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Papo com Jão, editor da coletânea PARAFUSO 1: “Minha ideia foi fazer uma investigação sobre os recursos da linguagem das narrativas gráficas com o auxílio de restrições criativas”

Caso você esteja em Belo Horizonte no próximo sábado (30/11), recomendo um pulo na Livraria da Rua (R. Antônio de Albuquerque, 913, Funcionários), a partir das 13h, para o lançamento da coletânea PARAFUSO 1. Editada e idealizada pelo quadrinista Jão, o álbum de narrativas gráficas experimentais conta com trabalhos de 12 artistas de Belo Horizonte além do autor responsável pelo projeto: Aline Lemos, Batista, Bruno Pirata, Daniel Pizani, Estevam, Faw Carvalho, Gabriel Nascimento, Ing Lee, João Belo, Julhelena e Priscapaes.

Parceria das editoras Pulo e Miguilim, PARAFUSO 1 tem 48 páginas e é fruto de um período de três dias de trabalhos dos 12 artistas envolvidos no projeto no Laboratório de Quadrinhos Potenciais coordenado por Jão em janeiro de 2018. O Laboratório inclusive já rendeu dois posts de bastidores aqui no blog: um no qual Jão escreveu sobre a origem do projeto e outro sobre os temas e das restrições impostas aos artistas participantes. Também compartilhei por aqui uma prévia de sete páginas da PARAFUSO 1.

Às vésperas do lançamento de PARAFUSO 1 eu bati um papo com Jão sobre a criação, o desenvolvimento e a publicação da coletânea. Ele falou sobre a dinâmica dos trabalhos do Laboratório de Quadrinhos Potenciais, suas inspirações no OuBaPo, a opção pela cidade como tema central da obra e uma explicação didática sobre seu “universo PARAFUSO”. Como sempre, conversa bem massa. Saca só:

(na imagem que abre o post, quadros do trabalho de Ing Lee para a coletânea PARAFUSO 1)

“Minha ideia foi priorizar as trocas a partir do convívio de produção em conjunto”

Quadros do trabalho de Bruno Pirata para a coletânea PARAFUSO 1

Os quadrinhos presentes na PARAFUSO 1 foram criados durante o Laboratório de Quadrinhos Potenciais que você organizou em janeiro de 2018. O que foi o Laboratório? Como você concebeu esse projeto?

O Laboratório de Quadrinhos Potenciais foi uma residência artística que criei para desenvolver trabalhos em conjunto com outros profissionais que já tinham experiências com publicações impressas. É importante frisar que a proposta não era direcionada apenas para quadrinistas, mas também para pessoas de outras áreas ligadas às artes visuais, que poderiam contribuir por meio de um certo deslocamento em relação aos quadrinhos, o que é ótimo. Minha ideia, ao desenvolver a atividade, foi priorizar as trocas a partir do convívio de produção em conjunto, assim como fazer uma investigação sobre os recursos da linguagem das narrativas gráficas com o auxílio das restrições criativas do OuBaPo. Ao longo dos encontros uma série de exercícios foram propostos para os artistas, com várias limitações pré-estabelecidas, para analisarmos, em conjunto, a forma como esses desafios seriam trabalhados. Os resultados são incríveis e muito do que foi discutido no período está transposto na PARAFUSO 1! Além disso, temos ainda uma quantidade grande de páginas prontas para lançar em uma publicação futura.

“As histórias e narrativas presentes na PARAFUSO 1 ganharam outras dimensões para mim”

Página de Aline Lemos presente na coletânea PARAFUSO 1

Quase dois anos depois dos encontros do Laboratório de Quadrinhos Potenciais, a PARAFUSO 1 está sendo finalmente lançada. Qual balanço você faz desse projeto? Você consegue fazer um comparativo entre o que imaginava que essa obra poderia ser e a versão que acabou sendo impressa?

Apesar do distanciamento em relação ao momento em que as histórias foram geradas e a publicação eu já tinha preparado a organização e como gostaria de apresentar este trabalho ainda no primeiro semestre de 2018. De todo modo, um lado bom da espera foi que quando retomei as conversas com a Miguilim, para finalmente lançarmos esse trabalho, percebi que as histórias e narrativas presentes na PARAFUSO 1 ganharam outras dimensões para mim, o que acho importante, pois não gostaria de desenvolver algo que ficasse datado. Ainda aprendo e ainda sou estimulado pelo que os autores criaram ali.

Por mais que você tivesse planos para o lançamento de uma obra impressa fruto do Laboratório de Quadrinhos Potenciais, esse é um projeto que você tinha controle mínimo em relação àquilo que era realizado pelos 12 autores. O que mais te surpreendeu nessa experiência?

