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Os novos títulos do projeto Graphic MSP

Escrevi pro Estadão sobre a segunda leva de álbuns do projeto Graphic MSP. Conversei com o Maurício de Sousa e o Sidney Gusman, editor da MSP, sobre os títulos de 2014 e 2015 e adiantei os protagonistas dos próximos álbuns e os artistas responsáveis por cada um. As Graphics lançadas em 2013 foram algumas das novidades mais legais dos gibis nacionais no ano e unem como nunca o submundo dos quadrinhos alternativos brasileiros e a marca nacional mais poderosa no meio. Segue a matéria:

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Turminha em voo alto

Seis álbuns da coleção Graphic MSP reinterpretam personagens criados pelo quadrinista

Que o mundo esteja preparado para as novas aspirações da “dona da rua” do Bairro do Limoeiro. Os planos infalíveis de crescimento global de Mônica e sua turma não são novos, mas nunca estiveram tão explícitos e fizeram uso de estratégia tão pouco usual. Com mais de 80% do mercado infantojuvenil de bancas, a Maurício de Sousa Produções voltará em 2014 a fazer uso de quadrinistas independentes brasileiros para a segunda fase de seu projeto de maior sucesso em 2013, as Graphic MSP. “Um amigo brincou comigo, disse que transformei a Maurício de Sousa na maior editora indie do Brasil”, brinca o idealizador da série e editor da Maurício de Sousa Produções, Sidney Gusman.

Na tarde de sexta, em apresentação no Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, Gusman anunciou os próximos seis álbuns da coleção, que reinterpreta personagens criados por Maurício de Sousa. O cãozinho Bidu, o índio Papa-Capim, a Turma da Mata, o fantasma Penadinho, o Astronauta e a Turma da Mônica serão os protagonistas das edições. As graphic novels da turminha e do personagem de ficção científica serão continuações das duas primeiras obras da leva inicial do projeto:Magnetar, de Danilo Beyruth, e Laços, dos irmãos Vitor e Lu Cafaggi.

“Ainda não sabemos a ordem, serão três em 2014 e as outras no ano seguinte”, explica o editor. “E em 2015 anuncio outras duas na Gibicon de Curitiba. A ideia é que a gente não pare e tenha de três a quatro graphics por ano.” Pai dos personagens, Maurício de Sousa ressalta a magnitude da iniciativa: “Esse projeto é de fôlego e a longo prazo, estamos nos primeiros passos, faz parte de uma estratégia. Não podemos ficar parados, precisamos que nosso sucesso seja renovável”. Primeiro gibi com o selo Graphic MSP, Astronauta – Magnetar já foi publicado na Alemanha, Espanha, Itália e França. Lançado durante o FIQ, o quarto álbum do selo, Piteco: Ingá era objeto de desejo de editoras internacionais antes mesmo da impressão.

Recém-saído da norte-americana DC Comics, Renato Guedes será o ilustrador do texto da roteirista Marcela Godoy para Papa Capim. Vencedores do prêmio HQ Mix 2013 na categoria Publicação Independente pela séria Quadrinhos A2 (www.quadrinhosa2.com), o casal Paulo Crumbim e Cristina Eiko ficarão responsáveis pelo Penadinho. Os mineiros Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho, da webcomic Quadrinhos Rasos (www.quadrinhosrasos.com) assinam a história do Bidu. E a Turma da Mata (de Jotalhão, Tarugo, Coelho Caolho e Raposão) é do trio Greg Tocchini, Artur Fujita e Davi Calil, do coletivo de artistas Dead Hamster (www.facebook.com/DeadHamsterComics).

Segundo Gusman, os critérios de escolha dos artistas e dos personagens são baseados nos estilos de cada um. “Sempre planejamos apontar para todas as direções, os personagens do Maurício permitem isso, produzir histórias de aventuras, humor, terror e algumas mais fofas”, explica, sem revelar os gêneros, enredos e títulos dos próximos lançamentos. Depois da edição das quatro primeiras publicações da série, Gusman revela ter sido procurado por mais de 40 artistas se candidatando e até propondo ideias para possíveis novas edições.

