Vitralizado

Posts na categoria Entrevistas

Entrevistas / HQ

Papo com Guilherme Kroll, editor da Balão Editorial: “O que me surpreende no mercado de HQs é uma falta de coesão maior para resolver problemas comuns”

A Balão Editorial completou 10 anos de existência no último sábado, dia 25 de janeiro de 2020. A editora foi criada por Flavia Yacubian, Guilherme Kroll e Natalia Tudrey em um momento de agitação singular na história recente das HQs brasileiras. É contemporânea do ProAc, edital fundamental para a publicação de alguns dos principais títulos nacionais lançados nos últimos anos; viu a ascensão do Catarse como principal plataforma de financiamento de publicações independentes do país; e estava em seu quarto ano quando ocorreu a primeira Comic Con Experience.

Durante esses 10 anos a Balão ganhou o troféu HQ Mix na categoria Edição Especial Estrangeira em 2014 pelo livro Pobre Marinheiro, de Sammy Harkham, e contribuiu para a vitória de Felipe Nunes na categoria Novo Talento Desenhista em 2015, ao publicar Klaus. Também em 2015, Lobisomem Sem Barba, de Wagner Willian, ficou no segundo lugar da categoria Ilustração do Prêmio Jabuti. Em 2019 a editora publicou o quarto número da série Hell No!, de Leo Finocchi, e Clean Break, de Felipe Nunes.

Assim como fiz no início de 2019, volto a entrevistar o editor Guilherme Kroll nas primeiras semanas do ano recém-iniciado. Ele fez um balanço sobre o as atividades da Balão Editorial em 2019, refletiu sobre os 10 primeiros anos de publicações da editora e adiantou um dos lançamento com o selo da Balão em 2020 – Aquarela, de André Bernardino e Vitor Flynn. A seguir, papo com Guilherme Kroll:

(OBS. #1: a arte que abre o post é de Clean Break, de Felipe Nunes; OBS. #2: como já foi amplamente noticiado aqui no blog, em 2018, trabalhei em parceria com a Balão Editorial na edição do álbum Por muito tempo tentei me convencer de que te amava, de Thiago Souto).

“Sinto uma tremenda desunião no nosso meio no último ano”

Arte de Leo Finocchi para Hell No!, um dos álbuns publicados pela Balão Editorial em 2019

Qual balanço você faz do 2019 da Balão Editorial? Qual foi a maior surpresa da editora em relação ao mercado brasileiro de quadrinhos no ano passado?

Ano passado foi muito positivo em alguns sentidos, os livros de 2018 engrenaram mesmo em 2019 e os de 2019 foram bem no fim do ano. Lançamos nosso maior livro de quadrinhos até agora, Clean Break, e o resultado foi bem legal. O que me surpreende no mercado de quadrinhos é uma falta de coesão maior para resolver problemas comuns. Sinto uma tremenda desunião no nosso meio no último ano.

Há uma crise no mercado editorial brasileiro e na realidade econômica nacional. Vocês inclusive publicaram menos títulos em 2019 do que e 2018. Quais são as perspectivas da Balão Editorial para 2020?

Publicamos mais em 2018, mas pretendemos publicar mais em 2020. Hoje em dia, dependemos muito de ferramentas como o Catarse e o Proac para publicar nossos livros e vamos atrás cada vez mais de financiamento dessa forma.

“A grande revolução acontecendo nos nossos quadrinhos é a questão da representatividade”

Página de Clean Break, álbum de Felipe Nunes publicado pela Balão Editorial

Um dos grandes lançamentos da Balão Editorial e do mercado brasileiro de HQs em 2019 foi o Clean Break, do Felipe Nunes. Qual foi o retorno que vocês tiveram do público em relação a essa obra?

O público tem dado feedback positivo. O livro é grande e complexo, muitas vezes demanda mais de uma leitura, então imagino que muita gente ainda sequer terminou de ler. Ainda aguardo mais opiniões.

Em 2020 a Balão Editorial completa 10 anos de atividades. Qual a maior diferença que você entre o mercado brasileiro de quadrinhos em 2010 e em 2020?

Tem três grandes mudanças, todas em relação a uma mudança do status dos quadrinhos frente a sociedade. A primeira é o Proac. Ele surgiu exatamente no começo dos anos 2010 e todos os anos ajuda a financiar dezenas de HQs. Muitos gibis ousados ganharam a luz do dia por conta disso, como, por exemplo, Angola Janga, o maior quadrinhos brasileiros dos últimos tempo. Em 2011 surgiu o Catarse, que também vem ajudando muitos gibis a conseguirem sair do papel. O terceiro é a CCXP, que apareceu na segunda metade da década. Um evento que ajuda a vender gibis como nunca, todos os anos e sempre cheio de público. Isso tudo ajudou muito a mudar o cenário nesses 10 anos.

“Temos muita coisa em mente para 2020”

Arte do quadrinista Thiago Souto em homenagem aos 10 anos da Balão Editorial

O que você vê de mais interessante sendo feito nas HQs brasileiras hoje?

Se pensarmos em história registrada da humanidade, temos aí uns 7 ou 8 mil anos de narrativas. Quadrinhos em si, temos do jeito como conhecemos há um século e meio. É muito difícil ser 100% original ou diferente quando se está no topo de tudo isso. Posto isso, acho que a grande revolução acontecendo nos nossos quadrinhos é a questão da representatividade. Temos gente que não conseguia se manifestar antes conquistando sua voz e os quadrinhos refletem isso.

O que os leitores podem esperar do catálogo da Balão Editorial em 2020? Há algum título ou autor que vocês já podem adiantar que sairá por vocês nos próximos meses?

Temos muita coisa em mente para 2020, mas posso adiantar que já está no prelo Aquarela, do André Bernardino e do Vitor Flynn

Desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que é a nossa sociedade hoje. Qual você considera o papel de um editora como a Balão Editorial dentro desse contexto?

É muito difícil combater toda uma estrutura de poder sendo uma editora minúscula. Nossa forma de negar as ideias perpetradas pelo presidente é expor as nossas por meio das nossas publicações. Acho que Clean Break tem uma forte mensagem a respeito da sociedade contemporânea, por exemplo.

A capa de Hell No! #4, obra de Leo Finocchi publicada pela Balão Editorial em 2019
Entrevistas / HQ

Papo com Luciana Falcon, coordenadora da Bienal de Quadrinhos de Curitiba: “Nosso compromisso sempre foi com a promoção dos quadrinhos, mas mais ainda com o desenvolvimento cultural de uma forma mais abrangente”

Escrevi na terceira edição da coluna Sarjeta sobre os dois principais eventos de quadrinhos do Brasil em 2020, o FIQ, em Belo Horizonte, e a Bienal de Quadrinhos de Curitiba. A 6ª edição do evento na capital de paranaense está marcada pra rolar entre os dias 6 e 9 de agosto, sempre com entrada gratuita. Bati um papo com a coordenadora da Bienal, Luciana Falcon, para saber mais sobre seus planos e expectativas para o evento.

Você lê o meu texto para a Sarjeta #3 ali no site do Instituto Itaú Cultural. Compartilho a seguir a íntegra da minha entrevista com a responsável pela Bienal, na qual também conversamos sobre escolha do tema “Música e Quadrinhos” para essa sexta edição do festival e do papel da Bienal em um contexto de conservadorismo aflorado no país. Saca só:

“Buscamos sempre privilegiar as HQs autorais, as independentes e as que promovam a experimentação, a diversidade de linguagens e novos caminhos”

Registro da edição de 2018 da Bienal de Quadrinhos de Curitiba (Divulgação)

Junto com o FIQ, a Bienal de Quadrinhos de Curitiba é um dos principais eventos de HQs do Brasil, mas a proporção e a relevância do evento foi algo construído com o tempo. Qual balanço vocês fazem hoje do que a Bienal era quando surgiu, e o que ela é hoje, como um desses grandes marcos bienais das HQs nacionais?

A Bienal está caminhando para a sua sexta edição e isso já traz alguns aprendizados que vêm fazendo parte dessa construção.

Costumo dizer que para produzir um evento dedicado a HQ, como a Bienal é,  não basta entender ou gostar de HQs. Nosso compromisso sempre foi com a promoção dos quadrinhos, mas mais ainda é com o desenvolvimento cultural  de uma forma mais abrangente. Somos produtores culturais, queremos e devemos agregar, daí derivam nossos intentos com outras ações correlatas e, mais recentemente, com a ideia de recorte temático, possibilitando reflexões de nossos tempos e da implicação cultural por meio da produção de HQs. 

