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Society, por Emil Ferris

Ainda tô fechando a minha lista de melhores lançamentos de 2019 no Brasil pro Grampo 2020, mas Minha Coisa Favorita É Monstro, da Emil Ferris, tá ali entre os dois ou três primeiros. Tem erro não, HQ que já nasceu clássica e das coisas mais impactantes que já li.

Enfim, tava ali no Twitter e vi a Emil Ferris divulgando essa capa aqui em cima, assinada por ela para o número mais recente da revista francesa Society, em edição especial dedicada às histórias em quadrinhos. Coisa linda, cara. Você vê o tuíte da Emil Ferris clicando aqui.

E pra quem não leu, tá aqui o link da minha matéria sobre o Minha Coisa é Favorita é Monstro para a Folha de São Paulo e aqui o link da minha entrevista com a Emil Ferris pro blog.

HQ

4ª (20/3) é dia de lançamento de Minha Coisa Favorita É Monstro, de Emil Ferris, em São Paulo

Ó, tenho um convite procê: na 4ª (20/3), a partir das 19h30, eu estarei na loja Monstra, aqui em São Paulo, na companhia do editor Emílio Fraia e da quadrinista Amanda Pachoal Miranda, para conversar sobre Minha Coisa Favorita É Monstro, álbum de Emil Ferris recém-lançado em português pela Companhia das Letras. Escrevi sobre a obra para a Folha de São Paulo e publiquei aqui no blog a íntegra da minha entrevista com a autora.

Como já andei falando por aí, é improvável que saia em português uma HQ mais singular e impactante do que Minha Coisa Favorita até o final de 2019. Por isso acredito que o foco principal da nossa conversa estará nos atributos que tornam esse trabalho tão especial. Também tenho muitas curiosidades para saber mais sobre o processo de edição e adaptação da versão nacional do quadrinho, tema que com certeza será tratado durante esse papo.

Enfim, a Monstra fica no primeiro andar do número 158 da Praça Benedito Calixto. Você encontra outras informações sobre o lançamento na página do evento no Facebook. Vamos?

Entrevistas / HQ

Papo com Emil Ferris, a autora de Minha Coisa Favorita é Monstro: “Estamos aqui para contar histórias e para ouvir, de peito aberto, para que cresçam nossa sabedoria e nossa empatia”

Minha Coisa Favorita é Monstro será lançado no Brasil no início do mês de março. A obra ganha edição em português após ser reconhecida com três prêmios Eisner (melhor álbum, melhor escritora e artista e melhor colorista) e com o Fauve d’Or, prêmio máximo do Festival de Angoulême. As 416 páginas da HQ de Emil Ferris foram desenhadas com esferográficas e canetinhas e compõem o diário ilustrado de Karen Reyes, uma menina de dez anos que se retrata como uma ‘lobismoça’ enquanto investiga o assassinato de uma vizinha sobrevivente do Holocausto num subúrbio da Chicago dos anos 1960.

Eu fiz duas entrevistas com Emil Ferris ao longo de 2018, uma no começo do ano e outra no segundo semestre. Essas conversas viraram matéria para o jornal Folha de São Paulo, na qual eu conto um pouco da história singular da autora e a longa saga de Minha Coisa Favorita é Monstro até sua chegada às livrarias. Recomendo a leitura do meu texto e, posteriormente, da entrevista a seguir, com a íntegra das minhas trocas de emails com Ferris. Nesse papo, a autora fala sobre as suas origens, conta um pouco da formação dela como artista e aborda algumas das inspirações que resultaram em Minha Coisa Favorita. Saca só:

[[a entrevista a seguir foi traduzida por Érico Assis, também tradutor da edição brasileira de Minha Coisa Favorita é Monstro, pela Companhia das Letras]]

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“Assim como todo cientista louco, eu fui ladra de túmulos enquanto criava o livro. Alimentei minha fome visual com tudo que ela queria”
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Página de Minha Coisa Favorita é Monstro, HQ da quadrinista Emil Ferris, lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras

Você se lembra do momento em que teve a ideia de criar Minha Coisa Favorita é Monstro? Você poderia contar um pouco sobre a origem desse projeto?

