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Entrevistas / HQ

Papo com Rogi Silva, autor de Pumii do Vulcão: “Me cansei de notícias ruins e quis resgatar o meu gosto por histórias fantásticas”

A primeira temporada de Pumii do Vulcão, do quadrinista Rogi Silva, consta entre as minhas leituras preferidas de 2020. Essa leva inicial da série é composta por 50 posts, compartilhados duas vezes por semana pelo autor no Instagram entre 25 de março e 5 de novembro do ano passado. A segunda temporada da HQ tem estreia marcada para 12 de janeiro de 2021, com promessas de novas atualizações sempre às terças e quintas.

Pumii é poesia em quadrinhos protagonizada, ocasionalmente, pelo personagem-título e sua amiga Merapi, habitantes de um vulcão. A série é centrada, principalmente, nas interações da dupla com outras criaturas da fauna e da flora da ilha em que vivem.

“Olha, imagino que seja um quadrinho poético fantástico mesozóico devoniano”, me conta o artista em tom bem-humorado quando pergunto sobre o gênero no qual ele classificaria esse trabalho.

Autor de Não Tenho Uma Arma, Aterro, Mergulhão, Planta e Pedra Pome (vencedora do Prêmio Dente de Ouro 2020), Silva diz planejar mais 80 episódios para Pumii. Após o término, ele quer lançar a série em uma edição impressa, em parceria com alguma editora ou via financiamento coletivo. Na entrevista a seguir o quadrinista fala sobre as origens de Pumii, a segunda temporada do quadrinho e o futuro da HQ. Papo massa, saca só:

Tô perguntando para todo mundo que passa aqui pelo blog: como estão as coisas aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de algumas forma a sua produção e a sua rotina diária?

O começo foi difícil, as coisas pareciam que nunca iriam estabilizar, mas o tempo foi passando e criei uma casca mais dura para lidar com a situação.  Logo no começo do isolamento me mudei para bem próximo do mar, era um lugar mais isolado e com clima de “férias”. Isso aliviou bastante a minha ansiedade. Nesse período escrevi e li bastante, descobri novos escritores e quadrinistas. Aliás, tenho alguns projetos em andamento que foram concebidos durante essa quarentena próximo ao mar.

Você pode me contar um pouco, por favor, sobre as origens de Pumii? Essa história tem algum ponto de partida em particular?

Pumii do Vulcão, teve começo quando me cansei de notícias ruins na internet e quis resgatar os meus gostos por histórias fantásticas e poemas. É uma mistura dessas referências que sempre tive mas nunca foram evidentes em trabalhos anteriores que publiquei.

Painel de Pumii do Vulcão, HQ de Rogi Silva

Acho que obra nenhuma precisa ser enquadrada em nenhum gênero em particular, mas fico curioso: em qual gênero você colocaria Pumii?

Olha, imagino que seja um quadrinho poético fantástico mesozóico devoniano rs

Não gosto de ler quadrinhos no computador, em tablets e celular, mas acho que esse formato do Pumii funciona bem para mim, com cada post equivalendo a uma página. Como você chegou nesse padrão?

Foi o desejo de contar uma história sem ter a obrigatoriedade de seguir uma estrutura narrativa comportada. Até porque, ultimamente, tenho achado esses tipos de narrativas muito enfadonhas de ler e fazer.

Também queria saber um pouco mais sobre o design dos personagens dessa série. Você pode me contar um pouco, por favor, sobre o desenvolvimento estético dos protagonistas da HQ?

O personagem Pumii surgiu quando estava desenhando no meu caderno aleatoriamente. A minha única preocupação era não desenhar um ser humano. Essa tem sido uma fixação constante minha, cansei de ver pessoas em minhas histórias em quadrinhos, agora quando elas aparecem sempre se dão mal. 

“Não excluí totalmente o papel do meu processo”

Painel de Pumii do Vulcão, HQ de Rogi Silva

Com quais materiais você está trabalhando nessa série? Envolve tinta e papel ou é tudo digital?

Tenho um caderno que fico planejando e escrevendo os episódios, para depois sentar em frente ao computador e passar a limpo tudo o que esbocei. Foi uma maneira que encontrei de produzir mais rápido, sem excluir totalmente o papel do meu processo.

A primeira temporada de Pumii chegou ao fim após 50 episódios. Você já sabe quantos episódios serão na segunda temporada? O quanto ela já está desenvolvida?

Provavelmente irei desenhar mais oitenta episódios para fechar. Não tenho todos escritos, mas já esbocei e escrevi bastante coisa que desejo trabalhar até que chegue ao fim.   

“Pensar no formato do livro me deixa muito empolgado”

Painel de Pumii do Vulcão, HQ de Rogi Silva

Aliás, você já sabe quando termina Pumii? Você já sabe como vai terminar a série?

Acho o final a parte mais interessante de criar para a história. Mas não gosto de pensar que tenho esse final fixo na mente. Estou permitindo que a história caminhe o suficiente para me mostrar como ela deve terminar. 

Há a possibilidade de vermos Pumii impresso em um futuro próximo?

Claro. Para me dar a sensação de que o projeto foi finalizado, isso tem que acontecer. Pensar no formato do livro me deixa muito empolgado. Mas ainda não sei como vai sair, por onde publicar. Uma certeza que tenho é que não tenho condição de bancar sozinho esse projeto. Se alguma editora não publicar, pretendo fazer algum financiamento coletivo. 

Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?

Tem dois autores que li ultimamente e me deixaram inquieto. São os ensaios e poemas de [Alexandre] Pushkin e os contos de Silvina Ocampo. Gosto da ironia, do humor estranho e dos lugares inusitados em que eles me levam. 

Painel de Pumii do Vulcão, HQ de Rogi Silva
Entrevistas / HQ

Papo com Luli Penna, autora de Milágrimas: “Minha ideia principal era que os desenhos pudessem rimar visualmente”

A quadrinista Luli Penna adaptou para a linguagem dos quadrinhos o poema Milágrimas, escrito por Alice Ruiz e transformado em música por Itamar Assumpção em 1990. Como canção, além da versão de Assumpção, também foi interpretada por cantoras como Zélia Duncan, Ná Ozzetti, Anelis Assumpção, Alzira E. e outras.

“Sempre quis desenhar uma letra de música e topei na hora porque amo essa letra”, me diz Luli Penna, autora do excelente Sem Dó (todavia), sobre o convite da editora Isabel Malzoni para transformar Milágrimas em quadrinhos para editora Caixote.

Acredito que o elemento básico da boa adaptação é a autonomia de existência em relação à obra que a inspirou. Mesmo seguindo à risca a letra de Ruiz e dialogando com vários dos elementos da música de Assumpção, a obra de Luli Penna independe de qualquer contato prévio com esses dois trabalhos que a inspiraram para funcionar.

Bati um papo com Penna na última semanas de 2020 sobre o desenvolvimento de Milágrimas. Ela falou de seu empenho para criar “rimas gráficas”, expôs suas impressões sobre os trabalhos de Alice Ruiz e Itamar Assumpção, comentou sua leitura recente de Akira e entregou um pouco sobre sua próxima HQ longa. Papo massa, saca só:

“Sempre quis desenhar uma letra de música”

Página de Milágrimas, HQ de Luli Penna inspirada na obra de Alice Ruiz (Divulgação)

Queria começar sabendo como estão as coisas por aí. Faltam só alguns dias para o fim do ano, então acho que já dá para perguntar:  como foi esse seu 2020 de pandemia? Como a pandemia afetou sua rotina de trabalho?

Acho que o pior do confinamento foi ver o país sendo estropiado diariamente pelo governo bolsonaro e seu projeto de genocídio e destruição. A impotência diante desse quadro desolador foi o pior da pandemia porque de resto meu dia-a-dia não mudou muito. Sempre trabalhei em casa. Claro que tudo ficou mais difícil sem poder contar com coisas tipo mandar o filho pra padaria no dia em que o trabalho aperta. Mas acho que o pior mesmo foi assistir o país sendo destruído com apenas uma panela e uma colher de pau na mão pra protestar pela janela.

Qual foi o ponto de partida do Milágrimas? Como surgiu a ideia de adaptar a letra da Alice Ruiz?

A ideia do livro foi da Isabel Malzoni, da editora Caixote, que tem toda uma relação muito linda e forte com essa música. Ela me ligou perguntando se eu topava transformar a letra em quadrinhos. Sempre quis desenhar uma letra de música e topei na hora porque amo essa letra.

“O que mais gosto em Milágrimas é que há uma aceitação muito linda de que viver é doído”

Página de Milágrimas, HQ de Luli Penna inspirada na obra de Alice Ruiz (Divulgação)

O que você pode contar desse processo de adaptação? Como foi transformar essa letra em HQ? Como foi o desenvolvimento desse projeto?

Minha ideia principal era que os desenhos pudessem rimar visualmente, que eles tivessem algum elemento gráfico que funcionasse como rimas, rimas gráficas. Acho que consegui isso em alguns momentos mas acho que poderia ter deixado esse recurso bem mais explícito.

