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HQ

Confira as 10 histórias em quadrinhos finalistas do Prêmio Dente de Ouro 2019

Os organizadores da Feira Dente divulgaram as obras finalistas das três categorias da edição de 2019 do Prêmio Dente de Ouro. São 10 indicados nas categorias Zine e Quadrinhos e cinco na categoria Poesia. Você confere as três listas com os títulos finalistas na página da Dente no Instagram. O vencedor de cada categoria será anunciado na Feira Dente 2019, marcada para o dia 8 de junho, em Brasília (você encontra outras informações sobre o evento na página da feira).

Eu estou no júri da premiação na categoria Quadrinhos junto com um dos organizadores da Dente, o quadrinista Heron Prado, e com a jornalista, pesquisadora e tradutora Dandara Palankof. Em meio a mais de 60 títulos inscritos, os nossos 10 finalistas foram:

Raiz (independente), de Dudu Torres; Sua Voz (Coleção Des.Gráfica), de Flavushh; Sam Taeguk (independente), de Paty Baik, Monge Han e Ing Lee; Lume (independente), de Luiza Nasser; Partir (Coleção Des.Gráfica), de Grazi Fonseca; Tilt (independente), de Raquel Vitorelo; Hibernáculo (independente), de Amanda Miranda Paschoal; Cara-Unicórnio (independente), de Adi. A; Me Leve Quando Sair (independente), de Jéssica Groke; e O Vazio que Nos Completa (Jupati Books), por Sergio Chaves e Allan Ledo.

As 10 HQs finalistas do Prêmio Dente de Ouro 2019
Entrevistas / HQ

Papo com Aline Lemos, a autora de Artistas Brasileiras: “Conhecer e celebrar as artistas esquecidas pela história é um dos objetivos, pois ainda temos carência de materiais e discursos nesse sentido
”

As 80 páginas de Artistas Brasileiras reúnem histórias pessoais e profissionais de 30 mulheres nascidas até a década de 1930 cujas produções e biografias são ignoradas por grande parte da sociedade brasileira. Trabalho da quadrinista Aline Lemos publicado no fim de 2018 pela editora Miguilim, o livro será lançado em São Paulo em evento marcado para o próximo sábado (27/4), a partir das 16h, na loja da Ugra (Rua Augusta, 1371, loja 116). A sessão de autógrafos com a autora será precedida de um bate-papo entre ela e a jornalista Gabriela Borges, do selo Mina de HQ. Você confere outras informações sobre o lançamento na página do evento no Facebook.

“A história do feminismo e os estudos de gênero eram interesses que já me acompanhavam desde o mestrado em História e que levei pros quadrinhos desde o começo”, diz Aline Lemos em entrevista com o blog sobre o ponto de partida de Artistas Brasileiras. Autora de Lado Bê e Melindrosa, ela tem uma longa trajetória de projetos e estudos relacionados à sua formação como historiadora e aos seus estudos sobre a história do feminismo e os estudos de gênero, sendo esse álbum mais recente uma espécie de epítome de todos esses interesses e essas áreas de atuação.

A conversa a seguir é focada principalmente no desenvolvimento e na produção de Artistas Brasileiras. A quadrinista fala sobre o ponto de partida da HQ, as pesquisas feitas por ela para definir as personagens que protagonizam a obra e as fontes bibliográficas que utilizou. Ela também comenta a arte do quadrinho, ilustrado a tinta e colorido com computador – com paletas dialogando com a história de vida de cada artista retratada. A autora também trata do revisionismo histórico reacionário do governo de Jair Bolsonaro e adianta um pouco sobre seu novo trabalho – em breve em campanha de financiamento coletivo no Catarse. Papo massa, saca só:

“A questão da representatividade era um interesse de pesquisa e uma parte da minha própria trajetória”

Quadros de Artistas Brasileiras, álbum da autora Aline Lemos publicado pela editora Miguilim

Você abre o livro perguntando pro leitor quantas artistas brasileiras ele conhece. Esse questionamento também foi o ponto de partida do livro para você? Como esse projeto teve início?

