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PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #11: Estrutura, experiência de leitura e construção narrativa]

Estamos às vésperas do encerramento da campanha de financiamento coletivo do álbum PARAFUSO ZERO – Expansão, próxima HQ do quadrinista Jão e na qual estou trabalhando no papel de editor. Apesar de ainda estarmos distantes do montante pedido para que o quadrinho seja impresso, estamos confiantes no nosso sucesso. Ao longo da semana passada o número de apoiadores cresceu de forma impressionante e só precisamos manter o ritmo para alcançarmos os nossos 100%. Então fica o aviso: você que deixou seu apoio para a última hora, chegou o momento de investir no projeto!

Enquanto isso, damos continuidade à série PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores, na qual Jão fala sobre o desenvolvimento de seu próximo quadrinho. Na 11ª atualização da série, o artista fala sobre a estrutura do álbum que está construindo e dá detalhes inéditos do conteúdo que os investidores da campanha terão acesso assim que o álbum for impresso. De bônus no post de hoje, divulgo mais uma leva do desafio autoimposto por Jão de criar um superser para cada apoiador da campanha do Catarse. Quer ter o seu superser? Apoie o projeto! Com vocês, Jão e a estrutura de PARAFUSO ZERO – Expansão:

PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #11: Estrutura, experiência de leitura e construção narrativa]

Estrutura e tempo de leitura

“A ideia da estrutura da revista é que ela tenha uma história inicial, uma espécie de prólogo, e também um epílogo. A proposta do prólogo é mostrar um pouco da origem desse universo dos superseres. O recheio mesmo do álbum apresenta a história que divulgamos na sinopse, a história principal, na qual estou trabalhando no cenário dela atualmente. É essa história principal que vamos nos restringir a um único cenário. Ultimamente eu tenho pensado em formas diferentes de fazer essa repetição de cenário. Talvez eu não me limite a um gride tão certinho e fixo, quero brincar com isso, talvez mostrar uma outra perspectiva, mas sempre dentro de uma restrição, de um limite autoimposto.

Para além dessa história principal, apresentada na sinopse, a ideia é inserir histórias curtinhas que mostrem outros momentos, outros lugares do mundo desses superseres. A função dessas histórias paralelas será de incluir todos esses elementos que apresentam o que é esse universo. São nelas que faremos a abordagem pós-cyberpunk, do mundo dominado pelos superseres e como ele influencia a vida dos demais cidadãos dessa cidade. A função delas é apresentar um panorama desse universo.

Pode parecer que um álbum de 68 páginas será uma leitura rápida, mas PARAFUSO ZERO – Expansão será a minha obra que vai exigir mais do leitor. Provavelmente não será uma leitura tão rápida. Meu objetivo é que cada página conte uma história dentro da trama principal. O leitor vai ter que ficar muito atento ao que está acontecendo, aos elementos que estão sendo colocados ali. A ideia é que seja um desafio meu para quem for ler o livro. Temos conversado muito sobre isso na edição do quadrinho e o meu plano, não apenas por conta do formato, é propor uma experiência de leitura que eu, por exemplo, não tive. Uma proposta muito parecida com o que o Chris Ware faz, ele é a referência mais próxima do que estou me propondo a fazer. E não quero me limitar a isso, quero pelo menos tentar algo que não tenha visto até hoje – e espero que os leitores também não tenham visto, quero que seja algo novo para eles também.

Descoberta de poderes

“A história da introdução vai mostrar um superser apenas no final dela. Ela mostra as pessoas comuns desse mundo, será uma história de descoberta desses poderes. Eu tenho pirado muito nessa ideia de construção de um universo: como eu poderia fazer isso? Como posso fazer isso de uma forma diferente?

Esse prólogo será uma história fechada, com início, meio e fim. Ela também distancia-se um pouco da trama principal e do cenário maior do álbum, com superseres e batalhas. É uma história diferente. Ela também é diferente como experiência de leitura quando comparada à principal. Então o livro será composto por mais de uma história, todas fechadas, mas também compondo uma história maior”.

O papel do leitor

“O leitor terá um papel importante nessa experiência que eu estou propondo, na construção da história junto comigo. Alguns elementos da história e desse universo eu não pretendo fechar, para que eles sejam construídos também pelo leitor. Eu quero que o leitor use a imaginação dele. Isso vem desde a minha ideia original, quando comecei a conceber esse mundo, buscando um diálogo tanto com o universo dos games quanto dos jogos de RPG. São pontas que eu quero unir, leitores como jogadores, completando, construindo e imaginando algumas ideias que vou deixar em aberto.

Eu acho que faltam obras que inspirem pessoas e não entreguem tudo mastigado. Gosto da posição que o meu trabalho tem. Isso obriga que as pessoas leiam e construam a história junto comigo. Eu sempre procuro por obras desse tipo, seja filme, literatura ou quadrinhos. Procuro por obras que me estimulem a construir uma narrativa, a pensar mesmo. É isso que eu quero trazer para a PARAFUSO ZERO – Expansão”.

Desdobramentos

“Eu tenho facilidade para guardar as minhas ideias e para esse tipo de construção criativa em que estou trabalhando. Esqueço facilmente de algumas coisas, mas outras eu lembro pro resto da vida. Algumas pessoas abrem um documento do Word e escrevem suas ideias, eu já tentei fazer isso, mas não funcionou tão bem como quando a coisa tá na minha cabeça. Agora, por exemplo, eu tô 24 horas por dia ligado nesse projeto. Eu posso estar fazendo qualquer outra coisa, cozinhando, assistindo TV ou dormindo e a minha cabeça tá ligada em função dele.