Nesse sentido, temos testado ao longo dos anos (com algum êxito), abordagens e articulações para engajar parceiros para criarmos as condições (financeiras sobretudo) e o ambiente necessário para aprofundar reflexões mais elaboradas sobre as HQs.

Nosso intuito passou de uma visão panorâmica das HQs, nas duas primeiras edições, para um recorte propositivo sobre temas e cruzamentos que podemos elaborar a partir das produções de HQs.

Vocês conseguem definir a linha editorial-curatorial da Bienal? Como vocês definem o recorte que a Bienal faz e apresenta hoje em termos de autores e publicações?

Desde 2016, quando o evento se torna Bienal de Quadrinhos de Curitiba, abrimos a curadoria para múltiplos realizadores das HQs. Autores, desenhistas, editores, jornalistas, tradutores e críticos se revezaram na curadoria das últimas três edições ao lado da Mitie Taketani, a embaixadora das HQs em Curitiba e curadora honorária da Bienal.

A ideia é termos uma voz plural e contextualizada na produção de HQs através da curadoria onde, a cada edição, de acordo com o tema, a gente consiga somar conhecimentos (muitas vezes específicos), sobre o que se pretende mostrar.

Busca-se sempre privilegiar as HQs autorais, as independentes e as que promovam a experimentação, a diversidade de linguagens e novos caminhos. Mas evidentemente temos presente, senão nas atividades oficiais, todo tipo de HQs através dos expositores na Feira da Bienal e no Palco Ocupa – espaço livre para programação de atividades propostas pelos participantes da Feira. Como dissemos, nosso intuito é agregar.

“O que dá o tom do que iremos discutir na edição seguinte é o calor que gera o último dia do evento”

Registro da edição de 2018 da Bienal de Quadrinhos de Curitiba (Divulgação)

Quais são as expectativas de vocês para a Bienal de 2020? Por que “música” como o tema principal do evento?

Tivemos um grande divisor de formato de produção em 2016, quando o pagamento do patrocínio via edital público do Paraná foi suspenso dias antes do evento. Nos rearticulamos em 2018 e nos fortalecemos ainda mais, resistindo bravamente.

Neste ano, estamos em expansão de nossa potência de produção com ações fora de Curitiba. Circulamos na África, Europa e Festivais Internacionais, o que nos possibilitou ver outros formatos de eventos e estreitar relações para novas parcerias que já estarão presentes em 2020, em Curitiba.

Temos as melhores possibilidades para a próxima edição (e isso é um tanto bizarro no contexto cultural atual do Brasil) e as expectativas são as mais elevadas.

A edição de 2018 – A cidade nas HQs – trouxe uma reflexão estendida da edição 2016, onde falamos sobre representatividades e o contexto político-social nas HQs. Em 2018, buscamos mostrar a cidade como “suporte” do que havíamos discutido em 2016. De como a cidade agrega ou exclui, como interagimos no caos ou nas cidades dos sonhos, futurísticas ou ainda as fantásticas. Alguns debates foram bem depressivos devido à perspectiva nada otimista em relação a futuros, especialmente naquela véspera de eleições presidenciais.

O que dá o tom do que iremos discutir na edição seguinte é o calor que gera o último dia do evento. E, sob aquela ótica desoladora das cidades que havíamos discutido e pelo futuro que se anunciava, resolvemos que precisávamos nos mexer, como quem espanta algo que insiste em nos paralisar.

Sabemos sobre silenciamentos, sabemos sobre paralisações, sobre isolamentos, sobre desarticular movimentos, e nesse sentido não sucumbiremos. Vamos estar juntos, vamos celebrar, vamos cantar bem alto e dizer subjetividades por outro viés. Música e HQs nasceu do calor do último dia da Bienal. E agora vamos pra pista.

Por que o convite para o Fabio Zimbres participar da curadoria da Bienal?

Como ele mesmo colocou no título em seu texto de abertura da exposição Bienal Publica 2018, do qual ele foi editor da publicação: Samba Antigo.

A Bienal é necessária para todos nós porque ela promove o essencial na cultura, o encontro. Já ouvimos muitíssimos relatos de pessoas dizendo da satisfação de ter conhecido ou encontrado este ou aquele na Bienal. 

Com a gente não foi diferente, encontramos o Zimbres, foi “um luxo só, como um samba antigo” espelhando seu texto. Queríamos muito continuar a trabalhar e pensar a Bienal com ele, editando o Bienal Publica novamente. Mas, ao final do evento, quando vislumbramos o tema, parecia que algo havia se fechado.

Mitie Taketani e o Fabrizio Andriani completariam a curadoria nas HQs, mas foi inevitável pensarmos em alguém para versar sobre produção musical. Parafraseando ainda o Zimbres, como outro “samba antigo”, convidamos um parceiro de muitos projetos, o Vadeco, para compor a curadoria.

Todos trazem referências distintas em seus repertórios de HQ e música para a seleção dos convidados. Mas como dissemos, não basta conhecer HQs ou música nesse caso. A Bienal se faz com a vontade de estar junto, com ideias compartilhadas, com articulação para fazer as coisas acontecerem. E, finalizando as citações do texto do Zimbres: “Bienal (e toda nossa equipe), seu requebrado me maltrata”.

“Esperamos a presença maciça do público, principalmente num período de tantos cortes e escassez em programações culturais”

Registro da edição de 2018 da Bienal de Quadrinhos de Curitiba (Divulgação)

Como a crise econômica, social e política que assola o país, somada à crise do mercado editorial, tende a impactar a realização da próxima Bienal?

Tentamos incansavelmente e insistentemente exercer nossa função de trabalhadores da cultura. Isso também inclui ocupar os espaços (ainda que poucos) de promoção cultural, sejam físicos, ou projetos de incentivo, iniciativas privadas, institucionais, acadêmicas, públicas, etc. Este tem sido o caminho e estamos tendo resultados.

Se por um lado implementamos o engajamento e articulação, por outro buscamos executar a melhor qualidade, diversidade e propósito na programação para garantir a manutenção das parcerias, da Bienal e no que se deseja enquanto desenvolvimento cultural.

Nossa programação é (e sempre será) totalmente gratuita, apesar de não ser um evento público da prefeitura de Curitiba, como muitos confundem. Esperamos a presença maciça do público, principalmente num período de tantos cortes e escassez em programações culturais. Vamos ofertar diversas atividades para todos, como shows, exposições, oficinas, conversas, cinema, programação infantil, festas, etc. Esperamos que isso se reverta também em vendas aos expositores.

Quero acreditar que a nossa rede de parceiros (editoras, instituições, etc) vai dar continuidade ao que estamos executando com muita seriedade e relevância.

Desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que é a nossa sociedade hoje. Qual você considera o papel de um festival como a Bienal dentro desse contexto? 

Basicamente, mas não superficialmente, fazer pensar, refletir. Este sem dúvida é o principal papel. É dar destaque num recorte o que podemos elaborar em pensamentos que ampliem, que nos pegue de surpresa, que ponha dúvida, que questione, que vá contra certezas absolutas ou imposições.

O Brasil é mundialmente conhecido pela música, ela está em nós e diz muito sobre como convivemos, sobre nossa diversidade. É um excelente suporte da nossa voz, sem esquecer dos corpos, que nos interessam também, nosso movimento, nosso traço. Queremos mexer dos pés a cabeça e fazer pensar.

Registro da edição de 2018 da Bienal de Quadrinhos de Curitiba (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Afonso Andrade, coordenador do FIQ: “O FIQ, como um evento calcado nas artes, na educação, na diversidade e na liberdade de expressão, acaba por se tornar um ato de resistência”

Escrevi na terceira edição da coluna Sarjeta sobre os dois principais eventos de quadrinhos do Brasil em 2020, o FIQ, em Belo Horizonte, e a Bienal de Quadrinhos de Curitiba. A 11ª edição do evento na capital de Minas Gerais está marcada pra rolar entre os dias 27 e 31 de maio, sempre com entrada gratuita. Bati um papo com o coordenador do FIQ, Afonso Andrade, para saber mais sobre seus planos e expectativas para o evento.

Você lê o meu texto para a Sarjeta #3 ali no site do Instituto Itaú Cultural. Compartilho a seguir a íntegra da minha entrevista com o responsável pelo FIQ, na qual também conversamos sobre o impacto da crise econômica, social e política pela qual passa o país e o papel do mais tradicional evento de quadrinhos do país em um contexto de conservadorismo aflorado. Ó:

“A proposta do FIQ é apresentar um recorte da produção de quadrinhos no Brasil e no mundo”

Registro da edição de 2018 do FIQ (Divulgação/Glenio Campregher)

O FIQ é hoje o maior e mais importante evento de quadrinhos do Brasil, mas a proporção e a relevância do evento foi algo construído com o tempo. Qual balanço você faz hoje do que o FIQ era quando surgiu, em 1999, e hoje, como esse grande marco bienal das HQs nacionais?

O FIQ surge em 1999 a partir da realização, em Belo Horizonte, no ano de 1997, da 3ª Bienal Internacional de Quadrinhos. Então podemos dizer que, de 1999 a 2005, o FIQ segue a linha da Bienal, muito focada em exposições e  convidados. É também um período de transição no mercado de quadrinhos. As publicações começam a migrar das bancas de revistas para as livrarias e a auto-publicação. A partir de 2007 o festival sofre várias mudanças que levam a sua consolidação como um grande evento para o mercado de quadrinhos e  para a cidade:

-Mudança para  a Serraria Souza Pinto: local com melhor estrutura, maior e que por sua localização gera mais visibilidade;
-Comunicação do evento: o festival passa a ter um foco maior em dialogar com a cidade e pensar no festival como um espaço de formação de leitores e difusão dos quadrinhos para um público além do habitual; 
-Ampliação da participação dos quadrinistas independentes através da  criação de um canal de diálogo direto com quadrinistas de BH e do Brasil e  da participação destes como convidados e expositores;
-Visitação escolar: abertura do festival para a visitação e participação em atividades  de escolas e grupos, como parte da política de formação de leitores. 

A partir daí o FIQ fortalece sua posição como um evento importante no calendário cultural da cidade, sendo, inclusive, sua realização objeto de lei municipal, em 2017. 

O número de exposições diminui, cedendo espaço para quadrinistas que podem apresentar suas publicações e interagir com o público. Mas atividades interativas e de formação crescem, como a rodada de negócios.   O festival tem tido cada vez maior a participação de quadrinistas de todo Brasil, como expositores e/ou convidados. Em 2018 foram mais de 500, vindos de 19 estados e do Distrito Federal. 

Uma das marcas do FIQ está na abertura aos mais diversos estilos e gêneros, na recepção à diversidade das HQs nacionais. Você consegue definir a linha editorial-curatorial do FIQ indo além desse filtro? Como você define o recorte que o FIQ faz e apresenta hoje em termos de autores e publicações?

A proposta do FIQ é apresentar um recorte da produção de quadrinhos no Brasil e no mundo. São duas linhas de “curadoria”, a escolha de convidadas e convidados e temas dos debates e a seleção para a ocupação do “artist alley” e estandes. A curadoria indica quem será convidado, a partir de alguns parâmetros definidos em conjunto com a coordenação do evento: equilíbrio de gênero; representatividade racial e LGBTQ; diversidade de estilos e propostas artísticas; diversidade regional; Mix de quadrinistas veteranos  e novatos; Atenção especial a quadrinistas de Belo Horizonte. A seleção para o artist alley e estandes também segue essa linha. Com isso conseguimos apresentar um painel bem interessante de autores e publicações. Em 2018, somando convidos e expositores, tivemos cerca de 500 quadrinistas presentes, apresentando suas publicações e trabalhos, com o lançamento de, aproximadamente, 300 publicações inéditas ou recentes. 

“Com tanta instabilidade no país, a estratégia é fazer o planejamento e ir lidando com as ‘crises’ na medida do possível”

Registro da edição de 2018 do FIQ (Divulgação/Glenio Campregher)

Quais são as suas expectativas para o FIQ de 2020? Tem alguma novidade ou informação inédita que você já pode adiantar sobre essa 11ª edição?

A expectativa é boa, temos o respaldo institucional e financeiro Prefeitura de Belo Horizonte  realizadora do evento através da Secretaria Municipal de Cultura e Fundação Municipal de Cultura Estamos na fase de planejamento inicial do festival, mas já anunciamos a data do festival que será de 27 a 31 de maio de 2020.

Belo Horizonte é um dos principais pólos das HQs nacionais por conta do FIQ, mas há na cidade uma cena crescente de feiras e eventos de quadrinhos e publicações independentes, vários deles inclusive bancados por editais públicos e leis de incentivo. Você nota essa movimentação crescente em BH? Se sim, o que você acha que impulsiona essa agitação?

Sim, tem crescido o número de feiras dedicadas aos quadrinhos, publicações independentes  e artes gráficas. A cidade já tem uma tradição de feiras livres de artes que vem de muitos anos. Porém, acredito que seja um fenômeno nacional, uma vez que vemos acontecer em outras cidades do país. As feiras são um espaço alternativo aos meios  tradicionais de comercialização das publicações e produtos gráficos. Elas permitem um contato direto entre o artista e o público, proporcionando um diálogo e uma troca, que vai além da simples observação do objeto. Além disso, eliminam um gargalo que é a distribuição, um grande dificultador para quem produz sem um aporte de uma grande editora ou distribuidora. 

“O país vive um retrocesso civilizatório”

Registro da edição de 2018 do FIQ (Divulgação/Glenio Campregher)

Como a crise econômica, social e política que assola o país, somada à crise do mercado editorial, tende a impactar a realização do próximo FIQ?

A curto prazo o impacto maior é econômico. Com a crise, os municípios arrecadam menos e, consequentemente, o orçamentos de todos os órgãos e projetos tem que ser revisto. Além disso, o patrocínio privado também é impactado, assim como as leis de incentivo à cultura. 

O mercado editorial já vive em crise há alguns anos, especialmente por conta do esgotamento do modelo de grandes redes de livrarias. 

Porém é muito difícil prever como estará o país em maio de 2020 e se teremos mais alguma crise no caminho até lá. Com tanta instabilidade no país, a estratégia é fazer o planejamento e ir lidando com as “crises” na medida do possível. 

Desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que é a nossa sociedade hoje. Qual você considera o papel de um festival como FIQ dentro desse contexto? 

O país vive um retrocesso civilizatório.  Assistimos a diversas tentativas de censura à produção artística e ao livre pensamento, baseadas em preconceitos, ideias autoritárias e anti-científicas. O FIQ, como um evento calcado nas artes,  na educação, na diversidade e na liberdade de expressão, acaba por se tornar um ato de resistência nessa conjuntura. 

Registro da edição de 2018 do FIQ (Divulgação/Glenio Campregher)
Entrevistas / HQ

Papo com Ing Lee e Larissa Kamei, editoras da coletânea Cápsula – Uma Antologia em Homenagem a Akira: “É essencial a compreensão da complexidade do pós-guerra e seus desdobramentos na sociedade nipônica”

Há dois eventos marcados para o lançamento da coletânea Cápsula – Uma Antologia em Homenagem a Akira. O primeiro, em Belo Horizonte, rola amanhã (12/12), a partir das 18h, na Polvilho Edições (Avenida Olegário Maciel, Centro). O segundo está marcado para a próxima sexta-feira (13/12), em São Paulo, a partir das 19h, na Casa Plana (R. Fradique Coutinho, 1139).

Editada pela quadrinista Ing Lee e pela designer Larissa Kamei, Cápsula é a primeira publicação do selo O Quiabo e teve como ponto de partida para sua criação a chegada de 2019, mesmo ano no qual é ambientado o clássico Akira.

A coletânea reúne HQs de nove autores (Amanda Miranda, Fernanda Garcia, Grazi Fonseca, Ing Lee, Marco Sem S, Monge Han, Nicholas Steinmetz, Paula Puipo e Taís Koshino), todas tendo como inspiração a trama, os temas e os personagens concebidos por Katsuhiro Otomo em sua obra-prima.

“Tendo em vista a importância da obra de Katsuhiro, o meu desejo de criar um tributo à ela já existia antes mesmo de 2019 chegar e ter sido o ano que foi – intenso e instável, seja micro ou macro-politicamente”, conta Ing Lee em papo por email com o blog.

Na conversa a seguir, Ing Lee e Larissa Kamei falam sobre o impacto de Akira em suas vidas, os principais atributos da obra de Katsuhiro Otomo, o diálogo entre o quadrinho e a nossa realidade cada vez mais distópica, o desenvolvimento de Cápsula e os planos futuros para selo O Quiabo. Papo massa, saca só:

“Enquanto no ocidente a radioatividade faz surgir super-heróis – a narrativa do vencedor -, em Akira surgem monstros e bombas que destroem cidades inteiras”

Quadro do trabalho de Amanda Miranda para a coletânea Cápsula

Vocês lembram da primeira vez que leram Akira? Vocês lembram das suas primeiras impressões sobre o quadrinho? O que mais impactou vocês nessa primeira leitura?

