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Entrevistas / HQ

Papo com Box Brown, autor de Tetris: “É quase impossível não ter algum propósito comercial na sua arte”

Entrevistei o quadrinista norte-americano Box Brown sobre o lançamento da edição brasileira de Tetris, prevista para o início de abril, pela editora Mino, e transformei esse papo em matéria publicada na sexta edição da Sarjeta, minha coluna mensal sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. Você lê meu texto clicando aqui.

Também autor dos excelentes Cannabis, Andre The Giant e An Entity Observes All Things, Brown é um dos meus autores preferidos. Ele é capaz de manter seu estilo seja na produção seus trabalhos independentes para a Retrofit Comics ou em suas obras documentais para a First Second Books.

Recomendo a leitura da Sarjeta para você saber mais sobre a história e a produção de Tetris e depois uma investida na entrevista a seguir – feita quando Brown ainda viria ao Brasil para o Mino Day, evento da editora Mino que estava marcado para abril, mas acabou adiado por conta da epidemia do coronavírus.

No minha conversa com o autor falamos sobre a presença de videogames em sua vida, sobre seus métodos de pesquisa e produção, sobre a relação entre arte e comércio e sobre seu novo livro, Child Star. Saca só:

“Tetris foi algo imenso no momento perfeito para mim”

Quadros de Tetris, HQ de Box Brown publicada no Brasil pela editora Mino

Você tem um histórico de trabalhos documentais sobre temas que parecem caros a você: a biografia do André The Giant, a história da ilegalização da maconha nos Estados Unidos e Tetris. Qual foi o ponto de partida de Tetris? Por que contar a história daquele que talvez seja o mais famoso dos games?

Ah, porque Tetris foi algo imenso no momento perfeito para mim. O Game Boy saiu quando eu tinha 8 ou 9 anos e veio com o Tetris. A minha família inteira jogava. Foi o primeiro jogo que me permitiu criar uma conexão com o meu pai e outros adultos, porque eles também jogavam. Foi a primeira vez que eles realmente compreenderam a obsessão da minha geração por videogames.

Você pode me contar sobre a sua relação com videogames? Você lembra do seu primeiro contato com games? Qual foi o primeiro jogo que você jogou? Você lembra do seu primeiro contato com tetris?

Eu jogo desde sempre. Quando eu tinha 5 anos ganhei um Nintendinho de Natal. Isso foi em 1985. Logo depois ganhamos um Atari usado, depois um Sega e um TurboGrafx 16 e tudo mais o que veio depois. Eu também joguei muitos jogos de fliperama nas minhas quebradas. A loja de quadrinhos tinha duas máquinas de videogame onde eu jogava de tudo. Eu lembro que tinha de tudo por lá, pinball também, ainda tinham os quadrinhos, os cards e as balas. Era um verdadeiro paraíso.

“A história do Tetris é um ótimo exemplo de interseção entre arte e comércio”

E como foi o seu primeiro contato com a história por trás da produção de Tetris? Quando você ouviu falar pela primeira vez sobre todas as questões políticas relacionadas ao desenvolvimento do jogo?

Sim. Quando eu era criança havia duas versões do Tetris para o Nintendinho. Havia um que se parecia com todos os outros da Nintendo e, também, uma versão diferente produzida pela Tengen, com um cartucho diferente, preto. Não se parecia em nada com os outros jogos. O boato era que o cartucho preto era ilegal… Mas era tudo o que sabíamos! Isso criou um ar legal de mistério em torno do jogo. Mas depois, muito mais tarde, me deparei com um documentário sobre a história do Tetris. Sou entusiasta de documentários e a história do Tetris é um ótimo exemplo de interseção entre arte e comércio.

Durante a sua infância, teve algum jogo ou console que você quis muito ter e não teve?

Sim, muitos jogos que até cheguei a joguar depois e descobri que são horríveis haha Quando eu era criança jogávamos um único jogo por semanas, meses até. Agora eu jogo 20 em um único dia brincando com o meu Switch. Eu lembro de querer desesperadamente um Sega Saturno e nunca ganhar um.

“A minha série de jogos favorita de todos os tempos é The Legend of Zelda e também a minha história favorita”

Quadro de Tetris, HQ de Box Brown publicada no Brasil pela editora Mino

Qual jogo mais marcou a sua vida? Houve algum jogo ou console em particular que mudou em definitivo a sua relação com video games?

Eu diria que foi Final Fantasy 7. Eu joguei quando tinha 17 anos e fiquei tão obcecado que eu dispensava festas. Era maravilhoso para mim que um jogo pudesse ter uma história tão rica, ser tão complexo e desafiador e ainda assim divertido.

Vejo debates e discussões cada vez mais constantes em torno da “narrativa” de mídias como quadrinhos e games. Em termos narrativos, o que mais te interessa nessas duas mídias?

Acredito definitivamente na importância da narrativa. Eu não consigo jogar um jogo que não conte uma boa história, mesmo que os gráficos sejam incríveis. Acho que o mesmo vale para os quadrinhos para mim. Eu preciso que me contem uma história. A maioria dos jogos que jogo hoje são de simulação de negócios, mas mesmos nesses jogos, com o objetivo de administrar um sistema ao invés de completar uma missão, são as narrativas que direcionam a jogabilidade. Quando falta uma estrutura narrativa coesa ao jogo, ele pode ficar mecanizado. A minha série de jogos favorita de todos os tempos é The Legend of Zelda e também a minha história favorita. Eu jogo esses jogos repetidamente e amo a história mais do que qualquer coisa.

“Queria que as páginas brilhassem, lembrando um pouco um videogame”

Página de Tetris, HQ de Box Brown publicada no Brasil pela editora Mino

Eu fico muito curioso em relação à administração do conteúdo que você reuniu em Tetris. São muitas datas, muitos personagens. Você criou algum método de trabalho ou algum filtro para selecionar o que entraria e o que ficaria de fora do livro?

Bem, a primeira coisa que eu fiz foi criar uma espécie de árvore genealógica de todos os personagens e como estão conectados uns aos outros, mantive isso em um quadro de cortiça na frente da minha mesa enquanto estava criando o livro. Isso meio que se tornou aqueles retratos no início de cada capítulos. Me ajudou a apresentar os inúmeros personagens que desempenharam algum papel nessa história.

E você se preocupava em tornar a leitura da HQ divertida em meio a tantos dados e informações?
Sim, eu fiquei muito preocupado com isso. A maior parte da história trata de vários homens em roupas de negócios durante reuniões. Eu tive que ficar buscando soluções para tornar o livro visualmente dinâmico. Acho que é por isso que escolhi o amarelo, para manter as páginas visualmente atraentes. Eu também queria que as páginas brilhassem, lembrando um pouco um videogame. 

“Você precisa torcer para que o seu trabalho não esteja sendo influenciado por suas necessidades financeiras, mas é quase impossível que isso aconteça”

Quadros de Tetris, HQ de Box Brown publicada no Brasil pela editora Mino

Tetris me fez pensar bastante sobre controle criativo e direitos de propriedades intelectuais. Videogames são mídias caras e talvez sejam a indústria criativa mais rentável do mundo. Qual você considera o impacto do sistema capitalista em indústrias criativas como a dos games e dos quadrinhos?

Isso é algo que os quadrinhos também precisam lidar, assim como os videogames. Na verdade é algo que toda forma de arte acaba tendo de enfrentar de alguma maneira. Você é constantemente confrontado com a possibilidade de fazer coisas por dinheiro. Estamos todos na mira dessa mesma arma. É quase impossível não ter algum propósito comercial na sua arte. Todos nós temos que viver. Você precisa torcer para que o seu trabalho não esteja sendo influenciado por suas necessidades financeiras, mas é quase impossível que isso aconteça. 

