chegar a novas interpretações sobre aquele assunto. O resultado geralmente é uma colagem de ideias e a partir delas crio a ilustração. É minha forma preferida de criar.

“O trabalho do quadrinista Joost Swarte, foi minha principal inspiração, especialmente como ele explora a falta de sincronia entre conteúdo e traço”

O cartaz de 7 anos do Vitralizado, com arte assinada por Giovanna Cianelli

Quais foram as primeiras referências que vieram à sua mente quando você começou a trabalhar nesse projeto do postal? Houve algum elemento em particular que você teve como meta utilizar e que ficou no trabalho final?

Durante esse processo de pesquisa, demorei para achar a linguagem que queria explorar. Fiquei pensando sobre desenho animado dos anos 30, tipo Bimbo’s Initiation, Skeleton Dance e Betty Boop. A inocência no traço, os cantos arredondados e a simplicidade contrastando com desconforto fantástico, exageros e alegorias. O trabalho do quadrinista Joost Swarte, foi minha principal inspiração, especialmente como ele explora a falta de sincronia entre conteúdo e traço. Tentei misturar isso com um pouco de sci-fi pra acentuar o tom anacrônico.

“Algumas cenas são referências diretas a quadrinhos de Swarte redesenhadas com outros personagens e outro contexto”

A capa de Is That Al There Is?, álbum do quadrinista holandês Joost Swarte

Você pode falar um pouco das suas técnicas nesse postal? Como foi a produção dessa? Que material você utilizou?

Antes de começar a pensar na versão final, fiquei desenhando em cadernos como seriam os personagens e os elementos que gostaria de usar. Com uma ideia mais clara de como seria o desenho, fiz uma colagem para me ajudar na composição e comecei a desenhar direto no digital. Algumas cenas são referências diretas a quadrinhos de Swarte redesenhadas com outros personagens e outro contexto.

“O que tem mais me impactado são os livros do Charles Burns e do Daniel Clowes, que são os meus quadrinistas preferidos”

A parceria de Giovanna Cianelli com Rafael Coutinho no projeto gráfico da nova edição de Blade Runner da editora Aleph

Você pode me falar um pouco sobre a sua relação com quadrinhos? O que você mais gosta de ler? Quais são as suas lembranças mais antigas em relação à presença de quadrinhos na sua vida? Há algum elemento da linguagem dos quadrinhos pelo qual você tem mais interesse?

Minha primeira lembrança com quadrinhos é bem antiga. A mais longínqua que consigo pensar é aos três anos: eu adorava ficar vendo as páginas dos gibis, minha mãe achava interessante eu gostar tanto e me deixava brincar com eles. Até que um dia ela percebeu que eu estava comendo parte dos gibis hahaha

Meu pai foi minha maior influência, ele lê Disney, Tintim e Fantasma até hoje. Quando eu era criança tinha muito gibi espalhado pela casa toda. Minhas amigas também tinham e a gente fazia um rodízio pra ter histórias diferentes para ler. Na adolescência, li muito Chiclete com Banana e isso me marcou bastante. Aliás, durante a adolescência, o punk esteve muito presente na minha vida, e comecei a acompanhar a produção independente. Não lia muita coisa gringa porque não tinha dinheiro para comprar muitos livros. Às vezes, ia nas livrarias ou bibliotecas e ficava lendo por lá mesmo.

Atualmente, o que tem mais me impactado são os livros do Charles Burns e do Daniel Clowes, que são os meus quadrinistas preferidos. Esse surrealismo bizarro flertando com questionamentos existencialistas me atrai muito e o que me encanta mais no quadrinho é justamente essa imersão fantasiosa que sinto quando leio uma boa história. 

“Eu queria criar uma personagem que fosse uma anti-heroína porradeira”

A capa das primeiras atualizações de Garota Galáctica, webcomic de Giovanna Cianelli e Daniel Lameira

Eu gosto muito das cinco páginas que você e o Daniel Lameira produziram até hoje para a Garota Galactica. Como essa série teve início? Vocês têm planos de dar continuidade ao projeto?