Sim, esse foi o ponto de partida de uma pesquisa que era para mim mesma. Como minha formação inicial foi em História, eu demorei a me perceber como quadrinista e artista. A história do feminismo e os estudos de gênero eram interesses que já me acompanhavam desde o mestrado em História e que levei pros quadrinhos desde o começo. Sempre comento que os coletivos de autoras foram fundamentais pra que eu tivesse coragem de iniciar nessa carreira, com as ZiNas e o Lady’s Comics em Belo Horizonte, o Zine XXX e a Revista Inverna. Então, a questão da representatividade era um interesse de pesquisa e uma parte da minha própria trajetória. No começo de 2016, eu estava em Angoulême estudando quadrinhos e pude participar do FIBD, onde estava rolando uma movimentação interessante das autoras discutindo justamente essa questão. Fiz uma reportagem junto a Gabriela de Aquino para o Lady’s Comics sobre o assunto. As francesas se organizaram desde 2015 no Coletivo de Autoras Contra o Sexismo pra chamar atenção pro lugar das mulheres na indústria dos quadrinhos, discutir os problemas da forma de representação, a criação de guetos femininos e a ausência delas nos prêmios e diversos espaços. No festival, realizaram uma campanha pra denunciar o fato de que pouquíssimas mulheres haviam sido indicadas e nenhuma havia vencido o maior prêmio do festival, apesar da existência de inúmeras artistas com carreiras respeitáveis. Essa movimentação me interessou muito porque apesar do mercado de quadrinhos francês ser muito mais sólido e organizado, a situação das autoras se assemelhava a nossa no Brasil. E lá, como aqui, parte do trabalho girava em torno de desmistificar a ideia de que as mulheres não estariam presentes nesses espaços porque não existiriam em número considerável. A minha vontade de falar sobre artistas mulheres partiu dessa reflexão, que me provocava a vontade de fortalecer uma memória em torno das mulheres e suas contribuições no mundo das artes. Creio que temos uma onda de publicações com a mesma intenção que refletem esse momento em que o tema está em evidência, mas esse está longe de ser um assunto pacificado ou que alcançou lugares privilegiados de saber e conhecimento. Quando comecei o projeto, tinha o objetivo de dar uma contribuição nesse sentido, mas também era uma pesquisa pessoal, pra me instruir e responder a inquietações minhas.  Era um projeto de estudo, mesmo. Eu queria amadurecer o meu trabalho e me desafiei a fazer um projeto mais longo, mas como ainda não me sentia segura pra construir uma narrativa longa escolhi o formato seriado. A pesquisa histórica estava mais dentro da minha zona de conforto e eu já estava envolvida com o tema de uma forma pessoal. Quando voltei de Angoulême, estava deprimida e insegura com relação ao meu trabalho, que eu mal tinha acabado de começar (publico quadrinhos desde 2014). Pesquisar essas mulheres e suas trajetórias nos contextos mais adversos ajudou a me dar forças.

“No fim, eu precisei entender que não se tratava de dizer tudo, mas de ressaltar pontos que fossem interessantes como ponto de partida pra entender nossa história e a atuação das mulheres nela”

Quadros de Artistas Brasileiras, álbum da autora Aline Lemos publicado pela editora Miguilim

Também na introdução livro você explica um pouco do processo de produção dele. Eu queria saber um pouco mais sobre cada uma dessas etapas, começando pela pesquisa. Você tinha um filtro definido? Como foi a seleção dos nomes sobre os quais você queria falar?

O primeiro filtro que apliquei foi o recorte temporal, uma decisão mais ou menos arbitrária pra facilitar meu trabalho. Decidi me focar nas artistas nascidas até 1930, porque são menos conhecidas e me permitiam falar do contexto de consolidação das artes no Brasil. Outra decisão que guiou o processo foi a diversidade, eu queria falar sobre artistas de todas as regiões do país, de contextos e filiações artísticas variadas. É como eu disse na introdução, não tinha a intenção de falar de todas ou das melhores artistas brasileiras, mas de fornecer um panorama que desse conta da diversidade da nossa realidade e que pudesse inspirar outras investigações. Me guiando por esses princípios eu fui fazendo os quadrinhos aos poucos, a partir de 2016. Eu tinha uma lista inicial, mas só fechei em trinta nomes em 2017, quando a proposta do livro se tornou concreta. Pra fazer cada quadrinho, eu ficava alguns dias lendo e reunindo material sobre a artista e só depois resumia as informações que achava mais relevantes em um roteiro. Eu tentei trazer dados da biografia que permitissem ao leitor entender como a artista se localizava no seu contexto, como foi a sua formação, produção e circulação artística. Também procurei trazer as características estéticas da sua obra pra narrativa, a relação com movimentos artísticos e outros eventos importantes de seu tempo. Foi um desafio grande resumir as informações. No fim, eu precisei entender que não se tratava de dizer tudo, mas de ressaltar pontos que fossem interessantes como ponto de partida pra entender nossa história e a atuação das mulheres nela.