O Brasil passa por uma intensa crise política, econômica e social, sendo governado por um governo de extrema direita. O Bolsonaro é provavelmente um pouco mais estúpido, xenófobo, conservador e pior de todas as formas do que o Trump. Quais as suas expectativas para a sua visita ao Brasil? O que a mídia dos Estados Unidos tem noticiado sobre a realidade brasileira?

Estou um pouco nervoso por ir para tão longe de casa, com certeza. O hype da mídia sobre o Brasil nos EUA definitivamente alimenta os medos das pessoas. Existem alguns documentários da Netflix que eu tenho medo de assistir. Eu moro com um monte de eleitores do Trump no meu bairro, então estou me preparando para conhecer a versão brasileira dessas pessoas… Será que elas estarão interessadas no meu livro?

“Me interesso por luta-livre profissional, porque amo as técnicas utilizadas pelos lutadores para iludir o público”

Quadros de Tetris, HQ de Box Brown publicada no Brasil pela editora Mino

Você está trabalhando atualmente em algum trabalho novo? Você tem previsão de lançamento para uma próxima publicação?

Tenho um livro novo para ser lançado em junho nos Estados Unidos, chamado Child Star. É o meu primeiro trabalho de ficção. Minha primeira graphic novel para valer. É sobre um ator infantil na década de 1980.

A última: Cannabis foi publicado aqui e Tetris está às vésperas de seu lançamento em português. Games e drogas são temas muito populares em todo o mundo, mas wrestling nem tanto, pelo menos não no Brasil. Qual argumento você utilizaria para convencer os brasileiros a dar uma chance ao wrestling e assim dar uma chance a Andre The Giant ser publicado por aqui?

Meu livro sobre André The Giant, é o meu best-seller de todos os tempos e acho que é uma cartilha muito boa de como funciona a luta-livre. Me interesso por luta-livre profissional, porque amo as técnicas utilizadas pelos lutadores para iludir o público. É semelhante à maneira como um mágico trabalha ou um vendedor de óleo de cobra.

A capa de Tetris, álbum do quadrinista Box Brown publicado no Brasil pela editora Mino
Entrevistas / HQ

Papo com Craig Thompson, autor de Retalhos, Habibi e Space Dumplins: “Faz tanto tempo que os quadrinistas vêm tentando provar que ‘gibis não são mais só pra criança’ que deixamos este mercado de lado”

Entrevistei o quadrinista Craig Thompson, autor de Retalhos e Habibi. O foco da conversa foi o lançamento da edição brasileira de Space Dumplins, obra infantil de 2015 recém-publicada em português pela editora Companhia das Letras.

A HQ é uma é uma ficção científica protagonizada pela jovem Violeta Marlocke, filha de uma estilista e de um coletor de cocô de baleias espaciais, valiosa fonte de energia intergalática. Uma “diarreia baleiesca” causa um desastre ambiental que separa a menina de seus pais e coloca sua vida em risco enquanto ela tenta desvendar o ocorrido.

A minha entrevista com Thompson virou matéria para o jornal Folha de São Paulo e você lê o texto clicando aqui. Por lá eu falo mais sobre a produção e o desenvolvimento da obra, os temas tratados na HQ e apresento algumas opiniões do quadrinista sobre o mercado norte-americano de quadrinhos.

Reproduzo a seguir a íntegra da minha entrevista com o autor, traduzida pelo tradutor/pesquisador/jornalista Érico Assis, também tradutor da edição brasileira de Space Dumplins (valeu, Érico!). Ah! Lá em janeiro de 2013, alguns meses antes da criação do Vitralizado, também entrevistei Thompson e você confere essa conversa por aqui. Ó a entrevista nova:

“Já era hora na minha carreira de retribuir ao meu eu criança, que se apaixonou por essa mídia aos nove anos de idade.”

Uma quadro divulgado por Craig Thompson mostrando os bastidores da produção de Space Dumplins

Você se lembra do instante em que teve a ideia de Space Dumplins? Qual foi o ponto de partida para esse livro?

Foi muito simples. Meus dois maiores amigos tiveram uma filha, chamada Violet, no fim de 2010. Assim que ela nasceu, eu soube que ia fazer um livro pra ela. Acabou que o livro teve ela e os pais.

Neste meio tempo, Habibi saiu em 2011 e a filha de outros amigos, com oito ano, pegou e leu de uma sentada. Fiquei um pouco incomodado com a situação e virou o impulso para fazer uma graphic novel que leitores mais novos pudessem ler.

Faz tanto tempo que os quadrinistas vêm tentando provar que “gibis não são mais só pra criança” que deixamos este mercado de lado. Já era hora na minha carreira de retribuir ao meu eu criança, que se apaixonou por essa mídia aos nove anos de idade.

Você pode me falar sobre a sua dinâmica de trabalho durante a produção de Space Dumplins? Você desenvolveu alguma rotina diária durante a produção desse livro? Quais materiais você utilizou durante a produção dessa HQ? O quanto esse processo se distinguiu de seus trabalhos prévios?

Diferente dos meus outros álbuns, escrevi Space Dumplins muito rápido. Passei um ano escrevendo Retalhos antes de começar o desenho final. E dois anos de cabo a rabo escrevendo Habibi. Mas Space Dumplis eu escrevi, com muita alegria, em três meses. Ajudou a história ser fantasiosa e cômica, e não exigiu pesquisa nem introspecção sofrida.

O desenho, por outro lado, foi tão meticuloso quanto em Habibi. Geralmente eu desenho e arte-finalizo uma página por dia. Em Space Dumplins tentei trabalhar pela primeira vez no digital, numa tablet Cintiq. Mas descobri que não me sentia à vontade com o traço digital, então decidi fazer só o “lápis” na tablet, imprimir em azul e passar o nanquim direto no papel com pincel de aquarela. Assim fiquei com um pé em cada barco, no digital e no analógico.

A cor, evidentemente, foi a grande diferença em relação a outros trabalhos. Da minha parte, prefiro o preto e branco. Mas os leitores contemporâneos, principalmente os mais novos, preferem o colorido, então decidi ir por aí. Sou muito lento para colorir sozinho. O álbum ia me tomar mais um ano ou dois. Então contratei Dave Stewart para esse serviço. Essa foi outra novidade: colaborar e me acertar com outro autor, em vez de ficar com toda a produção nas minhas mãos.

Space Dumplins é um livro para todas as idades, mas acho que tem um alcance para o público infanto-juvenil que Habibi e Retalhos não têm. Foi muito diferente para você criar uma obra pensada em um público mais amplo? Você encontrou algum desafio particular em pensar uma história em quadrinhos que poderia ser lida por um público infantil?

Em termos gerais foi fácil, pois eu não tentei ser “literário”. Foi questão de elaborar uma aventura simples, em três atos, e dar um jeito de encaixar uma gargalhada por página. Apesar disso, muitos temas de meus outros trabalhos, como conflito de classes, crise ambiental etc., acabaram entrando. Mas foi uma coisa natural, sem esforço.

Eu foquei no modelo Pixar, que é o de não escrever exclusivamente de olho nas crianças, mas, com sorte, dando atenção também aos pais e aos leitores que eu já tinha.

Foi a primeira vez na carreira que tive um retorno do editorial sobre o que eu escrevi e houve alguns elementos que meu editor segurou para que ficasse uma leitura apropriada aos pequenos. Mas, no geral, não senti que tive que abrir mão de nada… Fora o design da capa, que teve que se encaixar em orientações bem restritas do que é “vendável” quando se lida com este público.

“Quando eu era criança, eu não era tão focado nas batalhas épicas de Star Wars, e sim nos momentos mundanos, domésticos, tipo o Chewbacca jogando xadrez naquele cantinho da Millennium Falcon”

Uma arte promocional produzida por Craig Thompson para a divulgação de Space Dumplins

Space Dumplins também foi seu primeiro trabalho do gênero de ficção científica. O que mais te interessa nesse gênero? O que mais te surpreendeu trabalhando dentro desse universo? Quais são as suas principais referências em termos de ficção científica?

