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Entrevistas / HQ

Papo com Diego Gerlach, autor de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem: “O objetivo era caminhar por outro lugar, por uma realidade com regras próprias, que descobriria mais ou menos no mesmo ritmo que a pessoa que lê”

As 252 páginas do álbum Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem reúnem em um única edição os primeiros experimentos impressos de Diego Gerlach com a linguagem das histórias em quadrinhos. As 19 histórias presentes na coletânea lançada pelo selo Pé-de-Cabra foram originalmente publicadas entre 2009 e 2016 em antologias nacionais e internacionais e em títulos independentes do autor, além de uma obra inédita, todas ambientadas na cidade fictícia de Pinacoderal.

“O objetivo toda vez que sentava para criar uma HQ dessas era de fato caminhar por outro lugar, por uma cidade e uma realidade com regras próprias, que descobriria mais ou menos no mesmo ritmo que a pessoa que lê”, afirma Gerlach em conversa com o blog sobre essas primeiras empreitadas em quadrinhos impressas na coletânea.

As histórias de Pinacoderal são protagonizadas por figuras suspeitas como Boy Rochedo, Verloch, Caranguejêra, Vingax e Zuêro em tramas girando ao redor da realidade hostil e imunda de Pinacoderal. São histórias que soam como um prólogo do trabalho atual de Gerlach, editor do selo Vibe Tronxa Comix e responsáveis por obras como a série Know-Haole e NÓIA: Uma História de Vingança (Escória Comix).

Pinacoderal é um imenso serviço prestado pelo selo Pé-de-Cabra aos leitores interessados na formação e na história de um dos principais nomes da vanguarda dos quadrinhos nacionais. O projeto gráfico assinado pelo também quadrinista Pedro Franz só corrobora a singularidade do projeto.

Na conversa a seguir, Diego Gerlach lembra a origem das histórias ambientada em Pinacoderal, fala sobre a produção da coletânea reunindo esses quadrinhos, comenta a dinâmica de seu trabalho com Pedro Franz, trata da relação de suas histórias com o ambiente urbano e exalta a curadoria dos selos Pé-de-Cabra e Escória Comix – “Idealmente, eles se tornariam um tipo de referência, pois o mercado e as grandes editoras estão totalmente fora de sintonia com a produção nacional”, diz o autor. Papo ótimo. Saca só:

“Com um atraso de meros sete anos, chegamos ao livro”

O teaser do primeiro anúncio da coletânea que viria a ser Pinacoderal, divulgado em 2011

No posfácio de Pinacoderal: Fragmentos de Linguagem você comenta como já tinha passado um pdf reunindo esse mesmo material para outros editores e que não teve nenhum retorno. O plano de publicar essa coletânea é antigo? Como ele ganha forma? Como o Panhoca e a Pé-de-Cabra entram na história?

Em 2011, anunciei no meu Flickr que no ano seguinte Pinacoderal seria publicado, sem maiores detalhes. Na época, a ideia era compilar os zines originais (mais algumas histórias que já estavam prontas) num livro. Nem lembro como achava que iria financiar essa empreitada, provavelmente financiamento coletivo. Na época, acreditava que em pouco tempo lançaria a quinta edição de Pinacoderal (o zine) e teria uma história fechada. Mal sabia eu que, devido a N fatores (os principais sendo minha inexperiência e o desejo de brincar com novos personagens), essa história (iniciada em Pinacoderal 3 e continuada no 4) nunca seria concluída. Aí a ideia de compilar tudo começou a ficar mais disforme: com algumas histórias incompletas, na minha cabeça o fluxograma ficava zoado. E, quanto mais produzia, mais difícil se tornava a ideia de publicar o material de maneira independente, pois os custos de impressão e distribuição também cresceriam. Foi só por volta de 2017, quando parei pra somar o número de páginas que já tinha publicado que percebi que poderia tranquilamente remover as HQs que não tinham sido concluídas e ainda assim ter em mãos uma publicação substancial. Foi isso que fiz. Com um atraso de meros sete anos, chegamos ao livro.

O Panhoca foi na verdade a primeira pessoa a me abordar a respeito da publicação do Pinacoderal. Já éramos amigos fazia algum tempo, mas ele ainda não tinha feito nada como editor, e sabia que editar esse treco seria casca-grossa, eu mesmo não sabia muito bem por onde começar, e aí acabou que deixamos a coisa de lado. O material passou na mão de duas outras editoras, que a princípio mostaram interesse (com base na minha descrição do material), mas que quando se depararam com a coisa em si, como disse, não emitiram qualquer parecer. Você nunca sabe por que, exatamente, um editor não responde. Pela minha experiência, em 90% dos casos tem a ver com alguma mudança súbita nos planos editorias, instabilidade do mercado, correria insana, uma combinação de todos esses fatores, etc. Mas, como esse material tem lá sua dose de esquisitice, rolou um questionamento interno, do tipo “Será que é totalmente incompreensível?”. Ano passado o Panhoca expressou de novo desejo de publicar algo meu. Com a Revista Pé-de-Cabra já consolidada como uma iniciativa editorial, selamos com um aperto de mão a parceria (na Bienal de Curitiba do ano passado) e começamos a trocar ideia sobre como de fato seria o rolê. Como menciono no posfácio, a insistência do Panhoca foi fundamental.

“Pessoas que acompanhavam com relativa proximidade minha produção ficaram surpresas ao descobrir que todas essas histórias fazem parte de uma mesma realidade”

Quadros de uma das HQs de Diego Gerlach publicadas em Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem

E como foi o trabalho de edição desse projeto? Ou melhor: o livro que vocês estão publicando é muito diferente/parecido com aquilo que você tinha em mente pra essa coletânea? O Pedro Franz é creditado como responsável pelo projeto gráfico do livro. Por que chamá-lo? Como foi a dinâmica entre ele, você e o Panhoca?

