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Papo com Ciro Inácio Marcondes, autor de ZIP – Quadrinhos & Cultura Pop: “O novo só vem se olharmos adequadamente ao passado”

ZIP – Quadrinhos & Cultura Pop (Editora Metrópoles) é o primeiro livro do crítico e pesquisador Ciro Inácio Marcondes, um dos editores do blog Raio Laser. Uma das principais referências nacionais em termos de reflexão sobre histórias em quadrinhos, Marcondes reuniu na obra 70 dos principais textos da coluna homônima ao livro publicada durante três anos no portal brasiliense Metrópoles. A obra não se limita a tratar de HQs, mas quadrinhos são o principal foco de suas 352 páginas.

Fui leitor assíduo de Marcondes ao longo de seu período publicando a ZIP, assim como sempre acompanhei o trabalho dele no Raio Laser – inclusive mediei a edição especial do podcast Lasercast celebrando o aniversário de 10 anos do blog, já ouviu? Por isso ressalto a importância da coletânea da ZIP não apenas por seu registro da história recente dos quadrinhos lançados no Brasil, mas principalmente pelas ideias e análises singulares apresentadas por seu autor.

Bati um papo com Marcondes sobre ZIP – Quadrinhos & Cultura Pop. Entre outros temas, falamos sobre o ponto de partida da coluna, a edição do livro, a relação de quadrinhos com outras linguagens, a crítica brasileira especializada em HQs e os principais focos de interesse dele hoje em termos de gibis. Conversa bem legal, saca só: 

“O projeto ZIP certamente foi bem além do que eu havia despretensiosamente imaginado no início”

O livro ZIP é uma coletânea dos textos da coluna ZIP, que você publicou no Metrópoles durante três anos. O Metrópoles é um site de grande circulação e alcance. Você pode contar, por favor, como surgiu a coluna? Qual foi a encomenda feita a você para a coluna?

Quando comecei a ZIP em 2017, já fazia a Raio Laser desde 2011. E a Raio Laser era um blog (ou espécie de revista eletrônica), como é até hoje, que buscava pensar quadrinhos de forma ampla e aprofundada na medida do que fosse possível. Mas a Raio era conhecida também sobretudo por ser de autores de Brasília (por exemplo eu, Pedro Brandt e o Lima Neto), que cobria bastante a cena local. E talvez nem todos saibam, pois hoje o Metrópoles é nacional, mas ele fica sediado em Brasília. Eu dou aula em cursos de Comunicação aqui no Distrito Federal há mais de 10 anos, e venho de uma família de jornalistas. Então conhecia bastante gente que trabalhava no Metrópoles, incluindo ex-alunos meus, entusiastas do meu trabalho na Raio Laser. Daí tive a ideia de propor uma coluna (ou um dos “blogs”, que existem até hoje) que fosse uma espécie de “Raio Laser light”. Pra quem conhece a Raio, sabe que a gente faz um trabalho de texto muitas vezes inviável para qualquer meio mais comercial ou de grande alcance. Textos muito longos, às vezes muito idiossincráticos ou acadêmicos. Então propus a eles que fosse uma coluna voltada mais aos fenômenos mainstream da cultura pop (tipo super-heróis, séries, desenhos animados), com tom mais iniciático, porém sem perder o rigor que sempre me coube nos meus outros trabalhos. Essa era a proposta inicial, que foi acatada. Na medida em que a coluna foi evoluindo, no entanto, acabei mudando um pouco o escopo e adensando as análises. 

E como foi para você a experiência de levar a ZIP ao longo desses três anos? O fato de ser uma coluna em um portal noticioso, sobre generalidades, determinou de alguma forma o conteúdo dos seus textos e a sua escrita?

A experiência foi excelente, eu diria que a melhor possível. Às vezes me pegava pensando “devo ser um dos únicos caras do Brasil que de fato tem um salário pra escrever semanalmente sobre quadrinhos”, o que me deixava bastante surpreso. Eu escrevo em sites, sobre coisas diversas (como cinema, música, etc.) desde o início dos anos 2000, e sempre tive muita disposição pra esse negócio de texto, coluna, opinião, etc. Foi por isso que fundei a Raio Laser. Como eu disse na resposta anterior, a ZIP acabou se transformando com o tempo, foi ficando mais “quadrinhos além” (como é o lema da Raio), mas isso não significa que eu não fosse limitado pela natureza jornalística do Metrópoles. Meus textos eram editados, muitas vezes cortados, quase todos os títulos que eu dava eram trocados, e às vezes eu era simplesmente pautado. Eu entendia que esse era o processo de qualquer redação jornalística, então não chegava a ser nada traumático. Também, como sou professor universitário, muitas vezes meu tempo ficava muito curto, e eu tinha que escrever esses textos na pressão de uma ou duas horas. O livro resgata os textos tal que eu os concebi originalmente, e eles são ampliados por notas de rodapé.

Os textos do Ciro pesquisador não são os mesmos do Ciro da Raio Laser, que também são diferentes do Ciro da ZIP. É fácil para você transitar nesses diferentes ambientes? Você consegue ligar e desligar com tranquilidade a chave para cada “modo Ciro” de escrita em função dos espaços que está ocupando e do que você está se propondo a fazer?

Como eu disse, escrevo desde muito cedo. Há ainda outros modos, como “Ciro escritor”, “Ciro poeta”, etc. Uma coisa que está na minha tese de doutorado é que cada forma de pensar é uma frequência na mídia invisível da razão, e eu tenho plena consciência de que preciso mudar essas frequências quando devo escrever em outro registro intelectual. Um texto para a Raio Laser é rigoroso, mas é uma navegação longa e sem muitas interrupções de um “superego”, digamos assim. Ali eu escrevo absolutamente tudo o que quero, em termos de estilo e conteúdo, sem me preocupar com mais nada. Na ZIP eu tinha uma série de limitações, como tamanho (me pediam no máximo 1,5 páginas, mas eu quase sempre ultrapassava), a popularidade do tema, a clareza na comunicação, etc., mas eu sempre procurei usar isso como obstruções úteis, justamente para testar essas outras frequências. Já um texto acadêmico é uma espécie de edifício intelectual que você constrói, extremamente rigoroso, lapidado obsessivamente, e submetido a muitos critérios.

Acho que filmes, quadrinhos, desenhos animados, livros, música e arte fazem parte da mesma família

Estudos de Pedro D’Apremont para a capa de ZIP – Quadrinhos & Cultura Pop, de Ciro Inácio Marcondes (Divulgação)

A coluna e o livro são principalmente sobre quadrinhos, mas não exclusivamente sobre quadrinhos – e acho que isso reflete um pouco do interesse público crescente em HQs e da percepção de quadrinhos como parte da indústria do entretenimento. Como você vê essa mudança de olhares leigos em relação aos quadrinhos? Aliás, você vê essa mudança?

Quadrinhos sempre fizeram parte de fenômenos transmídia, isso não é nenhuma novidade. Aliás, estou saindo agora para fazer um pós-doutorado em que vou procurar verificar como ocorriam estas interfaces ainda no final do século XIX e começo do século XX. De que maneira quadrinhos e cinema, por exemplo, já se comunicavam diretamente no nascedouro das formas modernas destas mídias? Séries, por exemplo, não são novas: já eram exibidas nos cinemas na década de 1910, e eram muito populares. Escrevi muito sobre as incríveis séries fantásticas de Louis Feuillade na minha tese de doutorado. Acho também que as pessoas perderam um pouco a noção da popularidade que alcançavam por exemplo aquelas séries antigas do Flash Gordon, Superman do George Reeves, etc. Portanto, acho que, mais do que uma mudança, há um continuum, que se exponenciou com as proporções colossais que a indústria do entretenimento alcançou na era do neoliberalismo, dos grandes conglomerados de mídia. Porém, eu particularmente não gosto de pensar as coisas de forma compartimentada. Imagem e texto são coextensivos. Acho que filmes, quadrinhos, desenhos animados, livros, música e arte fazem parte da mesma família.

Quando e como surgiu a ideia para o livro? Qual foi o seu filtro para os textos que entrariam e ficariam de fora da edição? Como foi o processo de edição do livro?

Chega a ser irônico, porque, afinal, a coluna foi cancelada em 2019, mas eu e o Pedro Brandt (da Raio Laser) achávamos que, no final das contas, um material rico tinha emergido da ZIP, e sabíamos que o Metrópoles tinha um editora nova interessada em publicar material dos autores do próprio portal. Então, propusemos isso ao Luiz, editor-chefe, e colocamos o Pedro Brandt como coeditor. Acho que vendemos bem o peixe, porque o projeto foi aceito, mas tocado um tanto lentamente. Lá se vão dois anos desde que começamos a trabalhar no livro. O principal filtro para selecionar os textos era o texto em si. Se ele não tivesse uma certa graça (às vezes literalmente), ou não fosse uma análise bacana, bem refinada, acho que não valia a pena. Era preciso que o livro mantivesse a intenção de ser iniciático, para o leitor novo (intenção que havia na coluna), mas também que minhas marcas enquanto crítico se mantivessem. Muitos textos eram pautas quentes, entrevistas, etc., e tudo isso foi limado. Textos de fraca inspiração, ou que fossem sobre um assunto muito local ou desinteressante, também saíram. Depois, com os 70 textos selecionados, pensamos que eram tantos gêneros, movimentos e autores, que valia a pena tentar costurar algum tipo de narrativa, tirá-los de ordem cronológica, refazer tudo em um sentido mais livresco mesmo. Daí veio a divisão em seis capítulos, e escrevi uma introdução especial para cada um deles.

“O que mais me interessa em termos de quadrinhos hoje é o passado”

Estudos de Pedro D’Apremont para a capa de ZIP – Quadrinhos & Cultura Pop, de Ciro Inácio Marcondes (Divulgação)

Você pode falar um pouco, por favor, sobre a concepção da capa do livro? O Pedro D’Apremont é um colaborador de longa data da Raio Laser. Por que chamá-lo para fazer a capa do livro? Qual foi a encomenda que você fez a ele para essa arte? Como foi a dinâmica entre vocês até chegar na arte final?

Conheço o Pedro D’Apremont desde 2013, quando fui seu professor na disciplina “Oficina de Histórias em Quadrinhos” na Faculdade de Comunicação da UnB, quando fiz estágio docente lá. Curiosamente nesta mesma turma estavam outros quadrinistas que hoje têm dimensão nacional, como Lovelove6, Lucas Marques e Diana Salu. Fiz muitos amigos nesta turma, e Pedro foi um deles. É um cara inteligentíssimo, que me apresenta inúmeras referências legais de tudo quanto é tipo de coisa, e me coloca num outro radar. Além disso, é um artista que evoluiu, digamos, gargantuescamente nestes anos. Ele é um mestre em processar suas referências sem que elas transpareçam ou pareçam cópias de outras coisas. Acho o estilo dele o mais, digamos, “cool” do quadrinho brasileiro atual. Seu traço tem uma pegada que lembra os indie comics americanos, mas ao mesmo tempo é bem brasileiro, e bem brasiliense. Tipo uma mistura de Daniel Clowes com black metal e uma pitada de Legião Urbana (foi mal Pedro!). O desenho dele tem essa coisa esperta e “low profile” que faz parte da cultura daqui de Brasília. Acho que combina com meus projetos. Ele ilustrou camisetas nossas, o banner atual da Raio, inúmeros cartazes, etc.

Para a capa do livro, primeiro eu pedi pra ele pensar livremente, que tivesse suas próprias ideias, a partir do que entendia do projeto. Ele pensou muitas coisas loucas, e fez vários rafes. Cada ideia parecia melhor que a outra, e foi difícil chegar nessa capa final. Lembro que ele sugeriu uma ideia que parodiava a clássica capa “elétrica” da Zap comix, só que comigo como personagem, e escrito “ZIP”. Em outra, ele propôs desenhar o Ignatz (do Krazy Kat) tacando um tijolo na minha cabeça, com a onomatopeia “zip”, que era típica desse quadrinho, como título. Genial! Creio que a capa final, com esse aspecto meio “Steve Ditko”, foi coletivamente pensada por mim, por ele e pelo Pedro Brandt. Muita coisa nessas concepções depende de com sai no rascunho, e lembro que desde sempre o rascunho da capa final nos impressionou muito: dava pra demonstrar a introspecção do trabalho, botar uns easter eggs, revelar meus malditos vícios, etc. Sou muito grato ao Pedro D’Apremont porque ele teve de retrabalhar essa capa milhões de vezes.

E como foi a sua experiência concebendo e desenvolvendo o livro? Qual balanço você faz desse “projeto ZIP” (entre o início da coluna e a publicação do livro)?

Esse é o meu primeiro livro. Estou muito feliz com ele. Foi extremamente trabalhoso chegar ao resultado final especialmente porque, além de tocar a Raio Laser, o Lasercast e participar de projetos em cinema e quadrinhos, eu sou professor universitário. E este é um trabalho que consome muito tempo e energia, e é um trabalho de imensa responsabilidade. Então o projeto do livro foi sendo gestado lentamente, quando dava, mas ele acabou sendo acelerado nos últimos meses justamente porque eu precisava lançar antes de sair do Brasil, no começo de setembro, para fazer esse pós-doc. O projeto ZIP certamente foi bem além do que eu havia despretensiosamente imaginado no início. Não posso reclamar, é uma grande alegria deixar alguma contribuição ao mercado editorial de quadrinhos do Brasil. O que eu aprendi com ele é isso que aprendo em quase todos os meus projetos: sementes plantadas lá atrás germinam coisas bonitas lá na frente. A vida é um jogo de paciência. Requer, ao mesmo tempo, uma combinação de planejamento e aleatoriedade, de foco, rigor, e espontaneidade, despretensão. Mas ei! Quem disse que o projeto acabou? Talvez haja mais novidades… 

Você já escreve e pesquisa sobre quadrinhos há alguns anos. O quanto o seu interesse sobre HQs mudou ao longo dos anos? O quanto o seu foco de estudos e interesses mudou do início de sua vida profissional/acadêmica com HQs até os dias de hoje? O que mais te interessa hoje em termos de histórias em quadrinhos?

