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Entrevistas / HQ

Papo com Luiz Gê, autor de Fronteira Híbrida e Avenida Paulista: “Meu trabalho sempre foi experimental”

Conversei com o quadrinista Luiz Gê para escrever para o jornal Folha de S.Paulo sobre Fronteira Híbrida, coletânea recém-publicada pela editora MMarte com trabalhos antigos e obras inéditas do autor do clássico Avenida Paulista. No meu texto falo sobre as origens e a edição do livro, passo pela relação de Gê com o músico Arrigo Barnabé e apresento algumas reflexões do artista sobre seus trabalhos. Você lê a minha matéria clicando aqui. Reproduzo a seguir a íntegra da minha conversa com Luiz Gê, saca só:

Trechos de HQ de Luiz Gê presente em Fronteira Híbrida, coletânea publicada pela editora MMarte (Divulgação)

Qual sua memória mais antiga relacionada à presença de quadrinhos na sua vida?

Muito difícil me lembrar exatamente. Havia muita HQ naquela época. O dito GIBI. Haviam títulos e personagens que saiam regularmente, mas muito mais que isso. Os gibis estavam por todo lado, casas de primos, amigos, etc. No sítio onde passava férias com primos e primas era comum sempre ver alguém remexendo nas pilhas em uma estante, escolhendo o que ‘leria agora’. Mas não eram apenas gibis. O desenho estava por toda parte. Os anúncios eram praticamente todos desenhados. As revistas famosas (Fatos e Fotos, Cruzeiro, Manchete e outras) tinham muitos desenhos, além de cartunistas fixos. Foi lá que a geração de humoristas do Pasquim (além de outras mais velhas) se tornou famosa antes do Pasquim. As revistas eram a TV da época. Você as podia ver, empilhadas, até em fazendas no interior dos estados. Mas havia uma revista que me marcou, que era publicada em inglês e depois em espanhol (“para que usted entienda!”), a Mecânica Popular (Popular Mechanics). Com fotos e muitos tipos de desenhos, mostrava o que acontecia na tecnologia e ensinava a construir as coisas mais variadas. Construir, e não consumir. Meu pai era um desses que tinha mesa de carpinteiro e sempre estava construindo alguma coisa. Essa relação do desenho com a criação dos objetos, barcos, casas, etc. foi muito marcante. Dois casos em HQ foram impactantes e descobertos relativamente tarde, por mim (onze, doze anos?), o Tintim e o Príncipe Valente. Os dois em formato livro, tinham publicações e impressões muito mais caprichadas que o gibi normal. Mas o roteiro também era.

O que mais te interessa hoje em termos de linguagem das histórias em quadrinhos?

Retornar aos projetos de HQs e às minhas experiências e temáticas que não pude ainda fazer ou finalizar.

Quais foram as principais transformações em relação aos seus interesses e suas percepções sobre a linguagem dos quadrinhos ao longo dos anos?

Difícil dizer. No começo foi uma revista pioneira. Depois mostrar a possibilidade de diferentes formas de uso dos quadrinhos na imprensa alternativa e na grande imprensa, e, consequentemente para outras áreas. Colaborações contínuas para a grande imprensa. Direção de arte. Quadrinhos voltados para a nossa realidade, retratos da cidade de São Paulo. Publicações no exterior. Abri certas temáticas: fui o primeiro a desenhar realística e sistematicamente o cenário urbano, no caso, São Paulo, e, portanto, a realidade brasileira. Esses cenários sempre foram genéricos e com forte influência do quadrinho americano. Ou quando o faziam, focavam coisas folclóricas. Também desenhei o nosso passado com referências mais precisas. Também fiz HQs políticas de cunho internacional, que não vira antes. Criação, edição e publicação de uma revista para as bancas, ‘volta’ aos quadrinhos de página. Pesquisa e mestrado no exterior. Atividade pedagógica e de pesquisa na universidade. Criação de uma primeira ‘novela gráfica’ no Brasil. Quadrinhos e música, quadrinhos 3D, quadrinhos interativos para internet. Quadrinhos e direção visual de óperas. Volta para a grande imprensa. Pesquisas para novas temáticas.

“Vejo o desenho também como forma de pensamento”

Arte de Luiz Gê presente em Fronteira Híbrida, coletânea publicada pela editora MMarte (Divulgação)

Você pode falar um pouco, por favor, sobre o desenvolvimento de Fronteira Híbrida? Como foi pensar o formato desse livro e selecionar seus trabalhos que estariam presentes nessa publicação?

Quando fui indicado como homenageado da Bienal, havíamos planejado exposição (muito linda e já praticamente pronta), palestras, lançamento de livros e de animação. A coisa foi adiada com o primeiro e, depois, com o segundo ano da pandemia. Pensamos em um livro. Tinha apresentado vários projetos. Eles escolheram esse assunto, diretamente ligado à temática daquela Bienal, Música e Quadrinhos. Não foi difícil conceber, embora tenha muita coisa, mas foi muito trabalhoso em muitos aspectos, mais do que pensava. Ainda que tenha tido ajuda, havia muito trabalho braçal que na verdade envolvia muitas decisões em seu processo, nas suas várias etapas, não dava para simplesmente delegar tudo.

Aliás, como você define Fronteira Híbrida? O que é esse livro para você?

Meu trabalho sempre foi experimental. Poderia dizer (hoje, nesse momento) de forma um tanto genérica, que a relação tempo/espaço (bidimensional) sempre foi importante. Mas existem algumas grandes áreas em que esse experimentalismo se manifestou. Uma dela na relação 2 e 3D, ou seja, no espaço, outra na interatividade, nas relações possíveis entre a obra e o leitor, e há uma terceira, que ocorre, muitas vezes permeada ou combinada com as outras (especialmente essas duas últimas) que foi a música, e que se deu principalmente por ter um interlocutor constante nessa área, o Arrigo Barnabé e vice-versa (poderia fazer algo como o Fronteira Híbrida para os outros dois temas mencionados). Então o livro cobre essas experiências relacionadas com a música, não só, mas a maioria com o Arrigo. São trabalhos que vão de HQs que têm trilha sonora à óperas e peças cênico-musicais. Tem bastante material, embora não só com ele, tem trabalhos individuais também. E, como quadrinhos e música, em princípio, tem essa fronteira aparentemente instransponível e a gente rompeu, de algumas formas, veio o título/conceito Fronteira Híbrida.

Você trabalha com várias técnicas e apresenta diversas propostas distintas em relação ao uso da linguagem dos quadrinhos nos seus trabalhos. Fico curioso: em meio a toda essa diversidade, existe um ponto de partida em comum? Existe alguma reflexão básica que você se propõe a fazer antes de dar início a cada obra? Existe algum questionamento fundamental que determina os rumos de cada HQ?

Vejo o desenho também como forma de pensamento. Não sou desenhista que segue linhas comerciais, artistas estabelecidos, muito embora haja muitas vantagens em fazê-lo, muitas. Cada um dos meus projetos tem uma reflexão, sua própria busca e isso afeta as decisões inclusive a forma como o desenho vai ser feito. Não estou dizendo que isso é o melhor e nem sempre dá para fazer. Mas, quando estou produzindo HQs no formato revista ou livro, isso é o mais comum de acontecer. O mesmo vale também para o que diz respeito à linguagem da HQ.

“As frustrações e decepções com a realidade brasileira atualmente são inextravasáveis”

Obra de Luiz Gê presente em Fronteira Híbrida, coletânea publicada pela editora MMarte (Divulgação)

Fronteira Híbrida mostra como você sempre foi muito simpático ao uso de novas tecnologias para a produção de uma HQ. Quais as principais lições que você tirou das suas experiências com a incorporação de novas tecnologias em seus trabalhos?

Que há muito a se fazer. No Fronteira eu começo mostrando uma experiência desse tipo feita em 1972 (Oba Oba), que só pôde ser posta em prática na internet em 1997. Antes disso, tinha dado outro passo propondo nova forma de linguagem interativa em 1990 (Viagem ao centro do universo). Cheguei a desenvolver um projeto de pesquisa na universidade criando o material para essa realização. Isso também é mostrado no livro. Mas eu adoro o papel, pensei tudo isso em interação com a coisa impressa. Mas o nosso país é muito difícil. Coisas que deram muitíssimo certo (como a revista Circo, por exemplo, mas não só isso, claro) foram destruídas por um sistema político e principalmente econômico absolutamente instável. Qualquer coisa dependente só pode ser instável.

Qual é a maior influência do trabalho do Arrigo Barnabé na sua produção? Como a sua amizade e as suas parcerias com ele impactaram os seus interesses atuais em relação a quadrinhos e artes?

De muitas formas. Somos amigos desde 1970. Então, desde sempre houve trocas de ideias e propostas que embora sejam realizadas individualmente com toda a liberdade e independência, sempre acabam se encontrando. O livro é em boa parte a celebração dessa convergência. As influências mútuas devem ser muitas. Mas nenhum dos dois define ou determina o que o outro vai fazer. No prefácio, o Arrigo dá mais informações.

Fiquei pensado nos seus trabalhos misturando música com quadrinhos e pensei numa fala do quadrinista norte-americano Chris Ware sobre o tema. Ele disse: “Sempre que eu tento falar de música e quadrinhos, tento chegar na sensação inefável do que os quadrinhos produzem na minha mente, que eu penso como uma espécie de ‘música silenciosa’, que capta os ritmos do gestual humano que ‘ouvimos’, inconscientemente, quando vemos a pessoa se movimentar, algo similar ao que entendemos como música e, acho eu, retoma a experiência do mundo que pode ser até pré-linguística, quando nos comunicávamos por gestos e urros – música e dança, basicamente”. Enfim, eu fico curioso: você vê muitos paralelos entre as linguagens da música e dos quadrinhos? Se sim, quais seriam?

Bem, é exatamente isso que foi feito pelo Arrigo em Tubarões Voadores (a gente já vinha se falando sobre isso, criar alguma coisa nesse sentido). Ele viu ouvindo a ‘música’, a ‘poesia’ daquilo e criamos esse híbrido, HQ, música e HQ com trilha sonora, ou som com visual. Essa ‘música’ possível da HQ sempre esteve presente na minha mente e na de outros quadrinistas, com certeza. Não de todos é claro, depende.

“Se o Bozzo ganhar, acho que não vai sobrar nada desse país”

Página de HQ de Luiz Gê presente em Fronteira Híbrida, coletânea publicada pela editora MMarte (Divulgação)

Sobre os seus trabalhos recentes com temáticas mais políticas: o quanto eles permitem que você extravase suas frustrações e decepções com a realidade brasileira?

As frustrações e decepções com a realidade brasileira atualmente são inextravasáveis.

As pesquisas recentes sugerem que estamos cada vez mais próximos do fim do governo Bolsonaro. Você já se permite algum otimismo com o provável término desse período de quatro anos sob o governo do atual presidente?

Eu tenho desenhado todo o período de 2016 a 2022, seria legal publicar. Tenho boa parte, título para ela, inclusive, atualizados. Acho que sinto como todo mundo, a fé é na eleição deste ano. Se o Bozzo ganhar, acho que não vai sobrar nada desse país. A destruição que ele provocou é inacreditável, jamais vista. É inacreditável como o país para por conta de um Aras, uma pessoa! Isso é instituição funcionando? Então não está funcionando, ou está só para esses poucos aí. A tal da ‘direita’ deveria ser chamada de ‘errada’. Como deixaram tanta destruição ocorrer? É a barbárie. Civilização passou longe! Isso deve ser o que eles querem, nos destruir.

Aliás, você se vê de alguma forma otimista em relação ao futuro do Brasil? 

As forças contra o desenvolvimento, a educação e a conscientização da maioria vem se impondo não é de hoje. Isso vem desde os anos 1970. Talvez desde 1945. Tivemos uma ótima educação pública que foi desmontada nos anos 1960 e 1970 e jamais reconstituída. Era limitada, mas poderia ter sido expandida. Para reconstruí-la há um passo imprescindível, pagar bem professor. Atrair de novo gente que está indo para outras áreas, de volta para essa instituição que foi arrasada. E construir um país verdadeiramente soberano. Com o fantoche, sem condições, saindo temos boas chances. 

A capa de Fronteira Híbrida, obra de Luiz Gê publicada pela editora MMarte (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Nina Bunjevac, autora de Terra-Pátria e Bezimena: “Sempre procurei maneiras de expor nossas semelhanças, não nossas diferenças”

As 160 páginas em preto e branco de Terra-Pátria narram parte da infância da autora canadense Nina Bunjevac. A obra é focada principalmente no choque de identidades e ideologias que culminou tanto na existência dela quanto na dissolução da Iugoslávia e nos conflitos bélicos nos Bálcãs nos anos 1990. Entrevistei a quadrinista e transformei esse papo em matéria para o jornal Folha de S.Paulo, noticiando o lançamento da edição brasileira da obra, pela Zarabatana Books, em tradução de Claudio R. Martini. Você lê o meu texto clicando aqui.

No meu texto para a Folha escrevi sobre o ponto de partida do livro, as reflexões de Bunjevac durante a produção da HQ e os paralelos entre a realidade vivenciada por ela na infância e a invasão russa à Ucrânia. Volto a deixar o link para a minha matéria e compartilho a seguir a íntegra da minha entrevista com a autora. Papo massa, saca só:

“O questionamento de uma herança ancestral permeou o zeitgeist da minha geração”

Quadros de Terra-Pátria, obra de Nina Bunjevac publicada pela Zarabatana Books (Divulgação)

Você poderia me contar, por favor, sobre a origem de Terra-Pátria? Houve algum ponto de partida ou incentivo em particular para o início da produção desse quadrinho?

Eu publiquei um conto chamado August 1977 no meu primeiro livro, Heartless, no qual encaro o legado de meu pai e o rejeito. Quando o livro foi lançado na Sérvia, essa história em particular recebeu várias resenhas, tanto na Sérvia quanto na Croácia. Um autor e figura cultural conhecida, Miljenko Jergovic, escreveu uma resenha brilhante e poderosa em um dos principais jornais croatas. Miljenko também foi um autor que lidou com o legado de sua avó paterna, implicada em crimes de guerra durante a Segunda Guerra Mundial. Logo aprendi que esse tema, o questionamento de uma herança ancestral, permeou o zeitgeist da minha geração, especialmente aqueles que cresceram na antiga Iugoslávia. Após a dissolução do país, nossas culturas individuais foram profundamente enraizadas em nacionalismo e tribalismo. ‘Ou você está conosco ou está contra nós’, passou a ser o lema do dia. Fazer um indivíduo deixar o coletivo e questionar o status quo – sejam seus ancestrais, seus líderes ou as autoridades da igreja – era visto como o maior dos pecados. As pessoas que fizeram isso foram incrivelmente corajosas. Terra-Pátria foi a minha contribuição para esta causa que, neste momento particular da história, se tornou uma questão existencial. 

Qual a memória mais antiga da presença de quadrinhos na sua vida?

Foi na casa da minha avó, quando esbarrei com um quadrinho da [editora] Bonelli chamado Dr. No. Era uma versão em quadrinhos do filme. Cada página tinha dois quadros panorâmicos, um embaixo e outro em cima. Eu fiquei hipnotizada. Como tínhamos uma televisão em preto e branco, vi as duas coisas [quadrinho e filme] como uma só, eu devia ter quatro anos. Ainda assim, até hoje, me inspiro mais em filmes do que em quadrinhos. Os primeiros quadrinhos que comecei a comprar regularmente foram os quadrinhos de Carl Barks, publicados na [revista] Disney Digest e na Disney Almanac, lançadas semanalmente e quinzenalmente. A Iugoslávia tinha uma cena rica de quadrinhos. Jornaleiros e livrarias tinham em média cerca de dez publicações diferentes de quadrinhos, italianas, americanas e franco-belgas.

Tenho curiosidade em relação às suas técnicas e rotinas como autora. Com quais materiais você trabalha? Você tem alguma rotina em particular enquanto está trabalhando em uma HQ? Você teve alguma rotina em particular enquanto estava trabalhando em Terra-Pátria?

Minha rotina é muito simples e nada emocionante. Eu esboço, desenho e redesenho, escaneio, desenho outra vez, aí levo três dias para arte-finalizar cada página. Cerca de 40% do meu tempo reservado para os projetos é ficar sentada sem fazer nada, esperando a ideia certa, ou a resposta certa, vir à mente. É como pescar, mais do que qualquer coisa. Para fazer isso bem e ter um suprimento constante de ideias, passo longos períodos alimentando a mente, lendo livros, ouvindo podcasts e fazendo cursos online.

Você tem um traço muito pessoal e identificável. Como você chegou nesse estilo? Quais tipo de leituras e práticas a levaram a fazer quadrinhos e desenhar da forma como você faz quadrinhos e desenha?

Minha formação é em design gráfico e, depois, em artes plásticas. Antes de começar a desenhar quadrinhos, aos 30 anos, fazia pinturas a óleo, principalmente figurativas, e esculturas. Mudar para o Canadá aos 16 anos foi uma experiência traumática, pois não compreendia a língua, mas queria escrever. Naquela época, eu dava muita ênfase à língua, não à narrativa. Trabalhar com esculturas me parecia como um diálogo entre objetos e conceitos e, o mais importante, uma forma de contar histórias. Isso foi uma revelação para mim. Logo comecei a experimentar com quadrinhos, a fim de colocar em ação o meu contador de histórias interior. O estilo levou um tempo para se desenvolver. Eu acho que ainda está em desenvolvimento, e está constantemente sendo influenciado por filmes, livros, quadrinhos, arte.

“Se não fosse por minha avó, eu nunca teria me tornado uma contadora de histórias”

Página de Terra-Pátria, obra de Nina Bunjevac publicada no Brasil pela Zarabatana Books (Divulgação)

Terra-Pátria é não apenas sobre a sua família e sua infância, mas também sobre memórias, guerra, extremismos, ódio, amor, política e por aí vai… Fico curioso em relação à forma como você conciliou todos esses temas enquanto desenvolvia o livro. Foi desafiador para você administrar todos as experiências pessoas que você retrata no livro com todos os fatos e ocorrido históricos e políticos que também se fazem presentes na obra? 

Bem, antes de começar a trabalhar em Terra-Pátria fui convidada a participar de um workshop organizado pelo Center for Peace Studies de Zagreb e pelo Centre for Cultural Decontamination de Belgrado. O workshop se chamava Artists in Exile [Artistas em Exílio], e reunia artistas, autores e cineastas de ex-repúblicas iugoslavas, que fugiram da região por causa da guerra e se estabeleceram em outras partes do mundo. A experiência foi quase mística, compartilhando comida, histórias, músicas, chorando e rindo juntos. Apaziguou algo em mim. Até então, eu pretendia escrever com emoção e com um ponto de vista político definido. Depois dessa experiência, mudei meu ponto de vista para uma perspectiva mais pacífica, como uma contadora de histórias neutra, que expõe os fatos e conta com a inteligência do leitor para tirar suas próprias conclusões. Eu não queria usar sentimentalismo para manipular o leitor e não queria ofender ninguém. Sempre procurei maneiras de expor nossas semelhanças, não nossas diferenças.

Bezimena também é uma obra muito pessoal, mas que você optou por conta de forma completamente diferente de Terra-Pátria. Como você estabeleceu a forma como iria contar cada uma dessas histórias?

Comecei Bezimena sem esperar que ele chegasse em mim. Ou seja, não fui pescar como costumo fazer. Eu pretendia fazer um livro pornográfico, ou erótico, baseado em diferentes fetiches. No entanto, o livro, ou meu lado direito do cérebro, tinha outras ideias. Essas idéias me vieram inicialmente como sonhos, ou como ocorrências sincronísticas, que desenvolvi posteriormente por meio de exercícios de imaginação ativa. Um dos símbolos que surgiu foi o de Ártemis, e passei muito tempo contemplando isso. Ao longo de seu domínio sobre rios, portos, montanhas e caça, ela também é uma deusa que pune os predadores sexuais e protege as virgens. Bezimena tornou-se essencialmente uma releitura do mito de Ártemis, ou Diana, e Acteon.

Qual foi a recepção da sua família em relação a Terra-Pátria?

Ficaram todos satisfeitos e me apoiaram.

Você conta no livro como a sua avó era uma grande contadora de histórias e como você gostava de estar na companhia dela. O quanto essa relação com a sua avó influenciou a sua carreira como autora e contadora de histórias? 

Se não fosse por minha avó, eu nunca teria me tornado uma contadora de histórias. Eu costumava praticar a minha escrita escrevendo as memórias de guerra dela. Ela era uma criança-soldado e se juntou aos guerrilheiros iugoslavos aos dezesseis anos. E, poxa cara, como ela sabia contar uma história! Ela mantinha uma sala inteira sob seu feitiço!

Você começa o seu livro contando como as memórias da sua mãe são seletivas e como a memória da sua avó era boa. Como é a sua relação com as suas memórias?

Eu definitivamente me apego às minhas memórias. Às vezes, eu gostaria de poder apagar algumas Um dos desafios da minha vida é viver o momento, e me esforço muito para isso.

“Enquanto houver ‘eles’ e ‘nós’, teremos outra pessoa em quem projetar nossos demônios”

Página de Terra-Pátria, obra de Nina Bunjevac publicada no Brasil pela Zarabatana Books (Divulgação)

Terra-Pátria mostra como ódio e extremismos fomentam mais ódio e extremismos. Estamos vivendo em um mundo que parece cada vez mais extremista e cheio de ódios. Você vê muitos paralelos entre a realidade vivida pelo seu pai, a família dele e a sua família e a nossa realidade atual?

Acho que o que aconteceu na Iugoslávia foi apenas a amostra de monóxido de carbono que matou o canário. Estamos agora experimentando toda a explosão disso. O filósofo austríaco Rudolf Steiner teria chamado isso de “a guerra de todos contra todos”. Então, deve ser algo que vem da natureza humana, como agora está se manifestando globalmente.

Quais são as suas principais reflexões sobre a invasão russa à Ucrânia?

Um amigo meu, o astrólogo Ray Grasse, me enviou um artigo que escreveu em 1982, sobre a relação entre EUA e Rússia (na época União Soviética), que ele vê como a repetição da mesma dinâmica estabelecida pela divisão do Império Romano em as partes ocidentais e orientais, ou o Cristianismo no Catolicismo e na Igreja bizantina. Enfim, ele vê o mundo ocidental e os EUA representando o Império Romano do Ocidente e a Rússia representando o Império Romano do Oriente. Isso está enraizado em suas mitologias, costumes, seu senso de significado ou pertencimento. Ambas as contrapartes são expansionistas e tendem a colonizar. Essa dinâmica ocorreu ao longo da história e durante a Guerra Fria. Eu tendo a concordar com isso, e o que estamos testemunhando agora [com a guerra na Ucrânia] é o mais recente na disputa global, entre as encarnações mais recentes desta divisão, a OTAN e a Rússia.

Você vê alguma relação entre a invasão russa à Ucrânia e a história que você conta em Terra-Pátria?

Com certeza. Em nenhum lugar estão as réplicas dessa divisão no Império Romano, e o Cristianismo em Catolicismo e Ortodoxia Oriental, tão evidentes quanto nos Bálcãs, já que a península balcânica tem sido uma fronteira histórica entre os dois. É tão irônico que todos parecem perder a mensagem dos Evangelhos: crer em Cristo é amar o próximo. Ivan Dominic Illich, padre católico romano, filósofo e crítico social, escreveu sobre como, nos primeiros séculos do cristianismo, cada casa teria um colchão extra pronto, um pedaço extra de pão e água, caso um estranho batesse à porta precisando de abrigo. A caridade, ou a crença em Cristo, era uma questão de escolha pessoal. Quando o cristianismo chegou aos Bálcãs, já havia se tornado romanizado, institucionalizado e expansionista; o poder de escolha e discernimento pessoal foi sacrificado perante às instituições. Misturar a mentalidade de tribo de guerra, com religiões institucionais impostas pelas culturas guerreiras dominantes, e a subsequente divisão do cristianismo em catolicismo e ortodoxia oriental, foi uma receita para o desastre. Então, irmão lutou contra irmão, porque um apoiou Roma, ou OTAN, e outro apoiou Constantinopla, ou Ortodoxia Oriental, ou seja lá o que for.

Lembro da primeira vez que li o Palestina do Joe Sacco. Eu era muito novo e fiquei com a impressão que faltava uma página no fim da minha edição, porque era um final muito abrupto. Depois compreendi o ponto dele: são conflitos que não acabaram e não tem um fim em vista. O final de Terra-Pátria não chega a ser tão abrupto quanto o de Palestina, mas fiquei com a mesma impressão de não ter acabado. Os conflitos em torno da realidade da sua família também não parece ter chega ao fim. Essa leitura faz sentido para você? 

Totalmente. Isso continua acontecendo porque continuamos recontando a mesma história várias vezes. Enquanto houver “eles” e “nós”, teremos outra pessoa em quem projetar nossos demônios, em vez de nos voltarmos para dentro. Mas para conhecer a si mesmo adequadamente, é preciso separar-se do coletivo, física ou espiritualmente, e isso pode ser um processo muito doloroso para a maioria das pessoas.

“Acho que os leitores brasileiros vão entender meu trabalho. No fundo, somos todos iguais”

Página de Terra-Pátria, obra de Nina Bunjevac publicada no Brasil pela Zarabatana Books (Divulgação)

Fico curioso em relação à sua visão de mundo no momento. O Trump era o presidente dos Estados Unidos até outro dia e Bolsonaro – provavelmente mais estúpido, xenófobo, conservador e pior de todas as formas que Trump – é o presidente do Brasil. O que você acha que está acontecendo com o mundo? Você consegue ser de alguma forma otimista em relação ao nosso futuro? 

Muitas vezes penso em algo que Peter Ouspensky, o filósofo e místico russo escreveu em seu livro In Search of the Miraculous. O livro é um relato abrangente e extenso das idéias do professor de esoterismo grego armênio Georges Gurdjieff. O texto em questão vem das reflexões de Gurdjieff sobre a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Ele afirma que, em tempos em que grandes civilizações caem, as pessoas se tornam como autômatos, rejeitam o conhecimento e são facilmente manipuladas por seus líderes através do medo. Nesses momentos, escreveu Gurdjieff, o planeta reage a padrões psíquicos negativos e provoca mudanças climáticas. Isto foi escrito em 1915. Sinceramente, não vejo esperança, a menos que os indivíduos saiam da colméia e comecem a pensar por si mesmos.

Ainda sobre o Brasil: quais os seus sentimentos ao ver o seu trabalho publicado em um país como o Brasil? Você fica curiosa em relação à forma como seu livro vai ser lido e interpretado em um contexto tão diferente do seu?

Fico extremamente feliz por ser publicada no Brasil, e fiquei extremamente triste que a pandemia de COVID-19 começou quando eu planejava para participar de um festival por aí. Eu estava animada para conversar com as pessoas, aprender mais sobre as suas culturas e apenas respirar seu ar. Acho que os leitores brasileiros vão entender meu trabalho. No fundo, somos todos iguais.

Você pode recomendar, por favor, algo que está lendo, ouvindo e assistindo no momento?

Gostei muito do Ethos, minissérie turca da Netflix. Belo texto, especialmente para os conhecedores das ideias junguianas. Ouço regularmente o podcast This Jungian Life, apresentado por analistas junguianos que também são amigos. Recentemente, re-assisti alguns dos meus filmes favoritos. Dois me pegaram com mais força do que antes: Il Decameron, de Pasolini; WR Mysteries of The Organism, de Dusan Makavejev; e Seven Beauties, de Lina Wertmueller. Sempre recomendo esses.

Você está trabalhando em algum projeto novo no momento? 

Agora estou trabalhando em um quadrinho mudo de 25 páginas, inspirada em [Frans] Masereel, para uma editora francesa. Deve ser publicado em outubro deste ano.

A capa de Terra-Pátria, obra de Nina Bunjevac publicada no Brasil pela Zarabatana Books (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Adão Iturrusgarai, autor de Paris por um Triz: “Paris influenciou muito o meu estilo”

Aguardo ansiosamente cada atualização da Correio Elegante, newsletter semanal mantida pelo cartunista Adão Iturrusgarai já há alguns anos. Graças a ela aprendi um monte sobre o início da carreira dele, li sobre as origens da célebre revista Dundum e compreendi um tanto sobre a lendária geração de autores da qual ele faz parte. Entre vários relatos de viagens e encontros com lendas dos quadrinhos mundiais, uma das fases mais inspiradas da newsletter narrou o período de pouco mais de sete meses do criador de personagens como Aline e Rocky & Hudson vivendo em Paris.

Paris por um Triz – Aventuras de um Cartunista (Zarabatana Books) reúne os textos de Iturrusgarai referentes ao seu período na capital francesa, entre agosto de 1990 e março de 1991.

Com 25 anos ao desembarcar na Europa, Iturrusgarai alimentava sonhos de uma carreira de sucesso na capital mundial do humor escrachado praticado e idolatrado por ele. As 248 páginas do livro sobre as aventuras do cartunista em Paris narram uma montanha-russa emocional marcada por amizades e paixões memoráveis e algumas decepções profissionais. Entre idas a bares com lendas do humor gráfico como Gilbert Shelton e Hunt Emerson e quadrinhos publicados em revistas locais, ele se vê solitário em outro país e sofrendo para arcar com seus gastos.

A importância desse período de Iturrusgarai em Paris para a vida pessoal e profissional do autor fez com que ele adiasse ao máximo seus relatos do período na França.

Quadro de HQ de Adão Iturrusgarai de 1993, publicada na revista General, inspirada no período dele na França (Divulgação)

“Quando a ideia de escrever sobre a minha estada em Paris começou a tomar um espaço importante da minha cabeça, comecei a fazer anotações, buscar fotos, blocos de rascunho e contatar pessoas”, me contou o autor. “Fui guardando tudo isso em um documento de Word. Um dia, depois de não ter mais o que escrever, respirei fundo e dei um nome a esse doc: Memórias de Paris. Então comecei”.

“No início foi meio intuitivo e anárquico. Depois me dei conta de que, mesmo sem ter experiência em folhetim semanal, os textos fluiam legais e sempre ficava um gancho para o seguinte. Eu tenho muito boa memória para coisas que aconteceram há muito tempo e tinha algumas fotos e anotações que me ajudaram a alinhavar as histórias. Lembro perfeitamente de alguns acontecimentos, como se tivessem acontecido ontem”.

Assim como a newsletter que o inspirou, Paris por um Triz é engraçado, trágico e revelador sobre a formação e a personalidade de um dos autores mais importantes do humor sem-noção nacional. Torço para ver outros recortes da newsletter de Iturrusgarai também acabarem no papel.

Reproduzo agora a íntegra do papo que bati por email com o cartunista. Ele me falou sobre o começo da Correio Elegante, comentou o impacto do período em Paris em sua vida pessoal e profissional e refletiu sobre sua estreia como escritor. A seguir, papo com Adão Iturrusgarai:

“Sempre tive vontade de escrever…”

Obra de Adão Iturrusgarai sob o mapa do metrô de Paris presente em Paris por um Triz (Divulgação)

Os relatos presentes no seu livro foram inicialmente publicados na sua newsletter. Você pode contar um pouco, por favor, sobre o ponto de partida da Correio Elegante?

Inicialmente o Correio era uma newsletter semanal com cartuns, frases e outras maluquices minhas. Era também uma forma de divulgar os produtos da minha loja virtual. Depois que veio a ideia de escrever textos. Eu sempre tive vontade de escrever, mas foi um processo lento até criar coragem. Comecei pouco a pouco, com textos curtos, até voar mais alto. Depois o texto se tornou o prato principal da newsletter.

E você sempre teve em mente narrar o seu período em Paris na newsletter?

Não. No início escrevia contos soltos e curtinhos. Depois vieram as memórias de infância, adolescência e época da faculdade. Na sequência sobre viagens pelo Brasil e a Nova York. Paris estava na manga mas eu sabia que era algo que tinha que ser longo e mais complexo. Demorei uns três anos para começar. E confesso que, no início, jamais imaginei conseguir escrever um livro desses.

Houve algum momento em que você sentou para planejar e organizar quais histórias seriam contadas em cada edição da newsletter? Pergunto isso porque eu sempre li a Correio Elegante como um imenso fluxo de memória, com você contando suas histórias à medida que elas vinham à mente. O que você pode contar sobre esse processo?

Quando a ideia de escrever minha estada em Paris começou a tomar um espaço importante da minha cabeça, comecei a fazer anotações, buscar fotos, blocos de rascunho e contatar pessoas. Fui guardando tudo isso em um documento de Word na nuvem. Um dia, depois de não ter mais o que escrever, respirei fundo e dei um nome a esse doc: Memórias de Paris. Então comecei. No início foi meio intuitivo e anárquico. Depois me dei conta de que, mesmo sem ter experiência em folhetim semanal, os textos fluiam legais e sempre ficava um gancho para o leitor esperar pelo seguinte. Eu tenho muito boa memória para coisas que aconteceram há muito tempo e tinha algumas fotos e anotações da época que me ajudaram a alinhavar as histórias. Lembro perfeitamente de alguns acontecimentos, como se tivessem acontecido ontem.

“Eu queria mergulhar na cidade, ver, sentir, viver como se fosse um francês”

Adão Iturrusgarai com amigos durante seu período vivendo na Europa (Divulgação)

Essa sua temporada em Paris foi marcada por grandes encontros. Houve algum em particular que te impactou mais? Houve alguma relação pessoal durante esse período que foi mais marcante para a sua vida?

O mais legal disso tudo são as amizades. Estamos em 2022. Passaram 32 anos e eu tenho amigos parisienses. Sempre que volto lá, dou um jeito de reencontrar essas pessoas e visitar lugares que morei ou frequentei. As amizades podem ser eternas e isso é algo que emociona muito.

Minha ideia inicial era passar dois dias em Paris em 2019, quando viajei a Madri, e percorrer a cidade seguindo meus passos, a cronologia das minhas mudanças. E ir fotografando e filmando para ajudar no processo. Mas infelizmente não pude fazer o bate e volta Madri-Paris-Madri. Também tiveram os encontros com grandes artistas como: Gilbert Shelton, Jano, Hunt Emerson. Ah, e claro, um show do Pixies. Este acabou ficando de fora do livro.

Passados quase 30 anos desse seu período na França, qual balanço você faz dessa sua temporada em Paris? Como você acha que esses anos convivendo com autores, cartunistas e quadrinistas estrangeiros impactou as suas técnicas e a forma como você pensa o seu trabalho?

Não desenhei muito, compulsivamente, em Paris. Eu queria mais mergulhar na cidade, ver, sentir, viver como se fosse um francês. No final da minha estada me dei conta que Paris tinha influenciado muito o meu estilo. E foi um grande aprendizado. Talvez um dos maiores da minha vida. Mesmo nos momentos mais sofridos. E felizmente eu pude desfrutar da Paris analógica. Era uma cidade mais escura e mais leve. Hoje está demasiado frenética. Foi a preparação para voltar para o Brasil e encarar mudar para São Paulo. Paris foi o estágio para São Paulo.

Não consigo pensar em artistas que prezem tanto pela liberdade de expressão e pelo seu direito de usá-la quanto os franceses. O quanto a forma como os franceses pensam humor influenciou o seu trabalho após esse período em Paris?

Eu já estava “pego” pelo humor francês mesmo antes de ir para lá. Essa foi uma das razões de escolher a cidade. O humor naquela época era mais livre. Os franceses prezam muito a liberdade de expressão. Quando rolou o atentado ao Charlie Hebdo eles foram às ruas para manifestar-se, mesmo não concordando com algumas coisas que a revista publicava.

“Meus maiores ídolos são franceses”

Adão Iturrusgarai com Fábio Zimbres e Gilmar Rodrigues pouco antes de sua ida para Paris (Divulgação)

E o que mais te interessa na forma como os franceses pensam o humor? Aliás, o que mais te interessa em fazer humor hoje?

Esse humor sacana, safado e sem freios. Principalmente da época da Charlie Hebdo, L’Echo des Savanes, Hara Kiri. Wolinski, Reiser, Vuillemin, meus maiores ídolos são os franceses.

Qual balanço você faz da sua experiência escrevendo a Correio Elegante e editando Paris por um Triz? É muito diferente para você publicar um livro apenas com textos, sem imagens, em comparação com seus títulos prévios com ilustrações?

É diferente, tipo “brinquedinho novo”, hehe. Escrever sempre foi um desafio e conseguir lançar um livro desses foi como realizar um sonho. E estou gostando de experimentar outras coisas, além do cartum: artes plásticas, escrita, fotografia. A verdade é que estou muito satisfeito com minha produção atual. E nem sempre foi assim.

Você poderia recomendar algo que esteja lendo, ouvindo ou assistindo no momento?

Séries: vi um documentário do Dave Chapelle, humorista também sem papas na língua. Me diverti muito com Inbetweeners, série inglesa. Adoro também o humor britânico. Qualquer coisa do Monty Phyton. Breaking Bad, a melhor série de todas.

Livros: Marrom e Amarelo, Paulo Scott. Pergunte ao Pó, do John Fante. Serotonina, do Michel Houellebecq. Sobre os Ossos dos Mortos, Olga Tokarczuk. Paris é Uma Festa, do Ernest Hemingway. O Velho e o Mar, também do Hemingway. 

A capa de Paris por um Triz, livro de Adão Iturrusgarai publicado pela Zarabatana Books (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Dash Shaw, autor de Cosplayers e Umbigo sem Fundo: “Quadrinhos não precisam ter uma aparência específica, eles podem ser qualquer coisa”

Cosplayers – Fantasiando a Vida é o primeiro álbum do quadrinista Dash Shaw publicado no Brasil desde Umbigo Sem Fundo, em 2009. Lançamento da editora Conrad, com tradução de Dandara Palankof, o quadrinho narra a jornada de uma cosplayer e sua fiel assistente, fotógrafa e editora de vídeo por convenções de cultura pop nos Estados Unidos. Entrevistei o autor e transformei esse papo em matéria aqui para o blog (você lê o meu texto clicando aqui). Reproduzo agora a íntegra da minha conversa com o autor. Falamos sobre convenções de quadrinhos, desenhos animados e Daniel Clowes e ele me falou sobre sua paixão por Osamu Tezuka e sua vontade de retornar ao Brasil.

Deixo mais uma vez o link para o meu texto sobre Cosplayers e compartilho, a seguir, a minha entrevista com Shaw. Saca só:

“Vou a convenções de anime e quadrinhos desde os 12 anos”


Você lembra do ponto de partida de Cosplayers? Houve alguma inspiração em particular ou alguma motivação por trás da produção dessa obra?

Eu vou a convenções de anime e quadrinhos desde os 12 anos. Quando eu era criança, eu fazia agendas de programação para convenções de anime fictícias. Eu tive uma ampla gama de experiências em convenções, é claro. Muitas experiências incríveis e positivas, e outras horríveis, e tudo mais no meio do caminho das duas coisas. Eu posso oscilar loucamente em uma convenção de pensar “eu amo todas essas coisas” para “é tudo lixo” para, na maioria das vezes, uma série de sentimentos contraditórios no meio desses extremos. Eu queria que Cosplayers representasse esses sentimentos e adotasse um tom positivo, mas realista. Além disso, a ideia inicial era ser uma revista serializada. Essas histórias existem primeiro como quadrinhos curtos serializados. Então, em uma quarta-feira, na loja de quadrinhos, havia quadrinhos do Batman e do Superman e logo ao lado deles, o meu quadrinho, Cosplayers, sobre pessoas comuns vestidas de Batman e Superman. As questões dos cosplayers foram fáceis de escrever, porque eu conhecia aquelas pessoas, aquelas situações.

O seu outro trabalho publicado no Brasil foi Umbigo sem Fundo. Acho que seus leitores brasileiros vão ver um contraste muito grande entre a sua arte desse primeiro livro publicado por aqui e esse mais recente. Você pode, por favor, comentar um pouco sobre o contraste entre as suas técnicas e seus métodos de trabalho entre Umbigo e Cosplayers?

Essa é uma pergunta interessante. Já fiz outros livros antes e depois de Cosplayers. Mas Umbigo e Cosplayers são talvez meus trabalhos mais focados em personagens. Eu não sou o melhor para julgar por que apenas esses dois foram traduzidos. De qualquer forma, primeiro tenho uma ideia de história e depois os designs e layouts são inspirados na história. A forma tem que parecer a melhor maneira de contar qualquer que seja essa história em particular. Umbigo deveria parecer um diário, mas escrito por vários personagens. Os cosplayers deveriam se sentir como alguém “vestindo-se” como um quadrinho periódico mainstream.

O quanto as suas percepções sobre quadrinhos, os seus principais interesses pelo meio, mudaram de 2008, quando Umbigo saiu, para cá? O que mais te interessa em termos de linguagens dos quadrinhos atualmente? Aliás, o que são quadrinhos para você hoje? O quanto essa percepção mudou para você ao longo dos anos?

Tenho muita sorte de ter feito quadrinhos toda a minha vida, e fiz os quadrinhos que queria fazer. Eu não trabalho como ilustrador, na verdade. Eu apenas faço minhas próprias coisas. Eu nunca tive um quadrinho incrivelmente bem-sucedido, que poderia ter colocado expectativas em mim ou me atrapalhado de alguma forma. Eu vejo tudo isso como uma bênção, sério. Eu sempre senti que os quadrinhos são uma forma de arte única. Quadrinhos são ótimos para apresentar ideias ou sentimentos contraditórios. Quadrinhos são complicados, mas simples. Não cansei de fazê-los. Dedico minha vida a eles.

“Quadrinhos são como colagens que você pode ler”

Quadros de Cosplayers, obra de Dash Shaw publicada no Brasil pela editora Conrad (Divulgação)

Aliás, você também é muito ligado ao universo das animações. Você vê muitos paralelos entre as linguagens das HQs e dos desenhos animados? Você se vê “pegando emprestado” técnicas e práticas de uma para a produção da outra?

Sim, sempre me interessei por “animação limitada” ligada aos quadrinhos, como as primeiras animações de [Osamu] Tezuka, a primeira temporada de Astro Boy ou o especial de Natal do Charlie Brown. Gostei de ambos por suas próprias linguagens cinematográficas particulares surgidas dos quadrinhos. Você pode ver, por exemplo, naquela primeira temporada de Astro Boy como Tezuka criou um modo cinematográfico específico a partir de suas habilidades como quadrinista. É diferente da animação “comprimir e esticar”, é uma coisa própria. Eu vi isso conectado ao cinema independente, o ethos de “menos é mais”.

Também fico curioso em relação à forma como você pensa cada página dos seus trabalhos. Pergunto isso porque os designs de página de Cosplayers são muito diferentes de Umbigo, me parecem muito mais rígidos. Qual é a sua proposta ao pensar o design de cada página?

Estou em busca de maneiras de a forma se tornar conteúdo, ou uma interação que impulsione um ao outro. Quadrinhos são como colagens que você pode ler. Por exemplo, se você faz algo maior, ocupando muito da página, está dizendo que isso é mais importante. O conteúdo dita a forma, e também a forma altera o conteúdo.

Talvez pelas duas protagonistas jovens, mulheres, desencantadas com o mundo, às vezes cínicas e irônicas, eu vi certo diálogo de Cosplayers com Ghost World, do Daniel Clowes. O Daniel Clowes é uma influência para você? Ghost World teve algum impacto na sua formação como autor?

Não era a minha intenção no começo, mas assim que a primeira edição saiu, o editor da Fantagraphics me chamou atenção para isso. Provavelmente porque sou do contra, pensei que seria interessante tentar me aproximar disso em vez de me afastar, então a segunda edição, Tezukon, tem um personagem muito característico do Clowes, o estudioso de mangá. Seja como for, eu amo o Clowes. Ele é o melhor.

Você pode, por favor, listar algumas obras e artistas que tiveram impacto em sua formação?

Meu pai colecionava quadrinhos então eles sempre estiveram por perto enquanto eu crescia. Eu sabia sobre quadrinhos hippies e Watchmen, até mesmo sobre o Spirit do Will Eisner, desde muito cedo. Nasci em 1983. Nos anos noventa, claro, eu lia os quadrinhos da Image, The Maxx do Sam Kieth era o meu favorito, mas o maior impacto em mim quando adolescente foram os quadrinhos japoneses que estavam sendo traduzidos: Ranma 1/2, Akira, etc. Eu vi quadrinhos longos, focados em personagens e com milhares de páginas. Além disso, veio a iluminação de que os quadrinhos não precisam ter uma aparência específica, que eles podem ser qualquer coisa. Esse foi talvez o maior e mais importante impacto sobre mim.

“Amo cosplayers pela fusão da fantasia com a realidade”

Página de Cosplayers, obra de Dash Shaw publicada no Brasil pela editora Conrad (Divulgação)

Cosplayers também aborda um pouco da realidade da cultura de fã, ligada a convenções e eventos de cultura pop, e muito associada à indústria dos quadrinhos. Como você se relaciona com essa realidade?

Pessoas diferentes gostam de cosplay por razões diferentes. Este livro reflete o que eu pessoalmente gosto. Eu amo a teatralidade dele, e seu aspecto artesanal. Eu amo que é uma fusão da fantasia com a realidade. Desenhar cosplayers é interessante porque os personagens se originam em desenhos, mas eles foram filtrados pela realidade, e agora estou filtrando-os de volta para a irrealidade/fantasia. Foram adicionados elementos que não estavam lá antes: o Gambit usa óculos agora, o Batman tem bigode, o traje é um pouco instável ou “folgado”, ou personagens mudaram de gênero ou raça. Renderizar essas diferenças ou idiossincrasias foi mais poderoso para mim do que desenhá-las para se parecerem com o personagem que as inspirou. Isso é parte do que eu amo sobre cosplays… Parece tanto representar como o fandom é mais amplo e mais inclusivo e humanista do que a maioria das histórias/personagens que os fãs são fãs, e também como o mundo ficcional impacta (ou invade) o mundo real.

Enquanto trabalhava em Cosplayers, li uma entrevista de 1974 com J.G. Ballard em que ele diz:

“O próprio surrealismo ficou para trás; é um período encerrado. Para [Salvador] Dalí poder pintar relógios macios, era necessário que os relógios reais fossem duros. Hoje, se você perguntar a alguém as horas na rua, poderá ver o rosto de Mickey Mouse na tela. É uma invasão típica e inteiramente banal da realidade pela ficção. Os papéis foram invertidos, e a partir de agora a literatura não deve tanto inventar um mundo imaginário, mas explorar as ficções que nos cercam.”

O que você pensa quando um trabalho seu é publicado em um país como o Brasil? Somos todos americanos, mas são culturas muito diferentes. Você tem alguma curiosidade em relação à forma como um trabalho seu será lido e interpretado por pessoas de um ambiente tão diferente dos seu?

Fui à Bienal do Livro do Rio de Janeiro quando Umbigo saiu, há mais de dez anos, e adorei. Também visitei São Paulo. Eu tinha vinte e poucos anos e foi perfeito. Visitei o Fábio Moon e o Gabriel Bá. Acho que o Rafael Grampá também estava por lá. Tenho boas lembranças dessa viagem e de ver a arquitetura no Rio de Janeiro. Em um livro em que estou trabalhando atualmente, um personagem vai ao Rio de Janeiro, inspirado nessa viagem. Enfim, fiquei encantado e espero que algum festival ou evento volte a me convidar, pois, como autor, só viajo quando sou chamado por um festival de cinema ou de livro.

A última! Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?

Espero que todos conheçam Olivier Schrauwen, meu amigo que mora em Berlim. Seus quadrinhos são ótimos. Sobre filmes? Eu amo Matías Piñeiro, ele vive na Argentina. Eu nunca o conheci, mas eu amo seus filmes. As histórias dos Cosplayers foram em parte inspiradas em ver todos os filmes de Rohmer, em particular As 4 Aventuras de Reinette e Mirabelle, e os filmes de Piñeiro estão definitivamente nesse espírito rohmeriano.

A capa de Cosplayers, obra de Dash Shaw publicada no Brasil pela editora Conrad (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com André Kitagawa, autor de Risca Faca: “Meus personagens são todos alienígenas tentando se virar num ambiente inóspito”

Risca Faca é o primeiro álbum do quadrinista André Kitagawa desde o lançamento de Chapa Quente, em 2006. Apesar dos 15 anos que separam a publicação das duas HQs, o título mais recente do autor é fruto direto de seu trabalho prévio. As três histórias impressas nas 120 páginas em preto e branco da obra de estreia da editora Monstra foram concebidas em meio às várias tramas policiais de seu trabalho anterior.

“Três idéias, tidas 15 anos atrás, a serem desenvolvidas à luz do que eu e o mundo somos hoje, num contexto bem diverso”, me diz Kitagawa sobre o ponto de partida de seu mais recente trabalho.

As três tramas de Risca Faca estão interligadas por detalhes. A primeira das histórias é centrada em uma noitada com consequências extremas para uma mãe e seu filho, a segunda mostra um grupo de mulheres com propósitos escusos ao entrar de penetra em uma festa e a terceira narra a jornada de um homem em situação de rua. Além das conexões sutis entre seus enredos, predomina nas três o clima de tensão e ânsia por violência implícita no título.

Também dialoga com Chapa Quente a urbanidade como pano de fundo da HQ.

“Fiz questão de explorar a diversidade e os contrastes do espaço urbano”, conta Kitagawa. “Tem o centro, mas tem a periferia,  tem bairro de rico… Vias expressas que funcionam como muros separando esses espaços, segregando as pessoas. Essa conformação determinando os rumos dos personagens… É São Paulo, mas também é um planeta imaginário.”

Compartilho a seguir a íntegra da minha conversa com Kitagawa. Ele me falou sobre o desenvolvimento de Risca Faca, expôs as origens de sua preferência pelo grafite como material de trabalho e refletiu sobre a relação dele com o teatro e o cinema norte-americano dos anos 1970, entre outros temas. A seguir, papo com André Kitagawa:

“Pode-se dizer que Risca Faca começa onde termina o Chapa Quente…”

Quadros de Risca Faca, obra de André Kitagawa publicada pela editora Monstra (Divulgação)

Você pode contar, por favor, um pouco sobre a origem do Risca Faca? Houve algum ponto de partida em particular para o desenvolvimento desse trabalho?

Pode-se dizer que o Risca Faca começa onde termina o Chapa Quente, álbum que lancei há 15 anos. Ele parte de três de várias idéias para histórias curtas que eu pretendia fazer na época, mas que acabaram não se concretizando. De tempos em tempos eu pensava nelas, as aprimorava mentalmente, mas nunca cheguei sequer a esboçá-las no papel. A última história do álbum, Já Morreu, eu até cheguei a finalizar poucas páginas, mas parou aí. Durante a pandemia resolvi inscrever algum projeto no Proac e acabei propondo fazer uma publicação a partir dessas três idéias, que ainda precisavam ser desenvolvidas. Resolvi também que essas três histórias, mesmo que independentes, se entrelaçariam de alguma forma. Três idéias, tidas 15 anos atrás, a serem desenvolvidas à luz do que eu e o mundo somos hoje, num contexto bem diverso. Esse foi o ponto de partida.  

E você pode falar, por favor, um pouco sobre as suas técnicas? Quais materiais você usou para a produção de Risca Faca? Como foi a sua rotina de trabalho nesse livro? São técnicas e rotinas muito distintas da sua época trabalhando em Chapa Quente?

Eu já fui adepto do pincel e posso dizer que fui um dos precursores do uso do pincel japonês, o fude, nos quadrinhos, ao menos no Brasil. Mas ao longo desses anos fui desenvolvendo uma técnica a partir do uso do grafite, que é um material bem mais cômodo de se usar. Um dos “starts” pra isso foi um desenho do Fabio Zimbres, que tinha uma textura que eu achava maravilhosa. Eu perguntei a ele como tinha chegado àquele resultado e ele disse que era a sujeira que tinha ficado no papel pelo uso excessivo do grafite, uma sujeira quase invisível que ele “puxou” usando o contraste no Photoshop.  Então, a técnica que eu uso é baseada no  grafite, de diversas durezas e formas (até grafite em pó), e no posterior tratamento no Photoshop, onde separo e sobreponho uma camada de preto e outra de cinza a partir de um mesmo desenho (todas as páginas tem um original). É como tocar guitarra com pedal: fazer um som analógico passar por filtros eletrônicos, potencializando-o, sobrepondo camadas… O pincel é um instrumento bem mais nobre, mas o grafite me dá bem mais flexibilidade pra chegar ao resultado que eu quero, pois posso continuamente apagar e redesenhar, inclusive usando caneta-borracha pra desenhar. A sujeira advinda disso, acabo incorporando. É como esculpir em barro em vez de pedra: posso errar à vontade, refazer o que não agrada, e isso não tem preço. Sim, eu poderia usar mesa digitalizadora, mas nunca me adaptei a ela, ainda me sinto mais a vontade com papel.  

“Sou meio obcecado em fazer um quadrinho ‘total’, fazer aquilo que seja próprio dos quadrinhos”

Página de Risca Faca, obra de André Kitagawa publicada pela editora Monstra (Divulgação)

Já que falei sobre o Chapa Quente, quais você considera as principais transformações nas suas percepções e nos seus interesses sobre quadrinhos de 2006 para cá?

Pra falar a verdade, faz tempo que não sou um aficionado por quadrinhos, até mesmo porque hoje não sou aficionado por nada, rs. Sim, leio esporadicamente, mas me sinto quase um leigo no assunto.  Ressalto que não tenho orgulho nenhum disso, apenas que essa é minha realidade, e devo perder muito com essa postura displicente. Mas de lá pra cá dá pra dizer no quanto a qualidade dos desenhistas brasileiros deu um salto. Muitos artistas, desenhando em alto nível. E isso deve ser reflexo do quanto os quadrinhos passaram a ser mais aceitos e admirados  de maneira geral. Tanto a nível de entretenimento quanto de arte. Eu sou de uma época em que ler e fazer quadrinhos era o fim da picada, uma coisa quase masoquista, rs. É muito bom ver que os quadrinhos hoje se mantém de pé, de uma maneira muito vibrante. E é muito bom voltar a fazer parte desse mundo. 

Principalmente por causa dos seus trabalhos com cartazes de peças, é pública a sua proximidade com o teatro. Você vê algum impacto dessa relação com o teatro no desenvolvimento do roteiro e da narrativa de Risca Faca?

Acho que a minha relação com o teatro me fez perceber sobretudo o quanto os quadrinhos são uma arte à parte, com luz própria. Talvez essa relação tenha ressaltado mais as diferenças do que as similaridades. Por exemplo, longos diálogos podem ser muito legais no teatro, mas nas minhas HQs procuro me conter, sintetizar ao máximo. Acho que sou meio obcecado em fazer um quadrinho “total”, fazer aquilo que seja próprio dos quadrinhos, respeitar a sua vocação. Estou sempre vigilante pra não ceder à tentação de ser muito “literário”, não deixar que as palavras roubem o protagonismo que, no que proponho, deve ser das imagens no processo narrativo. De resto, acho que tive boas lições no que se refere à arte da atuação. Se for ver, enquanto desenhista, eu acabo fazendo o trabalho que seria do atores na minha HQ. Eu devo “interpretar” os personagens. E pra interpretá-los, devo entendê-los, e de alguma maneira me identificar com eles. De forma que eu acabo me identificando com todos os personagens.  

“Nunca botei muita fé na dicotomia roteiro escrito/desenho”

Página de Risca Faca, obra de André Kitagawa publicada pela editora Monstra (Divulgação)

Você pode contar um pouco sobre o desenvolvimento de Risca Faca? Você chegou a finalizar um roteiro para o livro inteiro antes de começar a desenhar? 

Eu a princípio achava que esse era o processo “correto”: deixar tudo bem planejado e definido antes de começar a mandar bala, tal qual um projeto de arquitetura. Não falo de um roteiro escrito, mas de um esboço geral razoavelmente definido. Isso sempre funcionou bem pra mim com histórias de seis ou 10 páginas, mas aqui estava lidando com histórias de mais de 30 páginas. Depois de meses de um processo de roteirização pouco metodológico, tudo o que tinha eram cadernos cheio de anotações, esboços que me diziam muito pouco e muita confusão mental, rs. Aí percebi que se dependesse de definir tudo antes não começaria a desenhar nunca, pois a coisa simplesmente não estava ficando de pé. Então comecei a fazer “fazendo”. Eu esboçava o que iria acontecer em duas ou três paginas e mandava ver. Muitas soluções de roteiro só surgiram durante esse processo, coisas que não poderiam ser antevistas. E assim fui, sucessivamente, fazendo o caminho andando, nem sempre sabendo pra onde eu tava indo, seguindo um esboço mental, mas muito aberto ao que vai se revelando durante o desenhar. Eu particularmente nunca botei muita fé na dicotomia roteiro escrito/desenho, sobretudo quando eu sou tanto o roteirista quanto o desenhista. Pra mim é como se fosse uma coisa só, é como compor uma música tocando o instrumento. 

Como lembra o Marcelo D’Salete na introdução do livro, o seu trabalho é bastante focado no ambiente urbano. Você pode falar um pouco sobre a sua relação com a cidade? Como você se relaciona com o ambiente urbano e como ele impacta a sua rotina?

O  ambiente urbano é o cenário natural pra mim, já que sempre vivi na cidade de São Paulo. Acho que tem uma coisa de ordem estética que sempre me atraiu, os prédios, as pixações… E sempre gostei de filmes com essa temática. Sobretudo o centro da cidade, sempre me fascinou, e foi onde acabei morando. Gosto muito do estilo de vida que o centro propicia, que é bem diferente dos bairros residenciais de classe média, de onde eu vim originalmente. Mas acho que isso não afeta tanto minha obra, pois no fundo a cidade das minhas HQs é imaginária, é fictícia, apesar de ser claramente baseada em São Paulo. Crio histórias que se passam nela como poderia criar histórias que se passam em outro planeta. Meus personagens são todos alienígenas tentando se virar num ambiente inóspito. É claro que a vivência sempre inspira, te dá um chão, mas ela não é pré condicão para a criação. Em Risca Faca, fiz questão de explorar a diversidade e os contrastes do espaço urbano. Tem o centro, mas tem a periferia,  tem bairro de rico… Vias expressas que funcionam como muros separando esses espaços, segregando as pessoas. Essa conformação determinando os rumos dos personagens… É São Paulo, mas também é um planeta imaginário.

“Fica quase impossível não falar das nossas mazelas enquanto sociedade”

Página de Risca Faca, obra de André Kitagawa publicada pela editora Monstra (Divulgação)

E Risca Faca é bastante focada em violência e injustiça social. Acho que é explícito como a violência e a injustiça social aumentaram desde o início do governo Bolsonaro. Como a atual realidade sócio-política brasileira impactou a produção de Risca Faca?

Acho que acabou impactando significativamente, e isso foi inevitável. Eu costumo ficar muito ligado nos meios noticiosos, inclusive através das redes sociais. É quase que o dia inteiro. E quando estou num processo de criação, fico muito receptivo aos estímulos externos. Fora isso,  vivemos em um daqueles momentos em que a realidade tende a superar a ficção. Tudo está tão trágico, perverso, irracional, e acho que isso me induziu a tornar tudo mais espinhoso e absurdo. Como disse, eu gosto de encarar minhas histórias como pura ficção, são histórias inventadas, passadas numa cidade imaginária, sem propósito bem definido.  Nunca tive a pretensão e nem a intenção de “denunciar” o que é a realidade, mas gosto de partir da realidade, de me inspirar nela, pra criar minhas ficções. E elementos da realidade, como a injustiça social, muito naturalmente estão presentes nas histórias, às vezes até como meio de articulação. Não concordo que as minhas histórias sejam focadas nisso, ou em violência, isso nunca foi meu propósito e nem me soa muito bem. Mas são elementos que, sim, estão presentes nas minhas histórias, e a questão é: por que não deveriam estar? 

Falando em injustiça social, há um paralelo recente entre obras de autores brasileiros com o cinema neorrealista italiano. Marcello Quintanilha, Marcelo D’Salete, Shiko e João Pinheiro são alguns dos autores nacionais com trabalhos muito focados em elementos característicos desse movimento – com obras protagonizadas por indivíduos de classes operárias, presos em ambientes sociais injustos e quase sempre frustrantes. Você vê um diálogo de Risca Faca com a produção desses autores? Você tem alguma relação com o cinema neorrealista italiano?

Acho que da minha parte o que existe mais uma é uma convergência. O João é mais novo, mas os outros devem ter quase a mesma idade que a minha. Acho que em comum sempre tivemos o propósito não só de fazer quadrinhos autorais, mas também “brasileiros”, uma idéia que hoje pode parecer banal, mas ao menos pra mim, que na adolescência tinha a pretensão de fazer HQs de super herói, era um desafio e tanto. Estou falando de criar quadrinhos a partir da nossa realidade, não a partir da realidade de outros países e culturas. Enfim, criar algo “autêntico”, temática e esteticamente, não um arremedo de qualquer coisa vinda de fora, por mais que gostemos dessa coisa (sim, pois isso não significa desprezo pelo que vem de fora, longe disso).  E quando vamos partir da nossa realidade, fica quase impossível não falar das nossas mazelas enquanto sociedade, simples assim. Quanto ao neorrealismo italiano, eu até já vi os principais filmes, mas nessa seara os filmes americanos dos anos 70 sempre me inspiraram muito mais, principalmente os do Scorecese. Filmes “realistas”, mas mais que isso. 

Aliás, outro padrão entre você e esses autores que mencionei é o preto e branco. Por que a sua preferência pelo preto e branco? O que mais te atrai no preto e branco?

Em parte talvez seja uma questão geracional. Creio que pra nós o PB seja mais a norma que o desvio. Acredito que todos nós admiramos artistas que desenham em PB. Eu sou do tempo do zine em xerox, então não tinha nem como. Eu já fiz HQs coloridas, e tendo a achar que pra adicionar cor é preciso ter algum propósito maior, mesmo que apenas de ordem estética. Botar cor só pra ficar mais padrãozinho não me interessa. Acho que o último álbum do Quintanilha [Escuta, Formosa Márcia], que é colorido, ilustra bem esse sentimento. Não se trata de desenhos PB aos quais foram adicionados cores só pra tornar a coisa mais atrativa. É pura cor, uma explosão de encher os olhos. Tudo muito bem pensado. E formidável. 

“Posts sobre a situação política e o fabuloso mundo das subcelebridades acabaram me inspirando muito em Risca Faca”

Página de Risca Faca, obra de André Kitagawa publicada pela editora Monstra (Divulgação)

Estamos fazendo essa entrevista e Risca Faca nem foi lançada ainda, então talvez seja uma pergunta um pouco injusta, mas vamos lá: você já tem algum outro trabalho em quadrinhos em mente para um futuro próximo?

Pro futuro próximo, eu e o [Guilherme] Lorandi, editor do Risca Faca, conversamos sobre uma compilação de histórias antigas, às quais eu adicionaria algumas inéditas. Só uma idéia. Para além disso, nada está muito definido, nem mesmo se vou continuar a fazer HQ, vai saber…  Mas se for o caso, penso em dar passos adiante, fazer finalmente uma história longa, flertar com histórias de gênero, mas sempre no intuito de subvertê-las em alguma medida. Penso muito em fazer uma história policial, ou de ficção científica, talvez as juntar as duas coisas. Tenho várias idéias nesse sentido, o difícil é por isso de pé. 

Gosto de encerrar as minhas entrevistas com um pedido de recomendação dos entrevistados. Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento? Ou então algo que você tenha lido/visto/ouvido que impactou de alguma forma a produção de Risca Faca?

No momento eu tô prostrado no sofá zapeando a TV a cabo, vendo coisas disparatadas. Coisa que adoro e odeio ao mesmo tempo. Também perco muito tempo em redes sociais, basicamente Facebook, que também redunda numa maneira de zapear. Aliás, nesse sentido, o contraste entre posts sobre a situação política e sobre o fabuloso mundo das subcelebridades acabou me inspirando muito na primeira história do Risca Faca. De resto, outras coisas que me inspiraram diretamente durante o processo, além da situação teratológica do país, foram alguns escritos do Nelson Rodrigues, dos quais eu deliberadamente fui atrás, a série Too Old to Die Young, o livro IQ84 do Haruki Murakami e episódios do Seinfeld que eu via enquanto jantava durante a madrugada. Acho que é isso. 

A capa de Risca Faca, obra de André Kitagawa publicado pela editora Monstra (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Simon Hanselmann, autor de Zona de Crise: “Não aguento mais quadrinho-poesia e punhetas de vanguarda tediosas”

Conversei com o quadrinista australiano Simon Hanselmann sobre Zona de Crise (Veneta), obra com lançamento em português previsto para janeiro de 2022, com tradução de Diego Gerlach. Transformei esse papo com o autor em matéria publicada aqui no blog, no dia 21 de dezembro, na qual falo sobre a trama e o desenvolvimento da HQ. Compartilho agora a íntegra da minha conversa com Hanselmann (também traduzida por Diego Gerlach). Ele me falou sobre a produção de Zona de Crise, a repercussão da série, as temáticas políticas do quadrinho e o futuro planejado por ele para Megg, Mogg, Coruja e Lobisomem Jones.

Deixo aqui o link para a minha crítica de Mau Caminho (trabalho prévio de Hanselmann publicado no Brasil), o link para minha primeira entrevista com Hanselmann e também o link para a minha matéria sobre Zona de Crise. A seguir, papo com Simon Hanselmann:

“É a minha comédia política alucinada, uma explosão de insanidade”

Zona de Crise é centrado principalmente no impacto da pandemia na vida dos seus personagens, mas gostaria de saber: como a pandemia afetou a sua vida? 

Odeio soar cuzão, mas 2020 foi o melhor ano da minha vida. Ninguém aparecia na minha casa pra me distrair do meu trabalho! Simplesmente trabalhei sem parar… Eu estava preocupado no começo da pandemia com a ideia de que todo o mercado de quadrinhos entraria em colapso, mas vendi mais livros do que em qualquer outro ano. 2020 foi incrível pra caralho. As pessoas estavam trancadas em casa e acabaram ficando sem ter o que ver na Netflix, se viram forçadas a comprar livros!

Acho que os posts de Zona de Crise no Instagram seguiram a mesma periodicidade do início ao fim da série. Você manteve alguma rotina de trabalho durante a produção dessa série? 

Eu trabalhava sem parar desde que acordava até terminar a tira do dia. Às vezes trabalhava até meia-noite, mas às vezes terminava mais cedo e ficava só grelhando carne com minha esposa, ou então deitava no pufe e jogava vídeo game. Eu me divertia também dando um scroll apocalíptico no Twitter, observando todo mundo simplesmente endoidecendo, e me sentindo vastamente superior a todos.

Acredito que Zona de Crise tenha sido seu trabalho mais longo e com maior impacto na vida dos seus personagens. O quanto você tinha elaborado dessa história quando começou a publicá-la? Quando você deu início a Zona de Crise já tinha em mente o final da história e o desfecho para cada um de seus personagens?

Eu não fazia ideia de como seria, quando comecei Zona de Crise. Eu imaginei que seria um troço de 30 páginas, mas o lance foi ficando cada vez mais louco. Foi basicamente no improviso. Ainda não tive tempo de ler o livro como uma ‘coisa’ grande desde que terminei ele, espero que não seja uma leitura de merda como livro!

“Eu deveria na real ter ganho o prêmio Nobel de literatura”

Página de Zona de Crise, obra de Simon Hanselmann (Divulgação)

Ainda sobre Zona de Crise ter sido seu trabalho mais longo e impactante para a história dos seus personagens, o que essa arco de histórias sobre a pandemia representa para você? 

É a minha comédia política alucinada, uma explosão de insanidade. Eu mal tive tempo de processar tudo. Geralmente penso em ternos de negócios: é meu trabalho mais ‘popular’ até hoje, minha narrativa mais longa, e o melhor webcomic de todos os tempos. Eu deixei no chinelo qualquer outro artista do planeta. Eu deveria na real ter ganho o prêmio Nobel de literatura, mas acho que todo aquele sexo anal assustou eles. Ao menos ganhou um prêmio Eisner. Me sacanearam no prêmio Harvey.

Após cada post seu no Instagram com um novo trecho de Zona de Crise eu gostava de ler os comentários e ver a repercussão da história entre os seus seguidores. Você também acompanhava essa repercussão? Se sim, esse retorno dos leitores afetou a história em algum momento? 

Sim, e algumas vezes peguei coisas dos comentários que fizeram a história tomar um determinado rumo, mas na maioria das vezes eu mudava de direção para não ir por onde as pessoas imaginavam que iria, eu estava tentando criar o máximo de suspense. A coisa mais engraçada eram os comentários raivosos de todos os babaquinhas políticos, doidos direitóides e os imbecis de extrema-esquerda, crianças ‘lacradoras’ e arrogantes. Eu fiz com que todos eles me odiassem. Zona de Crise foi criada para entreter pessoas com senso de humor e para enfurecer e confundir todos os babacas ultrapolitizados. Foi divertido.

Você começou a publicar seus trabalhos no Tumblr, hoje cada vez mais ignorado por artistas. Qual avaliação você faz do Instagram como plataforma para publicações de histórias em quadrinhos?

Estou começando a odiar o Instagram, é muito censurante. Já tomei alguns ganchos e posso perder minha conta se fizer merda de novo, o que seria um desastre para minhas finanças. Comecei a ter que censurar um monte de merda que posto lá. Não tenho planos de serializar trabalho inédito por lá de novo, atualmente procuro por plataformas alternativas. Instagram é pros covardes!

“Vou voltar a escrever sobre junkies, depressão e piadas de piroca”

Página de Zona de Crise, obra de Simon Hanselmann (Divulgação)

Apesar de nascido na Austrália você está muito ligado à cena de quadrinhos underground dos Estados Unidos. O quanto essa cena norte-americana foi referência para você e continua a influenciar os seus trabalhos? 

A cena atual na América do Norte é predominantemente composta por maricas chorões. Gosto mais da cena na Europa, da cena do México, da cena britânica. Mas tem babacas chatos em tudo que é canto. Eu só meio que ignoro todo mundo, hoje em dia, vivo na minha ilha deserta, não tenho vontade de estar conectado a nenhuma cena. Minhas influências vêm de toda parte. Espero que a cena norte-americana se torne um pouco mais divertida nos próximos anos, com menos ostentação política e resmungos, e mais diversão… Veremos… Tenho curtido Nate Garcia, ele tem 19 anos e é muito engraçado, faz quadrinhos cretinos e divertidos. Mais coisas assim, por favor. Não aguento mais quadrinho-poesia e punhetas de vanguarda tediosas.

 Até quando você se vê produzindo histórias da Megg e da turma dela? Você tem vontade de criar outras histórias com outros personagens?

Eu sigo a todo vapor com Megg e Mogg. Estou trabalhando num livro que sai no verão que vem, e aí vou entrar com tudo em Megg’s Coven e mais outro projeto secreto. Eu adoro Megg e Mogg me sinto muito confortável com eles e tenho muitas, muitas histórias para contar com eles. Nas poucas vezes na última década que me aventurei fora do universo de Megg, Mogg e Coruja, tive péssimas experiências.

Quando te entrevistei pela primeira vez você falou que seus trabalhos com a Megg eram, de certa forma, ‘removidos de questões políticas’, sendo sobre ‘pessoas egoístas que odeiam política e estão ás voltas com seu próprio tumulto emocional’. No entanto, Zona de Crise, de certa forma, é um quadrinho muito político, principalmente em relação ao impacto da pandemia em em párias sociais, você concorda?

Sim, Zona de Crise foi super política, foi propositalmente meu ‘quadrinho político’. Mas pra mim chega disso, política é num negócio vergonhoso pra caralho. As pessoas que se deixam consumir por isso são chatas pra caralho. Eu vou voltar a escrever sobre junkies, depressão e piadas de piroca.

“Eu amo pra caralho fazer quadrinhos

Página de Zona de Crise, obra de Simon Hanselmann (Divulgação)

Também nessa nossa entrevista prévia você falou que sua ‘missão principal é apenas de frisar o absurdo’. Como foi administrar essa missão pessoal quando a realidade parece se propor a essa mesma missão ao longo dos últimos anos?

Tornou tudo muito mais fácil. O que não faltava eram coisas imbecis e loucas vindas de todos os lados. As pessoas realmente piraram ano passado…

Eu meio que queria poder continuar Zona de Crise, para poder tirar onda com essas coisas, colocar elas em perspectiva, mas como eu disse, política é algo vergonhoso. É patético e triste ver comediantes e artistas que um dia respeitei se deixarem consumir por política pura, abandonarem quase completamente a comédia em si. Todos eles parecem exaustos e deprimidos. Enquanto eu estou o mais feliz que já estive em toda minha vida.

E você ainda me falou que na maior parte do tempo, enquanto está produzindo seus quadrinhos, está ‘apenas tentando se divertir’. O quanto você se divertiu fazendo Zona de Crise?

Eu me diverti o tempo todo. Minha esposa entrava no estúdio e me via rindo das minhas próprias piadas. Minha declaração de intento com ZC era divertir todo o povo apavorado e trancado em casa, mas principalmente para, de modo egoísta, me divertir, como sempre. Foi realmente divertido. Eu amo pra caralho fazer quadrinhos.

Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?

Tenho assistido principalmente DVDs de comédia dos anos 90, um bocado de Alan Partridge. Eu me tornei pai seis meses atrás, então não tenho tido muito tempo pra ler ultimamente. Eu assisto DVDs durante o dia, enquanto trabalho, e de noite só passo tempo com meu moleque e lavo a mamadeira. Agora só escuto música para bebês…

A capa da edição brasileira de Zona de Crise, obra de Simon Hanselmann (Divulgação)