Outra coisa que eu fiz questão foi não deixar que o milagre da música se resolvesse numa saída tipo Cinderela, com príncipe na porta da donzela chorosa.

Aliás, você se lembra do seu primeiro contato com esse trabalho da Alice Ruiz? Foi com alguma apresentação de algum músico específico? O que você mais gosta nessa letra?

Acho que essa letra marcou muita gente. No meu caso, ouvi pela primeira vez na voz do Itamar, que foi um artista muito importante na minha vida de frequentadora do teatro Lira Paulistana, na Teodoro Sampaio, onde o conheci .

A Alice Ruiz entrou na minha vida depois do Itamar. O que mais gosto em Milágrimas, e em Socorro, que parece uma letra prima da Milágrimas, é que há uma aceitação muito linda de que viver é doído. Há um acolhimento da dor. Acho precioso isso numa época como esta em que, a cada pôr do sol, as pessoas correm pra tirar uma selfie mostrando como estão incrivelmente felizes. A pandemia deu uma amenizada inicial nesse modo blogueirinha da alegria permanente que habita a todos nas redes sociais, mas as pessoas inventaram muito rapidamente um cabeçalho qualquer (apesar da pandemia, etc) pra introduzir mensagem de gratidão pela varanda gourmet com pôr de sol mágico.

“O Itamar me marcou profundamente durante a adolescência”

Quadro de Milágrimas, HQ de Luli Penna inspirada na obra de Alice Ruiz (Divulgação)

Sobre essas várias interpretações da letra, você tem alguma preferida? Tem alguma particularidade em alguma dessas versões que chama mais a sua atenção?

Sempre vou preferir a do Itamar, que foi um artista que me marcou profundamente durante a adolescência.

Lembro como gostei da forma como você retratou a fumaça do trem no início Sem Dó. Cheguei a comentar com você como achei uma sacada ótima. Vi muitas soluções do tipo se repetindo no Milágrimas. Imagino que adaptar uma música, com tantas metáforas, tenha exigido mais de você em relação a soluções gráficas. O que você pode contar dessa experiência?

Vitral! Muito legal ler isso porque juro que pensei em você quando desenhava isso, justamente porque me lembrei do seu comentário sobre o Sem Dó. Sim, como disse aí pra cima, minha ideia era compor rimais gráficas que fossem se repetindo ao longo do livro e esses círculos foram dando corpo a isso. O que eu acho legal é que no Sem Dó você sugeriu que meus círculos de fumaça lembravam as engrenagens do trem e sugeriam também a ideia do barulho da coisa, não apenas a imagem. Desenho sonoro. Amei isso.

No Milágrimas, tentei criar isso pelo movimento circular do disco e dos olhos girando nesse movimento permanente da música e da dor que vai acabar escorrendo pelos olhos.


Aí você pode falar um pouco sobre a costura que fez entre os guarda-chuvas da primeira página com os cabelos da personagem e dos discos dela?

Foi isso mesmo. A ideia era que algo girasse o livro todo, como um disco, os olhos e a dor que escorre como lágrimas no final.

Qual o balanço que você faz desse trabalho de adaptar essa letra/música? Foi mais difícil ou mais fácil do que você imaginou quando começou esse trabalho?

Demorei muito pra dar a forma inicial. Não veio fácil. Tentei começar várias vezes mas não progredia. Pela dificuldade que é criar uma personagem, um roteiro e tal, mas sobretudo porque tinha de conter a própria ideia da musica e tal. Além dessas dificuldades habituais, o trabalho me pegou num momento especialmente difícil, num momento em que estava muito sobrecarregada de trabalho, das dores da pandemia em geral e de uma separação recente que ainda estava doendo bastante. A separação poderia ter me ajudado, já que eu era a própria personagem, mas não é assim que funciona, né? rs Pra resumir, achei inicialmente que seria muito fácil porque a letra já existia, não precisaria criar o texto, mas as próprias dificuldades de adaptação acabaram se mostrando mais difíceis que eu imaginava.

“Akira é uma dose de imagens antidepressivas fortíssima”

Página de Milágrimas, HQ de Luli Penna inspirada na obra de Alice Ruiz (Divulgação)

Acho injusto perguntar sobre trabalhos futuros quando um artista acabou de lançar um trabalho novo, mas não resisto… Você já tem alguma próxima HQ em mente?

Estou já há bastante tempo fazendo uma segunda graphic novel. Comecei toda uma história que se passava no Rio De Janeiro, um projeto antigo que eu tinha de situar algo no Copacabana Palace, esse hotel incrível que inaugurou a própria ideia de Copacabana como praia. Mas o Brasil do Bolsonaro me tirou inteiramente a razão de ser dessa ideia e eu abandonei tudo (já tinha um roteiro e muitas páginas esboçadas). Comecei algo inteiramente novo e de caráter pessoal mas o roteiro está bem arrastado ainda. Como a vida. O mundo.

Você pode recomendar algo que tenha visto, ouvido ou lido nos últimos tempos? Teve alguma obra que te ajudou a encarar esses meses mais recentes de pandemia?

Cara, eu amei ler Akira, que eu nunca tinha lido. Acho que a Amanda Miranda também comentou isso outro dia, que estava lendo o Akira. O Guilherme Wancke também. Foi louco ver que havia mais gente lendo isso no mesmo momento. Não sei o que rolou pra eles, preciso até perguntar mas, no meu caso, essa HQ me deu um gás, uma vontade muito forte de continuar fazendo HQ, criando novas formas e tal. Aquele espetáculo todo, sabe?, de grids, movimentos, enquadramentos maravilhosos. Aquilo é uma dose de imagens antidepressivas fortíssima. Recomendo.

A capa de Milágrimas, HQ de Luli Penna inspirada na obra de Alice Ruiz (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Brian Michael Bendis, cocriador de Miles Morales e Jessica Jones e autor de Escrevendo para Quadrinhos: “É bom escrever mundos onde as diferenças são celebradas e a diversidade é abraçada”

O Demolidor de Brian Michael Bendis e Alex Maleev foi a última série de super-heróis que acompanhei mensalmente. Está entre as minhas leituras preferidas do gênero, assim como as 28 edições originais de Alias, série para a qual ele criou a detetive Jessica Jones. Segui durante um bom tempo seu Homem-Aranha Ultimate, mas fiquei pelo caminho e só fui ler alguns anos depois o surgimento de Miles Morales.

Dos trabalhos com personagens autorais dele li alguns encadernados de Powers, o primeiro de Scarlet e não muito mais do que isso. Não cheguei a ler nada dele para a DC, seu atual local de trabalho. O saldo é positivo, sempre me diverti com as HQs de Bendis. E assim também foi com Escrevendo para Quadrinhos – A Arte e O Mercado para HQs e Graphic Novels, livro recém-publicado no Brasil pela editora WMF Martins Fontes com tradução de Érico Assis.

Escrevi sobre Escrevendo para Quadrinhos para o jornal Folha de S. Paulo após ler a obra e bater um papo com o autor. Você lê o meu texto clicando aqui. Reproduzo a seguir a íntegra dessa minha conversa com o quadrinista, feita no início de novembro do ano passado. Ele me falou das origens do livro, deu suas impressões sobre o impacto da pandemia na indústria de quadrinhos e comparou suas dinâmicas de trabalho na Marvel e na DC. Confira o meu texto e depois volte aqui para ler essa conversa. Ó:

“Os quadrinhos podem ser videntes da cultura pop”

Quadros da parceria de Brian Michael Bendis com Mike Deodato em Guardiões da Galáxia (Divulgação)

Estamos no meio de uma pandemia, é um momento de muita tensão e risco para todo o mundo. Como você e sua família estão lidando com essa situação?

Estamos “bem”. Vivemos em Portland, Oregon, que está em constante caos esse tempo todo. É muito difícil ser pai, mas estamos fazendo isso. A boa notícia é que estamos todos saudáveis e gostamos muito uns dos outros.

Aliás, o impacto da pandemia é imenso em todas as áreas. A indústria do entretenimento tem sido bastante afetada, assim como o universo dos quadrinhos. Qual foi o impacto da pandemia na sua rotina profissional? Qual você imagina que será o impacto da pandemia no futuro da indústria de histórias em quadrinhos?

Historicamente, e parece que está acontecendo agora também, quando as coisas estão muito estressantes ou em recessão, as pessoas acabam procurando por entretenimento e escapismo. A partir do momento em que os Estados Unidos entraram em lockdown, meus feeds de mídia social ficaram cheios de pessoas presas com seus livros e filmes e apenas se divertindo. Todos estão se perdendo em longas investidas em livros, alguns lendo centenas de edições de quadrinhos de uma só vez. Portanto, há um pouco de luz do sol em tudo isso, estamos criando conexões por meio de histórias. Vejo um verdadeiro senso de comunidade e uma verdadeira sensação de estarmos presentes uns para os outros.

