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Entrevistas / HQ

Papo com Luciana Falcon, coordenadora da Bienal de Quadrinhos de Curitiba: “Nosso compromisso sempre foi com a promoção dos quadrinhos, mas mais ainda com o desenvolvimento cultural de uma forma mais abrangente”

Escrevi na terceira edição da coluna Sarjeta sobre os dois principais eventos de quadrinhos do Brasil em 2020, o FIQ, em Belo Horizonte, e a Bienal de Quadrinhos de Curitiba. A 6ª edição do evento na capital de paranaense está marcada pra rolar entre os dias 6 e 9 de agosto, sempre com entrada gratuita. Bati um papo com a coordenadora da Bienal, Luciana Falcon, para saber mais sobre seus planos e expectativas para o evento.

Você lê o meu texto para a Sarjeta #3 ali no site do Instituto Itaú Cultural. Compartilho a seguir a íntegra da minha entrevista com a responsável pela Bienal, na qual também conversamos sobre escolha do tema “Música e Quadrinhos” para essa sexta edição do festival e do papel da Bienal em um contexto de conservadorismo aflorado no país. Saca só:

“Buscamos sempre privilegiar as HQs autorais, as independentes e as que promovam a experimentação, a diversidade de linguagens e novos caminhos”

Registro da edição de 2018 da Bienal de Quadrinhos de Curitiba (Divulgação)

Junto com o FIQ, a Bienal de Quadrinhos de Curitiba é um dos principais eventos de HQs do Brasil, mas a proporção e a relevância do evento foi algo construído com o tempo. Qual balanço vocês fazem hoje do que a Bienal era quando surgiu, e o que ela é hoje, como um desses grandes marcos bienais das HQs nacionais?

A Bienal está caminhando para a sua sexta edição e isso já traz alguns aprendizados que vêm fazendo parte dessa construção.

Costumo dizer que para produzir um evento dedicado a HQ, como a Bienal é,  não basta entender ou gostar de HQs. Nosso compromisso sempre foi com a promoção dos quadrinhos, mas mais ainda é com o desenvolvimento cultural  de uma forma mais abrangente. Somos produtores culturais, queremos e devemos agregar, daí derivam nossos intentos com outras ações correlatas e, mais recentemente, com a ideia de recorte temático, possibilitando reflexões de nossos tempos e da implicação cultural por meio da produção de HQs. 

Nesse sentido, temos testado ao longo dos anos (com algum êxito), abordagens e articulações para engajar parceiros para criarmos as condições (financeiras sobretudo) e o ambiente necessário para aprofundar reflexões mais elaboradas sobre as HQs.

Nosso intuito passou de uma visão panorâmica das HQs, nas duas primeiras edições, para um recorte propositivo sobre temas e cruzamentos que podemos elaborar a partir das produções de HQs.

Vocês conseguem definir a linha editorial-curatorial da Bienal? Como vocês definem o recorte que a Bienal faz e apresenta hoje em termos de autores e publicações?

Desde 2016, quando o evento se torna Bienal de Quadrinhos de Curitiba, abrimos a curadoria para múltiplos realizadores das HQs. Autores, desenhistas, editores, jornalistas, tradutores e críticos se revezaram na curadoria das últimas três edições ao lado da Mitie Taketani, a embaixadora das HQs em Curitiba e curadora honorária da Bienal.

A ideia é termos uma voz plural e contextualizada na produção de HQs através da curadoria onde, a cada edição, de acordo com o tema, a gente consiga somar conhecimentos (muitas vezes específicos), sobre o que se pretende mostrar.

Busca-se sempre privilegiar as HQs autorais, as independentes e as que promovam a experimentação, a diversidade de linguagens e novos caminhos. Mas evidentemente temos presente, senão nas atividades oficiais, todo tipo de HQs através dos expositores na Feira da Bienal e no Palco Ocupa – espaço livre para programação de atividades propostas pelos participantes da Feira. Como dissemos, nosso intuito é agregar.

“O que dá o tom do que iremos discutir na edição seguinte é o calor que gera o último dia do evento”

Registro da edição de 2018 da Bienal de Quadrinhos de Curitiba (Divulgação)

Quais são as expectativas de vocês para a Bienal de 2020? Por que “música” como o tema principal do evento?

Tivemos um grande divisor de formato de produção em 2016, quando o pagamento do patrocínio via edital público do Paraná foi suspenso dias antes do evento. Nos rearticulamos em 2018 e nos fortalecemos ainda mais, resistindo bravamente.

