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Entrevistas / HQ

Papo com Nina Bunjevac, autora de Terra-Pátria e Bezimena: “Sempre procurei maneiras de expor nossas semelhanças, não nossas diferenças”

As 160 páginas em preto e branco de Terra-Pátria narram parte da infância da autora canadense Nina Bunjevac. A obra é focada principalmente no choque de identidades e ideologias que culminou tanto na existência dela quanto na dissolução da Iugoslávia e nos conflitos bélicos nos Bálcãs nos anos 1990. Entrevistei a quadrinista e transformei esse papo em matéria para o jornal Folha de S.Paulo, noticiando o lançamento da edição brasileira da obra, pela Zarabatana Books, em tradução de Claudio R. Martini. Você lê o meu texto clicando aqui.

No meu texto para a Folha escrevi sobre o ponto de partida do livro, as reflexões de Bunjevac durante a produção da HQ e os paralelos entre a realidade vivenciada por ela na infância e a invasão russa à Ucrânia. Volto a deixar o link para a minha matéria e compartilho a seguir a íntegra da minha entrevista com a autora. Papo massa, saca só:

“O questionamento de uma herança ancestral permeou o zeitgeist da minha geração”

Quadros de Terra-Pátria, obra de Nina Bunjevac publicada pela Zarabatana Books (Divulgação)

Você poderia me contar, por favor, sobre a origem de Terra-Pátria? Houve algum ponto de partida ou incentivo em particular para o início da produção desse quadrinho?

Eu publiquei um conto chamado August 1977 no meu primeiro livro, Heartless, no qual encaro o legado de meu pai e o rejeito. Quando o livro foi lançado na Sérvia, essa história em particular recebeu várias resenhas, tanto na Sérvia quanto na Croácia. Um autor e figura cultural conhecida, Miljenko Jergovic, escreveu uma resenha brilhante e poderosa em um dos principais jornais croatas. Miljenko também foi um autor que lidou com o legado de sua avó paterna, implicada em crimes de guerra durante a Segunda Guerra Mundial. Logo aprendi que esse tema, o questionamento de uma herança ancestral, permeou o zeitgeist da minha geração, especialmente aqueles que cresceram na antiga Iugoslávia. Após a dissolução do país, nossas culturas individuais foram profundamente enraizadas em nacionalismo e tribalismo. ‘Ou você está conosco ou está contra nós’, passou a ser o lema do dia. Fazer um indivíduo deixar o coletivo e questionar o status quo – sejam seus ancestrais, seus líderes ou as autoridades da igreja – era visto como o maior dos pecados. As pessoas que fizeram isso foram incrivelmente corajosas. Terra-Pátria foi a minha contribuição para esta causa que, neste momento particular da história, se tornou uma questão existencial. 

Qual a memória mais antiga da presença de quadrinhos na sua vida?

Foi na casa da minha avó, quando esbarrei com um quadrinho da [editora] Bonelli chamado Dr. No. Era uma versão em quadrinhos do filme. Cada página tinha dois quadros panorâmicos, um embaixo e outro em cima. Eu fiquei hipnotizada. Como tínhamos uma televisão em preto e branco, vi as duas coisas [quadrinho e filme] como uma só, eu devia ter quatro anos. Ainda assim, até hoje, me inspiro mais em filmes do que em quadrinhos. Os primeiros quadrinhos que comecei a comprar regularmente foram os quadrinhos de Carl Barks, publicados na [revista] Disney Digest e na Disney Almanac, lançadas semanalmente e quinzenalmente. A Iugoslávia tinha uma cena rica de quadrinhos. Jornaleiros e livrarias tinham em média cerca de dez publicações diferentes de quadrinhos, italianas, americanas e franco-belgas.

Tenho curiosidade em relação às suas técnicas e rotinas como autora. Com quais materiais você trabalha? Você tem alguma rotina em particular enquanto está trabalhando em uma HQ? Você teve alguma rotina em particular enquanto estava trabalhando em Terra-Pátria?

Minha rotina é muito simples e nada emocionante. Eu esboço, desenho e redesenho, escaneio, desenho outra vez, aí levo três dias para arte-finalizar cada página. Cerca de 40% do meu tempo reservado para os projetos é ficar sentada sem fazer nada, esperando a ideia certa, ou a resposta certa, vir à mente. É como pescar, mais do que qualquer coisa. Para fazer isso bem e ter um suprimento constante de ideias, passo longos períodos alimentando a mente, lendo livros, ouvindo podcasts e fazendo cursos online.