“O projeto é vivo, não imaginávamos já lançar as continuações do Astronauta e da Turma da Mônica, e todos os livros são desenhos e até filmes em potencial”, avisa o editor. “Do jeito que estão, podem já ser animadas e ganhar versões com atores. Estamos à procura de parceiros”, complementa Maurício de Sousa. A empolgação da dupla reverbera nos seus autores. Para Danilo Beyruth, a referência mais lógica é com a fase áurea da Marvel Comics na década de 60, anos de criação de personagens como Homem-Aranha, Quarteto Fantástico e X-Men. “A MSP virou uma casa de ideais, como a Marvel era.”

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‘O Brasil tende a se tornar referência nos quadrinhos’, diz Mauricio de Sousa

Como avalia o ano de 2013 para os quadrinhos nacionais?
Foi sensacional, mas 2014 será ainda melhor e o seguinte ainda mais. O Brasil está se transformando e o mundo é outro, está na mãos dos criativos. Tá cheio de gente boa por aí, são novos valores e desenhistas e o País tende a se tornar referência para quadrinhos.

Já ocorreram releituras do trabalho do senhor, mas não nas proporções das Graphics e com tamanha liberdade, certo?
É uma estratégia de marketing. Se não fizermos isso, ficamos parados. Precisamos de sucessos renováveis e recicláveis. Fazer releituras faz parte da jogada e com elas você pode encontrar novos veios.

Quais as expectativas do senhor para essa segunda leva?
Não faz sentido existir “desexpectativa”. A gente já fareja o que pode ou não ser feito. O nosso público tem que ser internacional e de caráter familiar. E o trabalho, chocante e surpreendente. Ou então não é nosso.

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Grupo estuda criar revista mensal de graphics

“O mundo é muito grande e não estou sabendo administrar a demanda”, conta Maurício de Sousa. Com mais de 400 personagens, divididos em pelo menos 10 famílias, e 200 artistas trabalhando em seus estúdios, o quadrinista revela ainda estar descobrindo como administrar suas criações em um mercado cada vez mais internacional. Da China, por exemplo, ele diz receber pedidos crescentes de material do Chico Bento, tanto revistas quanto animações.

No entanto, uma das ideias que ele cogita junto com Sidney Gusman daria ainda mais espaço para os artistas independentes nacionais: uma revista mensal, composta por histórias de vários autores. Sem mais informações sobre o projeto, eles continuam abrindo espaço para criadores ainda sem acesso às massas. E também impressionando os seus convidados.

Morando na Itália desde 2011, o artista paraibano Shiko, autor da graphic novel com o Piteco, diz ter percebido interesse sobre a produção brasileira na Europa: “Tenho frequentado algumas feiras por aqui e conversado com alguns editores e existe uma curiosidade sobre o que está sendo feito no Brasil. Mês passado eu vi o Astronauta em destaque em uma loja de quadrinhos em Pisa. Não é fácil conseguir esse espaço, o mercado aqui é muito diversificado e são muitos títulos buscando um pedacinho.”

Um dos dois autores da HQ do Bidu, Eduardo Damasceno expõe o estado de choque em que ficou após receber o convite para produzir o material, um padrão entre os realizadores participantes. “Antes de terminar a ligação com o Sidney eu já estava pensando nos prazos, em como faríamos pra entregar as coisas, se daria tempo. Eu fiquei em silêncio um bom tempo depois do convite, pensando ao mesmo tempo: ‘isso tá acontecendo de verdade’ e ‘eu tô frito’.”

Coautora da continuação do álbum da Turma da Mônica, Lu Cafaggi conta que o choque não foi menor, mesmo participando pela segunda vez. “A gente tinha acabado de sair de uma sessão de autógrafos incrível e estávamos muito cansados e deslumbrados com tudo. Quando veio o convite, eu e meu irmão olhamos um pra cara do outro sem saber como reagir, pensamos que ele estivesse brincando. Acho que só fui me dar conta de que a coisa era séria no dia seguinte.”