 Foi quando Pedro Franz topou fazer o projeto gráfico que eu e Panhoca começamos a botar fé que a coisa ia acontecer de fato. A ideia de convidar ele foi minha, porque gosto muito do trampo dele como designer e porque já colaboramos em diversos projetos, rola uma comunicação meio telepática. Ele definiu todo o aspecto da edição (incluindo a ordem das histórias) com um ou outro pitaco meu e do Panhoca (que ficou encarregado mais de nos colocar rédeas, organizar a logística com a gráfica e evitar que tivéssemos algum rompante faraônico que inviabilizasse a empreitada). Os protótipos chegavam e meu único trabalho era ficar mais e mais empolgado. Ainda não vi o livro pronto, mas o projeto gráfico ficou 112% do meu agrado.

Como você definiu o que entraria e o que ficaria de fora dessa coletânea Nem todo material ambientado no Universo Pinacoderal está impresso nessa edição, certo?  

A maioria do material já estava definido, normalmente tenho claro na minha cabeça se determinada história pertence a um universo específico (bom, não no começo, mas logo a coisa se define). A única questão eram algumas histórias que não tinham sido fechadas, como mencionei. Mas teve coisas (imagens e detalhes) usados na edição do livro que teria esquecido se o Franz não tivesse perguntado ‘Ei, isso não é Pinaco também?’. Produzi muita coisa, entre HQs e desenhos avulsos focados nesses personagens. Tenho certeza que alguma coisa ficou de fora. Por outro lado, foi trocando ideia com o Franz que entendi que, ao mesmo tempo que era uma edição que se pretendia bastante completa, tinha que traçar uma linha na areia e deixar algumas coisas de fora pra dar coesão ao material. Pessoas que acompanhavam com relativa proximidade minha produção ficaram surpresas ao descobrir que todas essas histórias (acho que quase ninguém leu tooodas em conjunto) fazem parte de uma mesma realidade. 

“Pinacoderal é um mistério para mim”

Uma das páginas de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea de Diego Gerlach publicada pelo selo Pé-de-Cabra

Eu quero saber sobre os seus sentimentos enquanto trabalhava nessa coletânea. Quais reflexões e balanços você fez em relação ao seu trabalho? Tem algum aspecto específico dessa sua produção que te interessa mais?

É super estranho ver o material todo reunido, pois lido assim ele assume nova forma, um contexto próprio. Rola uma repetição de símbolos e elementos narrativos que vão dando estofo a um universo, mas vão também revelando obsessões e cacoetes por trás de quem faz, o que é um pouco desconcertante de se ler num primeiro momento. Passa um slideshow monumental na minha cabeça dos diversos lugares em que produzi essas histórias, situações, pessoas, momentos pontuais. Por mais que tente explicar, tem coisas do meu trabalho que são um mistério pra mim também, que só consigo ter alguma ideia do que estava querendo dizer ou fazer olhando de modo retrospectivo. E Pinacoderal é um dos maiores exemplo disso dentro de tudo que fiz: o objetivo toda vez que sentava para criar uma HQ dessas era de fato caminhar por outro lugar, por uma cidade e uma realidade com regras próprias, que descobriria mais ou menos no mesmo ritmo que a pessoa que lê. Pinacoderal é um mistério pra mim também. 

“Uma verdadeira suruba em termos estéticos”

Quadro de uma das HQs de Diego Gerlach publicadas em Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem

Essa coletânea da Pinacoderal reúne trabalhos publicados em um intervalo de sete anos. O quanto as suas técnicas mudaram durante esse período? Há o predomínio de alguma técnica específica nos trabalhos impressos nesse livro?

As técnicas foram se adaptando, e o material do livro é uma verdadeira suruba em termos estéticos. Essas histórias têm todas o embrião de algo que mais adiante utilizei bastante. As primeiras HQs eram finalizadas com aguadas de nanquim (o tipo de finalização que usei também em Ano do Bumerangue), algo que aos poucos fui deixando de fazer, conforme aprendia a usar retículas para tonalizar. Tem também histórias desenhadas sem tinta, ou em lápis, ou de modo inteiramente digital. Mesmo as páginas coloridas foram experiências bem novas na época.  

Quando eu te entrevistei pela primeira vez, em 2015, você falou do impacto que teve na sua produção a conclusão de que o que mais te interessa no desenho “é a necessidade de desenvolver um vocabulário gráfico próprio”. Eu li o Pinacoderal e fiquei com a impressão que as HQs mais antigas são exatamente desse período em que você busca fugir daquilo que você chama nessa entrevista de “estilos, digamos, não canônicos”. É isso mesmo? Essas histórias mais antigas da Pinacoderal são uma espécie de prólogo para o que veio a ser o seu estilo atual?

De certa forma, é um prólogo, embora na época não parecesse. É um dos motivos do subtítulo (Rudimentos da Linguagem), o fato de que estava começando a aprender um vocabulário de quadrinhos possível. Com as primeiras histórias, independente de quão pouco aprimorado e incongruente o desenho fosse, sentia uma energia imensa por finalmente ter rompido uma barreira imaginária e estar fazendo quadrinhos. O estilo era necessariamente ‘não-canônico’ (a.k.a. ‘ruinzera’) pela minha falta de prática e pelo fato de estar tentando produzir HQs sem, naquele momento específico, pensar na história dos quadrinhos, ou em como eu mesmo presumia que quadrinhos deveriam ser feitos. 

“Pra mim é muito rara aquela sensação de ‘sei perfeitamente o que estou fazendo’, normalmente é o contrário disso”

Páginas de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea de Diego Gerlach publicada pelo selo Pé-de-Cabra

Nessa mesma entrevista você também fala da sua busca por uma “delimitação de possibilidades” para que você não fique eternamente preso à prancheta. Novamente comparando esses trabalhos mais antigos com a sua produção mais recente, eu fico com a impressão que você tem buscado um traço cada vez mais objetivo e narrativas cada vez mais lineares. Faz sentido essa interpretação?