Nossa, existem tantas surpresas! É difícil até criar uma lista, mas vou citar duas situações que me marcaram: 

Em primeiro lugar a produção da Ing Lee: até então ela não havia feito nenhuma história em quadrinhos, mas eu gostava muito do trabalho que ela desenvolvia com os zines e, em uma edição da Faísca, convidei ela para produzirmos alguma coisa juntos. Acabou que até o Laboratório não conseguimos, mas a participação dela na atividade e depois é fundamental para mim. A Ing tem uma energia e uma vontade, assim como uma sabedoria gráfica e narrativa, que sempre me levam a lugares que ainda não tinha estado. Desde os encontros do Laboratório que ela tem se tornado, cada vez mais, uma das grandes representantes dos quadrinhos em Belo Horizonte e no país.

A maior surpresa que tive, no entanto, foi com o trabalho do Batista: eu conhecia as obras dele por conta dos cartuns que lançava na internet e, até então, ainda não tinha visto nenhuma narrativa um pouco mais longa feita por ele. Lembro de uma conversa durante o Laboratório, que ele dizia que estava aberto e que queria experimentar situações que o tirassem da zona de conforto. Foi o que aconteceu. Quando a história que ele produziu chegou ao meu e-mail foi como uma explosão. O grau de amadurecimento e sensibilidade que estavam presentes nas páginas que ele enviou, e que estão presentes na revista, é gigantesco! É impressionante como, em apenas quatro páginas, ele consegue desenvolver algo tão denso, tão aberto, e que me fez pensar (e ainda estou) durante tanto tempo.

“O OuBaPo e a experimentação na linguagem eram isso: novos universos a serem explorados”

Página de Julhelena presente na coletânea PARAFUSO 1

Nos posts de bastidores que fizemos aqui no blog você falou sobre seu interesse em uma “forma lúdica de criação”. Foi lúdico o processo de criação desse livro? Quais são as suas principais lições e experiências e suas melhores memórias desse processo de criação coletivo com esses 12 autores que participam do livro?

Acredito que em janeiro de 2018, quando o Laboratório foi realizado, eu precisava encontrar novos motivos para seguir com minha produção autoral. Para isso optei por procurar paralelos com o momento e a energia que me fizeram começar minha carreira nos quadrinhos. O que descobri foi que, naquela época (2007, 2008…), eu não criava histórias como um modelo de trabalho, mas sim porque era divertido para mim. Era um universo completamente novo a ser explorado, o que sempre me instigou. Ao chegar nessa conclusão, percebi que queria construir algo assim tanto para as atividades como para uma forma de produzir quadrinhos que pudesse ser passada para outras pessoas. O OuBaPo e a experimentação na linguagem eram isso: novos universos a serem explorados. Ao partir desta premissa, elaborei alguns exercícios para guiar os encontros, mas outras atividades foram pensadas em conjunto também. A residência foi muito boa nesse sentido, pois percebi que todos ali estavam se divertindo ao produzir e elaborar histórias, foi meio que um jeito de sair do cotidiano. Dos retornos que tive dos artistas quando o Laboratório já havia acabado e cada um estava criando as narrativas que comporiam a PARAFUSO 1, também recebi muitas mensagens deles sobre o quanto estavam gostando de fazer aquilo. Percebo que a imersão nesses processos foi um bom respiro para os participantes e para a cena de Belo Horizonte.

“Foi estabelecido uma espécie de tema, que permeia toda a obra, que é a ‘cidade'”

Página de Estevam presente na coletânea PARAFUSO 1

Pelos prévias já divulgadas por você, chama atenção a variedade de estilos e técnicas presentes no livro. Como foi conciliar toda essa diversidade e dar unidade à coletânea?

Acho que já falei aqui no Vitralizado sobre o meu grande interesse pelo formato revista. Eu fui criado assim e é algo que me atrai demais. Essa experiência vai também de encontro com as antologias de quadrinhos, sejam elas gringas ou nacionais, sendo que a principal influência que tenho é da Graffiti 76% Quadrinhos, que era uma antologia editada aqui em BH. Nesse tipo de publicação é comum essas reuniões de variados estilos e técnicas. No caso da PARAFUSO 1, o que fiz foi organizar tudo de um jeito que fazia algum sentido para mim, mas que também pudesse contar uma história por meio da sequência de narrativas, que gerasse uma experiência de leitura mesmo. Além disso, foi estabelecido uma espécie de tema, que permeia toda a obra, que é a “cidade”. Não Belo Horizonte ou algum outro lugar determinado, mas o espectro de cidade. Sendo assim, meio que uma unidade já havia sido formatada desde o início.

Por que “a cidade” como tema desse projeto?

Quando estava elaborando o Laboratório de Quadrinhos Potenciais pensei que deveria encontrar um mote para ligar tudo aquilo que seria produzido na residência, mas estava com dificuldades para achar isso. Foi a Helen Murta, minha companheira e sócia na Editora Pulo, que sugeriu o tema “cidade”. Pesquei na hora essa ideia porque já era algo que estava muito enraizado em meu trabalho, mas percebi que seria legal que a troca de experiências entre os participantes partisse desse lugar para que outras conclusões sobre os centros urbanos fossem discutidas a partir da linguagem dos quadrinhos.

“Já tenho dois ou três universos distintos para números posteriores da PARAFUSO”

Página de Gabriel Nascimento presente na coletânea PARAFUSO 1

Você já lançou a PARAFUSO 0, agora esta lançando a PARAFUSO 1 e prometeu para breve o lançamento da PARAFUSO ZERO – Expansão. Qual a diferença entre cada um desses trabalhos? Por que esse interesse por parafusos?

Desde o início, com o lançamento da revista PARAFUSO 0, eu tinha definido que queria desenvolver 10 edições da PARAFUSO. A ideia, no início, era fazer duas ou três por ano, mas acabei percebendo que PARAFUSO é um projeto de vida, é meu laboratório e um jeito de dar vazão ao que estou pensando e criando como autor. Dessa forma, acho que o projeto vai me acompanhar durante um bom tempo.

Para complicar um pouco as coisas, percebi que as edições não precisavam, necessariamente, serem fechadas em um número. Então tenho trabalhado cada obra como um universo, que pode ter desdobramentos ou não.
O universo PARAFUSO ZERO é uma série sobre superseres, uma reflexão sobre a sociedade e uma jornada pelos estudos que tenho feito sobre autoritarismo e democracia, que são, no fim, o que tenho vivido e pensado. Ela está sendo ampliada por meio da construção do PARAFUSO ZERO – Expansão, que em breve será publicado.

Já o universo PARAFUSO UM é mais ligado à produção de quadrinhos do que sobre uma temática específica. A ideia é que outras antologias e outras formas de pensar o processo de confecção das narrativas gráficas sejam desdobrados a partir daí.

Como não me canso, já tenho dois ou três universos distintos para números posteriores da PARAFUSO. Vamos ver quando começo a trabalhar neles…

“Minha forma de apreciação para essa linguagem está muito mais focada na narrativa ou no desenho do que nos textos”

Página de Batista presente na coletânea PARAFUSO 1

O que mais te interessa em termos de quadrinhos hoje? O que você mais tem interesse em ler e tentar fazer e experimentar com a linguagem das HQs?

Eu tenho lido poucos quadrinhos nos últimos anos, apesar de ser bem nerd quando sismo de encontrar trabalhos por conta própria. Mas normalmente eu não leio quadrinhos, ou, pelo menos, não do jeito que costumamos tratar como leitura. Minha forma de apreciação para essa linguagem está muito mais focada na narrativa ou no desenho do que nos textos ou para saber o que acontece a seguir numa história. Tive uma conversa com o Bruno Pirata (que também participa da PARAFUSO 1), há algum tempo, em que chegamos juntos na conclusão de que os quadrinhos se tornaram um meio obsoleto para se contar histórias por conta de toda a quantidade de informação e mecanismos que existem, como Netflix, cinema, literatura etc. Estou muito mais interessado nos conceitos sobre a narrativa gráfica. Vez ou outra eu me pergunto os motivos para seguir fazendo quadrinhos e não partir para outros caminhos artísticos, mas sempre chego na conclusão de que esta é minha forma de expressão, é como consigo passar o que penso, que, de certa forma, é como segue o meu fluxo de pensamentos no cotidiano. Enfim, fui para um lugar bem distante do que me perguntou, então retomando: pesquiso muito sobre novos autores ou artistas que estão desenvolvendo trabalhos nessa linguagem pelo mundo. Sigo acompanhando também o que hoje pode ser considerado um recorte do nosso mercado, que seriam os trabalhos de vanguarda dos quadrinhos, aqueles que estão à margem, mas que empurram a nossa produção para frente, como o Gerlach, a Puiupo, a Lovelove 6, o Sica, o Odyr, o Dahmer, o Gabriel Góes, o Lucas Gehre, a Ing Lee, a Aline Lemos, e mais um monte de gente. E o Chris Ware sempre.

A capa da coletânea PARAFUSO 1
HQ

PARAFUSO ZERO – Expansão, por Jão: em breve nas melhores lojas!

Talvez você tenha acompanhado a saga do projeto PARAFUSO ZERO – Expansão aqui no Vitralizado. O álbum do quadrinista Jão que conta com a minha participação como editor teve sua produção amplamente noticiada no blog. Investimos em uma campanha de financiamento coletivo no Catarse que por pouco não virou, mas o projeto agora ganhou sobrevida via o edital do Fundo Municipal de Cultura de Belo Horizonte.

As boas novas vieram agora pouco pelo Instagram do Jão: a HQ ficou em segundo lugar na categoria Artes Visuais do edital. E o autor da obra mandou avisar: “Projeto completamente reformulado e com uma equipe ampliada e foda trabalhando comigo!”.

Meu acesso aos bastidores de PARAFUSO ZERO – Expansão permite bancar: vem coisa realmente boa por aí. Prometo novas informações sobre o quadrinho para um futuro próximo e recomendo que você relembre a série PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores, na qual eu e Jão conversamos sobre a trama, a produção e o desenvolvimento da HQ.

HQ

PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #13: Nota do editor]

Encerro hoje a série PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores. A proposta desse especial do Vitralizado foi de compartilhar semanalmente com os leitores do blog o desenvolvimento de PARAFUSO ZERO – Expansão, álbum do quadrinista Jão no qual eu estava trabalhando como editor. O primeiro dos posts foi publicado no dia 30 de julho e continuamos com a empreitada ao longo de 13 segundas-feiras, incluindo hoje, mostrando as reflexões, as dúvidas e os planos do autor durante a produção do quadrinho e do período da campanha de financiamento coletivo com o objetivo de bancar a impressão do projeto.

Como já escrevi por aqui na semana passada e imagino que você já saiba, a campanha de financiamento coletivo no Catarse não virou. Conseguimos R$ 23,739, 83% da nossa meta de R$ 28,500, graças ao apoio de 229 pessoas. Ainda tô numa certa ressaca desses 60 dias de trabalho pesado na campanha e mais de sete meses desde a conversa em que o Jão me chamou para editar o livro. Também estou triste, óbvio. Mas foi demais, viu?

Eu, o Jão e a Helen Murta (sócia da editora Pulo e assessora da campanha) ainda faremos uma reunião avaliando os erros e acertos do projeto. Eu tenho plena consciência que poderíamos ter feito melhor uma coisa ou outra, mudado um detalhe aqui e ali que talvez tivesse contribuído para o nosso sucesso, mas tudo bem, faz parte. Nesse meio tempo eu tive o prazer de entrevistar e trocar ideia com um dos meus quadrinistas preferidos, um dos artistas brasileiros que mais admiro, e aprender um monte sobre quadrinhos e edição. Em meio a essas conversas também tive várias lições enriquecedoras sobre divulgação e estratégia com a Helen. Só tenho elogios e coisas boas a dizer sobre meus dois parceiros nessa empreitada.

Nosso objetivo era ver PARAFUSO ZERO – Expansão impressa e isso não rolou, mas cê saca o volume de conteúdo que produzimos? Não sei se tem alguma vantagem aí, mas não lembro de nenhum quadrinho não publicado sobre o qual se falou tanto. O Jão deu entrevista pro Papo Zine, conversou com os caras do Pipoca & Nanquim e protagonizou uma edição do HQ Sem Roteiro. Além dos depoimentos dele pra PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores, o projeto foi notícia em vários outros sites, perfis e canais de produção de conteúdo sobre quadrinhos.

Foi divertido pra caramba e agradeço a sua companhia por aqui ao longo das 13 segundas de PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores. Com certeza uma das empreitadas em que mais me diverti nesses seis anos do blog. Também agradeço a parceria do Jão e da Helen, grandes amigos com quem não vejo a hora de trabalhar outra vez. Seguimos!

FIM?

ANTERIORMENTE:

>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #12: Balanço e próximos projetos];
>>PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #11: Estrutura, experiência de leitura e construção narrativa];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #10: Catálogo de personagens];
>>PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #9: Facebook, drogas psicodélicas e algoritmos falhos];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #8: Viabilidade, encontros e trocas];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #7: Chris Ware, Elza Soares, Emicida e uma teia paranóica de referências];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #6: Akira, Wally e paralelismos distópicos];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #5: Proporções extremas e a insignificância humana no Universo];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #4: A origem do ‘Formato Jão’];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #3: Um sonho com Moebius];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #2: Baixo Centro, Flores e texto];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #1: origens, restrições e OuBaPo].

HQ

PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #12: Balanço e próximos projetos]

A campanha de financiamento coletivo do álbum PARAFUSO ZERO – Expansão não atingiu a meta de R$ 28,500 para que a obra fosse impressa. No ar no site Catarse ao longo de 60 dias, o projeto do quadrinista Jão, que teve a minha participação no papel de editor do quadrinho, contou com o apoio de 220 pessoas e conseguiu pouco mais de 80% do montante pedido.

Produzida durante todo o período da campanha, a série de posts PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores teve como proposta tratar do desenvolvimento da HQ e das reflexões de seu autor enquanto o projeto buscava apoio e tomava forma. No post de hoje, penúltimo da série, Jão fala sobre a meta não alcançada para o financiamento do álbum, faz um balanço inicial desses dois meses de campanha e trata de seus próximos trabalhos. Saca só:

PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #12: Balanço e próximos projetos]

Saldo positivo

“Acredito que, mesmo que o projeto não tenha atingido seu objetivo e sido bem-sucedido, o saldo foi positivo. Foram mais de 220 pessoas que apostaram na ideia, que fizeram parte disso tudo junto comigo. Nossa própria experiência, eu na posição de autor e você na de editor, na construção dessa campanha e de tudo o que conversamos sobre o álbum foi algo que gostaria de ressaltar como muito importante para minha carreira também. O desenvolvimento junto com toda a equipe que trabalhou muito para viabilizar essa piração minha foi incrível e enriquecedor. Além disso, vejo que meu trabalho ficou muito mais conhecido desde a abertura do financiamento coletivo do quadrinho, tem muito mais gente me acompanhando e interessada em saber o que estou fazendo, o que, por si só, é algo que acrescenta demais para mim como artista.

É um projeto que não deu certo e isso é ruim, pois gostaria muito de ter conseguido realizar essa história já que considero ser minha incursão com maior grau de experimentação na linguagem dos quadrinhos até aqui. Sem contar que, cada vez mais, esse universo que iniciei em 2016 está se tornando parte de nosso cotidiano, basta andar na rua e ver a onda de violência e de discursos extremistas que estão tomando conta de nosso país atualmente. Talvez o PARAFUSO ZERO – Expansão seja o meu Duna (risos) De qualquer forma, analisando friamente, acho que o balanço é bom. Fizemos muitas coisas, rolou uma divulgação muito legal por parte da mídia especializada, abrimos um canal para falar de certos aspectos que não estavam sendo discutidos dentro do mercado autoral aqui no Brasil, como é o caso dos super-heróis na contracultura. Em resumo, mesmo que não tenha dado certo, estou satisfeito”.

Balanço

“Eu acho que ainda está cedo para uma análise mais profunda em termos de erros e acertos, assim como lições que serão tiradas a partir da experiência com a campanha. Espero que nos próximos dias possa fazer uma avaliação mais detalhada e extrair conhecimento de tudo isso que fizemos juntos. Agora estou exausto. Um ponto que gostaria de destacar, contudo, é que minha opinião não mudou em relação ao financiamento coletivo. Ainda acho que é uma das melhores formas de viabilizar projetos de quadrinhos. A questão é entender onde surgiram os problemas que afetaram no desempenho de arrecadação da campanha. Ficamos com mais de 80% da meta atingida, então acho que, com alguns ajustes, dá para seguir utilizando esse modelo, até porque é construída uma relação próxima entre autores e leitores, o que considero muito importante”.

Viabilidade

“Acho difícil que um dia a PARAFUSO ZERO – Expansão venha a acontecer. Entrei no financiamento coletivo porque foi a forma que encontrei para viabilizar esse trabalho. Como disse anteriormente aqui na série Bastidores, acho que essa obra tem muito a ver com adereços que são acoplados ao produto final, sejam zines, cards, pôsteres etc. Não era só um álbum, era uma expansão em diversos aspectos. Antes mesmo do início da campanha no Catarse, recebi propostas de editoras interessadas no projeto, mas não cheguei em uma conclusão sobre como poderia ser feito um acordo que viabilizaria todo o suporte necessário para a publicação, incluindo esses produtos que orbitam o título e a equipe que está trabalhando comigo…”

Descanso e próximos projetos

“Agora quero tirar uns dias para descansar e avaliar tudo isso que fizemos. Acho importante e necessário. Somente após esse período que vou pensar quais serão os meus próximos passos. Tenho muitos projetos em curso, que estão em diversos níveis de execução, então terão novos trabalhos meus circulando por aí em breve, só não sei dizer quais (risos) Fiz o financiamento coletivo de uma forma em que nada do valor arrecadado viria pra mim diretamente, ou seja, meu pagamento como autor seria viabilizado por meio das vendas dos álbuns depois do lançamento, mas foi algo que resolvi apostar e dedicar meu ano. Como não rolou, terei que investir um tempo em trabalhos fora dos quadrinhos também”.

CONTINUA…

ANTERIORMENTE:

>>PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #11: Estrutura, experiência de leitura e construção narrativa];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #10: Catálogo de personagens];
>>PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #9: Facebook, drogas psicodélicas e algoritmos falhos];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #8: Viabilidade, encontros e trocas];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #7: Chris Ware, Elza Soares, Emicida e uma teia paranóica de referências];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #6: Akira, Wally e paralelismos distópicos];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #5: Proporções extremas e a insignificância humana no Universo];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #4: A origem do ‘Formato Jão’];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #3: Um sonho com Moebius];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #2: Baixo Centro, Flores e texto];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #1: origens, restrições e OuBaPo].

HQ

PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #11: Estrutura, experiência de leitura e construção narrativa]

Estamos às vésperas do encerramento da campanha de financiamento coletivo do álbum PARAFUSO ZERO – Expansão, próxima HQ do quadrinista Jão e na qual estou trabalhando no papel de editor. Apesar de ainda estarmos distantes do montante pedido para que o quadrinho seja impresso, estamos confiantes no nosso sucesso. Ao longo da semana passada o número de apoiadores cresceu de forma impressionante e só precisamos manter o ritmo para alcançarmos os nossos 100%. Então fica o aviso: você que deixou seu apoio para a última hora, chegou o momento de investir no projeto!

Enquanto isso, damos continuidade à série PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores, na qual Jão fala sobre o desenvolvimento de seu próximo quadrinho. Na 11ª atualização da série, o artista fala sobre a estrutura do álbum que está construindo e dá detalhes inéditos do conteúdo que os investidores da campanha terão acesso assim que o álbum for impresso. De bônus no post de hoje, divulgo mais uma leva do desafio autoimposto por Jão de criar um superser para cada apoiador da campanha do Catarse. Quer ter o seu superser? Apoie o projeto! Com vocês, Jão e a estrutura de PARAFUSO ZERO – Expansão:

PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #11: Estrutura, experiência de leitura e construção narrativa]

Estrutura e tempo de leitura

“A ideia da estrutura da revista é que ela tenha uma história inicial, uma espécie de prólogo, e também um epílogo. A proposta do prólogo é mostrar um pouco da origem desse universo dos superseres. O recheio mesmo do álbum apresenta a história que divulgamos na sinopse, a história principal, na qual estou trabalhando no cenário dela atualmente. É essa história principal que vamos nos restringir a um único cenário. Ultimamente eu tenho pensado em formas diferentes de fazer essa repetição de cenário. Talvez eu não me limite a um gride tão certinho e fixo, quero brincar com isso, talvez mostrar uma outra perspectiva, mas sempre dentro de uma restrição, de um limite autoimposto.

Para além dessa história principal, apresentada na sinopse, a ideia é inserir histórias curtinhas que mostrem outros momentos, outros lugares do mundo desses superseres. A função dessas histórias paralelas será de incluir todos esses elementos que apresentam o que é esse universo. São nelas que faremos a abordagem pós-cyberpunk, do mundo dominado pelos superseres e como ele influencia a vida dos demais cidadãos dessa cidade. A função delas é apresentar um panorama desse universo.

Pode parecer que um álbum de 68 páginas será uma leitura rápida, mas PARAFUSO ZERO – Expansão será a minha obra que vai exigir mais do leitor. Provavelmente não será uma leitura tão rápida. Meu objetivo é que cada página conte uma história dentro da trama principal. O leitor vai ter que ficar muito atento ao que está acontecendo, aos elementos que estão sendo colocados ali. A ideia é que seja um desafio meu para quem for ler o livro. Temos conversado muito sobre isso na edição do quadrinho e o meu plano, não apenas por conta do formato, é propor uma experiência de leitura que eu, por exemplo, não tive. Uma proposta muito parecida com o que o Chris Ware faz, ele é a referência mais próxima do que estou me propondo a fazer. E não quero me limitar a isso, quero pelo menos tentar algo que não tenha visto até hoje – e espero que os leitores também não tenham visto, quero que seja algo novo para eles também.

Descoberta de poderes

“A história da introdução vai mostrar um superser apenas no final dela. Ela mostra as pessoas comuns desse mundo, será uma história de descoberta desses poderes. Eu tenho pirado muito nessa ideia de construção de um universo: como eu poderia fazer isso? Como posso fazer isso de uma forma diferente?

Esse prólogo será uma história fechada, com início, meio e fim. Ela também distancia-se um pouco da trama principal e do cenário maior do álbum, com superseres e batalhas. É uma história diferente. Ela também é diferente como experiência de leitura quando comparada à principal. Então o livro será composto por mais de uma história, todas fechadas, mas também compondo uma história maior”.

O papel do leitor

“O leitor terá um papel importante nessa experiência que eu estou propondo, na construção da história junto comigo. Alguns elementos da história e desse universo eu não pretendo fechar, para que eles sejam construídos também pelo leitor. Eu quero que o leitor use a imaginação dele. Isso vem desde a minha ideia original, quando comecei a conceber esse mundo, buscando um diálogo tanto com o universo dos games quanto dos jogos de RPG. São pontas que eu quero unir, leitores como jogadores, completando, construindo e imaginando algumas ideias que vou deixar em aberto.

Eu acho que faltam obras que inspirem pessoas e não entreguem tudo mastigado. Gosto da posição que o meu trabalho tem. Isso obriga que as pessoas leiam e construam a história junto comigo. Eu sempre procuro por obras desse tipo, seja filme, literatura ou quadrinhos. Procuro por obras que me estimulem a construir uma narrativa, a pensar mesmo. É isso que eu quero trazer para a PARAFUSO ZERO – Expansão”.

