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Entrevistas / HQ

Papo com Luiz Navarro, coorganizador da Feira Canastra: “O mercado editorial tradicional realmente está em crise, mas a produção independente é efervescente”

Está marcada para o próximo fim de semana, dias 12 e 13 de outubro, em Belo Horizonte, a primeira edição da Feira Canastra de publicações independentes. Com entrada gratuita, o evento será realizado no espaço CentoeQuatro (Praça Rui Barbosa, 104), nos dois dias a partir das 11h e reunindo 64 expositores entre selos, editores e artistas independentes. Você confere a lista completa com o nome dos expositores e outras informações sobre a feira na página do evento no Facebook.

“Vamos trazer feirantes de várias outras cidades, numa pequena amostra do que tá sendo produzido no país, o que até agora a gente não via muito por aqui”, explica um dos coorganizadores da Canastra e um dos editores da revista Zica, Luiz Navarro, em papo por email com o blog.

Idealizador da feira ao lado da editora Ana Rocha, responsável pela Polvilho Edições, Navarro conta no papo a seguir como foi definida a linha curatorial do evento, fala sobre a decisão de sediar a Canastra no centro de Belo Horizonte e ressalta a importância de um festival de publicações independentes em tempos de crise do mercado editorial e de conservadorismo aflorado no país. Papo massa, saca só:

“A nossa principal expectativa é que os belo-horizontinos conheçam e despertem mais a atenção para o que tá sendo produzido em publicações independentes fora daqui”

O cartaz da Feira Canastra no espaço CentoeQuatro, onde será realizado o evento (Gabriel Caram)

Você pode falar, por favor, um pouco sobre o ponto de partida da Feira Canastra? Como esse projeto teve início? Quem são as pessoas envolvidas na produção do evento? 

A Canastra surgiu do desejo que nós, produtores de publicações de BH, sempre tivemos de realizar uma feira que estivesse dentro do circuito de feiras que já rola no Brasil há alguns anos, mas que a cidade ainda não estava inserida. Tanto eu, João [Perdigão] e Batista, pela Zica, ou a Ana Rocha, da Polvilho Edições, já participamos de várias feiras em outras cidades, mas a gente sentia que faltava uma feira em que quem é de BH pudesse conhecer o que tá sendo produzido em publicação independente e experimental em outras cidades. Do mesmo jeito, vários publicadores de outras cidades nos perguntavam sobre uma feira por aqui. As vezes a gente tem a impressão de que a cidade tava meio isolada, nesse sentido. Fizemos algumas pequenas feiras no esquema “na tora” há alguns anos atrás, como a Feira Gráfica, mas faltava realizar uma feira com uma produção um pouco melhor, com uma estrutura melhor. Pra Canastra, estamos envolvidos eu e a Ana Rocha, que idealizamos a feira e a sua identidade, o João Perdigão, que sempre esteve com a gente e tá ajudando na produção, a Isadora Moema, que tá ajudando muito com a divulgação, o Gabriel Caram e o Tarley McCartiney, que também tão ajudando na produção e vão produzir um mini doc sobre a feira, e a Renata da Matta, que tá fazendo a cenografia.

Publicações do selo A margem ; press, um dos expositores da Feira Canastra

Belo Horizonte tem uma tradição de eventos relacionados a quadrinhos e publicações independentes, penso principalmente no FIQ e na Faísca. Como a Feira Canastra se diferencia desses outros eventos?  

O FIQ e a Faísca são incríveis pelo público que alcançam e em como já conquistaram afetivamente os belo-horizontinos. O FIQ é um evento enorme, produzido pela própria prefeitura de BH, com vinte anos de história e um público imenso, de massa, com presença de grandes editoras do mercado. Eu mesmo lembro quando era adolescente e ficava fascinado em frequentar um evento assim, destinado só aos quadrinhos, na minha cidade. E a Faísca tem um mérito maravilhoso de agregar os produtores não só de publicações, mas também muitos jovens artistas visuais de BH. Com uma periodicidade mensal, a Helen e o Jão (os criadores) conseguiram envolver o público de um jeito muito especial. E não para por aí: BH tem vários outros eventos dedicados a literatura, como as feiras Textura e Urucum, o Festival Literário Internacional (FLI-BH), o Salão do Livro Infanto Juvenil, a Primavera Literária e o Festival Livro na Rua. Já a Canastra se difere um pouco destes todos porque tem um recorte e uma curadoria inédita que a gente considera muito importante, que são as publicações independentes e experimentais de pequenos coletivos e editoras do Brasil inteiro, seja em artes gráficas, fanzines, quadrinhos ou literatura. Não se limita a isso, mas é essencial para definir a nossa identidade. Vamos trazer feirantes de várias outras cidades, numa pequena amostra do que tá sendo produzido no país, o que até agora a gente não via muito por aqui.

