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Posts por data agosto 2018

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Comic Arts Brooklyn, por Emil Ferris

Tô numa fase Emil Ferris, lendo e relendo My Favorite Thing is Monsters, aí esbarrei com esse cartaz aqui em cima, trabalho da quadrinista pro Comic Arts Brooklyn 2017, realizado em novembro do ano passado em Nova York. O evento é organizado pelo Pratt Institute em parceria com a comic shop Desert Island. Junto com a Emil Ferris estiveram presentes Chris ‘The Warewolf’ Ware e Jules ‘Dr. Feifferstein’ Feiffer. Demais.

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PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #5: Proporções extremas e a insignificância humana no Universo]

E aí, já apoiou a campanha de financiamento coletivo de PARAFUSO ZERO – Expansão? Trata-se do próximo álbum do quadrinista Jão, no qual estou trabalhando como editor. A obra é ambientada em uma cidade na qual grande parte da população tem superpoderes e, por isso, brigas, mortes e confrontos épicos se fazem presentes rotineiramente em cada esquina. Recomendo uma olhada com calma nas opções de apoio e nas recompensas do projeto. Prometo uma das obras mais singulares que você já leu.

Enquanto isso, dou continuidade por aqui à série PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores, com depoimentos do Jão sobre o desenvolvimento do álbum e reflexões do autor em relação às técnicas, estilos e temas abordados por ele na HQ. No post de hoje, ele fala sobre as proporções mínimas de seus personagens em meio aos cenários colossais de seus quadrinhos. Saca só:

PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #5: Proporções extremas e a insignificância humana no Universo]

O rolê de cidades

“O desenho de cidades está sempre presente no meu trabalho e nos últimos dois anos eu me questionei bastante sobre isso. Eu achava que estava me repetindo muito, que havia uma presença excessiva de cidades nos meus quadrinhos. Desenhar muito essa ambientação urbana estava me incomodando, como se eu estivesse fazendo sempre a mesma coisa, mas hoje eu consigo ter uma visão diferente sobre essa questão.

Eu comecei a estudar outros artistas, artistas de fora da área de quadrinhos, e muita gente tem essa piração de séries temáticas de tempos e tempos, abordagens mais ou menos parecidas durante períodos específicos. Eu não entendia isso muito bem, eu queria fazer coisas novas e não conseguia sair desse rolê de cidade. Aí comecei a me questionar cheguei a conclusões que culminariam na PARAFUSO. Eu entendi o que esse rolê de cidades significava para mim, como ele deveria estar presente no meu trabalho e o que eu gostaria de fazer de diferente com ele. Foi quando surgiu a ideia de repetição de um mesmo cenário.

Se você pegar a Baixo Centro, ela tem essa coisa da cidade e a câmera passando por diversos lugares, às vezes ela muito próxima de uma cena, às vezes distante. Já na PARAFUSO não é essa a ideia. É uma câmera parada, focando em uma mesma esquina, sempre estática dentro desse cenário colossal. Os personagens pequenininhos surgem a partir dessa estrutura inicial de pensamento sobre o desenho de cidade”

Plasticidade zero

“Em relação aos personagens em si, acho que tem a ver com a minha abordagem para super-heróis. Normalmente, quadrinhos de super-heróis são muito dinâmicos, o personagem aparece em vários closes, aí tem aquelas poses radicais e a câmera girando em torno dele, o desenhista fica pirando em cima dessa coisa. No instante em que comecei as minhas reflexões sobre a presença de cidades no meu trabalho, concluí que queria fazer uma história de super-heróis que fosse diferente do tradicional. Eu quis deixar esses personagens distantes o suficiente do olhar do leitor para insinuar quem é aquele personagem, mas sem dar muitos traços, evitando ao máximo qualquer close – uma ferramenta que nem estará presente em PARAFUSO ZERO – Expansão. Eu não quero detalhar as feições, apenas insinuar que esses personagens são super-heróis e estão utilizando seus poderes.

No início de 2018 eu encontrei com o Rodrigo Qohen, coautor de O Parricídio, enquanto eu passeava pela Feira Plana, em São Paulo, e ele me falou algo sobre o universo da PARAFUSO que eu não tinha atinado ainda. ‘Jão, o que eu gosto na PARAFUSO é que você consegue fazer uma história de super-herói como se fosse uma coisa real’. Se os super-heróis existissem no mundo real e começassem a brigar, não ia ter essa plasticidade dos filmes e dos quadrinhos, ia ser uma coisa meio feia. A PARAFUSO é muito sobre isso, uma coisa meio ridícula daqueles personagenzinhos brigando e a câmera registrando de longe, sem nenhuma plasticidade”.

A insignificância humana no Universo

“O cenário colossal do quadrinho também vem de outro lugar. Quando eu comecei todos esses questionamentos eu estava pensando muito no Jorge Luis Borges e no H.P. Lovecraft. Eles têm essas construções gigantes, megalomaníacas e colossais. Eu ainda quero fazer coisas ainda mais absurdas nesse sentido, em termos de ambientações gigantescas com personagens pequenininhos. Junto com isso, eu também queria tentar tirar as histórias de super-heróis do universo dos comics e inserir em um contexto meu. Desde o início, a PARAFUSO tem como objetivo ser uma história de super-heróis do Jão. Eu não queria fazer uma história de super-heróis, mas uma história de super-heróis dentro do que eu estava criando e que ela conversasse com tudo o que eu estava fazendo naquele momento. Tudo isso junto com a influência desses escritores e essas ideias de grandiosidade perto da insignificância humana no Universo”.

Simplificar ao máximo

“Esse meu período de vários insights interessantes em 2015 e 2016 ocorre em uma época em que estava trabalhando com animação. Em animação, o trabalho é muito grande e é preciso simplificar muito as coisas, falar muito com pouco. Às vezes, em uma animação, você tem que fazer um único desenho, uma expressão ou um movimento, para expressar muita coisa. Se você for retratar tudo que um personagem faz, vai demorar um mês desenhando para uma cena de dois ou três segundos. Então eu puxei esse aspecto da animação pro meu trabalho. Como eu tenho essa câmera mostrando o personagem de longe, pequenininho, eu tenho que mostrar muito do gestual e dos trejeitos para o leitor compreender o que eu quero passar.

Por isso tudo, na PARAFUSO ZERO – Expansão eu não vou mais fazer uso de closes, a minha ideia é dialogar com infografia, expressando sentimentos por meio de símbolos, como os botõezinhos de curtir e as expressões de sentimentos do Facebook. Pode ser que até apareça algum close e algum rosto nesses elementos de infográficos, mas só. E essa praticidade vem da minha experiência com animação, acho que todo quadrinista deveria fazer alguma coisa de animação. A minha experiência foi para uma série chamada Às Vezes, para o canal de TV Rede Minas. Ela saiu no mesmo ano do Baixo Centro e acho que esse livro não teria saído sem o trabalho de animação. Com ela eu fiquei mais preparado para lidar com o desafio de simplificar ao máximo, mesmo trabalhando pra caramba, para expressar tudo o que gostaria de expressar”.

Todo mundo pode morrer

“Com a PARAFUSO, a minha ideia é que os personagens não me guiem em termos de roteiro, que eles sejam apenas peças dentro de uma história maior. Os manuais de roteiro falam para você nunca fazer isso (risos). Mas eu quero eles como peças, sem explorar sentimentos. Esse tipo de narrativa também está em pauta atualmente com ‘Game of Thrones’. Eu nem assisto a série, mas sei que o George R.R. Martin usa os personagens como peças, matando quando é conveniente. Ele me parece também estar querendo propor algo novo dentro do gênero de fantasia. Da mesma forma, dentro dessas histórias que eu tô criando na PARAFUSO, nesse mundo dos superseres, o leitor não deve se apegar a ninguém, todo mundo pode morrer.

Até por isso, o meu roteiro para esse trabalho é muito simples, eu mesmo não quero saber exatamente o que vai acontecer. Não quero saber quem vai morrer e quem não vai, se eu vou me apegar a alguém e vou matá-lo, se vou me apegar a alguém e ele vai sobreviver. Isso aí eu tenho deixado pro feeling de quando eu tô produzindo. Vou pelo sentimento do que tá rolando, vou fazendo e construindo e eu acho que isso acaba passando esse sentimento pro leitor também: ninguém tem controle de nada. O leitor também será guiado por essa narrativa e vai acabar chegando em algum lugar. Pode chegar lá junto comigo ou não. O importante é que ele terá passado por essa experiência”.

CONTINUA…

ANTERIORMENTE:
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #4: A origem do ‘Formato Jão’];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #3: Um sonho com Moebius];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #2: Baixo Centro, Flores e texto];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #1: origens, restrições e OuBaPo].

Entrevistas / HQ

Papo com Fabio Zimbres, coautor de Música para Antropomorfos: “Partimos do zero para criar uma coisa que não sabíamos o que era”

Rola hoje (23/8) aqui em São Paulo o primeiro evento de relançamento do álbum Música para Antropomorfos, HQ assinada pelo quadrinista Fabio Zimbres e pelo grupo Mechanics. O evento está marcado para começar às 18h, na loja da Ugra (Rua Augusta, 1371, loja 116), e contará com a presença de Márcio Jr., vocalista do Mechanics e um dos coautores do projeto. Eu estarei por lá pra mediar essa conversa com o quadrinista/músico, que depois participará de uma sessão de autógrafos. Você encontra outras informações sobre esse relançamento na página do evento no Facebook.

Eu escrevi sobre esse relançamento de Música para Antropomorfos pela Zarabatana Books para o caderno de cultura do jornal O Globo. Na matéria eu conto a trajetória do livro até aqui e falo sobre o desenvolvimento da obra, um clássico moderno das HQs brasileiras. Ontem eu publiquei por aqui a íntegra da conversa com Márcio Jr que deu origem ao meu texto e agora eu compartilho a minha entrevista com Zimbres. Então faz assim: leia o meu texto, leia a entrevista com o Márcio Jr., retorne para essa aqui com o Fabio Zimbres e apareça no evento de hoje à noite. Combinado?

“Era mais ou menos como se aquela música fosse trilha de algum filme, por exemplo. Eu ouvia a música e, com os olhos fechados, imaginava o que podia estar acontecendo”

Você lembra do convite do Mechanics para entrar no projeto que viria a ser o Música para Antropomorfos? Como você recebeu essa proposta?

Eu não tinha uma ideia definida de como seria o trabalho em si. Geralmente eu gosto desse tipo de proposta, você meio que sai do normal. Justamente por não saber exatamente que tipo de coisa seria, era mais atrativo ainda. Estávamos partindo do zero para criar uma coisa que não sabíamos o que era. E eu também gosto de me envolver com música, então existia esse outro atrativo.

A proposta do Márcio foi: ‘O Mechanics tem um disco novo e eu quero misturar com quadrinhos de alguma maneira, não sei como’. Ele deixou aberto para que eu imaginasse o que poderia ser isso. Eu perguntei se era um disco que vinha em um encarte. Aí ele disse: ‘Não. Pode ser isso, pode ser outra coisa, pode ser o que você imaginar. Pode ser o contrário, um livro que vem com um disco’. Então tava bem aberto no começo e eu achei isso legal. Na verdade, aos poucos a ideia foi se formando e virou um livro. Eu nunca tinha feito nada perto de uma graphic novel, com várias páginas. Uma vez que achamos um caminho as coisas foram se juntando aos poucos, a maneira de usar a música, como integrar o quadrinho com o disco, essa coisa de ouvir a faixa e ir imaginando alguma coisa e tal… Isso tudo foi sendo feito aos poucos, só a partir do momento em que eu pensei que poderia ser mesmo um livro autônomo, tipo uma graphic novel. A estrutura das faixas transformadas em capítulos foi mais ou menos o ponto de partida que orientou como fazer o resto.

“Os diálogos e os personagens foram surgindo em função da necessidade. Existia um certo improviso que é muito presente em tudo o que eu faço”

Você pode contar um pouco sobre a dinâmica de produção do quadrinho? Você já tinha em mente uma história que queria contar antes de dar início ao livro ou veio tudo enquanto você ouvia as músicas?

Eu acho que teve um pouco das duas coisas. O processo mesmo era ouvir faixa por faixa e imaginar uma relação entre imagens e músicas. Era mais ou menos como se cada música fosse trilha de algum filme, por exemplo. Eu ouvia a música e, com os olhos fechados, imaginava o que podia estar acontecendo ali. Muitas vezes eram paisagens, desertos ou qualquer outra coisa. Eu conseguia imaginar aquela música como trilha para algo que estava rolando, uma câmera se movendo em algum lugar. A partir da música eu imaginava um clima e dentro daquele clima uma história se desenrolando. Eu não tinha uma história ainda, eu tinha uma série de imagens abstratas ou soltas, que não significavam muita coisa, apenas o que a música me sugeria. Daí eu anotava essas ideias que vinham em cada faixa.

Ao mesmo tempo, eu tinha uma série de coisas anotadas ou na minha cabeça a respeito de ideias que poderiam virar histórias. Há um tempo que eu vinha lendo as histórias do Hércules na mitologia grega e pretendia aproveitar certas trechos como tema para uma história em quadrinhos. Também queria trabalhar com aparições inexplicáveis – ao longo do livro ocorrem várias aparições inexplicáveis que mudam o rumo da história. Eram coisas que estavam mais ou menos na minha cabeça, como essa ideia dos robôs, meio de ficção científica, mas que não tinha nada a ver com o trabalho em geral, a ideia de um monte de gente vivendo dentro desses robôs. Em geral eu faço coisas meio intimistas, personagens pensando consigo mesmo, e eu queria que essa história, tendo algo a ver com rock, fosse mais pop, mais próxima de uma aventura, mais próxima de algo de ação do que as histórias que eu costumo fazer. Então eu estava empurrando pra ficção científica. Essa ideia de que um robô poderia abrigar várias pessoas acabou caindo bem.

Eram coisas que eu ia pensando e juntando com histórias abandonadas e consegui achar um espaço pra elas dentro de cada capítulo. Eu tinha a ideia da estrutura, com capítulos mais ou menos independentes que construíam uma ideia única, como um romance formado por contos. Pra esses contos eu tinha uma ideia geral e ao longo do tempo fui criando uma espécie de plot. Eu sabia o que poderia acontecer naquele conto, mas eu realmente fazia no momento em que sentava e ‘bom, vamos fazer esse capítulo agora’. Os diálogos e os personagens foram surgindo em função da necessidade. Existia um certo improviso que é muito presente em tudo o que eu faço. Eu geralmente imagino uma coisa geral na minha cabeça, começo a desenhar e as coisas vão surgindo.

Então apesar de ter uma estrutura que eu fui criando e orientando pra fazer essa espécie de romance, na hora de sentar e produzir ainda tinha muito espaço pra improvisar. Surgiu das músicas, das ideias bastante abstratas que elas me sugeriram, e coisas um pouco mais concretas em termos de ação foram sendo estabelecidas aos poucos. O resultado final ainda teve um input de criar ali na hora, diálogos e mudanças de plot que acabavam surgindo no momento de desenhar.

“Eles me pressionaram, ‘Pô, tá demorando’. Acho que levei uns três anos pra fazer o livro, uma coisa mais ou menos do meu ritmo. Imaginando um livro tão grande, três anos tá bom até”

Em qual momento você apresentou para banda o que havia produzido? Você já estava com o quadrinho finalizado?

Desse detalhe eu não me lembro. No momento que surgiu a ideia de ser essa espécie de romance, eu falei: ‘Ó, quero fazer um livro, vão dar umas 10 páginas por capítulo, com umas cento e tantas páginas, é isso que tô imaginando’. O Márcio deu liberdade total, eu não tinha dado nenhuma ideia prévia e ele topou na hora. ‘Ah, beleza, se é isso que você quer fazer, vamos fazer, não se preocupa se dá pra fazer, se temos dinheiro ou não’. Ele tinha a estrutura das músicas e eu fiz a minha primeira ‘leitura’ delas, a partir da qual eu anotei algumas palavras-chave. Eu devolvi essas palavras-chaves pra eles terminarem as letras, que surgiram dessa minha viagem inicial nas músicas. As letras só foram completadas depois, a partir dessas ideias meio genéricas que eu tive.

Era uma coisa meio paralela, eles sabiam o que eu estava fazendo, mas não me lembro quando apresentei alguma coisa para eles. Acho que foi só quando eu terminei tudo. Não sei se eu gostaria de mandar em pedaços. Depois eles iam começar a criticar, então… Talvez eu tenha mandado o livro todo pronto, não tenho certeza se fui mandando aos poucos, acredito que não. Até por eu não ter começado pelo capítulo um, comecei pelo segundo e queria fazer o primeiro já imaginando um pouco o que ia acontecer nos outros, por ser uma história meio cíclica. Iam ter coisas do capítulo um que eu precisaria referenciar em trechos que eu não havia desenvolvido ainda. Com certeza não fui mandando capítulo por capítulo, mas eu não me lembro realmente do processo. Eu lembro que demorou muito. Eles reclamavam, o disco já estava pronto e eles se dedicaram bastante em termos de produção, fizeram a mixagem, já tava pronto e eu ainda tava no meio do livro. Eles me pressionaram, ‘Pô, tá demorando’.

Acho que levei uns três anos pra fazer o livro, uma coisa mais ou menos do meu ritmo. Imaginando um livro tão grande, três anos tá bom até, e não era uma coisa que eu podia me dedicar o tempo todo. Eu fazia nos intervalos. A minha parte demorou bastante. Tô chutando três anos, mas talvez tenha sido mais. Realmente demorou e acho que só mandei o final. Eu prefiro assim. Se você mostra aos pedaços, as pessoas começam a imaginar coisas, a sugerir, e eu gosto de ter liberdade de fazer e mudar.

Eu queria saber mais sobre a sua relação com as músicas. Como foi criar a partir de trabalhos tão abstratos como essas músicas sem letras?

O ponto inicial foi imaginar como se fosse um filme. A música era a trilha de alguma coisa e essa coisa poderia ser qualquer coisa. Eu fechava o olho e via um deserto e uma câmera se movendo nele como se fosse um carro. Ou então um quarto ou uma pessoa morta. Cada faixa era como se fosse um mini-trilha pra um curta. Pelo menos nesse primeiro momento eu não estava muito preocupado com uma certa unidade. Eu pulava de curta pra curta e achava alguma coerência entre a música que eu ouvia e a imagem que eu estava vendo. Uma coisa sugeria a outra. Tinha uma certa unidade com as faixas, mas eu sabia que no final das contas queria ter peças de uma coisa maior. De certa forma, fui ouvindo e forçando a barra pra que certas faixas se comunicassem.

Eu inclusive mudei a ordem das músicas. Eles me mandaram numa certa ordem e não sei se era a ordem que eles já tinham previsto pro disco. Eu ouvi e anotei aquelas ideias e percebi que mudando um pouco a ordem poderia criar essas peças que via como um conjunto. A parte abstrata, a música, acabou entrando assim, imaginando como filme, como cinema. Depois da atmosfera e do clima, eu fui imaginando personagens e ações que poderiam estar ocorrendo dentro desse contexto. As ações foram sugeridas por esse ambiente, que foi sugerido pela música. Aí nessas ações entraram essas ideias prévias que eu tinha a respeito do Hércules e coisas que eu gostaria de desenhar, como um robô andando em um cenário destruído e coisas assim, bem abstratas, bem abertas e que eu tinha vontade de desenhar. Eu tinha que imaginar que tipo de história está ocorrendo por trás disso que justifique um robô passando por um robô destruído. São coisas que fui juntando na cabeça e dando forma aos poucos.

Qual a origem dessas referências que você fez à história do Hércules?

Eu procurei os textos clássicos sobre ele. Os textos clássicos que descreviam as aventuras e os trabalhos dele, sobre a relação dele com Hera – de onde veio o nome dele, Herácles vem de Hera, a mulher de Zeus. A Hera perseguiu o Hércules, o atormentou a vida inteira por ciúmes, por ele ser o filho de Zeus com uma mortal. Ele vive uma série de situações interessantes, até a morte dele, uma espécie de… Bem, não chega a ser um sacrifício. No Música o personagem cai do robô que tá voando, fica em chamas pelo atrito com o ar e cai num poço de petróleo. E o Hércules originalmente morreu com um unguento que queimou a pele dele. Ele foi pro Olimpo sem a pele, ardia tanto que ele mesmo arrancou.

Eu não fazia questão de fazer uma descrição tão literal das coisas. Eu gostava das histórias que aconteciam com ele. Tem um personagem no livro que é Hera, alguns dos trabalhos estão citados ali, esse final dele pegando fogo e tal. Isso tá no livro.

“São dois robôs, dentro de um robô eu usei um estilo de desenho, fora desse robô um segundo estilo, no segundo robô a mesma coisa, no interior um estilo e no exterior outro”

Você poderia me falar um pouco sobre as técnicas que utilizou no livro? Como você determinou a estética do livro e qual material utilizou?

Cada capítulo foi feito em um estilo. São seis distintos, mas existem quatro momentos que formam a estrutura. São dois robôs, dentro de um robô eu usei um estilo de desenho, fora desse robô um segundo estilo, no segundo robô a mesma coisa, no interior um estilo e no exterior outro. Tem um capítulo intermediário e um capítulo inicial que usam outros estilos também. Cada estilo eu fiz de uma maneira diferente. Em um eu desenhei a lápis e ampliei o desenho pra ficar bem estourado, em outros eu desenhei na mesma proporção que seria impresso, com caneta. Ah, tem aquele capítulo em homenagem ao Jack Kirby, que também não tá dentro dessa estrutura que falei, é um capítulo à parte, com outro estilo ainda, seria um sétimo. Nele eu usei um outro tipo de caneta.

De certa maneira eu usei vários estilos que já dominava, eu já tinha feito várias histórias usando aquele material – lápis ampliado com contraste aumentado, nanquim e pincel, nanquim e bico de pena, desenho com canetinha um pra um e caneta grossa pra fazer o Jack Kirby -, então tinha uma série de coisas que eu já tinha lidado antes, não inventei nada de novo. Na verdade, as histórias que têm o desenho muito miudinho, bem pequenininho, que se passam dentro de um segundo robô, eram uma coisa que eu não tinha feito antes. Quando eu cheguei nessa parte, como seria dentro do segundo robô, do SF, eu meio que empaquei, não sabia pra onde ir. Foi mais ou menos a primeira vez que fiz essa coisa de diálogo pesado e desenho muito pequenininho e miúdo. Mas a técnica de desenho era coisa com que eu já lidava há bastante tempo.

O quadrinho foi lançado há mais de dez anos e está ainda mais atual. São sociedades capitalistas e industriais em crise, com as populações locais sendo exploradas por um sistema e por governos ditatoriais. Você também fica com essa impressão que ele ficou ainda mais atual com o passar dos anos?

Sim. É difícil eu me classificar como um autor político. Eu nunca fiz charge política. Já me envolvi como eleitor ou como apoiador de uma política ou outra, mas não com o meu trabalho. Não como outros autores, como o Dahmer, por exemplo. O meu trabalho não se insere na política dessa maneira, não acontece. Mas eu tenho trabalhos que no final das contas acabam lidando com os temas que tenho na minha cabeça e muitos deles são políticos.

Tem a história do Apocalipse Segundo o Dr Zorg, o primeiro Minitonto, que foi republicado agora pela Fantagraphics [nota do editor: a HQ mencionada por Zimbres foi publicada no segundo número da revista NOW], com o pessoal dizendo que ainda é relevante, é coisa de 20 anos atrás. Em geral, cada quadrinho que eu faço é um projeto em que eu me envolvo, crio certas coisas novas e depois vou pra um próximo. Não fico muito tempo envolvido com nada depois de lançar. Sai e eu já tô mais ou menos indo pra uma outra coisa.

Quando eu li a introdução que o Gerlach escreveu, falando que no quadrinho tem um golpe, em que derrubam a rainha e matam ela… (risos) Ele ficou surpreso e eu fiquei ainda mais por essas coisas ainda reverberarem hoje em dia.

De certa forma, eu não sou uma pessoa pessimista, mas o meu trabalho, de certa maneira, é pessimista e o mundo realmente está piorando. É horrível ter razão nesse sentido. Você desenha uma distopia e essa distopia vai ser ultrapassada pela realidade que tá ainda pior, isso é horrível. Mas no final das contas, se você é pessimista e vê as coisas dessa maneira meio sombria, você não pode negar, tem que trabalhar aquilo, desenhar aquilo. O que não quer dizer que eu não tenha humor, que eu não brinque. Algumas pessoas até se referem ao meu trabalho como um trabalho de humor. De qualquer maneira, eu sou meio pessimista em relação às coisas e as coisas estão piorando mesmo…

Eu pensei exatamente nessas figuras ditatoriais do começo da história. Elas estão se proliferando na nossa realidade…

Sim, pois é. É um golpe mesmo, personagens matando pessoas que estavam anteriormente apoiando pra ocuparem o poder. Os objetivos deles são bem escusos e é isso que a gente vê hoje em dia. Quando o Gerlach comentou isso eu falei: ‘Na época eu achava que era só uma ficção científica’ (risos). Eu não tava fazendo um comentário de política na época.

E sobre esse interesse recente crescente no livro. Ele tem uma edição colombiana, certo?

Tá sendo organizada agora uma edição em Portugal, pela Chili com Carne. Já tem um tempão que eu tava falando de fazer na França, mas sempre acontece alguma coisa. A gente não consegue produzir, fica sendo adiado e ainda não chegou a rolar. Mas é legal que saiu em espanhol, uma língua que circula mais fácil que o português. Na Colômbia eles tinham interesse no meu trabalho e não sabiam muito bem o que fazer e eu tinha o livro já pronto. Eles acharam interessante começar uma relação fazendo uma coisa que já tava pronto, no caso o Música.

O livro já foi bastante comentado e falado, mas como não tem uma edição em inglês a disseminação é lenta. O desenho também é mais atraente pra quem curte essa coisa autoral, que gosta do Gary Panter e essas coisas do tipo. Mesmo as pessoas não sabendo do que se trata acham divertido, mas enquanto história precisa de uma tradução pra pessoa poder entrar nela. É um momento interessante, acho que tem uma certa confluência com o Música estar saindo agora e com essa história ter sido traduzida na Now #2. Saíram críticas comentando e o pessoal gostou, o editor ficou empolgado.

Na verdade, a carreira internacional do Música, se pode ser chamada de carreira, tá acontecendo agora. Na Colômbia foi publicado no ano passado, em Portugal deve sair no próximo ano. E acredito que ainda tenha alguma tradução pra rolar aí.

Mesmo aqui no Brasil, eu fico com a impressão que vai chegar em um público que sempre ouvir falar no livro, mas nunca leu.

É, a tiragem original foi pequena mesmo. O Márcio fez o que dava na época. Ele disse que ia sair e realmente saiu, mas não tinha tanta estrutura pra distribuir e aumentar a tiragem. Me lembro até que, como a encadernação era meio artesanal ele tinha um amigo dentro da gráfica, o amigo comprou a ideia e caprichou na produção. Eu tenho inclusive a impressão que ele tinha até mais páginas rodadas, mas não tiveram condição de montar e encadernar. Então foi uma coisa meio artesanal, feita na raça.

E o título? Quem definiu?

Fui eu que dei. Eu tava escrevendo e não tinha a mínima ideia. Demorei bastante pra achar um título que me agradasse. Daí ficou esse aí, mas foi uma das últimas coisas. Acho que a história já estava pronta. Demorou muito pra fecharmos.

Entrevistas / HQ

Papo com Márcio Jr., coautor de Música para Antropomorfos: “O que buscávamos era uma troca contínua no processo de criação”

Está marcado para amanhã (23/8), na loja da Ugra, aqui em São Paulo, a partir das 18h, o primeiro evento de relançamento de Música para Antropomorfos, álbum assinado pelo quadrinista Fabio Zimbres e pelos músicos da banda Mechanics publicado originalmente em 2007 e recém-retornado às livrarias pela editora Zarabatana Books. Eu estarei presente no evento para bater um papo com um dos coautores do projeto, o músico e também quadrinista Márcio Jr. Vamos?

Eu escrevi sobre o relançamento de Música para Antropomorfos para o jornal O Globo, contando a trajetória do livro, a dinâmica da relação entre Zimbres e o Mechanics durante o desenvolvimento do projeto e o produto final – um clássico moderno das HQs brasileiras. Eu recomendo a leitura do meu texto e, em seguida, a entrevista a seguir, uma conversa com Márcio Jr. sobre a jornada de Música para Antropomorfos até aqui. Prometo para amanhã a entrevista com Zimbres, contando a versão dele para essa mesma história.

“A atmosfera das músicas – sem letra – trabalhadas pelo Mechanics serviria de catalisador para a criação de uma HQ pelo Zimbres. O feedback do Zimbres, por sua vez, ajudaria a banda a definir o disco”

Qual a memória mais antiga que você tem dos conceitos que culminariam no Música para Antropomorfos/Music for Anthropomorphics? Você consegue lembrar da origem exata desse projeto?

É difícil precisar isso. Mas para entender o processo todo, tenho que ir ainda mais longe. Minha graduação é em Engenharia Civil. Entrei moleque na Universidade Federal de Goiás. 17 anos, cabaço de tudo. Era bom em matemática, passei de primeira no vestibular e tinha aquela mentalidade completamente infantil de fazer um curso que me garantisse financeiramente. Uma tolice de criança sem orientação. Meu lance sempre foi arte, música, quadrinhos, cinema. Terminei a faculdade em 1994 – ano em que montei o Mechanics. Em 1995, fui um dos criadores do Goiânia Noise Festival – atualmente em sua 24ª edição consecutiva. Tive uma loja de discos que reunia a nata da malandragem roqueira de Goiânia. Em 1998 fui um dos criadores da Monstro Discos – cujo primeiro título lançado é justamente um compacto do Mechanics chamado Sex, Rockets and Filthy Songs. Dava aulas de Matemática e Física em supletivos de 2º grau pra levantar uma grana e, no resto do tempo, me dedicava à Monstro e à banda. Quem conhece o rock alternativo brasileiro sabe o que a Monstro e o Goiânia Noise representam nacionalmente. Transformar Goiânia num pólo e referência para esta cena independente é algo de que me orgulho muito. Só que, passados cerca de dez anos, resolvi voltar a estudar – agora numa área mais próxima ao que eu já fazia. Queria pesquisar Rock e Quadrinhos, minhas maiores paixões. Parti então para um mestrado na Comunicação da UnB, já que em Goiânia, àquela altura, seria impossível lidar com esse tipo de objeto de pesquisa. O Mechanics, como banda, sempre teve a pretensão de lidar com hibridação de linguagens. O nosso primeiro álbum, Psycho Love (2001), já teve toda a concepção gráfica criada pelo Zimbres. Pensei então em radicalizar esse trânsito entre Rock e quadrinhos como a experiência empírica do mestrado. Foi aí que surgiu a ideia do Música para Antropomorfos. Na época, além da Monstro, eu tinha um outro projeto com dois amigos, os irmãos Thiago e Eliseu Xavier. Tratava-se de uma editora chamada Livros Voodoo. Lançamos, ali por 2005, a revista Voodoo!, que de certa forma antecipou essa coisa de publicação metida a besta, com impressão em pantone, páginas quádruplas, stêncil, etc. Zimbres também foi o astro da parada, com capa, entrevista e HQ inédita. Uma coisa que considero legal é que o Música foi o primeiro produto gerado no programa de pós-graduação em Comunicação da UnB.

O livro Música para Antropomorfos e o disco Music for Anthropomorphics saem em 2007. O seu mestrado de 2005 tem como título Histórias em Quadrinhos e Música Pop: Possibilidades de Interface. Qual a relação entre esse trabalho e o projeto que culminaria no quadrinho do Zimbres e no disco do Mechanics?

O lançamento oficial do Música foi em 2007 e ele foi justamente a experiência empírica do meu mestrado, que se dispôs a pesquisar as interfaces entre Rock e Quadrinhos. Me intrigava muito as razões pelas quais duas linguagens tão distintas (uma, gráfica e estática; a outra, sonora e efêmera) buscavam frequente diálogo. Uma coisa que a pesquisa revelou é que, além das capas de disco, o contato mais usual entre HQs e Rock se dá por dois caminhos próximos: a quadrinização de uma música; ou a transformação de uma HQ em canção. O que o projeto Música para Antropomorfos propôs foi algo de outra natureza. A atmosfera das músicas – sem letra – trabalhadas pelo Mechanics serviria de catalisador para a criação de uma HQ pelo Zimbres. O feedback do Zimbres, por sua vez, ajudaria a banda a definir o disco. Todo o processo criativo encontra-se registrado em um capítulo da dissertação que você mencionou. Em 2015, atualizei este capítulo – com todos os desdobramentos ocorridos no projeto desde então – e ele faz parte do livro que eu lancei, o COMICZZZT! Rock e Quadrinhos: Possibilidades de Interface.

“Existe uma autonomia possível na fruição do projeto: você pode ouvir o disco sem ler a HQ, e vice-versa. Mas seria impossível disco e HQ ser o que são sem a determinante interferência de suas contrapartes”

Eu tô aqui falando no “projeto Música para Antropomorfos/Music for Anthropomorphics” e “no quadrinho do Zimbres/no disco do Mechanics”, mas eu queria saber quais são as suas definições sobre isso tudo. Você chama de projeto? Que nome você dá pra essa empreitada conjunta? E o disco é do Zimbres tanto quanto o quadrinho é de vocês? Como partiu a decisão de como cada obra seria assinada? Aliás, você vê o disco e a HQ como obras autônomas ou é tudo uma mesma coisa?

Esta é uma questão interessante. A bem da verdade, nunca tentamos categorizar rigorosamente o projeto. Essa tentativa de encapsular a experiência proposta pelo Música para Antropomorfos/Music for Anthropomorphics é antagônica à sua própria natureza – híbrida, transmidiática e que lida com a dissolução de fronteiras entre linguagens. Havia, à época do lançamento, uma dificuldade em lidar com o material. Em uma loja (ou uma coleção), aquilo ficaria entre os livros ou entre os discos? Em uma revista, em que seção iriam resenhar o trabalho? De qualquer forma, era usual nos referirmos ao produto como disco/livro. Para mim, é um projeto que tem vários desdobramentos, como o COMICZZZT!, a exposição do Zimbres, os shows e agora o filme O Evangelho Segundo Tauba e Primal. Assinamos o livro como uma criação conjunta Zimbres/Mechanics – ainda que todos saibamos que ali o trabalho do Zimbres seja absolutamente preponderante. No disco ocorre o inverso, com uma predominância do trabalho da banda. Mas o álbum tem o Fabio creditado como co-autor de todas as letras. Como eu já disse, existe uma autonomia possível na fruição do projeto: você pode ouvir o disco sem ler a HQ, e vice-versa. Mas seria impossível disco e HQ ser o que são sem a determinante interferência de suas contrapartes. Esta foi a experiência proposta e levada a cabo. O nosso desinteresse em nomear e hierarquizar essa experiência diz muito de sua matéria-prima – móvel e, de certa forma, inclassificável.

Durante muito anos, antes que eu pudesse ler o Música Para Antropomorfos, sempre que ouvia o nome do quadrinho, pela sonoridade, eu pensava no Music for Airports do Brian Eno. Aí depois eu li o quadrinho e vi todo o peso da ambientação da HQ do Zimbres e no diálogo que vocês criaram entre as canções e o quadrinho… Enfim, essa ideia da Música Ambiente teve algum peso na origem do projeto?

O projeto Música para Antropomorfos jamais usou o conceito de música ambiente como referência. A ideia não era criar uma ambiência sonora para a leitura da HQ, tampouco criar uma narrativa em quadrinhos que materializasse imageticamente as músicas do Mechanics – que, por sua vez, nunca teve vocação para músicas incorporadas harmoniosamente a qualquer ambiente. O que buscávamos era uma troca contínua no processo de criação. As músicas – ainda sem letra, mas já com melodias vocais numa letra ininteligível – afetando a produção quadrinística do Zimbres; e seus desenhos, conceitos e páginas nos direcionando para uma formatação definitiva do disco. É possível ler o livro e escutar o álbum isoladamente – mas eles jamais seriam o que são sem processo de criação interdependente que existiu. Fruídos simultaneamente, o que se propõe são novas produções de sentido, nascidas dessa fricção.

De qualquer forma, ainda que o Music for Airports não fosse uma obra de cabeceira do Música para Antropomorfos/Music for Anthropomorphics, a abordagem do Brian Eno sempre foi um dos nortes da banda e, principalmente, do projeto. Aquela coisa da dissolução dos limites entre arte e ciência, ou ainda o processo criativo ao mesmo tempo cerebral e intuitivo sempre estiveram em perspectiva.

Você se lembra do seu primeiro contato com uma obra do Zimbres? Você pode falar um pouco sobre como foi o seu primeiro contato com ele? Como foi a recepção inicial dele para o projeto?

Acho que foi por intermédio da Animal, de longe a melhor revista que já existiu no Brasil – e não estou falando apenas de quadrinhos. O Fabio era uma das mentes por trás daquilo tudo, além de ser o principal artífice do MAU. Ali tinha aquele lance do Maudito Fanzine, que não só articulava os fanzineiros do Brasil, mas tratava os zines não como algo amador, mas como um veículo repleto de infinitas possibilidades. Tudo isso que vemos acontecendo hoje no Brasil, com publicações e feiras de zines sofisticados – e, em alguns casos, gourmetizados – nasce ali, com o Fabio. Sempre fui fã de sua estética e abordagem. Acho que é um artista sem igual no Brasil – e mesmo no mundo. Depois do final da Animal, acabei me aproximando dele. Distribuía a Coleção Minitonto aqui em Goiás e logo ele topou fazer a capa do Psycho Love. Quando pintou a ideia do Música, apresentei o projeto pra ele e, para minha sorte e felicidade, ele topou.

Que tipo de diálogo vocês mantiveram antes, durante e depois da produção do quadrinho e do disco? Você pode falar um pouco dessa dinâmica?

Trabalhar com o Fabio é um privilégio sem tamanho. Existe um diálogo aberto, tranquilo e fácil o tempo todo. Nada de atritos ou imposições. Em todos os projetos, o que acontece é buscarmos o melhor resultado para aquilo que estamos nos propondo. Já fizemos outras tantas coisas juntos. Convidei o Fabio para criar a arte de uma das edições do Goiânia Noise Festival. Ele participou da Voodoo!. Já compôs algumas exposições aqui. Já trouxe ele para oficinas e palestras. E temos este outro grande trabalho que é O Evangelho Segundo Tauba e Primal, onde foi responsável pela brilhante direção de arte – além de participar ativamente de diferentes aspectos do filme. O Evangelho e o Música foram trabalhos longos, complexos, difíceis de ser realizados. Mas a gente sempre chega ao fim. Acho que pela formação em Engenharia e pela experiência como produtor cultural, acabo por ter esse papel de catalisar e viabilizar o trabalho.

Como foram as suas primeiras impressões do que ele estava fazendo no quadrinho?

Eu fiquei absolutamente chocado! Era incrível ver o Fabio destrinchar as sonoridades que enviávamos e dar as mais improváveis respostas àquilo. Eu tinha algo em mente e ele surgia com perspectivas completamente diferentes. Desfrutei muito de todo esse processo.

Qual foi a recepção do público na época do lançamento? Foi difícil explicar pra imprensa e pros leitores a proposta do que vocês tinham feito? Quais a suas expectativas para esse relançamento?

A recepção, por parte da crítica, foi excelente. Por outro lado, os veículos mainstream – como a Rolling Stone e a Bravo! – não souberam como lidar com o material, por não ser possível classificá-lo de forma convencional. Em pouco tempo, a tiragem se esgotou e uma determinada parcela do público não conseguiu ter acesso a ele. As expectativas com o relançamento é que tanto o pessoal que não conseguiu o Música na época, quanto o novo público de quadrinhos surgido na última década possam ter o material em mãos. Acho que a obra continua tendo um caráter único, mesmo na diversidade do atual panorama de quadrinhos no país.

“O trabalho impresso do Fabio se aproxima muito do universo mais arrojado das artes plásticas. E o sujeito tem uma visão de mundo absolutamente idiossincrática. Suas narrativas são sempre inusitadas e improváveis, ainda que muito cerebrais”

Você atua em muitas frentes, sendo uma delas como roteirista quadrinhos. Como quadrinista, como você analisa o trabalho do Zimbres? O que você considera de mais singular nas obras dele?

Ele vai negar, mas a real é que o Zimbres é um gênio. Não tenho outro termo para me referir ao Fabio – e acho que muitos dos melhores quadrinistas do país vão concordar comigo. Para começar, tem a coisa da originalidade do desenho. Naquela suposta ‘feiúra’ existe muita sofisticação. De forma orgânica e nada pretensiosa, o trabalho impresso do Fabio se aproxima muito do universo mais arrojado das artes plásticas. E o sujeito tem uma visão de mundo absolutamente idiossincrática. Suas narrativas são sempre inusitadas e improváveis, ainda que muito cerebrais. Se engana quem acha que o que conduz o Zimbres é uma força intuitiva e puramente espontânea. Há muita pesquisa e racionalização naquilo que ele cria. Além disso, há sempre a experimentação com as linguagens às quais se dedica. Nos quadrinhos, por exemplo, o Fabio trabalha tempo e espaço de forma muito singular.

Hoje, mais de 10 anos depois do lançamento desse projeto, quais você considera os principais retornos e as maiores lições que tirou da experiência criando o Música para Antropomorfos?

Em cada projeto que realizo, meu foco é sempre o projeto em si. Não sou muito bom com esse lance de retorno. O que me move é realizar uma obra que tenha fim nela mesma. É claro que tento encontrar o público. Mas isso é outra coisa, depende de um conjunto de variáveis que fogem ao controle de quem cria. O Música para Antropomorfos foi um trabalho que consumiu anos de nossas vidas. Foi realmente difícil finalizarmos e concretizarmos o tal disco-livro. Mas sempre tive muito orgulho do que fizemos. O modo como o Música foi crescendo no imaginário das pessoas foi algo muito interessante de acompanhar. Também houve todos os desdobramentos do projeto, como o livro teórico COMICZZZT! e o filme O Evangelho Segundo Tauba e Primal. Esse, em particular, levou 12 anos para ser concluído desde que tive a ideia de fazer uma animação a partir do Música. E é outro trabalho do qual tenho o maior orgulho. Ou seja, acredito muito naquela máxima: ‘O que é feito respeitando o tempo, o tempo respeita’. Esta reedição da Zarabatana atesta isso, bem como a edição lançada em 2017 na Colômbia e as outras duas que estamos negociando com Portugal e França.

Nesses mais de 10 anos desde o lançamento do Música para Antropomorfos, quais você considera as principais mudanças pelas quais a cena brasileira de quadrinhos passou? Quais os principais avanços e retrocessos que você viu?

Esses dez anos testemunharam uma radicalíssima mudança na cena dos quadrinhos brasileiros. Acredito piamente estarmos vivendo o auge da nossa HQ, no que diz respeito à qualidade daquilo que é produzido. O quadrinho brasileiro contemporâneo está entre os melhores do mundo. Mesmo essa vertente mais ousada e experimental tem mostrado um vigor inaudito. Quando lançamos o Música ou mesmo a Voodoo!, publicações independentes com um design mais arrojado, experimental e artístico não eram nada comuns. De lá pra cá, as publicações têm ficado cada vez mais incríveis – e acho que temos nossa contribuição nisso aí. O que ainda falta é o acesso a um público mais amplo – o que tem a ver com questões estruturais da sociedade brasileira. É duro termos talentos tão geniais que não podem sobreviver exclusivamente de seu trabalho com quadrinhos.

Você vê algum diálogo entre a cena musical brasileira independente e a cena brasileira de quadrinhos?

Esse é um tema que me interessa demais – tanto que fiz um mestrado e publiquei um livro sobre ele. Resumindo, acho que um dos maiores problemas dos quadrinhos brasileiros foi sua dissociação de outras formas de linguagem, especialmente a música alternativa. Demorou a acontecer, por uma série de motivos, um do it yourself para nossos quadrinhos. Por décadas, tudo que os quadrinistas podiam almejar era alguma editora onde pudessem oferecer seus serviços. Esta coisa da auto-publicação, da distribuição independente e do associativismo é muito recente por aqui. Nestes dez últimos anos, o que vimos foi prioritariamente um boom deste fenômeno – que no Rock, mesmo o brasileiro, aconteceu bem antes. Uma experiência como a Ugra Press, por exemplo, não tem background nos quadrinhos, mas na cena punk. Agora, o curioso é o movimento inverso que tem ocorrido no Rock. O público não tem se renovado e o interesse pelo gênero é cada vez menor. Ou seja, quando nossos quadrinhos finalmente assumem uma atitude rock, o Rock perde interlocução com a juventude. São dinâmicas complexas.

O quanto você acha que o choque entre esses diferentes mundos em que você atua contribui para sua formação como artista?

Nunca gostei da ideia de uma formação unicamente especializante. Me interessa o trânsito constante entre diversos conhecimentos e linguagens. A lógica da ultra-especialização é uma lógica neoliberal, de mercado. Para arte e produção cultural, seus resultados são catastróficos. O que um quadrinista que só lê quadrinhos pode produzir senão uma HQ frágil e derivativa? O mesmo vale pra música, literatura, arte plásticas, etc. Por outro lado, tenho uma tendência a ficar entediado com facilidade. Fazer muitas coisas distintas (e não ter tempo pra mais nada) é uma forma de lidar com isso – ainda que não seja das mais inteligentes. Produzir continuamente é meu modo de dar sentido ao mundo e à vida. E é na diluição das fronteiras entre as linguagens que percebo a possibilidade de algo verdadeiramente instigante e, com um pouco de sorte, novo e diferente.

A nova edição de Música para Antropomorfos tem diferenças em relação à original?

A HQ não sofreu alterações, mas a edição traz sim algumas diferenças em relação àquela lançada em 2007. A primeira delas é o formato. O livro agora tem dimensões um pouco maiores, o que facilita seu posicionamento em livrarias. O original era do tamanho de um mangá – que foi uma proposta do Zimbres numa época em que os mangás ainda não haviam atingido a popularidade alcançada hoje. A capa também é diferente – e foi divertido acompanhar o processo de criação desta nova capa, com mais de uma dezena de versões. Por fim, o livro conta com um incrível texto introdutório do grande Diego Gerlach. Coisa fina!

Vocês também pretendem relançar o disco?

Uma das maiores mudanças ocorrida na última década foi a obsolescência, principalmente no Brasil, do CD como suporte físico para música. Quem ainda compra CDs? Parece que só eu mesmo. Então, decidimos não encartar o CD no livro – algo que também aconteceu com a edição colombiana. Quem quiser ter acesso ao álbum “Music for Anthropomorphics” basta dar uma conferida no site www.mechanicsband.com. Mas existe um projeto de relançar o disco em vinil, numa edição luxuosa, com um encarte maravilhoso feito pelo Zimbres. Estou trabalhando nisso e espero que até o final do ano tenhamos o material disponível. E também estamos pensando no Mechanics fazer shows executando o álbum na íntegra.

Quando foi feito a animação O Evangelho Segundo Tauba e Primal? Após a exibição em SP onde o filme estará disponível?

O filme foi produzido e dirigido por mim e pela Márcia Deretti (minha sócia na MMarte e na vida, já que somos casados), tem direção de arte do Zimbres e foi animado pelo monstruoso Wesley Rodrigues – o homenageado deste ano no Animamundi. Foram anos de trabalho – com alguns intervalos no meio, claro. O curta estreou recentemente, em junho, aqui em Goiás. Agora será exibido, ainda em agosto, nas mostras competitivas do 28º Cine Ceará e da 29ª Mostra Kinoforum – Festival Internacional de Curtas de São Paulo – dois festivais brasileiros muito tradicionais e importantes. A carreira do filme está apenas começando e espero que ele seja selecionado para diversos festivais mundo afora. Espero que rolem umas vendas para TVs também. No universo do cinema, a vida de um filme em festivais é de 2 anos. Depois disso, iremos disponibilizá-lo na internet. E o filme também fará parte do lançamento da nova edição do Música para Antropomorfos na Bienal Internacional de Quadrinhos de Curitiba.

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5ª (23/8) é dia de lançamento de Música para Antropomorfos e Cidade de Sangue, com Márcio Jr., em São Paulo

Ei, tem programa pra noite de 5ª (23/8)? Então anota aí: o evento imperdível da semana é o lançamento das HQs Música para Antropomorfos e Cidade de Sangue aqui em São Paulo, na loja da Ugra, com a presença do músico/pesquisador/quadrinista Márcio Jr., vocalista do grupo Mechanics e co-autor das duas publicações. Eu vou mediar uma conversa com o artista a partir das 18h e logo depois rola uma sessão de autógrafos. A loja da Ugra fica na loja 116 do número 1371 da Rua Augusta. Você encontra outras informações sobre o evento na página do lançamento no Facebook.

Enquanto Cidade de Sangue é um dos grandes quadrinhos brasileiros de 2018, com arte do lendário Júlio Shimamoto, Música para Antropomorfos é um dos maiores clássicos das HQs nacionais – obra assinada por Fabio Zimbres em parceria com o grupo Mechanics, lançada originalmente em 2007 e recém-retornada às livrarias em edição da Zarabatana Books. Eu escrevi sobre esse relançamento de Música para o Antropormorfos para o jornal O Globo e você lê a minha matéria aqui. Prometo para amanhã (4ª, 22/8) e 5ª (23/8) a íntegra das minhas entrevistas com Fabio Zimbres e Márcio Jr. que deram origem ao meu texto. Daqueles papos que você só encontra no Vitralizado.

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PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #4: A origem do ‘Formato Jão’]

Está no ar a campanha de financiamento coletivo do álbum PARAFUSO ZERO – Expansão, próxima obra do quadrinista Jão e na qual estou trabalhando no cargo de editor. A história presente na publicação é ambientada em uma cidade povoada maioritariamente por superseres e tem como proposta ser “a HQ de super-heróis mais estranha que já existiu”. Ao longo das últimas semanas tenho publicado aqui no Vitralizado a série PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores, com depoimentos do autor do projeto sobre as inspirações e o desenvolvimento do quadrinho.

Depois de falar sobre um sonho que inspirou PARAFUSO ZERO – Expansão, tratar dos trabalhos que antecederam esse próximo álbum e comentar as restrições impostas por ele em alguns de seus quadrinhos, dessa vez Jão explica o formatão já característico de seus títulos. Assim como Baixo Centro e Parafuso 0, a obra atualmente no Catarse seguirá o mesmo padrão de 24,9 cm X 34 cm (o dobro de uma revista no formato comics). A seguir, aspas de Jão:

PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #4: A origem do ‘Formato Jão’]

Quebra de expectativas

“Algo que me incomoda é a definição da linguagem aqui no Brasil, que é tratada no diminutivo: quadrinhos. Acho que foi um dos pontos que pesou na escolha do formato grandão, pois acredito nas narrativas gráficas como arte e, assim, gosto de trabalhar uma espécie de quebra de expectativa no leitor, ao pegar minhas histórias e não ver ‘quadrinhos’, mas sim quadros.

O incômodo com ‘histórias em quadrinhos’ vai além: não tenho nenhum dado objetivo, mas suspeito que essa definição moldou toda a nossa produção e, de certa forma, criou barreiras para os autores brasileiros, que, até o contato com outras obras pelo mundo promovido pela internet, em sua maioria, tinham, como algo enraizado, a linguagem como um mecanismo de contar histórias e só. Acho interessante como termos e palavras podem construir nossos pensamentos. No caso das narrativas gráficas, parece que aqui no Brasil só em tempos recentes deixamos de evoluir somente um dos pontos oferecidos pela linguagem: história – que também foi prejudicado ao não ter estabelecido conversas entre as outras possibilidades codificadas e proporcionadas pela arte sequencial”.

Além dos formatos mais padronizados

“A escolha desse formato grandão também vem dos meus pensamentos sobre quadrinhos e sobre o lugar do quadrinho hoje. Os quadrinhos têm estado muito voltados para consumo na internet e o próprio sentimento de livro tem mudado, então uma coisa que pensei ao escolher esse formatão foi em levar para o leitor uma experiência diferente do que essa pessoa conseguiria ter com uma tablet ou um computador, para além do virtual ou do tradicional, algo fora dos formatos mais padronizados.

Eu já trabalhei com esses formatos mais tradicionais e padronizados, formatinhos em A5 e o A4. Eu gosto de trabalhar com eles, mas esse formatão é uma escolha que também veio de algumas referências pessoais. Uma delas é a revista Piauí, que eu acompanho e gosto muito. Ela também publica quadrinhos e eu gosto de ver uma HQ nesse formatão. A própria série Beijo Adolescente do Rafael Coutinho também é uma influência para essa escolha por uma formato maior.

É uma opção que gira em torno de uma experiência que quero levar para os meus leitores. Sem contar que o meu trabalho também possui muitos detalhes. Na redução para um formato tradicional ele acaba perdendo um pouco e eu quero que o leitor veja cada tracinho, cada personagenzinho que eu coloco nessas páginas. Então seria isso: é uma decisão tomada em prol da experiência e da vontade que o leitor consiga acompanhar tudo o que eu quero passar a partir do desenho”.

Maior quantidade possível de detalhes

“Normalmente, quando eu faço o desenho no papel, eu costumo trabalhar com formato A3 ou A2. Isso varia um pouco, mas eu gosto de trabalhar com formatos grandões. Ultimamente eu também tenho trabalhado muito no computador e trabalhando no computador é possível ampliar um desenho em formatos muito grandes, gigantes, né? Isso é uma coisa que eu tenho gostado de fazer.

No caso desse pôster que está no projeto da PARAFUSO ZERO – Expansão: eu fiz o desenho no lápis em A2, o formato no qual ele vai ser impresso, aí eu escaneei e joguei pro digital pra fazer a arte final. Se você pegar a arte final dele é como se fosse o tamanho de uma parede de um quarto. Cada personagem que no desenho final tem, sei lá, dois centímetros, esse personagem na tela do computador tem cerca de 15 centímetros. Eu quis realmente fazer um formato muito grande para ter o maior nível possível de detalhes.

Marca impressa

“O Baixo Centro foi o meu primeiro trabalho nesse formato. Ele foi lançado pela editora Miguilim e eles foram muito abertos comigo em relação aos formatos. Eles estão acostumados a trabalhar com livros infantis e, por isso, estão habituados a publicações em formatos diferentes. Foi muito tranquila essa conversa, quando eu disse que queria fazer em um formato maior do que o usual, que isso ia ser legal e que o meu trabalho funcionaria melhor nesse formato.

Ultimamente eu tenho optado por esse formato até para construir uma espécie de estilo meu e que esse estilo não fique apenas no meu desenho ou na minha forma de contar histórias, mas que eu também deixe uma marca minha na publicação impressa. Eu acho isso legal, as pessoas têm me reconhecido e reconhecido o meu trabalho também a partir dos formatos.

Já vi gente ver um quadrinho grandão e dizer ‘Nossa, parece um quadrinho do Jão’. Ou então alguém estranhar ao pegar um dos álbuns, quando eu tô expondo em alguma feira ou loja. Agora que eu já tenho o Baixo Centro e a Parafuso 0, as pessoas olham e entendem que é um estilo meu. ‘O Jão gosta desse formato grandão e é isso aí’. Também já teve gente me criticando, dizendo que não dava pra guardar na estante, mas eu gosto dessa crítica. O meu trabalho gira muito em torno do incômodo para os leitores e eu gosto disso, gerar um certo incômodo.

Outra coisa que também é legal nesse formato é que as pessoas em eventos não têm muito como guardar os álbuns dentro de uma sacola e aí andam com as revistas debaixo do braço e isso acaba sendo uma divulgação que eu ganho (risos)”. 

História em função do formato

“Na PARAFUSO ZERO – Expansão, eu acredito que é a primeira vez que eu estou trabalhando para esse formato. No caso do Baixo Centro, como eu falei, eu pensei o formato e tive a conversa com a editora enquanto eu já estava produzindo as páginas. No caso da Parafuso 0, que saiu em 2016, eu quis usar aquele formato do Baixo Centro, mas também já era uma história que estava em andamento. Eu não sabia se teria condições financeiras de bancar esse formato, então também não era algo que eu fiz pensando especificamente nele.

No caso da PARARUSO ZERO – Expansão, toda a proposta do álbum é voltada pra esse formato. A ideia é que a construção da narrativa seja pensada nos mínimos detalhes pra compor todo esse formato. Essa é uma grande diferença dos trabalhos anteriores pra esse agora”.

CONTINUA…

ANTERIORMENTE:
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #3: Um sonho com Moebius];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #2: Baixo Centro, Flores e texto];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #1: origens, restrições e OuBaPo].