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Entrevistas / HQ

Papo com Pablito Aguiar, autor de Almoço: Uma Conversa com Eliane Brum: “Foi com ela que aprendi sobre ser repórter”

O quadrinista Pablito Aguiar conheceu o trabalho da jornalista Eliane Brum após vê-la sendo entrevistada pelo apresentador Antônio Abujamra (1932-2015), em uma edição de 2013 do programa Provocações. Ele diz ter ficado “impactado com a voz doce dela e ao mesmo tempo a fala tão forte sobre como ela enxerga o jornalismo e a vida”. As 80 páginas de Almoço: Uma Conversa com Eliane Brum (Arquipélago) apresentam, em quadrinhos, uma entrevista do autor com a jornalista na casa dela, em Altamira, no Pará.

Ao longo dos últimos anos, Pablito se tornou um especialista em grandes entrevistas com figuras anônimas. Em 2017 ele publicou Alvorada em Quadrinhos, reunindo histórias de 23 moradores de sua cidade natal, Alvorada, no Rio Grande do Sul. Durante a pandemia do novo coronavírus, ele produziu a série Fala que eu Desenho, sobre vivências de diferentes pessoas durante seus períodos de isolamento social. Ele é um dos expoentes de uma cena brasileira de jornalismo em quadrinhos que ainda conta com Carol Ito, Gabriela Güllich, Cecília Marins, Alexandre De Maio e outros.

Em Almoço, Pablito faz uso de seu traço cada vez mais minimalista para apresentar algumas das principais reflexões em curso na mente de uma das jornalistas brasileiras mais premiadas e reconhecidas de sua geração – e grande inspiração para o trabalho jornalístico desenvolvido por ele.

O álbum mostra Brum preparando um almoço para o quadrinista enquanto ela conta suas motivações por trás de sua mudança para o norte do país e o início de seus trabalhos na Sumaúma – Jornalismo do Centro do Mundo, plataforma de jornalismo baseada na Amazônia e voltada para a cobertura de “uma guerra contra a natureza”.

Mandei algumas perguntas por email para Pablito Aguiar sobre o desenvolvimento de Almoço, sua admiração por Eliane Brum e seus trabalhos com jornalismo em quadrinhos. Compartilho a seguir a íntegra dessa conversa. Saca só que massa:

“O que me tocou primeiro foi ver como ela ama ser jornalista”

Quadros de Almoço: Uma Conversa com Eliane Brum, obra de Pablito Aguiar publicada pela Arquipélago Editorial (Divulgação)

Você se lembra do seu primeiro contato com o trabalho da Eliane Brum? Você se lembra de qual reportagem foi e quais foram suas impressões sobre ela?

Eu lembro sim, muito bem. Foi a [quadrinista] Grazi Fonseca que me apresentou pela primeira vez uma entrevista da Eliane Brum, na TV Cultura, no antigo programa Provocações com o Abujamra. A Grazi viu o meu interesse em entrevistar pessoas e disse que tinha uma jornalista que eu iria adorar. Eu não sabia quem era a Eliane. Eu fiquei impactado com a voz doce dela e ao mesmo tempo a fala tão forte sobre como ela enxerga o jornalismo e a vida. E, a partir daí, fui lendo todos os livros da Eliane e vendo todos os vídeos dela no YouTube e me transformando a cada uma dessas experiências.

E o que você vê de mais especial no trabalho da Eliane Brum?

Foi com a Eliane que aprendi sobre ser repórter, o cuidado com o entrevistado, a ética, a importância de checar os fatos… A Eliane tem um jeito delicado e ao mesmo tempo intenso de escrever os textos que deixam o leitor quase sem respiração, mas acho que o que me tocou primeiro foi ver como ela ama ser jornalista. No posfácio do livro A Vida que Ninguém vê ela diz:

“Ser repórter é um dos grandes caminhos para entrar na vida (principalmente a alheia) com os dois pés e com estilo. Desde pequena, o que mais me fascinava era passar pelas casas e prédios de apartamentos, adivinhar a luz lá dentro e imaginar o que acontecia, que vidas eram aquelas, com o que sonhavam, que dramas tinham, o que as fazia rir. Pronto. Arranjei uma maneira de entrar em qualquer casa iluminada por dentro, mesmo que seja com uma vela. Ser repórter não tem preço. Em todos os sentidos”.

Ela fala que quando percebeu que poderia entrar em qualquer lugar, conversar com qualquer pessoa, com um bloquinho e uma caneta na mão, se encantou pela profissão. Para mim também foi assim. Quando percebi que poderia conhecer qualquer pessoa com um gravador e a promessa de fazer um quadrinho, me apaixonei. Sabe, e ainda contar histórias que valorizem a vida das pessoas! Só vantagens. Me vi nesse amor que a Eliane tem pelo jornalismo e decidi que era isso que gostaria de ser.

“Sempre procuro que a entrevista pareça uma conversa”

Página de Almoço: Uma Conversa com Eliane Brum, obra de Pablito Aguiar publicada pela Arquipélago Editorial (Divulgação)

O que significou para você essa oportunidade de conversar com a Eliane Brum?

Para ter uma ideia, eu já vinha planejando ir para a Altamira antes da pandemia. Planejava entrevistar pessoas da cidade e tentar encontrar a Eliane. Não seria fácil. Eu não tinha ninguém para me apresentá-la. Quando recebi uma mensagem da editora Arquipélago, que também edita os livros da Eliane, em abril de 2022, dizendo que gostariam de conversar comigo sobre um projeto que unisse o meu trabalho com o dela, fiquei sem acreditar. Era ainda mais do que eu estava me permitindo sonhar. Era um trabalho direto com a Eliane. Ainda não estava certo sobre como seria esse projeto, então fiz uma proposta para eles: e se eu fosse até Altamira, no Pará, conversar com a Eliane Brum na casa dela? E eles toparam!

Encontrar a Eliane significou a realização de um sonho e ouvir dela que o meu trabalho era importante e que ela gostou de conversar comigo me fizeram acreditar ainda mais nos quadrinhos que eu faço.

Eu fico curioso em relação aos seus métodos de trabalhos. Como são os seus preparativos antes de uma entrevista? Você grava as suas entrevistas? Você tira fotos?

No caso da Eliane, eu pensei bastante que perguntas fazer e no dia levei um roteiro escrito no bloco de desenho. Mas sempre procuro que a entrevista pareça uma conversa, para que ela flua naturalmente com perguntas que façam sentido na sequência. Me guio muito pela minha curiosidade, e as perguntas que anoto previamente eu uso só caso eu não consiga pensar em nenhuma questão. Paralelo às perguntas, eu tiro muitas e muitas fotos, e faço vídeos também durante a conversa. Sempre com um gravador ligado, claro, porque a minha memória é péssima.

Acho entrevistas ao vivo, sejam pessoalmente ou por telefone, mais interessantes, mas confesso que odeio transcrever. Me fala também, por favor, sobre suas rotinas pós-entrevistas? Você transcreve tudo? Você tem algum método pessoal para selecionar os “melhores momentos” de cada conversa?

É chato mesmo transcrever, mas eu transcrevo tudo ainda. Acho importante ouvir tudo de novo, sabe? Porque para mim, quando estou em casa transcrevendo, acabo ouvindo com mais atenção. Sem distrações. Vou transcrevendo, sentindo tudo de novo e já pensando no que foi importante na nossa conversa. Depois de transcrita a entrevista, eu imprimo (a transcrição da Eliane deu 14 páginas) e vou destacando com o lápis as partes que eu considero mais importantes. Depois imagino como vai ser a narrativa da história e começo a montar, como um mosaico, as falas da pessoa no quadrinho.

“O meu objetivo é que o leitor tenha a experiência mais próxima possível da que eu tive”

Página de Almoço: Uma Conversa com Eliane Brum, obra de Pablito Aguiar publicada pela Arquipélago Editorial (Divulgação)

Como você e os seus editores chegaram no recorte desse livro com a Eliane Brum? Em qual momento você determinou que o foco na obra seria nesse seu almoço com ela?

Foi lendo o livro Banzeiro Òkòtó, da Eliane Brum, publicado pela Companhia das Letras, que eu tive essa ideia. Na página 371 ela fala: “Cozinhar feijão é como elaboro magicamente a minha vida. Em fogo lento, tirando o máximo de sabor daquilo que a terra me dá, usando temperos e ervas como bruxa.”