Desdobramentos

“Eu tenho facilidade para guardar as minhas ideias e para esse tipo de construção criativa em que estou trabalhando. Esqueço facilmente de algumas coisas, mas outras eu lembro pro resto da vida. Algumas pessoas abrem um documento do Word e escrevem suas ideias, eu já tentei fazer isso, mas não funcionou tão bem como quando a coisa tá na minha cabeça. Agora, por exemplo, eu tô 24 horas por dia ligado nesse projeto. Eu posso estar fazendo qualquer outra coisa, cozinhando, assistindo TV ou dormindo e a minha cabeça tá ligada em função dele.

Eu até tenho um material muito mais extenso do que será possível colocar no álbum. Quero inclusive que esse álbum tenha alguns desdobramentos por conta disso, são muitas histórias e situação já construídas. Atualmente eu tenho tentado não me prender tanto à construção narrativa da forma tradicional. Tenho pensado em construção narrativa de situações, quase como esquetes.

Eu tenho várias histórias curtas e quando fomos escolher o que entra no livro, acho que teremos uma gama muito grande, mas isso aí eu deixo pro editor (risos). O processo é caótico, mas a minha memória, em termos de construção, funciona bem, ela está sempre ligada e atenta ao mesmo tempo. Eu assisto alguma coisa rápida na TV, seja uma série ou um filme, e isso já vira uma história na minha cabeça que não vai desaparecer.

Aliás, uma coisa que eu não tenho é bloqueio criativo. Já fiquei travado em alguma história por não saber como sair de um labirinto, dentro da construção narrativa. Já cheguei em alguns becos sem saída e fiquei dias e meses, em algumas histórias até anos, no mesmo lugar, mas bloqueio criativo em termos de ‘não consigo fazer nada’, eu não tenho. Não é algo que faz parte de mim, inclusive as ideias são muitas e não tenho braço pra fazê-las”.

Promessas

“Eu vou manter isso que coloquei no Catarse em termos de sinopse, não quero fugir disso. A história é aquilo ali, é aquela sinopse. Mas em termos do que começamos a conversar lá em março, em termos do que fazer e como contar essa história, tudo pode mudar completamente (risos). Aquilo que já apresentamos e que foi divulgado como sinopse e conceito do álbum vai estar lá, não estou enganando ninguém. A pessoa não vai comprar um livro e encontrar algo diferente do que foi prometido, mas a forma como eu vou contar a história é que não prometi pra ninguém, isso está em aberto e será transformado enquanto eu estiver fazendo.

Ao começar a fazer a esquina na qual será ambientada a história principal vieram novas ideias de como usá-la e de como contar essa história a partir desse cenário. É algo que vem acontecendo no desenvolvimentos das histórias desse álbum e que faz muito sentido dentro dessa proposta de ser a HQ de super-heróis mais estranha já feita. Esse processo em aberto é algo que gosto de compartilhar, como estamos fazendo nessa série sobre os bastidores do livro e que quero continuar quando as coisas começarem a acontecer mesmo, quando o livro estiver sendo finalizado. Imagino que as pessoas que apoiaram no Catarse também tenham interesse em ver como vai se desdobrar essa narrativa”.

BÔNUS:

CONTINUA…

ANTERIORMENTE:

>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #10: Catálogo de personagens];
>>PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #9: Facebook, drogas psicodélicas e algoritmos falhos];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #8: Viabilidade, encontros e trocas];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #7: Chris Ware, Elza Soares, Emicida e uma teia paranóica de referências];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #6: Akira, Wally e paralelismos distópicos];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #5: Proporções extremas e a insignificância humana no Universo];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #4: A origem do ‘Formato Jão’];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #3: Um sonho com Moebius];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #2: Baixo Centro, Flores e texto];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #1: origens, restrições e OuBaPo].

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PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #9: Facebook, drogas psicodélicas e algoritmos falhos]

Faltam 18 dias para o fim da campanha de financiamento coletivo do álbum PARAFUSO ZERO – Expansão, próxima HQ do artista Jão e na qual estou trabalhando no papel de editor. Na nona atualização da série de posts sobre os bastidores do desenvolvimento da obra, o quadrinista fala sobre como as redes sociais foram a principal fonte de inspiração para o surgimento do quadrinho e como a difusão de discursos extremistas será representada na busca incessante dos personagens por mais poderes. Recomendo a leitura dos capítulos prévios da série PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores e também deixo o link pra uma conferida na página do álbum no Catarse.

No post de hoje também incluo um bônus em vídeo, a palestra de Jão na Bienal de Quadrinhos de Curitiba sobre a representação da cidade em seus trabalhos e publicações de outros quadrinistas com uma forte ambientação urbana. A seguir, o depoimento de Jão e o vídeo do evento:

PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #9: Facebook, drogas psicodélicas e algoritmos falhos]

Facebook e drogas psicodélicas

“A proposta da PARAFUSO ZERO – Expansão é de conversar com a Parafuso 0, lançada em 2016, e tratar de novos temas. Questões como linchamento e da justiça com as próprias mãos, por exemplos, são tópicos presentes nesse meu universo de superseres que serão mantidos nessa próxima obra. No entanto, agora eu me propus a falar desses temas e também da propagação de discursos extremistas nas redes sociais. Como seria um mundo no qual as pessoas têm poder para propagar todo e qualquer discurso abertamente? Eu construí esse universo de supereseres a partir desse questionamento, impregnado no Facebook e nas redes sociais em geral.

Eu também queria construir uma estrutura de história que funcionasse como a própria estrutura do Facebook. Existem mecanismos que estarão presentes na história que são característicos dessa rede social. Por exemplo: censurar certos temas e deixar que certos conteúdos sejam mais explícitos ou não. Em termos de representação gráfica, a ideia é usar os botões de reações de Facebook para expor os sentimentos de cada personagem. O plano é fazer uso de conceitos de infografismo pra apresentar as reações e sentimentos dos personagens. Isso já veio colado na proposta de fazer esse álbum novo.

A maior parte dessas ideias eu vou abordar dentro desse clube de batalhas, clube de lutas, frequentado pelos personagens. Também vou tratar desses temas a partir de uma droga psicodélica que estará presente na história. Essa viagem e toda a psicodelia do álbum, para além das cores, será focado para tratar desses temas, do caos das redes sociais. Esse é o principal foco”.

Algoritmos falhos

“Os algoritmos que pensam a estrutura do Facebook e determinam o que irá chegar pra quem, qual conteúdo é mais interessante para cada pessoa, o que pode ser falado e mostrado ou não. A ideia é representar isso tudo como máquinas de combate que atuam dentro dessa cidade dos superseres. Na sinopse já apresentamos essa ideia, da existência de uma máquina de combate que existe para coordenar esse clube ilegal de batalhas.

Não acho que é spoiler falar que essas máquinas não funcionam tão bem, assim como o algoritmo do Facebook. Isso tudo vai gerar algumas circunstâncias na história que vão demonstrar essa falha e as consequências disso.

Li algumas matérias interessantes sobre esses temas nas revistas Piauí e Rolling Stone, falando sobre esses mecanismos e a dinâmica do Facebook. É algo que tenho estudado e sobre o que acho que vale discutirmos até por conta do próprio momento do país. O álbum será lançado depois das eleições, mas não deixará de ser uma forma de avaliação de como as redes sociais influenciaram esse cenário. Eu quero pesquisar isso e tentar fazer esses conceitos estarem presentes no álbum quando ele for lançado”.

Decadência cabulosa

“Vendo o que as redes sociais geraram e fomentaram, como a eleição do Trump e o Brexit, dá pra dizer que os principais frutos dela não acrescentaram para a sociedade. Nós continuamos usando as redes e, inclusive, falamos mal delas nelas mesmas, mas hoje em dia ela não fazem bem. Há muita coisa que deu errado, principalmente a propagação de fake news e a difusão de absurdos, como os discursos de ódio do Trump e do Bolsonaro e de pensamos nazistas e de extrema direita.

Eu sempre lembro daquela história da inteligência artificial criada pela Microsoft, que acompanhava o Twitter e acabou construindo discursos nazistas. Não demoraram pra desligar. Isso tudo é reflexo da forma como o mundo vem funcionado. Me parece muito que caminhamos para uma desilusão profunda e uma decadência cabulosa em decorrência desses tipos de discursos extremistas. É  fundamental que o mundo não seja guiado por esse tipo de pensamento, ainda assim as redes sociais fazem o contrário: elas legitimam e tornam viáveis esses discursos.

Esse universo de superseres foi construído em torno dessas questões relacionadas às redes sociais. Eu não sei se teria chegado a essas ideias se o Facebook não existisse e todas essas bizarrices relacionadas a ele não estivessem acontecendo. Eu relaciono muito o conceito de super-heróis e de superpoderes à voz que o Facebook dá às pessoas”.

BÔNUS:

CONTINUA…

ANTERIORMENTE:

>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #8: Viabilidade, encontros e trocas];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #7: Chris Ware, Elza Soares, Emicida e uma teia paranóica de referências];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #6: Akira, Wally e paralelismos distópicos];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #5: Proporções extremas e a insignificância humana no Universo];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #4: A origem do ‘Formato Jão’];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #3: Um sonho com Moebius];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #2: Baixo Centro, Flores e texto];
>> PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #1: origens, restrições e OuBaPo].