Ing Lee: Mesmo tendo sido uma cria da cultura pop japonesa, tendo acesso aos seus produtos culturais desde minha infância, que se passou nos anos 90 e início dos anos 2000, demorei muito a de fato ler/assistir Akira. Primeiro, vi a animação de Akira, provavelmente em 2014. Só depois em 2017 que peguei pra ler o mangá, aproveitando que tinha um e-reader que tinha uma leitura mais confortável, assim devorei ele inteiro em poucos dias. A minha primeira impressão foi a de como achei incrível perceber como a obra influenciou diversas outras que eu tinha visto/lido anteriormente e eram referências para mim, como Tekkonkinkreet, Neon Genesis Evangelion, Matrix e Blade Runner. Então, fiquei com essa sensação de ter finalmente acessado o cerne de todas essas coisas, o que me trouxe uma compreensão maior também do porquê Akira ser considerado um divisor de águas na história da cultura pop mundialmente. Isso certamente me instigou posteriormente a buscar entender melhor os desdobramentos de sua influência e toda a simbologia que carrega.

Larissa Kamei: Com certeza nos meados da minha adolescência, e lembro de ter lido a versão impressa (claro). Ainda acho uma das melhores referências visuais já criadas e de influência imensa.

Quadros do trabalho de Grazi Fonseca para a coletânea Cápsula

Qual vocês consideram o maior mérito do Katsuhiro Otomo em Akira?

Ing Lee: Akira não apenas escancara as feridas do trauma da bomba atômica de uma forma distópica, executando uma repetição de uma história que aterroriza a sociedade japonesa, como também traz a possibilidade de reconstrução, mesmo após a destruição completa – tal qual a sequência após a derrota da 2ª Guerra Mundial, que levou o Japão a se reconstruir por meio desses escombros. Desta forma, Katsuhiro consegue sintetizar um inconsciente coletivo do Japão pós-guerra, com seus destroços e sequelas sociais, políticas e econômicas; que para além de uma representação daquele período, levanta questionamentos que só ganham ainda mais relevância com o passar dos anos.

“A ideia era que cada um produzisse uma HQ experimental, tendo Akira como inspiração, mas não sendo necessariamente no mesmo universo”

Quadros do trabalho de Monge Han para a coletânea Cápsula

Qual o impacto de Akira na sua vida como autora/editora de quadrinhos?

Ing Lee: Como uma quadrinista que se propõe a criar histórias urbanas, a construção dos cenários de Akira sem dúvidas me influencia bastante, com seus recursos de iluminação e movimento. Gosto da ambiguidade presente na narrativa de Akira, como forças do “bem versus mal” são imprecisas e variáveis, não há um herói que salva o dia nem a demarcação de um vilão propriamente dito, mas sim inúmeras zonas cinzas, camadas de complexidade na construção de cada personagem e as situações que seguem fora de seu controle – imersos no presente de um futuro incerto.

Como editora, busco trazer histórias que precisam ser contadas antes que o mundo acabe. Acredito que há muita potência na produção de jovens artistas independentes que estão surgindo e quero proporcionar um espaço para que seja possível compartilhar visões dissidentes, tal como Katsuhiro faz em Akira ao trazer o sentimento nacional de uma sociedade fragmentada e que teme a radiação. Pois, enquanto no ocidente a radioatividade faz surgir super-heróis – a narrativa do vencedor -, em Akira surgem monstros e bombas que destroem cidades inteiras. Quero mostrar o que é estar do outro lado, à margem, e quais produções podem surgir a partir disso, sem necessariamente ser um panfleto político, mas simplesmente pelo ato de ocupar e disseminar os nossos trabalhos, com novos pontos de vista e maneiras de olhar o mundo, como um gesto de anúncio emancipatório e contra-hegemônico.

Larissa Kamei: O maior impacto certamente sempre foi a construção visual narrativa da história. Acho uma referência incrível para várias áreas e que tem uma influência significante.

Quadro do trabalho de Paula Puiupo para a coletânea Cápsula

Como surge a ideia da coletânea Cápsula?

Ing Lee: A coletânea surgiu com a premissa de pegar o timing do ano de 2019, que é justamente o ano em que se passa a história de Akira. Tendo em vista a importância da obra de Katsuhiro, o meu desejo de criar um tributo à ela já existia antes mesmo de 2019 chegar e ter sido o ano que foi – intenso e instável, seja micro ou macro-politicamente. Unindo isso à outra vontade de tocar novos projetos junto com a Kamei, criamos juntas O Quiabo e fizemos do Cápsula a nossa estréia enquanto selo editorial.

Larissa Kamei: Principalmente devido ao ano; não somente a data, acredito, mas todo o contexto que cada vez mais estamos experienciando como um todo e como podemos traçar um paralelo com Akira.

“Fiquei realmente surpresa em como foi possível estabelecer uma narrativa ligando pontos em comum, mesmo tendo premissas e vindo de lugares bem distintos”

Quadro do trabalho de Nicholas Steinmetz para a coletâna Cápsula

Como vocês chegaram aos nomes dos autores que compõem a coletânea Cápsula?

Ing Lee: Reunimos nomes de artistas que têm em seus trabalhos a influência de Akira e que também gostaríamos de trabalhar com – ou já havíamos trabalhado junto previamente. A seleção foi feita por meio de convites. Daí chegamos ao número de 10 artistas, só que no fim o Jão acabou tendo imprevistos e não conseguiu dar conta, e aí ficamos com nove autores, sendo eles: Amanda Miranda, Fernanda Garcia, Grazi Fonseca, Ing Lee (eu, hehe), marco sem s, Monge Han, Nicholas Steinmetz, Puiupo e Taís Koshino.

Quadros do trabalho de Ing Lee para a coletânea Cápsula

Vocês conseguem fazer um comparativo entre o que imaginavam que essa obra poderia ser e a versão que acabou sendo impressa?

Ing Lee: Em nossa proposta editorial, demos bastante liberdade criativa para os artistas e enfatizamos a individualidade de cada um. A ideia era que cada um produzisse uma HQ experimental, tendo Akira como inspiração, mas não sendo necessariamente no mesmo universo, com os mesmos personagens ou uma mera extensão daquilo. As limitações eram basicamente de cores (preto e vermelho) e páginas. Perguntamos pra cada um a quantidade de páginas que dariam conta de fazer durante o período de produção, fechando numa variação de 4, 6, 8 e 10 páginas para cada história. Eu e Kamei acompanhamos os artistas, uns mais e outros menos, tentando intervir o mínimo possível em seu processo criativo e respeitando o ritmo próprio de cada um dentro do prazo estabelecido.

Creio que por toda essa abertura, ficou meio vago sobre o que poderia ser. A ideia de experimentação foi realmente levada a sério nisso, hahaha. E os resultados finais me agradaram bastante, então posso dizer que foram experimentos de sucesso!

Larissa Kamei: Sempre existem expectativas em relação como será a narrativa, mas acredito que as narrativas dos artistas cumpriram com todas essas e me surpreenderam também muitas vezes. O projeto gráfico em si sofreu muitas poucas alterações do que esperei ser o resultado final, o que também enxergo como ponto positivo da HQ.

“A abordagem de ciclos e transformação, de destruir para assim reconstruir, foi algo que permeou em todas as narrativas”

Quadros do trabalho de Taís Koshino para a coletânea Cápsula

O que mais surpreendeu cada uma de vocês ao ver todos os trabalhos da Cápsula reunidos? Houve algum aspecto dessa coletânea que chamou mais atenção de vocês?

Ing Lee: Eu e Kamei decidimos que a ordem das histórias se daria pela forma que elas comunicavam entre si. Essa tarefa de “curadoria” ficou por minha conta e fiquei realmente surpresa em como foi possível estabelecer uma narrativa ligando pontos em comum, mesmo tendo premissas e vindo de lugares bem distintos, ainda foi possível criar uma comunicação harmônica entre elas. Quis começar pela história do Monge, “Energia Pura”, justamente pelo tom de abertura que ela possui. Aí depois fui conectando os pontos: seguindo pela Fernanda com o “Cápsulas Espertas”, de uma sociedade movida pela produtividade, que se liga com a narrativa dos personagens cabeça de cápsula de “Planos”, da Puiupo, e se desconstrói nas histórias de Grazi e marco, “2019” e “Sankofa” respectivamente, que têm um tom mais abstrato e solto. Tais explosões que se reintegram no “Labirinto” do Nicholas, retomando uma narrativa mais figurativa e trazendo os personagens de Akira. E na sequência final, vem Taís Koshino com “Para além da forma”, sobre fluxos e recomeços, que prossegue amanhecendo em “Que se exploda”, a minha HQ, e fechamos com o trágico fim de “Vertigem” de Amanda Miranda.

Gostei muito do que foi produzido e perceber a individualidade de cada um dos autores contida em suas respectivas histórias. Achei interessante como a abordagem de ciclos e transformação, de destruir para assim reconstruir, foi algo que permeou em todas as narrativas.

Larissa Kamei: A forma como todos autores encaram a obra de Katsuhiro Otomo da sua ótica. Acho fascinante ver o processo de cada um, suas similaridades, diferenças e ao mesmo tempo como conseguem adequar uma visão e uma inspiração para seu estilo de narrativa.

Quadro do trabalho de Marco Sem S para a coletânea Cápsula

Eu gosto muito do texto de introdução para a coletânea, principalmente dos paralelos que a Ing Lee aponta entre a obra do Katsuhiro Otomo e o nosso presente. Até onde você veem esses paralelos indo? Digo, vocês são otimistas ou pessimistas? Vocês acham que podemos chegar em uma realidade tão trágica quanto aquela apresentada na HQ?

Ing Lee: Recentemente, apresentei algumas palestras e oficinas tendo como temática a cultura pop japonesa e suas origens, durante o festival Katsudo Shashin, que trazia as primeiras animações do Japão. Creio que acabou que muito do que foi estudado a respeito se ligava bastante com Akira, que é um sintoma cultural de todo esse contexto onde é inserido. Por isso, é essencial a compreensão da complexidade do pós-guerra e seus desdobramentos na sociedade nipônica. E para além de uma leitura dentro desse recorte, a distopia de Neo-Tokyo em Akira ainda traz convergências globais: civilizações em estado de crise, com o aumento da violência urbana e da força do discurso progressista pós-humano, seguidos de protestos e repressão militar… Questões que estão explodindo diante de nossos olhos neste ano de 2019. Às vezes, durante este ano, eu sinceramente me senti vivendo em diversos universos distópicos unidos juntos – e Akira é um deles. Fica difícil permanecer otimista diante de tudo isso, mas creio que não temos muita escolha a não ser resistir. Não há muita volta depois do estrago já feito, mas é preciso sempre termos um olhar para o passado, justamente pra entendermos o presente e sermos capazes de construir novos futuros.

Larissa Kamei: Vejo muitos paralelos com o nosso presente, porém tento me manter otimista. Acho que sempre é de suma importância a consciência da atualidade, porém não encará-la como fatídico.

“Acho que ainda existe uma certa carência no mercado gráfico de encarar os projetos com uma experiência gráfica, e que seja necessário acatar mais riscos”

Quadro do trabalho de Fernanda Garcia para a coletânea Cápsula

O que vocês podem falar sobre o O Quiabo? Como o selo surge? Vocês já têm algum próximo projeto em vista?

Ing Lee: O Quiabo surge primeiramente da imensa compatibilidade e complementariedade dos nossos trabalhos, hahaha. Somos opostas como yin yang, embora tenhamos ritmos de trabalho similares – somos igualmente fritas! Porque a Kamei tem essa atuação mais técnica, da produção gráfica e design, enquanto eu não consigo nem fazer linhas retas… Brincadeiras à parte (hehe), acho que nossas linhas de trabalho se completam bastante. Ao unir o útil ao agradável, pela nossa amizade e o desejo de continuar trabalhando juntas (a Kamei é também produtora gráfica do Selo Pólvora), criamos O Quiabo. A nossa proposta enquanto dupla n’O Quiabo não se limita somente ao campo editorial, mas sim como um eixo de experimentação gráfica. Temos já alguns planos, mas ainda nada fechado e definido que possamos anunciar agora. Estamos tentando digerir a experiência do Cápsula antes de partir pra próxima, porque se não a gente acaba emendando direto em outro trabalho e precisamos de um respiro pra fechar todos esses ciclos que 2019 nos proporcionou. Porém, posso afirmar com toda certeza de que estamos nos programando pra lançar uma publicação nova pro FIQ 2020! Fiquem de olho 🙂

Larissa Kamei: O selo surge de uma vontade imensa de produzir, principalmente num viés mais experimental. Acho que ainda existe uma certa carência no mercado gráfico de encarar os projetos com uma experiência gráfica, e que seja necessário acatar mais riscos. Temos projetos em vista, principalmente pensando em formas editoriais que proponham ainda mais nossos objetivos.

Quadro do trabalho de Amanda Miranda para a coletânea Cápsula

Para encerrar: o que vocês veem de mais interessante sendo feito hoje no formato de histórias em quadrinhos?

Ing Lee: Acho que a experimentação gráfica por meio dos quadrinhos anda sendo muito interessante. A busca por formatos para além do usual, seja no próprio conteúdo, dos desenhos e histórias, como também as próprias publicações impressas, com outros métodos de impressão, encadernação e suportes, certamente é algo que me deixa muito empolgada. E tenho a impressão de que a cena quadrinística está se ampliando e sendo ocupada por uma gama diversa de pessoas, o que confere uma pluralidade de temáticas e estilos que tiram a gente da mesmice daquelas narrativas monopolizadas pelo mesmo tipo de gente (homens brancos cis e heterossexuais de classe média/alta). Acho que as próprias feiras gráficas têm tido um forte papel nisso, de não apenas selecionar artistas fora desse status quo, como também trazer propostas que acolhem diretamente essas produções vindas de corpos que estavam à margem dessa cena. Além disso, claro, os novos projetos editoriais que andam pipocando também vão ganhando espaço. Isso tudo se retroalimenta e vai oxigenando essa vanguarda dos quadrinhos, que tá efervescendo e desafiando essas distopias onde nos encontramos.

Larissa Kamei: Na minha opinião, gosto muito de ler narrativas pessoais, ou pelo menos que contenham o cunho do artista dentro de seus quadrinhos. Apesar de entender que é impossível produzir sem deixar rastros de pessoalidade, aprecio muito projetos que se aprofundam nisso. Entendo que a história em quadrinhos seja uma das formas mais pessoais de se contar uma narrativa por esse motivo, por isso minha imensa apreciação pelo gênero.

A capa da coletânea Cápsula – Uma Antologia em Homenagem a Akira

Entrevistas / HQ

Papo com Gabriela Güllich e João Velozo, autores de São Francisco: “A foto não torna o desenho mais verdadeiro, ela constrói a narrativa junto com o desenho”

Está marcado para as 18h de sábado (7/12), em João Pessoa (PB) o lançamento de São Francisco, reportagem em quadrinhos assinada pela quadrinista e jornalista Gabriela Güllich e pelo fotojornalista João Velozo. A sessão de autógrafos será no bar Recanto da Cevada (Rua Bancário Waldemar de Mesquita Três Ruas, Bancários).

São Francisco é fruto de uma jornada de 15 dias e mais de 1000 Km percorridos por Güllich e Velozo, saindo de Belém do São Francisco, no Pernambuco, e indo até Monteiro, na Paraíba, passando por todas as cidades do Eixo Leste da transposição do Rio São Francisco.

O livro de 110 páginas em preto e branco mescla as ilustrações em nanquim da quadrinista com os registro feitos pelo fotógrafo para tratar de três temas principais: água, seca e as obras da transposição. O diálogo mais próximo do álbum é com a trilogia O Fotógrafo, dos franceses Didier Lefèvre e Emmanuel Guibert.

“Nosso objetivo nunca foi usar a foto como uma ferramenta de ‘comprovação’ visual e sim como uma ferramenta de narrativa”, diz Güllich em relação à estrutura pensada por ela e seu parceiro de projeto.

Além da estética singular, também chamo atenção para as fontes consultadas pelos autores e para a decisão dos dois em não se apresentarem como personagens da HQ – hábito muito comum e nem sempre necessário em projetos de jornalismo em quadrinhos.

Na conversa a seguir, Güllich e Velozo falam sobre o ponto de partida de São Francisco, apresentam alguns bastidores da reportagem e expõem algumas de suas reflexões decorrentes da produção do álbum. Papo massa, saca só:

“Desde o início o formato foi pensado em quadrinho + foto”

Quadros de São Francisco, HQ de Gabriela Güllich e João Velozo

Qual foi o ponto de partida do livro? Vocês sempre estiveram certos em relação ao formato HQ + fotografia?

João: Joguei a ideia pra Gabi há uns dois anos, a gente já tinha trabalhado juntos pra Deutsche Welle e depois também publicamos na VICE Brasil (num modelo mais tradicional, foto minha e texto dela) e achei que tava na hora da gente tentar trabalhar com desenho e fotografia, então desde o início o formato foi pensado em quadrinho + foto. Na época ficou só na ideia porque ainda tinha muita coisa pra amadurecer. Aí no passado a Gabi publicou a HQ Quatro Cantos de Um Todo pelo Sesc Paraíba e já tava trabalhando na HQ-reportagem dela pro TCC sobre agricultoras assentadas na PB e eu estava trabalhando numa reportagem na mesma região do nosso itinerário, e resolvemos que seria um bom momento pra colocar a ideia em prática. Fui premiado com o Yunghi Grant 2018 por esse trabalho, o que garantiu meus custos da viagem, e a Gabi já vinha juntando dinheiro pra isso também. Traçamos um itinerário, fizemos nosso orçamento, decidimos a pauta e em janeiro desse ano fomos pra estrada.

Vocês levaram quanto tempo entre o início do projeto e o lançamento? Que tipo de planejamento vocês fizeram antes de dar início à apuração das histórias?

Gabriela: Considerando como ponto de partida o dia que a gente realmente sentou pra planejar custos, itinerário, pautas etc., que foi em meados de novembro do ano passado, até o lançamento (que aconteceu em novembro em Fortaleza e teremos mais um em João Pessoa e outro em Recife agora em dezembro), deu mais ou menos um ano de produção. Primeiro, nós traçamos um itinerário que seguiu as cidades do Eixo Leste da Transposição. Em seguida, nós escolhemos a pauta que abordaríamos em cada região pra facilitar a estimativa de tempo que passaríamos em cada cidade. E aí veio a questão do orçamento que envolveu basicamente passagens de ônibus, locomoção nas cidades, alimentação, estadia, custos com equipamento e custos com possíveis imprevistos.

Em relação a esse planejamento, o quanto ele mudou a partir do momento em que vocês saíram viajando para produzir o que viria a ser o livro?

João: Tivemos alguns gastos a mais com locomoção e o planejamento com o itinerário variava muito de acordo com as cidades, mas isso era algo que a gente já esperava. Às vezes pode acontecer de perder um dia inteiro de trabalho esperando uma única entrevista e às vezes parece que um dia inteiro rende mais do que uma semana.

“Monto uma estrutura de reportagem e adapto pra narrativa de uma história em quadrinhos”

Quadros de São Francisco, HQ de Gabriela Güllich e João Velozo

Como foi a dinâmica de trabalho entre vocês? O quanto a Gabriela influenciou nos trabalhos do João e vice-versa?

João: No começo da viagem ainda rolou umas adaptações, a Gabi precisava de referência visual pros desenhos e eu precisava focar na fotografia, então fiquei com minha câmera e ela com uma menorzinha mais pra filmar as coisas que interessavam nessa parte de narrativa sequencial do quadrinho.

Como foi o trabalho de decupagem do material que vocês reuniram? Vocês precisaram deixar muita coisa de fora?

Gabriela: A gente já viajou pensando nas três pautas principais, que são os capítulos do livro: água, seca e obra. Então na hora de selecionar os relatos, buscamos aqueles que mais correspondiam a esses temas. Nós entrevistamos muitas pessoas, então tentamos não colocar relatos que fossem muito parecidos e prezamos por aquelas histórias que tinham um pouco mais detalhes. Conseguimos utilizar um pouco mais da metade das entrevistas.

Encerrado esse trabalho de apuração, vocês chegaram a construir um roteiro fechado? Se sim, como foi esse trabalho?

Gabriela: Todo dia assim que a gente chegava do trabalho eu já abria o notebook pra transcrever as entrevistas, isso facilitou muito a produção do roteiro depois porque eu já tinha a fala completa pronta, era só fazer a decupagem. Fiquei responsável pelo roteiro porque já tinha essa experiencia prévia com quadrinho então fui organizando como geralmente faço: monto uma estrutura de reportagem e adapto pra narrativa de HQ.

Quadros de São Francisco, HQ de Gabriela Güllich e João Velozo

Gabriela, quais materiais você utilizou durante a produção desse livro?

Gabriela: Eu trabalho basicamente com tradicional, então levei um caderninho e uma caneta pra fazer rascunhos e anotações durante a viagem e quando realmente fui pra produção do livro trabalhei tudo com nanquim, fiz a arte-final toda na caneta e usei o Photoshop depois só pra ajustes de níveis e contraste mesmo.

Por que a opção pelo preto e branco? Em algum momento vocês cogitaram fazer o livro em cores?

João: O livro sempre foi pensado em preto e branco mesmo, é como eu fotografo na maioria dos meus trabalhos e é como a Gabi prefere trabalhar também.

É explícita a influência de O Fotógrafo no trabalho de vocês, principalmente pela mescla “fotografia + quadrinhos”. Esse trabalho foi a principal influência de vocês durante a produção de São Francisco? Houve alguma outra obra que influenciou o desenvolvimento do quadrinho de vocês?

João: Quando tive a ideia do projeto, emprestei O Fotógrafo pra Gabi dar uma olhada. Acho que foi o pontapé inicial mas não a principal influência, não acho que tenha tido algo muito específico, o livro é uma mistura de vários autores que gostamos junto com o nosso olhar.

“Prefiro deixar o foco da narrativa totalmente na pessoa que conta a história”

Foto presente no álbum São Francisco, HQ de Gabriela Güllich e João Velozo

Um padrão habitual em obras de jornalismo em quadrinhos está nos jornalistas se colocando como personagens das obras. Por que a opção de vocês em não se retrataram na HQ?

Gabriela: Eu prefiro deixar o foco da narrativa totalmente na pessoa que conta a história, é como trabalhei nas minhas produções anteriores também. Particularmente não acho que me desenhar ouvindo a pessoa seja algo necessário na narrativa – e isso eu acho um ponto legal da fotografia: você sabe que tem alguém fotografando, mas o foco visual é em quem tá do outro lado da lente, e é assim que eu prefiro trabalhar minhas reportagens.

Eu gosto de uma reflexão proposta pelo Joe Sacco no livro Reportagens que ele questiona “como conciliar a subjetividade inerente aos desenhos com a verdade objetiva que se aspira em uma matéria jornalística?”. Eu repasso a pergunta para vocês: como? Vocês acreditam que o uso de fotografias auxilia nessa aspiração à “verdade objetiva”?

Gabriela: Acho que seria um pouco presunçoso da nossa parte dizer que chegamos à fórmula secreta de como deixar o desenho ou até mesmo a foto totalmente objetivos. O que a gente busca é ser fiel à história que nos foi contada, mas é impossível retirar toda a subjetividade de um relato até porque o próprio relato já vem carregado da subejtividade de quem conta. O que podemos fazer é buscar estar de olhos e ouvidos abertos durante uma entrevista, tentando não trazer nossas impressões pessoais antes de ouvir o que a pessoa tem a dizer. Nosso objetivo nunca foi usar a foto como uma ferramenta de “comprovação” visual e sim como uma ferramenta de narrativa. A foto não torna o desenho mais verdadeiro, ela constrói a narrativa junto com o desenho.

“Nosso objetivo nunca foi usar a foto como uma ferramenta de ‘comprovação’ visual e sim como uma ferramenta de narrativa”

Quadros de São Francisco, HQ de Gabriela Güllich e João Velozo

Vejo muitos quadrinistas independentes lamentando a falta de um editor. Também sei como é difícil para jornalistas freelancers trabalhar sem o auxílio de um editor. Não consta no expediente da reportagem em quadrinhos de vocês nenhum crédito a editores. Vocês sentiram falta de alguém exercendo essa função? Como foi o trabalho de edição desse quadrinho?

Gabriela: Não tive editores nos meus últimos trabalhos em quadrinhos então fui pegando a experiência que adquiri pra montar essa estrutura do livro, mas já trabalhei com editores em matérias só com texto mesmo e sim, faz falta ter esse olhar. O que ajudou nessa parte foi contar com a Ana Gabriella, do projeto gráfico, e a Isabor, nossa revisora. Os apontamentos que elas faziam me ajudaram a construir melhor a edição do quadrinho.

João: Quando começamos a parte da elaboração do livro, falei com a Gabi que gostaria de alguém experiente pra fazer o trabalho de edição de fotografia, por isso convidamos a Cris Veit pra cuidar desse aspecto.

Eu queria saber um pouco sobre a experiência de vocês com o financiamento coletivo. O livro de vocês entrou no Catarse em uma temporada muito concorrida da campanhas de financiamento por conta da Comic Con Experience. Que balanço vocês fazem dessa experiência?

Gabriela: Olha, foi uma correria e tanto. A gente não vai lançar o livro na CCXP, mas eu tô em processo de mudança então não daria pra adiar o lançamento pro ano que vem, acabou que tivemos que pegar essa onda de catarses que é esse período de setembro a dezembro. No começo ficamos com um pouco de receio por não ser algo muito conhecido, o jornalismo em quadrinhos ainda tá ganhando espaço – tanto no mundo do jornalismo quanto no mundo dos quadrinhos -, ainda mais que resolvemos misturar desenho e foto… A campanha deu super certo, conseguimos arrecadar mais do que a meta prevista e foi bem legal perceber o interesse das pessoas no jornalismo independente.

“O que fica é a história e nossa profissão é ser testemunha dessa história, aconteça o que acontecer”

Quadros de São Francisco, HQ de Gabriela Güllich e João Velozo

Uma pergunta que tenho feito bastante aqui no blog: desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que a nossa sociedade é hoje. Vocês são otimistas em relação ao nosso futuro?

João: Não acredito que caiba ao jornalista ser otimista ou pessimista, enquanto jornalistas decidimos abdicar das nossas vivências e vozes para sermos veículos para a voz daqueles que mais precisam. No caso atual do Brasil, creio que devamos focar no nosso trabalho, mesmo com a máquina estatal comprovadamente sendo usada para espalhar mentiras, não há mentira no mundo que supere o julgamento da história. E se nós fizermos nosso trabalho bem feito, acordando todos os dias pela manhã com o ímpeto de contar historias, de contar a verdade, de ser essa caixa de ressonância para as vozes de quem está sofrendo, nós seremos peças fundamentais para que no tribunal da história os fatos sejam considerados e a verdade prevaleça. Esse governo vai passar, e nós passaremos por ele, pode durar quatro anos, pode durar vinte, o que fica é a história e nossa profissão é ser testemunha dessa história, aconteça o que acontecer.

No que vocês estão trabalhando agora? Vocês já têm algum próximo projeto em vista?

João: Por enquanto estamos mais focados em entregar as recompensas dos nossos apoiadores e fazer o livro circular, ainda vamos fazer a venda do livro digital em inglês também então temos vários detalhes a serem cuidados desse projeto ainda.

Gabriela: O João tem engatado projetos de fotorreportagem e eu tenho meus projetos de jornalismo em quadrinhos. Tenho flertado com a possibilidade de trabalhar um pouco com terror, venho conversado com uma roteirista e estamos vendo no que vai dar. Por enquanto, a única coisa certa mesmo é focar em colocar o São Francisco pra rodar.

Para encerrar: o que vocês veem de mais interessante sendo feito hoje no formato de histórias em quadrinhos?

Gabriela: Acho muito interessante o trabalho que a Carol Ito e o Pablito Aguiar vêm desenvolvendo com perfis e matérias curtas nesse campo do jornalismo em quadrinhos. Também tenho gostado bastante de acompanhar o trabalho de quadrinistas que conheci recentemente, como a Brendda Maria e a Débora Santos, do Ceará e a Luiza (ilustralu), do RN.

A capa de São Francisco, HQ de Gabriela Güllich e João Velozo
Entrevistas / HQ



Papo com Lobo Ramirez, editor do selo Escória Comix: “O que realmente importa é a essência de ir contra qualquer pensamento ignorante, falsos moralismos e fanatismos”



Escrevi na segunda edição da Sarjeta, minha coluna sobre quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural, sobre os trabalhos dos quadrinistas e editores Lobo Ramirez e Panhoca à frente dos selos Escória Comix e Pé-de-Cabra. Comentei algumas obras publicadas por eles e chamei atenção para a importância dos disparates lançados pelos dois em tempos de conservadorismo crescente como aqueles que estamos vivendo.

Compartilho aqui no blog as entrevistas que fiz com os dois autores antes de escrever a coluna, tratando da história de seus selos, de algumas das percepções deles em relação à cena de HQs na qual eles estão inseridos e sobre planos futuros de suas editoras.

No papo com Lobo Ramirez, ele ainda lembra de seu primeiro contato com alguns dos autores de obras que hoje compõem o catálogo da Escória Comix – como Arame Surtado (Ketacop – A Anticop), Emilly Bonna (Esgoto Carcerário) e Victor Bello (O Alpinista). Você lê a Sarjeta #2 clicando aqui, lê a entrevista com Panhoca clicando aqui e lê a seguir a minha conversa com Lobo Ramirez. Ó:

“Eu precisava de um nome que deixasse bem claro qual era a linha da editora…”

Quadro de Victor Bello presente em Úlcera Vórtex

Como surge a Escória Comix? Quando surge a Escória Comix?

Não lembro exatamente, mas acho que foi 2013 ou 2014 que comecei a lançar o zine ESCROTUM pelo selo Gordo Seboso. Era de forma despretensiosa, só pela diversão de fazer quadrinhos e por conta disso comecei a frequentar feiras de publicações independentes, como a Feira Plana e a Ugra Fest. Fui entendendo a maneira que as editoras funcionavam e como era publicar de forma independente. Depois de um tempo fui percebendo que a maioria das publicações eu não gostava, nenhum problema em ter uma esmagadora maioria de material que a gente não gosta sendo publicado, mas eu  sempre senti falta de ter o meu nicho também, então em 2016 decidi começar uma editora que agrupasse autores que seguissem uma linha editorial bem clara e específica, quadrinhos toscos, radicais, mal-educados, grosseiros, vulgares, despretensiosos e por último mas não menos importante com humor. 

Eu sabia que se mantivesse o foco todo dia, toda semana, todo mês, todo ano, uma hora ia dar certo, e se não desse, pelo menos eu tentei e poderia desistir sem peso na consciência.  Sigo focado na Escória Comix.

Por que o nome Escória Comix?

Eu precisava de um nome que deixasse bem claro qual era a linha da editora. Na época eu estava lendo Transmetropolitan, do Warren Ellis, e tinha um termo no quadrinho que era Nova Escória, achei interessante e tomei o ESCÓRIA como nome. A ideia é que tudo que é considerado marginal, desprezível, insignificante, tosco, estranho  pela sociedade é a escória. 

“Aos poucos a Escória Comix vem se tornando autossuficiente”

A capa de Esgoto Carcerário, HQ de Emilly Bonna publicada pelo selo Escória Comix

Qual é o público dos quadrinhos da Escória Comix?

Existe o público que eu gostaria de estar atingindo, ou que eu acho que poderia atingir, e o público de fato. Vou me basear em parte numas estatísticas do Instagram e  Facebook pra responder essa pergunta. A maior parte é de São Paulo, depois vem as cidades de Rio de Janeiro, Curitiba, Brasília, Porto Alegre e Fortaleza. 48% do público é de pessoas entre 25 e 34 anos, 24% tem entre 18 e 24 anos e 20% de pessoas entre 35 e 44 anos, sendo 79% de homens. A maior parte, eu percebo, é de pessoas que estão acostumadas a consumir material independente e alternativo. No geral o público da Escória Comix é bem variado mas não tanto como eu gostaria. Existe uma parte que compra os quadrinhos e gosta e uma parte menor de leitores fiéis que SÃO a escória e tem a mesma paixão que eu com essa tosqueira. Sou eternamente grato a essa gangue. Quem é sabe. 

A Escória Comix é um negócio rentável? Você administra a editora dentro de algum plano de negócios?

Não é, mas aos poucos a Escória Comix vem se tornando autossuficiente. Administro tudo sozinho e sou desorganizado e nem tenho formação ou conhecimento na área. A verdade é que eu me baseio na tentativa e erro, algo deu certo, tento replicar, se deu errado, tento não repetir. Total intuição. Sempre penso o que gostaria publicar e depois o que preciso fazer para realizar, nessa entram os outros produtos, tipo bonés, meias, jaquetas, etc. Cada muamba comprada ajuda no custo dos quadrinhos, que ainda não vendem tanto para se tornarem rentáveis. 