Não sei… Quando olho pra trás, questiono coisas que falei o tempo todo e me mando um ‘Calaboca moleque’ mental com frequência. Essa afirmação em particular… Faz parecer que tenho total controle sobre as ferramentas que vou usar numa história, o que quase nunca é o caso. Já ocorreu de começar uma HQ digitalmente e sentir que não era o correto pra ocasião, e reiniciar tudo no papel. Pra mim é muito rara aquela sensação de ‘sei perfeitamente o que estou fazendo’, normalmente é o contrário disso. Pra criar uma história, minha estratégia é sempre ‘ir criando’, o que mostra que é sempre um método empírico, de construção, tentativa e erro, e o mesmo pode ser dito da técnica, e de como isso influencia o resultado. Acho que muito do meu estado emocional se reflete nas histórias, às vezes consigo ser conciso e direto, e às vezes me enredo em coisas mais… Abstratas e difíceis de entender. Em algumas histórias recentes senti que estava tomando um rumo mais barroco, menos claro, me fez sentir como se essas questões de foco e clareza fossem coisas que vêem e vão em ondas, acabam se alternando com outras tentativas narrativas. Mas no fim só os leitores podem dizer se minha impressão, enquanto criador, é a mesma que sentem ao ler o trabalho quando terminado.

“Creio que Pinacoderal é onde a influência da experiência urbana é mais sentida em todo meu trampo”

Quadro de uma das HQs de Diego Gerlach publicadas em Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem

Ler a Pinacoderal reforçou ainda mais pra mim o peso do ambiente urbano no seu trabalho. Quando conversamos pela primeira vez, lá em 2015, você comentou como esse cenário impulsiona uma maior quantidade de conflitos e amplia as possibilidades de “abordar o ser humano de modo mais tridimensional”. Você pode me falar mais sobre a sua relação com cidades? Você já morou em mais de uma capital, em grandes centros urbanos e outros menores. Qual o impacto dessas vivências no seu trabalho? 

Creio que Pinacoderal é onde essa influência da experiência urbana é mais sentida em todo meu trampo. O próprio fato do nome da cidade ser o título pelo qual me refiro à obra já destoa do resto das coisas que faço e frisa que não há um personagem central, mas um organismo composto de vários tipos, mais ou menos similares entre si – como numa cidade. Como menciono no posfácio, Pinacoderal começou enquanto ainda morava na Paraíba, e isso influenciava a história de modo direto. Da mesma forma, quando voltei a morar na minha cidade natal no Rio Grande do Sul, isso também impactou a narrativa – às vezes de modo mais simbólico, às vezes de modo mais direto. Como meu estilo de desenho passa longe do ultra realismo e é repleto de simplificações cartunísticas, os elementos diretamente pinçados de ambientes totalmente disparatados são, digamos, alinhados, assimilados em uma coisa única, que é o mapa do obscuro interior do meu crânio. 

Eu acho alguns dos seus trabalhos realmente engraçados – mesmo alguns que não sei se eram pra ser de humor. Ao mesmo tempo, vejo essa sujeira e podridão do ambiente urbano que você retrata e a hostilidade entre os seus personagens, e tudo me soa sombrio e pessimista. Você é pessimista? Como você vê o mundo hoje? Você tem esperanças de melhorias? Como as suas impressões e crenças em relação à realidade impactam os seus trabalhos?

Acho que já respondi isso uma vez: não me considero pessimista e ou otimista, e acho que isso tem a ver com o fato de nunca ter compreendido por completo o conceito de fé. Pra mim já é difícil definir com razoável grau de certeza se as coisas meramente ‘são’, que dirá afirmar se ‘são boas’ ou ‘são ruins’. Acho que minha visão às vezes parece sombria, também, porque tento não ver o ser humano como algo dissociado do reino animal, e isso não é algo que pontua o primeiro plano da discussão quando conversamos sobre sociedade. O reino animal, do ponto de vista humano, é violento. O ser humano é parte do reino animal; logo, o ser humano é violento. O que se espera é que almejemos a pureza e a ordem do divino, e não os impulsos venais das bestas, mas na prática… Mesmo com um suposto apreço pela cultura e pela ordem social, ainda somos movidos pelos mesmos instintos básicos que guiam a lontra ou o sabiá, e que precisam ser constantemente colocados em xeque pela regra da lei para que tenhamos alguma tipo de sociedade funcional. Um animal sofisticado, ok. A maneira como aprendi a me situar diante da vida me levou a prestar atenção nessas minúcias mais brutais da existência  como mecanismo de defesa, e a encontrar humor nisso pelo mesmo motivo. Acho.  

“O preço de certos álbuns de quadrinhos chegaram a um patamar proibitivo pra mim, e imagino que pra muita gente também”

Página de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea de Diego Gerlach publicada pelo selo Pé-de-Cabra

Aliás, falando em realidade. Em novembro do ano passado eu fiz uma entrevista com você e o João Pinheiro sobre o lançamento da Cavalo de Teta #2. O Bolsonaro tinha acabado de ser eleito e você dizia esperar que “as ameaças de censura que pairam no ar não se confirmem”. Menos de um ano depois quase rolou a censura de um gibi da Marvel na Bienal do Rio. E aí, piorou? Ainda piora mais antes de melhorar? 

Pra mim, estava dada a morta de que todas essas merdas iria acontecer. Quem, a partir das eleições de 2018, não mentiu para si mesmo e para aqueles ao seu redor? Por enquanto, parece que ainda estão testando as áreas cinzentas, uma exposição fechada pela câmara de vereadores aqui, um gibi recolhido pela prefeitura ali. Todas essas medidas foram eventualmente derrubadas em instâncias superiores, mas só as tentativas de censura já são o suficiente para deixar claro o rumo das coisas. Todo mundo que faz muito sentido nesse momento soa desesperado, mas por outro lado não é nenhuma opinião controversa dizer isso: é claro que vai piorar. Demos as chaves da casa para um bando de escrotos pseudo-religiosos, pseudo-conservadores, pseudo-liberais, pseudo-íntegros… é de admirar que tenhamos uma pseudo-democracia deliberada por uma cúpula militar?

O que mais te interessa na linguagem dos quadrinhos hoje? O que você mais gosta de ler em quadrinhos? O que você mais gosta de fazer com quadrinhos?