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Entrevistas / HQ / Matérias

Outros Quadrinhos

Escrevi pro Estadão sobre o Outros Quadrinhos, projeto sensacional do Érico Assis e do Fabiano Denardin. De quebra, ainda entrevistei o norte-americano Eddie Pittman, do ótimo Planeta Ruiva, e o australiano GavinAung Than, responsável pelo espetacular Zen Pencils. Segue a matéria:

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Democracia quadrinista

Outros Quadrinhos assume missão de adaptar e divulgar de graça na web títulos inéditos

As alternativas propostas pelo site Outros Quadrinhos (outrosquadrinhos.com.br) não dizem respeito apenas à oferta grátis, em português, de obras estrangeiras independentes produzidas para a internet. Também são uma referência ao catálogo da página, uma reunião de títulos dos mais diferentes tipos, mas de origens antagônicas aos badalados comics e mangás que ocupam as bancas nacionais.

“Mesmo que seja um site que não dê retorno financeiro, tudo o que fazemos nele é com profissionalismo em mente. O serviço é feito por quatro fãs, mas mantendo o nível de qualidade que qualquer um de nós teria em um trabalho regular”, conta um dos editores, Fabiano Denardin. No ar desde junho, a página já reúne dez séries produzidas por autores de quatro nacionalidades. Todas disponíveis sem custos.

Com experiência em tradução e edição de gibis, os responsáveis pelo projeto justificam a empreitada pelo prazer de trabalhar com o gênero. “Gostamos de quadrinhos. ‘Desses’ quadrinhos. Sei que é bobo responder assim, mas, no fim, é isso”, diz Érico Assis, também responsável pela página.

Apesar da presença de anúncios publicitários no site, a dupla explica que o foco é a divulgação de materiais inéditos: “Dividimos qualquer lucro com os autores. O grande ganho tem que ser deles, em termos de públicos diferentes que vão atingir. Eles já publicam o material de forma gratuita. Só damos uma forcinha para chegar a mais gente”, explica Assis.

Um dos hits do site é a série Lápis Zen, do australiano Gavin Aung Than. Uma das mais curtidas e compartilhadas do universo dos quadrinhos virtuais, ela adapta discursos e textos famosos e históricos. Falas célebres de Steve Jobs, Albert Einstein e Dalai Lama ganharam versões coloridas com personagens cartunescos.

“Já pensava em traduzir meus quadrinhos para outras línguas, então eles me procuraram no momento certo. Fiquei empolgado, pois sabia que iria ajudar a divulgar meu trabalho no Brasil, e, como eles trabalham com quadrinhos, sabia que ia ficar ótimo”, conta Than em entrevista por e-mail ao Estado. Seu mais recente sucesso já está disponível em português: uma versão ilustrada de um discurso clássico de Bill Watterson, criador da série Calvin e Haroldo, feito em 1992 para uma turma de formandos de uma universidade dos EUA.

Por enquanto, além das obras do australiano, também podem ser lidas: a ficção científica juvenil Planeta Ruiva, a infantil Tenebrosas Fofuras, a existencial chilena Os Nós Ocultos, o terror Lovecraft Desaparecido, as fantasias Falso Positivo e Serena Rosa e a policial Murder Book. Também traduzida e adaptada pelo Outros Quadrinhos, o blockbuster The Private Eye, de Brian K. Vaughan e Marcos Marin, pode ser adquirida em panelsyndicate.com

Animador e roteirista da série Phineas e Ferb, da Disney, e autor de Planeta Ruiva, o norte-americano Eddie Pittman conta nunca ter esperado ver seus trabalho em outra língua. “Meu objetivo foi criar uma história atraente e torcer para que as pessoas chegassem a ela. Presumi que a audiência seria de pessoas que falam inglês”, conta o autor também por e-mail. Segundo Pittman, por enquanto, a edição de sua série no Outros Quadrinhos é a única disponível no mundo além da original.

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Autores comemoram maior alcance de obras e diálogo com leitores

-Desde fevereiro de 2012, o australiano Gavin Aung Than publica pelo menos um quadrinho por semana em seu site Zen Pencil (zenpencils.com). Com suas adaptações de citações de pessoas famosas, ele conseguiu audiência e virou notícia em jornais como o Washington Post. Sempre aberto a sugestões de leitores, diz estar no aguardo de e-mails de brasileiros com dicas de falas famosas em português.

