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Entrevistas / HQ

Papo com Ing Lee e Larissa Kamei, editoras da coletânea Cápsula – Uma Antologia em Homenagem a Akira: “É essencial a compreensão da complexidade do pós-guerra e seus desdobramentos na sociedade nipônica”

Há dois eventos marcados para o lançamento da coletânea Cápsula – Uma Antologia em Homenagem a Akira. O primeiro, em Belo Horizonte, rola amanhã (12/12), a partir das 18h, na Polvilho Edições (Avenida Olegário Maciel, Centro). O segundo está marcado para a próxima sexta-feira (13/12), em São Paulo, a partir das 19h, na Casa Plana (R. Fradique Coutinho, 1139).

Editada pela quadrinista Ing Lee e pela designer Larissa Kamei, Cápsula é a primeira publicação do selo O Quiabo e teve como ponto de partida para sua criação a chegada de 2019, mesmo ano no qual é ambientado o clássico Akira.

A coletânea reúne HQs de nove autores (Amanda Miranda, Fernanda Garcia, Grazi Fonseca, Ing Lee, Marco Sem S, Monge Han, Nicholas Steinmetz, Paula Puipo e Taís Koshino), todas tendo como inspiração a trama, os temas e os personagens concebidos por Katsuhiro Otomo em sua obra-prima.

“Tendo em vista a importância da obra de Katsuhiro, o meu desejo de criar um tributo à ela já existia antes mesmo de 2019 chegar e ter sido o ano que foi – intenso e instável, seja micro ou macro-politicamente”, conta Ing Lee em papo por email com o blog.

Na conversa a seguir, Ing Lee e Larissa Kamei falam sobre o impacto de Akira em suas vidas, os principais atributos da obra de Katsuhiro Otomo, o diálogo entre o quadrinho e a nossa realidade cada vez mais distópica, o desenvolvimento de Cápsula e os planos futuros para selo O Quiabo. Papo massa, saca só:

“Enquanto no ocidente a radioatividade faz surgir super-heróis – a narrativa do vencedor -, em Akira surgem monstros e bombas que destroem cidades inteiras”

Quadro do trabalho de Amanda Miranda para a coletânea Cápsula

Vocês lembram da primeira vez que leram Akira? Vocês lembram das suas primeiras impressões sobre o quadrinho? O que mais impactou vocês nessa primeira leitura?

Ing Lee: Mesmo tendo sido uma cria da cultura pop japonesa, tendo acesso aos seus produtos culturais desde minha infância, que se passou nos anos 90 e início dos anos 2000, demorei muito a de fato ler/assistir Akira. Primeiro, vi a animação de Akira, provavelmente em 2014. Só depois em 2017 que peguei pra ler o mangá, aproveitando que tinha um e-reader que tinha uma leitura mais confortável, assim devorei ele inteiro em poucos dias. A minha primeira impressão foi a de como achei incrível perceber como a obra influenciou diversas outras que eu tinha visto/lido anteriormente e eram referências para mim, como Tekkonkinkreet, Neon Genesis Evangelion, Matrix e Blade Runner. Então, fiquei com essa sensação de ter finalmente acessado o cerne de todas essas coisas, o que me trouxe uma compreensão maior também do porquê Akira ser considerado um divisor de águas na história da cultura pop mundialmente. Isso certamente me instigou posteriormente a buscar entender melhor os desdobramentos de sua influência e toda a simbologia que carrega.

Larissa Kamei: Com certeza nos meados da minha adolescência, e lembro de ter lido a versão impressa (claro). Ainda acho uma das melhores referências visuais já criadas e de influência imensa.

Quadros do trabalho de Grazi Fonseca para a coletânea Cápsula

Qual vocês consideram o maior mérito do Katsuhiro Otomo em Akira?

Ing Lee: Akira não apenas escancara as feridas do trauma da bomba atômica de uma forma distópica, executando uma repetição de uma história que aterroriza a sociedade japonesa, como também traz a possibilidade de reconstrução, mesmo após a destruição completa – tal qual a sequência após a derrota da 2ª Guerra Mundial, que levou o Japão a se reconstruir por meio desses escombros. Desta forma, Katsuhiro consegue sintetizar um inconsciente coletivo do Japão pós-guerra, com seus destroços e sequelas sociais, políticas e econômicas; que para além de uma representação daquele período, levanta questionamentos que só ganham ainda mais relevância com o passar dos anos.

“A ideia era que cada um produzisse uma HQ experimental, tendo Akira como inspiração, mas não sendo necessariamente no mesmo universo”

Quadros do trabalho de Monge Han para a coletânea Cápsula

Qual o impacto de Akira na sua vida como autora/editora de quadrinhos?

Ing Lee: Como uma quadrinista que se propõe a criar histórias urbanas, a construção dos cenários de Akira sem dúvidas me influencia bastante, com seus recursos de iluminação e movimento. Gosto da ambiguidade presente na narrativa de Akira, como forças do “bem versus mal” são imprecisas e variáveis, não há um herói que salva o dia nem a demarcação de um vilão propriamente dito, mas sim inúmeras zonas cinzas, camadas de complexidade na construção de cada personagem e as situações que seguem fora de seu controle – imersos no presente de um futuro incerto.