Eu leio de tudo, desde que ache o desenho interessante. E note que interessante não é (necessariamente) ‘bom’. Adoro estudar HQs, qualquer tipo de HQ. Mas como quase sempre tô quebrado, fico restrito ao que ganho de editoras ou troco com autores, mais um ou outro gibi de banca eventual (tipo Pato Donald). O preço de certos álbuns de quadrinhos chegaram a um patamar proibitivo pra mim, e imagino que pra muita gente também. Foi uma discussão constante enquanto definíamos as especificações do Pinacoderal: como manter o preço acessível e ainda assim fazer uma edição caprichada? O único quadrinho extenso (e caro) que li esse ano foi Marcha Para a Morte, que é uma obra-prima do Shigeru Mizuki. Às vezes acontece também de ficar um tempo ser ler muita HQ, focando mais em livros. Tô passando por uma fase forte de Philip K. Dick: li O Homem do Castelo Alto e agora tô na metade de Blade Runner. 

“Idealmente, Escória e Pé-de-Cabra se tornariam um tipo de referência, pois o mercado e as grandes editoras estão totalmente fora de sintonia com a produção nacional”

Página de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea de Diego Gerlach publicada pelo selo Pé-de-Cabra

Voltando à primeira pergunta: você comenta no posfácio da Pinacoderal como tentou vender o projeto da coletânea para outras editoras e agora finalmente rolou com a Pé-de-Cabra. Eu vejo cada vez mais a Pé-de-Cabra e a Escória Comix como os selos/editoras mais interessantes da cena autoral de quadrinhos. Acho os filtros do Lobo Ramirez e do Panhoca já os mais atentos e com potencial para serem os mais relevantes em um futuro próximo. Já tendo sido publicado pelos dois selos, como você avalia o trabalho deles? O que você vê de mais singular nos trabalhos feitos pela Pé-de-Cabra e pela Escória?

Acho que essas duas editoras representam um caminho pouco explorado no cenário nacional, e que é um dos que mais me empolga. Essa coisa de acharem autores novos com um trabalho forte e já bem formado, mas que ao mesmo tempo se encaixem na ‘vibe’ do selo, e de tentarem de fato criar um pequeno império com isso, com um cronograma de publicação tão constante quanto possível, com comunicação direta com o público leitor. É emocionante. Vai tão na contramão da maioria das editoras que estão tentando se estabelecer, e ao mesmo tempo é tão próximo dos meus gostos. Só o fato do Lobo ter lançado o Victor Bello para além dos zines provavelmente vai comutar vários anos da pena dele (digo, quando ele finalmente for condenado por todas as falcatruas que fez pra manter a Escória no mercado – e olha que não foram poucas). E o Panhoca tem tipo um tourette editorial: depois da primeira Pé-de-Cabra ele não consegue NÃO PUBLICAR, pode reparar. É uma compulsão, o cara é tipo masturbador compulsivo só que, tipo, sem as implicações sinistras e criminais. Ele me falou que a Pé-de-Cabra 3 já tá começando a ser pensada e tem outros planos na manga. Idealmente, Escória e Pé-de-Cabra se tornariam um tipo de referência, pois o mercado e as grandes editoras estão totalmente fora de sintonia com a produção nacional. Vamos ver.

A capa de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea de Diego Gerlach publicada pelo selo Pé-de-Cabra
HQ

Confira uma prévia de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea reunindo as primeiras HQs de Diego Gerlach

Já dá pra dizer que os selos Pé-de-Cabra e Escória Comix são responsáveis por alguns dos títulos mais interessantes que chegaram às lojas especializadas em quadrinhos em 2019. A Escória acabou de publicar O Alpinista, de Victor Bello, e prometeu pra breve O Deplorável Caso do Dr. Milton, de Fabio Vermelho. Já a Pé-de-Cabra lançou recentemente Notas do Underground, de Pedro Dapremont, e Vida Besta, de Galvão Bertazzi; e anunciou para outubro a publicação de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea reunindo as primeiras HQs de Diego Gerlach.

O álbum tem 252 páginas e reúne vinte e uma HQs de Gerlach, entre obras inéditas e outras publicadas de forma independente ou em coletâneas brasileiras e internacionais, todas ambientadas dentro do “universo Pinacoderal” do autor. O projeto gráfico é do também quadrinista Pedro Franz.

Poucos autores brasileiros me deixam tão ansiosos por seus próximos trabalhos quanto Diego Gerlach. Os zines publicados por ele em seu selo independente Vibe Tronxa Comix estão entre as minhas leituras preferidas e acho uma sacada editorial gigantesca da Pé-de-Cabra em reunir em um único volume esses materiais que estavam espalhados por várias publicações e, muitas vezes, inacessíveis ao público.

Logo mais volto a escrever sobre Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem por aqui. Enquanto isso, deixo a seguir uma prévia com oito páginas da obra e a capa do livro. Saca só:

Página de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea de Diego Gerlach publicada pelo selo Pé-de-Cabra
Página de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea de Diego Gerlach publicada pelo selo Pé-de-Cabra
Página de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea de Diego Gerlach publicada pelo selo Pé-de-Cabra
Página de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea de Diego Gerlach publicada pelo selo Pé-de-Cabra
Página de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea de Diego Gerlach publicada pelo selo Pé-de-Cabra
Página de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea de Diego Gerlach publicada pelo selo Pé-de-Cabra
Página de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea de Diego Gerlach publicada pelo selo Pé-de-Cabra
Página de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea de Diego Gerlach publicada pelo selo Pé-de-Cabra
A capa de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea de Diego Gerlach publicada pelo selo Pé-de-Cabra
Entrevistas / HQ

Papo com os autores da coletânea Porta do Inferno: “A gente vê o diabo diariamente e faz de conta que não”

Os editores e quadrinistas Lobo Ramirez (Escória Comix) e Luiz Berger (Gordo Seboso) uniram forças para lançar a coletânea Porta do Inferno. O álbum de 76 páginas reúne histórias assinadas pelos dois editores e outros quatro artistas: Emily Bonna, Victor Bello, Diego Gerlach e o quadrinista mexicano Abraham Diaz. A obra tem início com um enredo assinado por Berger mostrando a abertura da porta do inferno na terra e as HQs seguintes apresentam algumas das consequências desse ocorrido, tendo o narrador Caio Tira-na-Cara como o responsável por conduzir o leitor ao longo do álbum.