“Estamos investindo no estímulo de um mercado que aparentemente é considerado agonizante, que é o mercado editorial”

Publicações da editora Cultura e Barbárie, um dos expositores da Feira Canastra (Marina Moros)

Aliás, qual análise vocês fazem da cena de publicações independentes de Belo Horizonte? Há algum movimento ou alguma tendência local que chame a atenção de vocês?  

Belo Horizonte é uma cidade com um cenário cultural muito rico. É impressionante a quantidade de artistas, seja das artes visuais, música, literatura, teatro e etc, que estão produzindo – e produzindo com muita qualidade. Nas publicações independentes não é diferente. Temos muito boas pequenas editoras, como a Relicário e a Chão da Feira, que estão produzindo livros com um apuro editorial excelente. Temos alguns coletivos de criação gráfica muito bons também, como a Entrecampo, que tá investindo muito na pesquisa em risografia, ou a Tipografia do Zé e a 62 Pontos, que têm um trabalho incrível também. Ao mesmo tempo a gente tem a Polvilho, com livros de artista, ou A Zica, uma publicação underground. E mais um monte de artistas e coletivos surgindo e fazendo coisas diferentes. Daí, não dá pra falar numa tendência única. A gente tem é diversidade mesmo e isso é muito bom. 

Por que fazer a Feira Canastra na Praça Rui Barbosa? Por que essa opção pelo centro de Belo Horizonte? 

O centro de BH é uma região que passou por uma ressignificação muito importante nos últimos anos. Houve um movimento de reocupação do espaço público pela juventude e pela periferia que começou ali do lado, na Praça da Estação, com eventos como a Praia da Estação, o Duelo de MCs e o carnaval de rua. É um lugar democrático, de relativo fácil acesso a diversos pontos da cidade e isso é muito importante. Além disso, o espaço do Centoequatro é um lugar ideal para receber um evento como uma feira de publicações por se tratar de um prédio histórico, amplo e confortável.

“Talvez agora seja o caso de pensar um pouco mais alto, de como popularizar a leitura e o acesso ao livro”

Trabalhos do coletivo uruguaio Microutopias, um dos expositores da Feira Canastra (Darío Marroche)

Qual a expectativa de vocês para essa primeira edição da Feira Canastra? 

A nossa principal expectativa é que os belo-horizontinos conheçam e despertem mais a atenção para o que tá sendo produzido em publicações independentes fora daqui. E que esse momento sirva também como uma oportunidade para que os produtores de outras cidade conheçam melhor o que tá sendo produzido aqui – e vice-versa, que o pessoal daqui se inspire com o que vem de fora também – e assim surjam amizades, parcerias e intercâmbios criativos, que é das coisas mais legais em feiras de publicação.

Desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que é a nossa sociedade hoje. Qual vocês consideram o papel de uma feira independente como a Canastra dentro desse contexto? 