Me veio a imagem de uma garotinha lobisomem protegida pela capa de chuva de um garoto mais alto com cara de Frankenstein. Aí eu pensei: ‘Que coisa curiosa. Por que essa imagem?’ A história se aglutinou em torno desse momento.

Eu li uma entrevista em que você conta como foi difícil encontrar uma editora para o livro. Você pode contar um pouco sobre essa jornada? Quanto do livro já estava finalizado quando você começou a apresentá-lo para editoras?

Acho importante que todo artista que esteja atrás de publicar seu livro saiba que o sucesso de Monstro não aconteceu da noite pro dia. Fico contente que saibam que 48 editoras recusaram o livro porque consideraram que era diferente demais e grande demais. Espero que outros quadrinistas animem-se e sejam mais PERSISTENTES!

Você poderia falar um pouco sobre as suas técnicas e os materiais que utiliza?

A maior parte do livro foi desenhada com canetas Bic e Flair. No início eu tentei desenhar em papel de caderno pautado, mas logo me dei conta que a edição e a tradução iam ficar impossíveis. Agora são desenhos que viram uma camada sobre uma camada de folha de caderno.

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“Fiz esse livrão monstro no isolamento total. Ninguém leu antes de eu terminar, então não tive ideia do que eu ia criando”
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Página de Minha Coisa Favorita é Monstro, HQ da quadrinista Emil Ferris, lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras


Como é o seu ambiente de trabalho? Você poderia descrever o local no qual você criou Minha Coisa Favorita é Monstro?

No início eu estava trabalhando em um estúdio que ficava do lado dos trilhos do elevado e adorava o barulho do trem. Da minha janela eu conseguia ver as pessoas entrando e saindo dos trens. Como eu trabalho à noite, o trem iluminado e o elenco mutante eram minhas únicas companhias. Eu adorava morar ali. Mas aí a primeira editora não conseguiu publicar o livro, eu fui à falência e me despejaram. Agora estou em um apartamento horrível cheio de infiltração. Espero que em breve eu tenha como pagar um estúdio!

Eu gosto muito da singularidade de cada página de Minha Coisa Favorita É Monstro e das relações que você estabelece entre imagens e palavras. Você chegou a trabalhar com um roteiro fechado? Você teve alguma dificuldade em dar unidade ao livro em decorrência de toda essa variedade de designs e ideias?

No material promocional que eu enviei, descrevi o livro como uma espécie de monstro. É uma grande verdade. Assim como todo cientista louco, eu fui ladra de túmulos enquanto criava o livro. Alimentei minha fome visual com tudo que ela queria e a sorte que eu venho tendo é que os leitores parecem ter a mesma liberdade na experiência do livro que eu tive na criação.

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“Durante todos esses anos trabalhando no livro, eu me dizia: ‘Emil, é só seguir em frente.’ E ainda me digo, pelo menos uma vez por dia…”
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Página de Minha Coisa Favorita é Monstro, HQ da quadrinista Emil Ferris, lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras

O seu quadrinho me fez pensar bastante sobre a relação entre o escapismo intrínseco à leitura de quadrinhos (e obras de ficção em geral), mas também sobre o ato de desenhar como uma busca por escapismo. Eu vi isso na Karen assim como via em mim e nos meus amigos durante a infância, um hábito que fomos perdendo enquanto crescíamos. Você poderia me falar da sua relação com o ato de desenhar? Como você começou a desenhar? Desenhar sempre foi parte da sua vida?