Lembro que uma vez vi uma entrevista da LoveLove6 falando sobre a falta de personagens icônicas no quadrinho brasileiro. Aquilo ficou na minha cabeça e fiquei pensando como seria a personagem que eu gostaria de criar.  A temática sci-fi, foi meio óbvia porque eu já consumia muitas coisas relacionadas a isso. Eu queria criar uma personagem que fosse uma anti-heroína porradeira. Uma das minhas referências foi a Barbarella e muito também do 2001, do Kirby, obra que sou apaixonada. 

O Dani tem importância gigantesca em tudo que eu produzo. Muitas vezes eu me sinto insegura, fico questionando se o que eu faço é suficientemente bom e acabo não sendo muito gentil comigo mesma. Sou muito exigente com o meu trabalho e o apoio dele é fundamental. Faz um tempão que queremos produzir uma história em quadrinhos juntos (essa já é a terceira ou quarta tentativa). Conversei com ele sobre essa personagem e ele criou um roteiro incrível que me ajudou a enxergar possibilidades maiores para aquele universo.

Quero muito continuar produzindo a Garota Galáctica. Passei por um período de produção intensa de trabalhos mas quero arrumar algum jeito de encaixar isso na rotina para a produção se manter frequente.

Tenho uma outra HQ pronta há quase 2 anos, se chama Diabo Diabinho. Vou lançar uma campanha no Catarse para financiar a impressão desse projeto e tirar isso da gaveta. A narrativa é um pouco mais experimental, em relação ao estilo tem bastante influência das HQs de romance que o Kirby produzia antes de se dedicar quase que totalmente aos super-heróis. Tem uma pegada meio brega que eu acho divertida. Acho que a volta da produção da GG vai ser depois disso. 

“Tento absorver o que o cliente quer comunicar e misturar esse conceito com coisas que eu gosto”

A capa de Gastaria Tudo com Pizza, livro de Pedro Duarte pela editora Pipoca & Nanquim com arte e projeto gráfico de Giovanna Cianelli

Sobre as capas e projetos editoriais nos quais você trabalha: você tem alguma técnica ou método para encontrar qual a investida “certa” para um livro?

Eu me apoio em referências o tempo todo. As coisas que eu consumo influenciam diretamente onde eu quero chegar com determinado projeto. Geralmente, tento absorver o que o cliente quer comunicar e misturar esse conceito com coisas que eu gosto. Os editores também tem grande influência nessa decisão de qual abordagem é a mais adequada.

Eu gosto muito dessa leva recente de trabalhos seus para a Aleph, tanto seus projetos solos, como as parcerias com ilustradores – como o Rafael Coutinho e a Marcela Cantuária. Como é a dinâmica do seu trabalho com esses ilustradores?

É uma honra enorme trabalhar com tanta gente foda. Com o Coutinho, às vezes rola dele mandar o sketch e eu ja começar a encaixar a tipografia antes da finalização para o conjunto ficar mais coeso.  Na maioria das vezes eu recebo a ilustração pronta e aí vou tentando selecionar um enquadramento legal, e começo a pensar no type. Para o Ubik, por exemplo, cheguei a fazer umas 50 opções de lettering. Foi um processo cansativo. Em outros casos, como por exemplo Blade Runner, acertei a fonte de primeira. Sempre aprovamos o design junto com o artista. 

“Esse estilo de desenho psicodélico com proporções estranhas me encanta”

A arte e o projeto gráfico de Giovanna Cianelli para a nova edição de Laranja Mecânica, de Anthony Brugess, pela editora Aleph

Eu já queria muito te chamar pra fazer o postal de 7 anos, mas tive certeza que deveria ser você depois que a Aleph divulgou a capa da mais recente edição do Laranja Mecânica. Você pode me falar sobre o desenvolvimento desse projeto em particular?

Laranja Mecânica é um ícone da cultura pop e criar uma cara nova para uma obra que já está tão estabelecida é difícil. Esse projeto tem grande influência do trabalho de Heinz Edellman, animador alemão que produziu coisas muito interessantes nos anos 60 (ele participou também da animação de Yellow Submarine). Esse estilo de desenho psicodélico com proporções estranhas me encanta. Amo a adaptação feita pelo Kubrick, a estética do filme, com certeza, foi um norte também.

