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Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #3: “Experimento voltado para a desconstrução”

Estamos a poucos dias do anúncio do título, da editora e da sinopse do próximo quadrinho do artista Thiago Souto. Estou trabalhando no projeto como editor e tenho publicado por aqui nas últimas três semanas a série Thiago Souto e a Av. Paulista, na qual o quadrinista fala sobre suas inspirações e o desenvolvimento da HQ. O álbum tem como foco a via mais famosa da maior cidade brasileira e a dinâmica de seu funcionamento aos domingos, quando é fechada para carros e aberta para pedestres, skatistas e ciclistas.

Após falar sobre suas memórias antigas relacionadas à Avenida Paulista e lembrar de suas primeiras idas ao local com ele aberto para os pedestres, hoje o autor trata da origem de seu novo quadrinho e das reflexões que o inspiraram a desenvolver esse novo projeto e faz um comparativo com sua obra prévia, Labirinto (Mino). Recomendo o seu retorno ao blog nos próximos dias para novidades sobre a HQ. Enquanto isso, aspas de Thiago Souto:

Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #3: “Experimento voltado para a desconstrução”

“Bolhas sociais”

“No começo íamos à Paulista pra a Alice brincar e eu e a minha esposa darmos uma andada. Nesse início eu não tinha essa percepção do monte de coisa que acontecia ao mesmo tempo. O sentimento na época era mais de encantamento com o espaço, aquele centro de comércio e negócios agora aberto para pessoas, convívio e interação. Era isso que me impressionava quando fomos pelas primeiras vezes. Conforme o tempo foi passando, fui observando outras coisas e superando esse sentimento de deslumbramento. Eu passei a me perguntar: ‘Como pode tanta gente? Como tem tanta gente e tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo?’. Eram muitas coisas contrastantes. A música das bandas, por exemplo, você entrava na Paulista e estava tocando forró, dois passos depois era rock, três passos e você ouvia funk,… ‘Cara, como tá acontecendo tudo isso junto?'”.

“Você via uma família ‘comportada’ e ‘tradicional’ andando ao lado do cara loucaço. E todo mundo fechado no seu próprio rolê, sem se dar conta de que tudo aquilo estava acontecendo no mesmo espaço”.

“Quando comecei a perceber isso, pensei que talvez fosse possível fazer alguma coisa… Talvez uma história que não precisasse de um roteiro tradicional. Não precisava ser sobre o personagem que começa a história de tal jeito, passa por toda uma saga e acaba diferente. Talvez o movimento da história não precisasses ser sobre os conflitos de um personagem ou sobre o que acontece com ele, mas mais sobre o fluxo de um determinado lugar. As coisas estariam acontecendo e ele percebendo aquilo tudo. Seria uma experiência meio estranha – no bom sentido, para quem gosta de coisas estranhas (risos) Seria chamar atenção para as coisas que ninguém tá ligando muito, do que está acontecendo enquanto estão todos fechados em suas próprias histórias”.

“Jornadas diferentes”

“Como eu acabei de sair de um trabalho com uma estrutura narrativa bastante tradicional, o Labirinto, eu tava afim de fazer uma coisa que fugisse disso, pra poder continuar em movimento. Eu não achava que estaria indo pra frente se fizesse uma história igual à anterior, no sentido da forma. Não que eu não vá fazer novamente uma história naqueles moldes, mas me permitir algo diferente, em relação ao uso da linguagem, é uma forma de romper um pouco a inércia, de propor uma experimentação. Não uma experimentação no sentido pretensioso da palavra, a ideia não era tentar fazer algo diferente de tudo o que já foi feito, não. Digo experimentação no sentido de tentar algo me desafiasse de alguma maneira”.

“Acho que há algumas formas de fazer essa experimentação. Antes do Labirinto eu tinha tido um processo de experimentação muito relacionado ao aprendizado. Era o meu contato com a produção de um quadrinho, então eu estava descobrindo, tudo era novo. Até então eu compreendia o processo como um leitor que gostaria de fazer quadrinhos, mas não como alguém que produzia já há algum tempo e parou pra pensar na linguagem e tudo mais. Era mais uma experimentação por parte de alguém descobrindo a linguagem. Isso é muito legal, você tem muita liberdade e não está preso a nenhum tipo de amarra”.