Como editora, busco trazer histórias que precisam ser contadas antes que o mundo acabe. Acredito que há muita potência na produção de jovens artistas independentes que estão surgindo e quero proporcionar um espaço para que seja possível compartilhar visões dissidentes, tal como Katsuhiro faz em Akira ao trazer o sentimento nacional de uma sociedade fragmentada e que teme a radiação. Pois, enquanto no ocidente a radioatividade faz surgir super-heróis – a narrativa do vencedor -, em Akira surgem monstros e bombas que destroem cidades inteiras. Quero mostrar o que é estar do outro lado, à margem, e quais produções podem surgir a partir disso, sem necessariamente ser um panfleto político, mas simplesmente pelo ato de ocupar e disseminar os nossos trabalhos, com novos pontos de vista e maneiras de olhar o mundo, como um gesto de anúncio emancipatório e contra-hegemônico.

Larissa Kamei: O maior impacto certamente sempre foi a construção visual narrativa da história. Acho uma referência incrível para várias áreas e que tem uma influência significante.

Quadro do trabalho de Paula Puiupo para a coletânea Cápsula

Como surge a ideia da coletânea Cápsula?

Ing Lee: A coletânea surgiu com a premissa de pegar o timing do ano de 2019, que é justamente o ano em que se passa a história de Akira. Tendo em vista a importância da obra de Katsuhiro, o meu desejo de criar um tributo à ela já existia antes mesmo de 2019 chegar e ter sido o ano que foi – intenso e instável, seja micro ou macro-politicamente. Unindo isso à outra vontade de tocar novos projetos junto com a Kamei, criamos juntas O Quiabo e fizemos do Cápsula a nossa estréia enquanto selo editorial.

Larissa Kamei: Principalmente devido ao ano; não somente a data, acredito, mas todo o contexto que cada vez mais estamos experienciando como um todo e como podemos traçar um paralelo com Akira.

“Fiquei realmente surpresa em como foi possível estabelecer uma narrativa ligando pontos em comum, mesmo tendo premissas e vindo de lugares bem distintos”

Quadro do trabalho de Nicholas Steinmetz para a coletâna Cápsula

Como vocês chegaram aos nomes dos autores que compõem a coletânea Cápsula?

Ing Lee: Reunimos nomes de artistas que têm em seus trabalhos a influência de Akira e que também gostaríamos de trabalhar com – ou já havíamos trabalhado junto previamente. A seleção foi feita por meio de convites. Daí chegamos ao número de 10 artistas, só que no fim o Jão acabou tendo imprevistos e não conseguiu dar conta, e aí ficamos com nove autores, sendo eles: Amanda Miranda, Fernanda Garcia, Grazi Fonseca, Ing Lee (eu, hehe), marco sem s, Monge Han, Nicholas Steinmetz, Puiupo e Taís Koshino.

Quadros do trabalho de Ing Lee para a coletânea Cápsula

Vocês conseguem fazer um comparativo entre o que imaginavam que essa obra poderia ser e a versão que acabou sendo impressa?

Ing Lee: Em nossa proposta editorial, demos bastante liberdade criativa para os artistas e enfatizamos a individualidade de cada um. A ideia era que cada um produzisse uma HQ experimental, tendo Akira como inspiração, mas não sendo necessariamente no mesmo universo, com os mesmos personagens ou uma mera extensão daquilo. As limitações eram basicamente de cores (preto e vermelho) e páginas. Perguntamos pra cada um a quantidade de páginas que dariam conta de fazer durante o período de produção, fechando numa variação de 4, 6, 8 e 10 páginas para cada história. Eu e Kamei acompanhamos os artistas, uns mais e outros menos, tentando intervir o mínimo possível em seu processo criativo e respeitando o ritmo próprio de cada um dentro do prazo estabelecido.

Creio que por toda essa abertura, ficou meio vago sobre o que poderia ser. A ideia de experimentação foi realmente levada a sério nisso, hahaha. E os resultados finais me agradaram bastante, então posso dizer que foram experimentos de sucesso!

Larissa Kamei: Sempre existem expectativas em relação como será a narrativa, mas acredito que as narrativas dos artistas cumpriram com todas essas e me surpreenderam também muitas vezes. O projeto gráfico em si sofreu muitas poucas alterações do que esperei ser o resultado final, o que também enxergo como ponto positivo da HQ.

“A abordagem de ciclos e transformação, de destruir para assim reconstruir, foi algo que permeou em todas as narrativas”

Quadros do trabalho de Taís Koshino para a coletânea Cápsula

O que mais surpreendeu cada uma de vocês ao ver todos os trabalhos da Cápsula reunidos? Houve algum aspecto dessa coletânea que chamou mais atenção de vocês?

Ing Lee: Eu e Kamei decidimos que a ordem das histórias se daria pela forma que elas comunicavam entre si. Essa tarefa de “curadoria” ficou por minha conta e fiquei realmente surpresa em como foi possível estabelecer uma narrativa ligando pontos em comum, mesmo tendo premissas e vindo de lugares bem distintos, ainda foi possível criar uma comunicação harmônica entre elas. Quis começar pela história do Monge, “Energia Pura”, justamente pelo tom de abertura que ela possui. Aí depois fui conectando os pontos: seguindo pela Fernanda com o “Cápsulas Espertas”, de uma sociedade movida pela produtividade, que se liga com a narrativa dos personagens cabeça de cápsula de “Planos”, da Puiupo, e se desconstrói nas histórias de Grazi e marco, “2019” e “Sankofa” respectivamente, que têm um tom mais abstrato e solto. Tais explosões que se reintegram no “Labirinto” do Nicholas, retomando uma narrativa mais figurativa e trazendo os personagens de Akira. E na sequência final, vem Taís Koshino com “Para além da forma”, sobre fluxos e recomeços, que prossegue amanhecendo em “Que se exploda”, a minha HQ, e fechamos com o trágico fim de “Vertigem” de Amanda Miranda.