Fora que a filha dos meus amigos, Violet, foi meu primeiro “público”, escrevi Space Dumplins para meu eu de nove anos. Por isso que o livro regurgita uma cacetada de cultura pop dos anos 1980, cosias que eu amei na época: Star Wars, E.T., Goonies, Tubarão, Caça-Fantasmas, o Atari 2600 e esquisitices tipo S.O.S. Tem Um Louco Solto no Espaço e Cerveja Maluca. O interessante é que depois isso tudo virou influência de Stranger Things, a série famosa na Netflix. Como adulto, acho que eu sou mais vidrado no Alien original, o de Ridley Scott.

Quando eu era criança, eu não era tão focado nas batalhas épicas de Star Wars, e sim nos momentos mundanos, domésticos, tipo o Chewbacca jogando xadrez naquele cantinho da Millennium Falcon. Além disso, eu nunca gostei do idealismo de Jornada nas Estrelas, e preferia coisas tipo a classe operária suja e desajeitada no cargueiro de Alien.

Falando em gêneros, tem algum gênero em particular que você tem interesse de trabalhar, mas ainda não teve a oportunidade?

Meu projeto mais recente, Ginseng Roots, é um documentário não-ficcional, que é o que eu mais gosto de ler em prosa e que eu venho querendo explorar nos quadrinhos. Em algum momento também vou desenhar alguma coisa aquática ou submarina.

“O que mais gosto nos Spielbergs das antigas é que eles tratam menos das espaçonaves ou do tubarão, e mais dos humanos, do elemento emotivo”

Páginas de Space Dumplins, HQ de Craig Thompson publicada no Brasil pela editora Companhia das Letras

Aliás, Space Dumplins pode ser interpretado como uma obra de ficção científica, mas também como uma história de formação. Você concorda? O quanto você tinha determinado em relação à jornada da Violet entre o início do desenvolvimento da HQ e o lançamento do livro?

Já falei de E.T. e Tubarão. O que eu mais gosto nestes Spielbergs das antigas é que eles tratam menos das espaçonaves ou do tubarão, e mais dos humanos, do elemento emotivo. São histórias de família, histórias pequenas; E.T. trata de um garoto que lida com o divórcio dos pais e Tubarão trata de três homens de pontos diferentes do espectro social – do privilégio, da classe média e da classe operária – aprendendo a se unir e trabalhar juntos.

Era nisso que eu queria chegar em Space Dumplins. Violet está tentando lidar com a relação problemática dos pais, que se resume praticamente a conflito de classes. Está nos nomes. O nome da mãe dela quer dizer “azul”, como o azul progressista e democrata na política dos EUA, e o nome do pai dela quer dizer “vermelho”, como os republicanos conservadores da classe operária. Qual é a ponte entre esses mundos? A Violet! Com os amigos dela é a mesma coisa. Elliot é da elite rica e instruída e Zaqueu é o órfão que não terminou o colégio. Violet é a ponte que gera a amizade entre os dois.

A maioria dos personagens do livro tem sua falha, mas foi difícil achar as falhas na nossa heroína, Violet, e o que ela precisava mudar. Não é spoiler eu dizer que ela teve que pensar na família como algo global, que inclui todas as espécies, ao invés do nuclear, da família mais imediata.

“Seria incrível se um dia eu pudesse lançar uma versão especial sem cores de Space Dumplins”

Um estudo do quadrinista Craig Thompson para uma das naves de Space Dumplins

Eu estava pensando sobre o visual do Zaqueu e como ele dialoga um pouco desses personagens cartunescos nonsense que estão se tornando cada vez mais comuns em animações. Penso em Hora de Aventura, Rick & Morty e outros representantes de uma escola que acredito que venha muito das produções originais do Cartoon Network. O quanto produções do tipo influenciaram o desenvolvimento de Space Dumplins? Você tem interesse por esse tipo de animação?

Zaqueu surgiu no meu livro de 2004, Carnet de Voyage [inédito no Brasil]. Mas durante toda minha infância, no ensino médio, e com certeza durante minha carreira de ilustrador de revistas infantis em fins dos anos 1990, sempre usei essa criaturinha “borrachuda”. Acho que vem de Ren & Stimpy e do Gumby, depois de Pip & Norton, os personagens bizarros do Dave Cooper, cartunista underground.

Hora de Aventura só estreou em 2010, então Pen Ward provavelmente bebeu das mesmas influências que eu, principalmente Dave Cooper. Além disso, não tenho dado tanta atenção a animação de TV.

Ainda sobre o visual dos personagens. Enquanto seus trabalhos prévios são mais realistas, protagonizados principalmente por seres humanos ou criaturas terrestres, Space Dumplins tem ares muito mais fantásticos. Como foi o trabalho de conceber e pensar na estética das criaturas que habitariam esse universo?

Mais uma vez, minha infância inteira se definiu desenhando esse tipo de criatura. Bloom County me influenciou muito. Eu criei o Galinho Elliott ainda em 1994. Foi só quando eu desenhei Retalhos que tive que aprender a fazer desenho de observação e da figura humana. Universos bobos e cartunescos como o de Space Dumplins me vêm com mais naturalidade.

Além disso, a construção do mundo de Space Dumplins foi o que eu mais gostei no processo. Adorei projetar as espaçonaves e os “cenários”, e imagino que seria divertidíssimo trabalhar como designer de produção no cinema ou na animação.

O que você pode contar sobre a dinâmica do seu trabalho com o Dave Stewart? Que tipo de diálogo vocês tiveram antes e durante a produção do livro? Como foi você pensar um livro em cores, sendo ele colorido por outra pessoa?

Foi difícil abrir mão de parte do controle criativo. No fim das contas, eu acho que meu trabalho, por conta da linha grossa no lápis, fica melhor em preto & branco. Seria incrível se um dia eu pudesse lançar uma versão especial sem cores. Por outro lado, as cores do Dave renderam muita atmosfera e profundidade nas páginas. E ele é um dos melhores no ramo.

“Notei que outros cartunistas se empolgam com a possibilidade de reviver gibis ‘indie’, em série, que tiveram sucesso nos anos 1980”

A primeira imagem de Space Dumplins divulgada pelo quadrinista Craig Thompson

Eu li uma entrevista que você deu para o Comics Journal na qual você fala sobre seu cansaço em relação ao formato de graphic novels. O que te levou a esse esgotamento?

Duas coisas, eu diria. Uma, como criador, que é o isolamento de se entocar no estúdio durante quatro anos ou mais, desbastando esse projeto. Eu trabalhei em jornal nos anos 1990, depois de designer gráfico e ilustrador, e sinto falta do prazo apertado, fosse diário ou semanal, assim como da sensação mais imediata de realização que vem da produção acelerada.

A segunda, como consumidor, é que é esmagador ver quantas graphic novels chegam nas livrarias e nas lojas de gibis todo mês. Bem mais do que eu teria como comprar ou teria espaço para por em casa. Sinto falta da simplicidade e da humildade da revistinha. É um formato maravilhoso para conhecer novos autores, novos personagens. Não exige tanto da sua atenção nem do seu bolso.

Além disso, pode-se argumentar que o entretenimento em série ressurgiu. Há quem faça maratonas de seriados e na Netflix. Mas você também pode prolongar o prazer de consumir uma história quando ela é parcelada em bocadinhos.

Eu imagino que uma das consequências do seu cansaço em relação ao formato de graphic novels seja a sua investida em Ginseng Roots. Como tem sido até agora essa sua experiência com o formato serializado?

Tem sido difícil! É um desafio encaixar um capítulo em 32 páginas. E depois, a cada mês se interromper para fazer design, produção e promoção. Neste sentido, passar uns anos escondido para elaborar uma graphic novel resulta em um fluxo de trabalho mais constante, sem interrupções.