Eu pensei nessa capa aberta (de orelha a orelha) como uma linha do tempo de animação, então os elementos têm uma certa sincronia de movimentos e direções. A ilustração central da capa é a cena clássica de Alex recebendo o tratamento Ludovico enquanto os droogies estão se afastando dele e do outro lado estão facas e a cobra (reiterando a violência e simbolizando traição). Na quarta capa, os policiais estão andando em direção aos droogies. Com isso, queria representar uma relação de passado/futuro e também de conflito iminente entre a violência do estado e a violência das gangues. 

Em relação a escolha de tipos: fiquei apaixonada por uma tipografia, Ginger Snap, que vi na capa de um livro dos anos 70 sobre repolhos. Pesquisando mais sobre ela, descobri que também tinha sido usada na capa do Transa, do Caetano Veloso. Não achei nenhuma versão digital disponível, o que me deixou bem triste. Então, com a imagem de catálogos e alguns outros materiais onde ela tinha sido utilizada, redesenhei as letras. Deu trabalho até ficar bom. 

O projeto gráfico do miolo também faz referências a pop art com repetição, cores chapadas, tipos redondos. No manuscrito do autor, existem pequenos doodles do próprio Burgess. Peguei esses desenhos, vetorizei e apliquei eles bem grandes.

Para o miolo também criei uma colagem com recortes de jornal da época da ditadura quando Laranja Mecânica (tanto o filme quanto o livro) foram censurados aqui no Brasil. Essa colagem é sobreposta com a palavra ‘ultraviolência’ repetida muitas vezes. Não deixa de ser uma crítica ao momento político que estamos vivendo. Esse projeto foi bem especial pra mim. 

“Orbitamos entre a liberdade e a opressão, fazendo pouco progresso de fato”

A capa de A Floresta das Árvores Retorcidas, livro de Alexandre Callari pela editora Pipoca & Nanquim com arte e projeto gráfico de Giovanna Cianelli

Uma pergunta que tenho feito bastante aqui no blog: desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que é a nossa sociedade hoje. Você é otimista em relação ao nosso futuro?

Acho que dias melhores virão, mas não no futuro próximo. A política brasileira é surreal e essa falta de previsibilidade me assusta bastante.

Ano passado, li aquele livro O Universo Numa Casca de Noz, do Stephen Hawking, e aprendi que o tempo pode não ser linear, com começo, meio e fim. Existe uma teoria que o tempo é circular, então o que já passou pode ser o nosso futuro. Pensar nisso é bem doido mas essa percepção me fez pensar sobre o comportamento social. Muitas vezes não acho que estamos evoluindo como sociedade e sim num looping maluco sobre permissões, proibições e preconceitos. Orbitamos entre a liberdade e a opressão, fazendo pouco progresso de fato. 

A capa da edição de A Ilha do Tesouro, de R. L. Stevenson, publicada pela editora Antofágica, com arte de Paula Puiupo e projeto gráfico de Giovanna Cianelli

Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Quero indicar o Sob o Solo, novo quadrinho da Bianca Pinheiro com o Greg Stella, que vai ser lançado pelo Pipoca & Nanquim. A Bianca já era a minha quadrinista preferida e acho que essa é uma de suas melhores obras. 

Sob o Solo, álbum de Bianca Pinheiro e Gregg Stella que será publicado pela editora Pipoca & Nanquim, com projeto gráfico de Giovanna Cianelli
Entrevistas / HQ

Papo com Diego Gerlach, autor de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem: “O objetivo era caminhar por outro lugar, por uma realidade com regras próprias, que descobriria mais ou menos no mesmo ritmo que a pessoa que lê”

As 252 páginas do álbum Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem reúnem em um única edição os primeiros experimentos impressos de Diego Gerlach com a linguagem das histórias em quadrinhos. As 19 histórias presentes na coletânea lançada pelo selo Pé-de-Cabra foram originalmente publicadas entre 2009 e 2016 em antologias nacionais e internacionais e em títulos independentes do autor, além de uma obra inédita, todas ambientadas na cidade fictícia de Pinacoderal.