Produzir uma feira de publicações independentes, além do esforço quase heróico de se produzir cultura no Brasil, é um ato político por vários motivos. Estamos produzindo uma feira de publicações com recursos públicos e dando espaço para uma curadoria bem democrática e diversificada: diversas editoras e publicações enfocam conteúdo relacionado à temática LGBT, protagonismo feminino ou inclusão racial, por exemplo. Vários são jovens artistas que vêm da periferia.  É muito importante que a gente crie estes espaços de produção. E, além disso, há a micropolítica. Estamos investindo no estímulo de um mercado que aparentemente é considerado agonizante, que é o mercado editorial. Isso tem uma complexidade interessante: o mercado editorial tradicional realmente está em crise, mas a produção independente é efervescente.  Ela segue forte e cada vez mais rica e diversificada, com produções muito sofisticadas ou experimentações muito boas. O público está atento a isso e responde muito bem, a gente vê isso claramente nas feiras. E estamos falando de produções em papel, produções impressas, que estavam teoricamente condenadas a desaparecer. Mas, pelo contrário, as pessoas tem um apreço muito especial ao que é feito com apuro gráfico e editorial, com uma materialidade física, que se pode tocar. As pessoas gostam disso. É um contraponto à ditadura hipnótica do conteúdo digital onipresente que a gente vive. Isso, pra mim, é micropolítica no melhor sentido. Sem contar que em uma feira o público tem contato direto com o artista, o autor ou o editor. Isso é muito relevante. É verdade que o público ainda é muito restrito. Infelizmente, no Brasil, o hábito de leitura é muito pequeno. Isso acontece não porque um livro é caro: não se lê porque nunca houve estímulo real ao hábito de leitura. É uma questão cultural, fruto de décadas de precarização da educação básica, e sem perspectivas de boas mudanças por enquanto. Mas, se estamos aqui investindo em publicação independente, podemos ser um pouco loucos mas estamos tentando fazer a nossa parte. Talvez agora seja o caso de pensar um pouco mais alto, de como popularizar a leitura e o acesso ao livro. Desconfio que já tem gente pensando nisso. Os quadrinhos, por exemplo, são uma ótima alternativa nesse sentido, pois têm um apelo e uma aceitação pelo público muito bons e um potencial de narrativas e experimentações gráficas incríveis

Material de divulgação da Feira Canastra
Entrevistas / HQ

A Zica está de volta: “Não estamos aqui para publicar historinhas sobre crises existenciais românticas, estamos aqui pra zoar o plantão”

A revista A Zica está de volta. O quinto número da publicação editada por Luiz Navarro, Marcos Batista e João Perdigão será lançado no sábado (22/9), na galeria de arte Mama/Cadela, em Belo Horizonte – você confere outras informações sobre a festa na página do evento no Facebook. Com capa assinada pelo quadrinista Diego Gerlach, o mais novo número da publicação iniciada em 2010 teve como tema ‘vermes, astronautas e América Latina’ e contou com a participação de 64 artistas.

“‘América Latina’ foi uma escolha política mesmo, para trazermos o olhar para a nossa própria identidade cultural”, conta Luiz Navarro. Em entrevista ao blog, Batista, Navarro e Perdigão falam sobre o processo de edição desse quinto número, tratam dos desafios de dar vida a uma obra independente de mais de 132 páginas via financiamento coletivo, cogitam o futuro da publicação e contam como o caos político brasileiro e dos demais países latino-americanos pesou no desenvolvimento da obra.

Reproduzo a seguir os nomes de todos os envolvidos no projeto e logo depois a íntegra da minha conversa com os editores. Ó: Adão Iturrasgarai, Vinicius Capo (AKOP), Allan Sieber, Annima de Mattos Aruan Emiele, Bernardo Pádua, Breno Ferreira, Carolina Deptulski, Onofre, Warley Desali, Diego Gerlach, Emilly Bonna, Emmanuel Alcala, Estan de Lau, Fabio Cobiaco, Fernando Torelly, Flávio Duarte, Froiid, Gabriel Cerqueira, Gabriel Nascimento, Guilherme Boschi, Guto Respi, Henrique Mourão, Henrique Oliveira, Ian Indiano, Joao Henrique Belo, José Lucas Queiroz, Rafael la Cruz, Larissa Reis, Ana Luiza Lacerda, LOR, Lucas Borges, Luciano Irrthum, Luiz Navarro, Luiza Maximo, Luiza Nasser, Marco Vieira, Marcos Batista, Maria Trika, Mariana Moyses, Matheus Lopes, Maurício Falleiro, Morgana Azul, Narowe, Nava (Latino Toons), Nicole Wafer, Osvaldo Reis, Carlos Panhoca, Paola Rodrigues, Pedro Vó, Matheus Frasan Praia Podre, Ricardo Coimbra, Rodrigo Terra Vargas, Rogério Rodrigues, Rosana Oliveira, Luís Teixeira, Estêvão Vieira, Tenesmo, Thiago Souza, Toni Cesar Graton, Victor Stephan, Xablutz, Yalaki De Sucre, Benson Chin, Estevam Gomes, Hugo de Paula, Batista, Warley Desali, Aline Lemos, Dayane Lima, Binho Barreto e Diego Sanchez.