E gibi “indie” é uma coisa que não existe mais no mercado norte-americano, fora a Love & Rockets dos irmãos Hernandez. Aí é difícil convencer lojistas e leitores a darem atenção a um formato fora da moda. Por outro lado, eu notei que outros cartunistas se empolgam com a possibilidade de reviver gibis “indie”, em série, que tiveram sucesso nos anos 1980.

A parte que eu amo nesse processo é que meu irmão menor, o Phil de Retalhos, colabora com duas páginas que ele mesmo escreve e desenha a cada edição de Ginseng. Ver essas páginas me dá uma alegria tremenda e é uma cópia exata da sensação que eu tinha de nós desenhando juntos, às vezes até na mesma folha, quando éramos crianças.

“A página física, impressa em papel de verdade, é a estrutura que uso para compor. Espero que dure!”

O quadrinista Craig Thompson (Crédito: Alicia J. Rose)

Nessa mesma entrevista com o Comics Journal você fala sobre o seu interesse em pensar uma história a partir das restrições impostas pela mídia física. O quanto é importante para você trabalhar tendo consciência das restrições físicas dos meios que está utilizando, mas também se impor desafios estéticos ou técnicos para a construção de uma obra?

Sim, considero as “restrições” necessárias no processo criativo. Em Habibi, eu fiquei travado com o tanto de liberdade criativa que eu tinha, até que me impus a estrutura dos “quadrados mágicos” na narrativa.

Também quero que cada trabalho seja totalmente singular em relação ao precedente. Isso que foi tão animador em Space Dumplins. Depois do peso e seriedade de Habibi, eu precisava fazer uma coisa mais brincalhona, colorida, engraçada.

Muitos quadrinistas dão prioridade ao seu trabalho em plataformas digitais, tipo passar de quadro em quadro no Instagram ou rolar a barra no Webtoons. Mas eu ainda batalho pelo impresso. A página física, impressa em papel de verdade, é a estrutura que uso para compor. Espero que dure!

Quais você considera as principais transformações pelas quais o mercado de quadrinhos dos Estados Unidos passou desde o início de sua carreira?

As graphic novels no mercado livreiro mudaram tudo. Tive sorte de Retalhos ter surgido no meio dessa grande mudança, assim como Jimmy Corrigan de Chris Ware e Fun Home de Alison Bechdel. Hoje, graphic novels para crianças como Sorria de Raina Telgemeier e as do Homem-Cão de Dav Pilkey vendem mais que qualquer gibi de super-herói.

Falando de super-heróis, eles viraram o novo mainstream junto com tudo mais da cultura nerd, o que obviamente não era a situação dos anos 1990.

Hoje os gibis fazem muito mais sucesso do que quando eu me formei no ensino médio. Tem cursos focados em quadrinhos, inclusive nas faculdades de arte. E se ensina quadrinhos em cursos de literatura. Há mais interesse e mais concorrência do que nunca nos quadrinhos. Em termos gerais eu ficou grato, pois significa um “cânone” mais forte de grandes obras que se produzem ao longo do tempo.

Mas eu ainda tenho saudade da vibração, quando eu era mais novo, com aquele ralé forasteira que trabalhava às escuras e formava a comunidade que me acolheu e me defendeu!

A capa da 1ª edição de Ginseng Roots, trabalho mais recente do quadrinista Craig Thompson

Tenho curiosidade em relação à sua visão do mundo no momento. Vivemos numa realidade na qual Donald Trump é o presidente dos EUA e Jair Bolsonaro é o presidente do Brasil. O que você acha que está acontecendo com o mundo? Você é otimista em relação ao nosso futuro?

Quem sabe dizer? Deve ter a ver com a internet com os algoritmos das redes sociais que gratificam conflito, discórdia e bullying. Fora a globalização e a automação, que acaba com os empregos e faz as pessoas se voltarem para drogas e retórica xenófoba. E se você ainda botar na conta a crise climática…

Acho que eu coloquei meu otimismo em Space Dumplins torcendo que as pessoas aprendam, como a Violet, que nações são invenções artificiais e que todos fazemos parte da mesma família, e que isso não é exclusivo à raça humana. Temos que encontrar os vínculos com todas as espécies!

O que você pensa quando um trabalho seu é publicado em um país como o Brasil? Somos todos americanos, mas são culturas muito diferentes. Você tem alguma curiosidade em relação à forma como um trabalho seu será lido e interpretado por pessoas de um ambiente tão diferente dos seu?

Eu fico abismado. Quando estava trabalhando em Retalhos, eu ficava aflito, achando que nenhum leitor ia se interessar. Aflito porque era uma história muito restrita a um tipo de infância numa comunidade minúscula do meio oeste agrícola, com a qual os leitores urbanos ou de famílias seculares não iam encontrar nenhuma identificação. Descobri o inverso. Há temas universais em Retalhos, em torno de família, fé e primeiro amor, que aparentemente se correlacionam com leitores de qualquer canto do mundo.

Isso é o que mais me interessa. Histórias que fazem ponte entre fronteiras nacionais e diferenças culturais. Essa que é a importância da narrativa, que me parece que tem o impacto oposto da política e da economia que mencionei acima, que separam as pessoas.

“Eu só falo de Ginseng Roots, meu projeto atual, que trata dos dez anos de infância que trabalhei em lavouras de ginseng, um raiz medicinal muito valorizada na medicina chinesa e que é plantada em Wisconsin”

Rascunhos do quadrinista Craig Thompson para a capa de Space Dumplins

Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?

Fiquei contente com as opções do Oscar este, pois Parasita, de Bong Joon Ho, e o documentário Indústria Americana foram meus filmes preferidos de 2019. E os dois tratam de classes socais, da crise de imigração e da economia global.

Em relação ao clima política mencionado acima, encontrei algum alívio no livro O Enraizamento, de Simone Weil.

Meu novo projeto, Ginseng Roots, também se inspira nos livros de Michael Pollan sobre comida e plantas, como Em Defesa da Comida. 

Você está trabalhando em algum projeto novo atualmente?

Ah, sim, desculpe. Eu só falo de Ginseng Roots, meu projeto atual, que trata dos dez anos de infância que trabalhei em lavouras de ginseng, um raiz medicinal muito valorizada na medicina chinesa e que é plantada em Wisconsin. É um trabalho que recupera muitos dos meus temas prediletos, como os países em lados opostos do mundo que se conectam, classes sociais, cura holística…

“Enquanto eu trabalhava no campo, eu sonhava com os gibis que ia comprar e sonhava com a carreira futura de quadrinista que ia me salvar do trabalho duro”

Um rascunho de Craig Thompson para a capa de Space Dumplins e a versão final da capa

Você pode me falar como é seu ambiente de trabalho?

Atualmente eu não tenho. Tive uma vida em trânsito nos últimos anos e estou começando a mudança para Minneapolis, no meio oeste, para morar com meu irmão. É uma chance de ficar mais perto dele e do resto da família de quem me afastei há 24 anos. Sem falar que vou voltar à cidade da minha editora atual e da gráfica do meu projeto atual, Ginseng Roots, além de ficar a três horas de viagem das lavouras sobre as quais estou escrevendo.

A última! Qual a memória mais antiga que você tem da presença de quadrinhos na sua vida?

Verão de 1986. Meus pais deram um dólar pra minha irmã, um pro meu irmão e um pra mim, para gastar na lojinha de presentes do acampamento. Minha irmã comprou balas. Meu irmão e eu compramos nossos primeiros gibis. No mesmo verão, aos 10 anos, eu comecei a trabalhar na lavoura, como lavrador, para poder comprar gibis com meu dinheiro. Enquanto eu trabalhava no campo, eu sonhava com os gibis que ia comprar e sonhava com a carreira futura de quadrinista que ia me salvar do trabalho duro.