“O objetivo toda vez que sentava para criar uma HQ dessas era de fato caminhar por outro lugar, por uma cidade e uma realidade com regras próprias, que descobriria mais ou menos no mesmo ritmo que a pessoa que lê”, afirma Gerlach em conversa com o blog sobre essas primeiras empreitadas em quadrinhos impressas na coletânea.

As histórias de Pinacoderal são protagonizadas por figuras suspeitas como Boy Rochedo, Verloch, Caranguejêra, Vingax e Zuêro em tramas girando ao redor da realidade hostil e imunda de Pinacoderal. São histórias que soam como um prólogo do trabalho atual de Gerlach, editor do selo Vibe Tronxa Comix e responsáveis por obras como a série Know-Haole e NÓIA: Uma História de Vingança (Escória Comix).

Pinacoderal é um imenso serviço prestado pelo selo Pé-de-Cabra aos leitores interessados na formação e na história de um dos principais nomes da vanguarda dos quadrinhos nacionais. O projeto gráfico assinado pelo também quadrinista Pedro Franz só corrobora a singularidade do projeto.

Na conversa a seguir, Diego Gerlach lembra a origem das histórias ambientada em Pinacoderal, fala sobre a produção da coletânea reunindo esses quadrinhos, comenta a dinâmica de seu trabalho com Pedro Franz, trata da relação de suas histórias com o ambiente urbano e exalta a curadoria dos selos Pé-de-Cabra e Escória Comix – “Idealmente, eles se tornariam um tipo de referência, pois o mercado e as grandes editoras estão totalmente fora de sintonia com a produção nacional”, diz o autor. Papo ótimo. Saca só:

“Com um atraso de meros sete anos, chegamos ao livro”

O teaser do primeiro anúncio da coletânea que viria a ser Pinacoderal, divulgado em 2011

No posfácio de Pinacoderal: Fragmentos de Linguagem você comenta como já tinha passado um pdf reunindo esse mesmo material para outros editores e que não teve nenhum retorno. O plano de publicar essa coletânea é antigo? Como ele ganha forma? Como o Panhoca e a Pé-de-Cabra entram na história?

Em 2011, anunciei no meu Flickr que no ano seguinte Pinacoderal seria publicado, sem maiores detalhes. Na época, a ideia era compilar os zines originais (mais algumas histórias que já estavam prontas) num livro. Nem lembro como achava que iria financiar essa empreitada, provavelmente financiamento coletivo. Na época, acreditava que em pouco tempo lançaria a quinta edição de Pinacoderal (o zine) e teria uma história fechada. Mal sabia eu que, devido a N fatores (os principais sendo minha inexperiência e o desejo de brincar com novos personagens), essa história (iniciada em Pinacoderal 3 e continuada no 4) nunca seria concluída. Aí a ideia de compilar tudo começou a ficar mais disforme: com algumas histórias incompletas, na minha cabeça o fluxograma ficava zoado. E, quanto mais produzia, mais difícil se tornava a ideia de publicar o material de maneira independente, pois os custos de impressão e distribuição também cresceriam. Foi só por volta de 2017, quando parei pra somar o número de páginas que já tinha publicado que percebi que poderia tranquilamente remover as HQs que não tinham sido concluídas e ainda assim ter em mãos uma publicação substancial. Foi isso que fiz. Com um atraso de meros sete anos, chegamos ao livro.

O Panhoca foi na verdade a primeira pessoa a me abordar a respeito da publicação do Pinacoderal. Já éramos amigos fazia algum tempo, mas ele ainda não tinha feito nada como editor, e sabia que editar esse treco seria casca-grossa, eu mesmo não sabia muito bem por onde começar, e aí acabou que deixamos a coisa de lado. O material passou na mão de duas outras editoras, que a princípio mostaram interesse (com base na minha descrição do material), mas que quando se depararam com a coisa em si, como disse, não emitiram qualquer parecer. Você nunca sabe por que, exatamente, um editor não responde. Pela minha experiência, em 90% dos casos tem a ver com alguma mudança súbita nos planos editorias, instabilidade do mercado, correria insana, uma combinação de todos esses fatores, etc. Mas, como esse material tem lá sua dose de esquisitice, rolou um questionamento interno, do tipo “Será que é totalmente incompreensível?”. Ano passado o Panhoca expressou de novo desejo de publicar algo meu. Com a Revista Pé-de-Cabra já consolidada como uma iniciativa editorial, selamos com um aperto de mão a parceria (na Bienal de Curitiba do ano passado) e começamos a trocar ideia sobre como de fato seria o rolê. Como menciono no posfácio, a insistência do Panhoca foi fundamental.