Eu até tenho um material muito mais extenso do que será possível colocar no álbum. Quero inclusive que esse álbum tenha alguns desdobramentos por conta disso, são muitas histórias e situação já construídas. Atualmente eu tenho tentado não me prender tanto à construção narrativa da forma tradicional. Tenho pensado em construção narrativa de situações, quase como esquetes.

Eu tenho várias histórias curtas e quando fomos escolher o que entra no livro, acho que teremos uma gama muito grande, mas isso aí eu deixo pro editor (risos). O processo é caótico, mas a minha memória, em termos de construção, funciona bem, ela está sempre ligada e atenta ao mesmo tempo. Eu assisto alguma coisa rápida na TV, seja uma série ou um filme, e isso já vira uma história na minha cabeça que não vai desaparecer.

Aliás, uma coisa que eu não tenho é bloqueio criativo. Já fiquei travado em alguma história por não saber como sair de um labirinto, dentro da construção narrativa. Já cheguei em alguns becos sem saída e fiquei dias e meses, em algumas histórias até anos, no mesmo lugar, mas bloqueio criativo em termos de ‘não consigo fazer nada’, eu não tenho. Não é algo que faz parte de mim, inclusive as ideias são muitas e não tenho braço pra fazê-las”.

Promessas

“Eu vou manter isso que coloquei no Catarse em termos de sinopse, não quero fugir disso. A história é aquilo ali, é aquela sinopse. Mas em termos do que começamos a conversar lá em março, em termos do que fazer e como contar essa história, tudo pode mudar completamente (risos). Aquilo que já apresentamos e que foi divulgado como sinopse e conceito do álbum vai estar lá, não estou enganando ninguém. A pessoa não vai comprar um livro e encontrar algo diferente do que foi prometido, mas a forma como eu vou contar a história é que não prometi pra ninguém, isso está em aberto e será transformado enquanto eu estiver fazendo.

Ao começar a fazer a esquina na qual será ambientada a história principal vieram novas ideias de como usá-la e de como contar essa história a partir desse cenário. É algo que vem acontecendo no desenvolvimentos das histórias desse álbum e que faz muito sentido dentro dessa proposta de ser a HQ de super-heróis mais estranha já feita. Esse processo em aberto é algo que gosto de compartilhar, como estamos fazendo nessa série sobre os bastidores do livro e que quero continuar quando as coisas começarem a acontecer mesmo, quando o livro estiver sendo finalizado. Imagino que as pessoas que apoiaram no Catarse também tenham interesse em ver como vai se desdobrar essa narrativa”.

BÔNUS:

CONTINUA…

ANTERIORMENTE:

>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #10: Catálogo de personagens];
>>PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #9: Facebook, drogas psicodélicas e algoritmos falhos];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #8: Viabilidade, encontros e trocas];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #7: Chris Ware, Elza Soares, Emicida e uma teia paranóica de referências];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #6: Akira, Wally e paralelismos distópicos];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #5: Proporções extremas e a insignificância humana no Universo];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #4: A origem do ‘Formato Jão’];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #3: Um sonho com Moebius];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #2: Baixo Centro, Flores e texto];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #1: origens, restrições e OuBaPo].

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PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #9: Facebook, drogas psicodélicas e algoritmos falhos]

Faltam 18 dias para o fim da campanha de financiamento coletivo do álbum PARAFUSO ZERO – Expansão, próxima HQ do artista Jão e na qual estou trabalhando no papel de editor. Na nona atualização da série de posts sobre os bastidores do desenvolvimento da obra, o quadrinista fala sobre como as redes sociais foram a principal fonte de inspiração para o surgimento do quadrinho e como a difusão de discursos extremistas será representada na busca incessante dos personagens por mais poderes. Recomendo a leitura dos capítulos prévios da série PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores e também deixo o link pra uma conferida na página do álbum no Catarse.

No post de hoje também incluo um bônus em vídeo, a palestra de Jão na Bienal de Quadrinhos de Curitiba sobre a representação da cidade em seus trabalhos e publicações de outros quadrinistas com uma forte ambientação urbana. A seguir, o depoimento de Jão e o vídeo do evento:

PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #9: Facebook, drogas psicodélicas e algoritmos falhos]

Facebook e drogas psicodélicas

“A proposta da PARAFUSO ZERO – Expansão é de conversar com a Parafuso 0, lançada em 2016, e tratar de novos temas. Questões como linchamento e da justiça com as próprias mãos, por exemplos, são tópicos presentes nesse meu universo de superseres que serão mantidos nessa próxima obra. No entanto, agora eu me propus a falar desses temas e também da propagação de discursos extremistas nas redes sociais. Como seria um mundo no qual as pessoas têm poder para propagar todo e qualquer discurso abertamente? Eu construí esse universo de supereseres a partir desse questionamento, impregnado no Facebook e nas redes sociais em geral.

Eu também queria construir uma estrutura de história que funcionasse como a própria estrutura do Facebook. Existem mecanismos que estarão presentes na história que são característicos dessa rede social. Por exemplo: censurar certos temas e deixar que certos conteúdos sejam mais explícitos ou não. Em termos de representação gráfica, a ideia é usar os botões de reações de Facebook para expor os sentimentos de cada personagem. O plano é fazer uso de conceitos de infografismo pra apresentar as reações e sentimentos dos personagens. Isso já veio colado na proposta de fazer esse álbum novo.