A capa da edição brasileira de Space Dumplins, do quadrinista Craig Thompson
Entrevistas / HQ

Papo com Thiago Borges, editor da revista Banda: “Pegamos O Pasquim como ponto de partida para chegar a questões políticas contemporâneas”

Está marcado para as 16h de sábado (01/02), na loja Ugra, em São Paulo, o lançamento do segundo número da revista Banda. Você confere outras informações sobre o evento na página do lançamento no Facebook. Após tratar dos clássicos das HQs nacionais em sua edição de estreia, a publicação agora tem como tema “HQ, política e liberdade de expressão” e celebrando os 50 anos recém-completados do lançamento do jornal O Pasquim.

Editada pelo jornalista Thiago Borges (editor do blog O Quadro e o Risco) a Banda conta com uma equipe fixa formada pelo designer Douglas Utescher (sócio-proprietário da Ugra) e pelos jornalistas Carlos Neto (editor do Papo Zine) e Gustavo Nogueira (editor do Êxodo). Os colaboradores desse segundo número são a designer, fotógrafa e escritora Alê Meira; as quadrinistas Aline Lemos e Aline Zouvi; o editor Rogério de Campos; e o quadrinista Diego Gerlach, responsável pela capa da publicação.

Bati um papo com Thiago Borges sobre a produção desse segundo número da Banda. Ele falou do aniversário do Pasquim como ponto de partida para o tema da publicação, comentou como a campanha “quadrinhos sem política” impulsionou algumas das reflexões propostas pela revista, expôs um pouco dos temas tratados nesse segundo número e adiantou o tema da terceira edição da revista: eventos de quadrinhos. Saca só:

(OBS. 1: Você relê a minha entrevista Thiago Borges sobre a primeira edição da Banda clicando aqui. OBS. 2: Como já foi noticiado aqui no blog, fui um dos colaboradores da Banda #1)

“Quem confunde antifascismo com ideologia provavelmente é analfabeto político – ou mau caráter”

A segunda edição da revista Banda tem lançamento marcado para o dia 1º de fevereiro, em São Paulo

Por que tratar de política nessa segunda edição da Banda?

O tema nasceu lá atrás, antes de lançarmos a campanha no Catarse pra #1. 2019 marcou o aniversário de cinquenta anos do nascimento de O Pasquim, o maior ícone da contracultura e do jornalismo alternativo nacionais. Então, era meio que uma “obrigação” falar disso de alguma forma. E O Pasquim foi um símbolo do engajamento político contra a ditadura e a favor da liberdade de expressão. Portanto, as matérias deveriam focar em questões como censura, produção em períodos de intolerância etc. Curioso que, conforme os meses foram passando e a gente começou a escrever essas reportagens para a #2, vários assuntos surgiram pra dar mais força ainda a esse tema: a tentativa de censura do prefeito do Rio de Janeiro contra um simples beijo gay num gibi dos Vingadores durante a Bienal do Livro, a absurda campanha “Quadrinhos Sem Política”, surgida pra bater de frente com o movimento “Quadrinistas Antifascistas” e outros. Vale ressaltar, né: quem confunde antifascismo com ideologia provavelmente é analfabeto político – ou mau caráter.

Às vésperas do lançamento desse segundo número, qual avaliação você faz do debate político na cena brasileira de quadrinhos?

Acho um debate bem limitado, assim como o debate político brasileiro em geral, preso a um “nós contra eles” que parece não terminar nunca. O grande problema é: como falar desse assunto sem cair em acusações, mesmo dentro dos quadrinhos? Os artistas do campo progressista, com trabalhos mais atuantes na questão política, parecem falar para convertidos. E isso nem deve ser culpa deles, mas reflexo das bolhas em que cada pessoa está metida e não faz questão de sair. Por exemplo, se alguém tem convicção que debater racismo, abuso sexual e homofobia é coisa de “comunista”, como fazê-lo enxergar o mundo com outros olhos? Aí está o entrave disso tudo: fazer as ideias circularem, como Laerte comenta na matéria escrita pelo Carlos Neto, mas também fazer com que sejam minimamente entendidas pelos leitores. Sem isso, a população (e quem lê quadrinhos) continuará interessada em política, só que da forma mais superficial possível.

“Se alguém tem convicção que debater racismo, abuso sexual e homofobia é coisa de ‘comunista’, como fazê-lo enxergar o mundo com outros olhos?

Thiago Borges e Aline Zouvi entrevistaram Cecília Alves Pinto, a Ciça, para a segunda edição da revista Banda

Imagino que “política” seja um universo mais abrangente que “clássicos”, tema da primeira edição. Qual foi o principal desafio para fechar as pautas desse segundo número?

Foi realmente encontrar assuntos relevantes atuais sobre a relação entre gibis e política. Não queríamos focar em coisas manjadas desse tema, como Watchmen, V de Vingança etc. A ideia era pensar a respeito de um ponto de vista brasileiro, pegando O Pasquim como ponto de partida para chegar a questões contemporâneas, como as tentativas recentes de censura por aqui, a interação com leitores facilitada pela internet (e também o ódio propagado contra artistas), a tendência cada vez mais reacionária da tal “cultura nerd”… Por isso mesmo, a entrevista com a Ciça é muito importante. Mostra quem esteve lá, contra a opressão da ditadura, fazendo humor gráfico em prol da liberdade de expressão.

Uma das suas pautas nessa segunda edição trata da relação do Mauricio de Sousa e da Turma da Mônica com a realidade sócio-política brasileira. O que você pode adiantar sobre essa matéria?

Ficou uma matéria bem interessante (e falo isso não só porque eu a escrevi hahaha), e bem longe de abordar o tema com um teor polemista. Não dava pra falar de “quadrinhos, política e liberdade de expressão” sem citar Maurício ou a Turma, dois patrimônios da cultura nacional. Por isso, analisamos como criador e criatura abordam essa realidade do Brasil, com todas as contradições inerentes.

“Diego Gerlach é um de nossos maiores criadores, e ter um trabalho dele em nossa revista é algo inacreditável

Matéria do jornalista Gustavo Nogueira para a segunda edição da revista Banda

Assim como no primeiro número, com o trabalho da Mariana Waechter, vocês acertaram muito bem na capa dessa segunda edição, assinada pelo Diego Gerlach. Quais foram as instruções que vocês passaram para ele quando encomendaram esse trabalho?

A gente tenta deixar o artista escolhido pra capa o mais livre possível. Nas duas vezes, mostramos a pauta com a relação das reportagens. O Gerlach deu mais sorte, pois quase todas as matérias estavam prontas a tempo de lê-las antes de finalizar o desenho. E acho que ele pegou o espírito certeiro do conteúdo. A imagem meio que é um quadrinho em si, pois tem uma história contada ali, e isso só a deixou ainda mais potente. Sou grande fã do Gerlach, pra mim é um de nossos maiores criadores, e ter um trabalho dele em nossa revista é algo inacreditável.

“Nossa intenção nunca é esgotar determinado tema, mas, sim, analisá-lo sob diferentes ângulos”

A equipe da revista Banda: Carlos Neto, Douglas Utescher, Gustavo Nogueira e Thiago Borges

Quais foram as principais lições que vocês tiraram do primeiro número da Banda e aplicaram nessa segunda edição?

Ainda estamos aprendendo a fazer a revista. Falta arrumar algumas coisas no processo aqui e ali, mas tudo bem, isso virá com o tempo. A Banda não é nosso ganha pão (isso se algum dia ganharmos dinheiro com ela hehehe), porém queremos sempre deixá-la cada vez melhor e mais profissional. A maior lição da #1, que seguiremos em todas as edições, é fazer com que as reportagens tenham uma sequência lógica, um fio condutor pra deixar tudo amarrado e fazer com que o tema faça sentido na hora de ler. Lembrando que nossa intenção nunca é esgotar determinado tema, mas, sim, analisá-lo sob diferentes ângulos.

Como estão os preparativos para a terceira edição da Banda? Em que pé está a produção desse próximo número?