Você tem um traço muito pessoal e identificável. Como você chegou nesse estilo? Quais tipo de leituras e práticas a levaram a fazer quadrinhos e desenhar da forma como você faz quadrinhos e desenha?

Minha formação é em design gráfico e, depois, em artes plásticas. Antes de começar a desenhar quadrinhos, aos 30 anos, fazia pinturas a óleo, principalmente figurativas, e esculturas. Mudar para o Canadá aos 16 anos foi uma experiência traumática, pois não compreendia a língua, mas queria escrever. Naquela época, eu dava muita ênfase à língua, não à narrativa. Trabalhar com esculturas me parecia como um diálogo entre objetos e conceitos e, o mais importante, uma forma de contar histórias. Isso foi uma revelação para mim. Logo comecei a experimentar com quadrinhos, a fim de colocar em ação o meu contador de histórias interior. O estilo levou um tempo para se desenvolver. Eu acho que ainda está em desenvolvimento, e está constantemente sendo influenciado por filmes, livros, quadrinhos, arte.

“Se não fosse por minha avó, eu nunca teria me tornado uma contadora de histórias”

Página de Terra-Pátria, obra de Nina Bunjevac publicada no Brasil pela Zarabatana Books (Divulgação)

Terra-Pátria é não apenas sobre a sua família e sua infância, mas também sobre memórias, guerra, extremismos, ódio, amor, política e por aí vai… Fico curioso em relação à forma como você conciliou todos esses temas enquanto desenvolvia o livro. Foi desafiador para você administrar todos as experiências pessoas que você retrata no livro com todos os fatos e ocorrido históricos e políticos que também se fazem presentes na obra? 

Bem, antes de começar a trabalhar em Terra-Pátria fui convidada a participar de um workshop organizado pelo Center for Peace Studies de Zagreb e pelo Centre for Cultural Decontamination de Belgrado. O workshop se chamava Artists in Exile [Artistas em Exílio], e reunia artistas, autores e cineastas de ex-repúblicas iugoslavas, que fugiram da região por causa da guerra e se estabeleceram em outras partes do mundo. A experiência foi quase mística, compartilhando comida, histórias, músicas, chorando e rindo juntos. Apaziguou algo em mim. Até então, eu pretendia escrever com emoção e com um ponto de vista político definido. Depois dessa experiência, mudei meu ponto de vista para uma perspectiva mais pacífica, como uma contadora de histórias neutra, que expõe os fatos e conta com a inteligência do leitor para tirar suas próprias conclusões. Eu não queria usar sentimentalismo para manipular o leitor e não queria ofender ninguém. Sempre procurei maneiras de expor nossas semelhanças, não nossas diferenças.

Bezimena também é uma obra muito pessoal, mas que você optou por conta de forma completamente diferente de Terra-Pátria. Como você estabeleceu a forma como iria contar cada uma dessas histórias?

Comecei Bezimena sem esperar que ele chegasse em mim. Ou seja, não fui pescar como costumo fazer. Eu pretendia fazer um livro pornográfico, ou erótico, baseado em diferentes fetiches. No entanto, o livro, ou meu lado direito do cérebro, tinha outras ideias. Essas idéias me vieram inicialmente como sonhos, ou como ocorrências sincronísticas, que desenvolvi posteriormente por meio de exercícios de imaginação ativa. Um dos símbolos que surgiu foi o de Ártemis, e passei muito tempo contemplando isso. Ao longo de seu domínio sobre rios, portos, montanhas e caça, ela também é uma deusa que pune os predadores sexuais e protege as virgens. Bezimena tornou-se essencialmente uma releitura do mito de Ártemis, ou Diana, e Acteon.

Qual foi a recepção da sua família em relação a Terra-Pátria?

Ficaram todos satisfeitos e me apoiaram.

Você conta no livro como a sua avó era uma grande contadora de histórias e como você gostava de estar na companhia dela. O quanto essa relação com a sua avó influenciou a sua carreira como autora e contadora de histórias? 

Se não fosse por minha avó, eu nunca teria me tornado uma contadora de histórias. Eu costumava praticar a minha escrita escrevendo as memórias de guerra dela. Ela era uma criança-soldado e se juntou aos guerrilheiros iugoslavos aos dezesseis anos. E, poxa cara, como ela sabia contar uma história! Ela mantinha uma sala inteira sob seu feitiço!

Você começa o seu livro contando como as memórias da sua mãe são seletivas e como a memória da sua avó era boa. Como é a sua relação com as suas memórias?

Eu definitivamente me apego às minhas memórias. Às vezes, eu gostaria de poder apagar algumas Um dos desafios da minha vida é viver o momento, e me esforço muito para isso.

“Enquanto houver ‘eles’ e ‘nós’, teremos outra pessoa em quem projetar nossos demônios”

Página de Terra-Pátria, obra de Nina Bunjevac publicada no Brasil pela Zarabatana Books (Divulgação)

Terra-Pátria mostra como ódio e extremismos fomentam mais ódio e extremismos. Estamos vivendo em um mundo que parece cada vez mais extremista e cheio de ódios. Você vê muitos paralelos entre a realidade vivida pelo seu pai, a família dele e a sua família e a nossa realidade atual?

Acho que o que aconteceu na Iugoslávia foi apenas a amostra de monóxido de carbono que matou o canário. Estamos agora experimentando toda a explosão disso. O filósofo austríaco Rudolf Steiner teria chamado isso de “a guerra de todos contra todos”. Então, deve ser algo que vem da natureza humana, como agora está se manifestando globalmente.

Quais são as suas principais reflexões sobre a invasão russa à Ucrânia?

Um amigo meu, o astrólogo Ray Grasse, me enviou um artigo que escreveu em 1982, sobre a relação entre EUA e Rússia (na época União Soviética), que ele vê como a repetição da mesma dinâmica estabelecida pela divisão do Império Romano em as partes ocidentais e orientais, ou o Cristianismo no Catolicismo e na Igreja bizantina. Enfim, ele vê o mundo ocidental e os EUA representando o Império Romano do Ocidente e a Rússia representando o Império Romano do Oriente. Isso está enraizado em suas mitologias, costumes, seu senso de significado ou pertencimento. Ambas as contrapartes são expansionistas e tendem a colonizar. Essa dinâmica ocorreu ao longo da história e durante a Guerra Fria. Eu tendo a concordar com isso, e o que estamos testemunhando agora [com a guerra na Ucrânia] é o mais recente na disputa global, entre as encarnações mais recentes desta divisão, a OTAN e a Rússia.

Você vê alguma relação entre a invasão russa à Ucrânia e a história que você conta em Terra-Pátria?

Com certeza. Em nenhum lugar estão as réplicas dessa divisão no Império Romano, e o Cristianismo em Catolicismo e Ortodoxia Oriental, tão evidentes quanto nos Bálcãs, já que a península balcânica tem sido uma fronteira histórica entre os dois. É tão irônico que todos parecem perder a mensagem dos Evangelhos: crer em Cristo é amar o próximo. Ivan Dominic Illich, padre católico romano, filósofo e crítico social, escreveu sobre como, nos primeiros séculos do cristianismo, cada casa teria um colchão extra pronto, um pedaço extra de pão e água, caso um estranho batesse à porta precisando de abrigo. A caridade, ou a crença em Cristo, era uma questão de escolha pessoal. Quando o cristianismo chegou aos Bálcãs, já havia se tornado romanizado, institucionalizado e expansionista; o poder de escolha e discernimento pessoal foi sacrificado perante às instituições. Misturar a mentalidade de tribo de guerra, com religiões institucionais impostas pelas culturas guerreiras dominantes, e a subsequente divisão do cristianismo em catolicismo e ortodoxia oriental, foi uma receita para o desastre. Então, irmão lutou contra irmão, porque um apoiou Roma, ou OTAN, e outro apoiou Constantinopla, ou Ortodoxia Oriental, ou seja lá o que for.

Lembro da primeira vez que li o Palestina do Joe Sacco. Eu era muito novo e fiquei com a impressão que faltava uma página no fim da minha edição, porque era um final muito abrupto. Depois compreendi o ponto dele: são conflitos que não acabaram e não tem um fim em vista. O final de Terra-Pátria não chega a ser tão abrupto quanto o de Palestina, mas fiquei com a mesma impressão de não ter acabado. Os conflitos em torno da realidade da sua família também não parece ter chega ao fim. Essa leitura faz sentido para você? 

Totalmente. Isso continua acontecendo porque continuamos recontando a mesma história várias vezes. Enquanto houver “eles” e “nós”, teremos outra pessoa em quem projetar nossos demônios, em vez de nos voltarmos para dentro. Mas para conhecer a si mesmo adequadamente, é preciso separar-se do coletivo, física ou espiritualmente, e isso pode ser um processo muito doloroso para a maioria das pessoas.

“Acho que os leitores brasileiros vão entender meu trabalho. No fundo, somos todos iguais”

Página de Terra-Pátria, obra de Nina Bunjevac publicada no Brasil pela Zarabatana Books (Divulgação)

Fico curioso em relação à sua visão de mundo no momento. O Trump era o presidente dos Estados Unidos até outro dia e Bolsonaro – provavelmente mais estúpido, xenófobo, conservador e pior de todas as formas que Trump – é o presidente do Brasil. O que você acha que está acontecendo com o mundo? Você consegue ser de alguma forma otimista em relação ao nosso futuro? 

Muitas vezes penso em algo que Peter Ouspensky, o filósofo e místico russo escreveu em seu livro In Search of the Miraculous. O livro é um relato abrangente e extenso das idéias do professor de esoterismo grego armênio Georges Gurdjieff. O texto em questão vem das reflexões de Gurdjieff sobre a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Ele afirma que, em tempos em que grandes civilizações caem, as pessoas se tornam como autômatos, rejeitam o conhecimento e são facilmente manipuladas por seus líderes através do medo. Nesses momentos, escreveu Gurdjieff, o planeta reage a padrões psíquicos negativos e provoca mudanças climáticas. Isto foi escrito em 1915. Sinceramente, não vejo esperança, a menos que os indivíduos saiam da colméia e comecem a pensar por si mesmos.

Ainda sobre o Brasil: quais os seus sentimentos ao ver o seu trabalho publicado em um país como o Brasil? Você fica curiosa em relação à forma como seu livro vai ser lido e interpretado em um contexto tão diferente do seu?

Fico extremamente feliz por ser publicada no Brasil, e fiquei extremamente triste que a pandemia de COVID-19 começou quando eu planejava para participar de um festival por aí. Eu estava animada para conversar com as pessoas, aprender mais sobre as suas culturas e apenas respirar seu ar. Acho que os leitores brasileiros vão entender meu trabalho. No fundo, somos todos iguais.

Você pode recomendar, por favor, algo que está lendo, ouvindo e assistindo no momento?

Gostei muito do Ethos, minissérie turca da Netflix. Belo texto, especialmente para os conhecedores das ideias junguianas. Ouço regularmente o podcast This Jungian Life, apresentado por analistas junguianos que também são amigos. Recentemente, re-assisti alguns dos meus filmes favoritos. Dois me pegaram com mais força do que antes: Il Decameron, de Pasolini; WR Mysteries of The Organism, de Dusan Makavejev; e Seven Beauties, de Lina Wertmueller. Sempre recomendo esses.

Você está trabalhando em algum projeto novo no momento? 

Agora estou trabalhando em um quadrinho mudo de 25 páginas, inspirada em [Frans] Masereel, para uma editora francesa. Deve ser publicado em outubro deste ano.

A capa de Terra-Pátria, obra de Nina Bunjevac publicada no Brasil pela Zarabatana Books (Divulgação)
HQ / Matérias

Nina Bunjevac fala sobre família, pertencimento, guerra e Terra-Pátria

Conversei com a quadrinista canadense Nina Bunjevac sobre Terra-Pátria, obra recém-lançada em português pela Zarabatana Books (com tradução de Claudio R. Martini). O álbum conta a história da família da autora e a juventude dela na antiga Iugoslávia. A HQ é centrada principalmente na vida do pai dela, membro de um grupo nacionalista sérvio, e da avó materna, sobrevivente da Segunda Guerra Mundial e apoiadora do então presidente iugoslavo Josip Broz Tito (1892-1980). Bunjevac falou comigo sobre família, memória, pertencimento e guerra. Transformei essa entrevista com a artista em matéria para a Folha de S.Paulo e você lê o meu texto clicando aqui.

Entrevistas / HQ

Papo com Adão Iturrusgarai, autor de Paris por um Triz: “Paris influenciou muito o meu estilo”

Aguardo ansiosamente cada atualização da Correio Elegante, newsletter semanal mantida pelo cartunista Adão Iturrusgarai já há alguns anos. Graças a ela aprendi um monte sobre o início da carreira dele, li sobre as origens da célebre revista Dundum e compreendi um tanto sobre a lendária geração de autores da qual ele faz parte. Entre vários relatos de viagens e encontros com lendas dos quadrinhos mundiais, uma das fases mais inspiradas da newsletter narrou o período de pouco mais de sete meses do criador de personagens como Aline e Rocky & Hudson vivendo em Paris.

Paris por um Triz – Aventuras de um Cartunista (Zarabatana Books) reúne os textos de Iturrusgarai referentes ao seu período na capital francesa, entre agosto de 1990 e março de 1991.

Com 25 anos ao desembarcar na Europa, Iturrusgarai alimentava sonhos de uma carreira de sucesso na capital mundial do humor escrachado praticado e idolatrado por ele. As 248 páginas do livro sobre as aventuras do cartunista em Paris narram uma montanha-russa emocional marcada por amizades e paixões memoráveis e algumas decepções profissionais. Entre idas a bares com lendas do humor gráfico como Gilbert Shelton e Hunt Emerson e quadrinhos publicados em revistas locais, ele se vê solitário em outro país e sofrendo para arcar com seus gastos.

A importância desse período de Iturrusgarai em Paris para a vida pessoal e profissional do autor fez com que ele adiasse ao máximo seus relatos do período na França.

Quadro de HQ de Adão Iturrusgarai de 1993, publicada na revista General, inspirada no período dele na França (Divulgação)

“Quando a ideia de escrever sobre a minha estada em Paris começou a tomar um espaço importante da minha cabeça, comecei a fazer anotações, buscar fotos, blocos de rascunho e contatar pessoas”, me contou o autor. “Fui guardando tudo isso em um documento de Word. Um dia, depois de não ter mais o que escrever, respirei fundo e dei um nome a esse doc: Memórias de Paris. Então comecei”.

“No início foi meio intuitivo e anárquico. Depois me dei conta de que, mesmo sem ter experiência em folhetim semanal, os textos fluiam legais e sempre ficava um gancho para o seguinte. Eu tenho muito boa memória para coisas que aconteceram há muito tempo e tinha algumas fotos e anotações que me ajudaram a alinhavar as histórias. Lembro perfeitamente de alguns acontecimentos, como se tivessem acontecido ontem”.

Assim como a newsletter que o inspirou, Paris por um Triz é engraçado, trágico e revelador sobre a formação e a personalidade de um dos autores mais importantes do humor sem-noção nacional. Torço para ver outros recortes da newsletter de Iturrusgarai também acabarem no papel.

Reproduzo agora a íntegra do papo que bati por email com o cartunista. Ele me falou sobre o começo da Correio Elegante, comentou o impacto do período em Paris em sua vida pessoal e profissional e refletiu sobre sua estreia como escritor. A seguir, papo com Adão Iturrusgarai:

“Sempre tive vontade de escrever…”

Obra de Adão Iturrusgarai sob o mapa do metrô de Paris presente em Paris por um Triz (Divulgação)

Os relatos presentes no seu livro foram inicialmente publicados na sua newsletter. Você pode contar um pouco, por favor, sobre o ponto de partida da Correio Elegante?

Inicialmente o Correio era uma newsletter semanal com cartuns, frases e outras maluquices minhas. Era também uma forma de divulgar os produtos da minha loja virtual. Depois que veio a ideia de escrever textos. Eu sempre tive vontade de escrever, mas foi um processo lento até criar coragem. Comecei pouco a pouco, com textos curtos, até voar mais alto. Depois o texto se tornou o prato principal da newsletter.

E você sempre teve em mente narrar o seu período em Paris na newsletter?

Não. No início escrevia contos soltos e curtinhos. Depois vieram as memórias de infância, adolescência e época da faculdade. Na sequência sobre viagens pelo Brasil e a Nova York. Paris estava na manga mas eu sabia que era algo que tinha que ser longo e mais complexo. Demorei uns três anos para começar. E confesso que, no início, jamais imaginei conseguir escrever um livro desses.

Houve algum momento em que você sentou para planejar e organizar quais histórias seriam contadas em cada edição da newsletter? Pergunto isso porque eu sempre li a Correio Elegante como um imenso fluxo de memória, com você contando suas histórias à medida que elas vinham à mente. O que você pode contar sobre esse processo?

Quando a ideia de escrever minha estada em Paris começou a tomar um espaço importante da minha cabeça, comecei a fazer anotações, buscar fotos, blocos de rascunho e contatar pessoas. Fui guardando tudo isso em um documento de Word na nuvem. Um dia, depois de não ter mais o que escrever, respirei fundo e dei um nome a esse doc: Memórias de Paris. Então comecei. No início foi meio intuitivo e anárquico. Depois me dei conta de que, mesmo sem ter experiência em folhetim semanal, os textos fluiam legais e sempre ficava um gancho para o leitor esperar pelo seguinte. Eu tenho muito boa memória para coisas que aconteceram há muito tempo e tinha algumas fotos e anotações da época que me ajudaram a alinhavar as histórias. Lembro perfeitamente de alguns acontecimentos, como se tivessem acontecido ontem.

“Eu queria mergulhar na cidade, ver, sentir, viver como se fosse um francês”

Adão Iturrusgarai com amigos durante seu período vivendo na Europa (Divulgação)

Essa sua temporada em Paris foi marcada por grandes encontros. Houve algum em particular que te impactou mais? Houve alguma relação pessoal durante esse período que foi mais marcante para a sua vida?

O mais legal disso tudo são as amizades. Estamos em 2022. Passaram 32 anos e eu tenho amigos parisienses. Sempre que volto lá, dou um jeito de reencontrar essas pessoas e visitar lugares que morei ou frequentei. As amizades podem ser eternas e isso é algo que emociona muito.

Minha ideia inicial era passar dois dias em Paris em 2019, quando viajei a Madri, e percorrer a cidade seguindo meus passos, a cronologia das minhas mudanças. E ir fotografando e filmando para ajudar no processo. Mas infelizmente não pude fazer o bate e volta Madri-Paris-Madri. Também tiveram os encontros com grandes artistas como: Gilbert Shelton, Jano, Hunt Emerson. Ah, e claro, um show do Pixies. Este acabou ficando de fora do livro.

Passados quase 30 anos desse seu período na França, qual balanço você faz dessa sua temporada em Paris? Como você acha que esses anos convivendo com autores, cartunistas e quadrinistas estrangeiros impactou as suas técnicas e a forma como você pensa o seu trabalho?

Não desenhei muito, compulsivamente, em Paris. Eu queria mais mergulhar na cidade, ver, sentir, viver como se fosse um francês. No final da minha estada me dei conta que Paris tinha influenciado muito o meu estilo. E foi um grande aprendizado. Talvez um dos maiores da minha vida. Mesmo nos momentos mais sofridos. E felizmente eu pude desfrutar da Paris analógica. Era uma cidade mais escura e mais leve. Hoje está demasiado frenética. Foi a preparação para voltar para o Brasil e encarar mudar para São Paulo. Paris foi o estágio para São Paulo.

Não consigo pensar em artistas que prezem tanto pela liberdade de expressão e pelo seu direito de usá-la quanto os franceses. O quanto a forma como os franceses pensam humor influenciou o seu trabalho após esse período em Paris?

Eu já estava “pego” pelo humor francês mesmo antes de ir para lá. Essa foi uma das razões de escolher a cidade. O humor naquela época era mais livre. Os franceses prezam muito a liberdade de expressão. Quando rolou o atentado ao Charlie Hebdo eles foram às ruas para manifestar-se, mesmo não concordando com algumas coisas que a revista publicava.

“Meus maiores ídolos são franceses”

Adão Iturrusgarai com Fábio Zimbres e Gilmar Rodrigues pouco antes de sua ida para Paris (Divulgação)

E o que mais te interessa na forma como os franceses pensam o humor? Aliás, o que mais te interessa em fazer humor hoje?

Esse humor sacana, safado e sem freios. Principalmente da época da Charlie Hebdo, L’Echo des Savanes, Hara Kiri. Wolinski, Reiser, Vuillemin, meus maiores ídolos são os franceses.

Qual balanço você faz da sua experiência escrevendo a Correio Elegante e editando Paris por um Triz? É muito diferente para você publicar um livro apenas com textos, sem imagens, em comparação com seus títulos prévios com ilustrações?

É diferente, tipo “brinquedinho novo”, hehe. Escrever sempre foi um desafio e conseguir lançar um livro desses foi como realizar um sonho. E estou gostando de experimentar outras coisas, além do cartum: artes plásticas, escrita, fotografia. A verdade é que estou muito satisfeito com minha produção atual. E nem sempre foi assim.

Você poderia recomendar algo que esteja lendo, ouvindo ou assistindo no momento?

Séries: vi um documentário do Dave Chapelle, humorista também sem papas na língua. Me diverti muito com Inbetweeners, série inglesa. Adoro também o humor britânico. Qualquer coisa do Monty Phyton. Breaking Bad, a melhor série de todas.

Livros: Marrom e Amarelo, Paulo Scott. Pergunte ao Pó, do John Fante. Serotonina, do Michel Houellebecq. Sobre os Ossos dos Mortos, Olga Tokarczuk. Paris é Uma Festa, do Ernest Hemingway. O Velho e o Mar, também do Hemingway. 

A capa de Paris por um Triz, livro de Adão Iturrusgarai publicado pela Zarabatana Books (Divulgação)
HQ

Uma conversa com Carlos Neto sobre Fugir – O Relato de um Refém e os quadrinhos de Guy Delisle

Já escrevi por aqui como Fugir – O Relato de um Refém é um dos melhores quadrinhos publicados no Brasil em 2018. Eu entrevistei o autor da obra, o canadense Guy Delisle, e escrevi sobre a HQ pro UOL. Agora sentei para conversar sobre o álbum com o Carlos Neto, editor do canal Papo Zine. Chamamos atenção para o que consideramos de mais interessante na HQ e apresentamos algumas relações entre Fugir e trabalhos prévios de Delisle. Papo massa. Dá o play:

Entrevistas / HQ

Papo com Guy Delisle, o autor de Fugir – O Relato de Um Refém: “Você não sabe o que faria em uma situação tensa que nem aquela”

Fugir – O Relato de Um Refém é o mais recente trabalho do quadrinista canadense Guy Delisle publicado em português. Eu escrevi sobre a obra lançada por aqui pela Zarabatana Books para o portal UOL. No texto eu apresento algumas aspas da minha entrevista com o autor, tratando principalmente do processo de adaptação para quadrinhos do relato do trabalhador humanitário francês Christophe André sobre seus 111 dias como refém de uma milícia no Cáucaso no ano de 1997. Com 432 páginas, o livro oferece uma experiência de leitura angustiante, sempre propondo ao leitor possíveis questionamentos em relação a quais escolhas ele faria no lugar do protagonista da HQ.

Quinto livro de Delisle publicado no Brasil, Fugir é o primeiro não protagonizado pelo autor. Ao contrário dos diários de viagem Shenzhen – Uma Viagem à China, Pyongyang – Uma Viagem à Coreia do Norte, Crônicas Birmanesas, Crônicas de Jerusalém e do bem-humorado Guia de Um Pai Sem Noção, Delisle se faz presente apenas na primeira página de Fugir, entrevistando Christophe André. Ainda assim, após ambientar seus trabalhos mais conhecidos em locais com governos ditatoriais ou conhecidos pelas restrições impostas aos seus cidadãos, Fugir soa como o mais recente capítulo de uma série sobre pessoas em contextos de falta de liberdade – tópico obrigatório para um Brasil em meio a uma disputa presidencial protagonizada por um candidato militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista.

Recomendo demais a leitura de Fugir – O Relato de Um Refém e da minha matéria sobre o quadrinho para o UOL. Depois volte aqui e leia a íntegra da minha entrevista com Delisle, conversa muito interessante sobre a construção de sua HQ mais recente, a dinâmica de seu trabalho com Christophe André e as reflexões que vieram à mente dele enquanto desenvolvia o álbum. Com vocês, papo com Guy Delisle:

[A entrevista a seguir foi traduzida pelo jornalista, crítico, pesquisador e tradutor Érico Assis. Valeu pela ajuda, Érico!]

“Tínhamos que transformar isso em história em quadrinhos. E ele falou: ‘Claro, por que não?'”

Você lembra do momento em que teve a ideia de contar a história do Christophe André em HQ? Aliás, você lembra como a mídia francesa noticiou essa história?

Eu tinha lido o diário de Christophe no jornal e depois tive oportunidade de encontrá-lo num dia que ele estava com amigos da Médicos Sem Fronteiras, que me avisaram: ‘Ele vem almoçar conosco.’ Como eu já conhecia a história, comecei a fazer perguntas, mas pensei que uma pessoa que tivesse passado por uma experiência daquelas não ia gostar de contar. Fui pensando: que trauma, ele não vai falar muita coisa. Só que, na verdade, ele foi muito aberto. Contou a história inteira a todos nós, com detalhes, e aquilo foi tão fascinante que eu pensei: Uau, tínhamos que transformar isso em história em quadrinhos. E ele falou: ‘Claro, por que não?’ Levei bastante tempo, mas desde ali, desde o princípio, eu percebi que embora a maioria das pessoas que é sequestrada não goste de contar a experiência, esse cara era diferente porque ele tinha fugido. Como ele mesmo disse: ‘Fugir é a melhor terapia’. Por isso ele não se sentia vítima nem nada do tipo. Se sentia inclusive mais forte que antes do sequestro. Por isso que não tinha problema em contar.

Você poderia falar um pouco da dinâmica do seu trabalho com o Christophe André? Como ele recebeu a sua proposta de transformar a história dele em quadrinho?

Passamos só um dia juntos, mas ficamos em contato durante os 15 anos que eu levei para fazer o álbum. Ficamos muito amigos porque temos muito em comum. Acho que é por isso que o quadrinho está aí, pois de outro modo acho que teríamos perdido o contato. A partir da gravação eu fiz várias anotações, coloquei em ordem e comecei a trabalhar. Eu enviava as páginas pra ele, pois foi a primeira vez que coloquei palavras na boca de alguém e no começo achei muito difícil. Ficava pensando: o Christophe vai ter que ler isso aqui. Se não eu vou ficar num bloqueio constante. Então eu fazia 10 ou 15 páginas, enviava pra ele, ele me dava um retorno e eu seguia adiante. Eu não queria que ele tivesse surpresas negativas no final, quando recebesse o livro. Queria que ele soubesse o que estava no livro e concordasse com tudo.

“Um amigo tirou fotos minhas seminu na cama e no chão, que na época deu uma sensação muito esquisita, mas ajudou bastante porque optei por um desenho mais realista que o meu normal”

Uma grande diferença entre o Hostage e os seus livros de viagens é que você não teve a experiência de estar presente no local em que a sua história é ambientada. O processo de criação desse livro foi muito diferente desses outros? Você usou muitas referências fotográficas? Como decidiu o que desenhar?

Bom, a maior parte do livro se passa em uma sala onde não tem nada, e isso é bem fácil de desenhar. No resto, tirei fotos de mim mesmo amarrado a um radiador no meu estúdio. Tenho algemas que comprei porque sabia que era uma coisa que ia desenhar por 400 páginas. Um amigo tirou fotos minhas seminu na cama e no chão, que na época deu uma sensação muito esquisita, mas ajudou bastante porque optei por um desenho mais realista que o meu normal. Foram boas referências. Depois disso, quando ele foge e estamos na Chechênia, procurei imagens vilarejos na Inguchétia e na Geórgia porque na internet, quando se procura Chechênia, só se encontra lugares fechados, nada externo.

Você poderia falar um pouco das suas técnicas?

Desenho tudo no papel e depois escaneio. Eu desenhava em folhas avulsas em vez de ter uma prancha final, porque queria chegar no aspecto de rabisco. Não apagava nada. Saía desenhando e ficava com o que me deixasse satisfeito, e no fim do dia escaneava tudo e deixava a montagem da página para depois, no computador. Sombreamento e tons de cinza também foram no computador. Ou seja, metade do dia era desenhar e escrever, isso pela manhã. Aí no fim do dia eu escaneava e montava. Em um dia normal de trabalho, costumo fazer uma página.

“Christophe dizia: ‘Com uma pressão dessas, você vira uma pessoa bem diferente.'”

Mesmo não tendo tantas variações de cores, Hostage é o seu livro mais colorido, certo? Como você chegou nessa paleta específica de tons azulados e cinzas?

O desenho é simples, as cores são simples. Ele me dizia que ficou numa penumbra cinzenta. Não havia luz total no quarto. Era sempre meia luz, o tempo todo. Então resolvi mostrar isso com variações de cinza e um tom de azul. Foi isso.

Eu acho que o maior mérito do livro está em colocar na cabeça do leitor a dúvida do que ele faria no lugar do seu personagem. Você costuma especular sobre o que teria feito no lugar do seu protagonista?

Não sei. Christophe dizia: ‘Com uma pressão dessas, você vira uma pessoa bem diferente.’ Ele é um cara bem tranquilo e, quando pensa no que fez, é uma coisa que vai quase além da imaginação. Mas ele fez. E, como ele diz, você não é mais o mesmo. Você vira outra pessoa. Ou seja, você não sabe o que faria em uma situação tensa que nem aquela.

O quadrinho saiu em inglês como Hostage e em francês como S’Enfuir. Você que decidiu as duas versões do título? Aliás, foi difícil determinar qual seria o título?

Só escolhi o título em francês e deixei os outros a cargo de cada tradutor.

Os seus livros tratam principalmente de liberdade e de locais nos quais ela tem alguma restrição. O mundo está cada mais conservador e hostil em relação a liberdades individuais. O que você pensa sobre isso? Você é pessimista ou otimista em relação ao nosso futuro?

Depende do dia.

HQ / Matérias

Fugir – O Relato de Um Refém: Guy Delisle e os 111 dias de cativeiro de Christophe André

Eu entrevistei o quadrinista canadense Guy Delisle sobre Fugir – O Relato de Um Refém, obra recém-lançada no Brasil pela editora Zarabatana Books e uma das melhores HQs publicadas em português em 2018. O álbum adapta para quadrinhos um longo depoimento do trabalhador humanitário francês Christophe André sobre o período de 111 dias no qual ele ficou como refém de uma milícia na região do Cáucaso no ano de 1997.

Na nossa conversa, o autor falou sobre sua dinâmica com André durante a produção do livro, suas reflexões em relação ao drama vivido por seu personagem e a experiência de não dar as caras como protagonista após estrelar a tetralogia autobiográfica composta por Shenzhen – Uma Viagem à China, Pyongyang – Uma Viagem à Coreia do Norte, Crônicas Birmanesas e ‘Crônicas de Jerusalém. Esse papo virou matéria no UOL e você lê a minha matéria por aqui.