Gostei muito do que foi produzido e perceber a individualidade de cada um dos autores contida em suas respectivas histórias. Achei interessante como a abordagem de ciclos e transformação, de destruir para assim reconstruir, foi algo que permeou em todas as narrativas.

Larissa Kamei: A forma como todos autores encaram a obra de Katsuhiro Otomo da sua ótica. Acho fascinante ver o processo de cada um, suas similaridades, diferenças e ao mesmo tempo como conseguem adequar uma visão e uma inspiração para seu estilo de narrativa.

Quadro do trabalho de Marco Sem S para a coletânea Cápsula

Eu gosto muito do texto de introdução para a coletânea, principalmente dos paralelos que a Ing Lee aponta entre a obra do Katsuhiro Otomo e o nosso presente. Até onde você veem esses paralelos indo? Digo, vocês são otimistas ou pessimistas? Vocês acham que podemos chegar em uma realidade tão trágica quanto aquela apresentada na HQ?

Ing Lee: Recentemente, apresentei algumas palestras e oficinas tendo como temática a cultura pop japonesa e suas origens, durante o festival Katsudo Shashin, que trazia as primeiras animações do Japão. Creio que acabou que muito do que foi estudado a respeito se ligava bastante com Akira, que é um sintoma cultural de todo esse contexto onde é inserido. Por isso, é essencial a compreensão da complexidade do pós-guerra e seus desdobramentos na sociedade nipônica. E para além de uma leitura dentro desse recorte, a distopia de Neo-Tokyo em Akira ainda traz convergências globais: civilizações em estado de crise, com o aumento da violência urbana e da força do discurso progressista pós-humano, seguidos de protestos e repressão militar… Questões que estão explodindo diante de nossos olhos neste ano de 2019. Às vezes, durante este ano, eu sinceramente me senti vivendo em diversos universos distópicos unidos juntos – e Akira é um deles. Fica difícil permanecer otimista diante de tudo isso, mas creio que não temos muita escolha a não ser resistir. Não há muita volta depois do estrago já feito, mas é preciso sempre termos um olhar para o passado, justamente pra entendermos o presente e sermos capazes de construir novos futuros.

Larissa Kamei: Vejo muitos paralelos com o nosso presente, porém tento me manter otimista. Acho que sempre é de suma importância a consciência da atualidade, porém não encará-la como fatídico.

“Acho que ainda existe uma certa carência no mercado gráfico de encarar os projetos com uma experiência gráfica, e que seja necessário acatar mais riscos”

Quadro do trabalho de Fernanda Garcia para a coletânea Cápsula

O que vocês podem falar sobre o O Quiabo? Como o selo surge? Vocês já têm algum próximo projeto em vista?

Ing Lee: O Quiabo surge primeiramente da imensa compatibilidade e complementariedade dos nossos trabalhos, hahaha. Somos opostas como yin yang, embora tenhamos ritmos de trabalho similares – somos igualmente fritas! Porque a Kamei tem essa atuação mais técnica, da produção gráfica e design, enquanto eu não consigo nem fazer linhas retas… Brincadeiras à parte (hehe), acho que nossas linhas de trabalho se completam bastante. Ao unir o útil ao agradável, pela nossa amizade e o desejo de continuar trabalhando juntas (a Kamei é também produtora gráfica do Selo Pólvora), criamos O Quiabo. A nossa proposta enquanto dupla n’O Quiabo não se limita somente ao campo editorial, mas sim como um eixo de experimentação gráfica. Temos já alguns planos, mas ainda nada fechado e definido que possamos anunciar agora. Estamos tentando digerir a experiência do Cápsula antes de partir pra próxima, porque se não a gente acaba emendando direto em outro trabalho e precisamos de um respiro pra fechar todos esses ciclos que 2019 nos proporcionou. Porém, posso afirmar com toda certeza de que estamos nos programando pra lançar uma publicação nova pro FIQ 2020! Fiquem de olho 🙂

Larissa Kamei: O selo surge de uma vontade imensa de produzir, principalmente num viés mais experimental. Acho que ainda existe uma certa carência no mercado gráfico de encarar os projetos com uma experiência gráfica, e que seja necessário acatar mais riscos. Temos projetos em vista, principalmente pensando em formas editoriais que proponham ainda mais nossos objetivos.

Quadro do trabalho de Amanda Miranda para a coletânea Cápsula

Para encerrar: o que vocês veem de mais interessante sendo feito hoje no formato de histórias em quadrinhos?