A maior parte dessas ideias eu vou abordar dentro desse clube de batalhas, clube de lutas, frequentado pelos personagens. Também vou tratar desses temas a partir de uma droga psicodélica que estará presente na história. Essa viagem e toda a psicodelia do álbum, para além das cores, será focado para tratar desses temas, do caos das redes sociais. Esse é o principal foco”.

Algoritmos falhos

“Os algoritmos que pensam a estrutura do Facebook e determinam o que irá chegar pra quem, qual conteúdo é mais interessante para cada pessoa, o que pode ser falado e mostrado ou não. A ideia é representar isso tudo como máquinas de combate que atuam dentro dessa cidade dos superseres. Na sinopse já apresentamos essa ideia, da existência de uma máquina de combate que existe para coordenar esse clube ilegal de batalhas.

Não acho que é spoiler falar que essas máquinas não funcionam tão bem, assim como o algoritmo do Facebook. Isso tudo vai gerar algumas circunstâncias na história que vão demonstrar essa falha e as consequências disso.

Li algumas matérias interessantes sobre esses temas nas revistas Piauí e Rolling Stone, falando sobre esses mecanismos e a dinâmica do Facebook. É algo que tenho estudado e sobre o que acho que vale discutirmos até por conta do próprio momento do país. O álbum será lançado depois das eleições, mas não deixará de ser uma forma de avaliação de como as redes sociais influenciaram esse cenário. Eu quero pesquisar isso e tentar fazer esses conceitos estarem presentes no álbum quando ele for lançado”.

Decadência cabulosa

“Vendo o que as redes sociais geraram e fomentaram, como a eleição do Trump e o Brexit, dá pra dizer que os principais frutos dela não acrescentaram para a sociedade. Nós continuamos usando as redes e, inclusive, falamos mal delas nelas mesmas, mas hoje em dia ela não fazem bem. Há muita coisa que deu errado, principalmente a propagação de fake news e a difusão de absurdos, como os discursos de ódio do Trump e do Bolsonaro e de pensamos nazistas e de extrema direita.

Eu sempre lembro daquela história da inteligência artificial criada pela Microsoft, que acompanhava o Twitter e acabou construindo discursos nazistas. Não demoraram pra desligar. Isso tudo é reflexo da forma como o mundo vem funcionado. Me parece muito que caminhamos para uma desilusão profunda e uma decadência cabulosa em decorrência desses tipos de discursos extremistas. É  fundamental que o mundo não seja guiado por esse tipo de pensamento, ainda assim as redes sociais fazem o contrário: elas legitimam e tornam viáveis esses discursos.

Esse universo de superseres foi construído em torno dessas questões relacionadas às redes sociais. Eu não sei se teria chegado a essas ideias se o Facebook não existisse e todas essas bizarrices relacionadas a ele não estivessem acontecendo. Eu relaciono muito o conceito de super-heróis e de superpoderes à voz que o Facebook dá às pessoas”.

BÔNUS:

CONTINUA…

ANTERIORMENTE:

>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #8: Viabilidade, encontros e trocas];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #7: Chris Ware, Elza Soares, Emicida e uma teia paranóica de referências];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #6: Akira, Wally e paralelismos distópicos];
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>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #4: A origem do ‘Formato Jão’];
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>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #2: Baixo Centro, Flores e texto];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #1: origens, restrições e OuBaPo].

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PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #8: Viabilidade, encontros e trocas]

Faltam 25 dias para o término da campanha de financiamento coletivo do álbum PARAFUSO ZERO – Expansão, projeto de autoria do quadrinista Jão no qual estou trabalhando como editor. Da meta de R$ 28.500 estabelecida para a impressão do livro, foram reunidos R$ 7.779 até o momento, pouco mais de 27% do objetivo final. A produção do livro e a divulgação da campanha continuam a mil, mas o quadrinho só será impresso caso o montante pedido seja alcançado, então chegou a hora de você apoiar.

Ao longo das últimas semanas, na série PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores, Jão tem falado sobre o desenvolvimento de seu próximo projeto, suas inspirações, as técnicas utilizadas por ele e seus planos para o quadrinho. No post de hoje, ele comenta a decisão de optar por uma campanha de financiamento coletivo, fala da origem da editora Pulo (empresa do autor com a jornalista Helen Murta), trata da equipe com a qual está trabalhando e enfatiza as parcerias e encontros que pretende desenvolver com seu trabalho. Ó:

PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #8: Viabilidade, encontros e trocas]

Viabilidade e equipe

“Eu optei pelo financiamento coletivo para tornar a publicação viável. Algumas peculiaridades da PARAFUSO ZERO – Expansão a fazem difícil de ser publicada por uma outra editora. Como eu não tenho os recursos pra bancar a impressão, caso o projeto não seja financiado, ele não será realizado. Eu não vejo outra forma de fazê-lo.

A decisão de buscar o financiamento coletivo também diz respeito à minha equipe. Se eu fosse publicar o livro por uma outra editora, eu teria um outro editor e eu queria que o livro fosse editado pelo Ramon Vitral. E há toda uma equipe que eu preciso para poder administrar essa produção comigo.

A Helen, minha sócia na editora Pulo, dirige a campanha e a comunicação do projeto. Ela está fazendo esse trabalho durante a campanha, mas continuará nessa função quando o livro sair. Já existe toda uma estratégia de comunicação desenvolvida por ela. Também tem o Matheus Ferreira, autor do design do logotipo. Ele é uma pessoa muito próxima e já explicou nessa mesma série de bastidores o ponto de vista dele em relação ao projeto.