“A Zica um trampo gigante, um rabo de foguete que a gente topa pegar porque não é só de nós três, é literalmente coletivo”

Trabalho de Adão Iturrusgarai para A Zica #5

Vocês lembram do momento em que decidiram produzir esse número novo da Zica? Antes de vocês darem início à campanha de financiamento coletivo houve algum instante específico em que você decidiram que ela iria acontecer?

Batista: Em 2016, na primeira edição da feira Des.gráfica, o Gerlach veio conversar comigo sobre a Zica, falando como era massa e perguntando quando sairia a próxima. Eu fiquei sem graça de falar para ele que a revista tinha acabado, que fazer a número quatro esmigalhou nossos nervos e que a gente não pensava em fazer mais revista, hehe. E então, além dele mais algumas pessoas vieram me perguntar sobre a revista e a contar casos de carinho com ela, aí percebi que a Zica não era nossa, era de muito mais gente, e de volta a Belo Horizonte, se não me engano reavivei o grupo de chat da Zica, ‘Ei galera, acho que temos que fazer mais algumas Zica…’.

João: Corroborando com o que o Batista falou, realmente, depois da #4, parecia que acabou mesmo, foi bem desgastante – mas olha, isto acontecia desde a #2 (2012). Início de 2017, propus aos caras de voltar, mas como nosso $ havia esgotado, o financiamento era a única forma de reavivar. Topamos, numa ideia que foi praticamente a refundação d’A Zica, pois conseguimos colocar na revista tudo que sempre sonhamos, mas tínhamos limitação financeira – agora não mais.

Luiz: A Zica é assim, é um trampo gigante, um rabo de foguete que a gente topa pegar porque não é só de nós três, é literalmente coletivo, como o Batista falou. Depois da última edição, talvez eu fosse o mais relutante dos três em publicar uma nova edição. Daí Batista e João chamaram pra conversar, sentamos numa mesa e eles colocaram a ideia em pauta, já tava rolando essa possibilidade de um financiamento coletivo. Combinamos uma nova configuração de trabalho pra não ficarmos batendo cabeça em cada detalhe, o que definitivamente é inviável. Isso foi muito importante. Daí pra frente assumimos o risco mais uma vez e mergulhamos nessa loucura de produção que é fazer a Zica. E a campanha, logo que começou, nos trouxe de novo o prazer todo de envolver um monte de gente além de nós mesmos pra fazer a revista acontecer. Isso é muito bom e muito gratificante.

“‘América Latina’ foi uma escolha política mesmo, para trazermos o olhar para a nossa própria identidade cultural”

Trabalho de Aruan Emile para A Zica #5

Porque Vermes, Atronautas e América Latina? Aliás, como vocês determinam os temas de cada edição?

Batista: Não sei responder porque, mas de uma lista de temas que cada uma monta formamos uma maior, e vamos debatendo. Vermes creio que foi o único consenso que saiu dessa lista, e meu voto nele foi pela molecagem que ele carrega em si, o terror, o nojo, a surpresa, o gore que ele podia representar. Astronauta fica na conta do Luiz – nessa edição decidimos nomeá-lo editor chefe, e com isso ele ganhou direito a escolher um tema, e foi esse. E América Latina surgiu após termos definido por Michael Jackson, mas deu uma semana e os outros editores não sentiam firmeza nele. A troca foi bem-vinda pois a Zica sempre tem um tema que é a tônica do seu ano de edição (bullying em 2012, vandalismo em 2013, Rússia em 2015,…), e América Latina está em mais uma de suas notórias ebulições políticas.