Quando li isso, pensei que seria muito bonito se eu tivesse a oportunidade de conhecer e desenhar esse lado caseiro da Eliane e ao mesmo tempo conversar sobre assuntos tão importantes para ela. Esse momento na cozinha, onde ela reflete sobre a vida, me pareceu ideal. E felizmente ela aceitou.

Mas o livro acabou indo além só do preparo do feijão, e virou um livro em que ela prepara todo o almoço. O feijão, o arroz, a salada, o suco de cupuaçu… Como foi no nosso encontro. E cada um desses elementos acabou virando um capítulo do livro.

 São muito comuns obras de jornalismo em quadrinhos com jornalistas se colocando como personagens. Por que a sua opção por não se retratar na HQ?

Eu adoro livros e quadrinhos onde o repórter se coloca como personagem. A própria Eliane faz isso. Mas nos meus quadrinhos eu fiz uma escolha narrativa diferente. Procuro criar a impressão de que o entrevistado esteja conversando com o leitor, e não comigo. O meu objetivo é que o leitor tenha a experiência mais próxima possível da que eu tive, por isso desapareço e coloco ele no meu lugar.

“Cada palavra escolhida diz muito sobre a personalidade da pessoa”

Página de Almoço: Uma Conversa com Eliane Brum, obra de Pablito Aguiar publicada pela Arquipélago Editorial (Divulgação)

Eu gosto de uma reflexão proposta pelo Joe Sacco no livro Reportagens que ele questiona “como conciliar a subjetividade inerente aos desenhos com a verdade objetiva que se aspira em uma matéria jornalística?”. Eu repasso a pergunta para você: como? 

Pois é, acredito que o resultado dessa conciliação entre a subjetividade e a verdade objetiva deva ser um trabalho em que a pessoa entrevistada se reconheça na criação. O trabalho que eu faço tem que ser sobre quem eu escutei, não sobre mim. E algo que me ajuda nesse processo de produção é montar um quadrinho respeitando as falas da pessoa. Respeitando a sintaxe e a linguagem utilizada, sem sinônimos, porque cada palavra escolhida diz muito sobre a personalidade da pessoa, e se eu alterasse estaria ficando distante de quem ela é. É claro que o quadrinho dá espaço também para criações, no caso da Eliane, por exemplo, quando fui pela primeira vez na casa dela e fiz a entrevista não havia quatro gatinhos, e sim dois… mas durante a minha estadia em Altamira a Eliane adotou mais dois gatos e não quis excluí-los da obra. Queria que toda a família da Eliane estivesse nesse registro. Foi uma criação, que o quadrinho possibilita, que acredito que ajudou a entender mais quem a Eliane é, não o contrário.

Algo que gosto muito no seu trabalho é o contraste entre o minimalismo do seu traço e as muitas nuances das falas e dos gestos dos seus entrevistados. E eu fico com a impressão que você investe cada vez mais nesse contraste. Procede essa minha impressão? 

Eu percebo que estou cada vez tentando olhar com mais atenção a pessoa que entrevisto. Os gestos, a forma como sorri, como fica triste, como é a casa onde ela mora, os sons… Acredito que quanto mais detalhes eu trouxer, mesmo com o meu traço minimalista, melhor a pessoa vai se enxergar no meu trabalho.

A capa de Almoço: Uma Conversa Com Eliane Brum, obra de Pablito Aguiar publicada pela Arquipélago Editorial (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Marcelo D’Salete, autor de Mukanda Tiodora: “Não podemos imaginar um governo contra as populações negras, quilombolas, indígenas, pobres e mulheres, novamente assumindo o poder”

Como escrevi na minha reportagem sobre Mukanda Tiodora, é provável que o novo quadrinho de Marcelo D’Salete seja a grande HQ brasileira de 2022. O álbum de 224 páginas recém-lançado pela editora Veneta é uma ficção histórica sobre os esforços reais de uma mulher escravizada em busca de sua liberdade na cidade de São Paulo do século 19.

A obra é baseada na história de Teodora Dias da Cunha, Tiodora, mulher escravizada originária das terras de Angola. Com auxílio de um homem escravizado alfabetizado, ela escreveu sete cartas, para diferentes destinatários, entre autoridades e familiares, tendo em vista sua alforria. D’Salete criou ficção a partir de uma das cartas, construindo uma trama envolvendo a jornada da mensagem até seu destinatário. Você lê o meu texto sobre a HQ clicando aqui.

Compartilho agora a íntegra da minha entrevista com D’Salete. Ele fala sobre o desenvolvimento de seu novo trabalho, mas também expõe suas expectativas para o governo Lula a partir de 2023, reflete sobre os rumos de suas técnicas de desenho e revela sua saudade de desenhar cidades e centros urbanos modernos. Papo massa, saca só:

“Espero realmente que possamos superar esses últimos quatro anos”

Quadro de Mukanda Tiodora, obra de Marcelo D’Salete publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Hoje é 4 de novembro de 2022, cinco dias depois da vitória do Lula nas eleições presidenciais. Queria começar sabendo como você recebeu esse resultado? Quais expectativas você tem em relação a esse novo governo?

Foi com grande esperança, alívio e alegria que veio a notícia da última eleição, no domingo, em relação à Presidência. Imagino que romper esse ciclo destrutivo e extremamente prejudicial ao Brasil, ao mundo, aos trabalhadores, da política atual, do Bolsonaro, é algo urgente e necessário. Creio que teremos o desafio, nos próximos meses e anos, de criar formas de lutar contra essa desinformação praticada de modo extremamente devastador pelo bolsonarismo. Não podemos imaginar um governo contra as populações negras, quilombolas, indígenas, pobres e mulheres, novamente assumindo o poder de uma forma tão desastrosa. Teremos desafios muito grandes para que isso não volte a ocorrer. Haja visto o número de votos que eles conseguiram na última eleição.

Agora, por outro lado, não deixa de ser extraordinário ver, mesmo com tantas empresas gastando muito dinheiro para eleição do atual presidente, utilizando a máquina pública para isso, a gente tenha o Lula sendo eleito presidente. É uma vitória popular muito grande contra o interesse dessas oligarquias endinheiradas. Espero realmente que possamos superar esses últimos quatro anos, mas também criar estratégias para que isso não volte a acontecer. Isso é possível com muita organização popular, com a população negra, indígena, de mulheres, LGBTI e outros grupos, se fazendo ouvir. Precisamos de diálogos efetivos com esses grupos.

Em meio aos vários retrocessos do governo Bolsonaro, quais são aqueles que você acha que devem ser encarados com maior atenção a partir de 1º de janeiro de 2023?

Olha, são muitos os retrocessos do atual governo. Não tem como você pensar no futuro do país tendo cortes tão bruscos nas áreas da educação, saúde e cultura. Eu acho que qualquer sonho de um país possível, com menos desigualdade e, de fato, por uma outra sociedade, passa necessariamente pela formação, pela instrução e por melhores condições para sua população. Diria que esses são apenas alguns dos temas que precisam ser tratados a partir do próximo ano. Mas é claro, é uma realidade muito complexa, de enormes problemas, que iremos enfrentar. Com certeza. Principalmente em relação ao discurso negacionista e extremamente conservador da extrema direita, diferente daquele de 20 anos atrás.

Superar a política da indiferença e do negacionismo é algo fundamental. Nós precisamos realmente colocar em pauta, novamente, uma política de solidariedade e de mudança social, que é urgente e necessária no Brasil.

Você pode me falar, por favor, sobre o seu primeiro contato com a história da Tiodora? Quando você soube pela primeira vez da existência dela? O que mais te impactou na história dela?

O meu novo livro trata da história da Tiodora. Ela foi uma mulher, negra, escravizada que em 1866 escreveu algumas cartas com ajuda de outro escravizado, o Claro. Eu tive contato com os registros dessas cartas a partir do livro Sonhos Africanos, da Cristina Wissenbach. Ele trata de São Paulo no século 19 e principalmente da população negra naquele período. É um livro incrível. Ele revela uma São Paulo, no século 19, com uma presença forte da população negra, com pessoas escravizadas e livres. As cartas da Tiodora foram enviadas para diversas pessoas. Uma era para o “senhor”, outra para um irmão do “senhor”, outra para seu esposo – Luís, que estava no interior de São Paulo – e outra para o seu filho, Inocêncio. A Tiodora queria ter contato com seus parentes e ter ajuda para conseguir a sua carta de alforria.

Elas revelam muito também sobre a própria trajetória da Tiodora. Ela vem das terras de Angola, chegou no Brasil e foi vendida no interior de São Paulo. Foi para a cidade de São Paulo, morando na Rua da Liberdade, por volta de 1860. Sendo que o seu esposo e filho ficaram no interior. É preciso entender que o interior de São Paulo e a cidade de São Paulo, ambos escravistas, formavam uma sociedade extremamente desigual e violenta. Mas havia formas diferenciadas de escravidão. E o livro tenta trazer um pouco disso.

Foi um impacto enorme ler as cartas da Tiodora. Eu lembro que chorava ao ler as cartas dela, porque ela é muito contundente. Ela é muito direta em mostrar ali as suas emoções e também o seu interesse de conseguir a sua alforria. E claro, de ter esse contato com pessoas de quem ela foi separada. Este conjunto de cartas, com certeza, como considera a historiadora Cristina Wissenbach, é algo único para pensar na cidade de São Paulo nesse período.

“Pensei que poderia até mesmo ser um livro juvenil”

Página de Mukanda Tiodora, obra de Marcelo D’Salete publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Você definiu para mim Angola Janga como “uma ficção que dialoga com fatos históricos”. Você também vê Mukanda Tiodora dentro desse mesmo “gênero”?

Eu vejo Mukanda Tiodora, assim como meus outros livros, como ficção. Mas há aproximações em relação à história, em relação a essa tentativa de imaginar São Paulo no século 19 e, principalmente, sobre a população negra nesse período. Ele é uma forma de aproximação, uma forma de investigação poética e ficcional sobre aquele momento, trazendo diferentes personagens para entender aquele contexto. Não considero um livro de registro apenas histórico, mas é uma tentativa de imaginar a história criando novas formas de interpretar aqueles fatos a partir da ficção.

Você faz uso de várias referências bibliográficas, mas construiu a HQ a partir das sete cartas de Tiodora. São cartas curtas, mas com muitas informações sobre a realidade da personagem e também sobre as origens e a personalidade dela. Como foi criar a trama dessa HQ tendo essa base como ponto de partida?

O livro da Tiodora passou por diversos estágios. É um livro atualmente com 224 páginas. Mas no início, quando comecei a elaborar o roteiro, pensei que poderia até mesmo ser um livro juvenil, falando da população negra, de cartas, de escrita, um livro quase sem texto. Seria um livro bem menor, com cerca de 40 ou 60 páginas. Aos poucos essa ideia foi crescendo, cada vez mais, como é bem comum de acontecer com meus trabalhos. E foram entrando ali novos personagens, novas ideias e isso fez com que eu tivesse que aprofundar um pouco mais em algumas pesquisas sobre o período.

As cartas da Tiodora são um ponto de partida, um documento potencial que serviu como um grande gerador de novas imagens, de novos personagens, de narrativas possíveis. Aos poucos eu fui pensando na Tiodora e como trazer esses personagens todos para narrativa, tudo inspirado no que tem ali nas cartas da Tiodora.

Aos poucos eu fui tentando entender, também, o Brasil e São Paulo em 1866. E aí nós temos a Guerra do Paraguai; a Guerra Civil nos Estados Unidos, que já tinha acabado nesse período. Nós temos um momento em que as pessoas estão sendo pegas, principalmente pobres e negros, e sendo mandados para morrer na guerra. Por isso foi muito importante dialogar também com outros historiadores e quadrinistas – como o André Toral, que me deu dicas excelentes para pensar nesse contexto. A guerra do Paraguai é um dos temas muito bem discutidos pelo André Toral em diversos livros.

Nesse período, nós temos uma confluência de intelectuais e artistas que atuam juntos na criação de alguns jornais importantes em São Paulo. Nós temos o Luís Gama, que é uma pessoa que vem de Salvador, um jovem que foi escravizado, passa pelo interior e depois fica na cidade de São Paulo. Ele consegue a sua liberdade e se torna um escritor. Além disso, se torna também advogado, tendo lutado em diferentes causas e participado da libertação de mais de 500 pessoas. Enfim, o Luís Gama é uma pessoa que teve conhecimento do processo da Tiodora. Porque as cartas dela foram apreendidas pela polícia depois que o Claro, quem escreveu as cartas, é suspeito de um crime. E o Luís Gama foi uma das pessoas que relatou todo esse caso da Tiodora, então ele tinha conhecimento do que estava acontecendo ali. Inicialmente ele não estaria na história, mas depois ele foi se impondo. Porque a relação do Luís Gama com o Ferreira Menezes, que também era um jornalista e escritor abolicionista, começa em São Paulo, quando o Ferreira Menezes vem estudar na Faculdade de Direito. Ele conhece o Luís Gama e eles trocam diversas cartas ao longo da vida deles, até 1880. Então esses dois personagens entraram. 

Nesse período, 1860, aqui em São Paulo também estava o Ângelo Agostini. Ele publicou jornais em São Paulo junto com o Luís Gama, dentro do contexto de luta abolicionista também de luta pela República. Enfim, tem todo esse contexto político contra os poderosos. O Luís Gama fazia uma crítica acirrada, extremamente forte, contra o poder instaurado naquele momento, contra os grandes fazendeiros e contra a igreja. Se por um lado você tinha os fazendeiros, que possuíam o dinheiro, o poder para manter essa estrutura, por outro lado, você tinha a igreja, que infelizmente dava apoio moral ao regime da escravidão. O Luís Gama nunca foi condescendente com esses abusos e com essa “distorção”, vamos dizer assim, dos ensinamentos que vem da própria igreja em relação à igualdade e tudo mais.

O que essas cartas trouxeram de mais revelador para você sobre o Brasil do século 19?

É muito interessante pensar que, nas primeiras décadas de 1800, no interior de São Paulo, assim como no Rio de Janeiro, havia uma população enorme de pessoas africanas escravizadas. Chegava a ser 50% em alguns locais, durante algumas décadas foi maior do que a população livre. Isso chamava atenção de muitas pessoas que viajavam, que vinham para o Brasil também.

Havia uma produção de café enorme no interior do Rio e essa produção, depois, passa pelo interior de São Paulo, região de Campinas, Limeira. Há um fluxo enorme de pessoas escravizadas da África, de Angola principalmente, vindo para o Rio de Janeiro e depois indo diretamente para o interior de São Paulo. Campinas e região era o local mais brutal do escravismo nesse período. No início de 1800, muitos países estão abolindo o tráfico no Atlântico. Inglaterra, França, Estados Unidos e vários outros países aqui na América Latina, quando se tornam independentes, acabam com a escravidão. Isso não acontece no Brasil. O Brasil se tornou independente e reforçou a instituição cruel da escravidão. Existe um verdadeiro pacto das elites para que a independência aconteça, mas com a continuidade e o incremento da escravidão, trazendo ainda mais pessoas para cá.

A primeira lei sobre a abolição do tráfico no Atlântico aconteceu em 1831. Só que a lei virou uma letra morta. Inicialmente há, sim, um momento de fiscalização e de interrupção do tráfico no Atlântico de escravizados africanos. Mas logo depois os poderosos da época, grandes fazendeiros, apoiadores do escravismo, acabam fazendo com que a lei seja ignorada e o tráfico continue acontecendo de modo ilegal.

Então, é muito interessante compreender esse período e o Luís Gama foi uma das pessoas que mais soube perceber e lutar contra isso. Ele sabia: quem vinha para o Brasil a partir de 1831 era a partir do tráfico ilegal. Essas pessoas não poderiam ser escravizadas. O Luís Gama é provavelmente uma das primeiras pessoas a utilizar esse termo naquele período: ‘libertos escravizados’. Ele compreendia que pela lei, aquelas pessoas já deveriam ser consideradas livres quando chegavam aqui. Mas, de acordo com o conluio entre os grandes fazendeiros e também a polícia da época, todo aparato jurídico e criminal daquele período não tornavam aquilo um crime hediondo.

“Tiodora nos ajuda a compreender um momento crucial da história do Brasil”

Página de Mukanda Tiodora, obra de Marcelo D’Salete publicada pela editora Veneta (Divulgação)

E você vê diálogo entre a realidade da Tiodora e o Brasil contemporâneo?

Olha, acho que a Tiodora nos ajuda a compreender um momento crucial da história do Brasil. Ela serve também para a gente relacionar com outras personalidades à margem da sociedade brasileira em diferentes períodos. Eu sempre lembro da história da Tiodora e, 100 anos depois, na história da Carolina de Jesus, por exemplo. E nós poderíamos pensar na história de muitas outras mulheres que utilizaram a escrita como uma estratégia de resistência e de sobrevivência.

Os seus primeiros livros, com ambientações mais contemporâneas, têm forte presença da realidade urbana de São Paulo. Em Cumbe e Angola Janga você se afastou desses cenários, tanto em termos geográficos quanto temporais. Em 2017, quando Angola Janga saiu, você falou como foi difícil essa transição. Em Mukanda Tiodora você volta para São Paulo, mas no século 19. Como você vê a São Paulo escravocrata dessa época influenciando a formação da cidade que existe hoje?

Imagino que as cartas da Tiodora são importantes para mostrar a São Paulo daquele período. São registros únicos para compreender certos espaços negros na cidade de São Paulo naquele período, antes de todo o processo de imigração. Por exemplo, o Bairro da Liberdade, local onde a Tiodora morou e onde ficava a forca. A Igreja do Rosário dos Homens Pretos, que inicialmente ficava na praça na Praça Antônio Prado, onde hoje existe a bolsa de valores de São Paulo. É muito emblemático que uma igreja com forte presença negra e afro-brasileira no século 19 tenha sido destruída, sobre ela, foram construídos os principais prédios da cidade naquele período, inclusive da bolsa de valores. Aquele solo foi local de grande importância negra, afro-brasileira e africana, em São Paulo no século 19.

E curiosidade minha: você sente falta de desenhar prédios e pichações e cenários mais contemporâneos?

(Risos) Sim, às vezes sim. Eu tenho alguns projetos focados no Brasil mais contemporâneo. Mas esses outros projetos, mais históricos, acabaram se impondo de uma forma muito grande na minha relação com os quadrinhos. Eram histórias que eu via e pensava “é importante que isso seja contado de algum modo”. Mas ainda espero voltar, sim, para as histórias mais contemporâneas, como fazia com Encruzilhada e Noite Luz.

Apesar de Cumbe ter saído antes de Angola Janga, você já me disse que vê Cumbe como uma extensão de Angola Janga, por um ter surgido das pesquisas do outro. Mukanda Tiodora também é desdobramento dessas pesquisas?

Olha, Mukanda Tiodora, de certo modo, acaba sendo um desdobramento, mas bem diferente para pensar na história do Brasil. Em Mukanda Tiodora eu abordo um outro momento e contexto da escravidão. Mostro outras estratégias da população negra em relação à tentativa de obter a sua liberdade ou melhores condições de vida. Essa negociação passava pela fuga, às vezes pela formação de quilombos, mas também por uma negociação tensa com os “senhores”, usando cartas, como aconteceu com a Tiodora, como aconteceu com a Esperança Garcia também. Então, a escrita, assim como a ação das irmandades negras, eram uma outra forma de tentativa de negociação com esse poder escravista, tentando melhores condições de vidas e também a liberdade.

É muito importante que a gente entenda que havia diferentes formas de resistência e negociação com o poder escravista. Todas essas formas, de certo modo, são relevantes para a gente compreender que essas pessoas buscavam melhores condições de vida, às vezes conseguindo sua alforria de fato, mas às vezes conseguindo mais tempo para os seus trabalhos, mais tempo para vender as suas coisas, para conseguir juntar dinheiro, para compra da carta de alforria, para os seus momentos festivos também. Tudo isso faz parte dessas formas de negociação e diz respeito a essa história negra de resistência, de luta contra o poder escravista.

“Desenvolvi uma outra relação com o desenho”

Página de Mukanda Tiodora, obra de Marcelo D’Salete publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Também queria saber um pouco mais sobre as suas técnicas nesse livro novo. Você usou caneta nanquim e pincel com nanquim no Angola Janga e evitou tinta acrílica, uma constante nos seus trabalhos prévios. E agora? Quais materiais você usou?

No livro Tiodora eu trabalhei bastante com nanquim e papel. Eu desenvolvi uma outra relação com o desenho. Eu mudei o estilo para algo que eu sempre persegui de certo modo, nessa relação com o preto e branco, com o cinza, o contraste, algo que lembra um pouco a gravura.

Acabava pintando boa parte da cena e da figura com aguadas de nanquim e depois ia construindo as partes de luz com tinta branca, corretivo. Gostei bastante do resultado. Tem sido uma outra forma de pensar desenho e composição. Senti que estava precisando desenvolver outras formas de desenho. Fiquei bem feliz com o resultado, com o que consegui até agora. Não sou um artista eclético, que muda muito de traço de um trabalho para o outro. Mas avalio que o livro Tiodora mostra uma nova fase em relação à composição, ao desenho, às texturas. Me agradou bastante. E claro, tem muita influência de artistas latino-americanos também, como Alberto Breccia e um pouco do José Muñoz.

As minhas lembranças de aula de história no colégio sobre o fim da escravidão são de uma narrativa em torno do movimento abolicionista como uma iniciativa de líderes políticos brancos. Tanto Cumbe, quanto Angola Janta e Mukanda Tiodora reforçam para mim a versão pouco difundida da abolição decorrente muito mais de lutas e empenhos de escravizados e ex-escravizados. Como você vê o contraste entre essas duas “narrativas”?

Em Mukanda Tiodora aparece um pouco o início desse movimento abolicionista, nas figuras do Luís Gama e do Ferreira Menezes e do jornal O Cabrião – com participação do Ângelo Agostini, indiretamente. É sempre importante compreendermos que, nesse período da abolição, houve aí um verdadeiro movimento popular, talvez um dos primeiros e mais importantes no Brasil do século 19, que chegou em grande parte da sociedade. Então nas últimas décadas, a partir de 1870 e 80, a escravidão começa a ficar insustentável.  Há uma grande comoção popular de pessoas que não compactuam mais com esse tipo de regime. Apesar disso, o Brasil, infelizmente, foi um dos últimos países a abolir a escravidão, justamente pelo poder que esses grandes fazendeiros, tinham na manutenção desse sistema e a partir sempre de muita violência.  

Nesse momento temos Luiz Gama, Ferreira Menezes, José do Patrocínio e diferentes levantes negros acontecendo em São Paulo, Minas Gerais, Paraná e outras proximidades. Há uma tentativa de levante, por exemplo, em 1832, em Campinas, que foi organizada por um barbeiro, um tropeiro e centenas de escravizados do interior. 

Enfim, nós temos aí diversos exemplos que mostram que havia um agenciamento, uma luta, muito forte de alguns grupos negros organizados pelo fim do escravismo e pela abolição de fato. Isso influenciou muito para que esse tipo de política acabasse. Não podemos esquecer também que tivemos, no final do século 18 e início do século 19, a revolução no Haiti. Isso causou um temor muito grande dos senhores.

Esse momento do século 19 foi extremamente tenso para quem defendia a manutenção da escravidão, não era algo tranquilo, por mais que no Brasil tenha demorado muito tempo para decretar a abolição. Há inúmeros casos de violência, de revoltas, levantes ou outras formas de negociação empreendidas também por pessoas negras livres que também compunham boa parte da população nas cidades no Brasil a partir de 1850.

Eu queria saber o que mais te interessa hoje no uso da linguagem das histórias em quadrinhos? O que mais te atrai no uso da linguagem das HQs para contar uma história?

Eu ainda quero fazer uma narrativa praticamente sem falas, só com imagens. Eu adoro a possibilidade de contar histórias com imagens, de elaborar novos quebra-cabeças com o desenho, o texto, a composição do layout, símbolos e conceitos. E claro, ainda quero me desenvolver em relação ao meu próprio desenho e à minha forma de contar histórias.

“É relevante trazer novas histórias e outras narrativas para além do universo dos super-heróis e de outras narrativas mais hegemônicas”

Página de Mukanda Tiodora, obra de Marcelo D’Salete publicada pela editora Veneta (Divulgação)

E quais HQs você acha que mais impactaram a produção de Mukanda Tiodora? Aliás, quais autores, artistas e obras de ficção estiveram mais presentes ao seu redor durante a produção desse trabalho novo?

Algumas obras serviram de inspiração. Por exemplo, A Infância do Brasil, do Zé Aguiar; os quadrinhos e as pesquisas do André Toral; o Província Negra, do Kris Zullo e do Kaled Kanour; o livro Avenida Paulista, do Luiz Gê, que inicia falando de uma São Paulo de séculos atrás. Essas foram apenas algumas narrativas que revisitei. E claro, nesse período, diferente do Angola Janga e Cumbe, já tinha à disposição alguns trabalhos em fotografia, de artistas como o Militão Azevedo. Essas fotografias de São Paulo, em 1862 e 1880, foram muito interessantes para compreender o crescimento da cidade nesse período.