Há todas essas pessoas ao meu redor. Seria muito difícil que uma editora me desse essas condições e bancasse toda essa equipe. Não se trata apenas de pegar uma história em quadrinhos minha, levar em uma editora e um possível editor gostar e imprimir. Não é só isso. Esse livro não existirá de outra forma além da forma em que eu estou trabalhando agora. Aliás, em que todos nós estamos trabalhando agora. Essa é a principal motivação pelo financiamento coletivo e também a grande diferença de optar por publicar por uma editora tradicional.

Sem contar alguns aspectos relacionados a liberdade criativa. A ideia é que essa ‘expansão’ mencionada no livro continue a acontecer mesmo depois do lançamento. Seja em forma de zine ou em outros formatos de publicação. Por uma editora eu não sei se teria tanta liberdade para desenvolver esse projeto da forma como eu gostaria”. 

Pulo e parcerias

“A Pulo foi criada em 2014, pela Helen Murta, minha sócia. A Pulo surge como uma empresa de comunicação e assessoria de imprensa. Depois o projeto começou a dar uma guinada pra área de produção cultural. Por ela criamos o festival Traço – Música e Desenhos Ao Vivo e a feira Faísca, sempre mantendo esse foco na comunicação e nas artes gráficas. Em 2016, quando eu lancei a PARAFUSO 0, a Pulo se torna também uma editora. Eu queria montar uma editora independente que pudesse me dar pequenas liberdades, para publicar as coisas em que eu piro, da forma como eu piro, sem ficar muito preso a regras de mercado.

Na editora somos eu e a Helen e estamos com o plano de ampliar o catálogo. O foco atual é no álbum novo, PARAFUSO ZERO – Expansão, mas a Helen também tem planos de escrever e publicar algumas coisas. Também queremos fazer convites para publicar outros autores. Recentemente, na Bienal de Quadrinhos de Curitiba, fizemos uma parceria com a Entrecampo, uma outra editora aqui de Belo Horizonte que também é um escritório de design e uma oficina gráfica. Eles imprimiram o meu zine mais recente, Hora H. Ele foi uma nova parceria da Pulo com a Entrecampo.

Então a ideia é essa: sempre juntar forças com parceiros para poder ir publicando e viabilizando os trabalhos, algo muito parecido com o financiamento coletivo. A ideia é sempre ir fazendo com outras pessoas, pessoas que acreditam nos projetos”.

Proximidade e encontros

“Eu acredito muito na relação entre autores e leitores. Acho que é isso que o financiamento coletivo acrescenta e é o que eu tento fazer no meu trabalho. Grandes lojas, estabelecimentos de rede distanciam essa mesma relação, é uma intermediação institucionalizada. Por exemplo, eu vendendo o meu quadrinho para um leitor: vou pegar o exemplar, vou assinar, vou levar ao correio e vou enviar pra ele. Depois eu tenho um retorno direto e muito próximo. No caso dessas lojas, não existe isso.

Por meio dessas grandes redes, de modo geral, o autor nem fica sabendo quem tá comprando o livro e porque tá comprando o livro. Acho que isso distancia as pessoas. O financiamento coletivo é o contrário disso. As pessoas vão comprar como se fosse uma pré-venda, eu vou pegar livro por livro e assinarei cada um. Se alguém quiser dar de presente, é só me avisar e eu vou mandar com a assinatura pra pessoa que ela quiser. Os bookplates, por exemplo, serão numerados e assinados por mim. É uma outra relação, não apenas uma compra, mas uma troca que essas grandes instituições não conseguem promover.

Eu tenho uma outra questão que é a minha relação com os lojistas. Eu gosto, por exemplo, de estar em um evento, promover um lançamento, e estar ali pra conversar com o público, com as pessoas que gostam do meu trabalho. Eu nunca cobro pra assinar um trabalho ou pra fazer um desenho em um livro meu. Eu sou desenhista, é a principal coisa que eu faço e eu acredito que é o mínimo que eu posso fazer para os meus leitores, para as pessoas que se interessam pelo meu trabalho, fazer um desenho ali na hora pra elas. Eu tô aqui pra isso. Eu gosto do retorno que vem disso. A minha forma de pensar o mercado, dentro do que temos vivido e visto hoje em dia, é tentar promover a relação e o encontro entre as pessoas”.

Pontos de encontro

“Lojas independentes e especializadas, livrarias de ruas, estabelecimentos fora das grandes redes não são simplesmente um lugar de compra e venda. As lojas muitas vezes estão promovendo diversas ações benéficas pro mercado como um todo. São pontos de encontro, de conversas e interação. Você chega num lugar, encontra com outros autores e troca ideia. Mesmo encontros casuais podem resultar em outros projetos. Uma conversa e uma oficina abrem portas dentro da cabeça dos artistas ou dos leitores, em relação ao mercado ou do próprio ato de fazer um quadrinho. As lojas promovem principalmente isso, o encontro, o ambiente e o local de discussão.

Eu acredito que a PARAFUSO ZERO – Expansão, quando impressa, não será encontrada em grandes redes de livraria. Uma coisa que estabeleci pra esse álbum e pensando também como uma editora independente é que eu gostaria de criar uma relação com lojas em que as pessoas pegam os livros comigo, compram com um desconto legal e são revendedoras. Dentro das burocracias que existem nas grandes redes, não existe isso. Elas pegam esses trabalhos consignados e apenas revendem. Eu gosto muito da ideia do lojista ser um parceiro meu. Não gosto de distanciamento, gosto de do lojista poder me dizer como estão as vendas e quais pessoas compraram.