Quando lancei a Raio Laser em 2011, achava que o conteúdo sobre quadrinhos na internet era essencialmente jornalístico, muitas vezes amador. Não que eu não fosse também amador, mas o slogan “quadrinhos além” servia pra gente procurar pensar os quadrinhos como fenômeno cultural complexo, de dimensões filosóficas, estéticas, sociológicas, etc. Terminei meu mestrado em 2008, e estava empolgado em empregar algumas coisas que havia aprendido nessa pesquisa (no caso, sobre cinema) também nessa função de escrever crítica de quadrinhos. Daí veio uma multidão de textos loucos  e erráticos, muitas vezes equivocados (outros ainda hoje certeiros), sobre quadrinhos e diversas outras coisas: filosofia, filmes, livros, etc. Sempre pensei a mim mesmo como um cara muito transdisciplinar. Tanto que eu me formei em Letras, fiz mestrado em literatura, doutorado sobre cinema, dou aula na Comunicação e tenho um livro sobre quadrinhos. Quem conhece minha trajetória como professor e pesquisador sabe que a coisa sobre a qual mais escrevi na vida foi cinema mudo. Então essas flutuações são sempre assim, e me interessam que sejam assim. Esta nova pesquisa de pós-doc tenta juntar tudo: comunicação, filosofia, cinema mudo, quadrinhos antigos, etc. E, como sempre, o que mais me interessa em termos de quadrinhos hoje é o passado. Ali é que está a verdadeira fonte da juventude. Num Pogo, num Li’l Abner, num Little Orphan Annie, num Bécassine, Les Pieds Nickelés, etc. Tenho lido os livros do Töpffer, absolutamente encantado. Aquilo ali já era romance gráfico! Se em algum momento pensarmos que os quadrinhos se estagnaram, basta voltar ao começo, às comic strips. Ali havia tantas invenções que a gente até se esquece de grande parte delas. Defendo isso também para o cinema, para a literatura, para a música, etc. O novo só vem se olharmos adequadamente ao passado. A prática da arqueologia das mídias.  

“A crítica e o jornalismo estão submetidos a uma lógica perversa, que é a das condições dadas para que os algoritmos deem visibilidade à sua produção de conteúdo”

Qual balanço você faz da crítica, do jornalismo e da produção de conteúdo especializado em quadrinhos no Brasil atualmente? Sei que é uma pergunta bem abrangente e generalista, mas você consome muito conteúdo sobre histórias em quadrinhos? E você gosta do que lê/ouve/assiste?

Olha, certamente está bem melhor que em 2011! Com certeza ainda somos muito pequenos, em qualquer dimensão que se olhe. Gravamos um Lasercast sobre isso com o Alexandre Linck, do Quadrinhos na Sarjeta, que tem uma entrada muito legal tanto com o público acadêmico, quanto com o público geral de quadrinhos, e discutimos muito os paradoxos da circulação de quadrinhos no Brasil hoje. Há muitos canais de Youtube e contas no Instagram, mas eu diria que 90%, não importa o público, não acrescentam nada aos seus ouvintes. A crítica e o jornalismo estão submetidos a uma lógica perversa, que é a das condições dadas para que os algoritmos deem visibilidade à sua produção de conteúdo. Uma lógica utilitarista, vinculada a uma mecânica de monetização e a uma autoexposição quase pornográfica da figura do jornalista, do crítico ou do youtuber. O texto, o conteúdo em si, importa menos que uma performance direcionada a uma sistemática de cliques que sabemos ser robótica e viciante. Além disso, há a perda do texto, que acho muito grave. Nossa sociedade foi estruturada na linearidade proposta pela lógica textual. A quebra desse paradigma com a digitalização de tudo tem ainda consequências imprevistas, mas não me parece estar indo num caminho legal, já que parecemos estar dando nossa intimidade de graça para corporações despidas de humanidade e que parecem oferecer muito pouco, socialmente, em troca. O texto é uma modalidade muito rica e complexa de pensamento (e é ridículo ter de ressaltar uma obviedade dessas), e perdê-lo, eu acho, leva a uma reação em cadeia de desinformação e suspeição em relação à realidade.

Mesmo assim, eu consumo sim muito do que é produzido em termos de circulação de informação sobre quadrinhos no Brasil. Há canais que fazem um grande serviço, como o próprio Quadrinhos na Sarjeta, o Ilha Kaijuu, o Formiga Elétrica, o Pipoca e Nanquim, etc. Sinto falta de uma tradição textual que já tivemos academicamente, ou mesmo de jornalistas que coloquem a crítica de quadrinhos dentro da chave da crítica cultural, como aqui no Brasil faz o André Forastieri em relação à música, ou o falecido Cid Nader fazia em relação ao cinema. A crítica como produção cultural. É por isso que valorizo muito o trabalho do Vitralizado, do Érico Assis, do Thiago Borges, do Ticiano Osório, do pessoal do Balbúrdia. Ou o de revistas como Plaf, Banda e Mina de HQ. Cada um desses, com suas iniciativas (muitas delas heróicas) faz resistir isso que acho que está sendo trocado por outra cultura, muito videográfica e digital, que tem proporções maiores, mas cujos resultados ainda são incertos para a cultura de quadrinhos e para o crescimento da mídia.

Você pesquisa e dá aulas sobre quadrinhos, tem um blog e um podcast sobre HQs e agora está publicando um livro. O que você ainda planeja fazer relacionado a quadrinhos que ainda não teve oportunidade para fazer?

Ora, essa é fácil! Fazer meus próprios quadrinhos! Eu não desenho, mas vivo bolando ideias de histórias, geralmente coisas meio megalomaníacas que envolvem surrealismo jodorowskyano, ficção científica subversiva e algumas coisas moralmente ultrajantes. Tem uns três romances gráficos na minha cabeça. Vamos se algum dia encontro uma pessoa louca o suficiente pra embarcar nessa comigo. Na minha adolescência eu escrevia muitos contos, e tem ali ainda algumas ideias que podem passar por um “revamp” e ficarem mais legais.

Qual a memória mais antiga da presença de quadrinhos na sua vida?

As minhas memórias mais antigas, curiosamente, estão associadas à minha própria produção infantil. Como eu era uma criança introspectiva, passava horas e horas de meus dias, durante anos, fazendo quadrinhos. Isso desde que eu tinha uns 7 ou 8 anos. Eram histórias bastante engraçadas, bem surtadas, de um jeito ao mesmo tempo cotidiano e surrealista, sobre dois irmãos extremamente idiotas e paspalhos. Desde pequeno sempre apreciei um humor muito sarcástico. Desenhar aquilo era a minha vida. Ninguém lia, mas a gente se envolvia naquela potência solipsista infantil. Foram anos de plena realização artística, que nunca precisei mostrar pra ninguém e nem dar continuidade enquanto adulto. Tudo se resolveu ali naquela prática que depois se transmigrou para outras coisas. Tem um texto sobre isso no livro, e é o meu favorito de todos.

A capa de ZIP – Quadrinhos & Cultura Pop, com arte de Pedro D’Apremont (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Joe Sacco, autor de Palestina: “O que os palestinos têm a favor deles, além de sua própria humanidade?”

Entrevistei o quadrinista e jornalista maltês Joe Sacco. O foco da conversa foi o relançamento de seu mais conhecido e celebrado trabalho no Brasil, o clássico Palestina, pela editora Veneta. A obra retorna às livrarias nacionais às vésperas do aniversário de 30 anos da viagem do autor ao Oriente Médio que serviu de base para a produção da HQ. Transformei essa conversa com Sacco em matéria para o caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo.

Compartilho agora a íntegra da minha entrevista com o artista. Conversamos por vídeo, com ele falando de sua casa em Portland, no estado norte-americano do Oregon.

Sacco refletiu sobre os 30 anos de Palestina; falou sobre o impacto da ascensão de líderes de extrema-direita no recrudescimento da ofensiva de Israel contra os palestinos; apontou paralelos entre o roubo de terras na Palestina, no Canadá e no Brasil; analisou os 10 anos da Primavera Árabe; e contou um pouco sobre o livro que está desenvolvendo sobre os Rolling Stones. Entre outros temas.

Recomendo a leitura de todos os títulos de Sacco. São grandes quadrinhos e excelentes reportagens. Leia (ou releia) a nova edição de Palestina, também o meu texto para a Folha e confira a íntegra da minha conversa com o autor:

“Israel serve a um propósito na dinâmica do poder, no contexto colonial”

Quadro de Palestina, HQ de Joe Sacco (Divulgação)

Palestina está sendo relançado no Brasil 21 anos após sua primeira publicação e 30 anos após o início da série nos Estados Unidos. Você vê muitas mudanças no conflito entre Israel e Palestina do início dos anos 1990 até o nosso presente?

Acho que piorou. É uma coisa muito infeliz de se dizer, mas acho que o livro Palestina ainda tem sua relevância porque a ocupação continua. Mas eu diria que tudo aumentou: o nível de violência aumentou, o número de colonos aumentou, e a ocupação se fortaleceu. E temos visto muitos indícios disso. As demolições de casas estavam acontecendo quando eu estava lá e estão se intensificando. Portanto, as pessoas ainda estão sendo expulsas de suas terras, e eu acho que o projeto final de remover os palestinos ou separá-los de alguma forma de suas terras continua.

Você vê algum impacto da ascensão recente de líderes de extrema-direita nos debates e no desenrolar dos conflitos entre Israel e Palestina nos últimos anos?

Muitos destes líderes de direita também são apoiadores ferrenhos das políticas israelenses. [Donald] Trump, obviamente, fez o que muitos presidentes norte-americanos falavam… Quando se está falando sobre o contexto norte-americano, quase todos os políticos apoiam bastante Israel e vão apoiar as políticas israelenses, e vão dizer exatamente as mesmas coisas. Trump apenas empurrou a coisa para onde já estava indo de qualquer maneira. Pode-se dizer que ele foi mais grosseiro ou mais brutal ou o que seja, mas também pode-se dizer que ele representa algo que é verdadeiramente norte-americano e estava sempre indo nessa direção. Bolsonaro também é um amigo de Israel; Modi [Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia] é um amigo de Israel; Orbán [Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria] é um amigo de Israel; talvez Erdogan [Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia] nem tanto; mas sim, é uma ascensão da direita e a ascensão de certa brutalidade na política. E isso sempre me faz pensar que, no contexto dos Estados Unidos, o período de, digamos, o início dos anos 1970 até meados dos anos 1980 foi uma espécie de bolha em que vivemos. Achamos que as coisas iam ficar mais tranquilas. Políticas públicas tendiam a ajudar mais as pessoas. E acho que estamos vendo algo diferente agora. Acho que vivíamos em uma bolha naquela época, e agora estamos apenas vendo a realidade do poder, como o poder se expressa e certamente como o poder tem se expressado no contexto de Israel e Palestina. Quero dizer, o que os palestinos têm? O que eles têm a favor deles, além da humanidade deles? A humanidade deles simplesmente não funciona neste contexto, ou certamente não funciona com aqueles que estão no poder. Israel cumpre certas funções para os Estados Unidos. Israel meio que se colocou no papel, como Biden disse, de basicamente ser nosso porta-aviões no Oriente Médio. É um aliado dos Estados Unidos. Quero dizer, não é apenas o lobby aqui, ou o forte apoio dos cristãos evangélicos. Claro, tem muito a ver com isso. Mas na verdade tem a ver com o fato de que Israel serve a um propósito na dinâmica do poder, no contexto colonial.

“Há aspectos do poder que sempre vão atuar contra pessoas que pensam nas coisas de uma maneira mais ampla”

Página de Palestina, HQ de Joe Sacco (Divulgação)

Já vi o seu trabalho descrito como humanitário. E nesse contexto atual de ascensão da extrema-direita e de toda essa brutalidade que você mencionou, vejo um predomínio de tudo que compreendo como oposto de humanitário ou humanista. Enfim, você vê alguma causa em particular para a ascensão dessas lideranças de extrema direita?

Essa é uma grande questão. Não tenho certeza se estou totalmente qualificado para respondê-la, mas diria que muita gente está sendo deixada para trás, e posso falar sobre o que conheço melhor, que são os Estados Unidos. Talvez se aplique a outros contextos, como até mesmo o seu. Mas nos Estados Unidos temos esse tipo de conceito liberal de que todos serão ajudados, todos serão puxados para cima. Você vai conseguir o seu plano de saúde, você vai conseguir isso, você vai conseguir aquilo. E na verdade, não tem funcionado assim. Se você olhar para as cidades norte-americanas – eu moro em Portland, Oregon, e o establishment aqui é totalmente democrata. Não é um establishment republicano. Está muito à esquerda ou é assim que eles se representam. Muito progressista, sabe, mas eles são muito brutais com as pessoas em situação de rua ou sem moradia. A polícia aqui é muito violenta. E, sabe, muitas pessoas estão realmente excluídas desse papo liberal. Elas estão realmente do lado de fora. E acho que foi isso que aconteceu nos Estados Unidos. Se você for para o meio dos Estados Unidos, os lugares estão fechados com tábuas. Não há empregos. A única comida é fast food, fast food gorduroso. Você tem que dirigir 45 minutos até um Wal-Mart, ou uma dessas grandes redes de lojas, para conseguir vegetais de qualquer tipo, e não os melhores vegetais, sabe. Então, é como se muitos lugares tivessem ficado para trás enquanto ouvíamos coisas como a retórica elevada de Barack Obama, sabe, como se tudo estivesse ótimo.

