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Vida longa aos zumbis

Entrevistei pra edição de janeiro da Galileu o cineasta Alexandre O. Philippe. Ele é o responsável por alguns dos documentários mais bem-humorados e inteligentes dos últimos anos, como O Povo Contra George Lucas e A Vida e os Tempos de Paul, O Polvo Vidente. Ele vai lançar, ainda em 2014, Doc of the Dead, sobre a relação entre a cultura pop e os zumbis. Bem legal a conversa com ele. Olha aí:

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Vida longa aos zumbis

O diretor Alexandre O. Philippe se especializou em documentar nichos da cultura pop — e agora irá falar sobre o culto aos mortos-vivos

documentário de estreia do franco-suíço Alexandre O. Philippe foi lançado em 2003 e conta a história de uma galinha zumbi. Ou quase isso. Em setembro de 1945, um fazendeiro do Colorado resolveu servir um frango assado para sua sogra. Ele cortou parcialmente a cabeça do galo Mike e o corpo da ave saiu correndo pela sua cozinha. A criatura viveu decapitada ao longo de 18 meses e sua história pode ser assistida em Chick Flick: The Miracle Mike History.

Dez anos depois, ele termina o que pretende ser o registro definitivo sobre a cultura zumbi, em Doc of the Dead (Documentário dos Mortos). Em seu currículo também constam Earthlings (2004), sobre os fãs de Jornada nas Estrelas, The People Vs George Lucas (2010), com o embate entre o criador de Guerra nas Estrelas e seus súditos, e o excêntrico A Vida e os Tempos de Paul, o Polvo Vidente (2010), protagonizado pelo molusco adivinho da Copa da África do Sul. Em entrevista por telefone a GALILEU, o cineasta ressaltou a importância de preservar a cultura pop.

O que dá para adiantar sobre seu Doc of the Dead?
Sua versão final fica pronta em janeiro. Será o documentário definitivo sobre a cultura zumbi, tratando do assunto por uma perspectiva bem ampla. Começando pelos zumbis da religião vodu, passando pelos filmes de George Romero e pelos blockbusters que deram origem a todo esse culto recente.

Como você analisa a recente popularização dos zumbis?
Eles foram alternativos durante muito tempo. Em locadoras, os filmes de zumbi ficavam num cantinho escuro que as pessoas não costumavam frequentar. A virada aconteceu no início dos anos 2000, quando surgiu [a série]Walking Dead, O Guia de Sobrevivência Zumbi, Guerra Mundial Z [dois livros de Max Brooks, o último virou filme], convenções de fãs de zumbis… Toda cultura de fã possui o que chamo de “ponto de virada”: há várias coisas acontecendo ao mesmo tempo e não dá pra parar, é como uma avalanche e leva todos os seus seguidores juntos. Geeks e fãs sempre existiram, mas nem sempre se expõem. Quando um determinado grupo de pessoas se sente à vontade para assumir com orgulho seus gostos, a mídia se aproxima, outras pessoas ficam interessadas e o fenômeno cresce. É quando ocorre o “ponto de virada”. Hoje é cool ser nerd ou geek e não importa qual a sua obra de culto. As pessoas te aceitam.

A indústria do entretenimento é cíclica. Qual o futuro dos zumbis?
Não sei se é possível prever. É como a bolsa de valores. Algumas pessoas já cogitaram o fim, mas a moda continua crescendo. São fenômenos imprevisíveis. As pessoas fazem filmes de zumbis há anos e hoje o Arnold Schwarzenegger está filmando um, o Elijah Wood também. Filmes de zumbis tratam de metáforas muito adaptáveis. Acho que as pessoas estão apenas começando a ver o potencial do tema e não veremos seu final tão cedo.

Seus documentários tratam de temas que envolvem muita paixão e fanatismo. Há um padrão na origem desses cultos?
Talvez o padrão seja exatamente a paixão. Precisamos dar mais atenção para as coisas que nos fazem sorrir. Perdemos cerca de 50% dos filmes produzidos antes da década de 50. Claro, filmes deterioram, mas demoraram décadas para que as pessoas notassem que filmes são produtos culturais importantes. Não podemos deixar que a mesma coisa aconteça com a cultura pop, ela precisa ser documentada e preservada. E também apreciada e não vista como um prazer com culpa.

Além do fanatismo, os seus documentários tratam de assuntos um pouco excêntricos. Como você escolhe os temas?
São esses temas que caem no meu colo [ri]. São sempre relacionados à cultura pop e estão em voga, precisam ser abordados naquele instante. Eles envolvem discussões passionais e questões que ainda não foram abordadas com a profundidade necessária. Quando filmei Paul, as pessoas da minha equipe não acreditavam que aquilo poderia resultar num documentário. Ele trata de um momento muito específico e restrito da nossa história. O mesmo acontece com os zumbis. As pessoas que não entendem essa cultura podem achar ridículo, mas quero apresentar um olhar diferente. Hoje, 12 anos após meu primeiro documentário, percebi que minha missão talvez seja fazer as pessoas verem a cultura pop de uma maneira diferente.