Autor do épico ASTEROIDES – Estrelas em Fúria, lançado em março de 2018, em parceria da Escória Comix com a Ugra Press, Lobo Ramirez é das figuras mais ativas da cena brasileira de quadrinhos. Em 2017 ele publicou os celebrados NÓIA – Uma História de Vingança (Escória Comix/Vibe Troncha Comix), de Diego Gerlach, e os dois volumes do já clássico Úlcera Vórtex, de Victor Bello. Nove meses após ASTEROIDES, ele publica a parceria com Berger para encerrar o ano de seu selo pessoal com a coletânea de histórias de horror, morte e destruição protagonizadas pelos demônios de Porta do Inferno.

Após responder à breve entrevista a seguir e revelar o primeiro lançamento de sua editora para 2019 (O Alpinista, de Victor Bello), Lobo Ramirez entrevistou cada um dos cinco autores de Porta do Inferno para o Vitralizado. Nas conversas, os artistas falam sobre as inspirações para suas histórias na publicação e expõem suas suspeitas em relação à vinda do anticristo à terra. Saca só:

– LOBO RAMIREZ –

As portas do inferno estão abertas em território brasileiro?

Lobo Ramirez: Escancaradas.

Qual foi a inspiração de vocês para esse formato, com vários autores escrevendo histórias com a mesma temática?

Lobo Ramirez: A real é que esse era pra ser um quadrinho longo do Berger, mas ele desencanou de terminar e eu fiquei enchendo o saco pra lançar porque as páginas eram fodas. Então surgiu a ideia de chamar um pessoal e continuar a historia do ponto que ele parou. Eu não sei se tem alguma coisa nesse formato específico, já deve ter, mas de toda forma eu achei interessante o resultado e quero tentar outros títulos nesse mesmo estilo.

Quais será a próxima investida da Escória Comix?

Lobo Ramirez: Bom, oficialmente confirmado e em produção é um quadrinho do Victor Bello cujo título revelarei exclusivamente agora: O Alpinista, um gibi que ele vem produzindo desde o começo de 2018. Mas já tenho previstos outros 14 títulos novos para 2019, então vai ser um ano de varias investidas. Deus me acuda.

Um painel do quadrinista Luiz Berger presente em Porta do Inferno

– LUIZ BERGER –

LOBO RAMIREZ: Você já participou, como convidado e editor, de diversas antologias de quadrinhos, reunindo nomes nacionais e internacionais. Alguns nomes se repetem nessas publicações, por que Porta do Inferno é diferente das outras?

Luiz Berger: Sim, vários nomes se repetem e acho que vão continuar se repetindo nas próximas antologias. Eu gosto de seguir uma linha editorial com uma identidade, que é bem parecida, ou até igual, à do lobo ramirez. O que difere a Porta do Inferno das anteriores, é que nessa não são só histórias que seguem um tema, como a revista Goró, que reunia histórias sobre bebida, colocadas meio que em ordem aleatória. Nesse caso, as histórias começam do mesmo ponto, da porta do inferno que foi aberta no final da primeira história do gibi, e todas estão conectadas pelos comentários do personagem-narrador Caio Tiro-na-Cara, como em várias revistas de terror dos anos 50. Acho que essa revista está muito mais bem amarrada que as anteriores.

LOBO RAMIREZ: Quando você vai largar mão de ser trouxa e começar a produzir quadrinhos de merda com mais frequência?

Luiz Berger: Acho que esse ano eu volto a fazer com muito mais frequência. Editar essa revista me deu um belo ânimo pra voltar com o Gordo Seboso.

– ABRAHAM DIAZ –

LOBO RAMIREZ: Você já participou de várias antologias de quadrinhos, incluindo Goró (Gordo Seboso), que tem três dos quadrinistas presentes na Porta do Inferno. Há muitos outros quadrinistas nesse meio mais podre no México? Ou você acha que há uma cota de retardados dos quadrinhos por país?

ABRAHAM DIAZ: No México, o quadrinho marginal está apenas começando a se desenvolver. Sem dúvida, há muitos cartunistas começando a publicar quadrinhos podres e eu acho que nos próximos anos haverá um boom nos quadrinhos mexicanos e na arte em geral.

LOBO RAMIREZ: Você acha que Porta do Inferno é mais uma imagem de um bando de marginais falando sobre o diabo, cocô, violência e blasfêmias gratuitas?

ABRAHAM DIAZ: Sim, eu acho que Porta do Inferno é isso, mas eu também acho que não poderia ser outra coisa hahaha

– EMILLY BONNA –

LOBO RAMIREZ: Conte-nos um pouco sobre sua relação com quadrinhos. Você tem um trabalho com ilustração, mas já tinha feito quadrinhos antes? Qual a diferença entre produzir um quadrinho e uma ilustração?

Emilly Bonna: Na infância não cheguei a ler muitos quadrinhos, mas me chamava atenção a estrutura deles, que possibilitava contar histórias através de desenhos. Comecei a fazer breves historinhas pra mim mesma aos nove anos e, conforme foi passando os anos, continuei fazendo quadrinhos e zines bem amadores e com pouca circulação. Na ilustração eu posso passar uma ideia rápida do que quero expressar e nos quadrinhos as formas de explorar um tema são mais amplas.

LOBO RAMIREZ: Por que você aceitou fazer parte desta patotinha horrível de pessoas degeneradas? Não tem medo do que vão falar de você na igreja?

Emilly Bonna: Eu estava no culto da igreja Deus é Amor e no meio da oração, Jesus, na forma do piolho da irmã que estava na cadeira da frente, me disse: ‘Participe de uma HQ de alto grau satânico para enaltecer o Diabo, tô brigado com meu pai Deus, quero deixar o véio puto’. E então cumpri o pedido de Cristo, amém. Não tenho medo do que vão falar pois já envenenei todos os membros da igreja com cianeto misturado no suquinhos Tang de uva.