Ing Lee: Acho que a experimentação gráfica por meio dos quadrinhos anda sendo muito interessante. A busca por formatos para além do usual, seja no próprio conteúdo, dos desenhos e histórias, como também as próprias publicações impressas, com outros métodos de impressão, encadernação e suportes, certamente é algo que me deixa muito empolgada. E tenho a impressão de que a cena quadrinística está se ampliando e sendo ocupada por uma gama diversa de pessoas, o que confere uma pluralidade de temáticas e estilos que tiram a gente da mesmice daquelas narrativas monopolizadas pelo mesmo tipo de gente (homens brancos cis e heterossexuais de classe média/alta). Acho que as próprias feiras gráficas têm tido um forte papel nisso, de não apenas selecionar artistas fora desse status quo, como também trazer propostas que acolhem diretamente essas produções vindas de corpos que estavam à margem dessa cena. Além disso, claro, os novos projetos editoriais que andam pipocando também vão ganhando espaço. Isso tudo se retroalimenta e vai oxigenando essa vanguarda dos quadrinhos, que tá efervescendo e desafiando essas distopias onde nos encontramos.

Larissa Kamei: Na minha opinião, gosto muito de ler narrativas pessoais, ou pelo menos que contenham o cunho do artista dentro de seus quadrinhos. Apesar de entender que é impossível produzir sem deixar rastros de pessoalidade, aprecio muito projetos que se aprofundam nisso. Entendo que a história em quadrinhos seja uma das formas mais pessoais de se contar uma narrativa por esse motivo, por isso minha imensa apreciação pelo gênero.

A capa da coletânea Cápsula – Uma Antologia em Homenagem a Akira

Entrevistas / HQ

Papo com Jão, editor da coletânea PARAFUSO 1: “Minha ideia foi fazer uma investigação sobre os recursos da linguagem das narrativas gráficas com o auxílio de restrições criativas”

Caso você esteja em Belo Horizonte no próximo sábado (30/11), recomendo um pulo na Livraria da Rua (R. Antônio de Albuquerque, 913, Funcionários), a partir das 13h, para o lançamento da coletânea PARAFUSO 1. Editada e idealizada pelo quadrinista Jão, o álbum de narrativas gráficas experimentais conta com trabalhos de 12 artistas de Belo Horizonte além do autor responsável pelo projeto: Aline Lemos, Batista, Bruno Pirata, Daniel Pizani, Estevam, Faw Carvalho, Gabriel Nascimento, Ing Lee, João Belo, Julhelena e Priscapaes.

Parceria das editoras Pulo e Miguilim, PARAFUSO 1 tem 48 páginas e é fruto de um período de três dias de trabalhos dos 12 artistas envolvidos no projeto no Laboratório de Quadrinhos Potenciais coordenado por Jão em janeiro de 2018. O Laboratório inclusive já rendeu dois posts de bastidores aqui no blog: um no qual Jão escreveu sobre a origem do projeto e outro sobre os temas e das restrições impostas aos artistas participantes. Também compartilhei por aqui uma prévia de sete páginas da PARAFUSO 1.

Às vésperas do lançamento de PARAFUSO 1 eu bati um papo com Jão sobre a criação, o desenvolvimento e a publicação da coletânea. Ele falou sobre a dinâmica dos trabalhos do Laboratório de Quadrinhos Potenciais, suas inspirações no OuBaPo, a opção pela cidade como tema central da obra e uma explicação didática sobre seu “universo PARAFUSO”. Como sempre, conversa bem massa. Saca só:

(na imagem que abre o post, quadros do trabalho de Ing Lee para a coletânea PARAFUSO 1)

“Minha ideia foi priorizar as trocas a partir do convívio de produção em conjunto”

Quadros do trabalho de Bruno Pirata para a coletânea PARAFUSO 1

Os quadrinhos presentes na PARAFUSO 1 foram criados durante o Laboratório de Quadrinhos Potenciais que você organizou em janeiro de 2018. O que foi o Laboratório? Como você concebeu esse projeto?

O Laboratório de Quadrinhos Potenciais foi uma residência artística que criei para desenvolver trabalhos em conjunto com outros profissionais que já tinham experiências com publicações impressas. É importante frisar que a proposta não era direcionada apenas para quadrinistas, mas também para pessoas de outras áreas ligadas às artes visuais, que poderiam contribuir por meio de um certo deslocamento em relação aos quadrinhos, o que é ótimo. Minha ideia, ao desenvolver a atividade, foi priorizar as trocas a partir do convívio de produção em conjunto, assim como fazer uma investigação sobre os recursos da linguagem das narrativas gráficas com o auxílio das restrições criativas do OuBaPo. Ao longo dos encontros uma série de exercícios foram propostos para os artistas, com várias limitações pré-estabelecidas, para analisarmos, em conjunto, a forma como esses desafios seriam trabalhados. Os resultados são incríveis e muito do que foi discutido no período está transposto na PARAFUSO 1! Além disso, temos ainda uma quantidade grande de páginas prontas para lançar em uma publicação futura.

“As histórias e narrativas presentes na PARAFUSO 1 ganharam outras dimensões para mim”

Página de Aline Lemos presente na coletânea PARAFUSO 1

Quase dois anos depois dos encontros do Laboratório de Quadrinhos Potenciais, a PARAFUSO 1 está sendo finalmente lançada. Qual balanço você faz desse projeto? Você consegue fazer um comparativo entre o que imaginava que essa obra poderia ser e a versão que acabou sendo impressa?

Apesar do distanciamento em relação ao momento em que as histórias foram geradas e a publicação eu já tinha preparado a organização e como gostaria de apresentar este trabalho ainda no primeiro semestre de 2018. De todo modo, um lado bom da espera foi que quando retomei as conversas com a Miguilim, para finalmente lançarmos esse trabalho, percebi que as histórias e narrativas presentes na PARAFUSO 1 ganharam outras dimensões para mim, o que acho importante, pois não gostaria de desenvolver algo que ficasse datado. Ainda aprendo e ainda sou estimulado pelo que os autores criaram ali.

Por mais que você tivesse planos para o lançamento de uma obra impressa fruto do Laboratório de Quadrinhos Potenciais, esse é um projeto que você tinha controle mínimo em relação àquilo que era realizado pelos 12 autores. O que mais te surpreendeu nessa experiência?

Nossa, existem tantas surpresas! É difícil até criar uma lista, mas vou citar duas situações que me marcaram: 

Em primeiro lugar a produção da Ing Lee: até então ela não havia feito nenhuma história em quadrinhos, mas eu gostava muito do trabalho que ela desenvolvia com os zines e, em uma edição da Faísca, convidei ela para produzirmos alguma coisa juntos. Acabou que até o Laboratório não conseguimos, mas a participação dela na atividade e depois é fundamental para mim. A Ing tem uma energia e uma vontade, assim como uma sabedoria gráfica e narrativa, que sempre me levam a lugares que ainda não tinha estado. Desde os encontros do Laboratório que ela tem se tornado, cada vez mais, uma das grandes representantes dos quadrinhos em Belo Horizonte e no país.

A maior surpresa que tive, no entanto, foi com o trabalho do Batista: eu conhecia as obras dele por conta dos cartuns que lançava na internet e, até então, ainda não tinha visto nenhuma narrativa um pouco mais longa feita por ele. Lembro de uma conversa durante o Laboratório, que ele dizia que estava aberto e que queria experimentar situações que o tirassem da zona de conforto. Foi o que aconteceu. Quando a história que ele produziu chegou ao meu e-mail foi como uma explosão. O grau de amadurecimento e sensibilidade que estavam presentes nas páginas que ele enviou, e que estão presentes na revista, é gigantesco! É impressionante como, em apenas quatro páginas, ele consegue desenvolver algo tão denso, tão aberto, e que me fez pensar (e ainda estou) durante tanto tempo.

“O OuBaPo e a experimentação na linguagem eram isso: novos universos a serem explorados”

Página de Julhelena presente na coletânea PARAFUSO 1

Nos posts de bastidores que fizemos aqui no blog você falou sobre seu interesse em uma “forma lúdica de criação”. Foi lúdico o processo de criação desse livro? Quais são as suas principais lições e experiências e suas melhores memórias desse processo de criação coletivo com esses 12 autores que participam do livro?

Acredito que em janeiro de 2018, quando o Laboratório foi realizado, eu precisava encontrar novos motivos para seguir com minha produção autoral. Para isso optei por procurar paralelos com o momento e a energia que me fizeram começar minha carreira nos quadrinhos. O que descobri foi que, naquela época (2007, 2008…), eu não criava histórias como um modelo de trabalho, mas sim porque era divertido para mim. Era um universo completamente novo a ser explorado, o que sempre me instigou. Ao chegar nessa conclusão, percebi que queria construir algo assim tanto para as atividades como para uma forma de produzir quadrinhos que pudesse ser passada para outras pessoas. O OuBaPo e a experimentação na linguagem eram isso: novos universos a serem explorados. Ao partir desta premissa, elaborei alguns exercícios para guiar os encontros, mas outras atividades foram pensadas em conjunto também. A residência foi muito boa nesse sentido, pois percebi que todos ali estavam se divertindo ao produzir e elaborar histórias, foi meio que um jeito de sair do cotidiano. Dos retornos que tive dos artistas quando o Laboratório já havia acabado e cada um estava criando as narrativas que comporiam a PARAFUSO 1, também recebi muitas mensagens deles sobre o quanto estavam gostando de fazer aquilo. Percebo que a imersão nesses processos foi um bom respiro para os participantes e para a cena de Belo Horizonte.

“Foi estabelecido uma espécie de tema, que permeia toda a obra, que é a ‘cidade'”

Página de Estevam presente na coletânea PARAFUSO 1

Pelos prévias já divulgadas por você, chama atenção a variedade de estilos e técnicas presentes no livro. Como foi conciliar toda essa diversidade e dar unidade à coletânea?

Acho que já falei aqui no Vitralizado sobre o meu grande interesse pelo formato revista. Eu fui criado assim e é algo que me atrai demais. Essa experiência vai também de encontro com as antologias de quadrinhos, sejam elas gringas ou nacionais, sendo que a principal influência que tenho é da Graffiti 76% Quadrinhos, que era uma antologia editada aqui em BH. Nesse tipo de publicação é comum essas reuniões de variados estilos e técnicas. No caso da PARAFUSO 1, o que fiz foi organizar tudo de um jeito que fazia algum sentido para mim, mas que também pudesse contar uma história por meio da sequência de narrativas, que gerasse uma experiência de leitura mesmo. Além disso, foi estabelecido uma espécie de tema, que permeia toda a obra, que é a “cidade”. Não Belo Horizonte ou algum outro lugar determinado, mas o espectro de cidade. Sendo assim, meio que uma unidade já havia sido formatada desde o início.

Por que “a cidade” como tema desse projeto?

Quando estava elaborando o Laboratório de Quadrinhos Potenciais pensei que deveria encontrar um mote para ligar tudo aquilo que seria produzido na residência, mas estava com dificuldades para achar isso. Foi a Helen Murta, minha companheira e sócia na Editora Pulo, que sugeriu o tema “cidade”. Pesquei na hora essa ideia porque já era algo que estava muito enraizado em meu trabalho, mas percebi que seria legal que a troca de experiências entre os participantes partisse desse lugar para que outras conclusões sobre os centros urbanos fossem discutidas a partir da linguagem dos quadrinhos.

“Já tenho dois ou três universos distintos para números posteriores da PARAFUSO”

Página de Gabriel Nascimento presente na coletânea PARAFUSO 1

Você já lançou a PARAFUSO 0, agora esta lançando a PARAFUSO 1 e prometeu para breve o lançamento da PARAFUSO ZERO – Expansão. Qual a diferença entre cada um desses trabalhos? Por que esse interesse por parafusos?

Desde o início, com o lançamento da revista PARAFUSO 0, eu tinha definido que queria desenvolver 10 edições da PARAFUSO. A ideia, no início, era fazer duas ou três por ano, mas acabei percebendo que PARAFUSO é um projeto de vida, é meu laboratório e um jeito de dar vazão ao que estou pensando e criando como autor. Dessa forma, acho que o projeto vai me acompanhar durante um bom tempo.

Para complicar um pouco as coisas, percebi que as edições não precisavam, necessariamente, serem fechadas em um número. Então tenho trabalhado cada obra como um universo, que pode ter desdobramentos ou não.
O universo PARAFUSO ZERO é uma série sobre superseres, uma reflexão sobre a sociedade e uma jornada pelos estudos que tenho feito sobre autoritarismo e democracia, que são, no fim, o que tenho vivido e pensado. Ela está sendo ampliada por meio da construção do PARAFUSO ZERO – Expansão, que em breve será publicado.

Já o universo PARAFUSO UM é mais ligado à produção de quadrinhos do que sobre uma temática específica. A ideia é que outras antologias e outras formas de pensar o processo de confecção das narrativas gráficas sejam desdobrados a partir daí.

Como não me canso, já tenho dois ou três universos distintos para números posteriores da PARAFUSO. Vamos ver quando começo a trabalhar neles…

“Minha forma de apreciação para essa linguagem está muito mais focada na narrativa ou no desenho do que nos textos”

Página de Batista presente na coletânea PARAFUSO 1

O que mais te interessa em termos de quadrinhos hoje? O que você mais tem interesse em ler e tentar fazer e experimentar com a linguagem das HQs?

Eu tenho lido poucos quadrinhos nos últimos anos, apesar de ser bem nerd quando sismo de encontrar trabalhos por conta própria. Mas normalmente eu não leio quadrinhos, ou, pelo menos, não do jeito que costumamos tratar como leitura. Minha forma de apreciação para essa linguagem está muito mais focada na narrativa ou no desenho do que nos textos ou para saber o que acontece a seguir numa história. Tive uma conversa com o Bruno Pirata (que também participa da PARAFUSO 1), há algum tempo, em que chegamos juntos na conclusão de que os quadrinhos se tornaram um meio obsoleto para se contar histórias por conta de toda a quantidade de informação e mecanismos que existem, como Netflix, cinema, literatura etc. Estou muito mais interessado nos conceitos sobre a narrativa gráfica. Vez ou outra eu me pergunto os motivos para seguir fazendo quadrinhos e não partir para outros caminhos artísticos, mas sempre chego na conclusão de que esta é minha forma de expressão, é como consigo passar o que penso, que, de certa forma, é como segue o meu fluxo de pensamentos no cotidiano. Enfim, fui para um lugar bem distante do que me perguntou, então retomando: pesquiso muito sobre novos autores ou artistas que estão desenvolvendo trabalhos nessa linguagem pelo mundo. Sigo acompanhando também o que hoje pode ser considerado um recorte do nosso mercado, que seriam os trabalhos de vanguarda dos quadrinhos, aqueles que estão à margem, mas que empurram a nossa produção para frente, como o Gerlach, a Puiupo, a Lovelove 6, o Sica, o Odyr, o Dahmer, o Gabriel Góes, o Lucas Gehre, a Ing Lee, a Aline Lemos, e mais um monte de gente. E o Chris Ware sempre.

A capa da coletânea PARAFUSO 1
Entrevistas / HQ

Papo com Ing Lee, a autora de Karaokê Box: “Gosto muito de ir a karaokês porque lá não preciso estar necessariamente falando dos meus sentimentos pra poder expressá-los”

Karaokê Box é o primeiro projeto solo da quadrinista Ing Lee. Uma das autoras da revista Sam Taegeuk (finalista do prêmio Dente de Ouro 2019 na categoria Quadrinhos) e uma das editoras da coletânea A Criatura, ela narra em seu mais recente trabalho uma noitada em um karaokê no bairro da Liberdade, em São Paulo.

Em conversa com o blog por email, a autora conta como a HQ começou a ganhar forma durante uma ida dela ao karaokê no qual a história é ambientada enquanto ela passava por um momento de introspecção. “Não sou uma pessoa muito boa pra lidar com sentimentos”, diz Lee. “Daí creio que tentar extravasar isso artisticamente seja uma forma mais ou menos saudável, um processo meio ressignificativo e de cura até”, afirma.