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Cinema / Entrevistas

Papo com Greg Tocchini

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Quando escrevi pro Estadão sobre a nova leva de graphic novels da Maurício de Sousa Produções, um dos projetos que mais me animou foi o da Turma da Mata. O gibi vai ser produzido por Grag Tocchini, Artur Fujita e Davi Calil. Conversei com todos eles durante a produção da matéria, mas consegui aproveitar pouco do nosso papo por falta de espaço. Aí o Greg Tocchini foi anunciado como um dos autores de LOW, uma das próximas séries lançadas pela Image, e achei uma ótima deixa pra voltar a falar com ele, dessa vez pro site da Galileu. Segue o papo:

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A agenda lotada de Greg Tocchini

Desenhista brasileiro lança série nos EUA em julho e impressiona a indústria de quadrinhos

Eu acho que Greg Tocchini é provavelmente um dos maiores artistas surgidos nos quadrinhos nos últimos 20 anos”. A avaliação sobre o artista brasileiro Greg Tochhini veio de um dos autores mais vendidos e aclamados da indústria de quadrinhos norte-americana, o escocês Mark Millar. Responsável por títulos levados para o cinema, como os dois Kick Ass e O Procurado, o roteirista fez sua afirmação no Twitter, quando o Tocchini foi anunciado como artista da mais nova série da editora Image Comics, LOW. Com lançamento agendado para julho, o gibi mensal de ficção científica está previsto para durar 60 edições.

Além do novo título nos Estados Unidos, Tocchini também será um dos responsáveis pelo álbum protagonizado pela Turma da Mata da série de graphic novels da Maurício de Sousa Produções. “Todos os projetos possuem em comum o fato de eu participar da criação e do roteiro além da arte, coisa que venho buscando há algum tempo”, explica o desenhista em entrevista à GALILEU. Além dos dois potenciais blockbusters, ele continua a compor a equipe do coletivo de quadrinistas independentes Dead Hamsters.

Em seguida ao elogio de Millar, Tocchini teve sua arte também ressaltada por outra estrela das revistas de super-heróis dos Estados Unidos, o ilustrador Adam Hughes. “Naquele dia eu voltei do trabalho pra casa com uma enorme sensação de que tudo vale a pena e me sentindo muito honrado, sou muito fã do trabalho deles e há muito tempo”, conta o autor paulistano com trabalhos já publicados nas gigantes Marvel e DC e na europeia LeLombard. Na conversa com a GALILEU, ele falou sobre as origens de LOW, comentou a experiência de trabalhar com editoras internacionais e adiantou sobre o andamento do esperado trabalho com os amigos do elefante Jotalhão.

Como surgiu o convite para participar de LOW?
A ideia do LOW surgiu em 2009/10. Na época eu trabalhava com o Rick Remender no The Last Days of The American Crime. Durante a produção da HQ ele me perguntou qual seria nosso próximo projeto juntos e o que eu gostaria de desenhar. Respondi a ele da melhor maneira que pude, fiz um desenho. De uma astronauta tirando seu traje em um cenário de ficção cientifica. Foi o primeiro desenho do LOW. O Rick juntou algumas idéias que tinha tido ao ler uma National Geographic anos atrás, sobre a expansão do sol e a inevitabilidade de que as estrelas do nosso sistema em seu caminho serão consumidas no processo. E criamos o universo da série. De lá pra cá foram alguns anos de conversa, desenvolvimento, venda do projeto e negociação. Essa ultima parte sendo com certeza a pior parte pra mim. Eu queria sentar na prancheta e sair desenhado. Agora, depois de 5 anos desde que fiz o primeiro desenho vamos lançar a série. Foi uma longa caminhada até aqui. E somente para que pudéssemos começar a odisseia que será fazer toda a série. Não poderia estar mais feliz.

E o que você pode adiantar sobre o enredo?
LOW é uma ficção cientifica que se passa no fundo do mar. Em um futuro distante a Terra é maltratada pela radiação solar e a humanidade se muda para cidades blindadas rivais no fundo do mar. A superfície do planeta tornou-se um deserto queimado e inabitável. Aí uma sonda estelar retorna com informações sobre um possível planeta alternativo para se viver. Mas a sonda pousa, por acidente, na terra, e não no oceano. E as comunidades humanas remanescentes aventuram-se na mais mortal das terras, a superfície, para recuperar a sonda e as informações de esperança que ela trás.

Durante o anúncio do título o roteirista comentou que seriam cerca de 60 edições. Você já se envolveu em um projeto tão longo?
Eu nunca me envolvi num projeto como o LOW. Em todos os aspectos. Da criação ao desenvolvimento do projeto, o planejamento, a execução da arte, a liberdade artística,… LOW é novo. Temos uma grande história para contar. E eu quero muito contar o final dessa historia.

A origem da Image está muito ligada aos direitos dos autores e recentemente ela está acumulando vários sucessos de vendas e crítica. Como está sendo a experiência com a editora?
Está sendo uma experiência única. Mas também, é a primeira editora que eu trabalho com um projeto autoral. Desejo que a experiência traga bons e prósperos frutos.