Dessa forma, eu posso, por exemplo, pensar uma ação junto com o lojista que acredita ser possível melhorar as vendas dele. Eu quero estar por dentro pra pensar essas estratégias, algo que as grandes redes não permitem. Eu quero que os lojistas que recebem os títulos do catálogo da Pulo sejam realmente parceiros e ajudem a coisa a acontecer em troca do que nós pudermos oferecer para a promoção da venda e de um maior alcance de público”.

CONTINUA…

ANTERIORMENTE:
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #7: Chris Ware, Elza Soares, Emicida e uma teia paranóica de referências];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #6: Akira, Wally e paralelismos distópicos];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #5: Proporções extremas e a insignificância humana no Universo];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #4: A origem do ‘Formato Jão’];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #3: Um sonho com Moebius];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #2: Baixo Centro, Flores e texto];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #1: origens, restrições e OuBaPo].

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PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #7: Chris Ware, Elza Soares, Emicida e uma teia paranóica de referências]

A arte aqui em cima foi produzida pelo quadrinista Jão como uma apresentação aos seus leitores das principais influências e referências que culminaram na criação do universo de PARAFUSO ZERO – Expansão. O álbum é o próximo projeto do autor, conta com a minha participação no papel de editor e está em campanha de financiamento coletivo no Catarse. Para o post de hoje da série PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores, pedi que Jão comentasse como os personagens e as personalidades desenhadas por ele nesse pôster de referências influenciaram o desenvolvimento desse próximo quadrinho.

Em seguida às falas de Jão estão listados todas as aparições presentes na arte, ambientada na mesma cidade de superseres de PARAFUSO ZERO – Expansão. Daí deixo o desafio: quantos personagens e personalidades você consegue identificar antes de ver a lista final?

PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #7: Chris Ware, Elza Soares, Emicida e uma teia paranóica de referências]

Teia paranóica

“Eu tentei incluir no desenho muitos personagens e artistas que me influenciaram ao longo de toda a minha trajetória. O Arzach, do Moebius, por exemplo, é a obra que abro sempre antes de começar qualquer novo trabalho, como uma forma de energizar. É, possivelmente, o quadrinho que mais gosto entre todos os que já li. O Hellboy, do Mike Mignola, também tem uma função parecida, apesar de ser mais aparente no preto e branco do Baixo Centro, mas eu me inspiro muito nas histórias curtas dele, do ponto de vista de roteiro e dos contos mesmo, além do desenho, claro. Akira, do Katsuhiro Otomo, é outra história que serve como uma aula pra mim, assim como o Tekkon Kinkreet, do Taiyo Matsumoto”.

“Acho que cada um dos personagens e dos artistas presentes ali na esquina tiveram grande importância em diversos momentos de minha carreira: seja numa passagem relativamente rápida, mas que abriu minha cabeça para possibilidades que ainda não tinha pensado, como o canadense Jesse Moynihan (que, no caso, fez com que eu percebesse que poderia retomar um período anterior de minha trajetória, dos quadrinhos de ficção científica e de fantasia, e, assim, criar o que seria a PARAFUSO); seja no sentido de causar uma explosão atômica em mim que, depois de muito tempo, ainda reverbera dentro do que quero fazer como autor, como é o caso do Chico Science ou da Elza Soares, que chacoalharam todos os meus pensamento e que ainda estou em processo de aprendizagem ao ter contato com o que fizeram (e, no caso da Elza, que ainda está fazendo)”.

“Também gosto muito de acompanhar e pensar sobre a carreira de artistas que admiro. Em meio a uma espécie de teia paranóica que costumo construir em minha cabeça, existe uma teoria da conspiração (criada por mim, claro) em que percebo algumas similaridades nessas trajetórias individuais de pessoas que gosto dos trabalhos. É engraçado porque, para além das obras, esses caminhos, da mesma forma, me servem de inspiração”.

Infografismo e poderes telecinéticos

“Falando especificamente do novo álbum, PARAFUSO ZERO – Expansão, as referências aparecem em diversos momentos do desenvolvimento do trabalho: ali tem um clube da luta; uma proposta de infografismo que veio do Chris Ware; personagens com poderes telecinéticos e destruição de edificações a lá Akira, uma conversa sobre superseres e o momento em que vivemos baseado nas discussões propostas por Alan Moore em Watchmen; uma espécie de minimalismo ultra-detalhado que veio do clipe This is America, do Childish Gambino, que já era algo que já vinha fazendo desde a PARAFUSO 0, mas que, a partir de ter assistido ao vídeo abriu possibilidades que não tinha pensado ainda; o que o Gabriel Góes está fazendo com seu personagem Billy Soco em termos de construção de universo. São muitas coisas e acho que o que mencionei por aqui é somente a ponta do iceberg para todos os elementos que vêm de outros lugares hahaha”.