A primeira vez que te entrevistei foi em 2013. Na época, você celebrou uma ampliação do “contexto temático das HQs” nacionais, mas disse ainda considerar “pequenas as iniciativas com temáticas mais sociais, que exploram os muitos universos de uma cidade grande a partir de personagens comuns”. Quase 10 anos depois, você vê mais iniciativas do tipo nas HQs nacionais?

Hoje eu percebo mais iniciativas nesse sentido. Mas, claro, é uma impressão. Pude acompanhar um pouco mais disso anos atrás. É relevante trazer novas histórias e outras narrativas para além desse universo dos super-heróis e de outras narrativas mais hegemônicas. Continuo achando que isso é essencial. Não é essencial apenas para falar, vamos dizer assim, de pessoas negras, indígenas, das mulheres e outras condições. É essencial para a própria continuidade das histórias em quadrinhos poderem mostrar todo o seu potencial para grande parte do público. A gente não vai conseguir isso se ficarmos restritos apenas a alguns tipos de formatos e narrativas. O público merece, ele precisa disso, assim como a linguagem dos quadrinhos precisa disso para sobreviver.

Lá em 2017, você me falou que seus 11 anos trabalhando em Angola Janga alteraram o seu “modo de compreender o passado e também o presente, em especial sobre os antigos e novos mocambos”. Você teve alguma lição ou reflexão maior do tipo durante os anos em que passou trabalhando em Mukanda Tiodora?

Mukanda Tiodora é um livro para pensar em São Paulo, cerca de 150 anos atrás. Ele é relevante para repensar os diferentes espaços físicos, e mesmo simbólicos, em São Paulo, e como a cidade se transformou, bruscamente, nesses últimos séculos. 

Página de Mukanda Tiodora, obra de Marcelo D’Salete publicada pela editora Veneta (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Alan Moore (!), autor de Iluminações

Entrevistei o escritor inglês Alan Moore, autor de alguns dos maiores clássicos das HQs mundiais. A nossa conversa teve como ponto de partida Iluminações, coletânea de contos do autor britânico publicada no Brasil pela editora Aleph, com tradução de Adriano Scandolara e capa de Pedro Inoue. O meu papo com Moore é conteúdo exclusivo da edição nacional de Iluminações, logo mais disponível nas melhores livrarias.

Entrevistas / HQ

Papo com Paul Kirchner, autor de Ônibus: “Restrições podem ser um estímulo à criatividade”

Conversei com o quadrinista norte-americano Paul Kirchner sobre Ônibus, série originalmente publicada entre 1978 e 1985 na revista Heavy Metal e lançada em português pela editora Risco (com tradução de Érico Assis). Usei esse papo de base para uma reportagem que publiquei no jornal Folha de S.Paulo. Escrevi no meu texto sobre as origens de Ônibus e a proposta da série, apresentei algumas das experimentações feitas pelo autor e também falei sobre o culto crescente em torno da obra. Você lê o meu texto clicando aqui. Compartilho a seguir, a íntegra da minha entrevista com Paul Kirchner:

“Sempre fui atraído pelo surrealismo, por misturar fantasia e realidade”

Página de Ônibus, obra de Paul Kirchner publicada no Brasil pela editora Risco (Divulgação)

Gostaria de saber um pouco sobre o ponto de partida do Ônibus. Você teve algum momento ou incentivo em particular para começar a desenvolver a série?

No final dos anos 1970, eu queria criar uma história em quadrinhos que pudesse fazer regularmente como fonte de renda. Eu esperava vendê-la para o Village Voice, um tablóide semanal de contracultura publicado no Greenwich Village, em Nova York. Fiz dez tiras como amostra, trabalhando em tamanho grande, duas vezes o tamanho que apareceriam no jornal. O Village Voice recusou, o que foi bom porque eu nunca poderia ter produzido as tiras semanalmente. Levei então para a Heavy Metal, que já havia publicado algumas das minhas histórias. A Heavy Metal comprou. Era útil para eles porque se vendessem um anúncio de meia página, poderiam colocar O Ônibus acima dele.

Você poderia me contar sobre sua rotina de criação do Ônibus? Quero dizer, você teve alguma rotina específica ao produzí-la?

Eu mantenho um arquivo de idéias à medida que elas me ocorrem. Algumas surgem completamente formatadas, prontas para desenhar no papel. Outras são apenas um fragmento de uma ideia que não descobri como fazer funcionar. Eu as mantenho no arquivo e muitas vezes vou descobrir o que elas precisam para funcionar. Eu regularmente pego esse arquivo e folheio para ver se tem alguma coisa que eu possa usar.

O que te motivou a continuar criando O Ônibus? Você teve alguma motivação em particular para continuar produzindo a série? Alguma auto-motivação para continuar produzindo ao longo desses sete anos?

Eu gostava de ter algo que aparecia todo mês na Heavy Metal. As pessoas se familiarizaram com isso e me diziam que era a primeira coisa que procuravam quando recebiam uma nova edição. Parei de produzir as tiras quando a Heavy Metal passou a ser trimestral. Não parecia valer a pena pensar em algo que seria publicada tão raramente. Além disso, no momento em que parei de desenhar, senti que estava sem ideias e estava me ocupando com outros trabalhos de ilustração. Mas quando eu comecei de novo em 2012, novas ideias começaram a vir para mim.

“O desafio é estimular minha mente a continuar pensando em linhas diferentes”

Página de Ônibus, obra de Paul Kirchner publicada no Brasil pela editora Risco (Divulgação)

Você poderia me falar um pouco sobre as técnicas e materiais que você usou em Ônibus?

Embora a Heavy Metal fosse uma revista de tamanho padrão, não um tablóide de grande formato como o Village Voice, continuei a desenhar Ônibus em grande escala. Primeiro, pego uma pequena folha de papel e esboço a ideia para ver se funciona dentro de seis ou oito quadros. Em seguida, faço um esboço grosseiro em papel vegetal, colocando todos os elementos visuais onde quero. Usando uma mesa de luz, traço levemente o desenho no quadro de ilustração. Eu uso papel vellum de três camadas da Strathmore. Aperto o desenho a lápis, coloco todos os detalhes, depois passo por cima com tinta. Para arte-finalizar, eu costumava usar uma caneta com ponta Hunt’s 22 e nanquim Higgins. Agora eu finalizo principalmente com uma caneta-tinteiro Noodler Flex-Nib, com tinta Pelikan 4001, mas ainda uso a caneta para linhas finas. Para preencher áreas pretas, uso uma ponta de letras Speedball FB-4, pois não tenho controle suficiente para fazer isso com um pincel.

Uso luvas brancas de algodão descartáveis ​​enquanto trabalho para que minhas mãos não peguem vestígios de tinta e deixem impressões digitais em outros lugares da página. Esse era um problema real antes de encontrar uma solução. Na minha luva direita, corto o polegar e os dois primeiros dedos para poder segurar a caneta.

Ônibus é muito sobre quadrinhos como linguagem. O que mais te interessava em quadrinhos quando você começou a criar O Ônibus? Qual é o seu principal interesse em quadrinhos hoje em dia?

Sempre fui atraído pelo surrealismo, por misturar fantasia e realidade, especialmente quando posso fazer isso de uma maneira engraçada e absurda. Quando comecei a fazer Ônibus, minhas principais influências eram os quadrinhos underground e os quadrinhos vindos da França, além de artistas como M.C. Escher, Hieronymus Bosch, René Magritte. Muito do surrealismo é inspirado na antiga série de televisão Além da Imaginação e nos primeiros desenhos da Warner Brothers.

De certa forma, Ônibus é uma história em quadrinhos formalista, como Garfield, encaixando uma história em caixas quadradas iguais. No entanto, dentro dessas caixas, gosto de fazer truques com perspectiva, lógica e realidades alternativas.

Para mim, Ônibus é muito sobre as restrições que você impôs a si mesmo ao criar esta série. Qual é a importância para você de se impor algumas limitações para desenvolver seu trabalho?

As restrições podem ser um estímulo à criatividade. Não tenho que pensar em todas as possibilidades concebíveis quando procuro ideias. Algo estranho vai acontecer em uma dessas situações: homem espera ônibus, ônibus chega, homem paga passagem, homem procura lugar, o próprio ônibus anda, algo acontece do lado de fora da janela, homem interage com outro passageiro, homem desce do ônibus.