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Você já produziu para a Marvel também. Há muita diferença entre uma editora e outra?
Empresas diferentes, filosofias e gestões diferentes. Já trabalhei para a Marvel, DC, Dark Horse, Radical Comics, LeLombard e agora a Image. Todas me deram grandes oportunidades de trabalho para cada etapa da minha carreira. Pude trabalhar com muitos bons projetos, autores e editores. Mas nunca tinha entrado numa editora como autor do projeto. E há diferenças claras nisto. Posso e devo opinar mais sobre as direções que o projeto tomará, por exemplo.

Como está encaminhada a produção da graphic novel para a Maurício de Sousa Produções?
Estamos trabalhando o roteiro, que está bem adiantado. Já fizemos e descartamos algumas versões e estamos indo para a final agora. Aprovado o roteiro, começamos a produção da arte.

Você está produzindo a revista da Image, a graphic da MSP e continua com os trabalhos independentes da Dead Hamster. São públicos e universos muito diferentes?
Não vejo a questão como públicos ou universos diferentes. Vejo sobre a ótica do autoral. Todos os trabalhos que estou envolvido atualmente são autorais. O LOW eu divido a autoria com o Rick. A Graphic da Turma da Mata está sendo feita a seis mãos. Eu, o Artur Fujita e o Davi Calil que dividimos um estúdio. E o Dead Hamster é um coletivo de artistas publicando seus trabalhos autorais. Todos os projetos possuem em comum o fato de eu participar da criação e do roteiro além da arte, coisa que venho buscando há algum tempo. E todos os projetos possuem um potencial internacional, ou seja, podem alcançar um grande público não só aqui como em outros mercados.

E o que você achou do comentário do Mark Millar sobre o seu trabalho no Twitter? Você gostaria de trabalhar com ele?
Naquele dia eu voltei do trabalho pra casa com uma enorme sensação de que tudo vale a pena e me sentindo muito honrado. Não só pelas palavras do Millar como as do Hugues. Sou muito fã do trabalho deles e há muito tempo. Fui influenciado por seus trabalhos inspiradores e de repente receber um elogio tão grande dos profissionais que você admira me fizeram sentir que estou indo pelo caminho certo. Não conheço o Millar pessoalmente, espero poder remediar isso em breve em alguma convenção. E se eu gostaria de trabalhar com ele? É claro que sim, mas só talvez daqui uns cinco anos, quando eu tiver cumprido a odisseia atual de trabalhos.

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Cinema / Entrevistas

Papo com Andrew DeGraff

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Já fiz três posts dedicados ao Andrew DeGraff por aqui: quando ele participou da exposição dedicada ao J.J Abrams na Gallery 1988, na época que ele lançou seus mapas dos filmes de Star Wars e também quando ele produziu os painéis de Indiana Jones. Entrevistei o artista pro site da Galileu. Ele falou sobre técnicas as origens dos mapas e de seu próximo trabalho. No momento ele está produzindo um painel gigante com todo o percurso de Frodo e companhia durante a trilogia O Senhor dos Anéis pra uma exposição solo. Demais né? Meu texto no site da Galileu tá aqui. Segue a entrevista:

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O cartógrafo nerd

Artista norte-americano Andrew DeGraff mapeia os percursos de protagonistas de clássicos pop

O próximo trabalho do ilustrador Andrew DeGraff é maior que um sofá. Ele está pintando o percurso dos protagonistas da trilogia O Senhor dos Anéis em um único painel e a obra será o destaque de sua próxima exposição. Colaborador dos jornais The New York Times e The New York Observer e da revista TimeOut Chicago, ele ganhará uma retrospectiva solo de seus trabalhos na prestigiada Gallery 1988, de Los Angeles. Em cartaz a partir de março, o evento vai reunir a série mais famosa de DeGraff, dedicada a registrar a rota de personagens de filmes clássicos da cultura pop. O trabalho inédito, apresentando o caminho de Frodo e seus amigos até a Montanha da Perdição, estará acompanhado de ilustrações ambientadas nos universos de Star Wars, Indiana Jones, Goonies e outros.

“Se uma obra de arte levanta questões sobre a vida e moralidade, isso é ótimo – mas mais pessoas vão sacar se ela tiver Stormtroopers”, brinca o DeGraff em entrevista à GALILEU em referência aos soldados imperiais de Star Wars. Segundo ele, para a produção de alguns de seus mapas ele chega a assistir ao mesmo filme mais de vinte vezes e são necessários mais de dez dias para produzir alguns dos painéis. Além de explicar suas técnicas e explicar as origens de seus mapas, ele explicou a diferença de artes sobre cultura pop e artes concebidas por fãs.

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Como surgiu a ideia dos mapas?
Eu comecei fazendo mapas em matérias de revistas de viagens. Era divertido combinar informações reais em um formato de desenho e brincar com os conceitos de infografia e ilustração. A segunda parte disso foi criar imagens para galeria de cultura pop que não eram baseadas em personagens principais ou mesmo secundários. Todos nós lembramos falas e cenas icônicas, então isso acaba ocupando 90% das imagens em alguns exposições de cultura pop. Nada contra isso, mas pensei que seria interessante tirar os personagens da imagem e apresentar apenas os cenários e os ambientes. O pano de fundo define muito de um grande filme. A ideia de representar os cenários como setas veio do mapa que fiz para Intriga Internacional (1959). Representei o personagem do Cary Grant como uma seta vermelha, uma referência direta aos créditos de abertura do Saul Bass para o filme.