Agradeço que nunca me disseram para parar de trabalhar. Tenho que passar horas por dia pensando no Superman… Como trabalho. Então, por definição, se você está pensando no Superman, você está tendo pensamentos esperançosos. ACHO que não teria tido esses pensamentos de esperança se não fosse o meu trabalho.

Acho que a pandemia vai revelar muitas grandes obras de arte. Muitos de nós estão em casa tentando se desafiar a ser melhores, como artistas e humanos, vários de nós estão trabalhando na criação de mundos que façam mais sentido para nós do que aquele em que vivemos agora. Eu li literalmente uma dúzia de novos quadrinhos nas últimas semanas, cada um deles me apresentando a um mundo completamente único, com suas próprias regras que continuam dizendo para mim que nossos criadores e nosso público estão pensando em uma realidade melhor.

Os quadrinhos podem ser videntes da cultura pop. Coisas que fazem sucesso nos quadrinhos primeiro geralmente se tornam bem sucedidas no mainstream, então é divertido ver o que está por vir. Histórias tão esperançosas.

Fico curioso em relação aos seus sentimentos ao ver Escrevendo para Quadrinhos ser publicado no Brasil. Somos todos ocidentais, estamos no mesmo continente, mas são contextos muito diferentes e seu livro trata principalmente da criação de HQs no contexto da indústria dos Estados Unidos. Você fica curioso em relação à leitura desse trabalho em um ambiente tão distinto do seu?

Bem, enquanto fazemos esta entrevista já ouvi de várias pessoas que leram a edição brasileira. Elas estão em todo o meu Instagram. É muito legal. Portanto, tenho algumas informações sobre isso que me fazem sentir bem. Parece que não importa o idioma, as pessoas estão conseguindo o que eu esperava. O Diagrama de Venn entre os criadores americanos e os brasileiros parece próximo. As verdades básicas sobre nós como humanos sempre vêm em primeiro lugar.

Então minha ansiedade sobre o livro é universal e não limitada ao Brasil : -)

“Toda restrição é um fomento à criatividade”

Arte de Scarlet, parceria de Brian Michael Bendis com Alex Maleev (Divulgação)

Imagino que você passe muito tempo dos seus dias pensando sobre as histórias nas quais você está trabalhando, mas como foi pensar sobre a linguagem e os fundamentos da linguagem dos quadrinhos para a produção de Escrevendo para Quadrinhos? O quanto a produção desse livro impactou as suas percepções e reflexões sobre fazer quadrinhos?

O livro é uma extensão dos meus mais de 10 anos como professor universitário aqui em Portland. Eu estava ensinando, escrevendo e criando há anos quando a Random House me procurou para fazer o livro. Minha jornada como professor estava escapando para as minhas redes sociais – o que os fez perguntar se eu queria encontrar uma maneira de adaptar as aulas para um livro.

O ensino é uma extensão do meu desejo de dominar o ofício de todos os ângulos possíveis e levar esse conhecimento adiante. Ironicamente, ensinar parece ser muito altruísta, e pode ser, mas há uma parte egoísta também. Ao ensinar, estou me forçando a voltar ao básico. Para trabalhar nos blocos fundamentais de construção da história, personagem e tema, a cada semestre. Isso mantém tudo sobre a prática hiperfresco na minha cabeça. Em seguida, aplico tudo diretamente no meu trabalho. Alguns de meus colegas, às vezes, perdem de vista os princípios básicos da narrativa porque estamos muito ocupados tentando nos superar. Eu também fiz isso. Mas voltar ao básico a cada poucos meses tem sido um grande presente para mim como escritor.

Aliás, o que são quadrinhos para você? Você tem alguma definição pessoal ou tem alguma definição em particular que você considere mais interessante?

Tendo a aceitar uma definição mais ampla. Qualquer coisa que crie uma história usando uma sequência de imagens. Qualquer meio, qualquer contexto, qualquer sistema, tudo é bom. É tudo quadrinhos. Eu amo o debate. Além disso, se você está debatendo o que os quadrinhos são em sua forma mais pura, você está velho.

Os personagens e os títulos da Marvel e da DC são marcas milionárias, pertencentes a empresas gigantescas e que precisam dar lucro aos seus donos. Acredito que isso tenha impacto direto em autores que nem sempre conseguem expressar suas vozes e contar histórias originais quando trabalhando para essas empresas. Como conciliar essa busca por uma voz própria, distinta e autoral e ambientes que podem ser tão restritivos criativamente?

Se você acha que um trabalho como esse é restritivo, simplesmente não é um trabalho para você. Toda restrição é um fomento à criatividade. As duas empresas estão ansiosas por vozes únicas para levar seus personagens e mantê-los atualizados e relevantes. É a força vital de ambos os universos; tem sido por décadas. Quando contratam pessoas que apenas movem o personagem de uma página para outra, nada de interessante acontece. Quando contratam pessoas com vozes novas ou estabelecidas para entrar e experimentar coisas novas, é quando as coisas realmente começam a cantar. Essas são as apostas que podem valer a pena para eles repetidamente em um nível corporativo. Miles Morales e Kamala Khan são exemplos perfeitos. Se as revistas tivessem fracassado, teria sido o fim. Em vez disso, eles se arriscam e bum!

Mas os quadrinhos convencionais, como qualquer coisa, não são para todos os tipos de criativos. É uma especialidade muito específica, como o standup comedy. Pode parecer fácil ou divertido, mas é difícil fazer com que pareça assim. Você tem que amar e querer muito.

Para uma liberdade criativa total e pura, você não precisa de ninguém. Você pode simplesmente ir fazer. Eu faço isso o tempo todo com os livros do meu selo. Controle total do criador. Para mim, a mistura dos dois torna as duas experiências mais poderosas criativamente.

“Diálogo é música”

Quadro de Alias, trabalho de Brian Michael Bendis e Michael Gaydos para a Marvel (Divulgação)

Escrevendo para Quadrinhos trata principalmente de sua experiência como autor da Marvel. Você está trabalhando na DC já há alguns anos. Quais as principais lições que você tirou trabalhando com cada editora? Quais as principais diferenças de métodos de trabalhos que você nota entre cada editora?

Como empresas, eles fazem as coisas de maneiras muito diferentes e isso é absolutamente fascinante para mim. É como se você trabalhasse em um restaurante chique depois de trabalhar em outro por 20 anos… Você ficaria constantemente fascinado por como eles fazem tudo diferente para obter exatamente os mesmos resultados.

Eu sou um viciado na prática. Tem sido minha parte favorita da mudança.

Tenho gostado de trazer minhas lições de meus anos na Marvel e aplicá-las na DC. A maior diferença é que durante todo o tempo que estive na Marvel, eles estavam basicamente em uma situação de mobilidade ascendente. Eu cheguei quando eles estavam falindo e de repente eles estavam fazendo negócios para seus filmes. Então eles se tornaram parte da Disney. Aí eles eram uma marca maior do que a Coca-Cola. As pessoas nem mesmo acreditam que a Marvel já esteve em bancarrota nessa vida, mas foi. Agora, a DC é da Warner Bros. e já é há décadas. Então, quando cheguei lá, eles já estavam muito arraigados e estabelecidos corporativamente. A sensação é totalmente diferente.

Além disso, quando a Marvel me contratou, eu era basicamente um desconhecido com quem eles estavam jogando os dados. A DC me contratou muito ciente do que eu estava trazendo e do que eles queriam de mim. O que foi muito legal. Pude me sentir como Kirby por um dia. Só um dia. : )

Os seus diálogos estão entre os elementos mais característicos dos seus quadrinhos. Em Escrevendo para Quadrinhos você recomenda escrita e leitura para o desenvolvimento de texto e imagino que isso também valha para diálogos, mas quais outros exercícios e práticas você recomenda para a construção de bons diálogos? Como construir um diálogo que flua bem e soe natural?

Ouça. Ouça as pessoas quando elas falam. Ouça o que elas dizem. Ouça o que elas não dizem. Ouça as pausas. Diálogo é música. Acho que escritores que realmente levam o diálogo a sério usam a mesma parte do cérebro que um músico usa. Como se eles estivessem dominando um instrumento musical.

Mas a maior parte do “diálogo natural” é terrível. A maioria das pessoas diz coisas estúpidas, mas DESEJAM estar dizendo coisas inteligentes. Eu me incluo. Portanto, é uma espécie de ilusão que você está criando o que soa um diálogo natural. Você está criando momentos inteligentes que revelam o personagem – todos sonham com esses momentos na vida, então eles querem isso em suas histórias.

Há uma seção do seu livro na qual você insiste na importância de saber negociar pagamentos. Você criou personagens como Miles Morales e Riri Williams. Você tem percentual desses personagens? Como foi a sua experiência negociando os direitos desses personagens com a Marvel?