Neste ano, estamos em expansão de nossa potência de produção com ações fora de Curitiba. Circulamos na África, Europa e Festivais Internacionais, o que nos possibilitou ver outros formatos de eventos e estreitar relações para novas parcerias que já estarão presentes em 2020, em Curitiba.

Temos as melhores possibilidades para a próxima edição (e isso é um tanto bizarro no contexto cultural atual do Brasil) e as expectativas são as mais elevadas.

A edição de 2018 – A cidade nas HQs – trouxe uma reflexão estendida da edição 2016, onde falamos sobre representatividades e o contexto político-social nas HQs. Em 2018, buscamos mostrar a cidade como “suporte” do que havíamos discutido em 2016. De como a cidade agrega ou exclui, como interagimos no caos ou nas cidades dos sonhos, futurísticas ou ainda as fantásticas. Alguns debates foram bem depressivos devido à perspectiva nada otimista em relação a futuros, especialmente naquela véspera de eleições presidenciais.

O que dá o tom do que iremos discutir na edição seguinte é o calor que gera o último dia do evento. E, sob aquela ótica desoladora das cidades que havíamos discutido e pelo futuro que se anunciava, resolvemos que precisávamos nos mexer, como quem espanta algo que insiste em nos paralisar.

Sabemos sobre silenciamentos, sabemos sobre paralisações, sobre isolamentos, sobre desarticular movimentos, e nesse sentido não sucumbiremos. Vamos estar juntos, vamos celebrar, vamos cantar bem alto e dizer subjetividades por outro viés. Música e HQs nasceu do calor do último dia da Bienal. E agora vamos pra pista.

Por que o convite para o Fabio Zimbres participar da curadoria da Bienal?

Como ele mesmo colocou no título em seu texto de abertura da exposição Bienal Publica 2018, do qual ele foi editor da publicação: Samba Antigo.

A Bienal é necessária para todos nós porque ela promove o essencial na cultura, o encontro. Já ouvimos muitíssimos relatos de pessoas dizendo da satisfação de ter conhecido ou encontrado este ou aquele na Bienal. 

Com a gente não foi diferente, encontramos o Zimbres, foi “um luxo só, como um samba antigo” espelhando seu texto. Queríamos muito continuar a trabalhar e pensar a Bienal com ele, editando o Bienal Publica novamente. Mas, ao final do evento, quando vislumbramos o tema, parecia que algo havia se fechado.

Mitie Taketani e o Fabrizio Andriani completariam a curadoria nas HQs, mas foi inevitável pensarmos em alguém para versar sobre produção musical. Parafraseando ainda o Zimbres, como outro “samba antigo”, convidamos um parceiro de muitos projetos, o Vadeco, para compor a curadoria.

Todos trazem referências distintas em seus repertórios de HQ e música para a seleção dos convidados. Mas como dissemos, não basta conhecer HQs ou música nesse caso. A Bienal se faz com a vontade de estar junto, com ideias compartilhadas, com articulação para fazer as coisas acontecerem. E, finalizando as citações do texto do Zimbres: “Bienal (e toda nossa equipe), seu requebrado me maltrata”.

“Esperamos a presença maciça do público, principalmente num período de tantos cortes e escassez em programações culturais”

Registro da edição de 2018 da Bienal de Quadrinhos de Curitiba (Divulgação)

Como a crise econômica, social e política que assola o país, somada à crise do mercado editorial, tende a impactar a realização da próxima Bienal?

Tentamos incansavelmente e insistentemente exercer nossa função de trabalhadores da cultura. Isso também inclui ocupar os espaços (ainda que poucos) de promoção cultural, sejam físicos, ou projetos de incentivo, iniciativas privadas, institucionais, acadêmicas, públicas, etc. Este tem sido o caminho e estamos tendo resultados.

Se por um lado implementamos o engajamento e articulação, por outro buscamos executar a melhor qualidade, diversidade e propósito na programação para garantir a manutenção das parcerias, da Bienal e no que se deseja enquanto desenvolvimento cultural.

Nossa programação é (e sempre será) totalmente gratuita, apesar de não ser um evento público da prefeitura de Curitiba, como muitos confundem. Esperamos a presença maciça do público, principalmente num período de tantos cortes e escassez em programações culturais. Vamos ofertar diversas atividades para todos, como shows, exposições, oficinas, conversas, cinema, programação infantil, festas, etc. Esperamos que isso se reverta também em vendas aos expositores.

Quero acreditar que a nossa rede de parceiros (editoras, instituições, etc) vai dar continuidade ao que estamos executando com muita seriedade e relevância.

Desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que é a nossa sociedade hoje. Qual você considera o papel de um festival como a Bienal dentro desse contexto? 

Basicamente, mas não superficialmente, fazer pensar, refletir. Este sem dúvida é o principal papel. É dar destaque num recorte o que podemos elaborar em pensamentos que ampliem, que nos pegue de surpresa, que ponha dúvida, que questione, que vá contra certezas absolutas ou imposições.

O Brasil é mundialmente conhecido pela música, ela está em nós e diz muito sobre como convivemos, sobre nossa diversidade. É um excelente suporte da nossa voz, sem esquecer dos corpos, que nos interessam também, nosso movimento, nosso traço. Queremos mexer dos pés a cabeça e fazer pensar.

Registro da edição de 2018 da Bienal de Quadrinhos de Curitiba (Divulgação)
HQ / Matérias

Sarjeta #3: 2020 é ano de FIQ e Bienal de Quadrinhos de Curitiba

Está no ar a terceira edição da Sarjeta, minha coluna mensal sobre quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. Aproveitei a proximidade de 2020 para escrever sobre os dois grandes eventos de quadrinhos marcados para o próximo ano no país, o Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), em Belo Horizonte, e a Bienal de Quadrinhos de Curitiba.

Conversei com os responsáveis por cada um dos festivais, Afonso Andrade, coordenador do FIQ, e Luciana Falcon, coordenadora do evento paranaense. Falo um pouco sobre o que o público pode esperar de cada evento e apresento as expectativas dos organizadores dos dois festivais. Na entrevista que fecha a coluna, bati um papo com o quadrinista Batista, autor da HQ Máquina de Lavar.

Você lê a terceira Sarjeta clicando no link a seguir: Sarjeta #3: 2020 é ano de FIQ e Bienal de Quadrinhos, os principais eventos do calendário nacional de HQs.

(crédito da imagem que abre o post: Divulgação/Glenio Campregher)

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Começa na 5ª (6/9) a Bienal de Quadrinhos de Curitiba 2018

A Bienal de Quadrinhos de Curitiba 2018 terá início amanhã (6/9) e recomendo fortemente sua ida ao evento, no Museu Municipal de Arte da capital paranaense entre 5ª e domingo (9/9). Junto com o Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, trata-se da principal festividade de HQs do país. Não poderei estar presente por questões profissionais, mas insisto que você dê uma olhada na programação e tente dar um pulo no evento. Lembrando que a entrada será gratuita e a feira e as conversas do encontro contarão com a presença de grandes mestres e novos talentos das HQs brasileiras.

Eu bati um papo rápido por email com o tradutor, jornalista e crítico Érico Assis, cocurador da Bienal junto com Mitie Taketani, propietária da Itiban Comic Shop, uma das principais lojas de quadrinhos do país. Na conversa a seguir, ele comenta sobre o tema do evento (A Cidade em Quadrinhos), destaca a presença do lendário Julio Shimamoto, chama atenção para alguns pontos da programação e fala de suas expectativas para o próximos dias. Saca só:

Por que A Cidade Em Quadrinhos como tema da Bienal?

Por um lado, a organização do evento viu que a cidade é um tema recorrente em todo tipo de quadrinho. A gente tem Gotham City, Metrópolis, Patópolis, Palomar, Cidades Obscuras, Sin City, aldeias gaulesas, a Nova York do Eisner. Às vezes essas cidades são personagens das HQs, às vezes há cidades reais que inspiram obras. Quadrinistas brasileiros têm produzido muito material de destaque onde a cidade é um aspecto importante: Quintanilha com Salvador e Niterói, o D’Salete e os quilombos, Luli Penna e São Paulo, Ana Koehler e Porto Alegre, o Rafael Sica e as fachadas de qualquer cidade.

Por outro lado, Curitiba é uma cidade reconhecida internacionalmente pela arquitetura e pelo urbanismo. Vem gente do mundo inteiro estudar Curitiba como cidade que é. Quadrinistas locais, como o José Aguiar em Coisas de Adornar Paredes ou o Guilherme Caldas em Ditadura Abaixo e outros trabalhos, acabam representando Curitiba.

Por esses dois lados, parece um tema bem apropriado para um evento de quadrinhos específico desta cidade.

Quais são as suas principais expectativas em relação à Bienal?