Por que investir tanto tempo em uma obra e não ter nenhum retorno financeiro?

O modelo de quadrinhos online sempre foi compartilhar de graça, criar audiência e torcer por retorno financeiro no futuro. É assim que as coisas funcionam agora. Antes de tudo, é realmente necessário criar um público leitor e, para isso, é preciso conteúdo gratuito.

Como seleciona os textos que adapta?

A maioria das falas são enviadas pelos leitores. Não há qualquer método científico, pego uma que gosto ou que me faça pensar, rir ou chorar.

Você já adaptou algum texto vindo do Brasil?

Não, mas terei de fazer isso em breve! Preciso agradecer aos leitores brasileiros escolhendo a fala de um de seus famosos escritores e poetas para adaptar, sei que vocês têm vários.

Tem planos de transformar os quadrinhos em livro impresso?

Eu iria amar fazer uma coletânea um dia. Algumas editoras já demonstraram interesse, então vou manter os dedos cruzados.

Qual o diferencial de produzir algo exclusivamente para a web?

Tive algumas tiras publicadas em jornais e a única diferença é que eu precisava trabalhar com cores brilhantes para que elas saíssem ‘ok’ no papel barato de jornal. Na web, não há restrições de cores!

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-Com mais de 30 páginas disponíveis no Outros Quadrinhos, Planeta Ruiva é a primeira incursão de Eddie Pittman no mundo dos gibis virtuais. Além do trabalho na série Phineas e Ferb, ele possui sucessos da Disney no currículo, como Mulan (1998), Tarzan (1999) e Lilo & Stitch (2002). Segundo ele, a série disponível em português deve ganhar versão impressa nos EUA em 2014.

O que pensou quando foi convidado pelo Outros Quadrinhos?

Sou sempre cauteloso quando recebo e-mails com ideias e propostas de qualquer tipo. Na maioria das vezes, elas não têm a capacidade de levar adiante esses projetos. Mas, quando vi a lista de realizações dos dois e o lindo trabalho que haviam feito em algumas páginas de Planeta Ruiva, tive certeza de que era uma boa oportunidade.

Por que investir tanto tempo em uma obra e não ter nenhum retorno financeiro?

É muito barato publicar na internet. Poderia ter feito à moda antiga: gastar anos escrevendo e desenhando depois do trabalho e nos finais de semana e arriscar a procura por uma editora disposta a publicar. Com a internet, tive audiência a partir do primeiro dia. Claro, não era grande, mas, com o tempo, alcançou 2 milhões de page views. Não acho que teria um público tão grande como um estreante.

Qual o diferencial de produzir algo exclusivamente para a web?

A diferença maior que encontrei foi a influência de uma “audiência ao vivo”. Em mídias impressas e animações, há um enorme distanciamento entre o conceito e a versão final do trabalho. Em Phineas e Ferb, da ideia inicial ao episódio pode levar até um ano. A cada página que publico de Planeta Ruiva, já tenho resposta de leitores. Acho que é o mais próximo que um quadrinista pode ter de uma performance ao vivo.

Cinema / Matérias

Pacific Rim – Círculo de Fogo

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Escrevi sobre Pacific Rim (Círculo de Fogo) pra matéria de capa de hoje (9/8)  do Divirta-se, do Estadão. Já disse aos montes do filme por aqui, mas reitero: é um dos grandes de 2013. Além da crítica do filme, falo sobre algumas influências do del Toro e a filmografia do diretor. O design fodão ficou por conta do André, o responsável pelo visual do Vitralizado e co-autor de um dos meus trabalhos preferidos no Estadão (nosso especial sobre o terceiro Batman do Cristopher Nolan). Ele postou um making-of da nossa produção no Flickr, confere. Segue a matéria – só clicar nas imagens pra ficarem grandonas:

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HQ / Matérias

Relish: My Life in the Kitchen

A primeira vez que ouvi falar do trabalho da Lucy Knisley foi quando ela resumiu todos os Harry Potter em oito painéis – até usei a ideia de inspiração pra resumir os sete filmes prévios ao último da série em 50 tuítes em uma matéria pro Estadão, na época do lançamento de As Relíquias da Morte: Parte 2. Daí que o mais recente quadrinho dela fez mó barulho lá fora e ficou no top 10 da Amazon de melhores gibis do primeiro semestre de 2013. Escrevi sobre a hq pra edição de hoje do Paladar, o caderno de gastronomia do Estadão. Saca só:

Memórias e comidas em quadrinhos

Um livro de receitas e memórias gastronômicas já fugiria ao padrão só por comparar o sabor de ostras frescas ao do metal do robô assassino interpretado por Arnold Schwarzenegger em O Exterminador do Futuro (1984). Mas a ousadia de Lucy Knisley foi além da analogia. Seu Relish: My Life in the Kitchen é um gibi.

Lançado em abril pela editora norte-americana First Second (e inédito no Brasil), está na lista de dez melhores quadrinhos do primeiro semestre de 2013 da loja virtual Amazon. É o quarto colocado, atrás apenas de coletâneas dos heróis das editoras Marvel e DC.

Conhecida no meio independente por seus álbuns sobre romances e viagens, Lucy conta em Relish sua formação como artista criada por uma mãe cozinheira e um pai obcecado pela gastronomia. A mãe da autora foi responsável pela seção de queijos da primeira loja da Dean & DeLuca em Nova York, no Soho, mas depois do divórcio levou a filha para viver em uma fazenda. A vida no interior influenciou o culto da autora por ingredientes naturais, sem diminuir a paixão por junkie food. O livro tem uma passagem em que ela conta como um ataque de gansos, logo em sua chegada à fazenda, resultou no prazer pelo consumo de foie gras sem peso na consciência.

Já nas férias, o pai levava Lucy em viagens internacionais com itinerário focado nos melhores restaurantes europeus.

O gibi tem 12 capítulos e, no final de cada um, há receitas que marcaram a vida da autora – a infância, seus passeios e os anos na faculdade de artes de Chicago. São biscoitos, pães, sushis e dicas sobre ingredientes.

O livro foi aclamado pelo jornal inglês The Independent. Para o autor da resenha, Relish é “como se Toast, de Nigel Slater, fosse redesenhado por uma herdeira de Wes Anderson e Lena Dunham”, escreveu em referência ao chef inglês, ao cineasta indie e à musa hipster de Girls.

HQ / Matérias

Antes de Watchmen

Escrevi pro Estadão de hoje sobre o lançamento de Antes de Watchmen no Brasil. Lembrei de algumas polêmicas do Alan Moore e conversei com o Len Wein, editor original de Watchmen e responsável pela série do Ozymandias nesse prólogo da hq. Olha aí:

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Prévia do fim do mundo em português

Prólogo de Watchmen chega ao País após polêmicas com Alan Moore

Imagine que no fim dos anos 60 os detentores dos direitos de Cidadão Kane resolvessem lançar uma produção expandindo o universo criado por Orson Welles no filme de 1941. Nessa realidade fictícia, a nova obra seria realizada por alguns dos colaboradores do diretor do longa original e Welles iniciaria uma campanha pública pedindo que os admiradores de seu trabalho passassem longe dos cinemas que exibissem o filme.

Segundo parâmetros de muitos fãs de histórias em quadrinhos de super-heróis, o equivalente de Cidadão Kane para o gênero é Watchmen. Lançado em 1986 pela DC Comics, o gibi ganhou uma continuação no ano passado, com texto de pessoas ligadas à HQ original e oposição enfática e pública do inglês Alan Moore – autor da série lançada há 27 anos e figura tão emblemática para a narrativa sequencial quanto Welles para o cinema.

Com previsão de lançamento nas bancas brasileiras para o início de junho, Antes de Watchmen terá uma versão nacional dividida em oito encadernados mensais, cada um focado no passado de um dos personagens concebidos por Moore. O primeiro volume reúne a série protagonizada pelo Coruja e custará R$ 12,90. Em seguida, virá a coletânea com as quatro edições americanas dedicadas à heroína Espectral.