“O Labirinto foi história muito longa, um processo de produção mais fechado dentro de uma estrutura tradicional no sentido do uso da linguagem. Que me fez aprender muito sobre esses elementos. Mas quando acabei o Labirinto, comecei a ter vontade de experimentar coisas diferentes, desta vez uma experimentação mais voltada para a desconstrução do que pro aprendizado, como havia sido antes. Eu já compreendia um pouco melhor da linguagem e queria experimentar com o que havia aprendido nesses processos”.

“No caso de um personagem principal, por exemplo. Um protagonista geralmente é trabalhado de determinada forma, ele tem suas relações de conflito e vão surgindo tensões crescentes até chegar em um momento de clímax. Quando pensei a história da Avenida Paulista concluí que não precisava trabalhar o personagem principal exatamente dessa forma. Pensei que ele poderia ter uma jornada diferente. Da mesma forma, também optei por trabalhar o desenho de forma diferente, removendo os requadros, por exemplo. É uma experimentação distinta da qual me propunha no começo. Então foi isso, a intenção era trabalhar algo novo para mim com quadrinhos”.

“Todo mundo no seu próprio microcosmo”

“E a ideia era expressar isso tudo tratando desse lugar democrático, que permite livremente toda forma de manifestação, sejam lá quais forem as bandeiras… Às vezes com a borracha da polícia, né? (risos) Então não tão livremente assim, mas mesmo assim você tem todo tipo de pessoa lá, do cara mais conservador ao mais progressista”.

“É engraçado… Eu lembro que no começo algumas pessoas evitavam ir à Paulista por essa abertura aos domingos ser muito associada à gestão do Haddad e do PT. Mas o espaço de convivência acabou se mostrando maior do que isso, as pessoas conseguiram até deixar isso de lado. O que é impressionante quando você leva em conta essa aversão tão gigantesca que existe ao PT . Mas todas as pessoas tomaram aquele espaço como sendo delas e assim foi realizado o objetivo de fato da proposta: ser um espaço democrático. É isso que é o melhor, mesmo sendo um espaço meio esquizofrênico, também frequentado por pessoas que flertam com o fim desse espaço democrático”.

“E é isso, você tem lá o cara pedindo intervenção militar e pessoas manifestando as causas mais progressistas, contra o racismo, contra a homofobia… Enfim, a Paulista sempre foi esse espaço democrático. É o palco da Parada do Orgulho LGBT, por exemplo, mas o movimento Cansei também usou a Paulista de palco. Quando você abre aos domingos, tudo isso é ainda mais potencializado. Todo tipo de gente convivendo, todos mais ou menos fechados no próprio microcosmo, mas as pessoas estão lá e na maioria das vezes de forma pacífica”.

CONTINUA…

ANTERIORMENTE:

>> Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #2: “É muita gente diferente compartilhando o mesmo espaço”;
>>Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #1: “Parecia coisa de ficção científica”.

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Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #2: “É muita gente diferente compartilhando o mesmo espaço”

Está no ar o segundo post da série Thiago Souto e a Av. Paulista. O projeto consiste na reunião de depoimentos de Thiago Souto, autor de Labirinto, sobre os bastidores e os temas abordados por ele em sua próxima HQ, na qual eu estou trabalhando como editor. O título do álbum, a editora responsável por sua publicação e a sinopse da obra serão anunciados nos próximos dias. Por enquanto, adianto que a obra será lançada na Comic Con Experience 2018, é ambientada na Avenida Paulista e aborda a dinâmica de  funcionamento da via aos domingos, quando é fechada para veículos e fica aberta exclusivamente para pedestres, ciclistas e skatistas.

Após comentar sobre suas lembranças mais antigas da Avenida Paulista no post de abertura da série, o artista fala agora sobre suas idas iniciais ao local após a abertura para pedestre aos domingos. A medida foi implementada em outubro de 2015 com o objetivo de fazer a população local se apropriar da cidade e o quadrinista tem estado rotineiramente no local aos domingos desde então. A seguir, aspas de Thiago Souto:

Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #2: “É muita gente diferente compartilhando o mesmo espaço”

“É preciso ocupar as ruas”

“Eu não lembro exatamente da minha primeira ida à Paulista aos domingos com ela fechada para carros. É engraçado: a Paulista sempre foi esse lugar democrático em que todo mundo ia pra expressar suas reivindicações e suas ideias, independentemente de quais elas fossem. A abertura dela aos domingos para pedestres fez parte desse movimento da gestão passada da Prefeitura de fazer a cidade e as ruas mais voltadas para as pessoas. Eu simpatizo bastante com a proposta, então lembro que as minhas primeiras idas nela aos domingos, exclusiva para pedestres, foi porque eu acreditava nisso. Óbvio, a Paulista tinha toda essa carga emocional para mim, mas a abertura aos domingos foi um projeto que tomei pra mim. ‘Isso tem que dar certo’, então vamos”.

“Tinha toda uma onda mais conservadora que achava a iniciativa uma péssima ideia, inventavam desculpas completamente absurdas. Eram pessoas que não saiam de casa a não ser para ir a um shopping e falavam besteiras em relação ao projeto. Mesmo que na época, por causa da novidade, alguns questionamentos fossem relevantes, valia à pena fazer um teste, ver o que ia acontecer. Então era importante estar na avenida aos domingos, para que aquilo desse certo. Então minhas idas iniciais foram muito nesse sentido”.

“Não sei se isso corresponde à realidade, mas lembro que uma impressão que eu tinha em relação às pessoas que iam naquela época inicial, nos primeiros fins de semana, era de um sentimento parecido com o que eu e a minha esposa tínhamos: é preciso ocupar as ruas, é preciso ocupar a Paulista para que essas ideias continuem vigorando. A partir do momento que ela ficasse vazia sabíamos que ia ter um carniceiro pronto pra queimar o filme. Íamos e as pessoas que víamos por lá tinham essa mesma vibe. As pessoas iam com essa energia de fazer coisas na rua, começavam a criar uma relação com aquele ambiente. Você via que as bandas e os músicos passavam a te reconhecer, te viam na semana seguinte e cumprimentavam. Então rolava uma cumplicidade entre as pessoas que iam nessa fase inicial e as que estavam por lá fazendo alguma atividade”.

“No nosso caso, por causa da Alice, minha filha, víamos sempre o pessoal das bolhas de sabão, as meninas que levavam bambolês e alguns grupos específicos. Eram bandas que eu, minha esposa e minha filha gostávamos muito e sempre assistíamos”.

“Se é pra ser democrático, então vamos ser democráticos de verdade”

“É engraçado, você vê diversidade nas pessoas que andam por lá, sejam pelas camisas ou qualquer outra coisa. E isso é bom no final das contas. Se é pra ser democrático, então vamos ser democráticos de verdade. Tava claro que a Paulista não era de um grupinho fechado de pessoas que simpatizam com um ou outro grupo político. Aí você ia vendo outros tipos ocupando aquele lugar e a Paulista começou a ficar mais cheia aos domingos e outras atrações começaram a aparecer. Depois de um tempo ela passou a ser usada com mais intensidade aos domingos para manifestações políticas, de todos os tipos inclusive. Aliás, algumas dessas manifestações não teriam público nenhum não fosse a Paulista aberta para os pedestres, elas se aproveitavam para planfetar pra quem estivesse passando”.

“Ainda vamos lá aos domingos, mas não com a mesma frequência do começo, até por ela estar ficando realmente muito cheia. Continua sendo uma experiência legal. Atualmente ela está muito mais com a vibe desse meu novo quadrinho do que na fase inicial, quando a sensação era mais de celebrar a ocupação da cidade, hoje já virou parte da rotina. Acredito que não há nenhuma hipótese dela voltar a funcionar aos domingos para carros”.

“Espécie de rugido…”

“Tem uma imagem que é muito impressionante para mim, me marcou principalmente nas primeiras vezes em que estive na Paulista aos domingos aberta só para pedestres: a hora, naquela época às 17h, em que a avenida é aberta para os carros. É uma transformação brutal. Em um momento você só escuta as vozes e o barulho da música, mas a medida em que os carros vão chegando, você começa a ouvir uma espécie de rugido. Era impressionante como o ambiente se transformava em questão de minutos.

“Toda essa inversão ligada à proposta inicial de tornar a Paulista mais humana tinha como objetivo mostrar como aqueles lugares poderiam ser muito mais aproveitados se as pessoas pudessem andar por eles, pudessem ter uma relação diferente que não envolvia o fluxo por carro ou ônibus. A mesma coisa vale pro Minhocão, que acho que já abria aos domingos antes da Paulista. É um lugar super barulhento que de repente tem gente andando e crianças brincando”.

“Eu gosto muito de andar, então o que for possível fazer a pé é melhor para mim. Quando você anda, tem uma relação muito diferente com o espaço que está ocupando. Até mesmo nesse momento da Paulista da semana, caótica, andando você passa a reparar mais o ambiente e as pessoas. De carro você não vê nada, só o cara que tá querendo te fuder no carro da frente (risos)”

“Tudo vira diversão”

“Quando a abertura pra pedestres aos domingos começou a valer, íamos pelo menos três domingos por mês. Hoje vamos, no máximo, uma vez por mês. Mas tem, sim, isso da rotina. No começo, tinham algumas bandas que gostávamos de ver. Por exemplo, o Grande Grupo Viajante, que ficava ali em frente ao Conjunto Nacional. Eles misturavam rock, brega, forró, funk, o tecno-brega do Pará, era bem divertido. Uma menina tocava sax e outra trompete, tinha um cara que tocava guitarra, um vocalista que fazia uma espécie de rap, um tecladista, um baixo… Era um grupo grande e eles estavam sempre lá. Íamos tanto que decoramos as músicas. A Alice adorava. Mas a rua acaba sendo muito dinâmica, alguns grupos, como esse, você não vê mais por lá. Pelo menos não encontrei nas últimas vez em que fui”.

“Sempre começamos os nossos passeios na Consolação, ali por perto do Metrô Consolação, subimos, almoçamos ali na Augusta, depois vamos em direção à Paulista e ao Conjunto Nacional. Aí andamos, andamos bastante, andamos e paramos no que gostamos”.

“Gostávamos bastante de parar com as meninas do bambolê. Nessa época do Grande Grupo Viajante tinha um grupo de meninas que ficava ali por perto que levava vários bambolês e a Alice tinha aprendido a girar e curtia. Era no mínimo meia hora parado por ali. Um pouco mais pra frente tinha um cara que fazia bolha de sabão gigante. Mais meia hora, pelo menos. Sabe aquelas saídas de ar do metrô? Fica uma ventania imensa e a Alice subia e ficava jogando jogando água pra ver a água flutuar… Crianças se divertem muito facilmente. É muita imaginação e ficávamos por lá esperando, olhando e chamando, ‘vamos, vamos ver o que tem mais pra frente’ (risos). Acaba sendo um parque grandão para as crianças”.

“Quem é pai talvez entenda: já é uma diversão ficar só olhando o seu filho brincar. Eu nunca fui o tiozão das crianças, mas depois que a Alice nasceu mudou a dinâmica. Você também passa a se divertir com muito menos, ver ela brincando passa a ser parte do entretenimento. Ela aprendeu a rodar bambolê na Paulista, por exemplo. Depois de umas três ou quatro vezes indo aos domingos. Teve épocas que de dentro do metrô, da Ana Rosa até a Consolação ela ficava girando (risos). Só isso já é parte da diversão”.

“Cada um no seu rolê”

“É muita gente diferente compartilhando o mesmo espaço. Mas nem sempre parecem estar no mesmo lugar. Cada um tá muito no seu próprio rolê. Eu tô fazendo isso aqui e não me importo muito o que tá rolando ali. Quando você para e olha tudo que tá acontecendo ao redor, você percebe como é esquizofrênica a coisa. Você tem de tudo. O cara de bicicleta, o cara do show, o louco dançando na rua, alguém pedindo intervenção militar em frente à FIESP, sabe? Essas merdas todas e tudo ao mesmo tempo, agora. Uma loucura, uma montanha-russa, mas ninguém está nem aí”.

“De certa forma as pessoas mantém a dinâmica que elas se comportam na cidade durante a semana, algo bem individualista, cada um na sua. Tirando quando tem um show com muita gente e acaba unindo muitas pessoas. Também naquelas, né? Todo mundo vendo, mas o nível de interação entre as pessoas não é muito grande. Sinto que isso se intensificou com o aumento do número de pessoas que passaram a ir aos domingos. Com menos gente, as pessoas interagiam um pouco mais, mas acho que isso é natural e, sei lá, tudo bem”.

CONTINUA…

ANTERIORMENTE:

>>Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #1: “Parecia coisa de ficção científica”.

HQ

Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #1: “Parecia coisa de ficção científica”

O próximo álbum do quadrinista Thiago Souto será lançado na Comic Con Experience 2018. O título, a editora, a sinopse e as especificações técnicas da obra serão revelados nas próximas semanas. Primeira HQ do artista em seguida a Labirinto (2017), a obra contará com a minha participação no papel de editor.

Sem entregar muito sobre a trama, adianto que o álbum tem como foco a Avenida Paulista e dinâmica de funcionamento da via aos domingos, quando é fechada para a circulação de veículos e fica aberta exclusivamente para pedestres, ciclistas e skatistas. Dou início hoje à série de posts Thiago Souto e a Av. Paulista, na qual o autor fala sobre sua relação com os 2,7 km mais famosos de São Paulo e o desenvolvimento desse seu próximo projeto.

A série seguirá ao longo das próximas semanas, sempre às quintas-feiras. No post de hoje, o quadrinista fala sobre suas memórias mais antigas relacionadas à Avenida Paulista e as lembranças que guarda de suas idas ao local durante a infância. A seguir, aspas de Thiago Souto:

Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #1: “Parecia coisa de ficção científica”

“Super Quadra Morumbi”

“Eu não tenho uma lembrança específica, mais clara e objetiva da minha primeira ida à Avenida Paulista, nada do tipo ‘fui com os meus pais dar uma volta e aconteceu isso, isso e isso’. Tenho uma memória mais antiga, de quando era criança, de ir pra Paulista e andar por aquela região usando o metrô. Eu morava em um bairro afastado do centro, um bairro chamado Super Quadra Morumbi, que ficava… Seguindo a Avenida Giovanni Gronchi, bem pra frente, depois do estádio do Morumbi, você vira numa ruazinha entre o Campo Limpo e Taboão da Serra. Continua sendo um bairro bem residencial, porque fica nesse finalzinho da cidade. Se você dá mais um passo, tá no Taboão, dá outro passo, tá no Campo Limpo, os lugares mais próximos dali. Não leva a lugar nenhum, é o final da cidade. Até hoje tem pouco prédio e as ruas são pouco movimentadas”.

“Eu devia ter por volta de uns seis anos quando mudei pra lá. Antes eu morei no Cambuci, foi lá que eu nasci. Depois passei um ano morando no Arraial d’Ajuda, na Bahia, com os meus pais, que eram de uma vertente hippie. Voltei pra São Paulo, acho que ficamos um tempinho no Cambuci, depois outro período no Sumaré e então fomos pra esse bairro chamado Super Quadra Morumbi. Os meus avós maternos também tinham saído do Cambuci e ido morar lá nesse meio tempo em que ficamos na Bahia. Então fomos pra perto da casa deles e de alguns tios que moravam por lá também. Meus pais trabalhavam fora e deixavam eu e o meu irmão aos cuidados dos meus avós quando precisavam”.

“As estações de metrô pareciam naves espaciais”

“Então eu cresci nessa região muito afastada do centro de São Paulo, era quase como morar numa cidade de interior, inclusive pela distância. Tinham pouquíssimas linhas de ônibus e as linhas que passavam mais perto ainda eram afastadas da nossa casa. O meu pai trabalhava ali perto da Rua Pedro de Toledo e a família dele também morava naquela região, mais perto da Paulista. Aí que começam as minhas memórias mais relacionadas à Paulista. Lembro de quando criança usarmos o metrô e eu ficava muito fascinado, era quase ficção científica. Eu não tinha assistido Akira ou Balde Runner na época, mas quando vi fiz uma relação imediata com essa sensação de andar de metrô. Eu lembro da Linha Azul, ou da Verde, e as estações pareciam partes de naves espaciais. Nessa época, eu com uns oito ou nove anos, quando íamos dar uma volta na Paulista, eu achava estar num lugar meio extraterrestre. Eu ficava muito fascinado. Principalmente depois que descobri que aquele lugar era na mesma cidade que eu morava, embora fosse muito diferente da região em que eu vivia. Passei a sentir até um certo orgulho. ‘Olha, eu também moro aqui!’ (risos)”

“A memória afetiva é nesse sentido. Apesar de não viver naquela região central, onde tudo era ‘mais desenvolvido’ – grandes aspas, por favor -, eu sentia como se aquilo fizesse parte da minha vida também, embora não fizesse. Eu sentia um certo orgulho disso”.

“Imaginário de realidades alternativas”

“Ir à Paulista naquela época soava como uma aventura, sabe? Pra uma criança de oito ou nove anos, vivendo numa região afastada, era quase uma aventura. Era sair para conhecer um lugar meio alienígena, com esses prédios bem altos, com um monte de gente andando. Não era apenas a infraestrutura, a coisa de concreto e vidro impressionante, mas também a quantidade de gente circulando. Eu estava acostumado com um lugar em que eu via sempre as mesmas pessoas, sempre pouca gente andando pela rua e as coisas tinham horários muito pré-definidos para acontecer, com uma rotina bem pacata. Ir pra Paulista alimentava um pouco a minha imaginação, eu via um monte de gente diferente. Não importava muito o que eu ia fazer, era mais pela experiência sensorial de poder ver aquelas coisas. Toda criança tem esse imaginário de realidades alternativas: você vê um programa de TV e se imagina dentro de uma aventura espacial, por exemplo. Pra mim, pegar o metrô, ir pra Paulista e passear por ela me dava um ambiente real onde eu podia projetar toda essa minha fantasia. Era meio como uma materialização desse universo interno que eu ia criando”.

“O meu pai gosta muito de museus e exposições, então o vão livre do MASP tinha um significado especial pra mim. Lembro de ir ao MASP e tenho memórias muito fortes do vão naquela época, tanto com a feira que rola até hoje por ali quanto sem ela. Aquela construção sempre teve uma proporção muito gigantesca pra mim. Outro lugar era o prédio da Caixa, que tinha umas cadeiras e bancos de concreto, com formato circular. Por algum motivo era um lugar especial, eu também via ali algo de outro mundo. Acho que fecharam a entrada desse prédio e não sei se ainda dá pra circular mais por ali. Indo além da Paulista, todas essas construções de concreto muito grandes, como as estruturas do Memorial da América Latina, acabam sendo meio áridas e com muito vazio ao redor. Senti algo parecido quando fui a Brasília. Não são lugares muito convidativos, não são muitos humanos e nem orgânicos, parecem inclusive afastar um pouco. Não tem árvore, não tem cobertura, você fica muito exposto e é visto por todos os cantos. Tanto no vão do MASP quanto no prédio da Caixa eu tinha essa sensação”.

“Todo mundo sabia chegar na Paulista”

“Esses passeios eram muito com o meu pai, minha mãe e o meu irmão. Depois que eu fiquei mais velho passei a ir mais sozinho. Ia de ônibus e de metrô. Já com uns 14 anos eu ia pra lá com amigos de colégio, pegava ônibus pro centro, pra região da Galeria do Rock. Estudávamos de manhã, saíamos da escola de mochila e tudo, íamos pra [Avenida Professor] Francisco Moratto, perto do nosso colégio, e ali tinha um monte de ônibus, vários atravessavam a [Avenida] Rebouças, em sentido ao centro da cidade. Quando aprendi a fazer esse circuito de ônibus, em direção à Galeria do Rock, comecei a ir com esses amigos ou sozinho mesmo, só pra passear. Mas não era com tanta frequência assim”.

“Depois, já com uns 20 anos, aí sim passei a ir muito na Paulista. Passei a buscar coisas mais distantes daquela realidade do bairro em que eu cresci. Até os meus 16 ou 17 anos, até eu sair do colegial, apesar de ter contatos com algumas pessoas de fora do bairro, o meu círculo de amizade era muito restrito àquela região em que cresci. Depois que comecei a fazer faculdade e a sair mais, passei a ir mais pra Paulista. Acabava sendo um ponto de encontro fácil pra todo mundo. Todo mundo sabia chegar na Paulista. Depois que saí da casa da minha mãe, fui morar na Vila Madalena, próximo da estação de metrô e passei a ir direto pra lá, muitas vezes sem qualquer tipo de programação. Ia pra Paulista só pra andar. Às vezes descia na estação Clínicas e ia andando até a Paulista, andava por ela toda e voltava só pra poder andar mais. Simples assim, gostava de andar por lá e observar. Foi quando a Paulista se tornou algo mais comum pra mim, assim como a própria cidade de São Paulo. De certa forma, isso também me aproximou dos problemas da cidade, que se materializam bastante naquela região, né? Pelo menos para mim, ela é meio que uma síntese do que é a cidade. Se você quiser saber um resumão de São Paulo, é só ir da Consolação até a Bernardino de Campos e você vai ter uma ideia do que é isso aqui”.

CONTINUA…

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6ª (2/3) é dia de bate-papo com Wagner Willian e Thiago Souto em São Paulo

Ei, tem programa pra próxima sexta-feira, dia 2 de março? Caso esteja em São Paulo recomendo um pulo na Gibiteria, a partir das 19h. Estarei por lá pra mediar uma conversa com os quadrinistas Thiago SoutoWagner Willian, autores de Labirinto (Mino) e O Maestro, O Cuco e A Lenda (Texugo). As obras mais recentes dos dois estiveram entre as publicações mais badaladas do final de 2017 e presentes em várias listas de melhores lançamentos do ano passado. Também noto certo diálogo em relação aos dois títulos, não só pela qualidade da arte e do roteiro, mas pelas tramas e a dinâmica de produção dos livros. Enfim, pretendo abordar um pouco disso tudo na conversa. Apareça! A Gibiteria fica no número 158 da Praça Benedito Calixto e você confere outras informações sobre o bate-papo com sessão de autógrafos lá na página do evento no Facebook. Vamos?

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Estão abertas as inscrições para o curso Criando Histórias em Quadrinhos, com Thiago Souto

Estão abertas as inscrições para o curso Criando Histórias em Quadrinhos, organizado pelo quadrinista Thiago Souto e que será realizado ao longo dos três primeiros sábado de março (3, 10 e 17 de março), na loja da Ugra, em São Paulo. As três aulas rolam sempre das 10h às 13h e o objetivo do encontro é discutir a linguagem dos quadrinhos e a produção de uma HQ. Vale uma lida lá na página do evento pra ver um pouco mais dos temas que serão tratados nos encontros e alguns dos tópicos das aulas. A matrícula custa R$150.

Eu já tive a oportunidade de ver parte do material produzido por Souto pro curso e adianto que tá bem interessante, com várias referências e uma perspectiva bastante singular de como alguém vê e pensa quadrinhos. Recomendo, viu?