Posso adiantar com exclusividade que o tema da #3 será “eventos de quadrinhos”. Uma das principais matérias, sobre a CCXP, já está apurada, obviamente. Teremos outras bem bacanas também, mas ainda dependemos de algumas confirmações. A pauta está quase 100% fechada.

A capa da segunda edição da revista Banda, com arte do quadrinista Diego Gerlach
Entrevistas / HQ

Papo com Guilherme Kroll, editor da Balão Editorial: “O que me surpreende no mercado de HQs é uma falta de coesão maior para resolver problemas comuns”

A Balão Editorial completou 10 anos de existência no último sábado, dia 25 de janeiro de 2020. A editora foi criada por Flavia Yacubian, Guilherme Kroll e Natalia Tudrey em um momento de agitação singular na história recente das HQs brasileiras. É contemporânea do ProAc, edital fundamental para a publicação de alguns dos principais títulos nacionais lançados nos últimos anos; viu a ascensão do Catarse como principal plataforma de financiamento de publicações independentes do país; e estava em seu quarto ano quando ocorreu a primeira Comic Con Experience.

Durante esses 10 anos a Balão ganhou o troféu HQ Mix na categoria Edição Especial Estrangeira em 2014 pelo livro Pobre Marinheiro, de Sammy Harkham, e contribuiu para a vitória de Felipe Nunes na categoria Novo Talento Desenhista em 2015, ao publicar Klaus. Também em 2015, Lobisomem Sem Barba, de Wagner Willian, ficou no segundo lugar da categoria Ilustração do Prêmio Jabuti. Em 2019 a editora publicou o quarto número da série Hell No!, de Leo Finocchi, e Clean Break, de Felipe Nunes.

Assim como fiz no início de 2019, volto a entrevistar o editor Guilherme Kroll nas primeiras semanas do ano recém-iniciado. Ele fez um balanço sobre o as atividades da Balão Editorial em 2019, refletiu sobre os 10 primeiros anos de publicações da editora e adiantou um dos lançamento com o selo da Balão em 2020 – Aquarela, de André Bernardino e Vitor Flynn. A seguir, papo com Guilherme Kroll:

(OBS. #1: a arte que abre o post é de Clean Break, de Felipe Nunes; OBS. #2: como já foi amplamente noticiado aqui no blog, em 2018, trabalhei em parceria com a Balão Editorial na edição do álbum Por muito tempo tentei me convencer de que te amava, de Thiago Souto).

“Sinto uma tremenda desunião no nosso meio no último ano”

Arte de Leo Finocchi para Hell No!, um dos álbuns publicados pela Balão Editorial em 2019

Qual balanço você faz do 2019 da Balão Editorial? Qual foi a maior surpresa da editora em relação ao mercado brasileiro de quadrinhos no ano passado?

Ano passado foi muito positivo em alguns sentidos, os livros de 2018 engrenaram mesmo em 2019 e os de 2019 foram bem no fim do ano. Lançamos nosso maior livro de quadrinhos até agora, Clean Break, e o resultado foi bem legal. O que me surpreende no mercado de quadrinhos é uma falta de coesão maior para resolver problemas comuns. Sinto uma tremenda desunião no nosso meio no último ano.

Há uma crise no mercado editorial brasileiro e na realidade econômica nacional. Vocês inclusive publicaram menos títulos em 2019 do que e 2018. Quais são as perspectivas da Balão Editorial para 2020?

Publicamos mais em 2018, mas pretendemos publicar mais em 2020. Hoje em dia, dependemos muito de ferramentas como o Catarse e o Proac para publicar nossos livros e vamos atrás cada vez mais de financiamento dessa forma.

“A grande revolução acontecendo nos nossos quadrinhos é a questão da representatividade”

Página de Clean Break, álbum de Felipe Nunes publicado pela Balão Editorial

Um dos grandes lançamentos da Balão Editorial e do mercado brasileiro de HQs em 2019 foi o Clean Break, do Felipe Nunes. Qual foi o retorno que vocês tiveram do público em relação a essa obra?

O público tem dado feedback positivo. O livro é grande e complexo, muitas vezes demanda mais de uma leitura, então imagino que muita gente ainda sequer terminou de ler. Ainda aguardo mais opiniões.

Em 2020 a Balão Editorial completa 10 anos de atividades. Qual a maior diferença que você entre o mercado brasileiro de quadrinhos em 2010 e em 2020?

Tem três grandes mudanças, todas em relação a uma mudança do status dos quadrinhos frente a sociedade. A primeira é o Proac. Ele surgiu exatamente no começo dos anos 2010 e todos os anos ajuda a financiar dezenas de HQs. Muitos gibis ousados ganharam a luz do dia por conta disso, como, por exemplo, Angola Janga, o maior quadrinhos brasileiros dos últimos tempo. Em 2011 surgiu o Catarse, que também vem ajudando muitos gibis a conseguirem sair do papel. O terceiro é a CCXP, que apareceu na segunda metade da década. Um evento que ajuda a vender gibis como nunca, todos os anos e sempre cheio de público. Isso tudo ajudou muito a mudar o cenário nesses 10 anos.

“Temos muita coisa em mente para 2020”

Arte do quadrinista Thiago Souto em homenagem aos 10 anos da Balão Editorial

O que você vê de mais interessante sendo feito nas HQs brasileiras hoje?

Se pensarmos em história registrada da humanidade, temos aí uns 7 ou 8 mil anos de narrativas. Quadrinhos em si, temos do jeito como conhecemos há um século e meio. É muito difícil ser 100% original ou diferente quando se está no topo de tudo isso. Posto isso, acho que a grande revolução acontecendo nos nossos quadrinhos é a questão da representatividade. Temos gente que não conseguia se manifestar antes conquistando sua voz e os quadrinhos refletem isso.

O que os leitores podem esperar do catálogo da Balão Editorial em 2020? Há algum título ou autor que vocês já podem adiantar que sairá por vocês nos próximos meses?

Temos muita coisa em mente para 2020, mas posso adiantar que já está no prelo Aquarela, do André Bernardino e do Vitor Flynn

Desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que é a nossa sociedade hoje. Qual você considera o papel de um editora como a Balão Editorial dentro desse contexto?

É muito difícil combater toda uma estrutura de poder sendo uma editora minúscula. Nossa forma de negar as ideias perpetradas pelo presidente é expor as nossas por meio das nossas publicações. Acho que Clean Break tem uma forte mensagem a respeito da sociedade contemporânea, por exemplo.

A capa de Hell No! #4, obra de Leo Finocchi publicada pela Balão Editorial em 2019
Entrevistas / HQ

Papo com Luciana Falcon, coordenadora da Bienal de Quadrinhos de Curitiba: “Nosso compromisso sempre foi com a promoção dos quadrinhos, mas mais ainda com o desenvolvimento cultural de uma forma mais abrangente”

Escrevi na terceira edição da coluna Sarjeta sobre os dois principais eventos de quadrinhos do Brasil em 2020, o FIQ, em Belo Horizonte, e a Bienal de Quadrinhos de Curitiba. A 6ª edição do evento na capital de paranaense está marcada pra rolar entre os dias 6 e 9 de agosto, sempre com entrada gratuita. Bati um papo com a coordenadora da Bienal, Luciana Falcon, para saber mais sobre seus planos e expectativas para o evento.

Você lê o meu texto para a Sarjeta #3 ali no site do Instituto Itaú Cultural. Compartilho a seguir a íntegra da minha entrevista com a responsável pela Bienal, na qual também conversamos sobre escolha do tema “Música e Quadrinhos” para essa sexta edição do festival e do papel da Bienal em um contexto de conservadorismo aflorado no país. Saca só:

“Buscamos sempre privilegiar as HQs autorais, as independentes e as que promovam a experimentação, a diversidade de linguagens e novos caminhos”

Registro da edição de 2018 da Bienal de Quadrinhos de Curitiba (Divulgação)

Junto com o FIQ, a Bienal de Quadrinhos de Curitiba é um dos principais eventos de HQs do Brasil, mas a proporção e a relevância do evento foi algo construído com o tempo. Qual balanço vocês fazem hoje do que a Bienal era quando surgiu, e o que ela é hoje, como um desses grandes marcos bienais das HQs nacionais?