Eu não falo sobre meus negócios porque descobri que todo mundo que fala acaba mentindo um pouco, ou muito, então você nunca pode me acusar de mentir se eu nunca falar sobre isso. 🙂

Mas acho que está muito claro pelas redes sociais que estou muito satisfeito com todos os lugares dos meus filhotes no universo.

“A diferença entre quando comecei e agora é astronômica”

Arte da fase Brian Michael Bendis e Alex Maleev na série do herói Demolidor (Divulgação)

Você fala no livro sobre a importância de se adaptar aos desenhistas com quem trabalha. Você já trabalhou com desenhistas brasileiros como o Mike Deodato e o Ivan Reis. Quais as características mais marcantes que você no estilo de cada um deles? Como foi se adaptar ao estilo de cada um?

Esses são dois dos meus colaboradores favoritos. Eu sempre fiquei vagamente surpreso com o quão intenso o Brasil é em seu amor por quadrinhos. Eu ouço muitos dos meus fãs brasileiros por volta das 6 horas da manhã, meu horário de trabalho quase todos os dias. A única grande diferença é que, quando a língua materna do seu colaborador não é o inglês, você deve garantir que o roteiro seja divertido para eles lerem e não uma tarefa árdua. Além disso, ambos os artistas que você mencionou têm estilos muito fortes, então é muito fácil escrever para as vozes deles. O que eu sempre recomendo aos escritores. Você não quer escrever sua voz, você quer escrever em direção à voz de seu colaborador. Seu trabalho é inspirá-los!

Os seus trabalhos também são muito marcados por uma preocupação e atenção por diversidade e representatividade. O quanto você acha que essas reflexões se fizeram mais presentes na indústria de quadrinhos desde o início da sua carreiras?

Estou muito feliz em informar que a diferença entre quando comecei e agora é… Astronômica. A conversa é melhor, o produto é melhor, todos sabem que poderiam estar fazendo melhor e a MAIORIA está realmente tentando. Muitos mais estão cientes de que a porta dos quadrinhos está aberta e há algo para todos. Nestes tempos, é bom escrever mundos onde as diferenças são celebradas e a diversidade é abraçada.

Aliás, quais você considera as principais transformações que você vivenciou na indústria de HQs desde o início da sua carreira?

A indústria nos Estados Unidos é basicamente dividida em três. Costumava ser uma indústria, mas agora existe uma indústria Marvel e DC, que se relaciona completamente com aqueles personagens para os quais eles estão alimentando com novas histórias, também existe o mercado independente de muito sucesso de obras com os direitos autorais pertencentes aos seus criadores. Image, Boom! e qualquer uma dessas editoras. Os autores podem, e muitas vezes conseguem, vender no mesmo nível do Homem-Aranha ou Superman. Por exemplo, Lumberjanes, Saga, Sex Criminals… 

E então há um terceiro mercado, que é o mercado de jovens adultos / Raina Telgemeier. Ela inventou e milhares de pessoas a estão copiando para obter um pedaço do que ela construiu. Se você for a uma livraria americana, a seção de quadrinhos jovens adultos é enorme. Costumava ser uma prateleira. Agora, é cerca de metade da seção infantil e, às vezes, 1/3 da seção de ficção científica. Isso é incrível.

Além disso, quando eu estava chegando, nos primeiros dias da Internet, você ouvia das pessoas: “Oh, meu Deus!! Eu gostaria de poder comprar seu livro! Eu não posso comprar onde estou”. MAS, todos esses obstáculos desapareceram. Com o crescimento do digital, tanto como meio quanto como loja, qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo pode comprar seu livro a qualquer hora e no formato que desejar.

Isso é simplesmente brilhante. Esse era o meu sonho. Costumávamos sempre receber estas cartas: “Moro em Wisconsin. Não temos uma loja de quadrinhos. Eu quero comprar seu livro!”. Isso quebrava os nossos corações, porque você imediatamente pensa que há mais mil pessoas como essa que nunca se deram ao trabalho de escrever para você. Agora, pelo menos, sabemos que todo mundo tem uma loja de quadrinhos no bolso.

“Meu estúdio está cheio de histórias em quadrinhos, livros e brinquedos e inspiração”

Arte de Powers, parceria de Brian Michael Bendis e Michael Avon Oeming (Divulgação)

Tenho curiosidade em relação à sua visão do mundo no momento. Vivemos numa realidade na qual Donald Trump é o presidente dos EUA e Jair Bolsonaro é o presidente do Brasil. O que você acha que está acontecendo com o mundo? Você é otimista em relação ao nosso futuro?

Estou tão otimista que vou pular esta pergunta porque, no momento em que você publicar esta entrevista os Estados Unidos terão mudado para melhor.

[lembrando que a entrevista foi concedida no início de novembro de 2020, antes das eleições presidenciais norte-americanas em que Trump foi derrotado pelo democrata Joe Biden]

Eu gostava muito do seu Tumblr. Porque você parou com as atualizações?

O Tumblr começou a censurar. Eles disseram que era para conter a pornografia, mas estavam apagando fotos do HULK porque tinha mamilos. Você pode pesquisar isso no Google. Está muito bem documentado. O Tumblr não sabia o que tinha quando o teve e agora todos nós o abandonamos. Por que você postaria coisas que podem ou não ser excluídas? Especialmente quando não há nada de errado com elas.

Você pode me falar como é seu ambiente de trabalho? Você poderia descrever o local no qual escreve seus quadrinhos e pensa os seus projetos?

Eu tenho um escritório no meio da minha casa. Eu trabalho tarde da noite. Meus filhos expressam muito claramente que gostam que eu fique acordado a noite toda de olho nas coisas. E isso me permite o silêncio que preciso para conseguir bons resultados. Meu estúdio está cheio de histórias em quadrinhos, livros e brinquedos e inspiração.

“Só porque você tem um canal no YouTube, não significa que sua voz é mais importante. Não é. Nem a minha”

Painel do arco de histórias de Brian Michael Bendis com Mark Bagley na revista Ultimate Spider-Man (Divulgação)

Fico curioso em relação à sua relação com a crítica e a imprensa especializada em quadrinhos. Como jornalista, me vejo como parte dessa cadeia produtiva de quadrinhos que culmina na chegada de uma obra ao leitor. Vivemos em uma época de muitos influenciadores, blogueiros, youtubers e instagramers especializados em quadrinhos. Você tem alguma impressão em particular dos trabalhos desses profissionais?

Bem, o que a maioria dos críticos profissionais têm que lidar agora é que TODOS que lêem um livro podem falar sua verdade sobre ele. O boca a boca ainda é a maior força motriz dos quadrinhos. Todo mundo tem uma opinião. Só porque você tem um canal no YouTube, não significa que sua voz é mais importante. Não é. Nem a minha

Além disso, grande parte da imprensa vem e vai. Há muitas pessoas que entram e começam canais no YouTube e sua paixão não está puramente nos quadrinhos, a paixão é ver quantas visualizações eles podem obter. Alguns começam a dizer e fazer qualquer coisa que os leve a mais acertos. Tudo me lembra o J. Jonah Jameson. Não é que ele odeia tanto o Homem-Aranha, ele apenas vende jornais. Existem alguns canais que realmente vão para cima dos meus amigos porque eles acham que vão conseguir um grande número de seguidores.

Eu já fui superestimado. E avacalhado demais. As duas situações são estranhas. Então eu fico zen com tudo isso. Eu faço o meu melhor e espero o melhor.

Você pode recomendar alguma coisa que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Para as pessoas que estão lendo Escrevendo para Quadrinhos, acabei de ler um novo livro do John Cleese, do Monty Python, chamado Creativity. É um livro pequeno, como o On Diricting a Film, do David Mamet, ou o Sobre a Escrita, do Stephen King. É curto e vai direto ao ponto, muito poderoso. Uma das teorias potentes de John é a necessidade das pessoas criativas de abraçar o subconsciente mais do que o consciente – é daí que vêm todas as coisas boas. O livro era exatamente o que eu precisava e recomendo muito.

Também recomendo o documentário The Go-Go’s no Showtime. The Go-Go’s era uma banda dos anos 80 que eu realmente gostava. Eles eram um grupo feminino proto-punk conhecido por We Got the Beat. A história deles é muito interessante. E está cheio de falhas com as quais eles aprenderam. Como faço em Escrevendo para Quadrinhos, acho que compartilhar histórias de fracasso pode ser muito útil para outras pessoas. O fracasso pode ser tanto punitivo quanto necessário para o seu crescimento como artista. Como disse o baixista do The Go-Go’s: “Não aprendi absolutamente nada com nosso sucesso e aprendi tudo sobre mim mesmo com nosso fracasso”.

Além disso, Gangs of London. E Ted Lasso.

A capa de Escrevendo para Quadrinhos, livro de Brian Michael Bendis publicado pela editora WMF Martins Fontes (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Fido Nesti, autor de 1984: “Me vi envolto em pelo menos três distopias: o próprio 1984, a pandemia e o governo brasileiro”

Entrevistei o quadrinista Fido Nesti para escrever sobre sua adaptação para quadrinhos do clássico 1984, do inglês George Orwell, recém-publicada pela editora Companhia das Letras. Transformei esse papo no texto da edição de dezembro de 2020 da minha coluna no site do Instituto Itaú Cultural. Reproduzo agora a íntegra da minha conversa com o autor.