“Eu queria que ficassem explícitos os meus limites e as possibilidades que ainda precisamos investigar”

Quadros de Artistas Brasileiras, álbum da autora Aline Lemos publicado pela editora Miguilim

Ainda sobre a pesquisa: você fala sobre personagens muitas vezes marginalizadas pela história. Como foi a busca por fontes e bibliografia sobre essas personagens?

A minha experiência como historiadora ajudou muito nessa hora, mas talvez seja melhor dizer que foi um trabalho de divulgação científica, mais do que historiográfico. Depois de ter ficado dois anos no mestrado pesquisando o mesmo assunto, eu me sentia meio herética dedicando só uma semana a cada pesquisada. Mas como a proposta era apenas uma página sobre cada autora e não era um trabalho remunerado, o que consegui viabilizar foi o suficiente pra comparar fontes diferentes e selecionar informações. Acho que a principal diferença entre esse trabalho e o historiográfico foi que na maioria dos casos não acessei fontes primárias, quer dizer, documentos da própria época das artistas, pra gerar novas interpretações. Eu acessei principalmente artigos online e alguns portais confiáveis com pesquisas realizadas por outros historiadores. Algumas artistas mais famosas tinham mais bibliografia disponível, com livros, sites oficiais e de museus com mais material. O maior desafio foi concretizar o princípio da diversidade e encontrar informações sobre artistas fora do eixo centro-sul, negras e sem formação acadêmica. Os sites do Museu de Arte Negra e do projeto Polo Jequitinhonha da UFMG foram dois locais que me ajudaram nesse sentido. Com certeza um projeto mais aprofundado permitiria revelar mais artistas com perfis diversos. Foi esse também o motivo porque fiz a história da “Anônima”, eu queria que ficassem explícitos os meus limites e as possibilidades que ainda precisamos investigar.

“Sendo um livro com tantas personagens e abordagens, acho que a unidade ficou por conta das decisões estéticas”

Quadros de Artistas Brasileiras, álbum da autora Aline Lemos publicado pela editora Miguilim

Agora eu queria saber sobre a construção do roteiro do livro. É um álbum composto por várias histórias que se fazem muito coesas como conjunto. Como você finalizou esse roteiro? Essa unidade que eu menciono foi uma preocupação para você?

Como eu disse, no início não havia uma lista ou número definido das artistas, mas eu já pensava na possibilidade de um livro. Eu sabia que ele teria uma cara plural e isso estava de acordo com a ideia da diversidade que ele pretendia representar, mas também queria que ficasse evidente se tratar de um mesmo projeto. Todas as histórias foram construídas baseadas em pesquisas que tinham o mesmo procedimento que mencionei. Além disso, tentei fazer com que as artistas aparecessem mais ou menos o mesmo número de vezes nas tirinhas de humor que intercalam as biografias. Essas tirinhas e as ilustrações foram uma forma de tornar a leitura mais dinâmica, já que as biografias são carregadas de texto e informação e podem se tornar cansativas depois de um tempo. Também tem uma função diferente que é a de aproximar as personagens do imaginário contemporâneo, trazer uma visão mais lúdica e crítica sobre alguns aspectos das biografias. Mas sendo um livro com tantas personagens e abordagens, acho que a unidade ficou por conta das decisões estéticas.

“Uma das coisas mais importantes pra mim era não só narrar sobre cada artista, mas trazer elementos visuais do seu trabalho para o quadrinho”

Quadros de Artistas Brasileiras, álbum da autora Aline Lemos publicado pela editora Miguilim

Na introdução você também comenta como fez o desenho a tinta e coloriu no computador. Eu gosto muito das cores, das escolhas que você fez para cada história e da paleta do conjunto da obra. Como você chegou nessas cores específicas? Você tem alguma abordagem específica em relação a cores?

Eu tento ter uma abordagem intencional das cores e apliquei isso ao máximo nesse livro. As cores serviram principalmente pra dar a unidade que ele precisava. É uma paleta relativamente reduzida que fui construindo aos poucos e usei com extrema moderação. Uma das coisas mais importantes pra mim era não só narrar sobre cada artista, mas trazer elementos visuais do seu trabalho para o quadrinho. Fiz isso através de algumas variações no layout e principalmente com colagens dos seus trabalhos. Por causa disso, as biografias já traziam cores muito específicas para cada autora. Decidi acompanhar essas colagens com uma paleta reduzida de tons atenuados, pra não ofuscar a identidade de cada artista ao mesmo tempo em que dava alguma unidade com o todo do projeto. Cada artista usa uma combinação exclusiva de duas cores da paleta geral do livro. As tirinhas de humor não usam colagens, ficando diferenciadas das biografias baseadas em pesquisas, e quando reúnem mais de uma artista também combinam suas paletas. Só as ilustrações em aquarela ficaram com paletas livres.

“Os revisionismos reacionários tentam minar os conhecimentos construídos e propor visões únicas para o passado que apagam os conflitos e suas consequências”

Quadros de Artistas Brasileiras, álbum da autora Aline Lemos publicado pela editora Miguilim

No Melindrosa você construiu as páginas em diálogo com a estética art déco do período no qual a história está ambientada. Os quadros estão muito mais soltos, por exemplo, quando comparado com o seu trabalho no Artistas Brasileiras. Por que essa opção por uma narrativa mais linear nesse livro novo?

Também foi uma escolha pela unidade do projeto. Usei um layout padrão de três linhas (bandas) para todas as biografias, porque achei que viabilizava o uso abundante do texto que seria necessário e daria um mesmo ritmo para as páginas bastante diversas. Por outro lado, procurei romper pontualmente com esse padrão pra evitar a monotonia. Da mesma forma que com as colagens, procurei explorar a visualidade de cada artista de forma diferente em cada quadrinho. Acabou sendo um estudo interessante pra mim. Também fui mais livre nas tirinhas de humor pra diferenciar das biografias.

Eu gosto muito que você abre o livro com a história da Abigail de Andrade e da Angelina Agostini. Eu não sabia dessa história e acredito que muitos estudiosos e leitores de quadrinhos brasileiros também desconhecem essa passagem da vida do Ângelo Agostini, tido como o precursor dos quadrinhos brasileiros. Por que abrir com essa história?

Pra ser sincera, as histórias estão organizadas por ordem cronológica de nascimento das artistas. Eu não pretendia que ela fosse a primeira e não foi a primeira página que fiz, mas foi uma sorte oportuna. O caso delas é emblemático do que fica e do que é apagado na história, e permite que a gente reflita sobre o diferente peso que recai sobre homens e mulheres na sociedade. Abigail viveu as consequências do seu delito, o de ter uma filha em um relacionamento extra-conjugal, até sua morte prematura em exílio, enquanto Ângelo Agostini pôde decidir não criar a criança e retomar sua carreira de sucesso no Brasil. Enquanto as responsabilidades domésticas e a liberdade dos corpos não forem repartidas de modo igualitário na sociedade, essa continuará sendo uma questão do presente. Eu queria que o livro pudesse abrir discussões como essa, um objetivo que vai além da representatividade. Conhecer e celebrar as artistas esquecidas pela história é sim um dos objetivos, pois ainda temos carência de materiais e discursos nesse sentido. Mas também há outro, que é questionar os motivos pelos quais esse esquecimento foi e é produzido. Caso contrário, corremos o risco de eleger artistas mulheres proeminentes para celebrar e manter a mesma estrutura de exclusão que há séculos empobrece nossa história. Nesse sentido, a crítica feminista tem uma contribuição muito grande a dar em diversos campos do conhecimento. Um artigo que já gerou muitos debates e que creio que vale muito a pena ler é o da Linda Nochlin, “Por que não houve grandes mulheres artistas?”.

Você é historiadora e nós vivemos tempos estranhíssimos de revisionismos históricos. Qual a importância de conhecermos o nosso passado e de projetos como o Artistas Brasileiras? Como o conhecimento do nosso passado pode contribuir para o nosso presente e o nosso futuro?

É importante que o conhecimento histórico se torne mais acessível ao público fora da academia. Esse não é um problema só da História, é um problema da pouca democratização do conhecimento e da educação como um todo. Uma situação que não é fruto do acaso, mas de interesses políticos em ação há séculos. Conhecer nosso passado permite identificar essas forças, entender como elas atuam no presente e desenhar alternativas. A História mostra que não há um só caminho definido para os acontecimentos, mas que nosso futuro depende de disputas que estão em aberto no presente. História não é uma narrativa única, é debate, crítica e reflexão. Os revisionismos reacionários tentam minar os conhecimentos construídos e propor visões únicas para o passado que apagam os conflitos e suas consequências. Apesar de falar sobre o passado, eles são projetos para o presente: não querem crítica sobre o passado e não querem crítica para o agora. A única forma que vejo de combatê-los é encampar o espaço público de debate onde quer que ele esteja, levar o conhecimento histórico para a cultura pop, para as escolas, para a mídia. Foi por essa vontade que decidi fazer quadrinhos e eu gostaria que o Artistas Brasileiras contribuísse para isso de alguma forma. Busquei as histórias de mulheres que vieram antes de mim pra entender como as formas de exclusão funcionaram no passado e se desdobraram em consequências no presente, e constatei que houve criatividade e reação em contextos muito mais desfavoráveis que os nossos. O conhecimento do passado também dá força para os desafios do presente.

“A política do presidente se propõe como nova, mas na verdade se trata do que há de mais antigo na política, que beneficia o status quo e que foi eleito porque reverbera no senso comum”

Quadros de Artistas Brasileiras, álbum da autora Aline Lemos publicado pela editora Miguilim

Desde 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita que acabou com o Ministério da Cultura e promete cortes em políticas públicas e sociais de fomento às artes. Como você acredita que essa realidade pode afetar/está afetando a nossa sociedade?  

Acredito que os impactos negativos dessa gestão ainda serão sentidos por muito tempo. É uma política de retrocessos, que está minando direitos que considerávamos adquiridos, que certamente precisaremos de um bom tempo para recuperar. No discurso do governo a cultura é considerada não apenas supérflua, como não é raro em contextos de crise, mas também perigosa, o que é ainda mais grave. Em um certo sentido ela é mesmo, porque é na cultura que se desenvolvem o pensamento crítico e os projetos alternativos de sociedade. São coisas que ameaçam um governo autoritário e com um projeto pífio para o país. Um projeto de crescimento real não se sentiria ameaçado pela crítica e pluralidade de visões, se fortaleceria com elas. Entenderia que fomentar a cultura é gerar conhecimento e movimentar a economia de um país. Esse governo sente a necessidade de suprimi-la, assim como a liberdade de expressão, como forma de controlar as narrativas quando seu projeto falhar em entregar uma sociedade mais próspera. Mas não pretende falhar em seu objetivo de lucrar com a crise e manter as estruturas de poder em benefício de poucos. O outro lado que vejo é que, enquanto a extrema-direita aproveita a crise dessa forma, outras movimentações também acontecem em defesa da cultura e dos direitos sociais. Nós também podemos aproveitar a crise como um momento de mudança. Espero que essas derrotas possam unir forças e resultar em soluções novas para a sociedade, coisas que são há muito necessárias. Por mais trágico que seja o momento, com a violência e desigualdades acirradas e a hostilidade e incompetência do poder público, esses são problemas que sempre estiveram presentes. A política do presidente se propõe como nova, mas na verdade se trata do que há de mais antigo na política, que beneficia o status quo e que foi eleito porque reverbera no senso comum. Já era hora de encarar essa política de frente.

Quadros de Artistas Brasileiras, álbum da autora Aline Lemos publicado pela editora Miguilim

Você poderia recomendar algo que esteja lendo, ouvindo ou assistindo no momento?

Estou lendo Mulheres, Raça e Classe, da Angela Davis e ouvindo “Ladrão”, o álbum novo do Djonga.

Você está trabalhando em algum projeto novo no momento? 

Sim, finalmente criei coragem pra desenhar minha primeira história mais longa! Vai se chamar Fogo Fato e terá por volta de 70 páginas. É uma mistura de ficção científica e fantasia urbana e fala sobre exclusão, identidade e mobilidade na cidade. Já postei alguns estudos das personagens no instagram, mas ainda estou na metade da história e produzindo devagar. Pretendo lançar uma campanha de financiamento coletivo no começo do segundo semestre.

A capa de Artistas Brasileiras, álbum da autora Aline Lemos publicado pela editora Miguilim
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TCAF 2019, por Seth

Eu já tinha compartilhado por aqui o cartaz do Junji Ito pro Toronto Comic Art Festival 2019. Aí que agora foi revelado mais um cartaz do evento, dessa vez assinado pelo quadrinista canadense Seth, que também estará presente na convenção como um dos convidados da feira. O TCAF 2019 rola nos dias 11 e 12 de maio, na Toronto Reference Library. Você confere outras informações lá na página do festival.

Ainda sobre o Seth, já leram os textos que estão saindo lá fora sobre Clyde Fans? Muita gente apostando como um dos grandes lançamentos do ano nos quaddrinhos norte-americanos. Hoje inclusive saiu uma entrevista bem massa com o autor lá no The Comics Journal. E pra quem não leu, deixo aqui o link pra minha matéria sobre a edição brasileira de  A Vida é Boa, Se Você Não Fraquejar e a minha entrevista com o autor.

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Kent State: Four Dead in Ohio: confira uma prévia da próxima HQ de Derf Backderf, o autor de Meu Amigo Dahmer

Cara, como eu gosto de Meu Amigo Dahmer. Fiquei vidrado da primeira vez que li e acho que curti ainda mais quando saiu a edição brasileira em 2017, publicada pela DarkSide Books. Ontem a noite, no Twitter, o Derf Backderf, autor do quadrinho publicou uma mensagem com um link para o site The Hollywood Reporter avisando: “Foi finalmente anunciado oficialmente. O que tenho trabalhado nos últimos três anos”.

Aí no link você confere as páginas que reproduzo aqui, junto com a sinopse de Kent State: Four Dead in Ohio, o próximo trabalho do quadrinista. Com lançamento previsto para abril de 2020 pela Abrams ComicArts, a HQ narra o ataque da Ohio National Guard na Kent State University em maio de 1970, durante um protesto contra a Guerra do Vietnã. O ataque resultou na morte de quatro estudantes.

Assim como rolou em Meu Amigo Dahmer, o Derf Backderf tem uma ligação pessoal com a trama desse projeto novo, dessa vez por ter testemunhado um ataque semelhante da mesma Ohio National Guard na cidade natal dele alguns meses antes da tragédia na universidade de Kent. O The Hollywood Reporter diz que o livro reconstrói os instantes antes do ataque e conta a história das quatro vítimas do ocorrido. Aproveito pra deixar o link da minha entrevista com Backderf sobre Meu Amigo Dahmer e o link do meu texto sobre a HQ pra Rolling Stone.

Uma página de Kent State: Four Dead in Ohio, a próxima HQ de Derf Backderf, o autor de Meu Amigo Dahmer
Uma página de Kent State: Four Dead in Ohio, a próxima HQ de Derf Backderf, o autor de Meu Amigo Dahmer
Uma página de Kent State: Four Dead in Ohio, a próxima HQ de Derf Backderf, o autor de Meu Amigo Dahmer
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Kazuo Koike (1936-2019)

Você já deve ter lido por aí, mas deixo o registro: morreu no dia 17 de abril de 2019, aos 82 anos, o quadrinista Kazuo Koike, coautor do clássico Lobo Solitário. Uma mensagem compartilhada na conta do escritor no Twitter relata que a morte foi decorrente do agravamento de uma pneumonia.

Koike também foi autor de Samurai Executor, Lady Snowblood e Crying Freeman, entre outros títulos, mas foi na parceria com Goseki Kojima (1928-2000) em Lobo Solitário que ele produziu um dos maiores cânones das HQs mundiais – e uma das leituras mais impactantes da minha vida.

Entrevistas / HQ

Aline Zouvi faz retrospectiva da carreira na exposição Solstício, em São Paulo

As ilustrações e os quadrinhos de Aline Zouvi são os protagonistas da exposição Solstício. A mostra ficará hospedada na 9ª Arte Galeria, em São Paulo, entre os dias 23 e 27 de abril, reunindo 40 trabalhos da artista. Entre as obras que estarão à venda constam páginas, estudos e rascunhos das HQs Síncope e Óleo Sobre Tela (17ª edição da coleção Ugritos), cartuns produzidos para o jornal Folha de São Paulo e ilustrações da série Condição e de sessões de modelo vivo. Você confere outras informações sobre a exposição na página do evento no Facebook.

Coincidentemente, a abertura de Solstício ocorre dois anos após à inauguração da primeira mostra solo de Zouvi. Em abril de 2017, ela expôs em Campinas as 32 artes produzidas por ela para a série Condição. Por isso, a exposição na 9ª Arte Galeria acaba funcionando como uma retrospectiva desse intervalo 2017/2019 na carreira da autora.

Conversei por email com a quadrinista e ela fez um balanço sobre esses dois anos mais recentes de sua vida profissional. Ela também me contou sobre a curadoria de Solstício, comentou suas técnicas preferidas e deu pistas sobre seus próximos trabalhos. Antes da leitura do papo a seguir, recomendo outras três conversas publicadas com Zouvi aqui no blog: uma entrevista sobre Óleo Sobre Tela, uma segunda sobre Síncope e a terceira e mais antiga delas, sobre a exposição dedicada a Condição. Depois volta pra cá e invista nessa conversa sobre a exposição na 9ª Arte Galeria. Ó:

Um dos cartuns de Aline Zouvi que estará em exposição na 9ª Arte Galeria

A minha primeira entrevista com você aqui no blog é datada de abril de 2017, também sobre uma exposição sua, uma mostra reunindo seus trabalhos pro zine Condição. Pensando nesse intervalo entre 2017 e 2019, qual balanço você faz sua história como quadrinista, autora e ilustradora até aqui?

Nossa, verdade! É muito bom poder voltar aqui pra falar sobre uma nova exposição 🙂 Esta minha exposição de agora é, em si, um movimento de balanço, também: pensei em chamá-la de Solstício por haver um movimento de transição e de avaliação do que foi feito até agora – junto à ideia de transição presente no próprio funcionamento da 9ª Arte Galeria, que dispôs este tempo (e continua com o plano de fazê-lo com outros artistas) de uma semana em que a galeria tem o seu andar de cima disponível, enquanto a exposição anterior está sendo desmontada e a seguinte, em fase de montagem (no meu caso, irei expor meus trabalhos entre as mostras de André Dahmer e Marcatti).

Até aqui, acredito que me desenvolvi profissionalmente não apenas em relação a questões de produção e técnica, percurso esperado pra artistas que… bom, que não desistem de desenhar, rs, mas também evoluí junto com os outros artistas (iniciantes ou não) e com o movimento dos quadrinhos na cidade de São Paulo. O que quero dizer é que me vejo mais segura em relação ao meu traço e a meus projetos enquanto quadrinista e cartunista, mas isso sem dúvida também se construiu graças a vivências (conversas, palestras, mesas-redondas…) em espaços como a Ugra, a Loja Monstra, em eventos sobre quadrinhos no Sesc, no CCSP, em livrarias, e, agora, na 9ª Arte Galeria. Isto, claro, sem contar os festivais de quadrinhos, nos quais também pude presenciar discussões que contribuíram, mesmo que de forma indireta, para o desenvolvimento do meu trabalho.

“Tento pensar, sempre ao começar um projeto novo, em como fazer um quadrinho cuja qualidade se concentre no desenvolvimento de sua narrativa”

Um dos cartuns de Aline Zouvi que estará em exposição na 9ª Arte Galeria

Ainda sobre esse intervalo de dois anos: você vê muitas mudanças no seu estilo de fazer e pensar quadrinhos? Suas técnicas mudaram muito de 2017 até hoje?

Creio que mudei mais na maneira de fazer e pensar quadrinhos que na técnica em si. Ao longo deste intervalo de dois anos e ainda agora, tento pensar, sempre ao começar um projeto novo, em como fazer um quadrinho cuja qualidade se concentre no desenvolvimento de sua narrativa. Nesse sentido, todas as intenções que eu tinha enquanto autora quando comecei, tento agora remoldá-las em função da construção da narrativa, deixando-a sempre em primeiro lugar. Por exemplo, sempre pensei o fazer quadrinhos como um espaço de resistência e de visibilidade para minorias sociais – e ainda o penso – e procuro me desenvolver como autora para que esta preocupação se faça evidente na mina construção de enredos e personagens. Em relação às técnicas, procuro experimentar quando possível (como foi no caso da produção de Síncope), mas me interessa, também, focar em algo que já me é familiar (no caso, o preto e branco) e tentar melhorá-lo a cada produção.

O que mais me chama atenção na curadoria da sua exposição da 9ª Arte Galeria é a diversidade de suas áreas de atuação. Nessa mostra estão presentes trabalhos seus para HQs, jornais e zines. Existe alguma chave específica na sua cabeça na hora de trabalhar para cada um desses meios? É muito diferente pra você produzir um cartum pra Folha de São Paulo e uma HQ autoral?

Como alguém que se interessa em trabalhar com autoria no desenho, creio que me é tranquila a transição entre a auto-expressão em uma hq autoral e publicações que ofereçam algum tipo de limitação criativa, como um cartum ou qualquer outro tipo de desenho feito sob encomenda. Por mais que o cartum tenha a limitação de uma pauta a ser seguida, o seu formato reduzido, etc, creio que a ‘mudança de chave’ é menos  brusca, pois ainda posso desenvolver, no cartum, o meu traço – e, quanto ao conteúdo, aproveito este contexto de produção dirigida para exercitar outras formas de expressar uma mesma ideia. É muito importante, na minha opinião, poder exercitar o máximo possível destes ‘tipos de produção’ – isso me ajudou bastante no meu crescer enquanto profissional.

Parte de uma das páginas de Aline Zouvi que estará em exposição na 9ª Arte Galeria

Aliás, você pode falar um pouco sobre a curadoria dessa exposição na 9ª Arte Galeria? Como foi o processo de escolha de quais trabalhos entrariam na exposição?

Alexandre e Mona Lisa Martins, os curadores da galeria, me deram total liberdade para escolher quais trabalhos seriam expostos, deixando, desde o início, esta intenção de tentar fazer um apanhado de minha produção até o momento, mesmo que isto significasse reunir desenhos de diferentes formatos e abordagens. Ambos, desde o início, foram bastante atenciosos e mostram uma preocupação importante em oferecer o espaço da galeria a artistas que têm pouca visibilidade e/ou ainda estão no processo de construir seu público.

“O que quero ler e tentar, também, fazer, são quadrinhos que reconheçam, de forma honesta, as suas limitações”

Um registro de uma página de Síncope ainda em produção, a versão finalizada da arte estará em exposição na 9ª Arte Galeria

O que mais te interessa em termos de quadrinhos hoje, Aline? O que você mais tem interesse em ler e tentar fazer e experimentar com a linguagem das HQs?

Ao ler a sua pergunta, tudo em que pude pensar foi: Emil Ferris. Emil Ferris. Emil Ferris! Haha. Zueiras à parte, o que quero ler e tentar, também, fazer, são quadrinhos que reconheçam, de forma honesta, as suas limitações – e que isto não os impeça de serem subversivos, inovadores (e por que não, revolucionários?). Que isso seja, na verdade, a força deles. Eu tô um pouco cansada de quadrinhos que se autoprometem fodas, sabe?

Pra encerrar, no que você está trabalhando agora? Você já tem alguma próxima publicação em vista? Se sim, o que pode falar sobre ela?

Eu estou há bastante tempo elaborando uma narrativa mais longa, que agora está em fase da escrita do roteiro, depois de muitas idas e vindas em relação à elaboração do argumento. Infelizmente não posso falar mais do que isso, mas tô me esforçando pra que seja uma boa história 🙂 no meio do caminho irei elaborar uma hq mais curta, para ser lançada na CCXP.

Um dos cartuns de Aline Zouvi que estará em exposição na 9ª Arte Galeria