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Posts por data maio 2019

Entrevistas / HQ

Papo com Érico Assis, editor do Catálogo HQ Brasil: “O mais importante era mostrar como essa produção nacional é variada em todos os aspectos que se puder imaginar”

Está marcado para hoje, em Lisboa, o lançamento do livro Catálogo HQ Brasil. A obra de 150 páginas é uma parceria entre a Bienal de Quadrinhos de Curitiba e a Embaixada do Brasil em Portugal e tem como missão divulgar as HQs brasileiras no exterior. Para o cargo de editor do livro foi convidado o tradutor, pesquisador e crítico Érico Assis, cabendo a ele a missão de selecionar 70 dos quadrinhos brasileiros mais icônicos e representativos lançados entre 2009 e 2018.

Ao dar início à seleção das obras, o editor recebeu alguns critérios: o Catálogo precisava mostrar representatividade regional e de gênero e temas nacionais e da cultura brasileira. Partiu de Assis a sugestão do recorte histórico de dez anos. A lista inicial de quadrinhos passava dos mil títulos, entre álbuns de editorias, publicações independentes, séries e webcomics.

“Aí nos limitamos a 70 obras ou projetos, que podiam ser devidamente apresentadas em fichinhas nas 150 páginas do catálogo impresso. Adotamos mais critérios: variedade de estilos de desenho, variedade de gênero narrativo, não repetir autores e prestigiar obras premiadas”, conta o editor em conversa com o blog.

No evento de lançamento do Catálogo HQ Brasil estarão presentes Érico Assis, os quadrinistas brasileiros André Diniz e Rodrigo Rosa e o editor português Rui Brito, da editora portuguesa Polvo, uma das que mais publica quadrinhos brasileiros no exterior. Com tiragem limitada, o catálogo terá seu pdf posteriormente disponibilizado na internet. Na entrevista a seguir, Érico Assis fala sobre os desafios de chegar aos 70 títulos presentes no livro e apresenta algumas de suas reflexões decorrentes da produção da obra. Ó: 

“O Catálogo precisava mostrar representatividade de gênero, representatividade regionaltemas nacionais e da cultura brasileira

Uma página do Catálogo HQ Brasil falando sobre a série Know-Haole do quadrinista Diego Gerlach

Você explicou no Facebook quais foram os critérios estabelecidos para chegar nesses 70 títulos presentes no catálogo, mas eu queria saber mais sobre as suas metodologias e sobre as principais reflexões que passaram pela sua cabeça enquanto listava essas obras. Houve algum método de análise específico que você estabeleceu enquanto fazia esse trabalho?

Quando fui convidado a ser editor do catálogo, tanto o pessoal da Bienal de Quadrinhos de Curitiba quanto a Embaixada já tinham alguns critérios: o Catálogo precisava mostrar representatividade de gênero (um número próximo de autoras e autores),representatividade regional (produções de todas as regiões do Brasil) e temas nacionais e da cultura brasileira. De cara, eu já propus um recorte histórico: dez anos. E fui fazer um listão do que saiu de quadrinho brasileiro entre 2009 e 2018. A lista passou de mil publicações, entre álbuns de editora, material independente, séries, webcomics etc.

Depois fechamos mais um corte, que foi o tamanho do catálogo. Aí nos limitamos a 70 obras ou projetos, que podiam ser devidamente apresentadas em fichinhas nas 150 páginas do catálogo impresso. Adotamos mais critérios: variedade de estilos de desenho, variedade de gênero narrativo, não repetir autores e prestigiar obras premiadas.

Mas o principal norte é esta palavra que eu repeti várias vezes: variedade. Se íamos juntar um naco da produção nacional de quadrinhos no mesmo pacote, o mais importante era mostrar como essa produção nacional é variada em todos os aspectos que se puder imaginar. E sugerir que aquilo é só uma introdução ao quadrinho brasileiro. 

“O critério com que eu tive mais dificuldade foi o de representatividade regional. Por um monte de motivos, temos uma concentração pesadíssima da produção no sudeste e pouquíssima, mas pouquíssima mesmo, nas regiões norte e centro-oeste”

Capas da série Know-Haole reunidas em uma das páginas do Catálogo HQ Brasil

Quais foram os principais desafios que você encontrou enquanto editava esse livro e selecionava essas 70 HQs?

Ter segurança na minha lista e nas informações. Queria que existisse um grande cadastro dos quadrinhos publicados no Brasil…

Gostaria muito que os autores e as editoras se preocupassem em cadastrar (e verificar as informações) no que é esse grande cadastro, ou que é referência para mim e para um monte de projetos e pesquisas: o Guia dos Quadrinhos. Baseio números do mercado no que encontro por lá, mas sei que ele não responde por 100% da produção. De qualquer modo, não me pautei só pelo Guia,  e busquei informações inclusive entre os próprios autores.

Também gostaria que todo autor independente se preocupasse em ter ISBN, o que dá uma existência internacional à obra. Sei que é burocrático e que tem uma taxinha, mas ajuda a HQ a ser encontrada e respeitada.

O critério com que eu tive mais dificuldade foi o de representatividade regional. Por um monte de motivos, temos uma concentração pesadíssima da produção no sudeste e pouquíssima, mas pouquíssima mesmo, nas regiões norte e centro-oeste. As cinco regiões do Brasil têm obras no catálogo, mas a seleção representa esta disparidade de produção.

Eu já ouvi de muitos artistas sobre a importância da Rio Comic Con de 2010 para a formação deles ou como esse evento serviu de estímulo. O meu ponto: 2009/2010 parece ser um marco muito significativo para os quadrinhos brasileiros, dando início a uma onda de publicações que segue até hoje. O catálogo começa a cobrir exatamente nesse momento. Qual balanço você faz desse intervalo de 10 anos? Você consegue tirar uma lição maior ou sintetizar esse período de alguma forma?

Acho que este período teve uns elementos de estímulo que se combinaram: os festivais/feiras/convenções ganharam impulso (FiQ, Rio Comic Con, Bienal de Curitiba, CCXP); o PNBE estimulou uma pilha de editoras a publicar HQ; tem o PROAC em São Paulo; os prêmios e o reconhecimento no exterior e a contrapartida de reconhecimento nacional a Moon, Bá, Grampá, Albuquerque, Quintanilha, Reis, Deodato; o Catarse, que começou em 2011; e o momento bom da economia brasileira. Acho que são coisas que aconteceram à parte e geraram uma tempestade perfeita.

Aí a economia caiu e tudo mais caiu – com exceção da projeção dos brasileiros no exterior, que está crescendo e é reflexo tardio do período de tempestade perfeita. Não sei se dá pra tirar uma lição daí, fora a de que o mercado de quadrinhos brasileiro é muito sensível aos terremotos na economia brasileira.

“Não temos uma indústria com produção contínua nem temos uma base fiel de leitores/consumidores que dê estrutura para aguentar baques econômicos”

Uma página do Catálogo HQ Brasil falando sobre o álbum Aos Cuidados de Rafaela, parceria de Marcelo Saravá e Marco Oliveira

Ainda sobre esse mesmo intervalo: você consegue fazer um comparativo entre o universo dos quadrinhos brasileiros nos anos de 2009 e 2018? Quais você considera as principais mudanças? O que você acha que piorou? O que você acha que melhorou?

Isso daria um livro, né? Mas, pensando por alto, o que melhorou: mais (visibilidade da) diversidade de gênero entre os/as quadrinistas; mais prêmios importantes no exterior; mais publicações de brasileiros no exterior; projetos comerciais que trazem o “grande público” para o quadrinho nacional, como as Graphic MSP e a CCXP; mais graphic novels de fôlego, superando as 200 páginas.

O que piorou (ou o que poderia ter melhorado mas não melhorou): não temos uma indústria com produção contínua nem temos uma base fiel de leitores/consumidores – ou seja, um mercado forte – que dê estrutura para aguentar baques econômicos como o desses últimos quatro, cinco anos.

Pensando nesse trabalho com o catálogo e com o Fabuloso Quadrinho Brasileiro, você consegue ver algum padrão nas HQs nacionais? Digo, você vê alguma escola ou estilo predominantes? Alguma reflexão ou tendência que sejam comuns para grande parte dos autores brasileiros de quadrinhos?

Não vejo. E acho ótimo que eu não veja! Talvez só tenhamos o canibalismo: os autores brasileiros consomem HQs do mundo inteiro – gibi de super-herói, autobiografia norte-americana, BD de fantasia, shoujo – e misturam tudo na hora de fazer os seus.

Uma das páginas de Aos Cuidados de Rafaela presente no Catálogo HQ Brasil

O catálogo não trata apenas de obras, mas também de projetos – como o selo Graphic MSP e os Ugritos. Eu fico com a impressão de que esse período que o catálogo retrata é significativo não apenas em relação a autores e títulos, mas também de iniciativas e propostas editoriais. Há um peso, um envolvimento e uma presença maiores dos editores nacionais de quadrinhos nesses últimos anos?

Acho que não é desses últimos anos, pois começou antes. A Conrad e a Desiderata, por exemplo, foram marcantes para gerar essa nova fase do quadrinho brasileiro, mas são do início do século e nem aparecem no catálogo.

Por outro lado, sim, concordo que tem iniciativas editoriais inéditas. Duas das maiores editoras do mercado livreiro, a Companhia das Letras e a Autêntica, lançaram selos com bons quadrinhos nacionais: Quadrinhos na Cia. (2009) e Nemo (2011). A Barba Negra (2011) e a Veneta (2012) se mexeram para colocar autores nacionais no exterior. E a Graphic MSP foi um projeto marcante por divulgar nomes pouco conhecidos do grande público – e divulgando mesmo, dando ênfase aos autores – ao que é o grande público do quadrinho no Brasil, o material da MSP.

“O que aconteceu nesses últimos anos é que existiu um ambiente bom, com incentivos para váááários autores botarem suas verdades para fora e, dessa massa gigante, apareceu um bom número de obras excepcionais”

Uma página do Catálogo HQ Brasil falando sobre o álbum Castanha do Pará, de Gidalti Jr.

Você falou no Facebook sobre esse período de excelente difusão do quadrinho brasileiro no exterior, com cada vez mais álbuns nacionais saindo nos Estados Unidos e na Europa, prêmios importantes, agentes e tradutores ligados nos autores nacionais. Você vê alguma causa específica para esse interesse lá de fora no que tá sendo produzido por aqui?

A causa seria o Brasil fazer quadrinho bom? 🙂

Não sei responder muito mais que isso. Não é uma coisa que dê para se projetar: “vamos fazer quadrinhos que interessem aos gringos”. Acho que isso não existe. Sou da opinião que os autores têm que produzir o que querem, o que acham de maior verdade em si e querem botar para fora. Se isso vai fechar com o que o mercado – interno ou externo – quer ler, são outros quinhentos.

O que aconteceu nesses últimos anos é que existiu um ambiente bom, com incentivos para váááários autores botarem suas verdades para fora e, dessa massa gigante, apareceu um bom número de obras excepcionais. O que é excepcional circula entre a crítica, entre os leitores, entre os prêmios e chega aos olhos e ouvidos dos estrangeiros. Com alguns empurrõezinhos, como o Catálogo. 

Qualidade é um conceito bem abstrato e pessoal e pelo que entendi o catálogo não entra nesse mérito. Mas, eu queria saber, desses 70 títulos você tem um preferido? E tem algum deles que você acha como o mais interessante ou representativo desse período de 10 anos retratado no livro?

Pois é, você tem que dar critérios para definir o que é “qualidade”. Muitas das obras que selecionamos foram premiadas (HQ Mix, Angelo Agostini, Jabuti, Eisner etc.), o que dá para dizer que é um crivo de “qualidade” que não vem só de nós, organizadores do Catálogo.

Também não quis me deixar levar pelo meu gosto. Tem muita coisa que eu adoro que não está ali (Maya, do Denny Chang, Dinâmica de Bruto do Maron, Daytripper) e que não está por ene motivos. Tem várias obras de que eu, pessoalmente, não gosto, mas que se encaixavam nos critérios. Mas se for para escolher um preferido no Catálogo, eu iria de Mensur, do Rafael Coutinho.

A capa do Catálogo HQ Brasil
Cinema

Escafandro Podcast: John Wick e a nova escola de ação de Hollywood

Escafandro Podcast novo no ar! Eu e os meus amigos André Graciotti e Jairo Rodrigues aproveitamos o lançamento de John Wick 3: Parabellum para fazer um balanço dos três filmes lançados até o momento com o ator Keanu Reeves no papel do assassino profissional John Wick. Ainda conversamos sobre outras produções do mesmo gênero e estilo e os padrões de uma possível nova escola de filmes de ação em Hollywood. Papo bem bão. Fica o aviso da presença de spoilers no episódio.

Você baixa o programa por aquitambém pode seguir o nosso Tumblrouvir o Escafandro no nosso canal no YouTube ou pelo iTunes e pelo Stitcher. Como preferir. Dá o play!

HQ

Je Suis Cídio #14, por Carlos Carcassa

O quadrinista João B. Godoi está morando na cidade de Angoulême, na França, e participando da classe internacional de quadrinhos da Ecole Européenne Supérieure de L’image (EESI). Desde sua chegada à Europa ele vem produzindo uma espécie de diário em quadrinhos batizada de Je Suis Cídio, mostrando um pouco da rotina dele em Angoulême. 

Hoje compartilho a 14ª atualização de Je Suis Cídio aqui no blog – em atualização especial assinada pelo quadrinista Carlos Carcassa. Atualmente residindo na cidade portuguesa de Coimbra, Carcassa colaborou recentemente no segundo número da revista Pé-de-Cabra. 

Vocês conferem os 13 capítulos prévios do projeto clicando nos links a seguir: Je Suis Cídio #1Je Suis Cídio #2Je Suis Cídio #3Je Suis Cídio #4Je Suis Cídio #5Je Suis Cídio #6Je Suis Cídio #7Je Suis Cídio #8Je Suis Cídio #9Je Suis Cídio #10Je Suis Cídio #11Je Suis Cídio #12 e Je Suis Cídio #13.

Entrevistas / HQ

Papo com Adrian Tomine, autor de Intrusos: “Já escrevi histórias de várias maneiras, mas o ingrediente em comum é o tempo. Gosto de pensar numa história durante bastante tempo, às vezes durante anos”

Intrusos é o primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado em português. O trabalho do autor só havia dado as caras por aqui antes em 11 páginas de Comic Book: O Novo Quadrinho Americano, publicado em 1999 pela editora Conrad. É muito pouco para um dos nomes mais interessantes da narrativa gráfica norte-americana e um dos principais representantes do universo dos quadrinhos autorais feitos nos Estados Unidos.

Ontem foi publicada no Segundo Caderno do jornal O Globo a minha matéria sobre o lançamento de Intrusos no Brasil. Eu entrevistei Tomine e no texto apresento algumas falas dele sobre o desenvolvimento desse projeto e também sobre fazer e pensar quadrinhos e viver nos EUA de Donald Trump. O texto está disponível no site do jornal. Reproduzo a seguir a íntegra da entrevista – traduzida pelo tradutor/ pesquisador/ editor/ crítico Érico Assis (valeu, Érico!). Saca só:

“Quem lê meus quadrinhos teve que, de certa forma, correr atrás. São leitores que já se interessam pelo que eu faço ou, no mínimo, se interessam por quadrinhos”

Quadros de uma das histórias de Intrusos, primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil

Você pode contar um pouco sobre as suas principais referências? Quais obras foram essenciais para a sua formação como autor? O que você tem lido ultimamente?

Minhas primeiras inspirações vieram dos gibis da Marvel dos anos 1970 e dos Peanuts de Charles Schulz. Foi o que fez eu querer ser cartunista. Depois que eu cresci, tive influência muito forte dos gibis “underground” ou “alternativos” como Love & Rockets, Eightball e Yummy Fur. Também fiz faculdade de Letras-Literatura, que foi meu contato com livros que eu não teria lido de outro modo e que despertou meu interesse por literatura moderna. Li faz pouco um livro chamado Homesick for Another World [Saudades de Outro Mundo], de Ottessa Moshfegh, que gostei muito.

Eu fico curioso em relação ao alcance do seu trabalho. Você é bastante conhecido para o público de quadrinhos, mas também tem estado cada vez mais presente em revistas como New Yorker e outras não relacionadas ao mundo das HQs. Esses universos são muito diferentes para você?

São. Na prática, penso como dois empregos à parte, mas com certeza um influencia o outro. Imagino que eu não ia me contentar só com um.

Eu também fico curioso em relação à recepção do público em relação às suas publicações independentes e curtas e a republicação posterior em encadernados. Você acha que a experiência é muito diferente para os leitores?

Não sei direito. Acho que essa pergunta é para os leitores!

Quadros de uma das histórias de Intrusos, primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil

Eu gosto muito das cartas das edições avulsas de Optic Nerve. Quando você começou acho que cartas eram a principal forma de contato dos seus leitores com você e imagino que isso tenha mudado e o retorno se tornado mais fácil e imediato. Você sente essa mudança no relacionamento e na interação com os seus leitores?

Não mudou muito para mim, pois não divulgo meu e-mail e não estou no Twitter nem no Facebook. A melhor maneira de entrar em contato comigo é enviar uma carta para minha caixa posta. Sinceramente não sei como outros artistas conseguem ter o envolvimento direto com os leitores e ainda ter tempo de produzir!

Você relatou recentemente uma comoção negativa por parte dos leitores da New Yorker por causa de uma capa mostrando sua experiência em um acampamento com a sua família. É muito diferente o retorno que você tem de uma capa como essa do que a resposta que costuma ter com os seus quadrinhos?

Olha, quem lê meus quadrinhos teve que, de certa forma, correr atrás. São leitores que já se interessam pelo que eu faço ou, no mínimo, se interessam por quadrinhos. Mas a capa da New Yorker fica diante de um público muito maior, por isso às vezes a reação é outra. Às vezes vejo comentários que sugerem que a pessoa não tem familiaridade alguma nem com a ideia do cartunismo ou de ilustração, aí levam a imagem muito para o literal!

“A arte que é sincera, principalmente a que enfoca a interação humana, pode ter algo de universal”

Quadros de uma das histórias de Intrusos, primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil

Você começou a fazer quadrinhos ainda adolescente. Hoje você tem 44 anos e filhos. Imagino que sua leitura do mundo tenha mudado bastante durante esse período. O seu público também mudou? Quem você vê lendo os seus quadrinhos atualmente?

Quando faço sessões de autógrafos, fico muito contente quando vejo gente na plateia que amadureceu comigo e com meu trabalho, assim como gente que nem era nascida quando eu comecei a publicar. O público está mais diversificado, em todos os sentidos, e isso é gratificante.

Aliás, ter filhos e se tornar pai afetou de alguma forma o seu trabalho? O quanto essa experiência influencia nos temas e na produção da suas obras?

Ter virado pai é de longe a maior influência que houve no meu trabalho nos últimos dez anos. Mudou como (e quando) eu trabalho, mas também me mudou profundamente como pessoa, o que eu suponho que não tenho como deixar de transpassar no trabalho.

Há uma mistura de melancolia e tristeza que percorre o seu trabalho e de outros quadrinistas norte-americanos da sua geração. Você vê esse padrão? Você consegue elaborar alguma justificativa para o predomínio desses temas?

Sim, acho que você encontrou bem o ponto, mas não sei explicar.

“Eu me atraio por histórias que expressem uma experiência ou ponto de vista que seja singular e que se, por acaso, for bem desenhada ou tiver um design legal, melhor ainda”

Quadros de uma das histórias de Intrusos, primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil

O mundo tem ficado cada vez mais conservador, preconceituoso e xenófobo. Isso afeta o seu trabalho? Você se sente estimulado de alguma forma a tratar desses temas nos seus trabalhos?

Bom, isso que você falou afeta as pessoas de várias maneiras, e é importante manter as coisas em perspectiva. Tive dificuldade em botar o trabalho em dia nos últimos anos porque o noticiário anda muito penoso, deprimente, vergonhoso e não para nunca. Mas estou ciente de que há outros artistas nesse mundo que são afetados de forma direta e profunda pelas mesmas notícias que me afetam, mas de maneiras que nem tenho como imaginar. Ser afetado só no emocional é um grande privilégio.

O que você pensa ao ver o seu trabalho sendo publicado em um país como o Brasil? Você fica curioso em relação à forma como seu quadrinho será lido e interpretado em uma realidade tão diferente daquela em que você vive?

Sim, sempre fico curioso. Meus quadrinhos foram traduzidos para vários idiomas, publicados em lugares distantes, e eu nunca tenho noção de como são recebidos. Mas, ao mesmo tempo, é uma lisonja. Não é tão incomum eu pensar no meu trabalho traduzido, pois sempre me atraí pela arte, pelo cinema, pela literatura, pelos quadrinhos etc. traduzidos de outras línguas. Já descobri que a arte que é sincera, principalmente a que enfoca a interação humana, pode ter algo de universal.

O que mais te interessa em quadrinhos hoje?

Meu interesse primário nos quadrinhos, principalmente como leitor, continua o mesmo de vinte anos atrás. Eu me atraio por histórias que expressem uma experiência ou ponto de vista que seja singular e que se, por acaso, for bem desenhada ou tiver um design legal, melhor ainda.

“Já escrevi histórias de várias maneiras, mas o ingrediente em comum é o tempo. Gosto de pensar numa história durante bastante tempo, às vezes durante anos”

Quadros de uma das histórias de Intrusos, primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil

Você pode contar um pouco sobre o desenvolvimento de seus personagens? Você tem algum hábito particular de observar pessoas na sua rotina diária?

Acho que você trata de um ponto crucial: observação. Eu acredito que os tipos de histórias que eu crio são o resultado direto de eu observar, escutar e matutar… ou seja, por eu ser um introvertido que mais absorve do que interage com o mundo. Acho que também importa sempre se perguntar: “É assim que uma pessoa de verdade fala e se comporta? Ou eu estou me baseado no que eu vi na TV ou no cinema?” Às vezes essa resposta é complicada (principalmente porque muita gente de verdade fala de um jeito que tem muita influência da TV e do cinema), mas descobri que é um caminho importante para se chegar na escrita que é crível e que se identifica como humana.

As suas histórias costumam ter algum ponto de partida em comum? Você já sabe como cada quadrinho vai terminar quando começa a criá-lo?

Já escrevi histórias de várias maneiras, mas o ingrediente em comum é o tempo. Gosto de pensar numa história durante bastante tempo, às vezes durante anos. Posso não estar trabalhando nela direto, mas ela está lá num cantinho da cabeça, se remexendo, perdendo as arestas, evoluindo. Essa é uma grande sacada: deixar o subconsciente dar jeito na história que ela vai melhorar, como se acontecesse uma coisa mágica.

A capa da edição brasileira de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine, publicada pela editora Nemo
HQ / Matérias

Adrian Tomine fala sobre Intrusos, sua primeira edição solo em português

Eu entrevistei o quadrinista Adrian Tomine sobre Intrusos, título nacional do álbum Killing and Dying, e essa conversa virou matéria pra edição de hoje do Segundo Caderno do jornal O Globo. O texto está disponível para leitura clicando aqui. No nosso papo, o autor falou sobre as origens dos seis contos presentes no livro publicado pela editora Nemo, comentou algumas de suas influências e refletiu sobre o impacto do nascimento das filhas e da presidência de Donald Trump em seus trabalhos. Logo mais a íntegra dessa entrevista dá as caras por aqui.

Quadros de uma das histórias de Intrusos, primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil
HQ

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Repito a pergunta do título: você assina a newsletter do Adão Iturrusgarai? Caso ainda não seja assinante do Correio Elegante do Adão, eu recomendo que se torne o quanto antes. Acompanho desde o ano passado e já li histórias sobre o primeiro zine que ele produziu, o período em que passou morando no Nordeste e as origens da Revista Dundum.

A atualização de hoje fala sobre o dia em que ele conheceu o Jaguar. “Ah, o Adão… I… I… I… I… Impronunciável”, teria dito um dos fundadores do Pasquim ao recebê-lo na redação. Enfim, assine o quanto antes. Grandes histórias do humor gráfico nacional semanalmente no seu email.