“Discordo da opinião de Alan sobre o projeto, mas ele está no direito dele”, disse o editor de Watchmen, o norte-americano Len Wein, em entrevista por e-mail ao Estado. Na nova encarnação da série, ambientada anos antes dos eventos da obra de 1986, Wein ficou encarregado do roteiro das histórias protagonizadas pelo mais controverso personagem criado por Moore em sua HQ, Ozymandias.

Ambientada em 1986, mesmo ano de seu lançamento, Watchmen mostrou um grupo de super-heróis aposentados, no aguardo de uma possível catástrofe nuclear e sendo vitimados por um misterioso assassino dos ex-vigilantes. Com algumas alterações, principalmente em seu final, a história foi adaptada com fidelidade para o cinema em 2009, pelo cineasta Zack Snyder.

Crítico ferrenho da indústria de quadrinhos, Moore deu vários depoimentos às vésperas do lançamento de Antes de Watchmen nos Estados Unidos. “O que sinto vai além da raiva. É quase tragicômico. É comércio feito em cima de arte. Tenho orgulho de Watchmen, mas a série está cercada por tantas memórias tóxicas, prefiro não lembrar disso. Não tenho nenhuma cópia do álbum em casa.”

Ao contrário de Moore, o desenhista de Watchmen, Dave Gibbons, aprovou o novo projeto da DC, apesar de ter evitado comentar a obra e as polêmicas relacionadas a ela. “Eu poderia procurar advogados e entrar em um processo que duraria décadas, mas não estou atrás de dinheiro. Trata-se da dignidade e da integridade do meu trabalho”, ressaltou Moore em entrevista ao blog Co. Create (www.fastcocreate.com).

Apesar do posicionamento de Alan Moore e de algumas lojas especializadas em histórias em quadrinhos dos Estados Unidos e da Inglaterra terem se recusado a vender Antes de Watchmen, os editores nacionais têm altas expectativas em relação à série no Brasil.

“Quando anunciaram a publicação lá fora, já fomos cobrados por fãs daqui”, conta o editor sênior da DC Comics no Brasil, Bernardo Santana. De acordo com ele, responsável pela versão brasileira do prólogo de Watchmen, a cobrança do público só aumenta a responsabilidade ao adaptar a HQ: “São muitos detalhes e referências à série original”.

Para quem não leu o trabalho de Moore, ele está disponível em livrarias brasileiras em um modelo encadernado por R$ 110. Questionado sobre as causas da longevidade do trabalho de Moore e Gibbons e as repercussões que ele ainda provoca quase 30 anos após seu lançamento, Len Wein é sucinto: “Está em sua tremenda qualidade, naturalmente”.

Autor em oposição ao sistema e colegas de profissão

A polêmica envolvendo Alan Moore e Antes de Watchmen não é a primeira entre o autor e a DC Comics. Nem mesmo a primeira relacionada à sua série sobre os heróis do mundo real.

Na adaptação para o cinema dirigida por Zack Snyder e lançada em 2009, Moore proibiu que seu nome fosse creditado na produção. Em V de Vingança, o mesmo ocorrido: a versão dirigida por James McTeigue em 2005, também publicada pela DC, saiu sem o nome de Moore por exigência do escritor.

Nos quadrinhos, ele abandonou a DC Comics após desentendimentos sobre os direitos de várias de suas criações. Após encerrar o selo próprio que teve na Image em 2008, prometeu nunca mais voltar a escrever para uma grande editora.

O escritor também já fez duras críticas a vários de seus colegas. Autor de obras como O Cavaleiro das Trevas (1986), A Queda de Murdock (1986) e a série Sin City, o quadrinista Frank Miller definiu como palhaços, ladrões e estupradores os manifestantes que ocuparam Wall Street no segundo semestre de 2011.

Em solidariedade aos manifestantes, Moore deu entrevistas definindo o trabalho de Miller como “misógino, homofóbico e fora de propósito”.

Do Monstro do Pântano a Ozymandias

Apesar da presença de grandes nomes dos quadrinhos em Antes de Watchmen – como Brian Azzarello (100 Balas), Darwyn Cooke (DC: A Nova Fronteira) e J. Michael Straczynski (Homem-Aranha) – nenhum chama mais atenção do que Len Wein.