“Pessoas que acompanhavam com relativa proximidade minha produção ficaram surpresas ao descobrir que todas essas histórias fazem parte de uma mesma realidade”

Quadros de uma das HQs de Diego Gerlach publicadas em Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem

E como foi o trabalho de edição desse projeto? Ou melhor: o livro que vocês estão publicando é muito diferente/parecido com aquilo que você tinha em mente pra essa coletânea? O Pedro Franz é creditado como responsável pelo projeto gráfico do livro. Por que chamá-lo? Como foi a dinâmica entre ele, você e o Panhoca?

 Foi quando Pedro Franz topou fazer o projeto gráfico que eu e Panhoca começamos a botar fé que a coisa ia acontecer de fato. A ideia de convidar ele foi minha, porque gosto muito do trampo dele como designer e porque já colaboramos em diversos projetos, rola uma comunicação meio telepática. Ele definiu todo o aspecto da edição (incluindo a ordem das histórias) com um ou outro pitaco meu e do Panhoca (que ficou encarregado mais de nos colocar rédeas, organizar a logística com a gráfica e evitar que tivéssemos algum rompante faraônico que inviabilizasse a empreitada). Os protótipos chegavam e meu único trabalho era ficar mais e mais empolgado. Ainda não vi o livro pronto, mas o projeto gráfico ficou 112% do meu agrado.

Como você definiu o que entraria e o que ficaria de fora dessa coletânea Nem todo material ambientado no Universo Pinacoderal está impresso nessa edição, certo?  

A maioria do material já estava definido, normalmente tenho claro na minha cabeça se determinada história pertence a um universo específico (bom, não no começo, mas logo a coisa se define). A única questão eram algumas histórias que não tinham sido fechadas, como mencionei. Mas teve coisas (imagens e detalhes) usados na edição do livro que teria esquecido se o Franz não tivesse perguntado ‘Ei, isso não é Pinaco também?’. Produzi muita coisa, entre HQs e desenhos avulsos focados nesses personagens. Tenho certeza que alguma coisa ficou de fora. Por outro lado, foi trocando ideia com o Franz que entendi que, ao mesmo tempo que era uma edição que se pretendia bastante completa, tinha que traçar uma linha na areia e deixar algumas coisas de fora pra dar coesão ao material. Pessoas que acompanhavam com relativa proximidade minha produção ficaram surpresas ao descobrir que todas essas histórias (acho que quase ninguém leu tooodas em conjunto) fazem parte de uma mesma realidade. 

“Pinacoderal é um mistério para mim”

Uma das páginas de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea de Diego Gerlach publicada pelo selo Pé-de-Cabra

Eu quero saber sobre os seus sentimentos enquanto trabalhava nessa coletânea. Quais reflexões e balanços você fez em relação ao seu trabalho? Tem algum aspecto específico dessa sua produção que te interessa mais?

É super estranho ver o material todo reunido, pois lido assim ele assume nova forma, um contexto próprio. Rola uma repetição de símbolos e elementos narrativos que vão dando estofo a um universo, mas vão também revelando obsessões e cacoetes por trás de quem faz, o que é um pouco desconcertante de se ler num primeiro momento. Passa um slideshow monumental na minha cabeça dos diversos lugares em que produzi essas histórias, situações, pessoas, momentos pontuais. Por mais que tente explicar, tem coisas do meu trabalho que são um mistério pra mim também, que só consigo ter alguma ideia do que estava querendo dizer ou fazer olhando de modo retrospectivo. E Pinacoderal é um dos maiores exemplo disso dentro de tudo que fiz: o objetivo toda vez que sentava para criar uma HQ dessas era de fato caminhar por outro lugar, por uma cidade e uma realidade com regras próprias, que descobriria mais ou menos no mesmo ritmo que a pessoa que lê. Pinacoderal é um mistério pra mim também. 