Descobri que geralmente conseguia encaixar minhas ideias em seis ou oito quadros. Se eu tiver uma grande ideia que exija apenas quatro quadros, ou talvez dez quadros, eu me permitiria fazê-lo, mas essa situação não surgiu.

Claro, fazer uma tira sem palavras (na maioria das vezes, embora algumas tenham legendas) é um desafio em si e que eu gosto.

Às vezes parece que eu usei todas as possibilidades. Mas eu me lembro que se eu desse a tira para outros cartunistas, eles teriam várias ideias novas e diferentes porque suas mentes são diferentes da minha. Então, para mim, o desafio é estimular minha mente a continuar pensando em linhas diferentes.

“Originalmente, pensei em fazer uma história em quadrinhos sobre um taxista que pega passageiros estranhos…”

Página de Ônibus, obra de Paul Kirchner publicada no Brasil pela editora Risco (Divulgação)

O que é o ônibus de Ônibus para você? Ele tem algum significado pessoal para você?

Pegar um ônibus é uma situação muito comum. Todo mundo entende isso. Portanto, é uma situação ideal para introduzir o absurdo e o surrealismo. O viajante é tão sem graça quanto pode ser. Na verdade, ele é um quadro em branco. Não sabemos seu nome, sua ocupação ou para onde ele está tentando ir. O ônibus, que deveria ser um elemento rotineiro em sua vida, sempre cria o caos. Ao mesmo tempo, e acho que isso faz parte do humor, o viajante nunca parece ficar muito chateado ou animado com o que está acontecendo. Ele segue no automático. É a existência dele.

O viajante é ninguém e todos. O ônibus é o ambiente com o qual ele não tem escolha a não ser interagir. O terceiro personagem repetido é o motorista do ônibus. Ele parece frio, antipático, um guarda prisional que nunca sorri. Ele é tão velho e magro, por que ele ainda está trabalhando? Ele é como Caronte, o barqueiro do mito que te leva através do rio Estige?

E o que Ônibus, a série, significa para você? O que esta série representa para sua carreira e sua vida pessoal?

É por Ônibus e Dope Rider que sou conhecido. Ambos os quadrinhos têm leitores, o que é bom para vendas. Cerca de cinco anos atrás, lancei uma nova tira, Hieronymus & Bosch, sobre um homem medieval no inferno. Eu me diverti com ele, mas o livro não vende tão bem quanto aqueles com os personagens pelos quais sou conhecido. Não estou reclamando disso, é assim que as coisas funcionam e estou feliz em continuar essas outras tiras enquanto puder e enquanto houver um público para elas.

Que tipo de retorno você teve de seus leitores enquanto Ônibus estava sendo publicado? Você recebeu muitas perguntas, cartas e críticas sobre isso? Como os leitores da Heavy Metal respondiam à série?

Quando Ônibus apareceu na Heavy Metal, eu recebia muito pouco feedback dos leitores. Não havia mídias sociais na época, mas eu recebia cartas ocasionais de fã. Parece que foi mais tarde, 10 a 15 anos atrás, que chamou muita atenção, quando as pessoas postaram as tiras no Reddit e no Imgur. Naquela época, a coletânea da Ballantine de 1986 estava sendo vendida por US$ 100 na Amazon. Então Claude Amauger, da Editions Tanibis, entrou em contato comigo para ver se eu gostaria de ver as tiras reimpressas novamente. Ele fez um trabalho maravilhoso e a consequência foi o relançamento de Ônibus.

Qual é a sua relação com o transporte público? Você é usuário de ônibus? Que tipo de presença o transporte público tem na sua vida?

Eu tenho muito pouca conexão com o transporte público. Morei em Nova York por cinco anos, mas geralmente pegava o metrô, não ônibus. Eu também dirigi um táxi por alguns meses. Originalmente, pensei em fazer uma história em quadrinhos sobre um taxista que pega passageiros estranhos, mas decidi que um ônibus ofereceria mais possibilidades. Desde meados da década de 1970 moro em uma área rural onde não há transporte público.

“Conheci crianças que amam as tiras e adultos que as consideram incompreensíveis”

Página de Ônibus, obra de Paul Kirchner publicada no Brasil pela editora Risco (Divulgação)

O que você pensa quando seu trabalho é publicado em um país como o Brasil? Você tem alguma curiosidade sobre como um livro que você fez será lido e interpretado em um ambiente tão diferente do seu?

Acho ótimo e espero que os brasileiros gostem do meu estilo de humor. Nem todo mundo faz. Conheci crianças de seis ou sete anos que amam as tiras e as compreendem, mas também adultos que as consideram incompreensíveis. Você não pode apelar para todos. Tenho uma boa impressão sobre o Brasil como uma nação com forte tradição em quadrinhos. Minha graphic novel Assassinato por Controle Remoto foi publicada aí em 1987 [pela L&PM Editores].

Você poderia recomendar algo que você está lendo/assistir/ouvindo agora?

Atualmente estou lendo Memórias, Sonhos, Reflexões, de Carl Jung. Eu nunca o tinha lido, supondo que seria denso e erudito, mas é muito legível e estimulante. Antes disso, li The Twilight World, do Werner Hezog, sobre Hiroo Onada, o soldado japonês que permaneceu escondido na ilha de Luzon por 30 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, uma história que sempre me fascinou. Antes disso, li True Believer: The Rise and Fall of Stan Lee, de Abraham Riesman, que é uma história convincente do homem falho que se autopromovia como o criador do Universo Marvel.

Nos quadrinhos, adoro o trabalho de Jesse Jacobs, particularmente seus livros recentes Crawl Space e They Live in Me. Eu amo a série de quadrinhos de Ben Ward, One Giant Hand, que é publicada online. Recentemente reli todos os álbuns de Philippe Druillet dos anos 1970. Ele foi uma grande influência para mim naquela época e ainda é.

Não tenho muito interesse em filmes de super-heróis, embora tenha gostado de Deadpool, Logan, Capitão América: O Primeiro Vingador e Homem de Ferro. Eu gosto mais das histórias de origem e gosto de super-heróis cujos poderes são mais plausíveis.

Nos últimos anos vi alguns animes que me impressionaram e inspiraram, como Paprika e Perfect Blue, de Satoshi Kon; Redline, de Takeshi Koike; e Ghost in the Shell e Ghost in the Shell 2: Innocence, de Mamori Oshi. Acho os temas e as imagens desses trabalhos muito marcantes e originais.

Você está trabalhando em algum novo projeto em particular agora?

Eu tenho um quadrinho mensal de uma página na revista High Times, Dope Rider. Eu gasto muito tempo tentando ter ideias para isso e fazê-lo do começo ao fim me leva cerca de oito dias. Também estou trabalhando no terceiro volume de Ônibus. O segundo volume teve 48 novas histórias em quadrinhos, então eu tenho que criar pelo menos isso. No momento, tenho 40, com ideias para mais duas, então acho que vou chegar lá. Eu tenho feito as tiras apenas a lápis, pois não tinha certeza se seria capaz de criar o suficiente para preencher um livro e a tinta leva mais tempo do que o lápis. Será uma tarefa e tanto pintar todas essas páginas.

A capa de Ônibus, obra de Paul Kirchner publicada no Brasil pela editora Risco (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Galvão Bertazzi, autor de Vida Besta: Fim do Mundo: “Gosto dos meus personagens vivendo normalmente em todo esse ambiente incendiário e voraz”

Entrevistei o quadrinista Galvão Bertazzi sobre Vida Besta: Fim do Mundo, coletânea recém-publicada pela editora Mino que reúne a leva mais recente de tiras do autor. Desde 2018 ele incorporou à sua produção o caos e o niilismo do governo Jair Bolsonaro e de uma pandemia que já matou mais de 680 mil brasileiros. Transformei esse papo com o autor em matéria para o jornal Folha de S.Paulo. Você lê o meu texto clicando aqui. Compartilho a seguir a íntegra da minha conversa com Bertazzi:

“Comecei a sentir prazer em desenhar os personagens e os cenários pegando fogo”

Tira de Galvão Bertazzi publicada em Vida Besta: Fim do Mundo, da editora Mino (Divulgação)

O que aconteceu em 2018 que te motivou a dar início a esse leva mais recente e apocalíptica da Vida Besta?

Não foi nada racionalmente pensado. Não pensei: ‘agora vou fazer tiras catastróficas’. Acho que foi um caminho natural dos desenhos e das temáticas que já povoavam meu trabalho de tiras.