Quantas vezes vocês assiste cada filme para lembrar os percursos?
Eu amo os filmes que pinto. Um bom teste é pensar: “eu posso assistir vinte vezes seguidas?”, pois é basicamente o que acabo fazendo algumas vezes. Eu preciso parar e dividir cena por cena, mas as vezes é difícil parar quando você se apega à trama. Vinte minutos depois eu estou me xingando por ter deixado passar exatamente aquela cena que procurava. Isso acaba arruinando o filme para mim durante alguns anos.

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E como você faz os mapas? Quais técnicas você utiliza?
Cada mapa exige duas ou três sessões para anotações, listar os cenários e buscar um formato básico. Depois gasto alguns dias em rascunhos de escalas menores para ter uma noção de tudo que preciso mostrar numa perspectiva plana, o que acabo repetindo na versão final. O rascunho precisa ser muito detalhado, já contendo tudo que pretendo mostrar: cortes de interiores, arquiteturas e designs icônicos e também outros layouts. Passo muito tempo pensando o quanto quero mostrar de determinadas cenas. Junto com a minha lista de o que acontece em cada lugar no filme, acabo criando uma espécie de pequeno storyboard. Depois eu gasto até três dias fazendo o desenho final e começo a pintar com guache. Normalmente gasto entre 150 e 200 horas na pintura.

Por que você acha que os mapas fizeram tanto sucesso?
É engraçado. Nunca imaginei que eles se tornariam isso tudo. Acho que as pessoas gostam do jeito de maquete deles. São mundo fechados. Meus mapas geralmente são delicados como miniaturas de navios em garrafas. São tão completos quanto eu consigo fazer, estilizados e com muita informação. Minha regra quando estou produzindo é: “tudo é tão importante quanto todo o resto”. Tento dar a todo carro, árvore, prédio e montanha a mesma quantidade de detalhes. Claro, de longe as pinturas parecem totalmente abstratas, mas você passa a reconhecer várias paisagens e construções a medida que se aproxima. É quando o público tem aquele instante “Aha!”.

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Você pretende continuar a produzir os mapas?
Definitivamente. Tenho uma exposição marcada na Gallery 1988 de Los Angeles a partir de 28 de março então estou por conta da próxima leva e não pretendo parar. No momento estou trabalhando num mapa do tamanho de um sofá com as história dos três Senhor dos Anéis, para a exposição.

A internet é um espaço propício para artistas e fãs de cultura pop expressarem suas paixões com ilustrações, mash-ups e várias reinterpretações de filmes, livros, quadrinhos e discos. Por que você acha que as pessoas gostam tanto dessas releituras?
Tenho algumas dúvidas sobre isso. Há muitos bons ilustradores e artistas fazendo artes baseadas em cultura pop e é natural as pessoas responderam àquilo que conhecem. Para muitos de nós, é parte das nossas infâncias, então vai fundo nas nossas consciências. Acho importante determinar a diferença fanart e arte de cultura pop. Gosto muito de fanarts – e fiz muitos trabalhos assim. Mas fanarts não apresentam qualquer revelações sobre o filme ou o quadrinho, é apenas uma representação quase romântica de determinado personagem ou cena. Muito do que vejo online é na verdade fanart. Mais uma vez: não tenho qualquer problema com isso. Adoraria ver uma pintura do Chewbacca feita pelo Basquiat ou pin-ups da Marvel assinados pelo Egon Schiele. Só acho que quando você vê arte sobre cultura pop, há conceitos pessoais do artista que acrescentam aos conceitos próprios dos filmes ou quadrinhos. Na maioria das vezes são esses os trabalhos que vejo se destacando na internet. Uma boa ideia é uma boa ideia. Se uma obra de arte levanta questões sobre a vida e moralidade, isso é ótimo – mas mais pessoas vão sacar se ela tiver Stormtroopers.

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Entrevista com Marcus Alqueres, o diretor de The Flying Man

Entrevistei o diretor Marcus Alqueres pra edição de outubro de Galileu. Ele é o responsável por um dos filmes mais legais de 2013, o curta Flying Man. Já tinha postado a produção por aqui ano passado, mas confere ela aí de novo antes de ler a nossa conversa.

O brasiliense voador

Com Flying Man, Marcus Alqueres pode ter conseguido ingresso para entrar em Hollywood

Com seu The Flying Man, o brasiliense Marcus Alqueres, 35 anos, segue a mesma estratégia de nomes como Neill Blomkamp (Distrito 9 e Elysium) e Feder Alvarez (A Morte do Demônio), que dirigiram seus primeiros longas após o sucesso de produções de curta duração. Com custo que, segundo ele, “equivale a apenas uma fração do que se paga em editais de curtas no BRasil”, ele alcançou quase 500 mil visualizações em apenas um mês online. Formado em desenho industrial e residente no Canadá desde 2005, ele não é novato na indústria e já prestou serviços de animação e efeitos especiais em filmes como 300 e As Aventuras de Tintim. Galileu conversou com ele por e-mail.