“Uma verdadeira suruba em termos estéticos”

Quadro de uma das HQs de Diego Gerlach publicadas em Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem

Essa coletânea da Pinacoderal reúne trabalhos publicados em um intervalo de sete anos. O quanto as suas técnicas mudaram durante esse período? Há o predomínio de alguma técnica específica nos trabalhos impressos nesse livro?

As técnicas foram se adaptando, e o material do livro é uma verdadeira suruba em termos estéticos. Essas histórias têm todas o embrião de algo que mais adiante utilizei bastante. As primeiras HQs eram finalizadas com aguadas de nanquim (o tipo de finalização que usei também em Ano do Bumerangue), algo que aos poucos fui deixando de fazer, conforme aprendia a usar retículas para tonalizar. Tem também histórias desenhadas sem tinta, ou em lápis, ou de modo inteiramente digital. Mesmo as páginas coloridas foram experiências bem novas na época.  

Quando eu te entrevistei pela primeira vez, em 2015, você falou do impacto que teve na sua produção a conclusão de que o que mais te interessa no desenho “é a necessidade de desenvolver um vocabulário gráfico próprio”. Eu li o Pinacoderal e fiquei com a impressão que as HQs mais antigas são exatamente desse período em que você busca fugir daquilo que você chama nessa entrevista de “estilos, digamos, não canônicos”. É isso mesmo? Essas histórias mais antigas da Pinacoderal são uma espécie de prólogo para o que veio a ser o seu estilo atual?

De certa forma, é um prólogo, embora na época não parecesse. É um dos motivos do subtítulo (Rudimentos da Linguagem), o fato de que estava começando a aprender um vocabulário de quadrinhos possível. Com as primeiras histórias, independente de quão pouco aprimorado e incongruente o desenho fosse, sentia uma energia imensa por finalmente ter rompido uma barreira imaginária e estar fazendo quadrinhos. O estilo era necessariamente ‘não-canônico’ (a.k.a. ‘ruinzera’) pela minha falta de prática e pelo fato de estar tentando produzir HQs sem, naquele momento específico, pensar na história dos quadrinhos, ou em como eu mesmo presumia que quadrinhos deveriam ser feitos. 

“Pra mim é muito rara aquela sensação de ‘sei perfeitamente o que estou fazendo’, normalmente é o contrário disso”

Páginas de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea de Diego Gerlach publicada pelo selo Pé-de-Cabra

Nessa mesma entrevista você também fala da sua busca por uma “delimitação de possibilidades” para que você não fique eternamente preso à prancheta. Novamente comparando esses trabalhos mais antigos com a sua produção mais recente, eu fico com a impressão que você tem buscado um traço cada vez mais objetivo e narrativas cada vez mais lineares. Faz sentido essa interpretação?

Não sei… Quando olho pra trás, questiono coisas que falei o tempo todo e me mando um ‘Calaboca moleque’ mental com frequência. Essa afirmação em particular… Faz parecer que tenho total controle sobre as ferramentas que vou usar numa história, o que quase nunca é o caso. Já ocorreu de começar uma HQ digitalmente e sentir que não era o correto pra ocasião, e reiniciar tudo no papel. Pra mim é muito rara aquela sensação de ‘sei perfeitamente o que estou fazendo’, normalmente é o contrário disso. Pra criar uma história, minha estratégia é sempre ‘ir criando’, o que mostra que é sempre um método empírico, de construção, tentativa e erro, e o mesmo pode ser dito da técnica, e de como isso influencia o resultado. Acho que muito do meu estado emocional se reflete nas histórias, às vezes consigo ser conciso e direto, e às vezes me enredo em coisas mais… Abstratas e difíceis de entender. Em algumas histórias recentes senti que estava tomando um rumo mais barroco, menos claro, me fez sentir como se essas questões de foco e clareza fossem coisas que vêem e vão em ondas, acabam se alternando com outras tentativas narrativas. Mas no fim só os leitores podem dizer se minha impressão, enquanto criador, é a mesma que sentem ao ler o trabalho quando terminado.