Mas eu me lembro que certa hora comecei a sentir prazer em desenhar os personagens pegando fogo, os cenários pegando fogo e as ações acontecendo na história como se o desastre fosse a coisa mais natural do mundo. Pode ser que estejamos vivendo assim atualmente, fingindo uma normalidade enquanto a realidade desaba. Como as tiras sempre foram sobre nosso cotidiano, acho que foi natural que enveredasse para um cenário apocalíptico.

As tiras de Fim do Mundo foram publicadas entre 2018 e 2022, do início do governo Bolsonaro aos estágios mais atuais da pandemia. O quanto esse contexto recente da nossa realidade afetou a sua vida?

Eu vivi e senti a tragédia da chegada do atual governo em 2018. Eu vivi e senti a tragédia do início da pandemia em 2020 . Eu vivi e senti o agravante de se estar no Brasil, governado por Bolsonaro com o plus de uma pandemia. Eu desisti de tentar entender e racionalizar o misto de sentimentos, medos, anseios pelos quais fui atropelado nesse período de pré-pandemia, pandemia e pós-pandemia, com a abertura geral de tudo, aglomerações e gente feliz e contente na rua como se não existisse amanhã… 

Minha vida pessoal entrou em colapso e só agora, depois de passada uma gigantesca rebordosa pós-pandêmica estou conseguindo reestruturar um bocado de coisas que se quebraram.

Faz alguns meses que me entreguei às delícias da indústria farmacêutica moderna pra controlar uma ansiedade que saiu completamente do controle e estou adorando! 

Você vê a humanidade realmente caminhando para o fim de sua existência? Você nos vê de verdade mais próximo do fim do mundo?

Não sei se a humanidade vai deixar de existir, não. Seria bom, se acontecesse. Eu tenho tentado pensar num futuro mais brando, onde o atual sistema consumista não se sustente mais, mas sei que isso é utopia juvenil e eu já me enxergo velho e calejado demais pra imaginar um futuro bonito com todos de mãos dadas se respeitando e ajudando mutuamente. 

Mas não duvido da insistência e teimosia da nossa espécie e é capaz que duremos mais uns bocados de séculos, vagando por uma gigantesco pasto ou plantação de soja, carregando respiradores e roupas com fator UV elevado.

“Não tenho mais urgência em publicar diariamente”

Tira de Galvão Bertazzi publicada em Vida Besta: Fim do Mundo, da editora Mino (Divulgação)

Vermelho, laranja e amarelo sempre estiveram muito presentes em seus trabalhos – e casam muito bem com o tom incendiário e infernal de Fim do Mundo. O que te atrai nessas cores?

Acho que é isso mesmo. Essa idéia de urgência incendiária sempre esteve presente na minha paleta, tanto nas tiras quanto nas ilustrações e pinturas. Eu gosto dessa coisa quente e exagerada e como eu falei ali em cima, gosto de colocar meus personagens vivendo normalmente em todo essa ambiente incendiário e voraz.

Fico com a impressão que seu traço, seus desenhos e seus personagens, estão cada vez mais simples e icônicos. Faz sentido para você? Se sim, como essa simplicidade contribui para a construção das suas tiras?

Acho que isso é relativo. Eu não sei se é uma simplicidade. Creio que é mais uma urgência em resolver a ideia mesmo. Minha noção de tempo está meio bagunçada nesse últimos tempos e tenho até produzido menos tiras do que deveria, justamente por isso. Eu gosto de desenhar, pra mim a tira tem muito mais a ver com o desenho do que com o enredo em si e o meu desenho sempre muda. Se você pegar as primeiras tiras e ir acompanhando até os dias atuais, vai notar que devagarinho os bonecos, os cenários vão se moldando até chegar onde está hoje. Provavelmente daqui uns anos, se o mundo não tiver acabado, eu vou estar desenhando de um jeito completamente diferente. 

A sua rotina de produção de tiras mudou muito ao longo dos anos? Desde o começo da Vida Besta, o que mais mudou na sua rotina? É mais fácil para você produzir hoje uma tira do que nos seus primeiros anos da série?

Mudou demais. Alguns anos atrás eu ainda desenhava diariamente com essa ânsia de desenhar, postar e deixar os seguidores verem quase que em tempo real a tira saindo do forno. 

Minhas tiras sempre foram primeiro pra internet do que pra qualquer veículo impresso. Faz anos que não publico em nenhum jornal ou revista e o feedback na internet sempre foi algo que me abastecia. Isso foi mudando. Eu não me cobro mais em ter essa urgência em publicar diariamente, acho que cansei dessa vida via de mão única das redes sociais e internet. Hoje em dia, eu gosto de sentar com mais calma e resolver uma ou duas tiras sem muita pressa e às vezes nem publicar online. 

E em termos de técnica, mudou muito? Quais materiais você usava quando começou a Vida Besta e quais materiais usa atualmente?

Lá no começo eu desenhava muito com caneta, nanquim e lápis de cor e depois escaneava. Mas isso não durou muito. Eu desenho no tablet, desses de formato antigo de mesa, desde o século passado. As tiras e ilustrações se resolvem muito bem pra mim assim, direto no digital. Consigo simular bem meu traço no papel. Ando ensaiando em voltar um pouco pro papel e lápis de cor, mas tô com preguiça. Mas uma hora vai acontecer.

“A realidade tende ao pessimismo”

Tira de Galvão Bertazzi publicada em Vida Besta: Fim do Mundo, da editora Mino (Divulgação)

A minha leitura de Vida Besta me dá a impressão que você é uma pessoa pessimista. Ou pelo menos alguém que se encontra atualmente pessimista. Você é pessimista?

Cara, não me considero pessimista, apesar de muita gente ao meu redor me achar pessimista. Eu tenho 44 anos agora e já vi muita coisa acontecendo e com tempo você consegue perceber que elas são cíclicas, quase que como um padrão. O mundo é pessimista por si, a realidade tende ao pessimismo e acho que é isso que eu retrato nas tiras. Nada impede que na vida real, coisas boas aconteçam e aí você se surpreende e dá valor nessas pequenas coisas. Mas fiquei aqui pensando enquanto digito essa resposta e olha… Acho que sou sim pessimista. E isso é uma merda.

Fim do Mundo reúne sua fase cobrindo a Laerte na Ilustrada quando ela esteve com Covid. Como foi essa experiência para você?

Ah, foi um misto de emoções. Primeiro porque me coloquei uma responsabilidade gigantesca nas costas pra produzir tiras com uma qualidade alta, mas que nem de perto chegaram perto da genialidade da Laerte e isso me aterrou na labuta da produção diária, num jornal que tem tanto alcance como a Folha. Não escondo de ninguém que gostaria muito de publicar diariamente pra Folha e em outra situação eu teria comemorado. Mas o convite de manter o espaço da Laerte funcionando enquanto ela se recuperava do Covid, me deixou meio confuso. Eu não fiz alarde e procurei fazer o meu trabalho da melhor maneira possível, ansiando loucamente para devolver o posto pra Laerte.

O que vem depois do fim do mundo? Você já nos vê saindo do atual cenário apocalíptico que vivenciamos nos últimos anos? O que você aposta para o nosso futuro?

Eu não aposto em nada porque eu sempre perco. Mas quero muito ver essa era Bolsonaro se acabando e que por mais que demore, quero que o legado desse desgoverno fique apenas como uma memória ruim de uma geração meio burra que não soube cuidar de si mesma e nem pensar nas gerações futuras. Mas eu queria mesmo era que meio kg de café voltasse a custar R$5 reais. Tá foda!

A capa de Vida Besta: Fim do Mundo, obra de Galvão Bertazzi publicada pela Mino (Divulgação)


Entrevistas / HQ

Papo com Powerpaola, autora de Todas as bicicletas que eu tive: “Ao andar de bicicletas me permito conhecer o mundo e me conhecer dentro dele”

Todas as bicicletas que eu tive é o terceiro título solo da quadrinista equatoriana-colombiana Powerpaola lançada no Brasil. Antes foram publicados os excelentes Vírus Tropical (Nemo) e QP (Lote 42). Também editado pela Lote 42, com tradução de Nicolás Llano Linares, o novo álbum da autora está entre as minhas melhores leituras no ano.

Entrevistei a artista e transformei esse papo em matéria exclusiva aqui para o blog. Você lê sobre a trama de Todas as bicicletas que eu tive, a produção da HQ e as reflexões de Powerpaola em torno de quadrinhos e bicicletas clicando aqui. Compartilho a seguir, a íntegra da minha conversa com a autora:

“Bicicletas sempre foram minhas grandes companheiras”

Você pode falar um pouco sobre o ponto de partida de Todas as bicicletas que eu tive? Houve algum estímulo em particular para você dar início à criação desse livro?

Na minha cabeça existem alguns livros que eu tenho em mente e que quero fazer nesta vida, depois eles acabam virando outra coisa, mas isso não importa. As bicicletas sempre foram minhas grandes companheiras e principalmente nestes últimos anos da minha vida, por isso era algo que insistia em ser desenhado e escrito. Um dia eu contei à Maitena que estava começando a desenhar uma história em quadrinhos sobre todas as bicicletas que eu havia tido e ela me emprestou um livro da Cecilia Pavón que tinha um conto lindo chamado Todas as bolsas que eu tive e me animou ainda mais a ideia de continuar. Justo naquela época vi que ela estava dando uma oficina de poesia, então entrei em contato e estive na sua oficina durante todo 2020.

Você conta no livro sobre a primeira bicicleta que teve, mas você se lembra do instante em que compreendeu a liberdade que uma bicicleta poderia lhe dar e as novas possibilidades que elas te dariam?

Sim, eu me lembro claramente, tinha 11 anos e vivia em Quito com a minha mãe. Saí para o parque La Carolina com a minha bicicleta e senti que podia trocar de direção e ir ainda mais longe, me perder um pouco pela cidade, fazer o percurso que fazia no ônibus do colégio. Foi maravilhoso experimentar isso. Nunca na minha vida eu tinha ido tão longe sozinha, comprei umas bolachas deliciosas com chips de chocolate na volta e levei para a minha mãe para que não me desse uma bronca por não ter seguido o combinado inicial que era ir até o parque.

Você já viveu em várias cidades e países. A sua relação com bicicletas durante a infância e a circulação permitida por elas influenciaram de alguma forma essa sua vida nômade?

Não sei se foram as bicicletas em si que me influenciaram, mas com certeza foram elas que me permitiram conhecer profundamente as cidades em que vivi. Termino fazendo um desenho com elas nesse labirinto que é a própria vida. 

Mais do que um quadrinho sobre bicicletas, Todas as bicicletas que eu tive me soou mais como uma obra sobre encontros e desencontros proporcionados por movimento/fluxo/circulação. O que bicicletas significam para você?

São o dispositivo que permitem me deslocar em total liberdade, me tornar dona de mim, ir aonde eu quero ir, ir quando eu quero ir, o mais parecido com a felicidade e a independência. 

Tem uma fala no início do livro que você diz: “Quando você desenha e escreve, compreende os eventos que acontecem na vida”. Os seus quadrinhos são relatos muito pessoais em primeira pessoa de várias experiências da sua vida. Qual a importância que desenhar e escrever tem na sua vida? Além do aspecto profissional e financeiro, como fazer quadrinhos contribui para a sua compreensão da sua vida?

O desenho e a escrita têm me ajudado a inventar meu próprio universo, a me relacionar com os demais, a estar imersa no fazer, me apropriar da vida, da minha vida, e é parecido com andar de bicicleta, eu decido aonde eu quero ir, me permito conhecer o mundo e me conhecer dentro dele. 

“Sempre me proponho usar técnicas diferentes em cada livro”

Página de Todas as biciletas que eu tive, obra de Powerpaola publicada pela Lote 42 (Divulgação)

Imagino que sejam tempos estranhos para pessoas nômades como você. A pandemia limitou a nossa circulação e há um conservadorismo crescente ao redor do mundo, muito simpático a fronteiras e contrário ao fluxo de pessoas. Como você viveu os últimos anos?

Tem sido os anos mais difíceis da minha vida, mas meus amigues, o desenho e a bicicleta têm me sustentado. Me salvaram.

Eu tenho algumas curiosidades em relação aos aspectos técnicos desse seu novo trabalho. Ele me parece muito mais pensado e elaborado, exigindo mais reflexões, do que que o QP, por exemplo. Você chegou a fechar um roteiro antes de começar a desenhar? Você teve alguma rotina ou método de trabalho em particular para esse livro?

Claro que sim, menos mal! O tempo passa e a prática faz com que a gente melhore (espero).

QP eram quadrinhos que eu fiz enquanto aprendia a fazer quadrinhos (2006-2012). Em geral eu não trabalho com um roteiro prévio, sei que isso seria o correto, mas me entedia profundamente. Eu não faço quadrinhos para sobreviver economicamente, mas sim emocionalmente, e parte de me perder e experimentar com o texto e a imagem tem relação com esse prazer. Este livro foi o que me deu mais trabalho, já que fiz muitas coisas ao mesmo tempo: fiz todos os desenhos do filme Vírus Tropical, um livro chamado Terra Larga com Pablo Besse, onde assinamos como No tan parecidos; e ainda tinha que trabalhar como ilustradora. No meio tive um acidente, padeci uma doença… Então não tive rotina, fora encontrar a maneira de fazer o livro e terminá-lo. Estive em várias oficinas de escrita e no final consegui terminá-lo numa residência em Tigre (cidade da Argentina), fui desenhar e escrever sozinha durante uma semana no meio do Delta sem internet, somente assim consegui chegar ao fim. 

E você pode me falar, por favor, um pouco sobre suas técnicas? Quais materiais você usou? Houve algum elemento novo em relação aos seus trabalhos prévios?

Sempre me proponho usar técnicas diferentes e novas em cada livro, técnicas que tenham relação com a história e a narrativa. Por exemplo, fiz este livro todo com tintas preta, amarela e vermelha, algo completamente novo para mim, queria que fosse como se a bicicleta tivesse pisado uma poça cheia de lama e tivesse desenhado tudo com os pneus. 

Eu fiz Vírus Tropical com rotring, que era algo que vinha usando e podia contar tudo sem medo de errar e precisava algo de consistência e clareza ao contar todas essas histórias. QP eu fiz com técnicas diferentes, como te contei antes, foi minha maneira de aprender a fazer quadrinhos, então testei tudo. Em Todo va a estar bien desenhei com lapiseira 0.3, queria que fossem histórias mais lentas e queria ir devagar, me deter a observar e o leitor também. E em Nos Vamos, foi um diário de viagem e me propus a usar uma cor diferente em cada país que visitava. 

“Gosto muito das pessoas que experimentam com a linguagem”

Página de Todas as biciletas que eu tive, obra de Powerpaola publicada pela Lote 42 (Divulgação)

Você fez uso de cores em algumas páginas pontuais de  Todas as bicicletas que eu tive, mas trata-se de um livro quase todo em preto e branco – assim como QP. Você pode me falar um pouco, por favor, sobre a sua relação com o preto e branco? Como você acha que o preto e branco contribui para as suas histórias?

QP na verdade tem cores, mas imprimir um livro colorido é muito caro. Fazer uma história requer de muito tempo, reclusão e paixão. Eu adoraria fazer um quadrinho totalmente colorido, mas se em preto e branco eu demoro aproximadamente quatro anos, não consigo imaginar quanto demoraria em fazer colorido. Além do mais, os livros terminam ficando muito caros e eu quero que um adolescente possa comprar. De toda forma, minha grande influência é o comic underground dos anos 90, com muitos detalhes e feitos todos em preto e branco, adoro o que dá para criar com pouco. 

O que mais te interessa hoje em termos de quadrinhos, tanto como autora quanto como leitora?

Gosto muito das pessoas que experimentam com a linguagem do comic em todo sentido, gosto das boas histórias e um desenho que também esteja me contando algo mais, que tenha uma linguagem própria e não se pareça aos demais. 

Qual sua memória mais antiga relacionada aos quadrinhos?

Meu pai me passando as tirinhas do jornal em Quito aos domingos de manhã. Especialmente Calvin e Haroldo, Mafalda, Garfield e Periquita.

Você poderia me dizer o que você mais gostou de ler, assistir e ouvir no momento?

De quadrinhos: Mouse in Residence de Anna Haifisch e Inframundo de China Ocho. Vendo: Um concerto de Helado Negro e outro de Das Flüff. Mas especialmente viajar de bicicleta com meu amigo Joris pela Alemanha.

Você está trabalhando atualmente em algum projeto específico?

Sim, sempre estou trabalhando ainda que não esteja trabalhando. Justo estava numa residência de literatura em Berlim (LCB) trabalhando em algo novo, mas ainda está em processo de pesquisa, então prefiro não falar muito disso.

Página de Todas as biciletas que eu tive, obra de Powerpaola publicada pela Lote 42 (Divulgação)