Você esperava que a repercussão de The Flying Man seria tamanha? 
Trabalhando por tanto tempo em alguma coisa você cria expectativas, é natural, mas quando realmente acontece é diferente, muita coisa te pega de surpresa. É sempre bom ver o reconhecimento do seu trabalho ainda mais quando vem de pessoas que você admira.

Como surgiu história de ‘The Flying Man’?
Exatamente do fato de nunca ter visto algo no cinema que explorasse um super-herói ou vigilante pelo ponto de vista da população. Sempre imaginava como uma sociedade reagiria com um homem voando pela cidade. Nos filmes que vemos estamos sempre na ótica deles, quando na realidade pouco saberíamos a respeito. Além disso adicionei o fato do herói não ser politicamente correto e operar através de sua lógica própria, desconsiderando as leis locais. Isso criaria um impacto muito maior.

O Neill Blomkamp filmou Distrito 9 após o sucesso do curta Alive in Joburg. O Sam Raimi convidou o Fede Alvarez para dirigir a refilmagem de Evil Dead após assistir Ataque de Pánico. Qual o papel dessas produções independentes e digitais para Hollywood?
A indústria de cinema está sempre a procura de projetos que possam ter retorno financeiro. Quando se tem um curta metragem na internet chamando a atenção de muita gente, isso funciona como uma prova de que existe um público forte para aquela ideia. Então esse curtas conseguem mostrar ao mesmo tempo que aquela ideia é interessante quando executada corretamente e que existe uma audiência que potencialmente pagaria para ver mais.

Você foi procurado por algum estúdio, produtora ou diretor após o lançamento do curta?
Sim, o interesse está sendo grande, estou trabalhando em parceria com agentes a fim de achar o melhor lugar para produzir o The Flying Man.

O George Lucas e o Spielberg deram na Universidade da Califórnia no começo de junho. Uma das falas do próprio Lucas foi: “Os estúdios estão obcecados em gastar muito para ter um retorno enorme, e isso não vai funcionar para sempre”. O que pensa a respeito?
Eu concordo, principalmente depois desse ano, com a maioria dos blockbusters decepcionaram nas bilheterias. Já existe uma corrida para explorar filmes produzidos de forma mais independente e barata mas que conseguem apoio de estúdios para ter uma divulgação maior. Esse ano mesmo tiveram filmes produzidos com quatro milhões de dólares que tiveram mais bilheteria que muitos que custaram 100 milhões. Um filme grande de estúdio tem que fazer mais de 500 milhões em bilheteria apenas para não ter prejuízo, não tem como manter esse sistema por muito tempo.

Nesse contexto de mudanças, como o formato digital facilita a entrada de novos nomes no mercado?
Hoje em dia com um capital de giro muito baixo você já tem acesso a muita coisa. Câmeras estão mais baratas que nunca, computadores e softwares estão a disposição. A tecnologia não impõe mais restrições como antigamente, isso democratiza muito a aparição de novos talentos. Antigamente só quem tinha acesso a certos equipamentos tinha oportunidade de se mostrar. A parte de divulgação também evoluiu: dez anos atrás, o caminho mais correto era inscrever em festivais, esperar meses para ser selecionado, gastar dinheiro criando sua cópia em filme e um outro tanto para pode enviar. No final de tudo apenas umas poucas centenas quando não dezenas de pessoas veriam seu trabalho, era uma loteria. Hoje em dia, colocando no You Tube ou no Vimeo, seu trabalho tem a chance de ser visto por milhares ou até milhões de pessoas em muito pouco tempo, atraindo a atenção do seu público alvo com muito mais eficiência. E, logicamente, você ainda pode aplicar para os mesmos festivais só que de forma digital, o que facilita bastante.

Quais lições os grandes estúdios podem tirar de produções como ‘The Flying Man’?
Difícil falar. Produções como a minha não custam tanto pois as pessoas sabem que você não tem um orçamento e muitas vezes não vão te cobrar ou cobram uma taxa diferenciada. Se, por exemplo, eu tivesse filmado com atores sindicalizados, eu teria gastos que eu não tive, como seguros, refeições extras dentre outras normas. O mesmo acontece com produções grandes, existe um sistema que provavelmente já está inflacionado e fica muito difícil cortar certos custos. Por outro lado existem outros formatos, sendo cada vez mais utilizados hoje em dia, no qual os profissionais ganham uma cota no filme em troca de cobrarem menos dos produtores. Se o filme é um sucesso financeiro todos ganham, caso contrário o risco e dividido entre todos. A criatividade ajuda também a abaixar custos. A solução mais fácil é jogar dinheiro para arrumar qualquer problema, já em The Flying Man a falta de capital me fez gerar soluções que não me custaram nada, mas que tiveram resultados satisfatórios.

Quando você filmou o curta, tinha em mente um passado para o personagem e futuras histórias traçadas pra ele?
Sim, eu ja tinha uma base para ele. Ter um passado te ajuda a escrever cenas para qualquer personagem. Logicamente estou evoluindo a história para uma possível adaptação para o cinema. Aguardem.

Blockbuster de bolso

Todos estão em choque com o surgimento do homem voador. As autoridades seguem os destino da criatura, em vão. A partir de dado momento, ele passa a capturar pessoas aleatórias e jogá-las do céu. Instaurado o pânico, a polícia detecta o padrão: ele só ataca quem tem fichas criminais. O final da história – ou apenas o começo se Hollywood não deixar passar – você assiste em http://vimeo.com/69882318

Entrevistas

Entrevista com Glenn McDonald, o guru dos dados musicais

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Hoje entrou no ar o site novo da Galileu e junto foi publicada uma entrevista minha com o Glenn McDonald. Ele é um engenheiro de software especialista em estudo e armazenamento de dados relacionados a música. Dá uma lida, meu texto tá aqui.

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‘A paixão continua bastante imprevisível’

Guru norte-americano do uso de dados para estudo de música, Glenn McDonald quer cadastrar todos os gêneros do planeta

por Ramon Vitral

Uma das certezas do engenheiro de software Glenn McDonald é que a música pop está mais triste a cada hit. Talvez baste apenas algumas canções do seu Ipod para você confirmar a ideia, mas McDonald faz uso de matemática e estatística para chegar à conclusão. Ele empregou os arquivos com centenas de milhares de canções da Echo Nest, a empresa norte-americana na qual ele trabalha, dedicada ao estudo e armazenamento de dados sobre música. Criada em 2005, a companhia foi concebida por alguns dos ex-pesquisadores do Media Lab do MIT (Massachusetts Institute of Technology) e ela vende seus dados para gravadoras e outros empresas da indústria musical.

Aos 46 anos, McDonald é um dos responsáveis pelo cadastro e análise dos gêneros das 35.228.221 canções e 2.602.051 artistas até agora presentes nos registros da Echo Nest. Para concluir seus estudos sobre a tristeza crescente da música pop, ele contrapôs dados como ritmo, notas, dançabilidade e energia de alguns hits lançados entre 1960 e 2013. A conclusão, segundo ele, é menos drástica que alguns teóricos musicais pregam em estudos semelhantes sobre o tema, mas confirma: há uma tendência de aumento na frequência do uso de tonalidades e harmonias mais frequentes em canções interpretadas como tristes.

“Várias coisas que faço com dados produzem resultados corretos intuitivamente”, explica o engenheiro em entrevista à Galileu. No entanto, de acordo com ele, a confirmação de uma certeza empírica pode auxiliar outras análises: “se escrevo um programa para criar uma playlist introdutória para um gênero, primeiro eu aplico em gêneros que pessoalmente conheço bem e vejo se os resultados funcionam. Depois, já sabendo se posso confiar na matemática e no processo, eu posso tentar em gêneros com os quais não tenho qualquer familiaridade e deixo os computadores me ensinarem como é aquela música.”

Em um projeto pessoal, o Every Noise at Once, McDonald criou um mapa com todos os gêneros encontrados em suas pesquisas, incluindo cinco brasileiros, e bandas pertencentes a cada um deles. Em outro, é possível descobrir se o nome de sua banda é inédito. Esses e outros estão explicados no site do engenheiro. Segundo ele, uma das contantes de seu emprego é ser questionado se existe uma fórmula para hits. “Quando tentamos descobrir relações entre popularidade e características musicais mensuráveis, costumamos não encontrar nenhuma”, conta.

No que diz respeito a música nacional, ele conta gostar do que chama de punk brasileiro e cita bandas como Capital Inicial e Charlie Brown Jr. Numa espécie de mea culpa, ele justifica: “Acho que paixão continua bastante imprevisível”. Leia a entrevista com o guru dos dados musicais:

Música para algumas pessoas é como religião. Como é possível transformar um assunto tão passional e subjetivo em algo analítico como dados?

Não é possível e também não é o que estou tentando fazer. Você tem as suas paixões e não pretendo fazer uso de dados para dizer o que e o quanto você deve amar. Mas o que posso tentar fazer é usar dados para ajudar você a entender o universo de possibilidades. Posso ajudar você a descobrir as música que talvez você possa amar e poderia não descobrir de outra forma. Mas decidir o que você sente em relação a ela é inteiramente por sua conta.

Como produtores e artistas podem melhorar seus trabalhos usando essas informações?

“Melhorar” é outro julgamento humano bastante subjetivo. Os dados e cálculos nunca dizem “melhor”, eles informam coisas como “mais alto” ou “mais rápido”. Somos questionados se conhecemos uma fórmula para hits, como se existisse tons ou ritmos mágicos que poderiam garantir grande popularidade. Mas se existe, com certeza não conhecemos. Na verdade, quando tentamos descobrir relações entre popularidade e características musicais mensuráveis, não encontramos nada. Talvez precisemos simplesmente calcular a qualidade certa. Mas duvido que seja possível. Acho que paixão continua bastante imprevisível.

A indústria musical, assim como todas as outras relacionadas ao entretenimento, está passando um momento muito crítico em relação a vendas e formatos. Como pesquisas de dados podem ajudar a melhorar essa realidade?

Acho que dados relacionados a música têm o potencial de ajudar a conectar pessoas às músicas que elas podem gostar. Se isso funcionar, ajuda a criar novos ouvintes mais ativos, com mais investimentos, tanto emocional quanto financeiro, nas músicas que eles encontraram. E se isso ajudar a conectar ouvintes às músicas, inevitavelmente também contribui a conectar as músicas aos seus ouvintes.

Você já encontrou algum estudo ou pesquisa relacionado a dados de música que revela algo óbvio e perceptível por um simples fã, sem conhecimento das mesmas informações que você?

Claro! Várias coisas que faço com dados produzem resultados corretos intuitivamente, ou então os resultados são pelo menos parcialmente aqueles que você espera. Isso pode ser meio chato, mas também é um sinal que os cálculos estão funcionando. E se você pode confirmar que os cálculos estão funcionando em coisa que você já tem certeza, você pode usá-los para explorar coisas que você ainda não sabe. Então, por exemplo, se escrevo um programa para criar uma playlist introdutória para um gênero, primeiro eu aplico em gêneros que pessoalmente conheço bem e vejo se os resultados funcionam. Depois, já sabendo se posso confiar na matemática e no processo, eu posso tentar em gêneros com os quais não tenho qualquer familiaridade e deixo os computadores me ensinarem como é aquela música.

E quais foram as informações mais reveladoras e inesperadas que você encontrou fazendo uso de dados?

Existe muita música. Quase toda vez que esbarro com uma banda totalmente desconhecida e obscura tocando uma música bizarra que me soa algo que nunca existiu, sigo os dados e descubro que na verdade existem 140 bandas como aquela, ou 1400, e elas estão fazendo essa música estranha, única e sem precedentes há décadas, com subgêneros ainda mais diferente e empolgantes. Música é a coisa que os humanos fazem de melhor. Sempre acreditei nisso como uma questão de fé e agora também acredito como uma probabilidade estatística.

Há uma tendência de uso de dados na produção de conteúdo jornalístico, mas muito mais voltado para política e economia. Como eles podem ser utilizados para melhorar o jornalismo de artes e entretenimento?

Jornalistas são ouvintes, também, e quanto melhores eles forem para compreender o mundo sobre o qual estão escrevendo, melhores são as ideias que eles podem ter. Então a mesma coisa que pode me ajudar a descobrir uma banda punk das Filipinas pode ajudar um jornalista a encontrar outras bandas como aquela, dimensionar a relação entre elas e entender como essa banda está inserida em um contexto maior. Essas ferramentas de pesquisa têm potencial de fazer para o jornalismo focado em música o mesmo que o telescópio e o microscópio fizeram para quem escreve sobre ciência.

Você já esteve em contato com algum tipo de dado relacionado a música brasileira?

Claro! Um dos meus grandes projetos pessoais na The Echo Nest foi a organização da nossa lista de gêneros musicais de todo o mundo e a compreensão do que cada um representa. Eu comecei com uns 400 gêneros que sabíamos que existiam, mas ao começar a trabalhar neles descobri outros que havíamos deixado passar. Já estava bastante impressionado quando chegamos a 500 e achava que tínhamos concluído, mas recentemente passamos dos 750 e continuo encontrando outros. Alguns são mais recentes, menores e obscuros, e fez sentido eu demorar para chegar neles. Mas alguns são gigantes. Lembro muito bem do dia que esbarrei com uma menção a algo chamado “sertanejo”, que eu nem sabia que era uma palavra, ainda mais um gênero. Comecei a fazer minha pesquisa padrão para descobrir do que se tratava esse estilo obscuro, e fiquei embasbacado ao descobrir, como você obviamente já sabe, que algumas medições dizem ser o gênero mais popular do quinto maior país do planeta! Tenho 46 anos, tenho sido um fã voraz e curioso de música por quase toda a minha vida, então me tira do sério a ideia de que exista um tipo de música amado por centenas de milhares de pessoas e eu ainda não ouvi falar.

A música brasileira é fabulosa. Descobri muito pop brasileiro que amo, tanto mainstream quanto indie, nos meus esforços para tentar identificar e catalogar todos os gêneros. Meu nicho preferido do Brasil é o punk brasileiro. Pelo menos para mim, subjetivamente, explorando o punk brasileiro de longe, parece menos subdividido quanto a música punk dos Estados Unidos ou o britânico. Elementos que a cena americana tende a compartimentalizar bastante, parecem coexistir em mais harmonia no Brasil, como as guitarras no punk e os sintetizadores no new wave. Não sei se vocês veem dessa forma no Brasil, mas é a minha perspectiva. Aqui vai uma playlist de punk brasileiro que nosso sistema criou e me diverti bastante ouvindo. Gostei bastante de Capital Inicial, Inocentes, Agrotóxico, Dance of Days e Charlie Brown Jr. Você provavelmente já conhece todas elas, mas sem dados e software, eu jamais saberia que elas existem.

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Papo com Renato Guedes

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Conversei com o quadrinista Renato Guedes sobre os planos dele pra 2014 e a inauguração da Galeria Ornitorrinco em São Paulo, amanhã. Ele falou sobre o mercado norte-americano de quadrinhos e o potencial crescente do meio aqui no Brasil. O papo tá lá no site da Galileu. Dá uma olhada.