João: Quanto aos temas, tem que ter uma liga ilustrativa pra que vire desenho, e que seja inspiradora criticamente ou zoeira, além do fator nonsense. Todo ano tem algum tema mais universal que os outros. Desde a #0: morte, putaria, apocalipse, trevas, Rússia e agora acho que seja América Latina. Só pra completar aqui: bullying foi o tema que achei mais mal-escolhido até hoje, já que a tônica para escolher trabalhos é originalidade e ironia, com bullying acho bem difícil fazer piada sem soar babaca – poderia ter sido meme ou coisa assim, seria mais inspirador. Além do tema universal, sempre tem um tema que não tem nada a ver com os outros, algo pra desconstruir – na #0 classe média, na #1 propaganda, na #2 a tentativa com ‘bullying’, só na #3 que foi tudo darkzera (gosto desse número por ele ser uma ‘cartilha educativa’ de 2013), na #4, dinossauro, e agora astronautas.

Luiz: O momento de escolher os temas é um dos mais divertidos da Zica. Depois da listinha que cada um faz, a gente senta só os três, um olha pra cara do outro, dá um trago numa cerveja ou num cigarro e fala: ‘e aí, qual vai ser?’. A gente se diverte, zoa pra caramba nessa tal reunião. Fala um monte de merda. Sai um monte de coisa que a princípio parece genial, daí passa um tempo alguém fala: ‘peraí galera, cês já pensaram que é bem possível que com esse tema vai ter maluco que vai desenhar um monte de besteira assim ou assado?’. Daí tem que pensar em outro. Foi assim com o Michael Jackson, que era pra ser um dos temas dessa última edição. É um tema incrível, mas corria grande risco de cair num lugar comum de caricaturas clichê. Claro que a maioria dos artistas que manda trampo pra Zica é bem criativo e vai além do óbvio. Mas a gente pensa nessas possibilidades e tenta evitar essas armadilhas. Sobre os temas que definimos, na minha opinião a escolha foi pelo seguinte: ‘vermes’ tem esse tom meio zuero e nojentinho; ‘astronautas’ por todo o potencial narrativo e mitológico que ele traz, além de um potencial iconográfico e ilustrativo muito bom também. E ‘América Latina’ foi uma escolha política mesmo, para trazermos o olhar para a nossa própria identidade cultural. Na real, é uma loucura pensar que essas três palavrinhas que saem dessa reunião vão nortear o nosso trabalho e nossa vida nos próximos muitos meses. E mais loucura ainda pensar em três temas e não ter a menor ideia do que vai sair disso, o que os artistas vão conseguir transformar e produzir com eles.

“Saímos do formatinho e do material convencional de gráfica e arriscamos num projeto editorial vistoso, com mais espaço para os trabalhos”

Trabalho de Narowe para A Zica #5

Eu imagino que cada número da Zica tenha suas peculiaridades em relação a edição e produção. O que houve de mais singular durante o desenvolvimento desse quinto número?

Batista: Para mim, a mudança de formato tanto da revista quanto do modo de trabalho quebrou alguns paradigmas e redefiniu uma nova forma de existirmos. Saímos do formatinho e do material convencional de gráfica e arriscamos num projeto editorial vistoso, com mais espaço para os trabalhos. Por mim, depois dessa mudança, nem sei se a próxima edição terá o mesmo tamanho, por exemplo, não sei mais se A Zica deve seguir um tamanho standard ou cada número é um número. E a forma de trabalhar, com designers responsáveis pelo projeto, e com um de nós destacado como editor-chefe, ajudou muito a ordenar o fluxo de trabalho e a agilidade nas decisões.

João: Além da ousadia do projeto, que foi o mais experimental até hoje, teve o rodízio do editor principal, que nesta edição é o Luiz. O que houve de mais singular, pra mim, além de aumentar o formato, de fazermos stickers, patch fotozine e dois posters em serigrafia foi a concepção de A Criatura, que é um projeto bem ousado que convidamos três editoras para selecionar trampos de minas que ainda tá em andamento. Já fizemos uma coisa ou outra extra A Zica antes, mas só coisa de tiragem pequena. Finalmente uma produção no nosso selo com uma tiragem de circulação razoável e com outra editoria que a gente provocou, que são a Ing Lee (uma quadrinista fodona), a Maria Trilka (que produz colagens inventivas e estuda cinema), e a Clarice G. Lacerda, que é uma editora experiente com larga experiência no mundo das artes.