Chamo atenção no meu texto para as paginações blocadas do álbum, enrijecidas como a realidade retratada na HQ, assim como a paleta de cores sombria e o grande volume de texto – resposta à exigência dos herdeiros de Orwell pela maior fidelidade possível aos escritos do autor. Recomendo a leitura da coluna e, depois, uma investida nessa conversa com o autor.

Nesti me contou sobre seus métodos e suas técnicas de trabalhos, lembrou de seu primeiro contato com o livro de Orwell, analisou alguns paralelos entre 1984 e o Brasil contemporâneo e apresentou as principais lições que leva desse projeto. Papo massa, saca só:

“Vou atrás do equilíbrio, imprimindo a minha assinatura e ao mesmo tempo tendo o cuidado de manter a essência da obra”

Fido Nesti trabalhando nos originais de 1984 (Divulgação/Renato Parada)

Queria começar perguntando sobre aquele que me parece o principal desafio de uma boa adaptação: como ser fiel ao texto que está sendo adaptado e ainda conseguir autonomia de existência em relação à obra original? 

Nas adaptações que eu fiz procurei encontrar um ponto de equilíbrio entre o texto e as imagens. Edito o texto usando a menor intervenção possível, apenas mexendo uma vírgula aqui, usando uma conjunção ali, para fazer um bloco de palavras se encaixar no formato que a sequência de quadrinhos está pedindo em cada página. Busco então traduzir esse texto com os desenhos, e aí entra o que vou puxando da cabeça, misturando as referências que fiz na etapa de pesquisa com elementos mais pessoais, como impressões e memórias. E é aí que vou atrás do equilíbrio, imprimindo a minha assinatura e ao mesmo tempo tendo o cuidado de manter a essência da obra. 

Você pode contar, por favor, como essa adaptação teve início?

Foi um convite do meu editor, Emilio Fraia. Eu estava trabalhando em outro projeto quando ele me ligou para dar as boas novas. Aceitei na mesma hora, 1984 sempre foi um dos meus livros favoritos e a chance de transformá-lo em quadrinhos me fez pular da cadeira. 

Comecei a reler o livro imediatamente e em seguida fui definindo os personagens e criando cenas para montar algumas páginas de apresentação para os agentes literários. Além deles, tive a imensa honra de receber a aprovação também do próprio filho do Orwell, Richard Blair.

Você lembra do seu primeiro contato com 1984?

Foi exatamente em 1984, com um exemplar emprestado do meu irmão, que havia acabado de ler a obra como parte do currículo escolar. Eu tinha 13 anos e a ditadura ainda estava para acabar. O texto do Orwell soou como um alarme e me fez perceber com mais clareza o que se passava à minha volta.  

“1984 continua a encontrar ecos cada vez mais fortes em nossos tempos, parece cada vez mais  relevante

Diferentes etapas do trabalho de Fido Nesti na adaptação para quadrinhos de 1984, de George Orwell (Divulgação)

Por que adaptar 1984 para quadrinhos?

Primeiro porque nunca havia sido feito antes, e lá se vão mais de setenta anos desde que foi publicado. Já foram produzidas adaptações para o rádio, teatro, televisão e cinema, nunca para os quadrinhos. E também porque, infelizmente, o livro continua a encontrar ecos cada vez mais fortes em nossos tempos, parece cada vez mais e mais relevante. Apresentar o texto nessa linguagem ainda inexplorada pode ajudar a espalhar ainda mais a mensagem de Orwell, e fazer com que novos leitores busquem depois a leitura do original e se interessar por outras obras do autor.

Você pode contar um pouco sobre as técnicas e os materiais utilizados durante a produção deste trabalho?

Depois de algumas experimentações, escolhi usar um papel Canson Bristol, 80g., tamanho A3, para desenhar. Para os esboços eu uso uma lapiseira com grafite 0,7mm – 4B; um pincel para a finalização com nanquim e, depois de escaneados, coloco as cores no Photoshop. Pela primeira vez, usei alguns brushes digitais, na última etapa, para algumas fumaças, fogs e ferrugens. Todos os letterings que aparecem nos cenários e onomatopeias foram feitos com pincel e a fonte usada nos recordatórios foi criada de maneira randomizada, a partir da minha caligrafia.

“O maior desafio foi sintetizar um grande volume de texto sem deixar apagar a sua alma”

Estudo com foto feito por Fido Nesti para a produção de uma página de 1984 (Divulgação)

Aliás, você pode contar um pouco, por favor, sobre esse processo de adaptação? Você chegou a finalizar um roteiro antes de dar início às ilustrações? Como foi esse processo?

Tudo começa com a leitura, num primeiro momento sem fazer qualquer anotação, apenas absorvendo a essência da história. E como se tratava de uma releitura, depois de quase quarenta anos, foi interessante ver o que a memória ia puxando sobre as primeiras impressões. 

Nas leituras seguintes fui anotando e roterizando capítulo por capítulo, sem deixar nenhum de fora – todos os vinte e quatro capítulos estão na adaptação. E o maior desafio foi esse, sintetizar um grande volume de texto sem deixar apagar a sua alma. 

Você poderia falar um pouco, por favor, sobre esse processo de adaptação e transformação de texto no combo texto+desenhos? Como foi o desenvolvimento desse projeto?

Para mim essa etapa é bem intuitiva, o que escolher para mostrar com palavras e imagens, e o que mostrar apenas com imagens. Como a cabeça de Winston Smith está sempre funcionando, mesmo que na terceira pessoa, foi aí que achei mais liberdade para criar a minha própria visão do que estava acontecendo.

“O tempo cinzento de Londres, os tons dos tijolos das casas vitorianas, alguns exemplos de arquitetura Brutalista, tudo isso ajudou na escolha das cores”

Página de 1984 antes de ser finalizada (Divulgação)

As cores do livro impactaram bastante a minha leitura da história. Você pode falar um pouco, por favor, sobre a sua opção pela paleta com a qual trabalhou nessa HQ?

O tempo cinzento de Londres, os tons dos tijolos das casas vitorianas, alguns exemplos de arquitetura Brutalista, tudo isso ajudou na escolha das cores. Usei nanquim aguado para reforçar esses tons e criar volumes e sombras. O vermelho usado em certas passagens, praticamente monocromáticas, representa o estado de espírito de Winston Smith. Sensações que procurei transferir para o leitor; de angústia, desespero, terror. 

Me chamou atenção no livro a sua fidelidade ao texto original. Você sempre esteve decidido a reproduzir ao máximo o texto do Orwell? Por que a sua escolha por essa manutenção do texto original?

A única exigência dos herdeiros do Orwell foi que eu mantivesse a fidelidade do texto, ainda que adaptando para o formato dos quadrinhos: sintetizando aqui e ali, mostrando só com imagens trechos onde seria redundante mostrar também com as palavras e etc. E mesmo sem essa condição eu teria escolhido preservar ao máximo o original. O texto é muito poderoso e cheio de passagens que eu considero como clássicas, intocáveis.   

Você morou em Londres, certo? Quando foi isso? Como essa experiência influenciou o desenvolvimento do quadrinho?

Foi entre 2000 e 2001, por um ano exato. Certamente o contato diário com o povo inglês e minhas intermináveis caminhadas pela cidade tiveram influência no modo como desenhei os personagens, figurantes e cenários, de alguma forma. Acumulei muitos tijolos, chaminés e postes de ferro fundido nas gavetas da memória. 

“Tipos curiosos estão saindo dos porões, gente que não acredita na ciência, nas vacinas, engolem tudo o que o novo governo fala e juram que estão pisando em uma terra plana”

Página de 1984, adaptação de Fido Nesti para o livro de George Orwell (Divulgação)

1984 foi adaptado duas vezes para o cinema, sendo o filme de 1984 dirigido pelo Michael Radford com o John Hurt no papel principal uma obra bastante icônica. Qual é a sua relação com esses filmes? Eles impactaram de alguma forma o desenvolvimento da sua HQ?

Me lembro de ter gostado muito da versão de Michael Radford, que devo ter assistido em 1985. John Hurt estava brilhante como Winston e isso certamente fica na memória. Então achei importante me afastar, durante a etapa de pesquisa, de qualquer referência sobre o filme, para não sofrer influências. Agora que terminei a adaptação estou curioso para revê-lo, depois de tantos anos.

Venho também descobrindo detalhes interessantes, como o patrocínio secreto da CIA para o filme de Michael Anderson, de 1956; Peter Cushing fazendo o Winston na versão da BBC, de 1954; e a existência de uma versão ainda mais antiga, também para a TV, da americana Studio One. David Bowie, que era um grande fã do livro, e compôs as músicas 1984, Big Brother e We are the dead, teve os planos de uma adaptação para um musical frustrados pela recusa dos herdeiros, nos anos 70.

Quanto tempo levou a produção da obra até o seu lançamento?

Levou um ano e oito meses, entre leituras, anotações, pesquisa, roteiros, esboços, finalizações com nanquim, cores, lettering, etc. Durante esse tempo, com exceção da Folha de S. Paulo, para quem colaboro mensalmente, recusei qualquer outro trabalho, me dedicando inteiramente à adaptação.

O livro do George Orwell foi escrito durante a Segunda Guerra Mundial, em um contexto de conflitos bélicos e ideológicos aflorados. Como 1984 ainda se faz relevante nos dias de hoje? Você vê alguma relação do quadrinho com a realidade brasileira atual? 

Guerras e conflitos armados raramente saem de moda, e há tempos que o mundo não se via tão polarizado, com regimes totalitários ganhando espaço e gente perdendo o apreço pela democracia. Fora isso a principal potência mundial deve mudar de mãos em breve e as tensões criam uma nova guerra fria. Por aqui foi engatada uma forte marcha à ré e tipos curiosos estão saindo dos porões, gente que não acredita na Ciência, nas vacinas, engolem tudo o que o novo governo fala e juram que estão pisando em uma terra plana. Eu gostaria de acreditar que na verdade eles pensam de modo diferente e estão apenas exercitando “duplipensamentos”.  

Durante o trabalho me vi envolto em pelo menos três distopias: o próprio 1984, a pandemia e o governo brasileiro. Seria uma “tristopia”? Nos “tristes trópicos”.

“1984 mostra quanto podemos perder se continuarmos a fechar os olhos para o que já está na nossa frente”

A mesa do estúdio de Fido Nesti durante a produção de 1984 (Divulgação)

O 1984 é ambientado em um futuro distópico imaginado por George Orwell no final da década de 1940. Você teve alguma preocupação em particular em enfatizar algum paralelo desses trabalhos com o nosso mundo de hoje?

Os paralelos são bem evidentes e quem estiver lendo pela primeira vez vai se surpreender com eles, presentes a todo momento. Escolhi seguir aquilo que imaginei como sendo a visão de Orwell para o então longínquo ano de 1984. Tive a oportunidade de viver os anos 80 e o curioso é que alguns aspectos foram ganhando mais semelhança e força em tempos mais recentes. Por exemplo, em 84 não éramos vigiados pelas onipresentes câmeras de segurança e não havia celular ou internet. Hoje estão de olho em cada passo que damos, e ainda te avisam: “sorria, você está sendo filmado”. O que diabos querem dizer com isso? Vamos todos virar zumbis, robôs? E ainda por cima sorridentes? Como o 1984 de Orwell é um 1984 distópico eu achei mais interessante ser fiel a essa perspectiva mais atrasada, sem querer mostrar câmeras de vigilância ou computadores modernos. Vejo aquele 1984 como um ano ainda carregado de fumaça, que saem das chaminés das fábricas e dos lampiões a querosene das minas de carvão; de aparatos tecnológicos com uma cara ainda primitiva, trambolhos pesados e rudimentares. Uma etapa que gostei muito de fazer foi imaginar estes aparelhos, como o ditógrafo e as “teletelas”, assim como os “buracos da memória” e o emaranhado infinito de tubos pneumáticos do Ministério da Verdade.  

Desse período seu de envolvimento com o livro do Orwell, quais as principais conclusões e lições que você tirou da obra? Quais você considera as principais possíveis contribuições do livro dele pra nossa sociedade?

Uma das frases mais marcantes, para mim, saíram da boca do Winston, lá pelo meio do livro: “Se conseguir sentir que vale a pena continuar humano, mesmo que isso não tenha a menor utilidade, você os venceu”. Eu acho que os governos totalitários e sua vigilância cada vez mais presente e manipuladora têm a missão de nos deixar menos humanos.  As “teletelas” estão agora em nossas mãos, o tempo todo, em forma de celulares, nos observado. A privacidade foi pro espaço. A Oceânia é aqui. Eu acho que 1984 serve como um poderoso alerta, mostrando o quanto podemos perder se continuarmos a fechar os olhos para o que já está na nossa frente. 

“Viver exclusivamente da nona arte representou por muito tempo uma meta a ser alcançada

Página de 1984 antes de ser finalizada (Divulgação)

Qual a memória mais antiga que você tem de quadrinhos na sua vida?

Eu devia ter apenas uns quatro anos, mas é impossível esquecer do primeiro contato com as histórias delirantes de Little Nemo, de Winsor McCay, e o violento Spirit, de Will Eisner, numa revista de formato enorme (tabloide, 38cmx28cm) que meu pai comprou nos anos 70. Era o Almanaque do Gibi – Nostalgia, da editora Rio Gráfica. Na mesma época, não sei bem dizer se um pouco antes ou depois, eu era colocado para dormir sob a leitura das cruéis desventuras de Juca e Chico, ou Max und Moritz, de Wilhelm Busch, considerado um dos fundadores da linguagem que viria a ser os quadrinhos.

Também sobre a sua relação com quadrinhos: o que são quadrinhos, hoje, para você?

Os quadrinhos sempre foram uma obsessão na minha vida, se tornou um vício mesmo antes de aprender a ler. Viver exclusivamente da nona arte representou por muito tempo uma meta a ser alcançada – para lá de hercúlea, pensando em nossa realidade. Trabalhar com ilustração, tanto em livros como em jornais ou revistas, criação de capas ou outros meios, também me dá um grande prazer. A balança está sempre pesando mais para um ou outro lado, quadrinhos e ilustração. No momento eu já estou pensando nos próximos quadrinhos.

A capa de 1984, adaptação de Fido Nesti para o livro de George Orwell (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Victor Bello, autor de Sinuca Paranoide – As Tacadas do Bambino: “Acho que nunca conseguiria criar personagens sérios”

Em Úlcera Vórtex (2017), o quadrinista Victor Bello apresentou ao mundo o entregador de gás Adriano Gás em seu embate contra os habitantes da violenta civilização de Gorgonotúbia – instalada em um buraco negro interdimensional no estômago de um cientista. Depois, em Incontinência Tripária (2018), ele narrou a busca do pedreiro Simão Garfunkel por soluções para seus problemas de saúde. Em seguida foi a vez de O Alpinista (2019), protagonizado por Ladoni, maior alpinista de todos os tempos e que se vê em meio a uma conspiração envolvendo políticos e alienígenas que coloca em risco a vida na Terra.

O mais novo quadrinho de Bello é ambientado no submundo das competições de sinuca. Em sua estreia solo no selo Pé-de-Cabra, ele conta em Sinuca Paranoide – As Tacadas do Bambino a história de Danete Ho, sinuqueiro renomado envolvido em uma trama de vinganças em seguida a uma tragédia familiar.

Já elogiei mais de uma vez os disparates de Bello, os ritmos frenéticos de suas histórias e as tramas aparentemente desencontradas que sempre culminam em dramas grandiosos com finais catárticos. Sinuca Paranoide mantém esse padrão, com o acréscimo de elementos e personagens característicos de filmes de ação dos anos 80 como Rambo, Vingador do Futuro, Robocop, O Sobrevivente e Mad Max.

“Mas se tratando puramente de ação, nenhum desses filmes supera a ação dos filmes dos anos 80 e 90 com Jackie Chan ou Sammo Hung, como Police Story, Projeto China e Eastern Condors”, me diz Bello sobre suas preferências cinematográficas. “Acho que o problema dos filmes americanos é que eles não sabem filmar lutas e as cenas de ação são entediantes quando não tem um Jackie Chan pendurado no carro”.

Victor Bello é um dos meus quadrinistas preferidos. Sinuca Paranoide mantém o padrão surtado de seus trabalhos prévios e me deixa ansioso para uma próxima HQ solo do autor. Torço muito pela manutenção de sua linha de produção anual. Na conversa a seguir, ele me falou sobre o ponto de partida dessa nova HQ, sobre a construção de seus personagens e sobre sua relação com sinuca, entre outros temas. Papo massa, saca só:

“A sinuca sempre me fascinou muito com aquelas bolas coloridas e pesadas”

Página de Sinuca Paranoide, HQ de Victor Bello publicada pelo selo Pé-de-Cabra

Queria começar sabendo como estão as coisas por aí. Como você está lidando com a pandemia? A pandemia afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

Olá Ramon e todo mundo que lê o Vitralizado! Por enquanto tudo bem, seguindo os protocolos da OMS. Quanto a minha rotina e produção, eu comecei a fazer essa história antes do corona e quando começou a pandemia tive que parar um pouco a produção do quadrinho pra dar mais foco em encomendas de desenhos. Eu e Emilly Bonna tínhamos acabado de abrir nossa lojinha e com os correios fechados, fechamos a lojinha também. Aí, começamos a fazer retratos para ajudar na renda e passamos algumas semanas só fazendo retrato e enviando pras pessoas por email. Foram mais de 200 retratos… Ou 20… Não sei.