Lista de personagens:

– Batman e Robin, o Cavaleiro das Trevas, Frank Miller;
– Tyler Durden, Clube da Luta;
– Neo, Matrix;
– Manly, Jesse Moynihan;
– Starman, James Robinson e Tony Harris;
– Arzach, Moebius;
– Hellboy, Mike Mignola;
– Rincon Sapiência;
– Childish Gambino;
– Demolidor;
– Dr. Manhattan, Watchmen, Alan Moore e Dave Gibbons;
– Walter White e Jesse Pinkman, Breaking Bad;
– A Mulher Enigma, Enki Bilal;
– Diomedes, Lourenço Mutarelli;
– Billy Soco, Gabriel Góes;
– BNegão;
– Formiga, Formigueiro, Michael DeForge;
– Goku, Dragon Ball, Akira Toriyama;
– Jules Winnfield e Vincent Vega, Pulp Fiction, Quentin Tarantino;
– Kaneda e Tetsuo, Akira, Katsuhiro Otomo;
– Elliot Alderson e Mr. Robot, Mr. Robot;
– Yuri, Daniel Og;
– Raoul Duke, Medo e Delírio em Las Vegas;
– Jimmy Corrigan, Chris Ware;
– Elza Soares;
– Jake e Finn, Hora de Aventura;
– Tulipa Ruiz;
– Cachorro do Vida Boa, do Fabio Zimbres;
– Emicida;
– Chico Science;
– Piratas do Tietê, Laerte;
– Preto e Branco, Tekkon Kinkreet, Taiyo Matsumoto.

CONTINUA…

ANTERIORMENTE:
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #6: Akira, Wally e paralelismos distópicos];
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HQ

PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #5: Proporções extremas e a insignificância humana no Universo]

E aí, já apoiou a campanha de financiamento coletivo de PARAFUSO ZERO – Expansão? Trata-se do próximo álbum do quadrinista Jão, no qual estou trabalhando como editor. A obra é ambientada em uma cidade na qual grande parte da população tem superpoderes e, por isso, brigas, mortes e confrontos épicos se fazem presentes rotineiramente em cada esquina. Recomendo uma olhada com calma nas opções de apoio e nas recompensas do projeto. Prometo uma das obras mais singulares que você já leu.

Enquanto isso, dou continuidade por aqui à série PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores, com depoimentos do Jão sobre o desenvolvimento do álbum e reflexões do autor em relação às técnicas, estilos e temas abordados por ele na HQ. No post de hoje, ele fala sobre as proporções mínimas de seus personagens em meio aos cenários colossais de seus quadrinhos. Saca só:

PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #5: Proporções extremas e a insignificância humana no Universo]

O rolê de cidades

“O desenho de cidades está sempre presente no meu trabalho e nos últimos dois anos eu me questionei bastante sobre isso. Eu achava que estava me repetindo muito, que havia uma presença excessiva de cidades nos meus quadrinhos. Desenhar muito essa ambientação urbana estava me incomodando, como se eu estivesse fazendo sempre a mesma coisa, mas hoje eu consigo ter uma visão diferente sobre essa questão.

Eu comecei a estudar outros artistas, artistas de fora da área de quadrinhos, e muita gente tem essa piração de séries temáticas de tempos e tempos, abordagens mais ou menos parecidas durante períodos específicos. Eu não entendia isso muito bem, eu queria fazer coisas novas e não conseguia sair desse rolê de cidade. Aí comecei a me questionar cheguei a conclusões que culminariam na PARAFUSO. Eu entendi o que esse rolê de cidades significava para mim, como ele deveria estar presente no meu trabalho e o que eu gostaria de fazer de diferente com ele. Foi quando surgiu a ideia de repetição de um mesmo cenário.

Se você pegar a Baixo Centro, ela tem essa coisa da cidade e a câmera passando por diversos lugares, às vezes ela muito próxima de uma cena, às vezes distante. Já na PARAFUSO não é essa a ideia. É uma câmera parada, focando em uma mesma esquina, sempre estática dentro desse cenário colossal. Os personagens pequenininhos surgem a partir dessa estrutura inicial de pensamento sobre o desenho de cidade”

Plasticidade zero

“Em relação aos personagens em si, acho que tem a ver com a minha abordagem para super-heróis. Normalmente, quadrinhos de super-heróis são muito dinâmicos, o personagem aparece em vários closes, aí tem aquelas poses radicais e a câmera girando em torno dele, o desenhista fica pirando em cima dessa coisa. No instante em que comecei as minhas reflexões sobre a presença de cidades no meu trabalho, concluí que queria fazer uma história de super-heróis que fosse diferente do tradicional. Eu quis deixar esses personagens distantes o suficiente do olhar do leitor para insinuar quem é aquele personagem, mas sem dar muitos traços, evitando ao máximo qualquer close – uma ferramenta que nem estará presente em PARAFUSO ZERO – Expansão. Eu não quero detalhar as feições, apenas insinuar que esses personagens são super-heróis e estão utilizando seus poderes.

No início de 2018 eu encontrei com o Rodrigo Qohen, coautor de O Parricídio, enquanto eu passeava pela Feira Plana, em São Paulo, e ele me falou algo sobre o universo da PARAFUSO que eu não tinha atinado ainda. ‘Jão, o que eu gosto na PARAFUSO é que você consegue fazer uma história de super-herói como se fosse uma coisa real’. Se os super-heróis existissem no mundo real e começassem a brigar, não ia ter essa plasticidade dos filmes e dos quadrinhos, ia ser uma coisa meio feia. A PARAFUSO é muito sobre isso, uma coisa meio ridícula daqueles personagenzinhos brigando e a câmera registrando de longe, sem nenhuma plasticidade”.

A insignificância humana no Universo

“O cenário colossal do quadrinho também vem de outro lugar. Quando eu comecei todos esses questionamentos eu estava pensando muito no Jorge Luis Borges e no H.P. Lovecraft. Eles têm essas construções gigantes, megalomaníacas e colossais. Eu ainda quero fazer coisas ainda mais absurdas nesse sentido, em termos de ambientações gigantescas com personagens pequenininhos. Junto com isso, eu também queria tentar tirar as histórias de super-heróis do universo dos comics e inserir em um contexto meu. Desde o início, a PARAFUSO tem como objetivo ser uma história de super-heróis do Jão. Eu não queria fazer uma história de super-heróis, mas uma história de super-heróis dentro do que eu estava criando e que ela conversasse com tudo o que eu estava fazendo naquele momento. Tudo isso junto com a influência desses escritores e essas ideias de grandiosidade perto da insignificância humana no Universo”.