Acho que é a mesma de qualquer evento: bastante público conversando sobre quadrinhos e com os quadrinistas, e também comprando quadrinhos desses mesmos quadrinistas. Teremos 120 mesas na Feira de Quadrinhos, com gente que traz publicações do país inteiro. Só percorrer este espaço, ver essa gente e escolher um quadrinho que agrada já tomaria uma semana – e você tem só quatro dias.

Além disso, temos 70 convidados que vão se espalhar pela nossa programação. Temos mesas para conversar sobre mercado, sobre mangá, para quadrinistas iniciantes, sabatinas com nossos convidados principais e, claro, sobre o tema do evento: cidade e quadrinhos.

Além da presença de grandes nomes dos quadrinhos nacionais, você destaca algum aspecto específico da programação?

Sem querer insistir nos grandes nomes, mas já insistindo, e também sem desmerecer todos os outros convidados, eu queria ressaltar a participação do Júlio Shimamoto. Shimamoto é um nome lendário no quadrinho brasileiro, pouco ou nunca participou de eventos e aceitou comparecer à Bienal por intermédio do Márcio Paixão Junior, seu colaborador no álbum Cidade de Sangue. Aliás, a proposta veio do Márcio. Shimamoto está com 79 anos, temos uma logística especial para recebê-lo e espero que quem comparecer possa reconhecer (ou conhecer) e homenagear o mestre. E que ele goste da experiência, claro.

Quanto ao restante da programação, eu tenho um orgulho umbiguista de ter convencido minha colega na curadoria, a Mitie Taketani, e os organizadores a deixar mesas com o tema “que horas o quadrinista acorda?”, “quando o quadrinista estuda?” e “o que o quadrinista tretou no twitter?”. Eu sou vidrado em conhecer o processo de trabalho, o cotidiano, e acho que este “eixo labuta” pode render papos importantes para quem quer fazer HQs, quem estuda HQs ou só curiosos como eu. Agradeço muito aos quadrinistas que toparam entrar nestas mesas, como Alexandre Lourenço, Fefê Torquato, Chiquinha, Cris Eiko e outros.

Na coletânea O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 você teve uma experiência como curador e editor do álbum. É muito diferente essa experiência agora com a Bienal?

Bem diferente. No Fabuloso eu ajudei a selecionar trabalhos para compor um livro que devia representar uma época. Na Bienal ajudei a selecionar pessoas para compor um evento que tem que atrair mais pessoas, dentro de um tema de discussão.

A Bienal está sendo realizada no mesmo ano do FIQ. Em termos de produção independente e autoral, são dois eventos com propostas parecidas. No que você acha que os dois festivais se distinguem?

Um é em Curitiba, o outro é em Belo Horizonte. Acho que eles absorvem um pouco da identidade local, principalmente pela participação maciça dos quadrinistas locais. No mais, os dois são lugares para tomar cerveja com os quadrinistas.

Da Bienal de 2016 para essa atual aumentou ainda mais a crise econômica pela qual o país está passando. Quais foram os principais desafios de montar uma programação e fazer uma seleção de artistas convidados dentro desse contexto?

Fazer um evento igual ou parecido com o de outros anos, mas com menos grana: acho que está sendo o desafio de todo mundo. Do ponto de vista de curador, não pudemos convidar todos quadrinistas internacionais e nacionais que queríamos. Mesmo assim, acho que tivemos muita sorte nos aceites de convidados – e do pessoal que vem para a Feira -, que me parecem uma fatia expressiva do quadrinho brasileiro. Se brinca bastante que FIQ e Bienal de Curitiba são a Reunião Anual da Firma Quadrinho Nacional. Acho que este objetivo a gente vai cumprir.

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Nos vemos em Curitiba?

Começa hoje a Bienal de Quadrinhos de Curitiba. Estarei por lá só amanhã a noite, mas sei que já vai ter muita coisa massa rolando a partir de hoje. Volto a recomendar uma investida na programação, que tá na íntegra nesse pdf aqui. E deixo o convite pra você aparecer nas três mesas nas quais vou participar – duas como mediador e na outra como debatedor. Ó a minha programação, a partir de sábado:

Sábado, 10 de setembro:

-Palco Ocupa:
18h – Jornalismo em quadrinhos
Mediação: Ramon Vitral
Robson Vilalba, Alexandre de Maio, Guilherme Caldas, Rafael Coutinho, Jesús Cossio

-Teatro Antônio Carlos Kraide:
20h – Criador e Criatura – Bastidores da criação das personagens
Mediação: Ramon Vitral
Marcello Quintanilha, Juscelino Neco, Wagner Willian

Domingo, 11 de setembro:

-Teatro Antônio Carlos Kraide:
11h – Jornalismo, Quadrinhos e Redes Sociais
Mediação: Heitor Pitombo
Mariamma Fonseca, Lielson Zeni, Ramon Vitral, Vitor Marcello

PS: e viu que aquela arte matadora do Shiko divulgada no último sábado virou o 5º cartaz da Bienal, né? Tremenda coleção essa, hein? Bem foda esse material de divulgação do evento.