A Bienal está caminhando para a sua sexta edição e isso já traz alguns aprendizados que vêm fazendo parte dessa construção.

Costumo dizer que para produzir um evento dedicado a HQ, como a Bienal é,  não basta entender ou gostar de HQs. Nosso compromisso sempre foi com a promoção dos quadrinhos, mas mais ainda é com o desenvolvimento cultural  de uma forma mais abrangente. Somos produtores culturais, queremos e devemos agregar, daí derivam nossos intentos com outras ações correlatas e, mais recentemente, com a ideia de recorte temático, possibilitando reflexões de nossos tempos e da implicação cultural por meio da produção de HQs. 

Nesse sentido, temos testado ao longo dos anos (com algum êxito), abordagens e articulações para engajar parceiros para criarmos as condições (financeiras sobretudo) e o ambiente necessário para aprofundar reflexões mais elaboradas sobre as HQs.

Nosso intuito passou de uma visão panorâmica das HQs, nas duas primeiras edições, para um recorte propositivo sobre temas e cruzamentos que podemos elaborar a partir das produções de HQs.

Vocês conseguem definir a linha editorial-curatorial da Bienal? Como vocês definem o recorte que a Bienal faz e apresenta hoje em termos de autores e publicações?

Desde 2016, quando o evento se torna Bienal de Quadrinhos de Curitiba, abrimos a curadoria para múltiplos realizadores das HQs. Autores, desenhistas, editores, jornalistas, tradutores e críticos se revezaram na curadoria das últimas três edições ao lado da Mitie Taketani, a embaixadora das HQs em Curitiba e curadora honorária da Bienal.

A ideia é termos uma voz plural e contextualizada na produção de HQs através da curadoria onde, a cada edição, de acordo com o tema, a gente consiga somar conhecimentos (muitas vezes específicos), sobre o que se pretende mostrar.

Busca-se sempre privilegiar as HQs autorais, as independentes e as que promovam a experimentação, a diversidade de linguagens e novos caminhos. Mas evidentemente temos presente, senão nas atividades oficiais, todo tipo de HQs através dos expositores na Feira da Bienal e no Palco Ocupa – espaço livre para programação de atividades propostas pelos participantes da Feira. Como dissemos, nosso intuito é agregar.

“O que dá o tom do que iremos discutir na edição seguinte é o calor que gera o último dia do evento”

Registro da edição de 2018 da Bienal de Quadrinhos de Curitiba (Divulgação)

Quais são as expectativas de vocês para a Bienal de 2020? Por que “música” como o tema principal do evento?

Tivemos um grande divisor de formato de produção em 2016, quando o pagamento do patrocínio via edital público do Paraná foi suspenso dias antes do evento. Nos rearticulamos em 2018 e nos fortalecemos ainda mais, resistindo bravamente.

Neste ano, estamos em expansão de nossa potência de produção com ações fora de Curitiba. Circulamos na África, Europa e Festivais Internacionais, o que nos possibilitou ver outros formatos de eventos e estreitar relações para novas parcerias que já estarão presentes em 2020, em Curitiba.

Temos as melhores possibilidades para a próxima edição (e isso é um tanto bizarro no contexto cultural atual do Brasil) e as expectativas são as mais elevadas.

A edição de 2018 – A cidade nas HQs – trouxe uma reflexão estendida da edição 2016, onde falamos sobre representatividades e o contexto político-social nas HQs. Em 2018, buscamos mostrar a cidade como “suporte” do que havíamos discutido em 2016. De como a cidade agrega ou exclui, como interagimos no caos ou nas cidades dos sonhos, futurísticas ou ainda as fantásticas. Alguns debates foram bem depressivos devido à perspectiva nada otimista em relação a futuros, especialmente naquela véspera de eleições presidenciais.

O que dá o tom do que iremos discutir na edição seguinte é o calor que gera o último dia do evento. E, sob aquela ótica desoladora das cidades que havíamos discutido e pelo futuro que se anunciava, resolvemos que precisávamos nos mexer, como quem espanta algo que insiste em nos paralisar.

Sabemos sobre silenciamentos, sabemos sobre paralisações, sobre isolamentos, sobre desarticular movimentos, e nesse sentido não sucumbiremos. Vamos estar juntos, vamos celebrar, vamos cantar bem alto e dizer subjetividades por outro viés. Música e HQs nasceu do calor do último dia da Bienal. E agora vamos pra pista.

Por que o convite para o Fabio Zimbres participar da curadoria da Bienal?

Como ele mesmo colocou no título em seu texto de abertura da exposição Bienal Publica 2018, do qual ele foi editor da publicação: Samba Antigo.

A Bienal é necessária para todos nós porque ela promove o essencial na cultura, o encontro. Já ouvimos muitíssimos relatos de pessoas dizendo da satisfação de ter conhecido ou encontrado este ou aquele na Bienal. 

Com a gente não foi diferente, encontramos o Zimbres, foi “um luxo só, como um samba antigo” espelhando seu texto. Queríamos muito continuar a trabalhar e pensar a Bienal com ele, editando o Bienal Publica novamente. Mas, ao final do evento, quando vislumbramos o tema, parecia que algo havia se fechado.

Mitie Taketani e o Fabrizio Andriani completariam a curadoria nas HQs, mas foi inevitável pensarmos em alguém para versar sobre produção musical. Parafraseando ainda o Zimbres, como outro “samba antigo”, convidamos um parceiro de muitos projetos, o Vadeco, para compor a curadoria.

Todos trazem referências distintas em seus repertórios de HQ e música para a seleção dos convidados. Mas como dissemos, não basta conhecer HQs ou música nesse caso. A Bienal se faz com a vontade de estar junto, com ideias compartilhadas, com articulação para fazer as coisas acontecerem. E, finalizando as citações do texto do Zimbres: “Bienal (e toda nossa equipe), seu requebrado me maltrata”.

“Esperamos a presença maciça do público, principalmente num período de tantos cortes e escassez em programações culturais”

Registro da edição de 2018 da Bienal de Quadrinhos de Curitiba (Divulgação)

Como a crise econômica, social e política que assola o país, somada à crise do mercado editorial, tende a impactar a realização da próxima Bienal?

Tentamos incansavelmente e insistentemente exercer nossa função de trabalhadores da cultura. Isso também inclui ocupar os espaços (ainda que poucos) de promoção cultural, sejam físicos, ou projetos de incentivo, iniciativas privadas, institucionais, acadêmicas, públicas, etc. Este tem sido o caminho e estamos tendo resultados.

Se por um lado implementamos o engajamento e articulação, por outro buscamos executar a melhor qualidade, diversidade e propósito na programação para garantir a manutenção das parcerias, da Bienal e no que se deseja enquanto desenvolvimento cultural.

Nossa programação é (e sempre será) totalmente gratuita, apesar de não ser um evento público da prefeitura de Curitiba, como muitos confundem. Esperamos a presença maciça do público, principalmente num período de tantos cortes e escassez em programações culturais. Vamos ofertar diversas atividades para todos, como shows, exposições, oficinas, conversas, cinema, programação infantil, festas, etc. Esperamos que isso se reverta também em vendas aos expositores.

Quero acreditar que a nossa rede de parceiros (editoras, instituições, etc) vai dar continuidade ao que estamos executando com muita seriedade e relevância.

Desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que é a nossa sociedade hoje. Qual você considera o papel de um festival como a Bienal dentro desse contexto? 

Basicamente, mas não superficialmente, fazer pensar, refletir. Este sem dúvida é o principal papel. É dar destaque num recorte o que podemos elaborar em pensamentos que ampliem, que nos pegue de surpresa, que ponha dúvida, que questione, que vá contra certezas absolutas ou imposições.