Simplificar ao máximo

“Esse meu período de vários insights interessantes em 2015 e 2016 ocorre em uma época em que estava trabalhando com animação. Em animação, o trabalho é muito grande e é preciso simplificar muito as coisas, falar muito com pouco. Às vezes, em uma animação, você tem que fazer um único desenho, uma expressão ou um movimento, para expressar muita coisa. Se você for retratar tudo que um personagem faz, vai demorar um mês desenhando para uma cena de dois ou três segundos. Então eu puxei esse aspecto da animação pro meu trabalho. Como eu tenho essa câmera mostrando o personagem de longe, pequenininho, eu tenho que mostrar muito do gestual e dos trejeitos para o leitor compreender o que eu quero passar.

Por isso tudo, na PARAFUSO ZERO – Expansão eu não vou mais fazer uso de closes, a minha ideia é dialogar com infografia, expressando sentimentos por meio de símbolos, como os botõezinhos de curtir e as expressões de sentimentos do Facebook. Pode ser que até apareça algum close e algum rosto nesses elementos de infográficos, mas só. E essa praticidade vem da minha experiência com animação, acho que todo quadrinista deveria fazer alguma coisa de animação. A minha experiência foi para uma série chamada Às Vezes, para o canal de TV Rede Minas. Ela saiu no mesmo ano do Baixo Centro e acho que esse livro não teria saído sem o trabalho de animação. Com ela eu fiquei mais preparado para lidar com o desafio de simplificar ao máximo, mesmo trabalhando pra caramba, para expressar tudo o que gostaria de expressar”.

Todo mundo pode morrer

“Com a PARAFUSO, a minha ideia é que os personagens não me guiem em termos de roteiro, que eles sejam apenas peças dentro de uma história maior. Os manuais de roteiro falam para você nunca fazer isso (risos). Mas eu quero eles como peças, sem explorar sentimentos. Esse tipo de narrativa também está em pauta atualmente com ‘Game of Thrones’. Eu nem assisto a série, mas sei que o George R.R. Martin usa os personagens como peças, matando quando é conveniente. Ele me parece também estar querendo propor algo novo dentro do gênero de fantasia. Da mesma forma, dentro dessas histórias que eu tô criando na PARAFUSO, nesse mundo dos superseres, o leitor não deve se apegar a ninguém, todo mundo pode morrer.

Até por isso, o meu roteiro para esse trabalho é muito simples, eu mesmo não quero saber exatamente o que vai acontecer. Não quero saber quem vai morrer e quem não vai, se eu vou me apegar a alguém e vou matá-lo, se vou me apegar a alguém e ele vai sobreviver. Isso aí eu tenho deixado pro feeling de quando eu tô produzindo. Vou pelo sentimento do que tá rolando, vou fazendo e construindo e eu acho que isso acaba passando esse sentimento pro leitor também: ninguém tem controle de nada. O leitor também será guiado por essa narrativa e vai acabar chegando em algum lugar. Pode chegar lá junto comigo ou não. O importante é que ele terá passado por essa experiência”.

CONTINUA…

ANTERIORMENTE:
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #4: A origem do ‘Formato Jão’];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #3: Um sonho com Moebius];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #2: Baixo Centro, Flores e texto];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #1: origens, restrições e OuBaPo].

HQ

PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #4: A origem do ‘Formato Jão’]

Está no ar a campanha de financiamento coletivo do álbum PARAFUSO ZERO – Expansão, próxima obra do quadrinista Jão e na qual estou trabalhando no cargo de editor. A história presente na publicação é ambientada em uma cidade povoada maioritariamente por superseres e tem como proposta ser “a HQ de super-heróis mais estranha que já existiu”. Ao longo das últimas semanas tenho publicado aqui no Vitralizado a série PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores, com depoimentos do autor do projeto sobre as inspirações e o desenvolvimento do quadrinho.

Depois de falar sobre um sonho que inspirou PARAFUSO ZERO – Expansão, tratar dos trabalhos que antecederam esse próximo álbum e comentar as restrições impostas por ele em alguns de seus quadrinhos, dessa vez Jão explica o formatão já característico de seus títulos. Assim como Baixo Centro e Parafuso 0, a obra atualmente no Catarse seguirá o mesmo padrão de 24,9 cm X 34 cm (o dobro de uma revista no formato comics). A seguir, aspas de Jão:

PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #4: A origem do ‘Formato Jão’]

Quebra de expectativas

“Algo que me incomoda é a definição da linguagem aqui no Brasil, que é tratada no diminutivo: quadrinhos. Acho que foi um dos pontos que pesou na escolha do formato grandão, pois acredito nas narrativas gráficas como arte e, assim, gosto de trabalhar uma espécie de quebra de expectativa no leitor, ao pegar minhas histórias e não ver ‘quadrinhos’, mas sim quadros.