‘Quadrinhos eram consumidos pelas massas e precisam voltar a ser’

Ex-desenhista de Super-Homem e Wolverine, Renato Guedes expõe a partir do dia 5 de dezembro em nova galeria de São Paulo

por Ramon Vitral

Para o ilustrador brasileiro Renato Guedes, o ano de 2013 foi apenas um lampejo do potencial crescente do mercado nacional de quadrinhos. Além dos muitos projetos nacionais sendo financiados coletivamente pela internet, a chegada de artistas independentes a grandes editoras e a realização de eventos como o Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte reforçam a crença do artista que, um dia, gibis possam ser meio de comunicação de massa no Brasil.

Desenhista de personagens norte-americanos consagrados, como Super-Homem e Wolverine, Guedes deixou as publicações dos Estados Unidos em 2013 para investir no Brasil. A partir de amanhã, na inaugração de Galeria Ornitorrinco, em São Paulo, estarão expostas duas artes que deverão chamar atenção de seus fãs. “ São pinturas, diferente do que fazia nos quadrinhos”, explica ele em entrevista à Galileu.

Em 2014 Guedes será o responsável pela arte de um álbum protagonizado pelo indiozinho Papa-Capim, criado por Maurício de Sousa, para a coleção Graphic MSP, na qual artistas reinterpretam personagens da Turma da Mônica em histórias fechadas. Segundo ele, a série reflete uma das vantagens do cenário brasileiro em comparação à ainda milionária indústria norte-americana de quadrinhos: “eles estão investindo em nichos e aqui não”.

As pinturas de Renato Guedes, além de outras exposições e artes originais estarão na Galeria Ornitorrinco entre as 19h de amanhã e o dia 5 de fevereiro de 2014. O espaço fica aberto de segunda a sexta, das 10h às 19h, no número 520 da Avenida Pompeia, em São Paulo.

RenatoGuedes1 - Constantine
Como foi o convite pra expor e quais serão seus trabalhos?
O Mauro Souza, um dos sócios na galeria também é ilustrador. Ele tem um estúdio e trabalha na Maurício de Sousa Produções. Somos colegas e um sempre acompanhou o trabalho do outro. Vou expor duas pinturas na abertura. Procurei fazer algo diferente dos quadrinhos. Estava desde 2002 fazendo super-heróis para os Estados Unidos e não tinha tempo pra testar outros estilos e batia uma frustração. Aí resolvi dar um tempo dos quadrinhos e as pinturas surgiram da vontade de fazer algo diferente, mas não vou revelar muito. É surpresa.

Como está a produção da graphic novel do Papa-Capim?
É tudo diferente, principalmente a temática indígena. Não é a mesma coisa de fazer uma revista mensal como eu fazia nos Estados Unidos. Muito mais legal e ideal para o atual momento da minha carreira, em que busco outros caminhos artísticos.

Muitas publicações independentes foram lançadas em 2013, foram realizadas convenções, há vários projetos em busca de financiamento coletivo na internet e agora a galeria voltada para ilustração. O ano foi atípico para os quadrinhos nacionais?
Veremos esse universo crescer ainda mais em breve. Espero que tenha sido apenas um lampejo. Óbvio que temos vários limites: um artista aqui ainda precisa trabalhar com agências de publicidade, vender ilustrações,… Mas há muita coisa acontecendo, como o projeto das graphic novels do Maurício de Sousa. E acho que tudo isso é só uma amostra desse potencial. Quadrinhos não podem continuar limitados a um nicho. Eles nasceram populares, eram consumido pelas massas e precisam voltar a ser.

Você trabalhou mais de dez anos para os Estados Unidos. Há percepção desse cenário brasileiro na América do Norte?
Eles não olham pra cá. Eles estão bem fechados e convictos em insistir nos mesmos erros. Converso com editores lá de fora e nacionais: enquanto o mercado norte-americano investe cada vez mais em nichos, aqui não. Eles estão em crise. Meu último trabalho lá fora foi a revista do personagem John Constantine, que já teve até filme com o Keanu Reeves, e ela vendia apenas sete mil exemplares por mês. É muito pouco.

Mas eventos como a San Diego Comic Con são cada vez mais populares, não são?
Sim. Nos últimos anos estive em todos os mais importantes, como a San Diego Comic Con e a a convenção de Nova York. Há foco em tudo: cinema, séries, games e brinquedos. Mas o espaço reservado a quadrinhos é mínimo. Esses eventos perderam o foco. O Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte não, lá a prioridade é gibi. Na San Diego, por exemplo, o público muitas vezes nem lembra da existência dos quadrinhos.

Os filmes de super-heróis não resultam em vendas maiores?
Na verdade não. Nos Estados Unidos os quadrinhos são vistos como ponta de lança de outros produtos. Num primeiro instante, as vendas podem até melhorar, mas logo voltam ao normal. Acho que o problema é que os personagens sempre sobreviveram à passagem dos anos graças às suas mitologias. Agora os filmes estão influenciando na mitologia e o público original não embarca nessa.