Luiz: Como João e Batista disseram, essa foi a edição mais ousada da revista até agora. Sem dúvida nenhuma, a gente deu um passo além. Pegamos várias ideias e desejos que já tínhamos e falamos: ‘é agora!’. Talvez o principal, na minha opinião, tenha sido o fato de decidirmos investir num projeto gráfico bem elaborado. Pra isso, precisamos sair do ‘do-it-yourself’ que manteve a Zica lindamente em edições anteriores e contratamos dois designers, Matheus Ferreira e Bruno Rios, pra nos ajudar nessa empreitada. A gente deu uma certa autonomia para eles sugerirem e criarem de acordo com aquilo que eles achavam que podia ficar legal. E essa colaboração deles fez toda a diferença.

Trabalho de Praia Podre para A Zica #5

Quais eram as principais expectativas que vocês tinham em relação a esse número e o que mais surpreendeu vocês nessa edição?

Batista: Minha principal expectativa era em relação a atender o Catarse. Não é fácil fazer pré-campanha, campanha e pós-campanha. Estamos no pós-campanha e ainda temos muito trabalho pela frente, e isso ainda me causa borboletas no estômago. E o que mais me surpreendeu é o apoio recebido por quem contribuiu no Catarse ou de outras formas, como enviando trabalhos para vendermos e usarmos o dinheiro na campanha. De fato, a Zica é do povo!

João: Conseguir captar um trabalho com um valor acima da média no Catarse foi uma façanha. A nossa expectativa de apoios iniciais foi abaixo do esperado. A partir desta constatação levantamos de outra forma, vindo pra realidade e o que mais me surpreendeu nesta campanha foi a mobilização que fizemos off-line, com eventos de arte no mundo real, que deu super certo e ajudou a alavancar o financiamento coletivo de uma forma que não imaginávamos.Torço para que a publicação ainda me surpreenda positivamente a partir de quando estiver circulando entre seus leitores.

Luiz: O financiamento coletivo foi muito emocionante e, apesar da tensão que é normal que rolasse, eu pessoalmente achei bem divertido (vão me cobrar vacilo por dizer isso! hahaha!). Mas além do financiamento, a gente tinha a expectativa de que essa fosse a edição mais especial já produzida. E sem dúvida alcançamos esse objetivo, a revista tá incrível de bonita. Essa dinâmica de abrir chamada e receber trabalho é muito divertida por isso também: sempre nos surpreendemos quando recebemos trabalhos fodas de vários artistas fodas, alguns menos e outros mais conhecidos. Mas, pra mim, a ilustra do Gerlach (que foi convidado) na capa, foi a mais impactante. É impressionante a capacidade que ele tem de construir uma narrativa num único quadro, cheio de detalhes e referências.

Trabalho de Benson Chin para A Zica #5

Uma das propostas da Zica é também servir de vitrine para novos talentos. Nesse novo número, quais novos talentos chamaram mais atenção de vocês?

Batista: Vou falar da Luiza Maximo, que não sei se é bem um novo talento, mas é a primeira vez que ela pinta na revista e tive oportunidade de ver suas aquarelas e sai com lágrimas nos olhos. Tem o Maurício Falleiros, que para mim é a maior aquisição do humor gráfico nacional dos últimos dois anos, e o Allan Sieber, que não é um talento novo mas tem mostrado uma nova face de sua produção como pintor, e nos mandou uma pintura que me deixou arrepiado, e que eu acho a mais bonita das que tive oportunidade de ver.

João: Quanto ao quesito revelação, também gostei muito do quadrinho da Luiza Reis e do Aruan Mattos (apesar de não ser uma revelação pra mim, já admirava o trabalho dele enquanto artista plástico, não sabia que ele fazia quadrinhos) e da ilustra do Toni Cesar Graton. Ah, os posters do Hugo e do Estevam também ficaram sensacionais – já que fora de BH eles são revelação também, pode falar.

Luiz: Essa pergunta é muito boa e tem muito a ver com a anterior, porque uma das melhores coisas da Zica, para nós e acredito que também para quem a lê, é descobrir novos artistas muito fodas. Nessa edição, talvez eu posso citar o Toni Cesar Graton ou a Paola Rodrigues.

“No número zero colocamos o preço na capa, era R$5, coisa que posteriormente nos arrependemos, coisa horrível colocar preço, a gente faz é arte e não $, porra”

Trabalho de Toni Cesar Graton para A Zica #5

De 2010 pra cá, do lançamento do número zero da revista até hoje, quais vocês consideram as principais transformações desse cenário de quadrinhos/publicações independentes no qual A Zica está inserido? Como essas mudanças se fazem presentes na revista?

Batista: Bem, acho que a Zica é a única revista que continua sendo publicada desde aquele tempo. Hoje em dia os autores e editores têm investido em trabalhos maiores (hqs e novelas gráficas), coletâneas de trabalho de um autor só ou publicações de coletivos, mas que dificilmente passa de 8 autores. Isso muito graças ao incentivo dos financiamentos coletivos ou pequenas editoras que se formaram. E no momento esse formato ‘revista grande com um tanto de trabalhos’ está sumido. Tínhamos a Quase, Tarja Preta, SAMBA, Grafitti 76%, Prego e algumas outras, que hoje ou estão extintas ou estão adormecidas por seus editores estarem tratando de outros trampos (mas uma hora voltam a publicar, dedos cruzados). Então acho legal numa feira ver que vários autores têm seus próprios livros, mas poucos têm uma publicação colaborativa com mais de 50 autores com uma grande mostra de estilos e linguagens. E que estamos ai fazendo esse tipo de publicação.

João: A transformação veio de centenas ou milhares de talentos revelados no cenário independente desde então e obviamente do mercado que amadureceu e ficou mais plural, aberto a novas experiências. A análise do Batista sobre publicações alternativas tá ótima, a única publicação mais substancial que apareceu na nossa pegada nesses últimos anos foi a Pé de Cabra, cujo editor, Panhoca foi nosso colaborador e apoiador – dos mais empolgados inclusive. Voltando no tempo, pra ilustrar como o mercado era tacanho em 2010, não havia o costume de vender zine (a maioria era distribuição 0800), no número zero colocamos o preço na capa, era $5 – coisa que posteriormente nos arrependemos, coisa horrível colocar preço, a gente faz é arte e não $ porra. As mudanças presentes na revista são através do sangue novo dos artistas que conhecemos através dela e de novos produtos que produzimos, como o patch desenhado pelo Paulo Marcelo Oz, mas se for olhar, sticker, por exemplo, é algo que eu e o Luiz fazíamos/conhecíamos desde 2005 e a gente gosta muito desta cultura de rua, de onde viemos, nunca nos desligamos dela – inclusive o Luiz fez um livro contando o histórico disto aqui em BH, o Pele de Propaganda: Lambes e Stickers em Belo Horizonte [2000-2010], que inclusive voltará a ser vendido no lançamento d’A Zica #5 – momento jabá.

Luiz: Obrigado, João, pelo jabá! Hahahah. E concordo com o que disseram. Quando começamos, o cenário era bem diferente. As revistas primas da Zica que o Batista citou ainda eram bem vivas e nossas maiores referências. Rolava ainda, naquela época, um tesão em se fazer revistas colaborativas de quadrinhos de humor hardcore. Depois a galera deu vazão a outros projetos, o que é normal. A cena de feiras de publicações também mudou muito! Antes havia uma ou outra feira ou festival. Agora rola um calendário com dezenas ao longo do ano no país inteiro. Mas publicações com a proposta como a da Zica já não são tão comuns.

“Não estamos aqui para publicar historinhas sobre crises existenciais românticas, estamos aqui pra zoar o plantão”

Trabalho de Victor Stephan para A Zica #5

Esse quinto número d’A Zica tá saindo às vésperas das eleições de 2018, em meio a um contexto de conservadorismo crescente e crise aflorada. Qual vocês consideram ser o papel de uma publicação independente, com ares subversivos, como A Zica, dentro desse cenário?

Batista: Nosso papel é continuar publicando a revista, ato que por si só é uma resposta a esses tempos. Desde o codex até a impressão digital, quem escreve, desenha, imprime e publica sempre é alvo de crises políticas. Não passamos por nada de novo. Imprimir e editar o que se vive em seu tempo é o grande barato. Deixar o registro das crises, e documentar os erros e acertos de nossos tempos, creio ser a parte mais importante do nosso papel. A gente não responde ao presente, a gente é uma caixa de areia para artistas e leitores pensarem o futuro.

João: Olha, a gente mudou o tema de Michael Jackson para América Latina durante este contexto, para dar vazão a trabalhos politizados, mas não apenas. Isto não quer dizer levantar bandeira e pronto, já que material panfletário/partidário não é nossa onda. Mas ser politizado chega a ser necessário neste momento em que afirmar que a terra não é plana é política, que tristeza né? Tem até um trabalho que publicamos do Maurício Falleiros com a frase ‘Onda conservadora invade América Latina’ que ilustra bem a pergunta, ou seja: ‘This is America…Latina também’. Nosso papel é editar, fazer a revista e pronto, mas não uma coisa que você lê agora e só entende agora, não é nosso interesse, a gente pensa em publicar algo que se for lido daqui 10, 20, 50 anos, a pessoa vai entender. Inclusive, tem uma coisa sobre a criação d’A Zica que nunca falamos em entrevista, nem é nada definitivo, mas A Zica foi criada depois de já termos passado por algumas decepções institucionais e a ideia era que a publicação sempre fosse feita autonomamente. Nunca nos inscrevemos em Lei de Incentivo (até porque, não queremos camisa de força, mas isto também pode mudar, não somos quadrados, mas nunca foi a tônica, quando alguém propuser isto, vou ser advogado do diabo). Engraçado, agora com a chegada galopante do liberalismo sem freio e a eminente ameaça de extinção deste tipo de patrocínio com o abandono de políticas culturais, dá até vontade de ser subversivo de verdade.

Luiz: Concordo com praticamente tudo o que João e Batista disseram, mas acho importante sermos mais explícitos nesse ponto. A Zica é uma publicação que tem uma intenção e uma força política, sim. Isso é muito importante e temos que saber reconhecer. Dada a situação crítica da política institucional e do clima do país, com revisionismos de fatos históricos e de uma força cada vez maior que o reacionarismo e o fascismo ganham no Brasil, publicar uma revista com ‘ares subversivos’, como você disse, é uma necessidade. É claro que fugimos de panfletagem ideológica, mas um trabalho artístico não precisa ser panfletário para ser político. A Zica nasceu para ser provocativa mesmo. Para ser um contraponto a caretice, a pensamentos conservadores, inclusive no mundinho das artes gráficas. Não estamos aqui para publicar historinhas sobre crises existenciais românticas, estamos aqui pra zoar o plantão. E também pra provocar a reflexão nos artistas, para tirá-los de uma zona de conforto e de repente se colocarem pra pensar no lugar onde vivem e o que vivem, sobre a sua própria realidade no mundo, e não apenas no seu umbigo.

Qual o futuro da Zica? Vocês já estão cogitando um sexto número?

Batista: O futuro da Zica é uma briga eterna entre seus editores sendo mediada por um carinho enorme do público. Essa relação é boa, tem funcionado até aqui e seguirá pelas edições 6, 7, 8 e tantas outras que virão, no formato que vierem.

João: Só espero que tenhamos bala na agulha pra continuar. Assim como desejo que o Batista seja o próximo editor, espero que eu também tenha espaço pra ser, completando o rodízio dos editores em novos formatos.

Luiz É isso aí! E que sejamos cada vez mais ousados nas nossas propostas, com cada vez mais fôlego e paz de espírito para encarar a produção e que pelo menos ganhemos algum troquinho!

A capa de Diego Gerlach para A Zica #5

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Está no ar a campanha de financimento coletivo da revista A Zica #5

Acabou de entrar no ar a campanha de financiamento coletivo da quinta edição da revista A Zica. Eu já apoiei e recomendo o mesmo procê. O número cinco d’A Zica é editado por Batista, Luiz Navarro e João Perdigão e terá como tema vermes, astronauta e América Latina. A capa da publicação já está pronta e é assinada pelo quadrinista Diego Gerlach. A pedida pra coletânea ser impressa é de R$ 22,085 e a expectativa de lançamento tá pra junho de 2018. As opções de recompensa são bem diversas e com umas ofertas bastante interessantes. Deixa passar esse projeto não, viu? Saca o vídeo de divulgação da campanha e a capa assinada por Gerlach: