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Entrevistas / HQ

Papo com Jillian Tamaki, coautora de Aquele Verão: “A história de amadurecimento é perene em todo tipo de escrita”

Aquele Verão é dos quadrinhos mais premiados e aclamados dos últimos anos e deverá constar em várias listas de melhores HQs publicadas em português em 2019 quando o ano chegar ao fim. Parceria das primas Jillian e Mariko Tamaki, o álbum levou os prêmios Eisner e Ignatz de melhor graphic novel de 2014 e tornou suas autoras duas das artistas mais celebradas e concorridas da indústria norte-americana de HQs.

Eu já havia entrevistado Mariko Tamaki aqui pro blog em 2015, logo após Aquele Verão ser premiado com o Eisner. Agora, aproveitei a chegada da edição nacional da Mino às livrarias nacionais, em tradução de Dandara Palankof, para entrevistar Jillian Tamaki e perguntar um pouco mais sobre a origem, o desenvolvimento e a repercussão da HQ. Transformei esse papo em matéria para o jornal O Globo, disponível para leitura clicando aqui.

Reproduzo a seguir a íntegra da minha entrevista com Jillian, em tradução do tradutor/ pesquisador/ editor/ crítico Érico Assis (valeu, Érico!). Saca só:

“Não teve nenhum acesso de inspiração, a gente só tava se divertindo fazendo gibi e a receptividade foi boa”

Quadros de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

Você poderia contar um pouco sobre o início dos seus trabalhos com a sua prima em Aquele Verão? Como esse projeto teve início?

Nós já tínhamos trabalhado em outra graphic novel, chamada Skim, que saiu de um jeito um pouquinho mais orgânico. Skim era uma história de 24 páginas, a primeira HQ que a Mariko tinha escrito e a primeira HQ narrativa comprida e “básica” que eu já tinha feito. Não sei como aconteceu, mas alguém deu a ideia de ampliar e transformar em graphic novel. A graphic teve uma recepção muito boa, então a gente pensou, tipo, “vamos tentar mais uma”. Montamos uma proposta e acabamos vendendo. Desculpe, a história não tem nada de romântico! Não teve nenhum acesso de inspiração, a gente só tava se divertindo fazendo gibi e a receptividade foi boa.

Eu também gostaria de saber mais sobre a dinâmica do seu trabalho com a Mariko. Como era a interação entre vocês? Vocês trabalharam juntas em todas as etapas da produção da HQ?

Geralmente deixo que ela crie o argumento e escreva. Gosto do desafio de interpretar o roteiro e ela não precisa da minha ajuda na concepção. Na fase de esboço, eu tiro umas coisas, acrescento outras e tento moldar de um jeito que fique fiel à intenção dela, mas que também seja significativo pra mim. Editamos juntas num processo bem rigoroso. É óbvio que precisa de muita confiança dos dois lados.

“Acho que hoje em dia nos interessamos muito por histórias pessoais e por ‘identidade’, principalmente quando vêm de grupos marginalizados”

Quadros de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

Sobre a sua arte: quais técnicas você utiliza? Você tem alguma preferência por tinta ou digital?

Em Aquele Verão foi nanquim tradicional. Óbvio que é escaneado e montado no computador. Eu faço os esboços no digital, geralmente para facilitar, depois eu faço lápis, nanquim e separo numa mesa de luz. Outros álbuns, tipo SuperMutant Magic Academy e Boundless, foram 100% digital. Gosto de algumas coisas de cada método. Eu odeio escanear, odeio muito, então tem essa vantagem quando faço tudo digital.

Aquele Verão não é um trabalho autobiográfico, mas é inspirado em algumas memórias de infância da sua prima. Hoje em dia há muitos quadrinhos autobiográficos e HQs com histórias de amadurecimento. Você vê alguma razão em particular para isso?

Bom, eu nunca escrevi memórias, então talvez não seja a melhor pessoa para se perguntar. Acredito que nenhum livro surge do zero. Ele sempre vai ser moldado pela experiência de vida da pessoa. Quanto à popularidade desse tipo de trabalho… A primeira pessoa, o “eu”, é muito envolvente e direta. Acho que hoje em dia nos interessamos muito por histórias pessoais e por “identidade”, principalmente quando vêm de grupos marginalizados. É uma coisa boa. A história de amadurecimento é perene em todo tipo de escrita. Aliás, acho que nos próximos anos vamos ver cada vez menos histórias assim nos quadrinhos. As editoras estão apostando sério na graphic novel e, embora a predominância seja do young adult, nem tudo vai ser explicitamente história de formação. Se é que isso faz sentido. Pode ser que elas pilotem uma nave, que tenha aventuras no espaço etc.

“Eu entendo que minha função é botar as personagens a ‘atuar’ da melhor maneira possível”

Quadros de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

Você tem em mente alguma obra em particular que tenha influenciado seu trabalho em Aquele Verão?

Quando eu penso nas coisas que foram influência na HQ, eu penso em filmes. Especificamente Conta Comigo. Ou naqueles filmes de terror que a Windy e a Rose assistem no laptop: A Hora do Pesadelo, Sexta-Feira 13 e outros do tipo.

Uma das coisas que mais gosto em Aquele Verão está no realismo das posturas e do diálogos das personagens. Todo mundo foi criança uma vez na vida, mas nem todo mundo consegue lembrar da forma como agia, pensava e falava quando era criança. Você ainda tem muitas memórias de infância frescas na sua cabeça? Se sim, como elas influenciaram o seu trabalho em Aquele Verão?

Acho que há pouco tempo eu cruzei aquele limiar em que as memórias de infância perdem a importância que tinham. Eu tenho uma memória sensorial bem forte, então é fácil pra mim aproveitar muito dessa memória. Mas meus trabalhos mais recentes tratam de uma transição mais explícita pra maturidade – o fim da adolescência, a fase dos vinte anos, até do trinta. Quanto a ter autenticidade na voz, isso é especialidade da Mariko. Eu entendo que minha função é botar as personagens a “atuar” da melhor maneira possível.

“A influência vem de mangás antigos, que às vezes se imprimiam em tinta azul escura ou roxa”

Quadros de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

Eu também gosto muito dos tons azuis do livro. Você pode me contar um pouco sobre a sua escolha por essa paleta? Por que ela?

Eu escolhi em um catálogo Pantone na sede da First Second. A influência vem de mangás antigos, que às vezes se imprimiam em tinta azul escura ou roxa. Tem um pouco de mangá em Aquele Verão, mas, pra ser sincera, foi uma escolha barata, de estilo. Tem um pouquinho de melancolia nessa cor. E me pareceu que ia ser uma coisa singular da HQ – pelo menos na época.

O livro foi um grande sucesso de crítica. Há alguma leitura ou interpretação em particular da obra que tenha chamado sua atenção?

Eu me interessei muito em ouvir interpretações de leitores de várias idades. O público se identifica com personagens que tenham idade parecida. Acho que só adultos conseguem entender todo o escopo da HQ. Putz, hoje eu entendo muito mais sobre coisas tipo aborto do que quando eu trabalhei na HQ.

“Vejo que tem gente reagindo, que é corajosa, que sabe unir as lutas e que consegue vislumbrar outros modos de existir”

Quadros de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

Eu fico curioso para saber sobre a sua leitura do mundo hoje. Vivemos em uma realidade no qual Donald Trump é presidente dos Estados Unidos e o presidente do Brasil é Jair Bolsonaro – uma versão provavelmente mais estúpida, xenófoba, reacionária e pior do que Trump em todos os sentidos. O que você acha que está acontecendo com o mundo? Você é otimista em relação ao nosso futuro?

Crueldade, cobiça e sofrimento sem limites. Dito isso, eu vejo que tem gente reagindo, que é corajosa, que sabe unir as lutas e que consegue vislumbrar outros modos de existir. Me parece uma coisa que não tem antecedentes desde que eu existo, mas admito que às vezes parece que não basta.

“O futuro” significa um monte de coisas. Não existe um ponto final em que toda a injustiça vai ser erradicada pra todo sempre. Acho que é um envolvimento para toda a vida, intenso, que leva em conta as pessoas que não são só você e a sua vida. E sempre foi assim.

O que você pensa ao ver o seu trabalho sendo publicado em um país como o Brasil? Você fica curiosa em relação à forma como seu quadrinho será lido e interpretado em uma realidade tão diferente daquela em que você vive?

Sempre fico surpresa quando traduzem meus quadrinhos. O jeito como eu escrevo é descaradamente da perspectiva de uma mulher canadense suburbana e ex-alternativinha. As ambientações costumam ser bem específicas. Ainda assim uma pessoa de outra cultura consegue se ver na história e nos personagens. Uma pessoa do Brasil, da Polônia, da Coreia, consegue se ver nesse verão estranho como se fosse essas duas meninas? Gibi é uma coisa sensacional. Haha.

Quadros de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?

Pen15. Quero que elas façam seriado ou filme de SuperMutant Magic Academy. Ia ser perfeito.

Você está trabalhando em algum projeto novo atualmente?

Tenho um livro infantil que sai no segundo semestre.

Quadros de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

Você pode me falar como é seu ambiente de trabalho?

Trabalho no meu apartamento. Tenho uma sala separada, o que é essencial. Não é um estúdio legal de se ver, pra ser sincera. Tem só as coisas do computador, uma mesa com mesa de luz e outra mesa com um scanner. E a caixinha da minha gata.

A última. Qual a memória mais antiga da presença de quadrinhos na sua vida?

Minha irmã organizava a coleção dela de Archie pela cor da lombada. Muitos anos antes de isso virar moda. E as coletâneas de Herbie que meus pais tinham e que eu não entendia nada… Ainda não entendo, pra ser sincera…

A capa de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

HQ / Matérias

Jillian Tamaki fala sobre memórias de infância, mangás e Aquele Verão

Aquele Verão é um dos quadrinhos mais premiados e aclamados dos últimos anos. O álbum das primas Jillian e Mariko Tamaki levou os prêmios Eisner e Ignatz de melhor graphic novel de 2014 e tornou suas autoras duas das artistas mais celebradas e concorridas da indústria norte-americana de HQs. A obra está finalmente saindo em português, pela editora Mino e com tradução de Dandara Palankoff. Eu entrevistei a Jillian Tamaki pra saber mais sobre a origem, o desenvolvimento e a repercussão do livro.

Nessa conversa, a quadrinista falou sobre a influência de mangás em seu estilo de desenho, a relação dela com memórias de infância e a dinâmica de suas ilustrações com o roteiro da prima Mariko. Esse papo virou matéria pra edição de hoje do jornal O Globo e você lê meu texto clicando aqui.

Página de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

HQ

Early Stories, a nova HQ de Jillian Tamaki

Vi lá no The Beat: uma das responsáveis pelo sensacional This One Summer e autora de Super Mutant Magic Academy, a Jillian Tamaki começou a publicar uma webcomic na Hazlitt, a revista virtual da Penguin. Batizada de Early Stories, a HQ teve sua primeira parte focada na história de um seriado de televisão dos anos 90. Bem divertida, saca só. Agora é saber o que rola nos próximos episódios, se continua o enredo sobre a série ou pula pra uma outra história. Promissor pra caramba.

