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Entrevistas / HQ

Papo com Galvão Bertazzi, autor de Vida Besta: Fim do Mundo: “Gosto dos meus personagens vivendo normalmente em todo esse ambiente incendiário e voraz”

Entrevistei o quadrinista Galvão Bertazzi sobre Vida Besta: Fim do Mundo, coletânea recém-publicada pela editora Mino que reúne a leva mais recente de tiras do autor. Desde 2018 ele incorporou à sua produção o caos e o niilismo do governo Jair Bolsonaro e de uma pandemia que já matou mais de 680 mil brasileiros. Transformei esse papo com o autor em matéria para o jornal Folha de S.Paulo. Você lê o meu texto clicando aqui. Compartilho a seguir a íntegra da minha conversa com Bertazzi:

“Comecei a sentir prazer em desenhar os personagens e os cenários pegando fogo”

Tira de Galvão Bertazzi publicada em Vida Besta: Fim do Mundo, da editora Mino (Divulgação)

O que aconteceu em 2018 que te motivou a dar início a esse leva mais recente e apocalíptica da Vida Besta?

Não foi nada racionalmente pensado. Não pensei: ‘agora vou fazer tiras catastróficas’. Acho que foi um caminho natural dos desenhos e das temáticas que já povoavam meu trabalho de tiras.

Mas eu me lembro que certa hora comecei a sentir prazer em desenhar os personagens pegando fogo, os cenários pegando fogo e as ações acontecendo na história como se o desastre fosse a coisa mais natural do mundo. Pode ser que estejamos vivendo assim atualmente, fingindo uma normalidade enquanto a realidade desaba. Como as tiras sempre foram sobre nosso cotidiano, acho que foi natural que enveredasse para um cenário apocalíptico.

As tiras de Fim do Mundo foram publicadas entre 2018 e 2022, do início do governo Bolsonaro aos estágios mais atuais da pandemia. O quanto esse contexto recente da nossa realidade afetou a sua vida?

Eu vivi e senti a tragédia da chegada do atual governo em 2018. Eu vivi e senti a tragédia do início da pandemia em 2020 . Eu vivi e senti o agravante de se estar no Brasil, governado por Bolsonaro com o plus de uma pandemia. Eu desisti de tentar entender e racionalizar o misto de sentimentos, medos, anseios pelos quais fui atropelado nesse período de pré-pandemia, pandemia e pós-pandemia, com a abertura geral de tudo, aglomerações e gente feliz e contente na rua como se não existisse amanhã… 

Minha vida pessoal entrou em colapso e só agora, depois de passada uma gigantesca rebordosa pós-pandêmica estou conseguindo reestruturar um bocado de coisas que se quebraram.

Faz alguns meses que me entreguei às delícias da indústria farmacêutica moderna pra controlar uma ansiedade que saiu completamente do controle e estou adorando! 

Você vê a humanidade realmente caminhando para o fim de sua existência? Você nos vê de verdade mais próximo do fim do mundo?

Não sei se a humanidade vai deixar de existir, não. Seria bom, se acontecesse. Eu tenho tentado pensar num futuro mais brando, onde o atual sistema consumista não se sustente mais, mas sei que isso é utopia juvenil e eu já me enxergo velho e calejado demais pra imaginar um futuro bonito com todos de mãos dadas se respeitando e ajudando mutuamente. 

Mas não duvido da insistência e teimosia da nossa espécie e é capaz que duremos mais uns bocados de séculos, vagando por uma gigantesco pasto ou plantação de soja, carregando respiradores e roupas com fator UV elevado.

“Não tenho mais urgência em publicar diariamente”

Tira de Galvão Bertazzi publicada em Vida Besta: Fim do Mundo, da editora Mino (Divulgação)

Vermelho, laranja e amarelo sempre estiveram muito presentes em seus trabalhos – e casam muito bem com o tom incendiário e infernal de Fim do Mundo. O que te atrai nessas cores?

Acho que é isso mesmo. Essa idéia de urgência incendiária sempre esteve presente na minha paleta, tanto nas tiras quanto nas ilustrações e pinturas. Eu gosto dessa coisa quente e exagerada e como eu falei ali em cima, gosto de colocar meus personagens vivendo normalmente em todo essa ambiente incendiário e voraz.

Fico com a impressão que seu traço, seus desenhos e seus personagens, estão cada vez mais simples e icônicos. Faz sentido para você? Se sim, como essa simplicidade contribui para a construção das suas tiras?

Acho que isso é relativo. Eu não sei se é uma simplicidade. Creio que é mais uma urgência em resolver a ideia mesmo. Minha noção de tempo está meio bagunçada nesse últimos tempos e tenho até produzido menos tiras do que deveria, justamente por isso. Eu gosto de desenhar, pra mim a tira tem muito mais a ver com o desenho do que com o enredo em si e o meu desenho sempre muda. Se você pegar as primeiras tiras e ir acompanhando até os dias atuais, vai notar que devagarinho os bonecos, os cenários vão se moldando até chegar onde está hoje. Provavelmente daqui uns anos, se o mundo não tiver acabado, eu vou estar desenhando de um jeito completamente diferente. 

A sua rotina de produção de tiras mudou muito ao longo dos anos? Desde o começo da Vida Besta, o que mais mudou na sua rotina? É mais fácil para você produzir hoje uma tira do que nos seus primeiros anos da série?

Mudou demais. Alguns anos atrás eu ainda desenhava diariamente com essa ânsia de desenhar, postar e deixar os seguidores verem quase que em tempo real a tira saindo do forno. 

Minhas tiras sempre foram primeiro pra internet do que pra qualquer veículo impresso. Faz anos que não publico em nenhum jornal ou revista e o feedback na internet sempre foi algo que me abastecia. Isso foi mudando. Eu não me cobro mais em ter essa urgência em publicar diariamente, acho que cansei dessa vida via de mão única das redes sociais e internet. Hoje em dia, eu gosto de sentar com mais calma e resolver uma ou duas tiras sem muita pressa e às vezes nem publicar online. 

E em termos de técnica, mudou muito? Quais materiais você usava quando começou a Vida Besta e quais materiais usa atualmente?

Lá no começo eu desenhava muito com caneta, nanquim e lápis de cor e depois escaneava. Mas isso não durou muito. Eu desenho no tablet, desses de formato antigo de mesa, desde o século passado. As tiras e ilustrações se resolvem muito bem pra mim assim, direto no digital. Consigo simular bem meu traço no papel. Ando ensaiando em voltar um pouco pro papel e lápis de cor, mas tô com preguiça. Mas uma hora vai acontecer.

“A realidade tende ao pessimismo”

Tira de Galvão Bertazzi publicada em Vida Besta: Fim do Mundo, da editora Mino (Divulgação)

A minha leitura de Vida Besta me dá a impressão que você é uma pessoa pessimista. Ou pelo menos alguém que se encontra atualmente pessimista. Você é pessimista?

Cara, não me considero pessimista, apesar de muita gente ao meu redor me achar pessimista. Eu tenho 44 anos agora e já vi muita coisa acontecendo e com tempo você consegue perceber que elas são cíclicas, quase que como um padrão. O mundo é pessimista por si, a realidade tende ao pessimismo e acho que é isso que eu retrato nas tiras. Nada impede que na vida real, coisas boas aconteçam e aí você se surpreende e dá valor nessas pequenas coisas. Mas fiquei aqui pensando enquanto digito essa resposta e olha… Acho que sou sim pessimista. E isso é uma merda.

Fim do Mundo reúne sua fase cobrindo a Laerte na Ilustrada quando ela esteve com Covid. Como foi essa experiência para você?

Ah, foi um misto de emoções. Primeiro porque me coloquei uma responsabilidade gigantesca nas costas pra produzir tiras com uma qualidade alta, mas que nem de perto chegaram perto da genialidade da Laerte e isso me aterrou na labuta da produção diária, num jornal que tem tanto alcance como a Folha. Não escondo de ninguém que gostaria muito de publicar diariamente pra Folha e em outra situação eu teria comemorado. Mas o convite de manter o espaço da Laerte funcionando enquanto ela se recuperava do Covid, me deixou meio confuso. Eu não fiz alarde e procurei fazer o meu trabalho da melhor maneira possível, ansiando loucamente para devolver o posto pra Laerte.