E no meu contexto em Portland, com meus amigos progressistas, tudo parece muito bom. Mas a realidade é que, para muita gente do lado de fora, não tem sido bom e elas são ignoradas e demonizadas, eu diria, pela mídia progressista. Eu não vou justificar a direita de forma alguma, mas há muitas pessoas que, se tivessem sido ajudadas, ajudadas de verdade, e se simplesmente não tivessem ouvido tanta retórica… Talvez as coisas fossem um pouco mais fáceis, um pouco mais tranquilas neste país, mas não são, porque muitas pessoas perderam suas casas. Muitas pessoas não têm emprego. Os salários são muito baixos. E um demagogo como Trump atrai essas pessoas, porque embora ele seja um milionário e nada parecido com essas pessoas, e provavelmente as deteste a portas fechadas, ele fala a língua delas. E acho que é o que funciona agora. Sabe, sobre o contexto brasileiro, não sei. Quero dizer, você olha para alguém como Bolsonaro, você nem consegue imaginar que alguém assim conseguiria chegar ao poder. Mas se você olhar para o que aconteceu com Dilma e Lula, eles foram tirados do poder. Não sei se você quer entrar na política brasileira…

Sim, claro. E eu concordo com você.

Sim. Quer dizer, eles [políticos de direita] jogam bem pesado. E alguém como Lula obviamente atrai muita gente. Mesmo assim, você pode encontrar maneiras de, se controlar certos aspectos do poder, tirar essas pessoas de lá. E mesmo no contexto dos Estados Unidos, alguém como Bernie Sanders, sabe, não o apoio cem por cento, mas acho que ele representava algo melhor. Mas mesmo o establishment do Partido Democrata garantiu que ele nunca chegaria perto da indicação [à candidatura democrata para a Presidência dos EUA]. E parecia que ele tinha uma chance. Mas, sabe, simplesmente há aspectos do poder que sempre vão atuar contra aquelas pessoas que pensam nas coisas de uma maneira mais ampla. Quer dizer, o poder funciona para certos interesses, sabe, quais são os interesses? Acho que essa é a grande questão. Quem está realmente por trás dessas pessoas?

“Quando as pessoas dizem que não vão sair, é aí que sinto esperança”

Página de Palestina, HQ de Joe Sacco (Divulgação)

O seu trabalho mais recente, Paying the Earth, também diz respeito a disputas territoriais. E aqui no Brasil também há um debate crescente sobre o roubo de terras indígenas. Crimes do tipo não são recentes, mas eles parecem estar sendo mais noticiados atualmente. Ou você acha que eles estão realmente se tornando mais frequentes ao redor do mundo?

Sim, é verdade. Temos essas fronteiras nacionais, digamos o Brasil, mas na verdade existe um projeto de colonização interna, assim como foi no Canadá. Você tem uma fronteira, Canadá, mas então você tem que realmente colonizar o Canadá e você tenta colonizar da maneira que puder. E a terra é e sempre será uma questão. Não vamos conseguir contornar a terra e o apego das pessoas à terra. E os paralelos que se podem ver entre o contexto palestino e o contexto dos povos indígenas no Canadá, no Brasil ou onde quer que seja, é que as pessoas que querem aquela terra, por qualquer motivo, seja um espaço para viver, para manter o seu próprio povo, como no contexto palestino; ou no contexto brasileiro, para derrubar florestas e plantar lavouras, soja, ou criar gado ou o que tiver lá; ou no contexto indígena no Canadá, pelos recursos, é a separação. Você tem que separar as pessoas de suas terras, e há maneiras de fazer isso: ou você as expulsa da terra ou as mata, ou faz uma combinação de ambos, ou tenta culturalmente separar as pessoas de suas terras, como fizeram no Canadá.

Não foi tanto um ataque explícito como tivemos nos Estados Unidos, ou uma série de ataques explícitos. Foi mais algo como pegar as crianças, colocá-las numa escola, quebrá-las, bater nelas quando elas falam suas próprias línguas; você corta qualquer relação delas com sua cultura. Então, quando elas voltam para suas casas, elas não podem mais falar a língua. E em um lugar onde as tradições são transmitidas oralmente, se elas não conseguem mais falar o idioma, elas não vão ouvir o que os anciãos têm a lhes dizer. Assim foi feito lá. Sabe, existem maneiras diferentes, existem maneiras mais sutis. E agora, claro, vemos no Canadá mais um reconhecimento do que aconteceu. Mas você pode passar gerações e gerações pensando “ah, bem, as pessoas indígenas estão nas escolas, isso é bom, elas vão aprender a ler e escrever”. Mas, sabe, há algo mais acontecendo. É um projeto. É um projeto para roubar a terra, obter o que está nela para seus próprios fins. Está acontecendo no Brasil, está acontecendo na Palestina, está praticamente concluído nos Estados Unidos e está acontecendo no Canadá.

E fico curioso, em meio a todos esses casos de extermínio e roubo de terra, você consegue se sentir de alguma forma otimista por um futuro melhor?

Sou otimista porque acho que as pessoas resistem. E acho que nunca podemos dizer que vamos chegar a um ponto em que vamos vencer. É uma luta constante. Você tem sorte se conseguir recuperar algo do que eles tiraram, mas eles sempre tentarão tirar mais de você. Apesar de tudo o que aconteceu com os povos indígenas do Canadá, você vê uma parte da população — algumas pessoas se sentem meio derrotadas, mas uma parte da população resiste, toma consciência, se apega à sua cultura, tenta encontrar força através da cultura. Você vê isso com os palestinos. Quero dizer, olhe o que está acontecendo [em referência aos protestos da população palestina que aconteceram em maio]. Ainda há resistência acontecendo. Os palestinos estão tentando fincar os pés na terra o máximo possível e eles basicamente estão dizendo “não vamos sair”. E quando as pessoas dizem que não vão sair, é aí que sinto esperança. Quando elas vão embora, quando elas se resignam, quando elas cedem, é aí que eu começo a perder a esperança. Mas ainda sinto que em todo o mundo as pessoas fincam os pés na terra. Até no Brasil existe uma reação. Mas é sempre uma luta, que estará sempre conosco.

“A Primavera Árabe foi uma decepção em muitos aspectos, mas ainda não sabemos as consequências dela”

Página de Palestina, HQ de Joe Sacco (Divulgação)

Falando sobre lutas e esperança, a Primavera Árabe completou 10 anos em 2021. Como você analisa esse movimento após 10 anos? Na época, enquanto ocorria, me pareceu muito mais revolucionário e esperançoso do que acabou sendo. Você concorda?

Sim, eu fui uma das pessoas que ficaram extremamente animadas com aquilo. E [a Primavera Árabe] de fato mostrou o poder das pessoas nas ruas. Mostrou quanta força as pessoas têm. Se você olhar para o caso do Egito, por exemplo, eles se livraram de Mubarak [Hosni Mubarak, que foi presidente do Egito entre 1981 e 2011], e isso foi incrível. Mas o problema era que havia outro grupo. Havia a Irmandade Muçulmana, que por muitas décadas vinha construindo um movimento. E era um verdadeiro movimento social, eles estavam ajudando as pessoas. Eles podem ter valores com os quais eu não concordaria, mas eles eram um movimento de longo prazo e meio que sequestraram aquela vitória das pessoas nas ruas, que eram estudantes e pessoas assim. Eles meio que tomaram aquela vitória para eles. E então, é claro, eles estragaram tudo. E o exército está de volta ao poder. Mas há certos lugares que têm correntes opositoras muito fortes. O exército no Egito é muito forte. Ele controla muito da economia. O exército no Egito é uma potência manufatureira, produz geladeiras, tem muito dinheiro e poder. As pessoas meio que esperavam que o exército ficasse do lado delas. E, no fim das contas, não é assim que as coisas funcionam.

Acho que a Primavera Árabe foi uma decepção em muitos aspectos, mas ainda não sabemos as consequências dela. É como se você pudesse falar sobre o Occupy Wall Street, que se inspirou muito na Primavera Árabe. Você pode dizer que [o Occupy] foi derrotado também. Mas quais são as implicações? [O Occupy] ainda mantém algumas brasas acesas de algo vivo? E sim, ainda há ditadores no poder, mas por outro lado, você vê o poder das pessoas nas ruas tentando formular suas ideias. Sabe, é sempre um projeto contínuo. Se você olhar para um período, você pode dizer “ah, foi derrotado”. Mas, em outro sentido, o que disso ainda veremos no futuro? O que isso vai inspirar no futuro? Não podemos realmente dizer.

O foco dos seus trabalhos costuma ser na perspectiva civil em cenários de conflito. Você evita, por exemplo, expor vozes oficiais. Por que essa sua opção em tratar de conflitos globais pelo ponto de vista de civis e de pessoas que costumam não ser ouvidas por grandes meios de comunicação? 

Para ser honesto, é algo meio acidental, porque quem sabe o que eu teria sido se tivesse saído imediatamente, quando me formei em jornalismo, quem sabe que tipo de jornalista eu seria, se tivesse ido direto para a grande mídia. Digamos que eu trabalhasse para a NBC News. Eu provavelmente teria me tornado um jornalista que estaria nos corredores do poder falando com os poderosos. E eu provavelmente teria aceitado muitas das opiniões deles e teria reportado a um chefe da grande mídia que queria certas histórias. Felizmente, eu não tinha dinheiro, nada por trás de mim, nenhuma grande instituição me dando apoio. Então, sempre que eu ia aos lugares, eu meio que encontrava meu próprio caminho. E a única maneira de encontrar meu próprio caminho foi viver com muito pouco. Nunca pude pagar para me hospedar em hotéis com os outros jornalistas; eu tive que morar ou ficar em albergues, ou tive que alugar um quarto na casa das pessoas, como na Bósnia, em que morei com uma pessoa idosa que estava alugando um quarto. Então você começa a ver as pessoas nesse nível. Eu não estava passando meu tempo com outros jornalistas. E não tenho nada contra isso necessariamente, mas eu simplesmente via uma perspectiva diferente, e essa se tornou minha perspectiva. E sou muito grato por isso. Honestamente, sou grato por não ter começado a trabalhar com uma grande instituição por trás de mim. Isso me faz pensar que talvez… Não sei, não me dou tanto crédito, eu poderia ter me tornado um tipo de pensador muito convencional. Mas quando você está se misturando com as pessoas, quando você está frequentando os cafés delas, quando você não tem grana para tomar um drinque no Holiday Inn ou seja lá o que for, você está em uma seara diferente. E esta seara meio que se torna aquilo em que você se interessa, aquilo a que tem acesso. E isso se torna uma história sobre os civis, sobre as pessoas que não têm nada, porque você meio que não tem nada. Sabe, você está meio que nessa mistura. Agora, tudo isso dito, não sou necessariamente contra estar com as forças militares. Estou interessado em como eles percebem as coisas. Não passei muito tempo com as Forças de Defesa de Israel, mas passei alguns dias com elas em Rafa [cidade palestina na Faixa de Gaza]. E passei algumas semanas com fuzileiros navais norte-americanos no Iraque. Sabe, eu sou um jornalista. Estou interessado em tudo.

“Para mim, entreter é, na verdade, fazer alguém querer continuar lendo”

Página de Palestina, HQ de Joe Sacco (Divulgação)

Palestina foi muito importante para a minha formação como leitor de quadrinhos, li o seu livro quando tinha 15 anos. E uma coisa que me impressionou muito na época eram os seus designs de página e como você mesclava os textos com a arte. Depois, quando estudei jornalismo tive várias aulas tratando de hierarquização de informação. Enfim, como você pensa e constrói uma página? Como você administra a relação entre textos, ilustrações e as informações que você quer passar? Não sei se faz sentido, talvez eu esteja querendo saber o grande segredo por trás dos seus trabalhos…

Esta é uma pergunta interessante… Não é uma questão de design, não se trata de pensar em desenhar uma página. Obviamente, desenhar [a página] é importante e é divertido e tudo mais. Mas, na verdade, é uma questão de atitude. Eu estudei jornalismo, assim como você, mas os livros que realmente me cativaram, no que diz respeito a livros de jornalismo, foram as obras de pessoas como Hunter S. Thompson ou Michael Herr, que escreveu um livro chamado Dispatches, sobre a Guerra do Vietnã. Eles tinham uma atmosfera. E eu li outros livros sobre a Guerra do Vietnã escritos por jornalistas realmente bons. Eles me deram informações realmente boas, mas não me deram esse gosto na boca de como era estar ali. E se você leu Michael Herr ou leu Hunter S. Thompson, talvez Fear and Loathing [in Las Vegas] no contexto da campanha eleitoral da eleição de 1972 nos Estados Unidos, é um livro incrivelmente apaixonante, incrivelmente engraçado, ele vai removendo as camadas de baboseira e está realmente entrando nisso. Mas, por outro lado, Hunter S. Thompson realmente entendia o projeto eleitoral norte-americano e realmente se importava com os Estados Unidos. E toda aquela paixão, você pode sentir na página.

Então, de certa forma, é meio que pegar essa atitude e colocá-la nos desenhos. Não se trata apenas de informações secas. Na verdade, é tão fácil entediar as pessoas com jornalismo. É tão fácil transformar um tema muito interessante como a Palestina em um trabalho longo e arrastado. E toda a minha ideia era que [o quadrinho] não seria um trabalho longo e arrastado. Seria algo que alguém vai continuar virando a página. E eu não uso essa palavra levianamente, mas tem que ter algo de entretenimento. E não digo isso de maneira frívola; para mim, entreter é, na verdade, fazer alguém querer continuar lendo. Isso é entretenimento para mim. Como se você estivesse muito envolvido naquilo. É atraente. E foi isso que tentei fazer, e por isso não é tanto uma questão de como eu desenho uma página. É mais sobre qual estética estou trazendo para esse desenho.