Entrevistas / HQ

Papo com Mariko Tamaki, vencedora do prêmio Einser de Melhor Graphic Novel em 2015 por This One Summer

Mariko e Jillian Tamaki foram as grandes vencedoras da 27ª edição do Will Eisner Comic Industry Awards, realizado no início de julho, na Comic Con de San Diego. As duas primas canadenses levaram para casa o troféu de Melhor Graphic Novel por This One Summer. A coroação da obra com o prêmio máximo da indústria de quadrinhos norte-americana não foi surpresa após o título ter sido aclamado ao longo dos últimos 12 meses como um dos grandes trabalhos publicados ano passado. A Publisher’s Weekly havia eleito a história em quadrinho um dos melhores livros de 2014. As autoras foram as primeiras quadrinistas a receberem a Medalha Caldecott entregue anualmente pela Association for Library Service to Children e também levaram o prêmio Printz, dedicado a reconhecer a excelência literária de livros para jovens adultos. Em fevereiro elas ganharam o Ignatz Award de Melhor Graphic Novel, entregue na Small Press Expo, dedicada a quadrinistas independentes.

Li This One Summer no primeiro semestre de 2014 e desde então vinha tentando entrar em contato com as duas quadrinistas. Consegui finalmente o email de Mariko, a roteirista da obra, no final do ano passado. Mandei minhas perguntas após ela topar a entrevista, mas já havia descartado qualquer possibilidade de resposta após quase oito meses de espera. O retorno veio inesperadamente, na semana que a artista recebeu o Eisner.

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Formada em literatura, Mariko também é autora dos livros Cover Me e dos quadrinhos Skim e Emiko Superstar. Publicado em 2008, Skim foi o primeiro trabalho da escritora em parceria com sua prima desenhista Jillian. Sobre a rotina de uma jovem de 16 anos descendente de japoneses em uma escola católica de Toronto, a HQ ganhou em 2009 os prêmios Ignatz, Joe Shuster e Doug Wright. Ainda assim, a obra-prima da dupla até agora foi This One Summer. O título mostra alguns dias na vida de duas amigas de férias na praia. Às vésperas do início da adolescência, as meninas testemunham e vivenciam novas experiências enquanto observam a interação entre seus pais e um grupo de adolescentes que mora no local. Além dos conflitos de seus familiares, elas observam a gravidez inesperada de um jovem casal, composto por uma garota e um rapaz que elas batizam de Dud.

Segundo os assessores da editora First Second, responsável pelo livro na América do Norte, a HQ continua com seus direitos disponíveis para o mercado brasileiro (Post atualizado: segundo dois leitores do blog, uma editora brasileira comprou os diretos e pretende lançar o quadrinho em breve. No entanto, até o anúncio oficial do livro em português, continua valendo a resposta dada pelos assessores da editora norte-americana). Por enquanto, é possível ler o quadrinho em sua edição portuguesa, lançada pela Planeta Tangerina como Finalmente o Verão. Seja como for, em português ou inglês, não perca tempo e corra atrás de This One Summer. Com uma arte linda com tons de azul que amplificam ainda mais o tom melancólico do texto de Mariko, o álbum é clássico moderno. Sua abordagem não deve em nada a outras pérolas recentes do gênero, como Fun Home, Blankets, Clumsy e Stitches. Segue a minha conversa com a Mariko Temaki:

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Destaque / HQ

ELCAF 2015, por Jillian Tamaki

Responsável pelos desenhos de um dos meus quadrinhos preferidos de 2014 (This One Summer), a artista Jillian Tamaki assina o cartaz da edição de 2015 do ELCAF (Festival de Quadrinho e Arte do Leste de Londres). Jillian também será a a principal estrela do evento, que também contará com a presença de artistas como Brecht Vandenbroucke, Michael DeForge, Daniela Olejnikova, Arnal Ballester, Henning Wagonbreth e Ricardo Cavolo. Estive em duas das três edições já realizadas do ELCAF e é um dos encontros de quadrinhos indies e publicações independentes mais legais que já vi. Organizado anualmente pela editora Nobrow, o ELCAF 2015 será realizado nos dias 20 e 21 de junho e os ingressos já estão a venda aqui. OBS: caso não lembre, o autor do cartaz da edição de 2014 foi o Chris Ware. Ó que beleza.