O que vem depois do fim do mundo? Você já nos vê saindo do atual cenário apocalíptico que vivenciamos nos últimos anos? O que você aposta para o nosso futuro?

Eu não aposto em nada porque eu sempre perco. Mas quero muito ver essa era Bolsonaro se acabando e que por mais que demore, quero que o legado desse desgoverno fique apenas como uma memória ruim de uma geração meio burra que não soube cuidar de si mesma e nem pensar nas gerações futuras. Mas eu queria mesmo era que meio kg de café voltasse a custar R$5 reais. Tá foda!

A capa de Vida Besta: Fim do Mundo, obra de Galvão Bertazzi publicada pela Mino (Divulgação)


Entrevistas / HQ

Papo com Powerpaola, autora de Todas as bicicletas que eu tive: “Ao andar de bicicletas me permito conhecer o mundo e me conhecer dentro dele”

Todas as bicicletas que eu tive é o terceiro título solo da quadrinista equatoriana-colombiana Powerpaola lançada no Brasil. Antes foram publicados os excelentes Vírus Tropical (Nemo) e QP (Lote 42). Também editado pela Lote 42, com tradução de Nicolás Llano Linares, o novo álbum da autora está entre as minhas melhores leituras no ano.

Entrevistei a artista e transformei esse papo em matéria exclusiva aqui para o blog. Você lê sobre a trama de Todas as bicicletas que eu tive, a produção da HQ e as reflexões de Powerpaola em torno de quadrinhos e bicicletas clicando aqui. Compartilho a seguir, a íntegra da minha conversa com a autora:

“Bicicletas sempre foram minhas grandes companheiras”

Você pode falar um pouco sobre o ponto de partida de Todas as bicicletas que eu tive? Houve algum estímulo em particular para você dar início à criação desse livro?

Na minha cabeça existem alguns livros que eu tenho em mente e que quero fazer nesta vida, depois eles acabam virando outra coisa, mas isso não importa. As bicicletas sempre foram minhas grandes companheiras e principalmente nestes últimos anos da minha vida, por isso era algo que insistia em ser desenhado e escrito. Um dia eu contei à Maitena que estava começando a desenhar uma história em quadrinhos sobre todas as bicicletas que eu havia tido e ela me emprestou um livro da Cecilia Pavón que tinha um conto lindo chamado Todas as bolsas que eu tive e me animou ainda mais a ideia de continuar. Justo naquela época vi que ela estava dando uma oficina de poesia, então entrei em contato e estive na sua oficina durante todo 2020.

Você conta no livro sobre a primeira bicicleta que teve, mas você se lembra do instante em que compreendeu a liberdade que uma bicicleta poderia lhe dar e as novas possibilidades que elas te dariam?

Sim, eu me lembro claramente, tinha 11 anos e vivia em Quito com a minha mãe. Saí para o parque La Carolina com a minha bicicleta e senti que podia trocar de direção e ir ainda mais longe, me perder um pouco pela cidade, fazer o percurso que fazia no ônibus do colégio. Foi maravilhoso experimentar isso. Nunca na minha vida eu tinha ido tão longe sozinha, comprei umas bolachas deliciosas com chips de chocolate na volta e levei para a minha mãe para que não me desse uma bronca por não ter seguido o combinado inicial que era ir até o parque.

Você já viveu em várias cidades e países. A sua relação com bicicletas durante a infância e a circulação permitida por elas influenciaram de alguma forma essa sua vida nômade?

Não sei se foram as bicicletas em si que me influenciaram, mas com certeza foram elas que me permitiram conhecer profundamente as cidades em que vivi. Termino fazendo um desenho com elas nesse labirinto que é a própria vida. 

Mais do que um quadrinho sobre bicicletas, Todas as bicicletas que eu tive me soou mais como uma obra sobre encontros e desencontros proporcionados por movimento/fluxo/circulação. O que bicicletas significam para você?

São o dispositivo que permitem me deslocar em total liberdade, me tornar dona de mim, ir aonde eu quero ir, ir quando eu quero ir, o mais parecido com a felicidade e a independência. 

Tem uma fala no início do livro que você diz: “Quando você desenha e escreve, compreende os eventos que acontecem na vida”. Os seus quadrinhos são relatos muito pessoais em primeira pessoa de várias experiências da sua vida. Qual a importância que desenhar e escrever tem na sua vida? Além do aspecto profissional e financeiro, como fazer quadrinhos contribui para a sua compreensão da sua vida?

O desenho e a escrita têm me ajudado a inventar meu próprio universo, a me relacionar com os demais, a estar imersa no fazer, me apropriar da vida, da minha vida, e é parecido com andar de bicicleta, eu decido aonde eu quero ir, me permito conhecer o mundo e me conhecer dentro dele. 

“Sempre me proponho usar técnicas diferentes em cada livro”

Página de Todas as biciletas que eu tive, obra de Powerpaola publicada pela Lote 42 (Divulgação)

Imagino que sejam tempos estranhos para pessoas nômades como você. A pandemia limitou a nossa circulação e há um conservadorismo crescente ao redor do mundo, muito simpático a fronteiras e contrário ao fluxo de pessoas. Como você viveu os últimos anos?

Tem sido os anos mais difíceis da minha vida, mas meus amigues, o desenho e a bicicleta têm me sustentado. Me salvaram.

Eu tenho algumas curiosidades em relação aos aspectos técnicos desse seu novo trabalho. Ele me parece muito mais pensado e elaborado, exigindo mais reflexões, do que que o QP, por exemplo. Você chegou a fechar um roteiro antes de começar a desenhar? Você teve alguma rotina ou método de trabalho em particular para esse livro?

Claro que sim, menos mal! O tempo passa e a prática faz com que a gente melhore (espero).

QP eram quadrinhos que eu fiz enquanto aprendia a fazer quadrinhos (2006-2012). Em geral eu não trabalho com um roteiro prévio, sei que isso seria o correto, mas me entedia profundamente. Eu não faço quadrinhos para sobreviver economicamente, mas sim emocionalmente, e parte de me perder e experimentar com o texto e a imagem tem relação com esse prazer. Este livro foi o que me deu mais trabalho, já que fiz muitas coisas ao mesmo tempo: fiz todos os desenhos do filme Vírus Tropical, um livro chamado Terra Larga com Pablo Besse, onde assinamos como No tan parecidos; e ainda tinha que trabalhar como ilustradora. No meio tive um acidente, padeci uma doença… Então não tive rotina, fora encontrar a maneira de fazer o livro e terminá-lo. Estive em várias oficinas de escrita e no final consegui terminá-lo numa residência em Tigre (cidade da Argentina), fui desenhar e escrever sozinha durante uma semana no meio do Delta sem internet, somente assim consegui chegar ao fim. 

E você pode me falar, por favor, um pouco sobre suas técnicas? Quais materiais você usou? Houve algum elemento novo em relação aos seus trabalhos prévios?

Sempre me proponho usar técnicas diferentes e novas em cada livro, técnicas que tenham relação com a história e a narrativa. Por exemplo, fiz este livro todo com tintas preta, amarela e vermelha, algo completamente novo para mim, queria que fosse como se a bicicleta tivesse pisado uma poça cheia de lama e tivesse desenhado tudo com os pneus. 

Eu fiz Vírus Tropical com rotring, que era algo que vinha usando e podia contar tudo sem medo de errar e precisava algo de consistência e clareza ao contar todas essas histórias. QP eu fiz com técnicas diferentes, como te contei antes, foi minha maneira de aprender a fazer quadrinhos, então testei tudo. Em Todo va a estar bien desenhei com lapiseira 0.3, queria que fossem histórias mais lentas e queria ir devagar, me deter a observar e o leitor também. E em Nos Vamos, foi um diário de viagem e me propus a usar uma cor diferente em cada país que visitava. 

“Gosto muito das pessoas que experimentam com a linguagem”

Página de Todas as biciletas que eu tive, obra de Powerpaola publicada pela Lote 42 (Divulgação)

Você fez uso de cores em algumas páginas pontuais de  Todas as bicicletas que eu tive, mas trata-se de um livro quase todo em preto e branco – assim como QP. Você pode me falar um pouco, por favor, sobre a sua relação com o preto e branco? Como você acha que o preto e branco contribui para as suas histórias?