A capa do segundo volume de Úlcera Vórtex, de Victor Bello

Você vive exclusivamente da Escória Comix?

Não. Eu trabalho com ilustração e desenho para tudo que alguém precisar, como rótulos de cerveja, camisetas, capa de álbuns, logomarcas, etc…

Qual o maior sucesso de vendas da Escória Comix?

Sem sombra de dúvidas, eu diria que é o Úlcerta Vortex – Volume I do Victor Bello, mas  não tenho exatamente os números em mãos, pode ser que o NÓIA- Uma História de Vingança, do Diego Gerlach, tenha vendido mais, ou o Asteróides, já que se encontra praticamente esgotado.  

Como foi o seu primeiro contato com o trabalho do Victor Bello? O que você vê de mais especial no trabalho dele?

Foi quando me indicaram o zine dele, Feto em Conserva. Foi uma explosão de frescor e diversão ler aquele zine A5, preto e branco, em sulfite, grampeado, simples, mas potente. O Victor Bello tem um traço próprio bem desenvolvido e claramente possui um estilo de narrativa com abordagem 

“Acho que a única influência que eu sempre tive nas obras é sobre a capa, de resto é totalmente com o autor, eu sou meio chato com a capa”

A capa de O Alpinista, de Victor Bello

Como foi o seu primeiro contato com o trabalho da Emilly Bonna? O que você vê de mais especial no trabalho dela?

O Luiz Berger me enviou uns perfis de Instagram de ilustradores que poderiam ser a cara da Escória e o mais foda era um que usava o nome de NECROSE , era a Emilly Bonna. Curti demais os desenhos nojentos de criaturas deformadas, sempre amei monstrinhos. Ela tem um traço próprio e, desde que conheci o trabalho dela, só a vejo melhorando .

Como foi o seu primeiro contato com o trabalho da Arame Surtado? O que você vê de mais especial no trabalho dela?

Mais uma vez eu acho que foi o Luiz Berger que me mostrou pelo Instagram e de cara já curti os desenhos dela, ela claramente tinha as mesmas referências que eu, ou bem parecidas: filmes trash dos anos 80 e muito heavy metal. 

Como foi o seu primeiro contato com o trabalho do Fabio Vermelho? O que você vê de mais especial no trabalho dele?

Foi em alguma Revista Prego e depois na Revista Pé-de-cabra.  Sem sombra de dúvidas, é o desenho dele, o uso de hachuras é um tesão, sempre gostei desse tipo de traço e o Fábio Vermelho realmente sabe usar.  Não tem uma pessoa que, mesmo não gostando, não diga que ele desenha bem.

“Estou fechando uma parte das publicações de 2020 e por enquanto tem umas sete, sendo três delas de autores que nunca foram publicados pela Escória”

Quadro de O Alpinista, de Victor Bello

Como foi o seu primeiro contato com o trabalho do Diego Gerlach? O que você vê de mais especial no trabalho dele?

Acho que foi com algum gibi que ele publicou pela Prego, talvez o Ano do Bumerangue, ou em alguma outra antologia, mas só fui conhecer mesmo o trabalho dele depois que a gente se conheceu pessoalmente numa Desgráfica (não lembro qual ano). O Gerlach chegou num nível de consciência do próprio trabalho que só alguém que produziu bastante e por um longo tempo chega. O domínio da linguagem e o uso dos símbolos do próprio quadrinho são os brinquedos dessa criatura abissal que, por algum motivo sinistro, não ascende ao alto escalão.

Como é a dinâmica do seu trabalho como editor com os autores da Escória?

A primeira vez que me falaram algo do tipo “bom trabalho de editor” eu fiquei sem entender, porque pra mim eu não estava fazendo nada. Eu perguntava se a pessoa queria fazer um quadrinho e o autor entregava, eu só precisava decidir junto com o autor a capa que seria mais legal e mandar pra gráfica, qual era o trabalho? Mas depois, principalmente nas últimas publicações, eu influenciei em grande parte, pedindo pro autor manter um certo número de páginas, mas também não deu certo porque eles não mantiveram – eu sempre digo que a prioridade era a história, se fosse ficar melhor, tudo bem. Acho que a única influência que eu sempre tive na obra é sobre a capa, de resto é totalmente com o autor, eu sou meio chato com a capa e acredito que ela tem que ser impactante, porque isso ajuda a própria divulgação e venda do quadrinho. 

Depois fui descobrir que editor é o cara chato que pede pro autor mudar coisas no PRÓPRIO trabalho. Eu até entendo que em muitos casos a visão de um editor pode melhorar a história, mas pra ser sincero sempre li as histórias dos autores da Escória e nunca tive vontade de mudar nada, meus comentários sempre foram de apoio e o quanto eu estava achando boa a história, mas aos poucos estou começando a propor algumas ideia, porém para isso o autor tem que estar aberto.  No geral, acho que total liberdade é o melhor caminho.

A capa de NÓIA – Uma História de Vingança, de Diego Gerlach

Qual balanço você faz das publicações da Escória em 2019?

Comecei esse ano com altas expectativas, pela primeira vez comprei um calendário daqueles que dá pra ver todos os meses de uma vez e anotei todas as minhas pretensões de lançamentos do ano, eram mais ou menos uns 12 ou 13 títulos e até agora acho que consegui publicar seis. Então o balanço é: pense alto, faça metade que já é muito. Estou feliz principalmente com a qualidade do material publicado em 2019, pra mim foi o melhor ano da Escória.  

Você tem alguma meta para os quadrinhos da Escória para 2020? Você tem em mente algum número de publicações para o próximo ano?

Acho que a meta é tentar manter o ritmo de publicações, ter uma certa frequência de material novo e fresquinho para nossos mutantes do esgoto.  Vou tentar arriscar umas coisas diferentes também em 2020 mas por enquanto não posso falar nada. Estou fechando uma parte das publicações de 2020 e por enquanto tem umas sete, sendo três delas de autores que nunca foram publicados pela Escória. 

“Os três pilares para a Escória continuar existindo são: vendas no site + não levar calote das lojas + feiras de publicação”

A capa de O Deplorável Caso do Dr. Milton, de Fabio Vermelho

O que você vê de mais interessante acontecendo hoje nos quadrinhos brasileiros?

Sinceramente, eu não sei. Quase não leio mais quadrinhos. Acho que talvez o surgimento de várias obras que são consideradas ‘graphic novels’?  Minha percepção é que a 10 anos atrás tinha mais antologias e agora parece que tem mais autores publicando quadrinhos fechados. Mas eu falo muito da cena independente, específica que eu vivo. Acho que também que a quantidade de mulheres fazendo quadrinhos, às vezes parece que tem um monte agora porque a percepção é de um lugar que não tinha quase nenhuma, mas na real ainda tem muito pouca mina, a tendência é só crescer, logo logo vai aparecer a próxima novela gráfica dos quadrinhos brasileiros que vai ser de uma autora. 

Vivemos tempos muito conservadores, qual você considera o papel de uma editora de quadrinhos underground como Escória dentro desse contexto?

Os “quadrinhos underground” fazem parte de uma contracultura que é totalmente oposta ao conservadorismo, mas já que você citou esse termo específico quero dizer que  não gosto de usar o termo underground comix ou quadrinhos underground, porque pode acabar virando apenas um rótulo estético de certas influências, que eu não nego que a Escória Comix tenha com certeza, a gente bebe da fonte, mas o que realmente importa é a essência de ir contra qualquer pensamento ignorante, falsos moralismos e fanatismos. Uma editora que se propõe a ser um caminho fora disso tudo precisa buscar sempre estar de acordo com essa essência dentro do que se propõe que é publicar quadrinhos.

Quadro de O Deplorável Caso do Dr. Milton, de Fabio Vermelho

Qual a importância de feiras e eventos de quadrinhos e publicações independentes para a manutenção das atividades da Escória? 

Importância VITAL, os três pilares para a Escória continuar existindo são: vendas no site + não levar calote das lojas + feiras de publicação.  Nenhuma dessas coisas por si só segura a bronca no fim do mês, mas todas elas juntas já dão um respiro e aquela injeção na parada toda. As feiras são pontos cruciais é quando a gente pode fazer lançamentos e ter aquela resposta instantânea, divulgar o trabalho direto no olho no olho, conversar com várias pessoas que estão no mesmo rolê e ver uma parte do que está sendo produzido no momento.   

A capa de Asteróides – Estrelas em Fúria, de Lobo Ramirez