Gostei muito que você comparou desenhar ao ‘escapismo’ sadio! Respondendo: Nasci com um tipo de escoliose que me incapacitou muito, deixou meus pés muito pequenos e, por conta disso, só consegui caminhar quando tinha mais de dois anos. Como eu não podia explorar o mundo com os pés, explorava desenhando. O desenho, como meu ‘prêmio de consolação’, foi meu primeiro escapismo na vida — bem literal, aliás. Fico contente pelo desenho sempre ter feito parte da minha vida e por ter me ajudado em épocas difíceis ou sinistras. Espero, com toda sinceridade, que quem ler isto aqui – alguém que já amou desenhar, quem sabe – volte a seu bloquinho. Desenhar é uma das grandes maneiras de cultivar amor próprio e honrar o que a existência tem de belo.

Ainda sobre escapismo: obras de horror e ficção sempre existiram como uma forma de retratar a nossa realidade. Seja falando sobre a Guerra Fria, o consumismo da nossa sociedade, a nossa relação com o meio ambiente… Enfim, esses são temas sempre presentes em trabalhos do gênero. O quanto você acha que esse aspecto de obras escapistas acabou se perdendo com o tempo? Você ainda vê essa mesma preocupação em tratar dos dilemas da nossa realidade na ficção feita nos dias de hoje?

Outra grande pergunta. Acho que Nietzsche foi muito visionário ao apresentar o conceito do ‘Último Homem’, o que se contenta em ter uma vida centrada na segurança, no conforto e no prazer. É um modelo de vida que exige que você fique plugado na cultura das celebridades, obcecada pelo entretenimento, comprometida com a distração. Acima de tudo, a meu ver, este modelo não valoriza o empenho artístico nem uma missão ou visão pessoal e idiossincrática.

É uma tendência que me preocupa. Recomendo a quem quiser nadar contra esta ‘onda anti-cultura’, que queira criar um obra que seja particular e complexa, que se livre da televisão e se desligue do noticiário, da mídia, o quanto for humanamente possível.

Eu nunca estive em Chicago, mas sei da relação da cidade com arquitetura, museus, autores de quadrinhos e arte em geral. Você se vê influenciada por esse ambiente tão criativo?

Com certeza. Chicago não só está entre as grandes cidades do mundo, Chicago também é osso duro. Em 1871 a cidade inteira pegou fogo, mas ergueu-se das cinzas para redefinir arquitetura, arte e cultura. Ela não desiste fácil!

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“Quadrinhos são sussurrar uma história do jeito mais íntimo que se imaginar, bem no ouvido do leitor. É uma coisa muito, muito íntima, porque esse cochicho entra lá naquela cabeça e fixa residência na arquitetura que o componente visual construiu dentro da mente”
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Página de Minha Coisa Favorita é Monstro, HQ da quadrinista Emil Ferris, lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras

Eu também li uma entrevista na qual você fala sobre as várias origens da sua família e de seus antepassados. Você poderia falar como todas essas raízes influenciaram a sua formação e a forma como você vê e cria arte?

Sou muito grata por ser – assim como a maioria das pessoas – toda remendada. Um Frankenstein, por assim dizer, de imigrantes, colonizadores e nativos. Essas origens, todas elas, são intensas e são complexas. Cada experiência tem uma mensagem forte que ilumina a dor e a beleza da vida. Na melhor das hipóteses, eu acredito que a herança ancestral de cada um pode nos ajudar a decifrar os problemas e grandes questões da vida de um modo que é mais pessoal e que cria uma narrativa. Na pior, nossa herança pode dar uma sensação de orgulho que é falsa e perigosa. Já vimos aonde isso leva.

Portanto, a meu ver, tendo uma parte da família de imigrantes mais recentes e outra parte de colonizados e colonizadores, eu penso muito em história. Penso em como ela vive conosco, consigamos ver ou não, porque tem vários sentidos em que nossa HISTÓRIA é o VERDADEIRO ‘Homem Invisível’. (Aqui estou pensando em Anka.)

DIGO ISSO PORQUE ESPERO MUITO QUE OS ARTISTAS CONTEM SUAS HISTÓRIAS DE FAMÍLIA. Nas Comic Cons, já ouvi artistas me contarem histórias dos ancestrais que me levaram às lágrimas.

Ou seja, boa parte do que digo aqui é direcionado a futuros autores às portas do sucesso e a leitores criativos (leitores também são grandes magos!)