Editor de Watchmen em 1986, Wein tem seu passado ligado ao início da carreira de Moore nos Estados Unidos graças ao Monstro do Pântano. Criado em julho de 1971 por Wein e Berni Wrightson, o personagem estava em baixa quando Moore assumiu a série em 1983.

Já nas bancas, também pela Panini Comics, o primeiro arco de histórias do Monstro do Pântano foi republicado em um encadernado nacional. Clássicos DC: Monstro do Pântano: Raízes – Volume 1 custa R$ 19,90. As histórias, assinadas por Wein e de teor adulto, foram precursoras do selo Vertigo, linha adulta da DC inaugurada em 1993. Para outubro está previsto o segundo volume da coleção.

Quase quatro décadas após entregar sua cria mais popular a Alan Moore, os papéis inverteram-se e ele assina o roteiro de uma personalidade concebida por Alan Moore.

Tido como vilão por alguns dos personagens e leitores de Watchmen e salvador da humanidade por outros tantos, Ozymandias talvez seja a criação mais rica de Moore em Watchmen. Sua revelações e ações nos capítulos finais da série estão muito relacionadas ao culto gerado em torno da história em quadrinhos.

“Foi um desafio, como andar na corda bamba”, diz Wein sobre escrever o roteiro protagonizada por Adrian Veidt, o Ozymandias (ainda sem mês definido para publicação no Brasil). “Há a história ditada por Veidt e, obviamente, outra muito diferente de acordo com sua ações reais”, explica sobre o polêmico personagem concebido por Moore.

A arte de Antes de Watchmen: Ozymandias ficou por conta de Jae Lee, artista lembrado pelo traço sombrio e pouco semelhante ao estilo padrão de super-heróis. “Cada edição era uma revelação: eu enviava um texto detalhado explicando e era sempre surpreendido com seu retorno”, acrescenta Wein.

HQ / Matérias

HQBR21

Conversei com alguns artistas pra escrever uma matéria sobre a HQBR21 pro Caderno 2 do Estadão de hoje (15/5) e o Divirta-se de 6ª (10/5). Tá sabendo da exposição? Reúne várias artes originais de quadrinistas nacionais contemporâneos lá Sesc Belenzinho, aqui em São Paulo, a partir de amanhã. A ilustração aí de cima é de Monstros, do Gustavo Duarte, e também vai estar por lá.

HQBR211Exposição reúne autores nacionais

Sesc Belenzinho abriga artes originais de quadrinistas brasileiros contemporâneos feitas em diferentes formatos

Nem mesmo alguns dos protagonistas da exposição HQBR21 – O Quadrinho Brasileiro do Novo Século têm consciência plena do vasto e atípico cenário do qual fazem parte. A maior retrospectiva já realizada sobre a produção nacional contemporânea de histórias em quadrinhos adultas ocupa, a partir de amanhã, o galpão do Sesc Belenzinho e revela, para leigos e especialistas, uma cena inédita.

“É uma história praticamente desconhecida do grande público”, analisa o curador da mostra e professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Paulo Ramos. Segundo ele, a reunião de obras originais de artistas dos mais diversos estilos expõe a construção de um novo espaço para o quadrinho do País.

Com entrada gratuita e funcionando entre 10 h e 21 h, até o dia 11 de agosto, a HQBR21 foi dividida em três eixos: narrativas, independentes e webtiras. “Eles sintetizam bem esse atual momento, dividindo parte nos álbuns, parte da autopublicação, parte na internet”, explica Ramos.

“É um marco”, resume Rafael Coutinho, autor de Cachalote – publicada no Brasil pela Companhia das Letras e na França pela Cambourakis –, que terá algumas de suas páginas expostas a partir de amanhã. “Existe uma revolução silenciosa, realizada por pessoas que compartilham de uma mesma forma de pensar quadrinhos e estarão juntas pela primeira vez”, diz ainda Coutinho.