“[O livro sobre os Rolling Stones] É sobre muitas coisas que sempre estiveram na minha mente, mas que não se enquadram bem nos limites do jornalismo”

Quadro de Palestina, obra de Joe Sacco (Divulgação)

Falando sobre entretenimento, li que você está trabalhando em um livro sobre os Rolling Stones. Você tem reportagens sobre artes e música, mas é conhecido principalmente sobre suas obras tratando de conflitos. O que você pode contar sobre esse próximo projeto? O que difere entre a produção de um trabalho político e uma obra sobre artes e cultura?

Bem, o livro dos Rolling Stones meio que começou como um livro sobre os Rolling Stones, mas realmente se tornou algo que, não sei como dizer exatamente, mas ainda é sobre um conflito. É sobre muitas coisas que sempre estiveram na minha mente, mas que não se enquadram bem nos limites do jornalismo. Porque, com jornalismo, você se interessa pelo fato, pelo que aconteceu aqui, quem fez o quê a quem. É disso que se trata Palestina. É sobre tentar chegar a um conjunto de coisas que podemos dizer que são fatos e descobrir o que está acontecendo, o que está ligado a isso. Mas há muitas coisas que um escritor de ficção pode fazer que um jornalista nunca pode fazer. Porque se um jornalista não consegue provar… Um jornalista pode descobrir isso e descobrir aquilo, mas não pode realmente ligar esses pontos. Mesmo que o jornalista saiba que eles estão conectados, ele não pode provar isso. Enquanto um escritor de ficção pode fazer isso. Estou me movendo em um espaço que não vou chamar de ficção, mas um espaço de uma espécie de ensaio onde estou pensando mais sobre a psicologia humana, por que as coisas são como são, em lugar de pensar quem fez o quê a quem. É disso que se trata o livro dos Stones. Além disso, espero que seja muito divertido. Estou curtindo muito, mas é mais profundo do que inicialmente pensei que seria. Tornou-se algo realmente muito maior. É muito difícil para mim descrever o que ele é.

E você já tem alguma previsão de lançamento? 

Bem, se eu continuar trabalhando nele nesse ritmo, provavelmente você o veria em três anos. Mas a questão é que tenho um livro de jornalismo estrito que tenho que terminar, então tenho que interromper [o trabalho no livro dos Stones]. E esse livro é sobre uma revolta que ocorreu na Índia. Então eu ainda tenho meus projetos de jornalismo, mas eu meio que preciso desse livro [dos Stones] porque os diários e projetos, depois de um tempo, ficam muito pesados, o jornalismo rigoroso é muito pesado, então eu preciso do livro dos Stones também.

A capa de Palestina, obra de Joe Sacco republicada pela editora Veneta (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Marcello Quintanilha, autor de Escuta, Formosa Márcia: “Nada é mais urgente do que parar o genocídio”

Conversei com o quadrinista Marcello Quintanilha sobre Escuta, Formosa Márcia, mais novo trabalho do autor de obras como Luzes de Niterói, Talco de Vidro e Tungstênio. Transformei essa entrevista em matéria para o caderno Ilustrada, do jornal Folha de S.Paulo, que você lê clicando aqui. Tratei no meu texto, principalmente, das distinções entre esse novo título do artista e alguns de seus trabalhos prévios. Escrevi sobre a trama do livro, as cores da obra e algumas leituras recentes do autor que acabaram impactando o desenvolvimento da HQ.

Compartilho agora a íntegra de minha conversa com Quintanilha. Ele me falou sobre técnicas e materiais de trabalho, me contou sobre a influência do teatro do absurdo e de Fiódor Dostoiévski, tratou de sua paixão por música e Hugo Pratt e expôs suas avaliações sobre o atual contexto sócio-político-pandêmico do Brasil.

Escuta, Formosa Márcia é o meu quadrinho preferido de 2021 até aqui. Recomendo sua leitura assim que possível. Também recomendo a leitura da minha matéria sobre o livro para a Folhaassim como o meu texto para o jornal sobre Luzes de Niterói e a entrevista que fiz com o autor no início de 2019. Depois, volte aqui, e leia a conversa a seguir, minha mais recente entrevista com Marcello Quintanilha:

“A linha preta é mínima, discreta, quase uma concessão, permitindo que as cores explodam nos enquadramentos”

Página de Escuta, Formosa Márcia, obra de Marcello Quintanilha (Divulgação)

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas por aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

A dor da perda atingiu a todos em maior ou menor medida e talvez ainda seja cedo para dimensionar a tragédia. Pessoalmente, vivi menos complicações do que outras pessoas a minha volta, muitas das quais passaram por situações realmente extremas, familiar e profissionalmente. 

No Luzes de Niterói você usou papel, grafite, pastel oleoso e guache com a colorização digital. Nesse livro novo você usou alguma técnica ou material diferentes?

Escuta, formosa Márcia é integralmente digital. Para ela, desenvolvi uma paleta que consiste em apenas 28 cores que se alternam diegeticamente em calidez, frieza e acidez, sem, no entanto, corresponder a seu equivalente no mundo tangível, porque pretendia espelhar a progressiva desconexão com a realidade tão característica dos dias atuais. 

A linha preta é mínima, discreta, quase uma concessão, permitindo que as cores explodam nos enquadramentos, cores que traduzem o estado de ânimo daqueles que são capazes de gargalhar de alegria, mas nunca sorrir de verdadeira felicidade. 

“O teatro do absurdo é a chave do páthos de Escuta, Formosa Márcia”

Página de Escuta, Formosa Márcia, obra de Marcello Quintanilha (Divulgação)

Os seus trabalhos já foram associados mais de uma vez ao cinema neorrealista italiano. Qual é a sua relação com o cinema neorrealista italiano? Você tem algum filme ou diretor preferido desse movimento? Tem algum aspecto das obras desse movimento que chame mais a sua atenção ou tenha um apelo maior para você?

É uma relação muito profunda, porque me interessa o caminhão de honestidade com que o neorrealismo abasteceu a história do cinema depois do cerceamento de ideias promovido pelo regime fascista.

Vittorio de Sica foi, é e sempre será parte do meu panteão sagrado. 

Entre os aspectos mais destacáveis do movimento, está imbricação entre ficção e realidade, a tal ponto que podemos apreciar imagens documentais inseridas em uma construção ficcional, como é o caso de Roma, Cidade Aberta, de Rossellini.

Da mesma forma, me interessa grandemente o free cinema de Tony Richardson, assim como sua sucessora francesa no âmbito dos temas sociais, a nouvelle vague.

Escuta, Formosa Márcia, por sua vez, tem referências ainda mais específicas, fundamentalmente, três obras: Os Demônios, de Dostoiévski, Esperando Godot, de Beckett, e A Juventude de Corto Maltese, de Hugo Pratt.

O primeiro, por essa filigrana técnica da qual Fiódor lança mão para contar sem contar uma trama subjacente à vivida por Stiepan Trofimovitch e cia., que nos dá a medida da efervescência política que campeava na Rússia da segunda metade do século XIX e que resultaria naqueles dez dias que abalaram o mundo em 1917. Narrar sem narrar é uma das experiências mais sedutoras no campo da escrita.

Quanto a Beckett, sou fascinado pelo teatro do absurdo, por sua contundência em questionar o propósito da existência em si mesmo, fruto do trauma advindo da segunda guerra mundial; por seu empenho em esvaziar as palavras de seu significado dicionarizado e mesmo os personagens de sua identidade enquanto indivíduos, além de subverter a própria estrutura da ficção como relato. Nada mais concomitante com o século XXI. 

Se a atmosfera do neorrealismo e do free cinema estão sempre presentes, recriadas em muitas das minhas obras, o teatro do absurdo é a chave do páthos de Escuta, Formosa Márcia.

Hugo Pratt fez o então jovem Corto Maltese caminhar de um lado a outro, bailando com seu nêmesis Rasputin sobre terreno acidentado, entrando e saindo, indo e voltando, em um teatro de operações de escassos metros quadrados. Até hoje esse álbum é uma das minhas principais referências, pela concisão no desdobramento da história, pela mecânica que conduz as ações e pelo despojamento lírico do traço.

E como é a sua relação com mangás? Tem algum autor, alguma obra ou algum gênero dos quadrinhos japoneses que chamam mais a sua atenção?

A primeira vez que folheei um mangá, quase o confundi com uma história em quadrinhos, veja você… 

Tatsumi é uma luz no fim, no meio e no começo do túnel. Mushi-shi despertou meus mais arraigados terrores infantis. Na Prisão me prendeu para sempre. Nenhuma das histórias do Lobo Solitário deveria chegar ao fim. Nenhuma. Nunca. Maruo não é autor, é omen.

“Me seduz tratar do ser humano em sua natureza mais crua, independentemente de um imperativo geográfico”

Página de Escuta, Formosa Márcia, obra de Marcello Quintanilha (Divulgação)

O que mais te interessa hoje na linguagem das histórias em quadrinhos?

Exatamente o mesmo que me interessava no passado, ou seja, a sequencialidade em si. Nunca houve nenhuma mudança.

A comunicação com o leitor mediante uma simplória sequência de quadros continua sendo a expressão mais poderosa pra mim.

O que você considera mais importante na construção de um personagem?

Não há uma faceta mais importante que outra, então não consigo dar uma resposta objetiva. Quando crio um personagem, me desfaço de qualquer espécie julgamento, porque nada dos seus valores ou visões de mundo me (nos) é realmente alheio, por mais antagônicas às minhas (nossas) que possam parecer, uma vez que compartilhamos a mesma precariedade da condição humana. 

Nunca os prendo às amarras do enredo ou os encaixoto em perspectivas identificadas com a brasilidade, porque seria condescender com uma série de generalizações com as quais estou em franco desacordo a maior parte do tempo. Não me interessa apresentar uma ideia de brasileiro, definir uma forma de ser que corresponda ao que se entende por brasileiro. Acho que por isso minhas histórias têm sido tão bem recebidas fora do Brasil ao longo dos anos, porque me seduz tratar do ser humano em sua natureza mais crua, independentemente de um imperativo geográfico.

Me vejo constantemente refém dos personagens e de suas reivindicações como protagonistas. Eles decidem os rumos das histórias. Um caso emblemático é o da personagem Caju, que transformou toda a trama de Tungstênio, ao exigir ser muito, muito mais que um coadjuvante.

“A música me inspira diretamente e muitas vezes trabalho para reproduzir em traço sua tensão rítmica”

Página de Escuta, Formosa Márcia, obra de Marcello Quintanilha (Divulgação)

Você pegou o título do quadrinho emprestado de uma modinha de salão, gênero típico do Brasil imperial, que tinha o Rio de Janeiro como capital. Vejo uma imagem muito romantizada do Rio imperial que contrasta bastante com o Rio violento e miliciano do nosso presente. Você também nota esse contraste?

Me parece incongruente que se romantize um recorte de tempo que tem a escravidão como base de seu sistema econômico, a menos que você se refira ao estrato aristocrático/ burguês de então, esse sim, idealizado, mas em detrimento de seus coetâneos de classes inferiores. 

O que identifico é uma correlação direta com aquele período, na repetição de sistemas de opressão dos quais determinadas instâncias não pretendem abrir mão facilmente (nem dificilmente).

Você pode falar um pouco, por favor, sobre a sua relação com música? O que você gosta de ouvir? Você lembra dos seus primeiros contatos com modinhas de salão?

Ouço música profana a maior parte do tempo. Sobretudo, rock. Quanto à música sacra, ou seja, samba, choro, quadrilha, coco, forró, etc., ouço bem menos, porque sou facilmente arrebatado por ela, então, preciso ter cuidado.

A música me inspira diretamente e muitas vezes trabalho para reproduzir em traço sua tensão rítmica. Sucessivamente me pego pensando em que tipo de música melhor nos condensa ou, dizendo de outro modo, que música seríamos se em vez de pessoas fossemos música. De ser assim, adoraria que minha contraparte sonora fosse Sabão, de Patápio Silva.

No começo dos anos 1990, eu frequentava assiduamente a livraria Mário de Andrade, no Centro do Rio, que comercializava o acervo da FUNARTE, e mergulhava em dezenas de monografias sobre figuras icônicas da MPB, entre elas, Patápio Silva, flautista, chorão, morto aos 26 anos, acometido de uma febre misteriosa (o que, talvez, tenha suscitado as teorias sobre seu assassinato). Granadilha, história que integra o álbum Almas Públicas, de 2011, é frenética e escandalosamente dedicada a ele. Mas Chão Bento, do mesmo álbum, também é reverencialmente dedicada a um compositor, a um sambista, a um pai — Silas de Oliveira, morto em um terreiro de samba, ambiente que frequentou desde cedo, contra a vontade do pai, pastor protestante.

Mas meu suspiro pelas modinhas não veio do encantamento pelo choro. Modinhas já eram o pão de cada dia desde que a paixão pela obra de Mário de Andrade me conduziu a suas pesquisas sobre música brasileira e à publicação de Modinhas Imperiais, onde Mário reunia tanto as modinhas recolhidas por Spix e Martius em seu Viagem pelo Brasil, de 1823 (entre elas, Escuta, Formosa Márcia), quanto as publicadas na coleção de Filippone e Tornaghi ou as espalhadas por folhetos e águas fortes que circulavam no fim do século XIX.

O que acontece é que, antes de adquirir esse volume, Villa-Lobos me doutrinara na cultura popular com as Bachianas Brasileiras, o que nos leva diretamente aOs Choros de Câmara em sua primeira gravação completa, de 1977, mas isso só depois que Machado de Assis me esmagasse narrando como Sinhazinha Mota perguntava ao pianista, compositor de modinhas, que se dirigia à janela durante o sarau da viúva Camargo, na Rua do Areal, se ele era o Pestana.

Tudo só pra dizer que não tenho ideia de quando as modinhas entraram na minha vida. Quando percebi, elas já tinham dominado o mundo.

“O atual governo representa um retrocesso assustador”

Página de Escuta, Formosa Márcia, obra de Marcello Quintanilha (Divulgação)

Entre vários temas, Escuta, Formosa Márcia trata bastante sobre o impacto da corrupção dos poderes públicos na vida do cidadão comum. Nos últimos quatro anos, sete políticos que ocuparam os cargos de governador ou prefeito da capital do estado foram presos ou afastados do mandato. Como você vê essa institucionalização da corrupção na realidade do Rio de Janeiro?