– VICTOR BELLO –

LOBO RAMIREZ: Na história Fuim, o Xupador de Ossos, mesmo em poucas páginas, você insere uma vasta gama de personagens e parece que a qualquer momento podemos acompanhar qualquer um deles com uma história diferente. Nessa história específica, quais foram suas inspirações para os personagens?

VICTOR BELLO: Nessa história eu quis fazer uma investigação estilo Arquivo X. O demônio não teve uma inspiração específica, mas os personagens da gangue que trafica cascos de tartaruga eu me inspirei em personagens aleatórios de filmes da produtora Troma, gente esquisita. Outros, como as vítimas, busquei as características em típicos personagens que morrem em filmes slashers, então uma das vítimas é um jovem pixador que usa drogas, o outro é um pescador que pesca tartaruga em extinção. São pessoas que num filme slasher são descartáveis. O jovem pixador é parecido também com personagens de propaganda cristã anti-drogas.

LOBO RAMIREZ: Não te incomoda os editores dessa revista claramente estarem ganhando milhões às custas de jovens talentos?

VICTOR BELLO: Incomoda. E me incomoda tanto que pretendo roubar toda a fortuna desses dois em um golpe que já está em curso e assim montar minha própria editora. Os contratarei com carteira assinada, pagarei um salário e os tratarei com toda decência.

– DIEGO GERLACH –

LOBO RAMIREZ: Fazer parte do gibi Porta do Inferno é mais uma de suas participações numa antologia de quadrinhos. Qual o lugar você enxerga que essa história tem dentro do seu trabalho? Ela dialoga de alguma forma com a sua produção atual ou cada título,  cada quadrinho, se adequa a necessidades específicas?

DIEGO GERLACH: Acho que tem as duas coisas, sempre dialoga com as outras HQs que tenho feito e por outro lado também sempre supre uma necessidade específica. Essa HQ pra Porta do Inferno tem umas coisas que vinha fazendo em outros trabalhos (grids fixos, desenho digital fotoreferenciado), mas ao mesmo tempo a demanda era específica (e inédita pra mim): uma HQ de terror com uma pegada clássica. Levou um bom tempo pra ser concluída, ela meio que mudou de rumo e acabei incorporando alguns elementos de uma lenda urbana que me foi contada algumas vezes na época em que fazia catequese. O terço final foi criado no intervalo do primeiro pro segundo turno das eleições de 2018.

LOBO RAMIREZ: Você acha que o verdadeiro anticristo vira à terra como um homem de deus?

DIEGO GERLACH: Como ateu criado no catolicismo, o diabo pra mim é o conceito alegórico definitivo… Mesmo que não exista um ‘verdadeiro’. Tem vários ‘homens de deus’ que são o diabo em pessoa (preciso dar exemplos…?), vão na direção diametralmente oposta dos ensinamentos do mito crístico. É isso: a gente vê o diabo diariamente e faz de conta que não. (Como curiosidade, meu avô queria que eu me tornasse padre.)

HQ

Papo com João Pinheiro e Diego Gerlach, autores da Cavalo de Teta #2: “Saímos da condição de país soberano e ‘democrático’ para uma nova colônia em apenas dois anos”

A segunda edição da revista Cavalo de Teta será lançada amanhã (3/11), no primeiro dia da Feira Des.Gráfica 2018, realizada no Museu da Imagem e do Som de São Paulo. A publicação é editada pelo quadrinista João Pinheiro e conta com HQs de autoria dele e outros quatro artistas: Alves, Diego Gerlach, MZK e Schiavon. Autor de obras como Keuroac, Burroughs e Carolina (em parceria com Sirlene Barbosa) e idealizador da Cavalo de Teta, João Pinheiro respondeu a algumas perguntas enviadas a ele sobre o desenvolvimento desse segundo número da revista e alguns dos temas abordados na publicação. A conversa ainda conta com a contribuição de Gerlach para duas perguntas.

Na entrevista, os artistas justificam o subtítulo ‘Edição Pós-Brasil’ na capa da revista, analisam causas e consequências da vitória de um presidente de extrema-direita nas eleições presidenciais brasileiras de 2018, cogitam possibilidades para o futuro da revista e refletem sobre o papel potencial das histórias em quadrinhos em tempos de reacionarismo aflorado. “A arte tem papel fundamental em tempos difíceis, tradicionalmente é quando o público mais corre atrás de entretenimento e reflexão em torno do caos cotidiano”, diz Gerlach. Saca só:

“Os 350 anos de escravidão deixaram traumas profundos na nossa alma e problemas estruturais na sociedade”

Vocês chamaram esse segundo número da Cavalo de Teta de ‘Edição pós-Brasil’. O que vocês querem dizer com esse subtítulo?

João Pinheiro: Quer dizer que venderam o Brasil. Que o Brasil, como nós conhecíamos, acabou de fato. Depois que a casa grande surtou e botou seus capatazes pra correr com os ‘escravizados’ de volta pra senzala à força, uma pá de ideia furada sobre o brasileiro foi pro saco (só pra quem ainda não sabia, claro): ‘Somos um povo miscigenado que convive harmoniosamente e não há racismo ou preconceito social’. Mentira. A maioria dos brasileiros não conhece cidadania e os 350 anos de escravidão deixaram traumas profundos na nossa alma e problemas estruturais na sociedade. Tivemos a oportunidade de olhar no espelho e o reflexo assustou muita gente. E depois, saímos da condição de país soberano e ‘democrático’ para uma nova colônia em apenas dois anos, pois pra a classe dominante, que tomou o poder à força em 2016, foda-se esse lance de soberania popular. Brasil? Pátria? Piada. Estão pouco se lixando pro povo. Na verdade, odeiam o povo. Se acham donos do país, são um punhado de gente, e são desde sempre entreguistas e predadores vorazes, escravagistas e mafiosos. Voltamos a ser a Terra de Vera Cruz, mas agora sob o julgo do imperialismo norte americano. Por isso pós-Brasil.

Você poderia me contar um pouco sobre a produção desse segundo número? Como foi a dinâmica do seu trabalho com o Alves, o Gerlach, o MZK e o Schiavon? Foi muito diferente do processo do primeiro número?