“Creio que Pinacoderal é onde a influência da experiência urbana é mais sentida em todo meu trampo”

Quadro de uma das HQs de Diego Gerlach publicadas em Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem

Ler a Pinacoderal reforçou ainda mais pra mim o peso do ambiente urbano no seu trabalho. Quando conversamos pela primeira vez, lá em 2015, você comentou como esse cenário impulsiona uma maior quantidade de conflitos e amplia as possibilidades de “abordar o ser humano de modo mais tridimensional”. Você pode me falar mais sobre a sua relação com cidades? Você já morou em mais de uma capital, em grandes centros urbanos e outros menores. Qual o impacto dessas vivências no seu trabalho? 

Creio que Pinacoderal é onde essa influência da experiência urbana é mais sentida em todo meu trampo. O próprio fato do nome da cidade ser o título pelo qual me refiro à obra já destoa do resto das coisas que faço e frisa que não há um personagem central, mas um organismo composto de vários tipos, mais ou menos similares entre si – como numa cidade. Como menciono no posfácio, Pinacoderal começou enquanto ainda morava na Paraíba, e isso influenciava a história de modo direto. Da mesma forma, quando voltei a morar na minha cidade natal no Rio Grande do Sul, isso também impactou a narrativa – às vezes de modo mais simbólico, às vezes de modo mais direto. Como meu estilo de desenho passa longe do ultra realismo e é repleto de simplificações cartunísticas, os elementos diretamente pinçados de ambientes totalmente disparatados são, digamos, alinhados, assimilados em uma coisa única, que é o mapa do obscuro interior do meu crânio. 

Eu acho alguns dos seus trabalhos realmente engraçados – mesmo alguns que não sei se eram pra ser de humor. Ao mesmo tempo, vejo essa sujeira e podridão do ambiente urbano que você retrata e a hostilidade entre os seus personagens, e tudo me soa sombrio e pessimista. Você é pessimista? Como você vê o mundo hoje? Você tem esperanças de melhorias? Como as suas impressões e crenças em relação à realidade impactam os seus trabalhos?

Acho que já respondi isso uma vez: não me considero pessimista e ou otimista, e acho que isso tem a ver com o fato de nunca ter compreendido por completo o conceito de fé. Pra mim já é difícil definir com razoável grau de certeza se as coisas meramente ‘são’, que dirá afirmar se ‘são boas’ ou ‘são ruins’. Acho que minha visão às vezes parece sombria, também, porque tento não ver o ser humano como algo dissociado do reino animal, e isso não é algo que pontua o primeiro plano da discussão quando conversamos sobre sociedade. O reino animal, do ponto de vista humano, é violento. O ser humano é parte do reino animal; logo, o ser humano é violento. O que se espera é que almejemos a pureza e a ordem do divino, e não os impulsos venais das bestas, mas na prática… Mesmo com um suposto apreço pela cultura e pela ordem social, ainda somos movidos pelos mesmos instintos básicos que guiam a lontra ou o sabiá, e que precisam ser constantemente colocados em xeque pela regra da lei para que tenhamos alguma tipo de sociedade funcional. Um animal sofisticado, ok. A maneira como aprendi a me situar diante da vida me levou a prestar atenção nessas minúcias mais brutais da existência  como mecanismo de defesa, e a encontrar humor nisso pelo mesmo motivo. Acho.  

“O preço de certos álbuns de quadrinhos chegaram a um patamar proibitivo pra mim, e imagino que pra muita gente também”

Página de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea de Diego Gerlach publicada pelo selo Pé-de-Cabra

Aliás, falando em realidade. Em novembro do ano passado eu fiz uma entrevista com você e o João Pinheiro sobre o lançamento da Cavalo de Teta #2. O Bolsonaro tinha acabado de ser eleito e você dizia esperar que “as ameaças de censura que pairam no ar não se confirmem”. Menos de um ano depois quase rolou a censura de um gibi da Marvel na Bienal do Rio. E aí, piorou? Ainda piora mais antes de melhorar? 

Pra mim, estava dada a morta de que todas essas merdas iria acontecer. Quem, a partir das eleições de 2018, não mentiu para si mesmo e para aqueles ao seu redor? Por enquanto, parece que ainda estão testando as áreas cinzentas, uma exposição fechada pela câmara de vereadores aqui, um gibi recolhido pela prefeitura ali. Todas essas medidas foram eventualmente derrubadas em instâncias superiores, mas só as tentativas de censura já são o suficiente para deixar claro o rumo das coisas. Todo mundo que faz muito sentido nesse momento soa desesperado, mas por outro lado não é nenhuma opinião controversa dizer isso: é claro que vai piorar. Demos as chaves da casa para um bando de escrotos pseudo-religiosos, pseudo-conservadores, pseudo-liberais, pseudo-íntegros… é de admirar que tenhamos uma pseudo-democracia deliberada por uma cúpula militar?

O que mais te interessa na linguagem dos quadrinhos hoje? O que você mais gosta de ler em quadrinhos? O que você mais gosta de fazer com quadrinhos?

Eu leio de tudo, desde que ache o desenho interessante. E note que interessante não é (necessariamente) ‘bom’. Adoro estudar HQs, qualquer tipo de HQ. Mas como quase sempre tô quebrado, fico restrito ao que ganho de editoras ou troco com autores, mais um ou outro gibi de banca eventual (tipo Pato Donald). O preço de certos álbuns de quadrinhos chegaram a um patamar proibitivo pra mim, e imagino que pra muita gente também. Foi uma discussão constante enquanto definíamos as especificações do Pinacoderal: como manter o preço acessível e ainda assim fazer uma edição caprichada? O único quadrinho extenso (e caro) que li esse ano foi Marcha Para a Morte, que é uma obra-prima do Shigeru Mizuki. Às vezes acontece também de ficar um tempo ser ler muita HQ, focando mais em livros. Tô passando por uma fase forte de Philip K. Dick: li O Homem do Castelo Alto e agora tô na metade de Blade Runner. 

“Idealmente, Escória e Pé-de-Cabra se tornariam um tipo de referência, pois o mercado e as grandes editoras estão totalmente fora de sintonia com a produção nacional”

Página de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea de Diego Gerlach publicada pelo selo Pé-de-Cabra

Voltando à primeira pergunta: você comenta no posfácio da Pinacoderal como tentou vender o projeto da coletânea para outras editoras e agora finalmente rolou com a Pé-de-Cabra. Eu vejo cada vez mais a Pé-de-Cabra e a Escória Comix como os selos/editoras mais interessantes da cena autoral de quadrinhos. Acho os filtros do Lobo Ramirez e do Panhoca já os mais atentos e com potencial para serem os mais relevantes em um futuro próximo. Já tendo sido publicado pelos dois selos, como você avalia o trabalho deles? O que você vê de mais singular nos trabalhos feitos pela Pé-de-Cabra e pela Escória?

Acho que essas duas editoras representam um caminho pouco explorado no cenário nacional, e que é um dos que mais me empolga. Essa coisa de acharem autores novos com um trabalho forte e já bem formado, mas que ao mesmo tempo se encaixem na ‘vibe’ do selo, e de tentarem de fato criar um pequeno império com isso, com um cronograma de publicação tão constante quanto possível, com comunicação direta com o público leitor. É emocionante. Vai tão na contramão da maioria das editoras que estão tentando se estabelecer, e ao mesmo tempo é tão próximo dos meus gostos. Só o fato do Lobo ter lançado o Victor Bello para além dos zines provavelmente vai comutar vários anos da pena dele (digo, quando ele finalmente for condenado por todas as falcatruas que fez pra manter a Escória no mercado – e olha que não foram poucas). E o Panhoca tem tipo um tourette editorial: depois da primeira Pé-de-Cabra ele não consegue NÃO PUBLICAR, pode reparar. É uma compulsão, o cara é tipo masturbador compulsivo só que, tipo, sem as implicações sinistras e criminais. Ele me falou que a Pé-de-Cabra 3 já tá começando a ser pensada e tem outros planos na manga. Idealmente, Escória e Pé-de-Cabra se tornariam um tipo de referência, pois o mercado e as grandes editoras estão totalmente fora de sintonia com a produção nacional. Vamos ver.

A capa de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea de Diego Gerlach publicada pelo selo Pé-de-Cabra