Embora nossas raízes possam nos dar força e sustento, não creio que devíamos ser obedientes às raízes – em termos tanto do que elas desejam quanto da aptidão para nos segurar em um lugar só (no sentido que se quiser de ‘lugar’), mas principalmente no sentido artístico e espiritual. Acho que devíamos nos permitir contar nossas histórias de família, mas também nos dispormos a sair, como nômades, desenraizados, até os confins do mundos, e tentar entender as experiências dos outros no que elas têm de diferente. Também acredito que é assim que nós – como autores – armamos uma oportunidade para nossos leitores desenvolverem a empatia. Temos que nos decidir pela fidelidade às imaginações perfeitas que temos e nos empenharmos em ser de confiança quando formos levar gente na jornada que criamos.

Eu não sei se foi a sua intenção, mas o seu livro, para mim, trata de indivíduos singulares e da dificuldade de ser original e ver e pensar o mundo de maneiras singulares. Há um conservadorismo crescente no planeta que vê toda essa diversidade e originalidade de pensamentos como um problema. Você é otimista em relação ao mundo em que vivemos?

Sou muito, muito otimista. Tem uma mudança singular, grande e linda que eu acredito que vai acontecer em breve. Estamos aqui para um alçar o outro. Estamos aqui para contar histórias e para ouvir, de peito aberto, para que cresçam nossa sabedoria e nossa empatia. Eu acredito que somos conectados por uma energia. Quando uma pessoa fica mais sábia, mais bondosa, mais nobre no sentido humano, todos ficamos melhores. A maioria de nós anseia por amor. O amor sem disfarces e seus rebentos: aceitação, carinho e pertença. Quase todo mundo gosta de festejar quando supera os conflitos pessoais. Nos unimos através de toda Magia que nos torna humanos e creio que isso é uma coisa que, em breve, todo mundo vai descobrir.

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“Recomendo a quem quiser nadar contra esta ‘onda anti-cultura’, que queira criar um obra que seja particular e complexa, que se livre da televisão e se desligue do noticiário, da mídia, o quanto for humanamente possível”
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Página de Minha Coisa Favorita é Monstro, HQ da quadrinista Emil Ferris, lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras

Eu li alguns artigos sobre os efeitos da Febre do Nilo Ocidental na sua vida. Quais foram as principais lições que você tirou dessa experiência?

A Febre do Nilo Ocidental em ensinou que, quando temos grandes dificuldades, pode ser que eles nos preparem para ter mais força e mais dedicação. Perder a capacidade de desenhar fez eu valorizar muito esses dons, de um jeito que não tem precedentes. Também fez eu me sentir vinculada ao empenho de outros. Às vezes, quando as coisas ficam bem difíceis, a simples capacidade de seguir em frente já é uma vitória. Durante todos esses anos trabalhando no livro, eu me dizia: ‘Emil, é só seguir em frente.’ E ainda me digo, pelo menos uma vez por dia… e o importante é que eu me obedeço. Eu sigo em frente.

Quando conversamos pela primeira vez, o livro já havia sido muito elogiado pela crítica especializada, mas agora você tem três prêmios Eisner por causa dele. O que esse reconhecimento significa para você?

Acordei na manhã seguinte à premiação e foi bem difícil acreditar que tinha acontecido. A homenagem é especial sobretudo por causa do imenso talento do senhor Eisner e porque muitos dos meus colegas, autores de dons extraordinários, e muitos amantes dos quadrinhos votaram em mim. Saber disso me deixa profundamente comovida!

Eu gostaria de saber sobre a sua relação com a crítica e com esse interesse crescente pelo seu livro por parte da imprensa. O que você sente ao ver o seu trabalho tão analisado e interpretado e tantas pessoas interessadas no seu quadrinho?

Fico lisonjeada e um pouco ‘perplexa’ por essa coisa toda. Fiz esse livrão monstro no isolamento total. Ninguém leu antes de eu terminar, então não tive ideia do que eu ia criando. Tal como o Dr. Frankenstein, eu não tinha ideia de que ele ia ‘viver’ até que a ‘eletricidade’ das imaginações dos leitores começasse a fluir pelos seus ‘ossos’.