João Pinheiro: Mantemos um grupo de mensagens onde trocamos ideias e informações, mas cada um tem total liberdade para criar a partir do tema sugerido. Nosso papo é muito informal e no final das contas meu único trabalho e encher o saco dos manos com prazos e coordenar a finalização da revista. Nesse sentido, a Cavalo de Teta acaba sendo resultado de uma criação coletiva de fato. Preciso dizer que esses caras, meus cupinchas, são gênios da HQ nacional que admiro fanaticamente e a quem hoje tenho orgulho de chamar de amigos, e eles não dão ponto sem nó.

“A imagem da capa é uma extensão dessa ‘festa nacional’ que reúne os cidadãos de bem fascistas, membros do poder judiciário, batedores de panela com suas camisas da CBF, o sapo da Fiesp, a representação da justiça embriagada dançando no centro furando o boneco do ex-presidente Lula com sua espada enquanto tucanos voam livres ao redor de um Sérgio Moro gigante com chapéu de tio Sam”

Eu gostei muito da capa da revista. Me fale sobre ela, por favor? O que você quis retratar nessa arte?

João Pinheiro: A ideia da capa pintou quando vi as fotos de uma festa organizada pelo dono do Bahamas, Oscar Maroni, em comemoração ao decreto de prisão de Luiz Inácio Lula da Silva. Na foto, divulgada fartamente nas redes na época, o tipo, vestido de irmão metralha, subjuga uma mulher nua tapando sua boca com uma das mãos num gesto extremamente agressivo, em cima de um palco rodeado por marmanjos em êxtase engolindo suas bebida grátis (segundo a imprensa foram distribuídas 9.000 latas de cerveja); Acima dele, no palco montado em frente ao Bahamas, uma espécie de altar exibia as fotos dos juízes Cármen Lúcia, do STF, e Sérgio Moro, responsável pela Lava Jato. Toda aquela encenação me pareceu a iconografia do horror e um instantâneo do proto-fascismo que levantou o pescoço desde 2013 nos espaços públicos e que finalmente, hoje já sabemos, saiu vitorioso de todo esse processo fraudulento ‘elegendo’ um candidato abertamente fascista. A imagem da capa é uma extensão dessa ‘festa nacional’ que reúne os cidadãos de bem fascistas, membros do poder judiciário, batedores de panela com suas camisas da CBF, o sapo da Fiesp, a representação da justiça embriagada dançando no centro furando o boneco do ex-presidente Lula com sua espada enquanto tucanos voam livres ao redor de um Sérgio Moro gigante (estilo boneco de Olinda) com chapéu de tio Sam. Muita bebida, talheres chiques, milionários e um representante da fé ali no meio da muvuca. Obviamente a capa é muito mais suave e chega a ser ingênua perto da cena distópica do horror que a inspirou.

Algumas das HQs da Cavalo de Teta #2 tratam de possíveis causas e desdobramentos do contexto político em que estamos inseridos. Você vê algum ponto de origem fundamental pra essa nossa realidade atual? E o que você imagina para o nosso futuro?

João Pinheiro: É complexo, mas acredito na tese de que a guinada à extrema direita no Brasil, mas que também está ocorrendo em vários outros países, segue a agenda imposta pelo sistema financeiro global centrado em Wall Street – que domina virtualmente o Ocidente inteiro – e não podia simplesmente aceitar a soberania nacional, em sua completa expressão, de um ator regional da importância do Brasil. Segundo essa tese, a ofensiva começa a ser posta em prática já em 2006 e se acentua a partir da crise financeira internacional de 2008 que arrasou a economia mundial. Como dizem: siga o dinheiro. Daí, para implementar as tais reformas (fiscal e tributária) exigidas pelo mercado foi preciso destruir a nossa já falha democracia com o auxílio de agentes internos que pudessem ser corrompidos, começando pelo sistema judiciário e legislativo aliados aos barões da mídia – que incapazes de apresentar um projeto para o país, haviam sido derrotados em quatro eleições consecutivas. Estamos no meio de uma guerra com o imperialismo e até agora estamos levando um cacete daqueles.

Ninguém consegue prever ao certo o que vai acontecer, mas acho que a possibilidade de um golpe militar aberto não pode ser descartada. Além disso, alguns economistas preveem uma nova crise financeira mundial a estourar a partir do ano que vem e parece que a tomada das riquezas naturais brasileiras (petróleo, Aquífero Guarani, Amazônia, minério e etc) são fundamentais no fechamento das contas do dito mercado e principalmente para salvar a economia norte americana.

Diego Gerlach: O começo do nosso fundo do poço foi em Junho de 2013, quando a insatisfação com a crise econômica que se anunciava explodiu, usando o reajuste dos preços das passagens de ônibus como fagulha, o que iniciou uma série de protestos violentos que, além de explicitarem uma insatisfação até então não-articulada, geraram um efeito dominó de equívocos, que enfraqueceu a base do governo e abriu espaço amplo para o populismo de direita. No Brasil, a bomba caiu no colo do PT (envolvido numa série de escândalos de corrupção que receberam incessante cobertura midiática), mas o bom-senso indica que poderia ter sido qualquer outro partido. Junho de 2013 começou a terminar quando foi divulgado o resultado das eleições de domingo passado.

A minha HQ pra CdT2 se situa num hipotético futuro pós-apocalíptico no Planalto Central. No meu caso, a eleição do Bolsonaro figura como detalhe quase incidental na história (o foco principal da HQ é meu asco em relação a religiões organizadas), era algo que já estava no ar fazia algum tempo, mesmo que eu (e quase metade dos eleitores do Brasil) tenhamos feito o possível pra evitar que isso acontecesse. Brexit me surpreendeu (e olha que vivi na Inglaterra por quase três anos na década passada). Já a eleição de Trump nem tanto. E isso porque pouco antes das eleições americanas de 2016 assisti Hypernormalization, documentário político do inglês Adam Curtis, que parecia também já ter captado as cataclísmicas mudanças em andamento e deixava no ar a provável eleição do POTUS twitteiro. Acho Hypernormalization e também o livro Capitalist Realism, de Mark Fischer, fundamentais pra entender o momento atual do ocidente. Em comum, as duas obras explicam onde as esquerdas se perderam (e onde podem se reinventar), e o imenso preço que o capitalismo avançado (onde corporações são mais poderosas que qualquer estadista, e líderes só se veem capazes de inspirar as massas ao propor mudanças radicais e em grande medida irrealizáveis) cobra da nossa psique e do tecido social como um todo, nos conduzindo aos atuais momentos de crise.