Tive que sair de casa várias vezes e não sei por que a máscara não foi recomendada pela OMS logo no começo. Uma das minhas obrigações era comprar todo dia seis pães para meus avós e cigarro pro meu tio. Eu tive receio que o meu vizinho Hoffman risse de mim porque eu usava máscara. Depois que todo mundo começou a usar, incluindo o Hoffman, me deu um sentimento bom de alívio. Já faz pelo menos um mês que não compro pão para meus avós.

Acho que eu nunca tinha lido uma HQ sobre sinuca. Como você chegou nesse tema? Você gosta de jogar sinuca? Você tem algum interesse em particular nesse universo?

Eu gosto sim de jogar sinuca, mas a ideia de uma HQ de sinuca surgiu quando eu estava viciado no jogo de sinuca do site Miniclip e pensei que seria legal uma história sobre esse esporte. Um dos meus quatro irmãos é uma lenda desse jogo, não falarei o nome dele para não revelar sua identidade, mas é um dos maiores jogadores de sinuca que já passou por aquele site. Pensei em fazer uma paródia do filme de bilhar do Martin Scorsese, com um personagem que joga sinuca online, mas minha histórinha acabou indo para outro lado. A sinuca sempre me fascinou muito com aquelas bolas coloridas e pesadas, eu tive chaveiros de mini bolas de sinuca quando era criança. E também gostava muito do jogo Side Pocket, de Super Nintendo, que tem uma trilha sonora linda e que me emociona.

Sinuca é um ESPORTE clássico, com ídolos brasileiros e presente na maior parte do Brasil. Eu queria jogar mais vezes sinuca de verdade no bar da esquina, mas com certeza o Hoffman vai me desafiar para uma partida e eu não estou disposto a isso.

O que você pode contar sobre o ponto de partida desse quadrinho novo? Ele surgiu a partir da trama ou dos personagens?

A história surgiu primeiro a partir de uma trama de sinuca, mas logo que pensei no personagem Danete Ho, a história passou a se desenvolver ao redor dele. Sinuca Paranoide é a história desse rapaz, descendente de vietnamitas, neto de uma heroína do Vietnã. Danete passa por uma tragédia muito pesada e parte para uma jornada cheia de humilhações e frustrações. Eu quis que Danete parecesse misterioso, perigoso e genial, mas no fundo ele é apenas um sujeito perdido e, as vezes, muito passivo. Espera-se que Danete seja fodão, que use seu taco como uma arma de artes marciais, mas talvez ele não tenha coragem pra isso.

“Gosto de personagens mudos, ou quase mudos, e como eles se relacionam com tagarelas”

Página de Sinuca Paranoide, HQ de Victor Bello publicada pelo selo Pé-de-Cabra

Quais foram as suas técnicas e os materiais usados por você durante a produção dessa HQ? Foram muito diferentes dos seus trabalhos em O Alpinista e Úlcera Vórtex?

Quanto às técnicas e materiais, nada diferente dos meus trabalhos anteriores: caneta nanquim, pincel e lápis. Os tons de cinza e retícula eu faço no computador, com o programa GIMP.

Fiquei com a impressão que sua arte e algumas páginas nesse quadrinho novo estão de alguma forma mais elaboradas. Você se propôs a fazer algo diferente nessa HQ?

Valeu Ramon! Acho que as vezes meu desenho pode ser mais elaborado e as vezes bem pouco elaborado. Tem alguns quadros que meu desenho chega ao ápice da coisa mais mal feita e relaxada, mas tem algumas vezes que eu tento caprichar, depende muito do tempo, da minha rotina e nem sempre gosto de desenhar. Um problema pra mim, por exemplo, é repetir o desenho dos rostos dos personagens, pois geralmente eu começo com desenhos detalhados e ao longo da historinha os rostos vão se deformando. Isso também acontece em Sinuca Paranoide, mas o Danete Ho é fácil de desenhar, pois seu cabelo cobre a maior parte do rosto. Ele é cabeludo!!!

O que tem de diferente nesse gibi é que fiz umas duas páginas com desenho inteiro, teve página dupla, coisa que não costumo fazer, mas fiz após conversas com o Paulo Gerloff. Por exemplo, aquela página dos túneis do Vietnã era um desenho bem pequeno, mas, após um toque dele, refiz e transformei numa página inteira. Ficou bem melhor.

O que eu mais gosto nos seus trabalhos são os personagens, como você desenvolve a personalidade e as particularidades de cada um. O que você acha que faz um bom personagem? Tem algum personagem de quadrinho, livro ou filme que você acha particularmente interessante?

Obrigado! Eu não sei dizer bem o que faz um bom personagem, mas acredito que quanto mais substância o personagem tiver, melhor (mas ser vazio, ser um nada, também pode ser uma característica interessante). Depende também de como o personagem é colocado, como é a relação dele com os outros. Por exemplo, eu gosto de personagens mudos, ou quase mudos, e como eles se relacionam com tagarelas. E também sou viciado em personagens bem coadjuvantes, tipo a The Egg Lady do Pink Flamingos ou aquele mordomo interpretado pelo John Turturro em A Herança de Mr. Deeds, que tem um pé com micose. São tipos que pra mim ficam marcados por uma característica física, de personalidade ou por uma relação muito específica e cômica com os outros personagens (aliás, o Adam Sandler é um mestre em colocar esse tipo de personagem nos filmes dele). Também acho interessante quando os personagens não aparecem na cena, como o Malão, namorado do Jecagay na Praça é Nossa. O Malão é um cara abusivo, mas sempre é defendido pelo ingênuo Jecagay (ah, o Malinho, do Sinuca Paranoide, não tem nada a ver como o Malão, apesar do nome).

Gosto de vários tipos de figuras, sejam sérias ou esquisitas, mas acho que nunca conseguiria criar personagens sérios.

“Nada supera a ação dos filmes dos anos 80/90 com Jackie Chan ou Sammo Hung”

Página de Sinuca Paranoide, HQ de Victor Bello publicada pelo selo Pé-de-Cabra

As suas histórias e seus personagens dialogam e fazem várias referências a filmes de ação dos anos 80. Quais são seus filmes preferidos dessa época e desse gênero? O que você mais gosta nessas produções dos anos 80 de explosões, guerra e outros elementos do gênero?

Gosto muito do primeiro Rambo, com aquele Stallone completamente perturbado e trazendo a guerra pra dentro dos Estados Unidos. Mas dos anos 80, prefiro filmes de ação com ficção científica, tipo Vingador do Futuro, Robocop, O Sobrevivente (esse eu vi na SBT quando tinha 9 anos na casa do carismático pescador Zica ), The Thing, Mad Max ou filmes de ação com artes marciais. Às vezes gosto mais dos atores do que do filme, então se tiver Schwarzenegger, Van Damme e Dolph Lundgren, não hesitarei em assistir. O que eu mais curto nesse tipo de filme é a diversão mesmo, alguns deles são estúpidos e ridículos e por isso são divertidos. Mas se tratando puramente da ação, nenhum desses filmes supera a ação dos filmes dos anos 80/90 com Jackie Chan ou Sammo Hung, como Police Story, Projeto China e Eastern Condors. Acho que o problema dos filmes americanos é que eles não sabem filmar lutas e as cenas de perseguição são entediantes quando não tem um Jackie Chan pendurado no carro (se bem que A Morte pede Carona e Viver e Morrer em Los Angeles têm cenas prazerosas de perseguição).

“Lobo Ramirez e Panhoca são os melhores editores do ramo”

Página de Sinuca Paranoide, HQ de Victor Bello publicada pelo selo Pé-de-Cabra

Esse é o seu primeiro trabalho solo pela Pé-de-Cabra. Qual balanço você faz dessa experiência? Quais são as principais semelhanças e diferenças das suas dinâmicas com os editores Panhoca e Lobo Ramirez?

Foi uma experiência muito positiva, nota dez pro Carlos Panhoca. Assim como a Escória Comix, a Pé-de-Cabra é uma editora que me deixou muito livre, sem prazo, sem nada. Vou te dizer que não teve diferença nenhuma em fazer um quadrinho pra Escória Comix e pra Pé-de-Cabra, são duas editoras como uma ética de trabalho muito parecidas. Creio que Lobo e Panhoca são os dois melhores do ramo. São pessoas gentis, generosas, do tipo que se eu tiver precisando de um rim os caras vão me dar!! O Lobo talvez entregue o rim numa caixa de pizza e demore um pouco pra enviar. Já o Panhoca não sei se tem dois rins funcionando.

Também queria saber da sua dinâmica com Emilly Bonna nas cores da capa e na criação da contracapa. Como vocês trabalham? Como foi o desenvolvimento dessas artes em conjunto?

A Emilly Bonna me salvou com as cores, porque eu tinha feito a capa com cores digitais e até tinha gostado, mas soube que na impressão as cores iriam mudar, pois usei cores muito saturadas, são cores que só existem no computador.

A Emilly já tinha desenhado a contracapa do Sinuca Paranoide e pintado com cores de lápis de cor, então achei que seria uma boa pedir pra ela pintar a capa também. Muito gentil, ela aceitou a missão de bom coração.

Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento? O que você tem lido/assistido/ouvido para passar o tempo durante a pandemia? Aliás, você gosta de ouvir música enquanto está criando os seus quadrinhos? Se sim, o que você ouviu enquanto criava o Sinuca Paranoide?

Assisti mais filmes durante essa pandemia, mas queria destacar um filme novo, um lançamento de 2019 chamado Greener Grass, que tem um final assustador, e o The Killing of Satan (1983), filme filipino que o Rodrigo Okuyama me recomendou (estou fazendo um cartaz desse filme pra ele). Quanto a leitura, estou lendo no momento o livro Horror Noire, da autora Robin R. Means Coleman.

Quando eu vou criar uma página de quadrinho e preciso também escrever os diálogos não costumo escutar nada, mas quando eu só tenho que desenhar o quadrinho e não preciso pensar, prefiro ouvir algum podcast, vídeos de pessoas falando sobre algum filme, ver jogos da NBA, etc. Mas algumas músicas me inspiraram e coloquei elas no Sinuca Paranoide, como a canção Charuto de Rasta, que fala sobre um charuto que não faz fumaça, Pitch The Baby, do Cocteau Twins, que fala sobre alguma coisa que eu não sei o que é, e até um André Matos que o meu vizinho Hoffman ouve, o André Matos cantando Kate Bush, sabe? Ele ouve músicas de muitos estilos, mas principalmente funk carioca e essa música do André Matos/Kate Bush.

A capa de Sinuca Paranoide, HQ de Victor Bello publicada pelo selo Pé-de-Cabra
Entrevistas / HQ

Márcio Paixão Jr. fala sobre O Lobisomem Errante, nova HQ de Julio Shimamoto: “É terror e erotismo, mas em uma abordagem distinta de tudo que ele já produziu”

Na avaliação do editor, pesquisador e músico Márcio Paixão Jr., a HQ O Lobisomem Errante apresenta uma abordagem inédita e distinta de tudo o que o quadrinista Julio Shimamoto já produziu nos gêneros de terror e erotismo. “Há algo de anárquico na HQ que não consigo enxergar no restante de sua obra”, me diz o editor do título recém-anunciado pela editora MMarte – a mesma que publicou O Ditador Frankenstein e Outras Histórias de Terror, Tortura e Milicos e Cidade de Sangue (com roteiro de Paixão Jr.).

As 40 páginas em preto e branco de O Lobisomem Errante, desenhadas em caneta Bic, terão apenas 220 exemplares impressos – todos acompanhados de um gravura autografada pelo autor (reproduzida acima). A sinopse oficial da HQ fala do empenho da Dra. Kelly Lupini em conseguir a cura para para um maldição que acomete um rapaz em noites de lua cheia.

O editor do projeto conta que o quadrinho foi produzido por Shimamoto há vários anos, mas jamais chegou a ser publicado. O autor, aliás, nem se lembrava desse trabalho até esbarrar com ele em uma gaveta. Bati um papo rápido com Márcio Paixão Jr. sobre a chegada de O Lobisomem Errante até ele, sua percepção do projeto como uma “pornochanchada em quadrinhos” e o interesse crescente de uma nova geração de leitores nos trabalhos de Shimamoto. Papo massa, saca só:

Qual foi o ponto de partida de O Lobisomem Errante? Trata-se de um trabalho antigo do Shimamoto, mas é uma obra inédita, certo? Como ela chega até você?

O Shima vasculhava umas gavetas quando se deparou com essa HQ – que sequer recordava ter feito. Como era algo muito pitoresco dentro da própria produção dele, me procurou pra ver se eu tinha alguma ideia de como publicá-la. É lógico que a MMarte jamais deixaria passar essa oportunidade. 

O que você pode adiantar sobre a história desse quadrinho?

Lobisomens, sexo e um final feliz.

Você classifica O Lobisomem Errante como uma “pornochanchada quadrinística”. O que você quer dizer com isso? Você consegue pensar outras obras que poderiam se encaixar nesse gênero?

A pornochanchada foi um dos gêneros mais populares do cinema brasileiro – um dos raros que se sustentaram exclusivamente nas bilheterias. Produzidos em São Paulo, na mítica Boca do Lixo, eram filmes de baixo orçamento, mas de grande apelo popular – principalmente devido ao humor e ao erotismo. Também foi em São Paulo, por meio de pequenas editoras (como Outubro e La Selva) que o terror – com acentuado tempero erótico – se tornou, por décadas, um sucesso de público nos quadrinhos brasileiros. Apesar de pouco notados, esses paralelos são inequívocos para mim. Uma produção à margem da intelectualidade, mas com poderoso vínculo popular.  É neste sentido que classifico O Lobisomem Errante como uma pornochanchada quadrinística, pois existe ali humor insólito e sexo em alta voltagem. Creio que boa parte da produção da paranaense Grafipar pode ser enquadrada na mesma categoria.

“Shimamoto é um punk em última instância”

A capa de O Lobisomem Errante, HQ de Julio Shimamoto

O Shimamoto é conhecido por seu domínio de diferentes técnicas, que variam de trabalho para trabalho. Qual foi a técnica usada por ele em O Lobisomem Errante?

Caneta Bic. Direto no papel, sem esboço prévio. Tenho quase certeza que ele produziu a HQ inteira em uma única sentada. Essa abordagem visceral e ruidosa é que torna a HQ ímpar dentro da obra do Shima. E o mais impressionante é ver a inacreditável qualidade estrutural do seu desenho emergindo de uma finalização propositalmente precária. É como se ele desse vazão à sua alma punk. Não duvide: Shimamoto é um punk em última instância. 

Como foi o desenvolvimento do projeto gráfico desse quadrinho? Como vocês chegaram no formato no qual ele vai ser impresso?

Foi a própria natureza da HQ que definiu a edição de O Lobisomem Errante. Um trabalho tão atípico de Shimamoto não poderia receber um tratamento convencional. Para começar, respeitamos o original em formato de tira horizontal utilizado por Shima. Se o leitor procura uma história densa e profunda, existem infinitas outras HQs mais apropriadas. O Lobisomem Errante é um experimento íntimo e absolutamente livre. E foi assim que o tratamos. A capa foi impressa em serigrafia, uma a uma, em prata sobre preto – numa brincadeira com a lenda do lobisomem. A tiragem é limitada a 220 exemplares, todos numerados e assinados por Shima. Acompanha a edição uma gravura no formato A5, também em serigrafia numerada e assinada– num daqueles desenhos estonteantes, misturando várias técnicas, como raspagem em cerâmica, retículas coladas à mão e por aí vai. A pré-venda (com frete grátis) está aberta e os envios começam dia 30 de novembro próximo. A MMarte tratou O Lobisomem Errante não como um gibi, mas como uma obra do Shimamoto, onde cada exemplar é único e passou pelas mãos do mestre. Um pequeno tesouro, na minha opinião. 

“Há algo de anárquico que não consigo enxergar no restante de sua obra”

Julio Shimamoto autografando O Lobisomem Errante (Márcia Yumi/Divulgação)

Como você contextualiza O Lobisomem Errante em relação às demais produções do Shimamoto? Ela dialoga com algum período mais específico da carreira dele?

Horror e erotismo foram gêneros de primeira grandeza no saudoso “gibi de banca” brasileiro – que tem em Shimamoto um de seus nomes mais emblemáticos. O Lobisomem Errante traz terror e erotismo, mas em uma abordagem inédita e distinta de tudo que o autor já produziu. Há algo de anárquico na HQ que não consigo enxergar no restante de sua obra

Vejo um interesse crescente nos últimos anos em torno da obra do Shimamoto, muito fomentado pelo lançamento de O Ditador Frankenstein e Cidade de Sangue. Como você vê esse reconhecimento e essa descoberta das obras dele por novas gerações?

O quadrinho popular brasileiro é algo que me é muito caro. Autores como Flavio Colin, Lyrio Aragão e Jayme Cortez – sobre quem estou concluindo um doutorado e uma animação – merecem o olhar de novos leitores. Eles são um patrimônio das nossas artes, da nossa cultura. Shima é um caso particular: aos 81 anos de idade, segue produzindo com o vigor de um garoto. Por isso começamos com Cidade de Sangue, uma HQ atual que deixou claro que, antes de mais nada, Shima é um autor tão contemporâneo quanto Shiko, [Marcelo] Quintanilha ou João Pinheiro. Todos estes mestres possuem uma obra vastíssima que precisa reencontrar o público. Só temos a ganhar com isso.  

Julio Shimamoto com a gravura que acompanha as edições de O Lobisomem Errante (Márcia Yumi/Divulgação)