O incômodo com ‘histórias em quadrinhos’ vai além: não tenho nenhum dado objetivo, mas suspeito que essa definição moldou toda a nossa produção e, de certa forma, criou barreiras para os autores brasileiros, que, até o contato com outras obras pelo mundo promovido pela internet, em sua maioria, tinham, como algo enraizado, a linguagem como um mecanismo de contar histórias e só. Acho interessante como termos e palavras podem construir nossos pensamentos. No caso das narrativas gráficas, parece que aqui no Brasil só em tempos recentes deixamos de evoluir somente um dos pontos oferecidos pela linguagem: história – que também foi prejudicado ao não ter estabelecido conversas entre as outras possibilidades codificadas e proporcionadas pela arte sequencial”.

Além dos formatos mais padronizados

“A escolha desse formato grandão também vem dos meus pensamentos sobre quadrinhos e sobre o lugar do quadrinho hoje. Os quadrinhos têm estado muito voltados para consumo na internet e o próprio sentimento de livro tem mudado, então uma coisa que pensei ao escolher esse formatão foi em levar para o leitor uma experiência diferente do que essa pessoa conseguiria ter com uma tablet ou um computador, para além do virtual ou do tradicional, algo fora dos formatos mais padronizados.

Eu já trabalhei com esses formatos mais tradicionais e padronizados, formatinhos em A5 e o A4. Eu gosto de trabalhar com eles, mas esse formatão é uma escolha que também veio de algumas referências pessoais. Uma delas é a revista Piauí, que eu acompanho e gosto muito. Ela também publica quadrinhos e eu gosto de ver uma HQ nesse formatão. A própria série Beijo Adolescente do Rafael Coutinho também é uma influência para essa escolha por uma formato maior.

É uma opção que gira em torno de uma experiência que quero levar para os meus leitores. Sem contar que o meu trabalho também possui muitos detalhes. Na redução para um formato tradicional ele acaba perdendo um pouco e eu quero que o leitor veja cada tracinho, cada personagenzinho que eu coloco nessas páginas. Então seria isso: é uma decisão tomada em prol da experiência e da vontade que o leitor consiga acompanhar tudo o que eu quero passar a partir do desenho”.

Maior quantidade possível de detalhes

“Normalmente, quando eu faço o desenho no papel, eu costumo trabalhar com formato A3 ou A2. Isso varia um pouco, mas eu gosto de trabalhar com formatos grandões. Ultimamente eu também tenho trabalhado muito no computador e trabalhando no computador é possível ampliar um desenho em formatos muito grandes, gigantes, né? Isso é uma coisa que eu tenho gostado de fazer.

No caso desse pôster que está no projeto da PARAFUSO ZERO – Expansão: eu fiz o desenho no lápis em A2, o formato no qual ele vai ser impresso, aí eu escaneei e joguei pro digital pra fazer a arte final. Se você pegar a arte final dele é como se fosse o tamanho de uma parede de um quarto. Cada personagem que no desenho final tem, sei lá, dois centímetros, esse personagem na tela do computador tem cerca de 15 centímetros. Eu quis realmente fazer um formato muito grande para ter o maior nível possível de detalhes.

Marca impressa

“O Baixo Centro foi o meu primeiro trabalho nesse formato. Ele foi lançado pela editora Miguilim e eles foram muito abertos comigo em relação aos formatos. Eles estão acostumados a trabalhar com livros infantis e, por isso, estão habituados a publicações em formatos diferentes. Foi muito tranquila essa conversa, quando eu disse que queria fazer em um formato maior do que o usual, que isso ia ser legal e que o meu trabalho funcionaria melhor nesse formato.

Ultimamente eu tenho optado por esse formato até para construir uma espécie de estilo meu e que esse estilo não fique apenas no meu desenho ou na minha forma de contar histórias, mas que eu também deixe uma marca minha na publicação impressa. Eu acho isso legal, as pessoas têm me reconhecido e reconhecido o meu trabalho também a partir dos formatos.

Já vi gente ver um quadrinho grandão e dizer ‘Nossa, parece um quadrinho do Jão’. Ou então alguém estranhar ao pegar um dos álbuns, quando eu tô expondo em alguma feira ou loja. Agora que eu já tenho o Baixo Centro e a Parafuso 0, as pessoas olham e entendem que é um estilo meu. ‘O Jão gosta desse formato grandão e é isso aí’. Também já teve gente me criticando, dizendo que não dava pra guardar na estante, mas eu gosto dessa crítica. O meu trabalho gira muito em torno do incômodo para os leitores e eu gosto disso, gerar um certo incômodo.

Outra coisa que também é legal nesse formato é que as pessoas em eventos não têm muito como guardar os álbuns dentro de uma sacola e aí andam com as revistas debaixo do braço e isso acaba sendo uma divulgação que eu ganho (risos)”. 

História em função do formato

“Na PARAFUSO ZERO – Expansão, eu acredito que é a primeira vez que eu estou trabalhando para esse formato. No caso do Baixo Centro, como eu falei, eu pensei o formato e tive a conversa com a editora enquanto eu já estava produzindo as páginas. No caso da Parafuso 0, que saiu em 2016, eu quis usar aquele formato do Baixo Centro, mas também já era uma história que estava em andamento. Eu não sabia se teria condições financeiras de bancar esse formato, então também não era algo que eu fiz pensando especificamente nele.

No caso da PARARUSO ZERO – Expansão, toda a proposta do álbum é voltada pra esse formato. A ideia é que a construção da narrativa seja pensada nos mínimos detalhes pra compor todo esse formato. Essa é uma grande diferença dos trabalhos anteriores pra esse agora”.

CONTINUA…

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>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #3: Um sonho com Moebius];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #2: Baixo Centro, Flores e texto];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #1: origens, restrições e OuBaPo].