O Brasil é mundialmente conhecido pela música, ela está em nós e diz muito sobre como convivemos, sobre nossa diversidade. É um excelente suporte da nossa voz, sem esquecer dos corpos, que nos interessam também, nosso movimento, nosso traço. Queremos mexer dos pés a cabeça e fazer pensar.

Registro da edição de 2018 da Bienal de Quadrinhos de Curitiba (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Afonso Andrade, coordenador do FIQ: “O FIQ, como um evento calcado nas artes, na educação, na diversidade e na liberdade de expressão, acaba por se tornar um ato de resistência”

Escrevi na terceira edição da coluna Sarjeta sobre os dois principais eventos de quadrinhos do Brasil em 2020, o FIQ, em Belo Horizonte, e a Bienal de Quadrinhos de Curitiba. A 11ª edição do evento na capital de Minas Gerais está marcada pra rolar entre os dias 27 e 31 de maio, sempre com entrada gratuita. Bati um papo com o coordenador do FIQ, Afonso Andrade, para saber mais sobre seus planos e expectativas para o evento.

Você lê o meu texto para a Sarjeta #3 ali no site do Instituto Itaú Cultural. Compartilho a seguir a íntegra da minha entrevista com o responsável pelo FIQ, na qual também conversamos sobre o impacto da crise econômica, social e política pela qual passa o país e o papel do mais tradicional evento de quadrinhos do país em um contexto de conservadorismo aflorado. Ó:

“A proposta do FIQ é apresentar um recorte da produção de quadrinhos no Brasil e no mundo”

Registro da edição de 2018 do FIQ (Divulgação/Glenio Campregher)

O FIQ é hoje o maior e mais importante evento de quadrinhos do Brasil, mas a proporção e a relevância do evento foi algo construído com o tempo. Qual balanço você faz hoje do que o FIQ era quando surgiu, em 1999, e hoje, como esse grande marco bienal das HQs nacionais?

O FIQ surge em 1999 a partir da realização, em Belo Horizonte, no ano de 1997, da 3ª Bienal Internacional de Quadrinhos. Então podemos dizer que, de 1999 a 2005, o FIQ segue a linha da Bienal, muito focada em exposições e  convidados. É também um período de transição no mercado de quadrinhos. As publicações começam a migrar das bancas de revistas para as livrarias e a auto-publicação. A partir de 2007 o festival sofre várias mudanças que levam a sua consolidação como um grande evento para o mercado de quadrinhos e  para a cidade:

-Mudança para  a Serraria Souza Pinto: local com melhor estrutura, maior e que por sua localização gera mais visibilidade;
-Comunicação do evento: o festival passa a ter um foco maior em dialogar com a cidade e pensar no festival como um espaço de formação de leitores e difusão dos quadrinhos para um público além do habitual; 
-Ampliação da participação dos quadrinistas independentes através da  criação de um canal de diálogo direto com quadrinistas de BH e do Brasil e  da participação destes como convidados e expositores;
-Visitação escolar: abertura do festival para a visitação e participação em atividades  de escolas e grupos, como parte da política de formação de leitores. 

A partir daí o FIQ fortalece sua posição como um evento importante no calendário cultural da cidade, sendo, inclusive, sua realização objeto de lei municipal, em 2017. 

O número de exposições diminui, cedendo espaço para quadrinistas que podem apresentar suas publicações e interagir com o público. Mas atividades interativas e de formação crescem, como a rodada de negócios.   O festival tem tido cada vez maior a participação de quadrinistas de todo Brasil, como expositores e/ou convidados. Em 2018 foram mais de 500, vindos de 19 estados e do Distrito Federal. 

Uma das marcas do FIQ está na abertura aos mais diversos estilos e gêneros, na recepção à diversidade das HQs nacionais. Você consegue definir a linha editorial-curatorial do FIQ indo além desse filtro? Como você define o recorte que o FIQ faz e apresenta hoje em termos de autores e publicações?

A proposta do FIQ é apresentar um recorte da produção de quadrinhos no Brasil e no mundo. São duas linhas de “curadoria”, a escolha de convidadas e convidados e temas dos debates e a seleção para a ocupação do “artist alley” e estandes. A curadoria indica quem será convidado, a partir de alguns parâmetros definidos em conjunto com a coordenação do evento: equilíbrio de gênero; representatividade racial e LGBTQ; diversidade de estilos e propostas artísticas; diversidade regional; Mix de quadrinistas veteranos  e novatos; Atenção especial a quadrinistas de Belo Horizonte. A seleção para o artist alley e estandes também segue essa linha. Com isso conseguimos apresentar um painel bem interessante de autores e publicações. Em 2018, somando convidos e expositores, tivemos cerca de 500 quadrinistas presentes, apresentando suas publicações e trabalhos, com o lançamento de, aproximadamente, 300 publicações inéditas ou recentes. 

“Com tanta instabilidade no país, a estratégia é fazer o planejamento e ir lidando com as ‘crises’ na medida do possível”

Registro da edição de 2018 do FIQ (Divulgação/Glenio Campregher)

Quais são as suas expectativas para o FIQ de 2020? Tem alguma novidade ou informação inédita que você já pode adiantar sobre essa 11ª edição?

A expectativa é boa, temos o respaldo institucional e financeiro Prefeitura de Belo Horizonte  realizadora do evento através da Secretaria Municipal de Cultura e Fundação Municipal de Cultura Estamos na fase de planejamento inicial do festival, mas já anunciamos a data do festival que será de 27 a 31 de maio de 2020.

Belo Horizonte é um dos principais pólos das HQs nacionais por conta do FIQ, mas há na cidade uma cena crescente de feiras e eventos de quadrinhos e publicações independentes, vários deles inclusive bancados por editais públicos e leis de incentivo. Você nota essa movimentação crescente em BH? Se sim, o que você acha que impulsiona essa agitação?

Sim, tem crescido o número de feiras dedicadas aos quadrinhos, publicações independentes  e artes gráficas. A cidade já tem uma tradição de feiras livres de artes que vem de muitos anos. Porém, acredito que seja um fenômeno nacional, uma vez que vemos acontecer em outras cidades do país. As feiras são um espaço alternativo aos meios  tradicionais de comercialização das publicações e produtos gráficos. Elas permitem um contato direto entre o artista e o público, proporcionando um diálogo e uma troca, que vai além da simples observação do objeto. Além disso, eliminam um gargalo que é a distribuição, um grande dificultador para quem produz sem um aporte de uma grande editora ou distribuidora. 

“O país vive um retrocesso civilizatório”

Registro da edição de 2018 do FIQ (Divulgação/Glenio Campregher)

Como a crise econômica, social e política que assola o país, somada à crise do mercado editorial, tende a impactar a realização do próximo FIQ?

A curto prazo o impacto maior é econômico. Com a crise, os municípios arrecadam menos e, consequentemente, o orçamentos de todos os órgãos e projetos tem que ser revisto. Além disso, o patrocínio privado também é impactado, assim como as leis de incentivo à cultura. 

O mercado editorial já vive em crise há alguns anos, especialmente por conta do esgotamento do modelo de grandes redes de livrarias. 

Porém é muito difícil prever como estará o país em maio de 2020 e se teremos mais alguma crise no caminho até lá. Com tanta instabilidade no país, a estratégia é fazer o planejamento e ir lidando com as “crises” na medida do possível. 

Desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que é a nossa sociedade hoje. Qual você considera o papel de um festival como FIQ dentro desse contexto? 

O país vive um retrocesso civilizatório.  Assistimos a diversas tentativas de censura à produção artística e ao livre pensamento, baseadas em preconceitos, ideias autoritárias e anti-científicas. O FIQ, como um evento calcado nas artes,  na educação, na diversidade e na liberdade de expressão, acaba por se tornar um ato de resistência nessa conjuntura. 

Registro da edição de 2018 do FIQ (Divulgação/Glenio Campregher)