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A Bienal de Quadrinhos de Curitiba começa em menos de uma semana: “A ideia é colocar as HQs a serviço de uma possibilidade de transformação”

A Bienal de Quadrinhos de Curitiba começa na próxima quinta-feira, dia 8 de setembro. Com vários debates e encontros propondo discussões sobre o atual cenário político e social brasileiro, o evento ganha um peso ainda maior por ser realizado em seguida à tomada do poder por um presidente golpista, reacionário e descrente em relação ao papel da cultura como um dos principais pilares de uma sociedade. Faltando pouco menos de uma semana para o início do encontro no Paraná, conversei com duas das responsáveis pela Bienal, a coordenadora Luciana Falcon e a curadora Mitie Taketani.

Trocamos alguns emails sobre as expectativas das duas em relação ao evento, a concepção da linha editorial da Bienal, as influências de outras convenções brasileiras de quadrinhos e a dificuldade de realizar um encontro do tipo em tempos de crise econômica e conservadorismo crescente. Leia aí, cara:

BienalPowerPaola

Estamos às vésperas do início da Bienal e imagino que vocês ainda estejam a mil. Quais as expectativas de vocês em relação ao evento? Tanto em relação a público e vendas quanto à profundidade dos debates/palestras/oficinas?

Luciana: As expectativas são as melhores, porque além de desenharmos uma programação bastante contundente no que diz respeito às discussões propostas, queremos ver o público percebendo outras interações que os quadrinhos podem ter na nossa vida, além do entretenimento.

A feira este ano ganha novos contornos, de tamanho e espaço, que agora ocupa também um galpão montado ao lado do MUMA, e esperamos que o público compareça para prestigiar os artistas desta edição, apesar do “ano das bizarrices” que enfrentamos.

Mitie: Neste exato momento estava combinando com uma das convidadas de finalizar a montagem de uma exposição. Acho que a Lu deve estar fazendo milhares de coisas ao mesmo tempo agora. Esta é a primeira vez que trabalho na curadoria e achei que seria bem mais fácil hehe. As expectativas? É como estar apaixonada por uma pessoa, sonhar acordada, sonhar dormindo, doar todo o seu amor e esperar ser correspondida. Só de pensar em reunir todos esses grandes nomes durante quatro dias me dá muita alegria. Queria não estar trabalhando….snif… Quanto aos números, prefiro deixar pra depois.

Pela programação e pelos convidados do evento, é possível notar uma carga política intensa na linha editorial da Bienal. Por que essa opção e como vocês chegaram nesse filtro?

Luciana: Podemos nós, artistas, falar de outra coisa agora? Os quadrinhos, como toda expressão artística (e para ser tal) é política. Nossa ideia é realmente colocar os quadrinhos num lugar potente de discussão, de questionamentos, no que envolve a nossa vida e sociedade que, infelizmente, está numa crise mundial. Os convidados internacionais evidenciam isso em seus trabalhos também, alertando que a a sociedade está doente de forma global. A ideia é colocar os quadrinhos a serviço de uma possibilidade de diálogo, de transformação.

Mitie: Não tivemos opção. Não tinha como não sincronizar a Bienal de Quadrinhos com a urgência das ruas, a necessidade de mudar, a movimentação política e social. Está na nossa cara e queremos pensar, refletir também através dos quadrinhos. Os convidados também parecem estar bastante envolvidos.

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Já viu a programação de palestras, debates e oficinas da Bienal de Quadrinhos de Curitiba?

Viu que tá no ar a programação de palestras, debates e oficinas da Bienal de Quadrinhos de Curitiba? Vale a investida no site do evento pra começar a se programar em relação ao que rola por lá. Participarei de dois debates: dia 10 de setembro, às 20h, vou mediar o papo Criador e Criatura – Bastidores da Criação das Personagens, com Marcello Quintanilha, Juscelino Neco e Wagner Willian; e dia 11, às 11h, vou compor a mesa Jornalismo, Quadrinhos e Redes Sociais, com mediação do Heitor Pitombro e presença de Mariamma Fonseca, Lielson Zeni e Vitor Marcello. E aí, vamos?