QP na verdade tem cores, mas imprimir um livro colorido é muito caro. Fazer uma história requer de muito tempo, reclusão e paixão. Eu adoraria fazer um quadrinho totalmente colorido, mas se em preto e branco eu demoro aproximadamente quatro anos, não consigo imaginar quanto demoraria em fazer colorido. Além do mais, os livros terminam ficando muito caros e eu quero que um adolescente possa comprar. De toda forma, minha grande influência é o comic underground dos anos 90, com muitos detalhes e feitos todos em preto e branco, adoro o que dá para criar com pouco. 

O que mais te interessa hoje em termos de quadrinhos, tanto como autora quanto como leitora?

Gosto muito das pessoas que experimentam com a linguagem do comic em todo sentido, gosto das boas histórias e um desenho que também esteja me contando algo mais, que tenha uma linguagem própria e não se pareça aos demais. 

Qual sua memória mais antiga relacionada aos quadrinhos?

Meu pai me passando as tirinhas do jornal em Quito aos domingos de manhã. Especialmente Calvin e Haroldo, Mafalda, Garfield e Periquita.

Você poderia me dizer o que você mais gostou de ler, assistir e ouvir no momento?

De quadrinhos: Mouse in Residence de Anna Haifisch e Inframundo de China Ocho. Vendo: Um concerto de Helado Negro e outro de Das Flüff. Mas especialmente viajar de bicicleta com meu amigo Joris pela Alemanha.

Você está trabalhando atualmente em algum projeto específico?

Sim, sempre estou trabalhando ainda que não esteja trabalhando. Justo estava numa residência de literatura em Berlim (LCB) trabalhando em algo novo, mas ainda está em processo de pesquisa, então prefiro não falar muito disso.

Página de Todas as biciletas que eu tive, obra de Powerpaola publicada pela Lote 42 (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Joe Ollmann, autor de Pai de Mentira: “É melhor não olhar muito atentamente para a vida de seus heróis”

Pai de Mentira é uma das minhas leituras preferidas de 2022 até o momento. A obra recém-publicada em português pela editora Comix Zone, com tradução de Érico Assis, é a primeira do quadrinista Joe Ollmann lançada no Brasil. Entrevistei o autor e transformei esse papo em matéria para o site Revista O Grito! Contei por lá sobre as origens do livro, a trama da obra e a produção da HQ. Você lê o meu texto clicando aqui. Compartilho agora a íntegra da minha conversa com o autor. Saca só:

“Tiras de jornal sempre estiveram presentes na minha vida”

Quadros de Pai de Mentira, obra de Joe Ollmann publicada pela Comix Zone (Divulgação)

Pai de Mentira é uma história em quadrinhos sobre a relação entre um pai e seu filho e também sobre quadrinhos. Você poderia me contar um pouco sobre sua relação com seu pai e sobre a presença dos quadrinhos em sua vida? Qual é a sua lembrança mais antiga da presença de quadrinhos na sua vida?

É engraçado, ninguém tinha perguntado sobre mim e meu pai. Nós nos dávamos muito bem. Eu sinto falta daquele cara todos os dias. Então, não há paralelo entre Jimmi Wyatt e o meu pai. Acho que um livro sobre um bom relacionamento entre pai e filho seria chato. Quando meu pai estava doente, eu ia visitá-lo e ele foi um leitor de jornais a vida toda, incluindo os quadrinhos, e como ele tinha opiniões! Ele me fez voltar a ler tiras de jornais, e ele estava sempre certo sobre quais eram os bons.

Minha memória mais antiga dos quadrinhos é de quando eu tinha cerca de nove anos, meu pai e eu estávamos no carro esperando minha mãe e ele me mandou para a loja com um dólar. Comprei dois quadrinhos, um Homem-Aranha e um Capitão América do [Jack] Kirby, o que me deixou maluco. Mas aqueles quadrinhos eram como um relâmpago, eu não entendia nada do que estava acontecendo, mas queria saber tudo. A partir daquele momento, fiquei obcecado, gastei cada centavo que consegui ganhar, emprestar ou roubar em quadrinhos. Eu memorizava quem escrevia, desenhava e letreirava cada edição, as minhas irmãs me interrogavam sobre elas. Eu desperdicei o resto da minha vida em quadrinhos.

Também fico curioso sobre sua relação com tiras de jornais. Você teve alguma rotina específica de leitura de tiras de jornais durante sua infância? Quais foram as suas favoritas? Você ainda as lê?

Tiras de jornal sempre estiveram presentes na minha vida. Minhas favoritas eram Peanuts e Family Circus. Mais tarde, senti vergonha por gostar de Family Circus, mas Peanuts ficou comigo, funciona em tantos níveis que cresce com você, é apenas uma tira engraçada quando você é criança, e quando você é mais velho parece uma tipo de humor mais sofisticado, você entende melhor a compreensão de [Charles M.] Schulz sobre a natureza humana e eu suspeito que quando eu for ainda mais velho e mais sábio vai me parecer um koan zen [narrativa budista com o propósito de levar à iluminação espiritual]. É uma tira muito perfeita. Meu sonho sempre foi ter a série inteira de Peanuts em volumes idênticos e então a Fantagraphics publicou Peanuts Completo. Acho que posso morrer agora. Eu ainda leio tiras de jornal todos os dias. Eles são muitas vezes horríveis, mas ficarei muito triste se desaparecerem.

Como você diz em Pai de Mentira, a mídia impressa está em crise, cada vez menos gente lê jornais e o espaço destinado a tiras é cada vez menor. Como você analisa esse cenário? Tiras de jornais estão fadadas à extinção? A internet é a saída para esse tipo de formato?

Eu acho que é uma forma de arte antiquada, então é subvalorizada. Ironicamente, eles estão tornando os jornais fisicamente menores, o que torna, tanto os jornais quanto os quadrinhos, mais difíceis de ler para o público-alvo, que são os idosos. Quero dizer, os jornais estão lutando para sobreviver. Suspeito que, à medida que os baby boomers se extinguem, provavelmente também chegarão ao fim todos os meios de comunicação impressos. Eu sou mais velho, então não gosto de ler na tela do computador, mas há todo um outro mundo de quadrinhos diários sendo feitos na web, então os quadrinhos diários sobreviverão, apenas de outra forma. É interessante quando a web pega uma obra antiga e faz algo completamente novo com ela, como Olivia James fez com Nancy. Ela está desbravando novos caminhos e mantendo-se fiel ao espírito do original. Isso é raro, na maioria das vezes “atualizam” quadrinhos antigos adicionando elementos modernos, mas os criadores são velhos demais para entender as nuances da sociedade moderna. Seria mais digno permanecer em um passado clichê e antiquado.

“Também é uma carta de amor aos quadrinhos”

Página de Pai de Mentira, obra de Joe Ollmann publicada pela Comix Zone (Divulgação)

Gostaria de saber um pouco sobre o ponto de partida do Pai de Mentira. Você teve algum momento ou incentivo em particular para começar a desenvolver esta série?

Fui co-curador de uma grande exposição de galeria de arte de quadrinhos canadenses em 2019. Começamos a trabalhar nessa mostra quase dois anos antes da abertura, então por muito tempo eu estive completamente imerso em quadrinhos e pesquisas sobre quadrinhos. Eu visitei muitos estúdios de cartunistas, olhando seus originais e falando sobre quadrinhos e eu realmente percebi o quão sortudo eu sou por fazer parte deste mundo. Então eu acho que isso me fez pensar em fazer um livro sobre quadrinhos. Por mais que o livro seja sobre um pai e um filho, também é uma carta de amor aos quadrinhos em geral.

Você poderia me contar sobre sua rotina de criação de Pai de Mentira? Você teve alguma rotina específica ao criá-la?

Minha rotina é sempre a mesma. Foco com tudo na escrita. Eu escrevo e planejo e edito e reescrevo e imagino o que os visuais serão por meses antes de começar a realmente fazer os primeiros rascunhos. Eu sou um cara de texto e planejamento. Penso no que [Alfred] Hitchcock disse sobre seus filmes, sobre a diversão estar na escrita e no storyboard, sendo a filmagem um exercício mais técnico. Eu sinto isso, mas ainda gosto muito desse processo de desenho. Uma vez que começo a desenhar, trabalho todos os dias, de oito a 12 horas por dia. Embora eu tenha ficado um pouco preguiçoso durante os lockdowns da COVID e parasse muito cedo para ler quadrinhos e ouvir discos, o que provavelmente foi mais saudável. Essa merda toda de trabalhar até a morte por quadrinhos é loucura. Fique chapado e ouça discos!