Vejo como decorrência natural de nosso passado macabramente idílico, edificado na promiscuidade entre poder público e agentes, digamos, contrários à higiene de seu alicerce burocrático, panorama sensivelmente agravado pela aliança entre ditadura militar, auxiliada por sua extensão policial instrumentalizada, e setores à margem da lei, o que resultou na profissionalização do crime organizado no estado.

Escuta, Formosa Márcia tem algumas das sequências mais tensas e trágicas que já li em um trabalho seu. Como a atual realidade sócio-econômica-política brasileira tem afetado a sua produção?

Ela não afeta propriamente por ser atual, mas por fazer parte de um processo histórico que me interessa em sua totalidade.

Ainda sobre essa atual realidade sócio-econômica-política brasileira, você se vê de alguma forma mais pessimista em função desse Brasil dos últimos anos?

Nunca fui otimista em nenhum momento da vida, não vejo por que deveria começar a ser agora. 

No entanto, a discussão em torno de conjunturas negativas não se trava na esfera do otimismo ou do pessimismo, mas sim dentro dos marcos institucionais.

Quadros extremos de desagregação social podem ser revertidos — sempre mais vagarosamente do que o desejável, é certo — a partir de consensos que precisam ser alcançados entre as diferentes correntes políticas e da permanente participação da sociedade no debate público, embora propostas administrativas de longo prazo, que nos permitam integrar todas as pessoas aos requisitos mínimos de cidadania não sejam as vedetes do processo eleitoral.  O atual governo representa um retrocesso assustador nessa dinâmica, porque nada se tornou mais urgente no Brasil de hoje do que sua retirada do poder, não apenas pela via do Impeachment, mas pela consequente superação de seus cargos remanescentes. Nada é mais urgente do que parar o genocídio.

A capa de Escuta, Forma Márcia, obra de Marcello Quintanilha (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Ed Brubaker, autor de Pulp e Criminal: “De repente, é como se algumas pessoas não quisessem admitir que os nazistas eram os bandidos”

Não lembro do meu primeiro contato com um quadrinho com roteiro do norte-americano Ed Brubaker. Talvez tenha sido Batman – O Homem que Ri ou a série Gotham Central, originalmente publicada em português como Gotham City Contra o Crime. Lembro que gostei muito das duas leituras, mas só passei a dar atenção especial aos trabalhos dele após ler os primeiros encadernados de Criminal, lá para o fim dos anos 2000.

Há alguns meses reli os primeiros Criminal, terminei a série e fui atrás de outros títulos do roteirista em parceria com o ilustrador Sean Philips. Me impressiona a regularidade e o volume de trabalho dos dois. Eles não se propõem a refletir ou experimentar em relação às possibilidades da linguagem dos quadrinhos, mas são claros e extremamente eficazes em sua proposta de divertir.

Aproveitei o anúncio do lançamento de uma série de títulos de Brubaker e Philips em português, pela editora Mino, e fui atrás do roteirista. Entrevistei o escritor e transformei esse papo em texto para a edição de julho da Sarjeta, minha coluna sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. A conversa rolou no início de junho, algumas semanas antes dos dois troféus do Prêmio Eisner recém-conquistados pelo autor – melhor novo álbum gráfico, por Pulp, e melhor quadrinho digital, por Friday, parceria com Marcos Martin.

O foco principal da entrevista com Brubaker foi em Pulp, primeiro dos títulos dele com Philips a ser lançado pela Mino. Mas ele também falou sobre a construção do universo de Criminal, comentou sobre sua dinâmica de trabalho com o parceiro criativo de mais de 20 anos e expôs algumas das mágoas que guarda de sua passagem pela Marvel. Você lê a Sarjeta clicando aqui e confere, a seguir, a íntegra da minha entrevista com Ed Brubaker:

“É um faroeste, mas ambientado na década de 1930”

Quadros de Pulp, HQ de Ed Brubaker e Sean Philips (Divulgação)

Eu quero começar sabendo como você está. Como você está lidando com a pandemia? A pandemia afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

Sim, para o bem e para o mal. Finalmente voltei a ler livros o tempo todo, o que é bom, e decidimos fazer graphic novels em vez de séries mensais, então o trabalho foi realmente produtivo. Mas não saí muito, nem fiz muitos exercícios, e estou pagando por isso agora, tentando voltar um pouco à forma.

E como você acha que isso vai afetar o seu ambiente profissional? Imagino que você esteja conversando com outros autores e com seus editores sobre isso tudo. Como você acha que isso pode mudar a forma como se produz e vende quadrinhos?

Eu não sei, honestamente. Acho que intensificaram coisas como a publicação via Kickstarter, mas as grandes editoras americanas parecem ter sobrevivido muito bem. Na verdade 2020 foi um dos maiores anos para os quadrinhos em muito tempo, eu acho, em termos de vendas. Mas acho que mais pessoas estão pensando em vender direto aos consumidores e coisas do tipo.

Pulp é protagonizado por fora-da-lei aposentando tentando viver em um ambiente urbano, mas não apenas. Qual era a sua proposta quando você começou a escrever esse quadrinho?

O livro foi feito principalmente para ser um estudo de personagem sobre um fora-da-lei que envelhece à medida que o fascismo está varrendo o mundo. Vendo aquela ligação entre os proprietários de terras do Velho Oeste com seus próprios exércitos privados, e a semelhança entre isso e o fascismo, como o capitalismo sempre teve esse lado sombrio. No final das contas, é um faroeste, mas ambientado na década de 1930.

“Pulp também é sobre eu quase morrendo”

Página de Pulp, HQ de Ed Brubaker e Sean Philips (Divulgação)

Quadrinhos seguem sendo vistos por muitos como obras escapistas. Qual você considera o papel de bons escapismos em contextos tão tristes e pessimistas como o cenário de Pulp e a atual realidade mundial?

Eu acho que realmente depende. Eu sei que nos últimos anos, do jeito que o mundo tem andado, eu tive menos interesse em escrever histórias deprimentes, e quero trazer algo mais divertido para nossos leitores… Mas eu sempre tendo a adicionar algum tipo de tragédia ou tristeza de alguma forma. Isso é apenas vida, eu acho. Quero que as pessoas possam se identificar com as histórias que contamos, bem como se distrair um pouco com elas. Mas é possível fazer as duas coisas. Eu acho O Grande Gatsby tanto imensamente divertido quanto incrivelmente comovente, então esse é sempre o objetivo.

Você pode me falar, por favor, sobre a sua relação com publicações pulp? O que você vê de mais interessante nelas?

Tenho muitas lembranças nostálgicas desse tipo de coisa, desde a infância. Havia essas brochuras de Men’s Adventure quando eu era criança – como The Executioner, The Destroyer, etc – e também reimpressões de personagens antigos como Doc Savage e Conan, com capas pintadas realmente incríveis. Essas coisas realmente me atraíram, e ainda gosto da aparência de todos esses livros daquela época. A estética da coisa toda. Isso é o que nos inspirou, recentemente, para os livros de Reckless, a aparência e sensação daqueles velhos livros de bolso dos anos 1960 e 1970.

Acho que uma grande sacada de Pulp é ser um quadrinho pulp sobre obras pulp. O que veio primeiro: a história de Pulp ou a ideia de desenvolver um quadrinho pulp? Ou veio tudo junto (uma HQ pulp sobre obras pulp)?

Tudo começou porque Sean queria um faroeste e eu não tinha nenhuma ideia. Então comecei a pensar em meus filmes de faroeste favoritos, e aí me lembrei que havia alguns homens nos anos 1930 que afirmavam ser o Butch Cassidy (nenhum deles realmente era, no fim das contas) e a partir daí a história começou a se encaixar. Gostei da ideia de um velho fora-da-lei escrevendo histórias pulp que eram a versão mais feliz de sua juventude.

Além disso, o livro também é muito sobre eu quase morrendo e me preocupando em deixar minha esposa sem nada. Isso me assombrou por cerca de um ano antes de eu finalmente escrever Pulp, então foi uma maneira de processar esses sentimentos como ficção.

“Várias pessoas me acusaram de ser um esquerdista maluco”

Página de Pulp, HQ de Ed Brubaker e Sean Philips (Divulgação)

Vivemos um período de ascensão do fascismo em todo o mundo. Foi de alguma forma satisfatório para você ter um herói em uma missão de encarar fascistas?

Sim, eu pensei que seria muito “pulp” ter os bandidos como nazistas, mas sendo o mais realista possível. Todas aquelas coisas no livro realmente aconteceram em Nova York naquele momento. Muitas pessoas ainda ficam surpresas ao saber sobre aquele comício nazista naquela noite, o que é triste. E várias pessoas me acusaram de ser um esquerdista maluco por fazer dos nazistas os bandidos de uma obra de ficção histórica, o que não passa de insanidade. De repente, é como se algumas pessoas não quisessem admitir que os nazistas eram os bandidos. Eu nunca pensei que isso aconteceria na minha vida, honestamente.

Aliás, a maior parte dos seus trabalhos que li são sombrios, violentos e pessimistas de diferentes maneiras. Você se considera uma pessoa pessimista? 

Acho que depende do dia. Sou pessimista em relação às pessoas e ao nosso futuro. Sou pessimista sobre as mudanças climáticas e nossa capacidade de lidar com elas. Mas na maioria das vezes eu tento não pensar sobre essas coisas e apenas vivo a minha vida da melhor maneira que posso e aproveitando cada dia. Às vezes escrevo coisas sombrias porque são histórias de crime e porque acho que tenho algumas coisas dentro de mim que precisam aflorar.

Apesar de My Heroes Have Always Been Junkies ser um spin-off de Criminal, ela funciona como uma obra autônoma, assim como Pulp. Como é essa experiência para você? Trabalhar tendo em visto um número limitado de páginas? Como esse tipo de restrição espacial contribuiu para o desenvolvimento das suas histórias?

Eu odeio ter que me preocupar com o tamanho de uma história. Prefiro apenas escrevê-las, sem ter uma contagem de páginas definida, mas por causa da realidade do mercado de quadrinhos e dos prazos, temos que ter um objetivo geral antes de começarmos a trabalhar, para descobrirmos quanto vai custar a impressão e coisas do tipo e quanto tempo o Sean vai levar para desenhar.

“Quando já está tudo desenhado, deixo o Sean maluco pedindo um monte de pequenos ajustes”

Página de Pulp, HQ de Ed Brubaker e Sean Philips (Divulgação)

Você tem planos para outras obras fechadas como Pulp e My Heroes Have Always Been Junkies?

Não tem nada certo neste momento. Estamos fazendo livros com o dobro do tamanho agora, e acabando de terminar o terceiro do que será uma série de cinco em sequência.

Você pode me falar um pouco sobre a sua dinâmica com o Sean Phillips? Vocês são parceiros de longa data, como funciona a relação de vocês? Como um contribui para o trabalho do outro? Que tipo de troca ocorre entre vocês?

Fazemos o mesmo desde o início. Dou a ele uma vaga ideia de como será o livro e envio um roteiro de oito ou doze páginas por vez, ele desenha à medida que eu escrevo e nunca quer saber o que virá a seguir. Trocamos muitos e-mails e às vezes peço a ele para alterar algo que não funcione, mas na maioria das vezes nos entendemos perfeitamente. No final, quando já está tudo desenhado e com letras, eu deixo ele maluco pedindo um monte de pequenos ajustes no diálogo ou na narração, ou partes que quero cortar porque soa redundante.

Acho que as cores do Jacob Philips estão contribuindo imensamente para as suas parcerias com o Sean Phillips. Como é a sua dinâmica de trabalho com ele?

Assim como faço com o pai dele, eu envio ao Jake algumas instruções aqui e ali depois que as páginas chegam, e é isso. De vez em quando dou conselhos sobre carreira ou sobre Hollywood para seus outros quadrinhos. Normalmente apenas digo ao Jake o que gosto no que ele está fazendo. E quando Reckless estava começando, enviei a ele algumas fotos e cenas de filmes para ajudá-lo na paleta de cores de Los Angeles na década de 1980.

“Amo a sensação tátil de livros e quadrinhos, bem como as histórias que eles contam”

Página de Pulp, parceria de Ed Brubaker e Sean Philips (Divulgação)

Sobre Criminal, o quanto você já tinha traçado desse universo quando deu início à série lá em 2006? Como se dá essa construção e costura das tramas de Criminal? 

Eu tinha os primeiros três ou quatro livros mais ou menos mapeados e as ligações entre alguns dos personagens. Mas muito disso é apenas instintivo. Eu escrevo todas as histórias que sinto que precisam ser escritas para aquele mundo e não planejo mesmo com antecedência. Por exemplo, enquanto trabalhávamos no ano mais recente de Criminal eu não fazia ideia que ia acabar contando o arco maior de história que tinha em mente desde o começo, Cruel Summer, mas então pareceu certo e fui lá e fiz.

Aliás, vocês têm planos de dar continuidade a Criminal após os eventos de Cruel Summer? Vocês consideram explorar outras tramas com coadjuvantes como fizeram em My Heroes Have Always Been Junkies?

Claro, sempre espero retornar a Criminal para mais histórias.

No ano passado entrevistei um ex-parceiro de trabalho seu, o Jason Lutes, por causa do lançamento da edição brasileira de Berlim. Ele me falou algo que passa para os alunos dele sobre a importância da clareza em uma HQ. Não que elas devam ser desenhados com clareza, mas que as intenções e a forma como você está se expressando devem ser claras. Vejo muita dessa clareza nos seus trabalhos. O que você considera mais importante quando está criando uma história em quadrinhos?