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“Fico contente pelo desenho sempre ter feito parte da minha vida e por ter me ajudado em épocas difíceis ou sinistras”
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Página de Minha Coisa Favorita é Monstro, HQ da quadrinista Emil Ferris, lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras

O que você pode contar sobre os próximos livros da série?

Karen vai crescer bastante. Em parte, isso foi difícil pra mim. Não quis que ela passasse pelo que ela tem que passar. Estou dando duro!

Qual a memória mais antiga da presença de quadrinhos na sua vida?

Quando eu tinha acho que um e meio ou dois anos, minha mãe me deu as Funny Pages (a página dominical de quadrinhos no jornal) para recortar e transformar em colagem. Eu gostava muito de recortar, colar e desenhar quando era pequena. Era assim porque eu não podia caminhar, devido à curvatura da minha espinha, então eu explorei o mundo no desenho. Eu gostava principalmente de recortar Ferdinando. Eu adorava as cores esmaecidas, o pontilhado. Adorava que a cor raramente fechava com os contornos. Eu transformava aquelas imagens nos meus gibizinhos de bebê, alegres e toscos.

O que são histórias em quadrinhos para você?

Quadrinhos são sussurrar uma história do jeito mais íntimo que se imaginar, bem no ouvido do leitor. É uma coisa muito, muito íntima, porque esse cochicho entra lá naquela cabeça e fixa residência na arquitetura que o componente visual construiu dentro da mente. Para mim, isso é uma mistura de teatro de bonecos, generosidade mágica e uma transfusão de sangue espiritual, tudo junto na mesma coisa.

(Ramon, dito isso tudo, há outras mentes dos quadrinhos melhores que a minha que podem dar mais complexidade a minhas ideias – sou relativamente nova nas HQs e tem muitos que sabem bem mais que eu!)

Você poderia recomendar algo que esteja lendo, ouvindo ou assistindo no momento? [pergunta feira em fevereiro de 2018]

Enquanto eu desenho, não consigo ler como gostaria, mas enquanto escrevo esta resposta eu ouço Pelléas e Mélisande, de Debussy. Ouço muito The Hanged Man, de Ted Leo, assim como o blues de Chicago e música dos anos 60.

Algumas coisas de quadrinhos que eu recomendo: How to Read Nancy: The Elements of Comics in Three Easy Panels, de Mark Newgarden e Paul Karasik; Fetch, de Nicole J. Georges; The Customer is Always Wrong, de Mimi Pond; Krazy: George Herriman, A life in Black and White, de Michael Tisserand; Legend, de Sam Sattin e Chris Koehler; King Kong, Skull Island, de Joe DeVito.

E livros textuais: The Girl With All The Gifts, de MR Carey.

Praticamente só vou no cinema, não assisto tevê. Achei A Forma da Água maravilhoso, assim como Vazante, Pantera Negra, Corra! e Uma Mulher Fantástica.

A capa da edição brasileira de Minha Coisa Favorita é Monstro
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2020 MSU Comics Forum, por Emil Ferris

O Michigan State University Comics Forum é um encontro acadêmico anual sobre pesquisas em histórias em quadrinhos realizado na biblioteca da Universidade Estadual do Estado de Michigan, na cidade de East Lansing. Na semana passada rolou a edição de 2019, tendo o quadrinista Seth como principal convidado. Hoje foram divulgados os dois principais convidados da edição de 2020: Nick Sousanis, autor de Desaplanar, e Emil Ferris, autora de Minha Coisa Favorita é Monstro. Você confere outras informações sobre o evento clicando aqui. Mas falei isso tudo só pra divulgar o cartaz do evento, esse aqui em cima, com arte assinada pela Emil Ferris. Massa, né?