Você poderia me falar um pouco sobre as técnicas e materiais que você usou em Pai de Mentira?

Desenho inteiramente à moda antiga, tinta no papel. Eu uso principalmente bico de pena Hunt 107. Anos atrás tomei uma decisão consciente de que era velho demais para aprender novas tecnologias, então abracei completamente uma abordagem manual para meus livros. Geralmente desenho tudo em meus livros, logotipos, etc., tudo exceto o código de barras. Com este livro sendo o meu primeiro em cores – e como mencionei na introdução, sou daltônico – então usei um sistema simples usando tintas de cores primárias e teoria básica das cores e pintei os livros dessa maneira. Alguém me disse, ‘eu gosto de como você fez as sombras do rosto ficarem verdes’, e eu fiquei tipo, ‘ah, eu fiz isso?’.

Pai de Mentira é tanto sobre história dos quadrinhos quanto a linguagem das HQs. O que mais te interessava em quadrinhos quando você começou a criar Pai de Mentira? Qual é o seu principal interesse em quadrinhos atualmente?

Como sempre, meu principal interesse está em histórias sobre pessoas. Eu gosto de coisas que estão enraizadas na realidade e se são meio tristes, ah cara, isso me deixa feliz. Há exceções para mim, às vezes leio coisas de gênero e gosto, mas sou atraído principalmente por coisas de gênero que estão arraigadas nos personagens. Finalmente comecei a ler Junji Ito durante a pandemia e estou obcecado. Eu amo essas coisas, mas, novamente, são personagens fortes em meio a todo aquele horror. 

“É melhor não olhar muito atentamente para a vida de seus heróis”

Página de Pai de Mentira, obra de Joe Ollmann publicada pela Comix Zone (Divulgação)

Fico curioso sobre suas pesquisas e estudos para criar Pai de Mentira. Você menciona especificamente a biografia de Charles M. Schulz do David Michaelis. Quais dos livros que você leu e usou como referência foram mais importantes para você?

Eu tinha lido o livro de Michaelis assim que ele saiu e o usei algumas vezes como referência enquanto escrevia, mas a maioria das coisas de quadrinhos em Pai de Mentira é apenas meu próprio conhecimento adquirido de uma vida desperdiçada obcecada por quadrinhos e cartunistas. A exceção foi o material de Dennis, O Pimentinha, como mencionei na introdução. Quando decidi incorporar isso na história, li muito, principalmente na internet e artigos de revistas antigas. Li muitos livros sobre o Schulz ao longo dos anos, mas não li profundamente sobre muitos outros cartunistas. Muitas dessas coisas vieram de fofocas de cartunistas que ouvi ao longo dos anos. Descobri que aprendo muito com aquelas longas entrevistas que o Comics Journal faz com quadrinistas. É uma chance real de entrar no processo de pensamento de um artista.

E de todas essas leituras e estudos (e também da experiência de escrever um livro inteiro sobre o tema), você vê algum padrão ou comportamento comum entre autores de quadrinhos em suas vidas pessoais? Quero dizer, eu ouço e leio muito sobre como pode ser solitário trabalhar como autor de quadrinhos e as condições profissionais nem sempre são as melhores… Não parece ser o melhor ambiente para a saúde mental, certo?

Não sei, a maioria dos quadrinistas que conheço não são diferentes dos contadores que conheço. Quando você diz às pessoas que você é um quadrinistas, às vezes há uma expectativa como, ‘ah caramba, esses caras vão ser um motim de risadas!’. Mas muitas vezes nem tanto. É definitivamente uma profissão solitária, não há feedback do público. É por isso que escrevo tantas cartas para quadrinistas, só para dizer que eles fazem um ótimo trabalho. Às vezes, um tapinha nas costas de um camarada é a única recompensa nessa coisa toda. Eu acho que as pessoas mais saudáveis ​​nos quadrinhos são aquelas que reduziram suas expectativas e apenas fazem quadrinhos porque amam fazer quadrinhos, porque financeiramente, pode ser muito sombrio na maior parte do tempo. Os quadrinistas muitas vezes ficam deprimidos com a falta de recepção de seu trabalho e se tornam amargurados. Eu apenas tento fazer meu trabalho e não penso na recepção. Só pode ser ruim para o trabalho se você começar a calcular o que vai chamar mais atenção e o que será melhor para o mercado. Quando você começa a antecipar a recepção do público, o trabalho vai perder.

Pai de Mentira mostra o passado pessoal deste autor famoso extremamente ausente como pai. Jimmi Wyatt é esse personagem repulsivo, mas seus fãs não o veem da mesma maneira. Ler e estudar sobre as origens dos autores de quadrinhos de alguma forma mudou a forma como você os percebe e percebe as obras deles?

Eu definitivamente sou uma daquelas pessoas que têm dificuldade em separar o artista da obra. Às vezes, é melhor não olhar muito profundamente para a vida de seus heróis, eles provavelmente o decepcionarão. Eu não acho que valha a pena tolerar o comportamento de nenhum “gênio”, em nenhuma arte, sabe? Fico chateado de verdade quando penso em Stanley Kubrick levando a pobre Shelley Duvall a quase um colapso mental no set de O Iluminado. Tudo isso para fazer um filme de terror medíocre com alguns cenários realmente memoráveis? Vale a pena? Provavelmente não. Quero dizer, pergunte à Shelley Duvall.

“Não posso acreditar na minha sorte com os quadrinhos”

Página de Pai de Mentira, obra de Joe Ollmann publicada pela Comix Zone (Divulgação)

Pai de Mentira foi bem recebido pela crítica, mas que tipo de retorno você teve de seus leitores? Existe alguma resposta particular à história de Caleb que de alguma forma chamou sua atenção?

Bem, os quadrinistas gostaram muito do livro, o que foi gratificante. Mas tiveram muitas entrevistas e cartas de pessoas discutindo o alcoolismo do Caleb e se relacionando de verdade com isso. Eu mesmo tive alguma experiência com bebida e sobriedade também, então acho que foi um pouco de escrever o que você sabe em um cenário ficcional. Mas fiquei grato que as pessoas acharam que isso foi bem tratado.

O que você pensa quando seu trabalho é publicado em um país como o Brasil? Você tem alguma curiosidade sobre como um livro que você fez será lido e interpretado em um ambiente tão diferente do seu?

Eu fui uma criança criada em uma fazenda. Toda vez que um dos meus livros é publicado em outro país e outro idioma, ou quando sou levado para algum evento de quadrinhos para falar sobre meus quadrinhos, sou como um caipira que acabou de cair de um trator. Não posso acreditar na minha sorte com os quadrinhos. Então, estou sempre animado em ser publicado em um novo país e em outro idioma. O mais interessante para mim na tradução é a arte de transferir piadas para algo que faça sentido em outra língua e cultura, dentro de outro contexto moral, com outra formação cultural. Fico sempre admirado com a arte de um bom tradutor. O Érico [Assis], que fez a tradução, me escreveu com perguntas e o nível de cuidado e detalhes que ele colocou foi surpreendente. Eu não leio português, mas tenho certeza que será uma ótima tradução!

Você poderia recomendar algo que você tenha lido/assistido/ouvido recentemente?

Acabei de reler toda a série Crickets, do Sammy Harkham, e precisei escrever uma carta para ele tarde da noite, fiquei muito impactado com tudo. Ele está fazendo coisas incríveis nessa série. Stone Fruit, de Lee Lai; Nod Away, de Josh Cotter; The Shiatsung Project, de Brigitte Archembault; e Keeping Two, de Jordan Crane, são coisas incríveis que li ultimamente. Tudo o que ouço hoje em dia é R&B dos anos 1970. Roberta Flack, Donnie Hathaway, Marvin Gaye, Isley Brothers, meu Deus, tão bom.

Você está trabalhando em algum novo projeto em particular no momento?

Contra todo o bom senso, estou trabalhando em uma coletânea de quadrinhos curtos. É sempre impopular, mas é o que eu tenho vontade de fazer, então estou seguindo meu próprio conselho e não pensando no mercado, risos. Mas estou me mantendo animado para descer as escadas e ir trabalhar nisso diariamente. 

A capa de Pai de Mentira, obra de Joe Ollmann publicada pela Comix Zone (Divulgação)


Entrevistas / HQ

“São dois mestres em seu ápice criativo”, diz Márcio Paixão Jr. sobre Os Estranhos Hóspedes do Hotel Nicanor, parceria de Ota com Flavio Colin:

O editor Márcio Paixão Jr. vê Os Estranhos Hóspedes do Hotel Nicanor como “uma parceria sem precedentes no quadrinho nacional”. O álbum recém-anunciado pela editora MMarte reúne histórias de terror roteirizadas por Otacílio d’Assunção Barros (1954-2021), mais conhecido pelo apelido Ota, e desenhadas por Flavio Colin (1930-2002). A obra tem lançamento marcado para o Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), em Belo Horizonte, entre os dias 3 e 7 de agosto. Ela reúne as cinco HQs originais da série Os Estranhos Hóspedes do Hotel Nicanor, publicada na revista Spektro, no início dos anos 1980, e o primeiro e último número de Hotel Nicanor, publicado pelo selo Ota Comix e originalmente previsto para durar três edições.

O quadrinho mostra a rotina e as interações das criaturas monstruosas que habitam o hotel que dá título à obra. Paixão Jr. diz sempre ter imaginado um livro reunindo a íntegra dessa material, mas viu Ota reticente em relação à iniciativa em um primeiro momento, pois ele e Colin estavam rompidos quando o desenhista morreu. O roteirista acabou sendo convencido e depois veio o aval dos herdeiros de Colin.

“Ao topar, a primeira condição que o Ota impôs foi não ter nenhum envolvimento direto com a produção do livro”, me conta o editor da coletânea sobre o início dos trabalhos no projeto. “À medida que minha pesquisa avançava, ele foi revendo o material, relembrando histórias e, quando deu por si, estava novamente apaixonado por aquele trabalho. Me lembro bem dele surpreso ao perceber, com os olhos de agora, a indiscutível qualidade daquilo que ele e Colin haviam criado décadas atrás. Foi nesse momento que eu o convidei para trabalhar diretamente no projeto, na recuperação e tratamento dos originais”.

“O envolvimento dele com a nova edição era tanto que já falávamos de um outro volume, compilando outras HQs que ele produziu ao lado de Colin. Infelizmente, tão logo enviei um HD para que começasse o tratamento das imagens, Ota veio a falecer. Fiquei completamente arrasado”.

Na entrevista a seguir, Márcio Paixão Jr. dá mais detalhes sobre a edição e os bastidores da produção de Os Estranhos Hóspedes do Hotel Nicanor. Ele também comenta as habilidades de Ota como roteirista e celebra os dotes de Colin como ilustrador de uma obra de horror – “Ele teve neste gênero sua principal matéria-prima de trabalho. Nesse sentido, o Hotel Nicanor é uma espécie de epítome do que de melhor foi feito no quadrinho de terror brasileiro”. Papo massa, saca só:

“É uma parceria sem precedentes no quadrinho nacional”

Página da coletânea Os Estranhos Hóspedes do Hotel Nicanor, reunindo a obra de Ota e Flavio Colin

Como surgiu o projeto de Os Estranhos Hóspedes do Hotel Nicanor? Como a MMarte teve acesso a esses trabalhos e começou a produção do álbum?

O Hotel Nicanor foi uma memorável série originalmente produzida pela dupla Flavio Colin e Ota entre 1981 e 1982 nos gibis de terror da editora Vecchi – onde o Ota era editor. Me lembro bem do impacto de ler essas HQs na época e em edições que posteriormente garimpei em sebos. Ota e Colin formavam uma dupla afiadíssima e, naquele momento, estavam no auge. Não existe leitor da Spektro que não se recorde daquelas histórias que eram ao mesmo tempo gore e hilariantes. Nos anos 90 houve uma tentativa de ressureição em uma minissérie em 3 edições que, infelizmente, ficou só na primeira. Desde sempre imaginei um livro que compilasse todo esse material, mas havia um imbróglio a ser contornado: quando Colin faleceu, ele e Ota estavam sem se falar. Sempre que eu sugeria a republicação, Ota rejeitava a ideia. Como ficamos bastante próximos em seus últimos anos, terminei por convencê-lo que uma obra tão incrível não poderia ficar relegada ao esquecimento. Depois de sua autorização, foi a vez de tratar com o querido Flavio Colin Filho, que não se opôs. Muito pelo contrário, Flavinho estava em busca de parcerias que celebrassem a obra de seu pai – sem dúvida alguma um dos maiores quadrinistas que já existiram não só no Brasil, mas no mundo. É bom lembrar que isso foi antes dessa maravilhosa onda de republicações do Colin, articulada com total excelência pelo Ivan Freitas da Costa. A MMarte tem muito orgulho em trazer Os Estranhos Hóspedes do Hotel Nicanor de volta aos olhos dos leitores – principalmente se considerarmos que este material estava fadado a nunca mais vir a público em virtude das diferenças entre seus criadores. 

O Ota era conhecido principalmente pelo trabalho dele como editor. O que você pode falar sobre as habilidades dele com roteirista?

Como editor da Vecchi, Ota estava impedido de contratar seus próprios serviços de roteirista. Para dar vazão à sua imaginação irrefreável – além de levantar um dinheiro extra –, ele passou a adotar um conjunto de pseudônimos, entre eles Juka Galvão, que assina o Hotel Nicanor. A série se caracteriza por misturar humor absurdo, terror sanguinolento e pitadas de erotismo – em um equilíbrio perfeito que só os grandes roteiristas são capazes. Mas o sucesso do Hotel Nicanor se deveu à sinergia única entre Ota e Colin. É um primoroso trabalho a quatro mãos, com dois mestres em seu ápice criativo. Colin não escreveria um roteiro como o de Hotel Nicanor. Por outro lado, nas mãos de qualquer outro desenhista, o texto de Ota jamais teria a mesma força. Com sua imaginação gráfica sem paralelos, Colin amplificou de modo inaudito as ideias de Ota. É realmente uma parceria sem precedentes no quadrinho nacional.

O Ota chegou a trabalhar com vocês da MMarte em Os Estranhos Hóspedes do Hotel Nicanor?

Foi um custo convencer o Ota a autorizar a republicação do Hotel Nicanor. Ao topar, a primeira condição que ele impôs foi não ter nenhum envolvimento direto com a produção do livro. À medida que minha pesquisa avançava, ele foi revendo o material, relembrando histórias e, quando deu por si, estava novamente apaixonado por aquele trabalho. Me lembro bem dele surpreso ao perceber, com os olhos de agora, a indiscutível qualidade daquilo que ele e Colin haviam criado décadas atrás. Foi nesse momento que eu o convidei para trabalhar diretamente no projeto, na recuperação e tratamento dos originais – a edição da MMarte de Os Estranhos Hóspedes do Hotel Nicanor é inteiramente escaneada dos originais de Colin. Ao contrário da imagem de maluco que projetava sobre quem não o conhecia mais a fundo, Ota era um profissional primoroso. O envolvimento dele com a nova edição era tanto que já falávamos de um outro volume, compilando outras HQs que ele produziu ao lado de Colin. Infelizmente, tão logo enviei um HD para que começasse o tratamento das imagens, Ota veio a falecer. Fiquei completamente arrasado.     

“O Hotel Nicanor é uma espécie de epítome do que de melhor foi feito no quadrinho de terror brasileiro”

Página da coletânea Os Estranhos Hóspedes do Hotel Nicanor, reunindo a obra de Ota e Flavio Colin

Muito da comoção recente em torno do Flavio Colin tem girado em torno da brasilidade dos trabalhos dele. O que você tem a dizer sobre o trabalho dele como autor de obras de terror?