Há dois eventos de lançamento para Karaokê Box marcados para as próximas semanas: o primeiro deles na próxima sexta-feira, dia 17 de maio, a partir das 18h, na loja da Ugra, em São Paulo; e o segundo na cidade natal da autora, Belo Horizonte, no Calabouço Karaokê, dia 23 de maio, a partir das 19h30.

Na conversa a seguir, Ing Lee conta um pouco mais sobre as origens de Karaokê Box, comenta a decisão de imprimir as 24 páginas do quadrinho em risografia, fala sobre a paixão dela por karaokês e revela as músicas que ela mais gosta de cantar. Saca só:

“Ouvi muito Depeche Mode, New Order, Tears for Fears e Pet Shop Boys enquanto desenhava”

Ilustrações de Karaokê Box, trabalho da quadrinista Ing Lee

Eu queria saber um pouco mais sobre os seus gostos e as suas influências. O que você gosta de ler, ouvir e assistir? Tem algum artista com alguma influência maior no seu trabalho? Tem algum artista em particular que você admira e serve de inspiração para você?

Eu gosto muito de cinema leste-asiático, principalmente taiwaneses e sul-coreanos. Meus filmes preferidos são Yi Yi (2000); That Day, on The Beach (1983); e Terrorizers (1986), do Edward Yang; Rebels of Neon God (1992), do Tsai Ming-Liang; Chungking Express (1994), do Wong Kar-Wai, e mais outros nessa pegada de melancolia urbana, que me inspiram bastante nos meus trabalhos envolvendo HQs. De mangá, amo Akira (Katsuhiro Otomo), Oyasumi Punpun (Asano Inio) e Tekkonkinkreet (Taiyo Matsumoto), e tenho eles como referência para mim no que diz sobre quadrinhos. Agora, de música, posso dizer que minha playlist durante todo o processo dessa HQ consistiu em músicas dos anos 80, hehehe. Ouvi muito Depeche Mode, New Order, Tears for Fears e Pet Shop Boys enquanto desenhava!

Um quadro de Karaokê Box, trabalho da quadrinista Ing Lee

Você poderia me falar um pouco sobre a origem de Karaokê Box? Como e quando surgiu a ideia de fazer essa HQ?

Então… A ideia veio do nada. Assim, veio no meio de um rolê que eu tava dando com um querido amigo (oi Thiago Han!!) em que fomos só nós dois pra uma cabine de karaokê às 14-15h, em plena segunda-feira. Daí tive algumas ideias de falas que foram o ponto de partida de uma história em quadrinhos que se passasse num karaokê. Eu tava tendo um momento meio introspectivo… Digo, passando por umas questões íntimas difíceis de lidar e fiquei pensando que gosto muito de ir a karaokês com meus amigos, porque lá não preciso estar necessariamente falando diretamente dos meus sentimentos pra poder expressá-los – e, bem, isso inclusive virou uma fala na história. Não sou uma pessoa muito boa pra lidar com sentimentos, daí creio que tentar extravasar isso artisticamente seja uma forma mais ou menos saudável, um processo meio ressignificativo e de cura até.

Eu meio que tenho que fazer meu TCC neste semestre, mas precisava antes fazer essa HQ… A vontade surgiu como um puta impulso e eu senti que só ia conseguir tocar outros projetos se a fizesse. Então eu fui e fiz, em uma semana mais ou menos, basicamente num modo turbo de produção, eu peidei uma HQ completamente nova! Tcharam, assim nasceu a Karaokê Box!

“Eu já tenho toda uma playlist pré-definida de músicas que sempre canto, geralmente começo com Sweet Dreams, do Eurythmics, e sempre acabo pegando alguma do Depeche Mode, é o meu ritualzinho…”

O banner do evento de lançamento de Karaokê Box, trabalho de Ing Lee, em Belo Horizonte

Você me falou que gosta muito de karaokê, por que essa paixão? Como ela surgiu?

Volta e meia acabo indo pra São Paulo né, daí desde 2014 uma das coisas que mais gosto de fazer por lá, é ir aos karaokês de cabine. É algo sagrado pra mim, parada obrigatória! Daí aproveito e chamo várias pessoas que fazia tempo que não via, mato as saudades, de quebra canto as músicas que gosto até ficar rouca – e posso até chorar no fumódromo (ou no banheiro…). Eu já tenho toda uma playlist pré-definida de músicas que sempre canto – por exemplo, geralmente começo com Sweet Dreams, do Eurythmics, e sempre acabo pegando alguma do Depeche Mode (embora ache elas difíceis de cantar), é o meu ritualzinho…

Um dos karaokês que eu mais gosto de ir é o Okuyama, que fica na Rua da Glória, tanto por ele ser mais podreira (e consequentemente, mais barato, hehe), como também é um lugar que me agrada esteticamente. E foi justamente o Okuyama que usei como cenário para a Karaokê Box, numa tentativa de resgatar um pouco o carinho que tenho pelas noitadas passadas lá com meus amigos paulistas. Também curto karaokês de palquinho, mas é que onde eu moro (Belo Horizonte), não tem nenhum de cabine privada, que você aluga a sala por hora e tem o karaokê todo pra você, então acaba virando um momento mais próximo e aconchegante entre as pessoas que estão dividindo a mesma cabine com você.

Um quadro de Karaokê Box, trabalho da quadrinista Ing Lee

Você chegou a fechar um roteiro antes de começar a desenhar o quadrinho? Você me contou que desenha com o mouse do computador, certo? Você pode contar um pouco mais sobre as suas técnicas?