Autor da premiada Bando de Dois (Zarabatana Books), Danilo Beyruth acredita que a exposição apresenta um cenário inédito no País: “É possível ser amador e também um autor profissional no Brasil. Há gente fazendo e também leitores, é só prestar atenção”.

Sem regras. De acordo com os responsáveis pelo evento, a separação entre as formas de publicação foi pensada como uma solução didática para a explicação do cenário em vigência. Para eles, os três eixos apresentados não representam uma rota única iniciada em tiras online que culminariam em publicações impressas com muitas páginas.

“Há autores de grandes editoras que migraram para o circuito independente e vice-versa. O que há de diferente, no entanto, é o fato da internet ter conseguido destacar bem as produções curtas, rápidas de ler, caso específico das tiras. Hoje, as principais estão nos sites e blogs, e não mais nos cadernos de cultura dos jornais”, interpreta Paulo Ramos.

Em acordo com o recorte feito para a mostra, alguns dos autores com trabalhos emprestados ressaltam a flexibilidade inerente ao meio. “Eles ficaram em dúvida onde eu entraria: fiz trabalhos independentes, publiquei por várias editoras e alguma coisa online. As três vias funcionam”, conta Gustavo Duarte, com quatro páginas de sua Monstros no evento.

Para Rafael Coutinho, estar presente em uma categoria não significa ser aquela a sua via de publicação preponderante. “Estou nas três… e em mais umas cinco que não foram relacionadas”, brinca o autor.

Outra possibilidade para o público da exposição será a de compreender a construção de uma narrativa em quadrinhos. Uma página concebida por Lourenço Mutarelli será reproduzida em suas quatro camadas, do esboço à arte final, passando pela colorização e inserção dos textos. E nos espaços finais da mostra, os livros destacados estarão disponíveis para leitura.

Ainda no quadro da exposição, estão marcados outros dois eventos no Sesc Belenzinho. Amanhã, às 20 h, na HQBR21, o quadrinista Marcello Quintanilha, autor de Almas Públicas e Sábado de Meus Amores (ambos da Conrad), conversa sobre sua trajetória profissional. No dia 23, às 21 h, o grupo La Mínima encena A Noite dos Palhaços Mudos, peça baseada numa obra do quadrinista Laerte.

Hermanos. Apesar de toda a efervescência da realidade nacional, o mercado local ainda é distante da indústria norte-americana de HQs, de cifras milionárias mesmo em suas editoras mais alternativas. No entanto, a produção brasileira reflete muito do que ocorre na Argentina.

Autor do livro Bienvenido (Zarabatana Books), sobre os quadrinhos publicados no país vizinho, Paulo Ramos revela estar criando uma nova obra exatamente sobre as semelhanças entre o que é feito no Brasil e a produção natural da nação mais ao sul da América.

Com o título provisório de Nosotros: Uma Comparação Entre os Quadrinhos Brasileiros e as Historietas Argentinas, o livro tem previsão de lançamento para o primeiro semestre de 2014, também pela Zarabatana, mas ainda sem preço definido.

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Ao quadrado

Quem lê o Divirta-se já sabe: há um boom no mercado de histórias em quadrinhos produzidas no Brasil. Ele já é vasto o bastante para ter todo um segmento dedicado aos gibis adultos. Segmento que ganha, a partir de 5ª (16), uma grande exposição no Sesc Belenzinho.

A HQBR21 abriga, pela primeira vez sob um mesmo teto, artes originais dos protagonistas desta cena. Dividida nas categorias novelas gráficas, produções independentes e gibis digitais, a mostra exibe trabalhos de artistas bem conhecidos – como Lourenço Mutarelli, Rafael Coutinho, João Montanaro e Gustavo Duarte – além de obras de coletivos independentes de todo o País e outras antes só vistas na internet.

“É algo que ainda não havia sido feito e é uma história praticamente desconhecida do grande público”, diz Paulo Ramos, curador da mostra e professor do departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo. Segundo ele, os autores escolhidos são responsáveis por construir um novo espaço para o quadrinho adulto brasileiro.

Enquanto a exposição não abre, revisite nossas páginas sobre o tema em bit.ly/DivHQ.