Colin é um gênio superlativo. Quando falo de Colin estou falando de um artista do calibre de Jack Kirby, Milton Caniff, Chester Gould… Pablo Picasso, que seja! Os quadrinhos foram seu meio de expressão e ele fez tudo o que fez em um país que sempre tratou mal seus quadrinistas. A brasilidade foi uma constante pessoal e política em Colin. Por exemplo, ao adaptar o personagem O Anjo do rádio para os quadrinhos, ele substitui os Estados Unidos pelo Brasil como cenário de suas aventuras. Tudo que Colin produziu em sua longa carreira esteve impregnado de brasilidade. A questão é que a atual percepção acerca de sua obra está construída principalmente a partir de seus últimos trabalhos (como Curupira, Estórias Gerais e Caraíba) ou de cânones como A Guerra dos Farrapos e Vizunga (do quais muito se fala, mas pouco se vê). A grande maioria de sua produção, contudo, se deu em gibis de banca, principalmente em títulos de terror – muito difíceis de serem encontrados atualmente. Estamos falando de um autor que começou a publicar na década de 1950 e que teve neste gênero sua principal matéria-prima de trabalho (sem jamais abrir mão da dita brasilidade). Nesse sentido, o Hotel Nicanor é uma espécie de epítome do que de melhor foi feito no quadrinho de terror brasileiro. 

A MMarte anunciou Os Estranhos Hóspedes do Hotel Nicanor chamando atenção para o farto conteúdo extra da obra. O que você acha que há de mais revelador e surpreendente nesse conteúdo inédito que completa a edição?

A republicação das cinco aventuras da Vecchi é, por si só, motivo de comemoração, uma vez que estão longe dos olhos do público há quarenta anos. Mas além delas e do material publicado no primeiro número da minissérie de 1994, temos ainda duas HQs completamente inéditas, ilustrações jamais vistas, diversas páginas a lápis, textos especiais e duas curiosidades incríveis: o último roteiro escrito por Ota para a série, bem como o projeto de RPG que ele começou a desenvolver a partir daquele universo. Estamos nos empenhando ao máximo para que a edição da MMarte de Os Estranhos Hóspedes do Hotel Nicanor seja a mais completa possível. Afinal de contas, é nossa homenagem a esses dois monumentos das HQs nacionais. 

A capa da primeira e última edição de Hotel do Terror, parceria de Ota e Flavio Colin publicado pelo selo Ota Comix (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Julie Doucet, autora de Meu Diário de Nova York: “A alma do meu trabalho está no preto e branco”

Meu Diário de Nova York é uma das minhas melhores leituras no ano e possivelmente o maior acerto da editora Veneta no primeiro semestre de 2022. Primeiro título da canadense Julie Doucet publicado na América do Sul, o álbum chega ao Brasil seis meses após a autora ser homenageada com o Grand Prix da 49ª edição do Festival de Angoulême, mais tradicional festival de histórias em quadrinhos do Ocidente.

A honraria concedida pelos organizadores do evento francês celebra anualmente o conjunto da obra e as contribuições de um artista para a linguagem dos quadrinhos. Ao anunciar a vitória de Doucet, os organizadores do festival exaltaram sua arte “sem concessões, radical e subversiva”.

Entrevistei Doucet e transformei esse papo em matéria exclusiva aqui para o blog. No meu texto eu contei mais sobre a história da autora, a relação dela com o mundo dos quadrinhos e também sobre as origens e a produção de Meu Diário de Nova York. Reproduzo agora a íntegra da minha conversa com a artista. Papo bem massa, saca só:

“Nunca fui uma autora de grandes sucessos”

Quadro de Diário de Nova York, obra de Julie Doucet publicada pela editora Veneta (Divulgação)

As HQs de Meu Diário de Nova York foram publicadas pela primeira vez em 1998. O que significa para você ver esse trabalho sendo republicado ainda hoje, 24 anos depois? Aliás, o que significa para você ver o seu trabalho sendo publicado pela primeira vez no Brasil?

Oh la la os anos passam!! Isso me deixa muito feliz, claro… Foi muito inesperado, uma bela surpresa. Trata-se da minha primeira edição brasileira, e também na América do Sul, isso não é pouca coisa!

A Nova York em que você morou na década de 1990 é muito diferente da Nova York do presente. Existem aspectos desta “velha Nova York” que você sente falta? Há algum aspecto de Nova York que você acha que é melhor hoje em dia do que o seu tempo morando lá?

De fato, a cidade mudou muito desde então… Mas o mesmo pode ser dito de tantas outras grandes cidades atualmente. Gentificação, aluguéis crescentes, pessoas pobres e oprimidas cada vez mais longe dos centros, o mesmo valendo para os artistas… Deste ponto de vista a vida com certeza parecia mais fácil naquela época. Uma vida underground, quando era tudo na base do boca a boca… E ainda havia toda uma aura de mistério…

Você poderia comparar a recepção do seu trabalho no início da Dirty Plotte e atualmente? O mundo parece estar mais aberto a obras independentes, pessoais e antiestablishment como as suas, mas há um conservadorismo crescente e problemas sociais e financeiros que me parecem ser um obstáculo para tudo isso.

Eu nunca fui uma autora de grandes sucessos, o meu sucesso foi de crítica, nunca comercial. O que quero dizer é que nunca chamei atenção da impresa, que talvez não estivesse tão interessada ​​em quadrinhos na época. Quadrinhos são mais bem aceitos como meio artístico hoje, com certeza… Há um conservadorismo crescente, mas há o movimento Me Too, que ainda é muito forte na França. O que posso lhe dizer é que tenho vendido muitos livros recentemente!

“Eu jamais poderia distorcer a realidade”

Página de Diário de Nova York, obra de Julie Doucet publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Existe algum aspecto do início da carreira da jovem Julie retratado em Meu Diário de Nova York você sente falta?

Não. Para dizer a verdade, não mudaram muitas coisas no meu estilo de vida. Só que agora bebidas alcoólicas me dão enxaquecas.

Para mim, o que mais se destaca em Meu Diário de Nova York é sua honestidade, a sua sinceridade como autora. Quais você acha que são as principais qualidades de Julie, autora, da época de Meu Diário de Nova York?

Falando especificamente sobre a minha época desenhando Meu Diário de Nova York, eu diria que naquela época eu estava no auge da minha arte, pelo menos em termos gráficos. Em termos narrativos, foi meu trabalho mais ambicioso. Olhando para trás, eu gostaria de ter investido em uma abordagem mais complexa, menos convencional, mas tudo bem. Sobre a sinceridade, sim… Eu jamais poderia distorcer a realidade. Eu omiti muita coisa, mas não por causa de alguém ou qualquer coisa.

Você fez parte de uma geração lendária de quadrinistas – artistas que até aparecem em Meu Diário de Nova York (como Charles Burns, Françoise Mouly, Art Spiegelman e Peter Bagge). Como foi para você fazer parte desse grupo? Aliás, você se sente parte desse grupo?

Em Nova York mais ou menos, não fiquei lá tempo suficiente e morava muito longe, no Uptown, e não havia tantas oportunidades de encontrá-los (e o meu inglês naquele primeiro ano nos Estados Unidos não era dos melhores). Só quando fui morar em Seattle (onde vivem Peter Bagge e Jim Woodring) passei a me sentir parte do grupo. Eu me sentia meio caída de paraquedas no meio desses artistas famosos de Nova York, chegava a ser intimidante.

“Só tínhamos a opção de trabalhar em preto e branco”

Quadro de Diário de Nova York, obra de Julie Doucet publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Um elemento muito característico de seu trabalho com quadrinhos é o preto e branco. Imagino que esta não seja apenas uma opção estética, mas também financeira. Enfim, qual é a sua relação com o preto e branco? Como você acha que esse elemento contribui para as suas histórias?

Na verdade, originalmente nós só tínhamos a opção de trabalhar em preto e branco. Mas com a prática, posso dizer que toda a alma do meu trabalho está no preto e branco, sou irresistivelmente atraída por esse contraste da ausência de cores. Eu gosto de sua franqueza, sua dureza… E dos desafios estéticos decorrentes dele.

Como você se sente ao reler livros antigos como Meu Diário de Nova York? Aliás, você tem o hábito de reler suas obras mais antigas?

Não, não muito.

Em Meu Diário de Nova York, você apresenta um pouco da sua rotina de trabalho naquela época. Você pode nos contar um pouco sobre suas técnicas e seus materiais de trabalho quando fez esses quadrinhos? E qual é a sua rotina profissional hoje? Você segue alguma rotina específica?

Naquela época eu costumava usar papel Bristol e tinta indiana Pelikon e caneta bico de pena. Mais recentemente passei a usar uma Rapidograph, que eu usava quando estava começando nos quadrinhos, e desenho em cadernos Leporello. Eu tinha uma rotina quando fazia parte de uma oficina de gravura comunitária (desenhos pela manhã, oficina de tarde), mas não mais atualmente.

“Gosto de quadrinhos que buscam reinventar o formato”

Página de Diário de Nova York, obra de Julie Doucet publicada pela editora Veneta (Divulgação)

O que mais te interessa hoje em termos de quadrinhos, tanto como autora quanto como leitora?

Histórias em quadrinhos criadas por mulheres. Eu gosto quadrinhos/ensaios, quadrinhos mais experimentais, mais desconstruídos, que buscam reinventar o formato.

Qual sua memória mais antiga relacionada aos quadrinhos?

De fazer as comprar longe de casa, em uma cooperativa que parecia um grande galpão. Toda vez que íamos lá a minha mãe me dava um Tintim – havia uma banquinha de histórias em quadrinhos por lá, principalmente de Tintim, se não me engano. Eu obviamente adorava.

Você poderia me dizer o que você mais gostou de ler, assistir e ouvir no momento?

Buru Quartet, de Pramoedya Ananta Toer; Todos os livros da Yoko Tawada; Eveils, de Juliette Mancini (Atrabile); Rave, de Jessica Campbell (D&Q);

Eu amo escutar música eletrônica velha… Daphne Dram, Eliane Radigue, Bernard Parmigiani, Conrad Schnitzler… E também a Laurie Anderson.

Você está trabalhando atualmente em algum projeto específico? Se sim, é algo relacionado a quadrinhos? 

Acabei de publicar um livro pela Drawn & Quarterly que é uma espécie de retorno às história em quadrinhos, um grande painel de 144 Páginas. Mas tem toda uma história, autobiográfica também. Chama Time Zone. Para o futuro, não faço ideia. 

A quadrinista canadense Julie Doucet (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Gabriel Dantas, autor de Pato Gigante: “O hábito de desenhar todos os dias é, para mim, a mesma coisa que almoçar, escovar os dentes e tomar banho”

O quadrinista Gabriel Dantas diz que chegou a jurar que nunca mais faria uma série em quadrinhos. Ele estava cansado das cobranças de alguns leitores e incomodado com a ansiedade gerada pelas demandas impostas por uma história periódica. Veio a pandemia do novo coronavírus, ele passou a compartilhar alguns rascunhos nas redes sociais e criou uma rotina de passar horas desenhando e compartilhando seus trabalhos. No fim de 2021 ele começou a trabalhar com um Ipad e seus primeiros desenhos foram de um pato amarelo gigante e sua amiga adolescente Letícia.

A série Pato Gigante foi compartilhada no Instagram de Dantas entre novembro de 2020 e dezembro de 2021, em 173 posts/páginas. Agora, a obra ganha versão impressa pela Ugra Press, com 208 páginas, 25 delas inéditas.

“Estou muito feliz com essa versão impressa. Para mim só assim meu trabalho está finalizado mesmo”, me diz Dantas, dono de uma conta com mais de 179 mil seguidores no Instagram e outra com mais de 121 mil no Twitter.

Ele completa: “Eu preciso ver no papel. Acho que tem uma dinâmica diferente, dá pra dar mais atenção para a história, pros detalhes, ler no papel é outra história. Muito melhor. A tela te pede uma urgência, o Instagram pede uma urgência, de ler voando. Ainda tem as notificações do celular. Sei lá, um saco. Fora isso, o livro tem uma beleza, um cuidado, que imortaliza mesmo a parada”.

O uso das redes sociais como principal plataforma de disseminação de seus trabalhos, o ritmo frenético de seus posts, as várias reviravoltas de suas histórias e a honestidade de seus desenhos e suas tramas me fazem ver Dantas como uma espécie de Simon Hanselmann brasileiro. Mas uma versão fofa do autor das HQs protagonizadas por Megg, Mogg, Coruja e Lobisomem Jones – presentes nos álbuns Mau Caminho e Zona de Crise.

Pato Gigante mostra a criatura que dá nome à obra em uma jornada de amadurecimento e desencontros pessoais e amorosos protagonizados por sua amiga Letícia. Conversei com Dantas sobre o desenvolvimento da série, suas rotinas e seus métodos de trabalho. Na entrevista a seguir ele me falou sobre a produção da HQ, a relação com seus leitores, a produção da belíssima capa da versão impressa do quadrinho e outros temas. Papo massa, saca só:

“Tinha até jurado nunca mais fazer uma série…”

Sempre fico curioso em relação ao ponto de partida das histórias. Você lembra do instante em que começou a desenvolver Pato Gigante? O que você pode contar sobre a origem dessa série e dos personagens presentes nela?

Bom, quando eu comecei não era uma série ainda. E nem planejava que fosse. Tinha até jurado nunca mais fazer uma pois não curtia muito a cobrança que me faziam das continuações das histórias e tals. Me deixava um pouco ansioso. Haha! O Pato Gigante veio de um hábito que eu tinha lá no Twitter de postar os meus rascunhos. As postagens estavam alcançando um número legal de pessoas e eu estava intimidado com isso, então para contornar a situação e não parar de atualizar meu perfil, eu fazia esses rabiscos. Basicamente era assim: depois de eu jantar, ligava o computador e ficava horas desenhando e postando, desenhando e postando, desenhando e postando as primeiras coisas que vinham na minha mente. Coisa de doido mesmo. Tinha dias que saía umas 20 e poucas postagens numa só noite. É algo que eu sempre fiz, mas nos meus cadernos de desenho. Aí teve um dia que saiu o Pato Gigante e a Letícia. Achei maneiro a dinâmica, mas não continuei. Estava tentando dar uma cortada em mim mesmo para não virar uma série. Então, mais pro final daquele ano, passei a usar um Ipad para trabalhar junto do programa Procreate (antes eu usava notebook, mesa digital e um programa gratuito chamado Medibang), e as primeiras coisas que desenhei foram o Pato Gigante e a Letícia. A primeira tira que fiz foi deles e postei no mesmo segundo. Deu no que deu.

Li em uma coluna do Érico Assis você comentando que tem dias que faz de “seis a 12 tiras, cinco páginas”. Você pode falar um pouco sobre a sua rotina de trabalho? Você tem algum hábito ou algum método de trabalho? Você teve alguma rotina em particular durante a produção de Pato Gigante?

É, eu não produzo mais dessa maneira, pois hoje reescrevo bastante a maioria das minhas tiras. Antes era tudo muito no improviso, desenhando direto e hoje tô tentando ser um pouco mais cuidadoso. Penso um pouco mais na cor e isso me toma tempo, e por aí vai. Mas todos os dias ainda saio com alguma coisa nova. Eu acordo desenhando e durmo desenhando, mas não que eu passe o dia todo em frente ao ipad, é só que o tempo todo tô pensando em algo novo e fico agoniado se não começar a rabiscar logo. O hábito de desenhar todos os dias é para mim a mesma coisa que almoçar todos os dias, escovar os dentes todos os dias, tomar banho e por aí vai. Meio que tem que ter. Haha. O Pato Gigante começou no improviso, mas teve um momento que eu fiquei mais interessado em fazer uns quadrinhos maiores com eles, com mais quadros e a partir de um momento que já não lembro mais eu comecei a desenhá-lo no papel primeiro e ficava reescrevendo as falas, mudando umas coisas antes de ir para o digital. E no digital eu ainda refazia do zero. Não sei bem o motivo, só gostava de fazer assim. Pra ter certeza que estava satisfeito. Os últimos quadrinhos mesmo do Pato Gigante (Isa ajudando o amigo a invadir a casa do pai para buscar um exemplar de Dragon Ball, o garoto se declarando pra Letícia e ferrando a amizade, a carta de até logo do Pato…), esses aí eu tava levando umas duas semanas para terminar cada um. Sei que é um tempo razoável para a maioria, mas para mim é uma eternidade. haha. Mesmo assim, valeu cada segundo.

“Não sei se eu teria feito essa história dessa forma se não fossem os meus leitores”

Página de Pato Gigante, HQ de Gabriel Dantas publicada pela Ugra Press (Divulgação)

E você pode falar um pouco, por favor, sobre as suas técnicas? Quais materiais você usa? 

Hoje tô totalmente no Ipad com o aplicativo Procreate. Curto demais. Até tentei umas semanas atrás começar um zine novo utilizando papel e nanquim como fazia antes, mas fiquei imaginando a trabalheira que daria escanear, tratar, redesenhar o que eu errava, fazer a revisão, comprar as canetinhas nanquins novas quando essas que tenho começassem a falhar… e bléh. Voltei pro Ipad.

Pato Gigante foi publicada no seu Instagram entre novembro de 2020 e dezembro de 2021. O quanto você tinha definido dessa história quando começou a publicá-la? Quando você deu início a Pato Gigante já tinha em mente o final da história e o desfecho para cada um de seus personagens? 

Foi super no improviso a maior parte dele. Enquanto produzia, vieram vários finais, mas nunca fechei esse final na minha cabeça até chegar o momento de produzir de fato o final.

“O que o Instagram e seu algoritmo pedem, na real mesmo, impede a produção saudável de bons quadrinhos”

Página de Pato Gigante, HQ de Gabriel Dantas publicada pela Ugra Press (Divulgação)

Você tem muitos seguidores no Instagram e seus posts costumam estar cheios de comentários. Você presta atenção na repercussão de cada post ? Se sim, esse retorno dos leitores afetou a história de Pato Gigante em algum momento?

Eu gosto muito de que as pessoas comentem nos meus posts, conversem entre si, desabafem e falem que gostam dos meus personagens e que se importam com eles. Mas evito ler a maioria dos comentários. Na internet tem muita negatividade e maldade e sei que isso pode me afetar. Como eu tô quase sempre desenhando, ler um comentário que me deixe de mau humor pode acabar me fazendo perder alguma ideia maneira, pois só vou ficar pensando naquela pessoa que fez um comentário maldoso e em como eu gostaria que ela se mudasse para outra galáxia. Haha. Dito isso, acho que o amor pelas pessoas pelos meus personagens e vê-las compartilhando e recomendando pros amigos com certeza me incentivou a continuar sem perder o gás. Não sei se eu teria feito essa história dessa forma se não fossem os meus leitores da internet.

Aliás, falando sobre o Instagram, tenho visto muitas reclamações por parte de artistas em relação ao alcance cada vez menor de cada post. Isso também tem acontecido com você? Se sim, isso impacta de alguma forma a sua produção?

Eu nunca me importei muito com isso, pois já faz um tempo que eu não posto a quantidade certa para o algoritmo me ajudar a enviar para as pessoas. Acho que tem algo assim. Deve ser bom você postar frequentemente, numa hora certa. Se passar umas semanas sumido, ferra um pouco teu alcance. E é justamente isso que faço, dou uma sumida. Conto com os meus leitores fiéis, que vão parar um pouco seu tempo para ler com calma meus quadrinhos, ver o que tenho a dizer. Não conto com aqueles que veem na velocidade da luz e partem para o post seguinte já esquecendo automaticamente do que fiz. É massa ter atenção das pessoas, claro, mas o que o Instagram e seu algoritmo pedem, na real mesmo impede a produção saudável de bons quadrinhos.

Em um papo rápido pelo Facebook, uma vez você comentou comigo que não é muito habituado à leitura de quadrinhos digitais. Por que não? E o que Pato Gigante ganha em sua versão impressa? O que significa para você ver esse trabalho saindo no papel?

Ainda sou assim. Não curto quadrinhos digitais, nem livros digitais, nem nada do tipo. Não criei esse hábito e pra mim, ficar vidrado numa tela só se for pra fazer meus quadrinhos mesmo. Não consigo nem ver filme aqui no meu quarto, fico meio agoniado, pausando direto. Sei lá, doidera. É por isso que estou muito feliz com a versão impressa do Pato, para mim só assim meu trabalho tá finalizado mesmo. Eu preciso ver no papel. Acho que tem uma dinâmica diferente, dá pra dar mais atenção para a história, pros detalhes, ler no papel é outra história. Muito melhor. A tela te pede uma urgência, o Instagram pede uma urgência, de ler voando. Ainda tem as notificações do celular. Sei lá, um saco. Fora isso, o livro tem uma beleza, um cuidado, ali que se imortaliza mesmo a parada. Eu vou atualizando o meu perfil com mais quadrinhos, mais tirinhas, e a saga que me deu anos de trabalho vai ficando lá embaixo, lá embaixo mesmo, caindo no esquecimento da galera, dos novos leitores… o livro impede isso. E para os que acompanharam no Insta, ainda tem uma conteúdo inédito.

Página de Pato Gigante, HQ de Gabriel Dantas publicada pela Ugra Press (Divulgação)

Você pode me contar um pouco por favor sobre a capa do livro [confira a capa no fim do post]? É um bordado, certo? Por que essa opção? Como vocês chegaram nessa arte?

Sim, é um bordado feito pela Dona Darcy Cantuária, também conhecida como mãe da Dani [Utescher, sócia da Ugra Press] e sogra do Douglas [Utescher, sócio da Ugra Press]. Haha. Quando o livro foi fechado, tentei pensar em várias capas para ele, mas não conseguia tirar da cabeça essa ideia de que deveria ser um bordado. Meio inspirado pelos jogos da Nintendo, principalmente o Yoshi’s Crafted World. Quando falei que queria algo assim para o Douglas, já esperava receber um não pela possível dificuldade em fazer isso acontecer, mas na real ele se animou muito e topou no mesmo segundo. Fiquei sem acreditar, haha. Depois disso, desenhei a capa como um desenho normal já com as dimensões que viria ser capa, lombada e quarta capa juntas. Douglas passou esse desenho para um tecido que serviria de guia para que Dona Darcy bordasse, e após ela bordar perfeitamente, foram feitos uns testes. Se ficaria melhor escaneando ou fotografando o bordado, e preferimos ir pelo caminho da foto pois destacava muito mais o relevo. Aí deu umas tratadinhas no photoshop e deu no que deu. Estamos todos muito orgulhosos.

Você já me disse que se interessa por quadrinhos “que se comuniquem bem com os leitores”. Vejo como um de seus principais méritos a clareza das histórias que você se propõe a contar, do seu traço e das falas dos seus personagens – e imagino que isso facilite a sua comunicação com seus leitores. Esse diálogo com seus leitores também é uma prioridade da sua produção?

Totalmente. Eu quero que todos consigam ler os meus quadrinhos e entendam o que estou querendo dizer, o que estou transmitindo. Nunca quis mirar apenas em leitores de quadrinhos, naquelas pessoas que leem gibis antes mesmo do surgimento do Planeta Terra. Gosto de pensar que qualquer um pode pegar o Pato Gigante, por exemplo, e achar maneiro.

“O Pato foi feito durante a pandemia, então foi um misto de muita coisa que já não lembro muito bem”

Página de Pato Gigante, HQ de Gabriel Dantas publicada pela Ugra Press (Divulgação)

Já vi você elogiando o Simon Hanselmann nas redes sociais. Vejo em comum em vocês o ritmo de produção, essa clareza no que vocês se propõe a fazer e as plataformas que usam para divulgar seus trabalhos. Ele é uma influência para você?

Totalmente. Piro muito no trabalho do Simon. Fico relendo os livros dele direto. São meus xodós aqui da minha coleção

Aliás, o que você gosta de ler, ver e ouvir? O que você estava lendo, vendo e ouvindo durante a produção de Pato Gigante? Tem algum autor ou alguma obra que impactaram em maior grau essa série?

Eu tento ler, ver e ouvir de tudo um pouco. Quadrinhos da Fantagraphics, Veneta, livros da Todavia, mangás, zines, reassisto muito os filmes do Paul Thomas Anderson, Wes Anderson, Edgar Wright e Scorsese. Escuto muito Jonathan Bree, Bombay Bicyble Club e The Killers. Também cheguei na fase que não tem mais onde colocar os gibis e tá virando aquelas pilhas totalmente desorganizadas uma em cima da outra. Mas tudo bem. Como o Pato foi feito durante a pandemia, então foi um misto de muita coisa que já não lembro muito bem. Sei que li uma quantidade muito absurda de mangás, não sei o quanto isso teve ter me influenciado. Mas acompanhei Banana Fish, Ao no Flag, Gigant, Spy X Family, Sunny, Paradise Kiss… e por aí vai. Com certeza o Simon Hanselmann tá no meio disso. No meio não, no topo. Te amo, Simon. Se um dia vier pro Brasil, ou melhor, pro Rio Grande do Norte… Cola aqui em casa.

A capa de Pato Gigante, HQ de Gabriel Dantas publicada pela Ugra Press (Divulgação)