Entrevistas / HQ

Companhia das Letras abre 2019 com Minha Coisa Favorita é Monstro e promete André Dahmer e Caco Galhardo

A editora Companhia das Letras promete para março de 2019 o lançamento da edição brasileira de Minha Coisa Favorita é Monstro, álbum da quadrinista americana Emil Ferris vencedor de três prêmios Eisner em 2018 e do Fauve D’Or  do Festival de Angoulême em 2019. Logo em seguida, para o mês de abril, está previsto o lançamento de uma coletânea de tiras de Caco Galhardo e depois deverá ser publicada uma coletânea dedicada à série Os Malvados, de André Dahmer.

Ainda pelo selo Quadrinhos na Cia, no segundo semestre de 2019 deverá sair a HQ autobiográfica Heimat, da alemã Nora Krug. E entre as publicações ainda sem data de publicação constam uma parceria entre Lilia Schwarcz e do Spacca com um álbum sobre Lima Barreto; um livro de Rafael Sica com roteiro de Paulo Scott; a coletânea Todo Wood & Stock, com a íntegra do trabalho de Angeli com os personagens; a também coletânea Manual do Minotauro, da Laerte; a adaptação de Os Miseráveis assinada por Marcatti; a adaptação de Laura Lannes para A Obscena Senhora D, de Hilda Hilst; e O Aleph de Botafogo, parceria da escritora Simone Campos com a quadrinista Amanda Paschoal Miranda.

No post de hoje da série de entrevistas do Vitralizado com editores de quadrinhos, compartilho um papo rápido por email com o escritor Emilio Fraia, editor do selo de HQs da Companhia das Letras. Na conversa, ele fala sobre os principais lançamentos da Quadrinhos na Cia para 2019, comenta a crise das grandes livrarias e conta um pouco da repercussão de títulos lançados em 2018 – como Sem Volta, O Idiota, A Revolução dos Bichos e A Origem do Mundo. Papo massa. Ó:


Tira da personagem Lili a ex, do quadrinista Caco Galhardo

Você pode, por favor, adiantar e comentar alguns dos lançamentos da Quadrinhos na Companhia em 2019?

O mais esperado é o Minha Coisa Favorita é Monstro, da Emil Ferris (com tradução do Érico Assis), que deve ser publicado logo mais, em março. O livro foi o grande vencedor do Eisner (além da categoria principal, de Melhor Álbum, Ferris ganhou como Melhor Colorista e Melhor Roteirista/Desenhista), venceu também o prêmio principal em Angoulême, além de ter levado o Ignatz Indie Comics Award e encabeçado todas as listas de melhor graphic novel do ano. É absolutamente genial e vem se juntar a clássicos da Quadrinhos na Cia., como Maus e Persepolis.

Em abril, vamos publicar uma reunião de tiras, cartuns e histórias mais extensas do Caco Galhardo. Vai ser uma edição bem bonita, uma espécie de best of, com todos os personagens mais famosos dele, Chico Bacon, Pequeno Pônei, Lili a ex etc., apresentação do Reinaldo Moraes, sobrecapa que vira pôster. Devemos colocar nas livrarias também o aguardado Os malvados, do André Dahmer, que é hoje um dos principais cronistas em atividade do país.

No segundo semestre, o grande lançamento será o Heimat, da alemã Nora Krug (tradução do André Czarnobai). A autora, que tem 40 anos, viveu boa parte da vida fora da Alemanha e quando regressa ao país vai em busca da história dos avós, tentar descobrir como foi a vida deles durante a guerra. Heimat é uma palavra que significa ‘pertencer’, ‘pertencimento’. Krug conta que muitos alemães da geração dela sabem pouco do que aconteceu com suas famílias nesse período. É uma história autobiográfica, um olhar novo sobre as atrocidades do nazismo, e as técnicas de desenho e colagem que a autora usa são incríveis.

Temos no horizonte ainda uma nova parceria da Lilia Schwarcz e do Spacca com um álbum sobre o Lima Barreto; o novo livro do Rafael Sica com roteiro do Paulo Scott; o Todo Wood & Stock, do Angeli; o A Batalha, do Guazzelli com roteiro da Fernanda Veríssimo; o Manual do Minotauro, da Laerte; a adaptação do Os Miseráveis, do Marcatti; A Obscena Senhora D, da Hilda Hilst, que a Laura Lannes está fazendo; O Aleph de Botafogo, parceria da escritora Simone Campos com a quadrinista Amanda Paschoal. E mais algumas surpresas.

Tira da série Malvados, trabalho de André Dahmer que será publicado em coletânea pela Companhia das Letras

Eu queria saber mais sobre a dinâmica do seu trabalho com os autores nacionais do selo. Você é escritor e já foi roteirista de uma HQ (Campo em Branco, com DW Ribatski), como tem sido o seu diálogo com os quadrinistas brasileiros com trabalhos a serem publicados pela Quadrinhos na Companhia?

Em livros como o do Caco Galhardo, por exemplo, é mais um trabalho de selecionar e ordenar o material. Mas varia muito. No momento, há um projeto (sobre o qual não posso falar ainda) que está sendo feito a partir de um diálogo muito produtivo, desde a ideia inicial, tudo. Ou seja, não tem uma regra. Cada trabalho pede um tipo de intervenção, organização e acompanhamento.

Entre as minhas publicações preferidas da Quadrinhos na Companhia em 2018 estão Sem Volta, O Idiota, A Revolução dos Bichos e A Origem do Mundo. Qual foi o retorno do público em relação a esses títulos?

Foi muito bom. A revolução dos bichos e A origem do mundo estão indo para a primeira reimpressão. A repercussão desses dois livros, praticamente sem investimento de marketing, nos deixou bastante felizes. O Sem volta foi muito comentado (foi eleito o melhor álbum do ano pelo Globo), teve uma resposta incrível nas redes. O idiota, que é uma adaptação ousada, sem falas, um trabalho sofisticado do André Diniz, tem nos surpreendido positivamente também. Agora, claro, acredito que o mercado para este tipo de HQ, de alta qualidade narrativa e que ao mesmo tempo deseja falar com um público amplo, pode crescer muito.

E em relação a jovens autores brasileiros, o selo tem em vista projetos de autoria de novos nomes da cena nacional de HQs?

Sim, temos álbuns sendo produzidos, mas tudo ainda bastante no início.

Tira com os personagens Wood & Stock, criações de Angeli que serão reunidos em uma coletânea pela Companhia das Letras em 2019

Quais as principais lições que você, como editor da Quadrinhos na Companhia, tirou da crise das grandes livrarias em 2018? Como o selo pretende lidar com essa crise em 2019?

Quadrinhos são caros para ser impressos. Então, num momento de crise, esse tipo de livro é especialmente impactado. Acho que precisamos cada vez mais encontrar a nossa comunidade, os leitores desse tipo de trabalhos. Seja através da internet, seja em eventos ou em lojas voltadas para este público  – o trabalho que figuras como o Douglas e a Dani Utescher fazem na Ugra ou o Gui Lorandi na Monstra, por exemplo, é incrível.

Como a Companhia das Letras está lidando com a chegada ao poder de um governo de extrema-direita que acabou com o Ministério da Cultura e que promete cortes em políticas públicas e sociais de fomento às artes?

Com a consciência de que o momento pede a publicação de livros inteligentes e de qualidade.

Páginas de Minha Coisa Favorito é Monstro em processo de edição nos computadores da Companhia das Letras
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Comic Arts Brooklyn, por Emil Ferris

Tô numa fase Emil Ferris, lendo e relendo My Favorite Thing is Monsters, aí esbarrei com esse cartaz aqui em cima, trabalho da quadrinista pro Comic Arts Brooklyn 2017, realizado em novembro do ano passado em Nova York. O evento é organizado pelo Pratt Institute em parceria com a comic shop Desert Island. Junto com a Emil Ferris estiveram presentes Chris ‘The Warewolf’ Ware e Jules ‘Dr. Feifferstein’ Feiffer. Demais.