Sim! O ponto de partida foi aquilo que falei acima, pensei ‘putz, vou fazer um quadrinho que se passa num karaokê e a personagem TEM que falar isso’ (que gosta de ir à karaokês porque é um lugar onde você pode se expressar sem necessariamente *falar* diretamente sobre seus sentimentos). Aí fiz todo um estudo compilando referências de fotos do Okuyama de diversos ângulos, porque eu queria retratar o lugar da forma mais fiel possível… Pesquisei pela tag marcando o lugar no Instagram de contas de terceiros, cheguei a pedir no Stories pra me mandarem fotos do local caso alguém tivesse e no meio disso uma amiga minha chegou a IR pro Okuyama só pra tirar fotos do banheiro e do fumódromo, porque eu não encontrava de jeito nenhum fotos desses ambientes, e ela morava ali perto (Samantha Oda, anja d++). Então planejei a história de acordo com os ambientes, começando pela fachada do karaokê na rua, depois entrando, subindo as escadas, indo pra cabine, depois fumódromo, banheiro e assim vai…

E, é, eu vendi minha mesa digitalizadora tem um tempo porque eu acabei me adaptando melhor com o mouse pra desenhar digitalmente do que com a mesa. Geralmente já faço tudo no formato direitinho, porque uso a ferramenta lápis no Photoshop e não vetor, pra que o traçado saia fiel na impressão.

“Desde o começo já tinha escolhido a paleta de cores, que eu gosto bastante, que é o rosa flúor, amarelo e medium blue da riso”

Ilustrações de Karaokê Box, trabalho da quadrinista Ing Lee

E eu gosto muito das suas cores. Por que essas cores? Como você define a paleta do quadrinho?

Obrigada!! Eu sou meio metódica, gosto de já deixar tudo definido antes de começar de fato a executar o projeto, deixando o formato já planejado, assim como a paleta de cores, o número de páginas e etc. Sem isso não consigo começar a fazer, porque se não eu não visualizo como ficará o resultado aí eu travo. Então desde o começo já tinha escolhido a paleta de cores, que eu gosto bastante, que é o rosa flúor, amarelo e medium blue da riso.

Karaokê Box será impresso em risografia. Por que essa técnica? Como ela contribui para o projeto final?

Minha primeiríssima zine, A Boneca, de 2016, foi impressa em risografia, com rosa flúor e amarelo. Foi bem amador e tal, mas eu gostei bastante do resultado na época e me agrada bastante as paletas da risografia. Daí pude explorar isso no quadrinho Humanidade, publicado no Sam Taegeuk – publicação que fiz junto com Paty Baik e Monge Han e que foi impressa em riso nas cores amarelo, vermelho e azul. O resultado ficou incrível e eu queria poder fazer mais HQs com essa técnica, daí como caiu um dinheirinho aqui, não pensei duas vezes e defini desde o começo do projeto da Karaokê Box que ela seria impressa em riso. Eu também já tinha trocado ideia com o Portilho, da Entrecampo, antes e fiquei com vontade de ter um trampo com eles, daí negociamos e fechou!

Quadros de Karaokê Box, trabalho da quadrinista Ing Lee

Você já produziu HQs para coletâneas como a Parafuso #1 (ainda inédita) e a Sam Taeguk e foi uma das editora d’A Criatura, mas essa é a sua primeira publicação solo. Eu tenho curiosidade em relação às suas expectativas com essa primeira experiência solo. Quais sentimentos estão passando pela sua cabeça às vésperas do lançamento?

Eu confesso que tô um pouco ansiosa e acabei não conseguindo me conter, daí enviei pra vários amigos me darem feedback e tal, só pra eu ter certeza de que não era só uma pira aleatória minha e se ia valer à pena… E, bom, aparentemente ficou legal, então é isso! Acabou que, além do feedback, tive bastante ajuda durante o processo de feitura da minha amiga e nova produtora gráfica do Selo Pólvora, Larissa Kamei. Ela me deu vários toques muito preciosos. Acabo fazendo tudo meio na tora e no improviso, então ter esse lado mais pé no chão durante a produção foi muito positivo pra mim!

Eu pelo menos fiquei bastante satisfeita com o resultado, foi algo que fiz muito mais por mim antes de qualquer coisa, mas que também gostaria de compartilhar com o mundo e soltá-la por aí. Vamos ver, né? Espero que o pessoal goste!

Quais são seus próximos planos para quadrinhos? Você já tem algum próximo trabalho em vista?

Então… O meu TCC vai ser em quadrinhos. O nome dele é Bulgogi de Carne Moída (bulgogi é um churrasquinho bovino coreano, que eu faço uma versão meio farofa abrasileirada com carne moída). Daí eu tô até agora criando coragem pra tocar isso e parar de enrolar, mas creio que sai, na base de muita cafeína, surto e pressão! Daí tô pensando em fazer uma tiragem pequena dele e fazê-lo circular um pouco por aí. Vai ter uma temática mais autobiográfica, envolvendo questões de identidade, etnia e memória, trazendo tudo isso pros meus processos artísticos (eu faço Artes Visuais na UFMG), e na apresentação dele pra banca eu vou servir o próprio bulgogi de carne moída pro pessoal!

A capa de Karaokê Box, obra da quadrinista Ing Lee