Contar uma boa história, provavelmente. Manter os leitores envolvidos e dar a eles uma história que valha à pena e todo um pacote que valha seu dinheiro. Eu amo a sensação tátil de livros e quadrinhos, bem como as histórias que eles contam. Mas sim, eu, o Jason e todo o nosso grupo de amigos na década de 1990… Tínhamos um grupo semanal que se reunia e conversava sobre quadrinhos e mostrávamos nossos trabalhos uns aos outros, e todos nós estávamos muito interessados em quadrinhos como uma forma de arte a ser explorada. Portanto, não me surpreende que tenhamos várias propostas semelhantes com os nossos trabalhos.

“A Image é como ter a sua própria editora com outra pessoa que investindo todo o dinheiro”

Quadros de Pulp, HQ de Ed Brubaker e Sean Philips (Divulgação)

A Image é uma editora que trabalha com a manutenção dos direitos das obras com seus autores. Como tem sido a sua experiência com eles até aqui?

Excelente. A Image é como ter a sua própria editora com outra pessoa que investindo todo o dinheiro. Consegui um acordo único com eles, que nos permite fazer qualquer coisa que quisermos sem ter que apresentar ideias ou tentar ser comercial e essa foi a melhor coisa que já aconteceu na minha carreira. Liberdade total, propriedade total e controle de todos os aspectos da impressão.

Você falou recentemente sobre sua decepção com a ausência de créditos ao seu nome nas adaptações da Marvel para o cinema com o Soldado Invernal. Esse tipo de crítica e questionamento com as grandes empresas da indústria do entretenimento não é de hoje, mesmo lendas dos quadrinhos como Jack Kirby, Joe Simon e Joe Schuster sofreram com isso. Qual lição você tira dessa sua experiência com os Estúdios Marvel?

Não se trata de falta de crédito, mas de falta de pagamento por esse crédito. Eles percorreram uma longa estrada ao dar mais reconhecimento aos autores dos trabalhos que eles exploram, mas não vai muito além disso. Mas eu sabia que eles eram assim quando trabalhei lá, não é nenhuma novidade. Minha reclamação é mais específica à minha situação pessoal e às coisas que me foram prometidas. Não é surpresa que essas corporações gigantescas não queiram tratar os criadores de maneira justa, essa é a história do mercado editorial e do cinema.

Qual a memória mais antiga da presença de quadrinhos na sua vida?

São as tiras de jornal de Peanuts ou os desenhos animados da Marvel dos anos 60. Depois, quando eu tinha uns 3 ou 4 anos, meu pai deu para mim e para o meu irmão uma caixa enorme de quadrinhos que ele ganhou de amigos do escritório. Muitos quadrinhos antigos de várias editoras, Marvel, Archie, EC. Todo o tipo de coisa. Foi assim que vi pela primeira vez o Homem-Aranha.

Página de Pulp, obra de Ed Brubaker e Sean Philips (Divulgação)

No que você está trabalhando no momento?

Estou tentando terminar o roteiro de Destroy All Monsters, o terceiro livro da série de graphic novels Reckless.

Fico curioso: o que você pensa ao ver o seu trabalho sendo publicado em um país como o Brasil? Você fica curioso em relação à forma como seu trabalho é lido e interpretado em uma realidade tão distinta da sua?

Sim, claro. E eu realmente espero que as traduções sejam ótimas.

Você pode recomendar algo que tenha visto, ouvido ou lido recentemente?

Claro. Se você conseguir encontrar, o sexto episódio da segunda temporada de Mythic Quest é um dos melhores episódios de série de televisão que já assisti. E recentemente assisti a todos os episódios de Columbo, que é bobo, mas divertido. No momento, estou atualizando os livros do [inspetor] Rebus, do Ian Rankin, eles são sempre viciantes.

A capa de Pulp, obra de Ed Brubaker e Sean Philips (Divulgação)

Entrevistas / HQ

Papo com os editores da revista Ragu: “São registros que nos ajudarão a compreender esse Brasil de hoje daqui a muitos anos”

A revista Ragu está de volta. Idealizada e editada por Christiano Mascaro e João Lin, a publicação teve oito números lançados entre março de 2000 (Ragu #0) e agosto de 2009 (Ragu #7), além de alguns spin-offs. A recém-lançada nona edição da revista (Ragu #8) reúne trabalhos de mais 40 artistas, convidados e editados por Mascaro e Lin na companhia dos jornalistas e pesquisadores Paulo Floro e Dandara Palakonf (também coeditores da revista Plaf).

Com capa assinada pelo artista gráfico alemão Henning Wagenbreth e publicada pelo Cepe HQ, a Ragu #8 é um dos mais importantes títulos e uma das mais belas publicações de 2021. A revista faz jus à história e ao legado de um das coletâneas mais celebradas das HQs nacionais. Aliás, sobre a história da revista recomendo a matéria A saga da revista Ragu, escrita por Dandara Palankof para a revista Plaf.

“A ideia era que as histórias refletissem o momento que vivemos, mas não queríamos impor”, me conta Mascaro sobre o pauta passada por ele e seus colegas de edição para os artistas convidados para a revista. “Não queríamos perder a liberdade característica da Ragu e nem queríamos uma edição panfletária, temendo histórias repetitivas. Também para evitar que ela eventualmente ficasse datada. Acho que acertamos”.

Mascaro respondeu às minhas perguntas junto com Lin, Floro e Palankof. Eles me contaram sobre as origens da Ragu, a produção e a curadoria dessa nona edição e o futuro da revista. Listo a seguir os nomes de todos os artistas participanto da Ragu #8 e, em seguida, a íntegra da minha conversa com os quatro editores. Saca só:

Aline Lemos, Aline Zouvi, Allan Sieber, Alves, Amanda Miranda, Ayodê França, Cau Gomes, Celso Hartkopf, Christiano Mascaro, Fábio Zimbres, Flavão, Flavush, Gabriela Güllich, Gomez, Greg, Guazzelli, Henning Wagenbreth, Jaca, João Lin, João Pinheiro, Julia Balthazar, Laerte Coutinho, Lalo, LoveLove6, Luiza Nasser, Mafé, Márcio Vieira, Mariana Waechter, Marília Marz, Miguel Carvalho, Miguel Moura, Nuno Sousa, Puiupo, Rafael Coutinho, Rafael Sica, Raoni Assis, Raul Souza, Rogi Silva (autor da arte que abre o post), Samuca, Silvino e Taís Koshino.

“Precisamos de válvulas de escape que carreguem criticidade e que nos permitam abstrair sem perder a noção do que se passa”

Arte da HQ de Amanda Miranda presente na revista Ragu #8 (Divulgação)

A nova edição da Ragu tem início com a reprodução de dois parágrafos da escritora Toni Morrison sobre o papel da arte em um mundo machucado e sangrando. A revista está sendo publicada pouco depois do Brasil passar a marca de mais de 500 mil mortos de COVID-19, em meio ao governo fascista de Jair Bolsonaro. Qual vocês consideram o papel de uma publicação como a Ragu dentro desse contexto?

João Lin: Considero que seja o mesmo papel de todo e qualquer coletivo que esteja antenado com o tempo que estamos vivendo e que acredite num Brasil democrático, com o mínimo que se deve esperar de uma democracia: a manutenção dos direitos básicos, segurança alimentar, educação de qualidade, saúde gratuita para a população e políticas públicas que garantam igualdade de direitos para os grupos historicamente excluídos e marginalizados.

Paulo Floro: Concordo com Lin que o momento atual pede que todos os artistas que acreditam na democracia tragam alguma contribuição para esse embate contra o fascismo. Não é um momento comum. O que me deixa realmente feliz é ver que a Ragu 8 poderá servir como um documento importante do papel dos quadrinhos de discutir questões urgentes a partir da sensibilidade e talento de artistas incríveis. São registros que nos ajudarão a compreender esse Brasil de hoje daqui muitos anos no futuro. 

Christiano Mascaro: Toni Morrison escreveu esse texto quando Bush filho assumiu a presidência. Imagina, ia piorar bem ainda. Estamos passando por um período já longo de muitas dores. O Brasil mergulhou numa crise política, institucional e econômica antes da pandemia, que só veio agravar e evidenciar essa condição em que nos encontramos. Precisamos de “válvulas de escape” que carreguem criticidade e que nos permitam abstrair sem perder a noção do que se passa. Mais do que isso. Que nos auxilie no entendimento dessa sandice toda e nos tire desse torpor.

Dandara Palankof: Acho que a Ragu sempre teve uma perspectiva política porque fazer arte como Mascaro e Lin se propõe sempre acaba levando a isso de uma forma ou de outra (as histórias do Menino de Rua Gigante são um exemplo muito claro). Quando essa Ragu começou a ser gestada ainda nem tínhamos chegado ao início da pandemia no Brasil (chegamos até a nos encontrar presencialmente antes disso), mas o desastre da atual presidência já era uma nuvem sobre as cabeças de todo mundo – até porque a gente vem nesse descalabro desde 2016. Então creio que a vontade de refletir sobre o estado das coisas acabou sendo meio natural, de tentar exorcizar um pouco esse nosso estado de exceção.

Eu queria voltar lá atrás e saber mais sobre as origens da Ragu. Vocês podem contar um pouco sobre o ponto de partida da revista? Como ela teve início? Qual era a proposta inicial de vocês com a Ragu?

Lin: A Ragu surgiu principalmente da nossa necessidade de publicar nossas histórias, ilustrações, cartuns, e de ver nas bancas uma revista de quadrinhos autorais, coisa que era rara nos anos 2000 quando fizemos a primeira edição da revista  (número zero). Ter uma publicação que “mirasse” na produção nordestina de quadrinhos também era nossa intenção, visto que era raro autores da região publicarem em revistas “nacionais”.  

Mascaro: As primeiras conversas sobre a Ragu acho que ocorreram em 1998, 1999. Ela saiu em 2000. Era um cenário em que o quadrinho estava muito em baixa. Mesmo o quadrinho mainstream estava sendo pouco publicado. Acho que o que resume bem nossa motivação original, e meio que ela segue como bússola, era fazer uma revista de quadrinhos que queríamos ver nas bancas (ainda existiam bancas). Nossa ideia também era a de publicar autores e introduzir outras vozes que estivessem fora do eixo Rio-São Paulo. Não era uma voz com sotaque necessariamente, apenas novos autores contando histórias próprias. À medida que ela passou a ser publicada ela foi ganhando público fora do Recife e aos poucos ampliamos nosso leque de colaboradores. Foi um processo natural de expansão do nosso alcance, tanto com leitores como colaboradores.

“Considero a produção dos quadrinhos hoje mais inventiva”  

Página de Rafael Sica presente na Ragu #8 (Divulgação)

E quais vocês consideram as principais diferenças, os maiores contrastes, entre o mercado brasileiro de quadrinhos da época da estreia da Ragu e o cenário atual, no qual a revista está voltando?

Lin: A quantidade de quadrinhos publicados (falo de quadrinhos independentes) era muito menor e a diversidade também. A possibilidade de publicar um livro de quadrinhos, uma história longa por uma editora era bem menor naquele cenário. Também considero a produção dos quadrinhos hoje mais inventiva, mais criativa, mais ousada, com um pé na realidade e muita liberdade para divagar e recriar mundos. 

Mascaro: Naquela época não tinha um mercado propriamente. Isso é um exagero e uma verdade ao mesmo tempo. De quadrinho nacional podemos dizer que não tinha mesmo (mercado). É algo muito recente. Essa pulsão de hoje é inédita. Ela é profundamente estimulante e inspiradora. O quadrinho brasileiro não só é compatível com o que se produz fora – mas é dos mais interessantes.

Por que voltar com a Ragu hoje? Como esse projeto teve início?

Lin: Desde a edição 7 da revista, fizemos algumas tentativas de retorno buscando financiamento via editais públicos, mas não tivemos sorte. Nunca paramos de buscar alternativas para editar a Ragu. Essa edição é resultado dessas tentativas.. 

Mascaro: Na verdade a gente nunca quis parar. Durante todo esse tempo aplicamos o projeto nas Leis de Incentivo a Cultura, ano a ano, mas nunca mais fomos contemplados. Ano passado conseguimos aprovar nosso projeto com a Cepe, que tinha criado um selo de quadrinhos e acolheu a Ragu.

“Nossa ideia foi estender a experiência da colaboração para a edição”

Quadros da HQ de Aline Zouvi para a revista Ragu #8 (Divulgação)

Por que chamar o Paulo Floro e a Dandara Palankof para coeditar esse novo número da Ragu?

Lin: Temos muita afinidade com Paulo e Dandara, quando vimos a Plaf já nos identificamos com a forma deles pensarem quadrinhos. A nossa aproximação foi se dando nas conversas sobre quadrinhos, nos espaços de reflexão sobre a produção gráfica-visual e na instigação para a criação de ações como festivais e mostra de quadrinhos e ilustração aqui em Recife. Essa parceria na edição também abria a possibilidade da Ragu chegar junto de autores e autoras dessa nova geração.

Mascaro: Nossa ideia foi estender a experiência da colaboração para a edição. Queríamos trabalhar junto com a Plaf, revista que admiramos e respeitamos. Carol não pôde porque estava terminando o doutorado. Paulo e Dandara são peças importantes para a qualidade que essa edição traz. Seus insights, ponderações e curadoria enriqueceram muito o produto final. 

Paulo e Dandara, o que representou para vocês trabalhar nessa nona edição da Ragu? Quais vocês consideraram o maior desafio desse projeto?

Floro: Pra mim foi uma honra participar desse projeto, pois a Ragu sempre foi uma referência importante pra mim desde que comecei a cobrir e acompanhar quadrinhos. Quando criamos a Plaf pensamos logo de cara em trazer uma reportagem histórica sobre a Ragu como forma de recuperar um legado que consideramos importante para os quadrinhos brasileiros, mas sobretudo para a cena artística aqui do Nordeste. O desafio para esta nova edição foi conectar o espírito inovador das primeiras edições da Ragu com este novo número, mas acho que conseguimos isso com a seleção de autoras e autores deste novo número. Essa seleção tem a cara da Ragu ao mesmo tempo em que insere a revista no contexto desse cenário atual dos quadrinhos, que é bem mais instigante e prolífico que no início dos anos 2000. 

Dandara: É o tipo de coisa que nunca imaginei que um dia faria, que estaria contribuindo em um projeto como esse, que significa tanta coisa, que tem tanta história. Eu até alguns anos era só uma leitora e entusiasta, às vezes acho até meio surreal. Acho que Paulo sintetizou bem, talvez o maior desafio tenha sido esse de pensar o que poderia ser essa nova Ragu, nesse momento do quadrinho brasileiro, nesse contexto sociopolítico. Mas a proposta que então Lin e Mascaro botaram na mesa pra essa edição foi perfeita nesses aspectos, a partir daí foi só uma questão de ir dando forma a ela.

Quadro da HQ de João Pinheiro para a Ragu #8 (Divulgação)

Queria saber como foi a dinâmica entre vocês na edição. Como foi esse trabalho em equipe? Como vocês distribuíram as funções de cada um?

Lin: Não pensamos antecipadamente como se daria o trabalho na edição, fomos construindo de maneira espontânea à medida que as demandas iam surgindo. As indicações dos nomes para a edição eram colocadas na mesa e todos juntos avaliávamos até chegar a um consenso. A relação/interação com os autores e autores se deu a partir da proximidade com os/as colaboradores/as. Cada um de nós se responsabilizou por um grupo de autores/as com os quais tínhamos maior afinidade.

Mascaro: Além de todos opinarem em tudo, dividimos por cada editor um número de colaboradores e a administração dessa troca (fazer contato, encaminhar e receber burocracia, acompanhamento da produção, etc). Tudo foi muito orgânico. Discutíamos sobre o que recebíamos e lapidamos juntos essa edição. Diogo, além de participar dessas discussões, foi nossa ponte na dinâmica com a editora. Eu também fiquei responsável pelo design – sugerindo a sequência das histórias para dar o ritmo da revista. 

“A ideia era que as histórias refletissem esse momento que vivemos”

Quadro da HQ de Aline Lemos para a Ragu #8 (Divulgação)

Vocês estabeleceram algum filtro ou recorte editorial para os trabalhos publicado nessa Ragu #8? Qual foi a encomenda feita por vocês aos artistas que participaram da revista?

Lin: Nós estabelecemos um tema/guarda-chuva que orbitava em torno da ideia de engajamento e posicionamento político diante do momento que vivemos. Apesar disso a liberdade nas abordagens tinha que ser garantida e até estimulada, assim garantimos uma diversidade de olhares e percepções ampla e sem restrições para a criação e experimentação. Acho que isso sempre foi presente na Ragu. A encomenda foi feita para contemplar esse “grande tema”, mas estimulando a livre expressão sobre ele.

Floro: Inclusive nós decidimos evitar comentar muito esse tema em releases e na própria Ragu, pois queríamos que as HQs falassem por si. Acho que a seleção deixa isso bem claro, esse ativismo artístico a partir da experiência da linguagem dos quadrinhos. 

Mascaro: Trabalhamos com o que chamamos de um “quase conceito” para a edição. Mandamos um texto sobre essa ideia para os colaboradores junto com o convite. A ideia era que as histórias refletissem esse momento que vivemos, mas não queríamos impor. Poderiam, claro, abordar de qualquer maneira. Diretamente, metaforicamente, sugerir ou ir direto ao ponto. Como quisessem. Os colaboradores também poderiam ignorar esse “quase conceito”. Não queríamos perder a liberdade característica da Ragu e nem queríamos uma edição panfletária, temendo histórias repetitivas. Também para evitar que ela eventualmente ficasse datada. Acho que acertamos. Ela é “quase temática”. Essa edição reflete o espírito do nosso tempo de maneira crítica, lúdica e estimulante. Também tem coisas completamente fora desse recorte. Esses “respiros” ajudaram a balancear a edição. 

Dandara: E acho que no fim esse “quase tema” funcionou melhor do que se houvesse uma proposta,  um conceito fechados, um briefing que direcionasse demais. As histórias são muito diversas, muito plurais em abordagens e estéticas. Mas para além de uma antologia que mostra os artistas sendo tão sinceros, por causa dessa liberdade, todas essas histórias meio que se entrelaçam em um outro plano, mas relações de causa e efeito vindas das estruturas nas quais se baseiam nossas relações e sistemas sociais. Creio que essa Ragu, em sua totalidade, acaba sendo uma bela representação disso que dificilmente poderia ser realizada de outro modo.

E como foi o trabalho de seleção dos artistas que participaram dessa nova Ragu? Quais foram os critérios de vocês? Por que chamar as pessoas que vocês chamaram?

Lin: Diversidade de olhares e de lugares de fala nos orientou nas escolhas. Além disso a “presença”, atuação, engajamento dos autoras e autores no momento atual com a sua produção gráfica nos ajudou nas escolhas. 

Floro: A Ragu 8 deixa bem explícito o quanto a cena atual de quadrinhos no Brasil hoje é diversificada. E falo isso em todos os sentidos, tanto do ponto de vista dos interesses artísticos, das temáticas, identidades, origens, estilos…

Dandara: Todo mundo trouxe vários nomes e jogou na roda meio que tentando antever, a partir das características de cada um, o que possivelmente eles trariam pra compor o que acredito que todos queríamos que fosse um grande mosaico. Daí somos quatro com muitas intersecções, mas muitas diferenças – e esse era o objetivo, creio que a pluralidade da edição comece desde a pluralidade dos nossos olhares. E no processo de chegar a esses consensos, talvez o que guiasse foi o entendimento de que todos ali teriam algo de pujante a “dizer” (e coloco entre aspas pq obviamente a gente não tá falando só dos aspectos mais literais). E acho que que foi um objetivo cumprido, não creio que haja uma só página nessa edição pela qual o leitor passa passar batido.

“A pluralidade de maneiras de propor narrativas denota uma maturidade incontestável do nosso quadrinho”

Página da HQ de Laerte e Rafael Coutinho para a Ragu #8 (Divulgação)

Gostei muito da capa. Por que convidar o Henning Wagenbreth? Vocês fizeram alguma encomenda em particular para ele?

Lin: O trabalho do Henning dialoga com essa perspectiva crítica presente na Ragu e especialmente nesta edição. Além disso é um cara que tem uma relação com elementos da cultura nordestina como a literatura de cordel. Em 2018 ele fez uma grande exposição em Berlin que envolvia essas referências da literatura de cordel no trabalho dele e da xilogravura como elemento presente na sua produção gráfica, no seu desenho. 

Mascaro: Tínhamos o desejo de convidá-lo há muito tempo. João conheceu ele anos atrás num evento em Porto Alegre, eu acho. E ajudou o Henning na pesquisa sobre cordel para uma exposição em Berlim. Quando conseguimos aprovar a edição o convidamos. Ele não seguiu, necessariamente, o “quase conceito” e fez uma capa linda. Ela tem muita força. Lembro que quando o convidamos ele respondeu: “se vocês acham que sou a pessoa certa eu topo”. 

Mando essas perguntas às vésperas do lançamento da revista, imagino que a edição já esteja fechada. Qual balanço vocês fazem do resultado final desse oitavo número? O que mais surpreendeu cada um de vocês?

Mascaro: Gosto muito da edição. Acho que ela marca o retorno do projeto traduzindo de maneira contundente não só o momento que estamos passando, mas também o momento do quadrinho brasileiro. A pluralidade de maneiras de propor narrativas, muito distintas entre si, todas poderosas, denota uma maturidade incontestável do nosso quadrinho. Outro aspecto muito importante nessa edição é a presença feminina. Quando a Ragu começou era bem raro. Incrível como mudou rápido.  Hoje elas são parte fundamental desse movimento no quadrinho brasileiro. É importante criar canais para essas novas narrativas – são muitos lugares de vozes que precisam ser contemplados. Acho que é isso que a Ragu sempre fez e acredito que continua fazendo. 

“A cada nova HQ que chegava todos ficávamos impressionados”

Quadros da HQ de Marília Marz para a Ragu #8 (Divulgação)

Aliás, vocês podem, por favor, cada um, comentar algum dos trabalhos impressos publicado nesse retorno da Ragu que tocou ou chamou a sua atenção por algum motivo específico?

Lin: Gosto muito da forma direta, de como se implica explícitamente a Aline Zouvi na sua HQ. A simplicidade do seu desenho. Me toca forte também a melancolia e desencanto do olhar de Sica, o pôster é muito forte com aquele cenário desolador. Os trabalhos de Zimbres e Jaca tem a pegada experimental e nonsense que me instigam e que tem uma presença marcante na história da Ragu.

Floro: Todos os trabalhos ficaram incríveis, a cada nova HQ que chegava todos ficávamos impressionados. Eu gosto muito da experimentação que Aline Lemos faz com o próprio suporte das HQs através da colagem e do lambe-lambe. Mariana Waechter também me chamou atenção por sua HQ que tem um clímax e plot twist bem interessante. E também gosto dos trabalhos mais experimentais como Zimbres, Flavush, Luiza Nasser. 

Dandara: Eu sei que pode parecer conversa de mãe que diz que não tem filho preferido, mas: todas. Sério. Todas. Por todas essas razões que a gente veio citando até aqui. E mesmo as histórias mais longas ainda são curtas, além das ilustras; e mesmo assim eu olho pra todas e vejo muita alma, muita entrega – e nisso incluo as páginas dos próprios Lin e Mascaro, que são dois monstrinhos. Acho que foi resultado da mistura do momento que a gente vive com a crença no projeto e na história da Ragu. Foi um privilégio enorme poder contar com artistas e obras nesse nível – e aproveito então pra agradecer mais uma vez a todos eles: obrigada por terem topado a empreitada, obrigada por esses trabalhos incríveis, obrigada por fazerem quadrinhos. A Ragu só existe por causa desse fogo. E falando nisso: obrigada a Lin e Mascaro (que são dois monstrinhos, já disse isso?) por nunca terem desistido de trazer a Ragu de volta. E obrigada por levar a gente pra junto pra participar desse momento.

Vocês têm planos para dar continuidade à revista após esse oitavo número?

Lin: Sim, estamos negociando com a Cepe a continuidade da Ragu (formato mix), mas também estamos com planos de outras publicações com o selo Ragu, como foi o caso da Ragu Cordel e da edição Domínio Público. 

Floro: A ideia com essa parceria com a Cepe é manter a regularidade de uma edição por ano da Ragu. 

A capa da revista Ragu #8, com arte de Henning Wagenbreth (Divulgação)

Entrevistas / HQ

Papo com os editores da revista A Zica: “Fazer esta revista com recursos públicos durante este governo é uma retomada de posse e marcação de território para produção cultural” 

A sexta edição da revista A Zica tem como tema “escola, café e videogame”. Com capa de Suryara Bernardi, o mais recente número da publicação editada por Luiz NavarroMarcos Batista e João Perdigão tem 168 páginas e conta com trabalhos de 73 artistas (brasileiros, argentinos, mexicanos, indianos e portugueses). Sua impressão foi bancada via recursos públicos da Lei Aldir Blanc.

Entrevistei os três editores e perguntei sobre a importância do lançamento dessa nova Zica em meio ao governo de Jair Bolsonaro. A resposta: “Quando ela for lida daqui a muitos anos, será entendida neste contexto neofascista, e os trabalhos produzidos vão ser uma nota histórica importante de que tinha muita gente horrorizada e insatisfeita com este anacronismo que é essa extrema-direita no poder”.

No nosso papo, Navarro, Batista e Perdigão também fizeram um balanço sobre esse sexto número da revista, comentaram suas principais surpresas com essa nova edição e refletiram sobre os mais de 10 anos de existência do título, entre outros temas. Aproveito para recomendar a leitura da minha entrevista com o trio na época do lançamento da Zica #5 e deixo, a seguir, a minha nova conversa com os três. Ó:

“Cada vez mais queremos abarcar diversidades de estilos e artistas”

Página de HQ de Beatriz Shiro publicada na sexta edição da revista A Zica (Divulgação)

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas aí? Como vocês estão lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a produção e a rotina diária de vocês?

Absolutamente. Nós três somos escritores, pesquisadores, livreiros, produtores, comerciantes – em maior ou menor grau todos exercemos estas funções – e a pandemia acabou fechando algumas dessas portas para nós. João e Batista lançaram livros durante a pandemia e não puderam fazer uma rotina de lançamento viajando e divulgando seus trabalhos. A própria Zica não pode ter um lançamento com evento festivo e alegre, como a gente gosta. A Feira Canastra que tem entre seus produtores Luiz e João tem data incerta para a próxima edição, a grana ficou curta para todos nós. Mas a gente não adoeceu, e os nossos, em grande maioria, estão bem, então estamos gratos e atentos.

No editorial da revista vocês explicam a escolha de “escola, café e videogame”. Fiquei com a impressão de vocês irem num tema central/factual/urgente da nossa realidade (escola) a dois métodos escapistas muito convenientes para encarar (café) e fugir (videogame) dessa mesma realidade. Vocês podem fazer um balanço entre as expectativas de vocês quando optaram por esses temas e as obras que receberam?

Os temas em geral seguem a lógica de ter um sobre o Zeitgeist do momento da edição (apocalipse, Rússia, América Latina, propaganda), uma mais comportamental (maconha, bullying, vandalismo) e um mais zoeiro-tema livre (vermes, dinossauro, trevas). Mais ou menos assim que vemos a escolha dos temas. Então ficamos nesta edição com escola como o grande tema da temporada (o zeitgeist), o video-game como o comportamental e o café como tema livre. Mas sempre cremos que não há uma hierarquia entre eles, que todos importam da mesma forma, têm o mesmo peso.

Nesta edição a expectativa era que todos temas trariam boas reflexões e múltiplas abordagens, e foi exatamente o que aconteceu. Já teve edições que um dos temas quase não foi abordado, já teve outras que um dos temas era quase onipresente nos trabalhos. Nesta há um equilíbrio e uma diversidade muito satisfatória, que dão uma dimensão bem grande de leitura da revista.

Página de HQ de Diego Melo Gomes publicada na sexta edição da revista A Zica (Divulgação)

E como vocês acham que essa nossa atual realidade sócio-econômica-pandêmica impactou o resultado final da revista? Eu tendo a ver coletâneas como A Zica como espaços muito ocupados por obras de humor e não sei se foi o caso dessa edição nova de vocês. Ela me parece mais séria, com algumas obras mais pessimistas e agressivas, do que encontrei em edições prévias. Vocês concordam?

Concordamos em parte. De fato a maior parte das antologias brasileiras desta natureza têm um foco em humor, creio que é um brilho e uma tradição do país. Mas cremos que A Zica está em constante mudança, nunca primamos por ser uma publicação de humor. Cada edição fica à mercê do que recebemos, e apesar de haver um processo de edição, não temos todo esse poder de direcionar a revista para um lado ou outro pois se recebermos somente quadrinhos, ou somente ilustrações, será uma edição que reflete o conteúdo recebido. Por exemplo, a primeira edição era basicamente com trabalhos de artistas de rua, só com ilustrações e textos (sem quadrinhos), a quinta edição é mais bem humorada, a sexta é mais sóbria, com menos peças de humor e mais reflexão.

Esta última achamos que ficou bem engraçada, muitos trabalhos bem humorados também, mesmo que em um humor que talvez reflita o desespero, o desolamento e o cinismo das pessoas ante este mundo e este Brasil de 2021. Não é uma revista sobre a pandemia, mas uma revista produzida durante a pandemia. Inevitavelmente esse contexto influiu nos trabalhos. E engraçado pensar sobre sua percepção, creio que nenhum de nós pensaria que A Zica seria mais ocupada por humor, talvez sempre vimos ela com mais ênfase no protesto. Mas é a visão de cada pessoa que lê que forma a revista, aliado ao material recebido a cada edição.  

Repito duas perguntas da entrevista que fiz com vocês sobre a edição passada: o que houve de mais singular durante o desenvolvimento desse sexto número d’A Zica? E o que mais surpreendeu vocês em relação aos trabalhos que receberam?

Uma das coisas que mais nos surpreendeu foi receber e publicar tantos trabalhos do universo LGBTQI+. A Zica nunca recebeu tantos trabalhos que versam sobre o queer como nesta edição. É uma coisa que nos deixa feliz, a revista ser vista por artistas como um espaço para publicação de trabalhos que tocam nesta vivência. Foi muito espontânea essa abordagem, pois nós não incentivamos aos artistas que enviassem trabalhos queers, nem os temas desta edição são particularmente sugestivos para que esta vivência fosse abordada. E cremos que o que isso mostra, como já sabemos, é que o queer está embebido no nosso mundo e atravessa todos os assuntos, então falar de video-game, escola e café, ou qualquer outro assunto, permite este tipo de visão das pessoas que estão vivendo e trabalhando sob esta ótica.

Outra questão que marcou nessa edição foi o processo de desenvolvimento da capa. Nós estávamos pensando se escolhíamos entre algum dos trabalhos recebidos ou se convidávamos um artista para produzir a capa. Numa conversa entre o João e uma amiga, a Débora, surgiu a ideia de fazer uma referência às manifestações dos secundaristas que ocuparam as escolas do país entre 2015 e 2016. Essa ideia surgiu a partir da inspiração de um dos trabalhos que recebemos, da Suryara: uma ilustração de uma estudante negra em cima de uma cadeira com uma bandeira de protesto. Nós não conhecíamos a Suryara nem o trabalho dela e fomos pesquisar. Foi surpreendente. Ela tem um traço delicado e muito bonito. Daí, convidamos ela para a capa. A ideia, que foi uma sugestão também da Débora, foi fazer uma releitura de uma foto emblemática daqueles protestos de uma estudante negra chamada Marcela Nogueira disputando uma carteira com um policial militar. O resultado foi incrível e muito forte. Toda a potência da imagem traduzida em um traço muito delicado. Gostamos muito desta capa. E isso revela outro aspecto surpreendente desta Zica: recebemos muitos trabalhos com traços e estilos mais delicados, mais sensíveis. O que derruba um estigma da Zica ter uma identidade hardcore e só. Cada vez mais queremos abarcar diversidades de estilos e artistas e estamos conseguindo.

“A Zica nunca recebeu tantos trabalhos que versam sobre o queer”

Página da HQ de Manda Conti publicada na sexta edição da revista A Zica (Divulgação)

E sobre a proposta da Zica de servir de vitrine para novos talentos: quais autores que nunca tinham saído na revista que mais chamaram atenção de vocês? Confesso ter ficado bastante impressionado com o trabalho de Manda Conti.

Manda Conti foi uma das alegrias que a descoberta traz. Outra é a Suryara, que já comentamos. Falar de nomes é sempre um dodói num tipo de publicação assim, ainda mais pra Zica que novidades e nomes conhecidos são sempre vistos na mesma régua de certa maneira. Mas o trabalho de Ismael Flores é uma surpresa maravilhosa, pois é um ilustrador mexicano de mão cheia que nunca havia publicado um quadrinho, e logo na Zica ele envia um trabalho tão complexo (em termos de execução) e sensível – Memórias de um Mirão, leiam. Temos também os textos, que nesta edição tivemos uma atenção maior em publicar, para que nas próximas edições possamos ter uma adesão maior de quem escreve sem pressão entre quem é jornalista, poeta ou contista, queremos que escritores e escritoras tenham A Zica como um lugar de publicação também. Tem uma participação supimpa do Cecil Silveira que fez nossa primeira duotone, que agora abre as portas para que na próxima edição possamos receber trabalhos em duas cores, e não apenas em escala de cinza. Tem o Diego Gomes que nos divertiu imensamente com sua junção de Hermes e Renato com Charles Darwin, a Bia Shiro com uma porradona riot zoando os macho game. Mas no geral esta é a revista com mais surpresas, o que nos mostra que já circulamos mais do que imaginamos, e mais artistas fora do nosso radar entram em contato conosco, o que nos alegra pois a revista está cumprindo sua missão.

Página da HQ de Marco Vieira publicada na sexta edição da revista A Zica (Divulgação)

Já são mais de 10 anos desde o lançamento da primeira Zica. Na nossa última conversa vocês já falaram sobre as muitas diferenças que notaram no cenário de quadrinhos/publicações independentes no qual A Zica está inserida. Queria saber agora: nesses mais de 10 anos, vocês notam muitas transformações nos interesses e nas investidas estéticas dos autores desse cenário? Se sim, vocês veem essas transformações presentes de alguma forma nessa sexta Zica? 

Totalmente. Os interesses e investidas apresentados nos trabalhos estão bem mais diversos do que o cenário apresentava 10 anos atrás. Como falamos, muitos trabalhos queer, e também mais liberdade e maturidade para falar de sentimentos mais complexos como perdas, amadurecimento e sentimentos íntimos. Creio que de forma inconsciente o habitual de trabalhos passados eram impressionar, pelo visual do trabalho ou pelo choque do discurso. Falo isso não das edições passadas, mas do cenário brasileiro. E assim como a cena artística nacional, que A Zica é mero reflexo, esta edição apresenta trabalhos mais radicais, seja pela honestidade escancarada, sem que o choque seja o gancho que fisgue quem lê, seja pela diversidade de técnicas e estilos, que já não são mais tão espetaculares ou toscos radicais. Temos uma gama de artistas produzindo trabalhos de tudo que é forma, mas menos preocupados em atender uma estética publicitária ou das redes sociais, mas que sejam honestas com a verdade de quem produz, então nesta edição fica bem claro que o desenho mais (tecnicamente) incrível e o mais radicalmente desgraçado não querem agradar uma agenda social, mas sim agradar quem os cria. Ficamos felizes em ver que os artistas e as artistas conseguem veicular mais e melhor suas próprias vozes e verdades, o que talvez fosse ainda incipiente há 10 anos.

A Zica #5 saiu às vésperas das eleições de 2018. Na época perguntei qual vocês consideravam o papel de uma publicação independente, com ares subversivos como A Zica em um contexto de conservadorismo crescente. As coisas pioraram muito de lá para cá. Qual vocês consideram o papel de uma publicação como a Zica hoje, no Brasil de Jair Bolsonaro?

Fundamental, histórica. Nesta edição tivemos noção que ela é um documento histórico para daqui 20, 30, 100 anos. Quando ela for lida daqui a muitos anos, ela será entendida neste contexto neofascista, e os trabalhos produzidos vão ser uma nota histórica importante de que tinha muita gente horrorizada e insatisfeita com este anacronismo que é essa extrema-direita no poder. E para que isso ficasse mais pungente tomamos certas atitudes como inserir os créditos junto das próprias páginas, e não escolher temas correlatos ao momento como a própria pandemia ou o fascimo. Isso contribuiu para que os trabalhos enviados refletissem sobre essas questões de forma mais mundana, dando aos leitores futuros essa noção de que quem viveu e estava ativo durante esse período falava de assuntos da vida, da liberdade, do entretenimento, falando desta realidade atual de forma escancarada ou sutil, formando assim um mosaico mais complexo e completo deste nossos tempos.  

Ter a marca deste governo na quarta capa é a cereja do bolo. Fazer esta revista com recursos públicos (via Lei Aldir Blanc) durante este governo é uma retomada de posse e marcação de território para produção cultural. E criar uma revista que se opõe a tudo que estas marcas impressas na nossa contracapa é uma das coisas mais gostosas que a revista nos permitiu criar.

Outro ponto importante: é um tesão produzir trabalhos editoriais impressos, gráficos, feitos de papel, em pleno 2021, em contraposição à onipresença das telas e dos conteúdos digitais, virtuais. É muito bom criar espaços para artistas produzirem sem os moldes e expectativas de uma mídia como o Instagram.

“É um tesão produzir trabalhos editoriais impressos em pleno 2021”

Página da HQ de Cecil Silveira publicada na sexta edição da revista A Zica (Divulgação)


Última! Pediria para cada um dos três, por favor: você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Batista: minha recomendação é o novo single da banda Isso, de Belo Horizonte, com a música A Estrada, belíssima composição e grande gravação; a biografia do João Perdigão para Guignard, chamada Balões, vida e tempo de Guignard que estou lendo; e o gibi DF Medieval, do Munha da 7 e do Gabriel Mombasca, ambos de Brasília, que contam a história da Idade Média do DF de forma absolutamente engraçada e original (no momento o livro está no Catarse e já atingiu a meta, mas conheço o projeto há anos, e já li boa parte do material publicado em zine, e é incrível).

Luiz: Durante a pandemia, não tem jeito, é surra de Netflix rs. Tenho visto muitos filmes e séries ótimas. Entre os mais recentes que vi, tem o Judas, o Messias Negro e A Voz Suprema do Blues, esse último com atuações muito boas do Chadwick Boseman e da Viola Davis. Nele, me chama a atenção a história da produção cultural independente americana, com suas pequenas gravadoras musicais, e me remete ao que vivemos hoje no universo das publicações, com muitos artistas e pequenas editoras se profissionalizando. O documentário do Elvis Presley também é muito legal pra observar esse universo. Já sobre o universo maluco das artes plásticas, tem o documentário Fake Art, que dá uma ideia de como é doida a forma como o capitalismo lida com a arte. Uma animação: Midnight Gospel, é bem pop mas vale a pena assistir. E tão rolando várias produções não americanas muito boas, como a série sueca Dinheiro Fácil (Snabba Cash), que tem um ritmo e um estilo muito legais. Entre os brasileiros, sugiro o Joaquim, filme biográfico sobre o Tiradentes, do mesmo diretor de Cinema Aspirinas e Urubus, e o Arábia, dos mineiros Affonso Uchoa e João Dumans.  Videogame: tô viciado em Two Dots, um quebra cabeça para celular, muito inteligente e bem feito.

João: Trabalho como pesquisador e escritor, mas meu consumo cotidiano geralmente tá relacionado com trabalhos de pesquisa e documentário – amo! O último livro que li e gostei muito foi Enverga, mas não quebra: Cintura Fina em Belo Horizonte, do Luiz Morando, que é um pesquisador monstrão da memória LGBTQI+ de BH, que através de documentos, revela a vida de Cintura Fina, que até então era uma figura mitológica que só era conhecida nossa através de sua representação na mini-série Hilda Furacão – e a abordagem é bem diferente. Outro livro que chapei foi História da poesia visual brasileira, organizado pelo Paulo Bruscky, que fez uma compilação belíssima sobre a produção gráfica nacional dos últimos 100 anos de uma maneira muito bonita. O que conto quando conto como piada, do Batista virou um livro de cabeceira aqui em casa, é pra ler várias vezes e rachar de rir. Já de documentário, tenho pirado muito em festivais que me mostram coisas muito boas produzidas além da bolha Netflix/Amazon, como É Tudo Verdade (de docs), e mais recente, o In Edit Brasil (de docs musicais), além do bom e velho forum makingoff.org, que me aplica outros tantos -destes aí, vou citar  três; Tio Tommy – O homem que fundou a News-Week (2021), sobre o empresário/espião norte-americano que viveu no Brasil, SpeedfreakS: Psicopata camarada (2021), sobre a trajetória do rapper morto misteriosamente em Niterói e Falso ou verdadeiro – Fabricando ignorância (2021), produção do canal de TV alemão DW sobre a invenção de revisionismo científico patrocinado pelas grandes corporações.E de música, vou citar três sons de diferentes gêneros; Matéria Prima, Divergência Socialista e Arca. 

A capa da sexta edição da revista A Zica (Divulgação)