E, no momento, não há consenso na esquerda. Dentro da própria CdT2, tivemos discussões muito interessantes, mas que não apontavam necessariamente para uma concordância plena, apenas um apaziguamento em torno de objetivos imediatos (impedir o avanço do fascismo).

Qual você acredita ser o potencial das histórias em quadrinhos dentro desse contexto de conservadorismo aflorado em que estamos afundando?

João Pinheiro: Vejo como potencial pólo de resistência cultural, mas infelizmente ainda com muito pouco alcance. Por outro lado, os chargistas, na minha opinião, são o que há de melhor da crítica política feita nesse último período.

Diego Gerlach: A arte tem papel fundamental em tempos difíceis, tradicionalmente é quando o público mais corre atrás de entretenimento e reflexão em torno do caos cotidiano. Só espero que reste alguém disposto a ler, e a que as ameaças de censura que pairam no ar não se confirmem. Porque se elas se confirmarem, nós vamos ter que intensificar o foco ainda mais, rir ainda mais do meme perigoso que nosso país optou por eleger.

Qual é o futuro da Cavalo de Teta? Vocês já têm planos para uma terceira edição?

João Pinheiro: Sim, temos e se possível gostaria de ampliar a revista convidando outros autores a participar. Porque o Brasil pode acabar, mas os quadrinhos não.

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Série Postal + Know-Haole + Diego Gerlach na Feria Des.Gráfica 2018

Ei, tá em São Paulo? Tem programa pra sábado (3/11) e domingo (4/11)? Recomendo um pulo no Museu da Imagem e do Som (MIS) para a edição de 2018 da Feira Des.Gráfica. O evento vai marcar o lançamento oficial da sexta edição da Série Postal 2018, de autoria do quadrinista Diego Gerlach. Os postais poderão ser retirados de graça na mesa do artista. Aliás, novidade boa: o Diego Gerlach estará relançando no evento os três primeiros números da série Know-Haole, revista do artista na qual foram apresentados todos os personagens presentes na última edição da coleção de 2018 da Série Postal. Tremenda oportunidade, viu? A Know-Haole é das empreitadas que mais curto nos quadrinhos nacionais e pela qual fico cada vez mais ansioso para os próximos números.

A Des.Gráfica rola sábado de 12h às 20h e domingo das 12h às 19h. Você confere a programação completa do evento e os expositores que estarão presentes na página da feira, clicando aqui. Enquanto isso, deixo a seguir uma prévia dessa edições #1, #2 e #3 do Know-Haole que o Diego Gerlach me enviou, junto com um textinho falando sobre esses relançamentos, além do resumo de cada número. Saca só:

“Na Des.Gráfica 2018, a Vibe Tronxa Comix vai ter pela primeira vez à disposição todo o catálogo de seu carro-chefe, o zine Know-Haole. KH é um zine de quadrinhos criado por Diego Gerlach em 2012 e publicado até os dias atuais, e que já conta com 8 edições.

Após a terceira edição, a série entrou num hiato, sendo que o quarto número retornaria só dois anos depois, com o thriller político Eduardo Cunha é o Bandido da Luz Vermelha, que obteve relativo sucesso entre crítica e leitores e reacendeu o interesse em torno do título.

Com esse modesto sucesso, leitores da VTC passaram a demandar as ‘lendárias’ três primeiras edições – que, verdade seja dita, não venderam tanto assim em sua época… Mas, que de todo modo, acabam de ser reimpresssas!”

Know-Haole #1 (R$ 5) – Publicado originalmente em 2012. Tiras, gags e histórias curtas foram o disparo inicial. Inclui ‘Vae victis, panaca!’, primeira HQ na série a ‘se inspirar’ em quadrinhos já existentes, utilizando em sua maioria desenhos copiados de uma HQ de Jambo e Ruivão.

Know-Haole #2 (R$ 10) – Originalmente publicada em 2013. Primeira edição a utilizar o modelo que se tornou padrão no título, onde uma história (autocontida) ocupa toda a publicação. Essa HQ foi criada em cerca de uma semana, após Gerlach perder as primeiras páginas do que seria a segunda edição num assalto. Em Propriedades da Hortelã, temos a introdução de Gilso, o cãozinho maroto que rapidamente se tornou o mascote da Vibe Tronxa (além de outros personagens que apareceriam em tramas posteriores, como Tenente Deoclécio e o Mendigo Sem Nome).

Know-Haole #3 (R$ 10) – Originalmente publicada em 2013. Provavelmente a edição da série que menos circulou (até hoje tinham sido feitas apenas cerca de 60 cópias). Essa foi a única edição a ser ‘recauchutada’ para republicação, com novas retículas e um acabamento gráfico mais efetivo do que a versão original (a história permanece intocada). Em Negativado temos mais uma aventura de Gilso, dessa vez acuado pela morte e às voltas com novos personagens, como Cadelão, o Bonde do Ágio e a vingativa cabeça de Yukio Mishima.

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Cavalo de Teta: confira a capa e uma prévia do segundo número da revista editada por João Pinheiro

Maravilha essa capa do segundo número da Cavalo de Teta, hein? O quadrinista João Pinheiro prometeu pra novembro o lançamento de mais uma edição da coletânea capitaneada por ele, com quadrinhos de MZK, Diego Gerlach, Schiavon e Evandro Alves – dessa vez com uma participação especial do escritor Ferréz. Enquanto no primeiro número, publicado no ano passado, a proposta era ser um “gibi na medida pro nosso atual Brasil Fazendão”, a promessa do editor pra essa segunda edição é que ela está “maravilhosamente apocalíptica – igualzinho na vida real”. Tô curioso aqui, viu? Saca só essa prévia divulgada lá no site do João Pinheiro: