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Entrevistas / HQ

Papo com Jason, autor de A Gangue da Margem Esquerda: “Estamos caminhando para uma catástrofe que mudará tudo. O futuro é muito incerto”

A Gangue da Margem Esquerda é o terceiro álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil. O primeiro trabalho do autor lançado por aqui foi Sshhhh!, coletânea de histórias curtas e mudas que vão do humor ao macabro. Depois saiu Eu Matei Adolf Hitler, sobre um assassino profissional contratado por um cientista para viajar no tempo, matar o líder nazista e impedir o Holocausto e a Segunda Guerra Mundial.

Entrevistei o artista pela primeira vez em 2017, na época do lançamento de Sshhh! por aqui, e, depois, no ano passado, quando Eu Matei Adolf Hitler chegou às livrarias nacionais. Bati agora um novo papo com Jason, dessa vez sobre A Gangue da Margem Esquerda, obra vencedora do Prêmio Eisner de Melhor Título Estrangeiro no ano de 2007. Transformei essa conversa em matéria que você lê por aqui.

Reproduzo a seguir a íntegra da minha entrevista mais recente com o autor norueguês. Ele falou sobre a concepção da trama sobre um roubo envolvendo Ezra Pound, James Joyce, Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway na Paris dos anos 1920; também tratou de suas técnicas e métodos de trabalho e expôs um pouco de seus temores sobre o impacto da pandemia do novo coronavírus no mercado de HQs. Saca só:

“Parte de ser quadrinista é que você já é praticante de distanciamento social”

Quadros de A Gangue da Margem Esquerda, álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil pela editora Mino

Antes de tudo, como você está? Como você está encarando a pandemia do coronavírus? O contexto de isolamento social afetou de alguma forma sua rotina diária?

Parte de ser quadrinista é que você já é praticante de distanciamento social. Você trabalha sozinho em casa a maior parte do tempo, fazendo uma corrida ou respirando ar fresco de vez em quando. Portanto, não há grandes mudanças. Eu tento trabalhar um pouco todos os dias. Mas, como sempre, o YouTube é o grande inimigo. Você pode perder facilmente algumas horas por lá. E sempre há livros ou quadrinhos para ler.

Como você acha que essa realidade que estamos vivendo vai afetar o seu ambiente profissional? Você tem conversado com outros autores e editores sobre essa situação?

Não, eu não conversei com mais ninguém sobre isso. Mas sou publicado na maior parte das vezes por editoras pequenas, administradas por duas pessoas. E o mercado já é difícil, pelo menos na França, com muitas publicações novas a cada semana. Espero que todos os meus editores ainda estejam por aí e que as lojas de quadrinhos também se saiam bem quando meu próximo livro for publicado na próxima primavera.

“Lembro dos meus 30 e poucos anos como uma época em que me preocupava em ganhar dinheiro suficiente apenas para pagar aluguel”

Quadros de A Gangue da Margem Esquerda, álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil pela editora Mino

Você pode me contar um pouco sobre o ponto de partida de A Gangue da Margem Esquerda? Você lembra de como surgiu a ideia desse livro?

Eu gosto do Hemingway e li muitas biografias sobre ele e sobre a Paris dos anos 1920. Foi um período emocionante, com muitas pessoas interessantes morando lá. Eu senti que era um bom lugar para ambientar uma história. Lembro dos meus 30 e poucos anos como uma época em que me preocupava em ganhar dinheiro suficiente apenas para pagar aluguel e pensando se tinha feito a escolha errada estudando ilustração na escola de artes e depois tentando ganhar a vida como ilustrador e quadrinista. Eu consigo me relacionar com muitos dos escritores na Paris dos anos 1920 também preocupados com dinheiro. E, por último, assisti ao filme O Grande Golpe, de Stanley Kubrick, que foi a inspiração para contar a história de um assalto fora de ordem cronológica.

Por que utilizar autores e artistas reais? E por que transformá-los em quadrinistas?

Para criar um distanciamento dos artistas, deixando claro que isso é uma fantasia e não fatos biográficos. Usei alguns fatos, mas ao mesmo tempo tive liberdade para inventar uma história. Além disso, achei engraçado transformar Hemingway e Scott Fitzgerald em quadrinistas.

“Você precisa aceitar que poderá fazer algo que ama, mas terá que enfrentar a realidade financeira como resultado”

Quadros de A Gangue da Margem Esquerda, álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil pela editora Mino

Eu estava pensando sobre os dramas e dilemas desses artistas e autores na vida real e como eles poderiam ser semelhantes aos de quadrinistas. Você crê em muitas similaridades entre a vida profissional e as dificuldades de um pintor ou escritor e a vida profissional e os dilemas de um quadrinista?

Sim, acho que são praticamentes os mesmos para todos os artistas, sejam escritores, quadrinistas ou artistas plásticos. Na maioria das vezes, não há muito dinheiro envolvido. Você precisa aceitar que poderá fazer algo que ama, mas terá que enfrentar a realidade financeira como resultado. Sem grandes apartamentos, sem férias caras, sem carros sofisticados. A menos que você seja daquele sortudo 1% que terá um sucesso ou conseguirá um contrato de cinema e poderá ganhar muito dinheiro. Provavelmente, depois que morrermos, é que o dinheiro vai entrar.

O que você vê de mais especial na Paris dos anos 1920? Quais seriam as motivações para todos esses artistas se reunirem nesse mesmo local durante esse mesmo período?

Bem, a cidade era barata. E muitos desses expatriados americanos já haviam estado na Europa durante a guerra, como soldados ou motoristas de ambulância. Paris significava liberdade. Na América havia proibição. E talvez a distância torne as coisas mais claras. Hemingway viveu em Paris, mas escreveu histórias sobre sua infância e juventude nos EUA.

“Não tenho nenhuma rotina em particular, exceto não escrever um roteiro completo”

Quadros de A Gangue da Margem Esquerda, álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil pela editora Mino

O quanto você acha que o mundo mudou nesse intervalo de 100 anos entre 1920 e 2020?

Eu não acho que as pessoas mudaram muito. A comunicação mudou. Há a internet e Iphones. Mesmo para mim, crescido nos anos 70, as coisas mudaram. Quando eu criança, na Noruega, havia uma estação de TV e uma estação de rádio. E as mudanças climáticas estão acontecendo agora, sabemos que o ambiente que nós demos como certo agora pode desaparecer, que estamos todos caminhando para uma catástrofe que mudará tudo. O futuro é muito incerto.

Eu gosto muito quando um autor se impõe algumas restrições. Penso nos seus grides fixos, por exemplo. Você gosta desse exercício? Há alguma restrição particular que te interessa mais?

Não vejo o gride como uma restrição. Para mim, ele é apenas esteticamente mais agradável. E assim um painel não recebe mais importância que outro. Cabe ao leitor decidir qual é importante. Então, na maior parte do meu tempo como cartunista, usei grides de 4 painéis, 6 painéis, 8 painéis ou 9 painéis. Houve um período em que fiz muitas histórias silenciosas. Isso foi uma restrição, não usar palavras. Bem, na verdade, eu não gostava de escrever, então ficou mais fácil não usar palavras. E então, em algum momento, esse se tornou o desafio, escrever diálogos. E agora eu gosto de uma combinação. Ter diálogo, mas também ter painéis silenciosos, se isso contar a história de maneira mais eficaz.

“Às vezes, tenho o começo e, enquanto estou trabalhando nisso, penso no que pode acontecer a seguir”

Quadros de A Gangue da Margem Esquerda, álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil pela editora Mino

Você pode me falar um pouco sobre os seus métodos de trabalho? Você tem alguma rotina em particular? Você está mais habituado a alguma técnica em particular? A Gangue da Margem Esquerda foi todo com tinta e papel, certo?

Sim, é tudo tinta no papel. Não tenho nenhuma rotina em particular, exceto não escrever um roteiro completo. Improviso e crio a história enquanto estou trabalhando nela. Às vezes, tenho o começo e, enquanto estou trabalhando nisso, penso no que pode acontecer a seguir. Às vezes eu tenho pedaços de diálogos. Outras vezes, as imagens aparecem primeiro e eu decido o diálogo enquanto desenho. Às vezes, faço esboços em miniatura, faço a maior parte do trabalho diretamente na página. Atualmente, eu desenho principalmente com um grid de 4 painéis. Não preciso trabalhar cronologicamente, trabalho em sequências e as coloco na ordem correta no final. Isso facilita a edição do livro. Se uma página ou uma sequência não funcionar, eu posso removê-la, sem precisar substituí-la por outra coisa.

Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?


Eu reli alguns quadrinhos que não pegava desde que comprei. Christophe Blain, o cartunista francês, já li muitas coisas dele. Eu pretendo ler alguns dos romances russos que desisti pela metade anteriormente, como O Idiota e Os Irmãos Karamazov. Estou revendo Memórias de Brideshead, a série de TV com Jeremy Irons. Eu revejo O Picolino e os velhos filmes de Fred Astaire e Ginger Rogers. Columbo é sempre divertida de assistir e muito relaxante. Eu não tenho Netflix nem uso streaming, então tudo isso é DVD. Música, há muito para mencionar. Ouvi alguns CDs de John Renbourn que acabei de ganhar. 

Quadros de A Gangue da Margem Esquerda, álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil pela editora Mino
HQ

Especial Vitralizado: Jason fala sobre A Gangue da Margem Esquerda, os autores da Geração Perdida e o impacto da pandemia no mercado de HQs

“Por que a gente faz quadrinho?”, questiona Ezra Pound a Ernest Hemingway durante uma partida de pingue-pongue no reduto boêmio parisiense do Quartier Latin, em algum momento dos anos 1920. A resposta parte do também quadrinista James Joyce: “É porque líamos quadrinhos quando éramos crianças. Se tivéssemos jogado futebol ou subido em árvores, hoje seríamos normais. Teríamos trabalhos de verdade. Seríamos motoristas de ônibus ou carpinteiros e seríamos felizes”.

O autor irlandês encerra com um lamento: “Agora é tarde demais. É a única coisa que sei fazer. Não consigo dirigir um ônibus, nem acertar um prego com um martelo. Mas consigo contar uma história com desenhos e foder minha vista um pouco mais a cada dia. Estamos fodidos”.

Recém-lançado no Brasil pela editora Mino, com tradução de Dandara Palankof, A Gangue da Margem Esquerda apresenta quatro dos maiores nomes da literatura inglesa como autores de histórias em quadrinhos. Não só. Desenhados como animais antropomorfizados, Ezra Pound, James Joyce, Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway estão insatisfeitos com os rumos de suas carreiras e suas dificuldades financeiras, então arquitetam um assalto à mão armada. 

“Provavelmente, depois que morrermos, é que o dinheiro vai entrar”

Quadros de A Gangue da Margem Esquerda, álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil pela editora Mino

Terceira obra do quadrinista norueguês Jason publicada no Brasil, a HQ rendeu ao autor o Prêmio Eisner de Melhor Título Estrangeiro no ano de 2007. Seu primeiro trabalho lançado por aqui foi Sshhhh!, coletânea em preto e branco de histórias curtas e mudas que vão do humor ao macabro. Depois saiu Eu Matei Adolf Hitler, sobre um assassino profissional contratado por um cientista para viajar no tempo, matar o líder nazista e impedir o Holocausto e a Segunda Guerra Mundial.

A Gangue da Margem Esquerda segue muito dos padrões dos demais trabalhos de Jason, como o uso de personagens antropomorfizados e a elegância narrativa caracterizada principalmente pelo uso de um gride constante de nove quadros por página. O contraste maior está na trama.

Quadros de A Gangue da Margem Esquerda, álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil pela editora Mino

“Eu gosto do Hemingway e li muitas biografias sobre ele e sobre a Paris dos anos 1920. Foi um período emocionante, com muitas pessoas interessantes morando lá. Eu senti que era um bom lugar para ambientar uma história”, disse Jason em entrevista por email ao Vitralizado.

Jason consegue se relacionar com muitos desses escritores e artistas que viveram na Paris de 100 anos atrás. Na avaliação dele, na maior parte do tempo, a principal preocupação desses autores era a mesma que ele tinha quando estava em seus 30 e poucos anos, recém-saído da faculdade e tentando viver como quadrinista: ganhar dinheiro para pagar o aluguel. Para Jason, dificuldades financeiras tendem a ser um drama para 99% dos artistas.

“Na maioria das vezes, não há muito dinheiro envolvido. Você precisa aceitar que poderá fazer algo que ama, mas terá que enfrentar a realidade financeira como resultado. Sem grandes apartamentos, sem férias caras, sem carros sofisticados. A menos que você seja daquele sortudo 1% que terá um sucesso ou conseguirá um contrato de cinema e poderá ganhar muito dinheiro. Provavelmente, depois que morrermos, é que o dinheiro vai entrar”.

“Achei engraçado transformar Hemingway e Scott Fitzgerald em quadrinistas”

Quadros de A Gangue da Margem Esquerda, álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil pela editora Mino

E por que fazer dos quatro protagonistas autores de histórias em quadrinhos?

“Para criar um distanciamento dos artistas, deixando claro que isso é uma fantasia e não fatos biográficos. Usei alguns fatos, mas ao mesmo tempo tive liberdade para inventar uma história. Além disso, achei engraçado transformar Hemingway e Scott Fitzgerald em quadrinistas”.

Fitzgerald é mostrado lamentando a falta de interesse da esposa, Zelda, em suas HQs e Hemingway protagoniza uma cena na qual busca conselhos com a mentora Gertrude Stein – creditada como responsável pela criação do termo Geração Perdida para designar esse grupo de autores expatriados na Paris dos anos 1920.

“Que tipo de lápis está usando?”, questiona Stein, também transformada em quadrinista. Depois ela instrui: “Nunca copie uma foto. Se precisar desenhar um automóvel, saia, ache um e desenhe em seu caderno de rascunhos, certo?”.

Quadros de A Gangue da Margem Esquerda, álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil pela editora Mino

Já a ideia do roubo partiu de uma sessão de O Grande Golpe (1956), terceiro filme de Stanley Kubrick, com o ator Sterling Hayden no papel de um ladrão recém-saído de um período de cinco anos atrás das grades que planeja um último assalto antes de se casar e se aposentar da vida de crimes.

A metade final de A Gangue da Margem Esquerda, focada no crime executado pelo quarteto de quadrinistas, tem influência direta da narrativa fora de ordem cronológica do assalto mostrado no filme de Kubrick. A ação e os desdobramentos do roubo arquitetado por Hemingway com o auxílio de seus três amigos são apresentados sob os pontos de vista de sete personagens.

Em relação à produção do quadrinho, Jason diz ter seguido sua prática habitual de tinta e papel, sem uso de computador.

“Improviso e crio a história enquanto estou trabalhando nela”

Quadros de A Gangue da Margem Esquerda, álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil pela editora Mino

“Não tenho nenhuma rotina em particular, exceto não escrever um roteiro completo. Improviso e crio a história enquanto estou trabalhando nela. Às vezes, tenho o começo e, enquanto estou trabalhando nisso, penso no que pode acontecer a seguir. Às vezes eu tenho pedaços de diálogos. Outras vezes, as imagens aparecem primeiro e eu decido o diálogo enquanto desenho. Às vezes, faço esboços em miniatura, faço a maior parte do trabalho diretamente na página”.

Hoje aos 54 anos, Jason reside desde 2007 na cidade francesa de Montpellier. Ele está atualmente confinado em casa, respeitando o isolamento social imposto pelas autoridades locais durante a pandemia do novo coronavírus. Mas ele conta que sua vida como o autor de quadrinhos já impõe certo distanciamento social ao trabalhar em casa na maior parte do tempo.

Ele acredita ainda estar cedo para mensurar o impacto da pandemia no mercado de quadrinhos, mas mostra-se pessimista: “Sou publicado na maior parte das vezes por editoras pequenas, administradas por duas pessoas. E o mercado já é difícil, pelo menos na França, com muitas publicações novas a cada semana. Espero que todos os meus editores ainda estejam por aí e que as lojas de quadrinhos também se saiam bem quando meu novo livro for publicado na próxima primavera”.

A capa de A Gangue da Margem Esquerda, álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil pela editora Mino
Entrevistas / HQ

Papo com Jason, autor de Eu Matei Adolf Hitler: “Sou bem pessimista em relação ao futuro. Acho que só vai piorar. Vamos nos autodestruir”

Eu Matei Adolf Hitler é o segundo álbum do quadrinista norueguês Jason publicado no Brasil. O primeiro, Sshhhh!, saiu por aqui em 2017 pela mesma editora Mino que lança a ficção científica com a presença do líder nazista. Torço para que não fique apenas nesses dois e logo mais cheguem outros trabalhos do autor em português.

Ontem eu publiquei aqui no blog uma matéria na qual falo mais sobre Eu Matei Adolf Hitler, o estilo do autor, as técnicas utilizadas por Jason e alguns dos temas mais caros a ele. Hoje eu reproduzo a íntegra da minha entrevista com o artista. Papo bom demais – assim como a entrevista dada por ele ao blog em 2017, na época do lançamento de Sshhhh!. Saca só:

“O Hitler não é realmente importante na história, ele só aparece em alguns painéis. Eu estava mais interessado nos outros personagens”

Quadros de Eu Matei Adolf Hitler, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino

Quais são as suas memórias mais antigas relacionadas a quadrinhos?

A leitura dos quadrinhos da minha irmã mais velha, que era uma série da Europa Ocidental chamada Silver Arrow. Tenho certeza que devo ter lido alguns Pato Donald, que eram muito populares na Escandinávia, e ocasionalmente quadrinhos de super-heróis. Depois, descobri os álbuns de Tintin na biblioteca e realmente gostei deles.

Quais técnicas você utilizou para criar Eu Matei Adolf Hitler? Você usa apenas papel e tinta?

Eu uso um pena e tinta. Eu gosto do efeito de variação na linha. Eu não faço nada no computador. Eu não tenho uma Cintiq ou algo assim. Chama-se Cintiq? Não tenho certeza. Eu não gosto de quadrinhos que tenham cara de computador. Os desenhos e as letras devem estar no mesmo ambiente, não gosto de colocar depois no Photoshop. Eu faço o letreiramento dos meus quadrinhos a mão. Para a edição brasileira eles estão utilizando uma fonte, mas pelo menos ela é baseado no meu letreiramento manual.

Você se lembra do momento em que teve a ideia de criar Eu Matei Adolf Hitler? Se sim, você poderia me dizer como isso aconteceu?

Eu queria fazer uma história com máquina do tempo e matar o Hitler é uma ideia meio óbvia. Ao mesmo tempo, o Hitler não é realmente importante na história, ele só aparece em alguns painéis. Eu estava mais interessado nos outros personagens, no casal principal que faz a viagem no tempo e em como todos esses acontecimentos da história os afetam.

“Você só precisa olhar para o que está acontecendo na sociedade hoje. Os sinais não são nada bons”

Quadros de Eu Matei Adolf Hitler, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino

Você já pensou sobre a ideia de matar Adolf Hitler? Você faria isso se tivesse uma máquina do tempo?

Não, eu nunca pensei sobre isso. Eu não sei o que faria com uma máquina do tempo. O Louis CK tem uma piada ótima sobre isso, que ele não a usaria, ou talvez apenas colocasse uma bebida nela.

Seu personagem principal chega no passado antes da Segunda Guerra Mundial, quando Hitler era apenas uma sombra do que ele se tornaria. Há muitos políticos de extrema-direita em posições de liderança no mundo agora – Trump nos EUA, Bolsonaro aqui no Brasil e Marine Le Pen na França, por exemplo. Você está preocupado com o nosso futuro? Você é otimista?

Não, não, sou bem pessimista em relação ao futuro. Acho que só vai piorar. Vamos nos autodestruir. A América tem um presidente que não acredita em mudanças climáticas. A indústria de combustíveis fósseis gasta milhões subornando políticos. As abelhas estão morrendo. As coisas só serão feitas quando for tarde demais. Eu estarei morto em talvez 30 anos. Felizmente. Eu sinto muito pelas crianças de hoje que terão que viver no futuro. Se houver algo como reencarnação, eu diria ‘não, obrigado’.

Eu sou um leitor do seu blog e vi que você tem lido muito Philip K. Dick. Muitos dos romances dele não são muito otimistas em relação ao nosso futuro. Você acha que deveríamos levar nossas ficções – e refiro-me não apenas à ficção científica – mais a sério?

Eu acho. Dick tem sido muito bom para prever o futuro. Mas realmente, você só precisa olhar para o que está acontecendo na sociedade hoje. Os sinais não são nada bons.

“O leitor não deveria notar a narrativa. Nada é pior do que apontar qual deve ser o próximo painel ou causar uma confusão na ordem de leitura”

Quadros de Sshhh!, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino

Quando eu te entrevistei pela primeira vez, você me falou como quadrinhos sem texto exigem um pouco mais de clareza no narrativa. Eu Matei Adolf Hitler tem texto, mas eles são muito objetivos e breves. Você tem alguma preferência para escrever quadrinhos mudos ou quadrinhos com textos?

Eu fiz quadrinhos mudos porque eu achava difícil trabalhar com texto. Agora eu acho que é a parte mais interessante de fazer quadrinhos. O desenho é a parte chata. Eu ainda gosto de painéis silenciosos e gosto de usá-los entre painéis que tenham mais textos. Às vezes o silêncio acaba dizendo mais.

Você poderia me falar um pouco sobre a sua abordagem em relação a cores? Você tem alguma técnica para definir uma paleta específica para um livro?

Eu não faço a colorização. Para os álbuns coloridos, como Eu Matei Adolf Hitler, eu trabalho com o Hubert. Estou muito feliz com o que ele faz, então não interfiro.

Eu gosto muito do ritmo dos seus quadrinhos. O uso dos grids fixos é a sua maneira de determinar o ritmo de uma história?

Eu gosto do grid. Ele me agrada esteticamente. E cada painel tem a mesma importância. Cabe ao leitor decidir se este é mais importante que o próximo. Dessa forma a história acaba sendo a coisa mais importante, não a forma como ela é contada. O leitor não deveria notar a narrativa. Nada é pior do que apontar qual deve ser o próximo painel ou causar uma confusão na ordem de leitura dos painéis.

Quadros de Eu Matei Adolf Hitler, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino

Eu gostaria de saber o que são quadrinhos para você. Você tem uma definição pessoal do que são quadrinhos?

Não, isso é algo que cabe a vocês críticos decidir ou debater. Pessoalmente, eu não penso nisso. Existe mais de um painel? Existe diálogo em balões? Ok, isso é quadrinhos!

Eu gostaria de saber sobre sua relação com a crítica. Como você se sente quando vê a análise ou as interpretações de alguém sobre seu trabalho?

Bem, eu prefiro receber críticas positivas! Comentários negativos são ok, caso o autor da crítica tenha um ponto e possa expressar seus problemas com o livro. Se ele percebe algo que eu não vi, isso é uma coisa boa. Mas na maior parte das vezes eu acabo tendo uma ideia se o livro funciona ou não. Se estou feliz com o livro, não me importo com críticas negativas ocasionais. Se tenho dúvidas em relação ao livro, aí é outra história.

O que você acha quando seu trabalho é publicado no Brasil? Nós somos todos ocidentais, mas estamos falando de culturas muito diferentes. Você tem alguma curiosidade sobre como o seu livro será lido?

Sim, isso é interessante. Eu fui traduzido para o coreano. Como eles veem os meus quadrinhos? Existe uma diferença entre isso e como os meus quadrinhos são lidos na França? Eu não sei. A universalidade vem de ser específico e local. As pessoas às vezes mencionam uma qualidade escandinava em meus quadrinhos, talvez fazendo referência a uma espécie de objetividade ou melancolia. Que talvez até estejam lá. Se eu tivesse nascido na Austrália ou na Ásia, meus quadrinhos teriam sido diferentes? Provavelmente. Mas quem sabe?

“Estou trabalhando em um novo livro, um romance gráfico de pequeno porte. É uma coleção de três histórias. Hemingway é um personagem”

Quadros de Sshhh!, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino

Você está trabalhando em algum novo projeto em particular agora?

Estou trabalhando em um novo livro, um romance gráfico de pequeno porte. É uma coleção de três histórias. Hemingway é um personagem. Eu também já fiz alguns rascunhos e algumas anotações para o livro seguinte, que será um álbum com o clássico formato francês e de 48 páginas.

Você poderia me falar sobre o seu espaço de trabalho?

Eu não tenho um local de trabalho espaçoso. É uma mesa simples, parte da sala de estar. Há um tocador de CD, que eu não uso muito mais, um scanner e um laptop. Há uma janela do outro lado da sala, com vista para o telhado do outro lado da rua.

Você poderia recomendar alguma coisa que tenha lido, assistido ou escutado recentemente?

Você mencionou Philip K. Dick. Eu li alguns dos livros dele recentemente. Eu comprei mais uns livros do John Fante, eu sou um grande fã de Pergunte ao Pó. Eu comecei a ler as histórias curtas dele e também romances como 1933 Foi um Ano Ruim. Eu tenho escutado muito Pentangle nos últimos dois anos. Eles fizeram vários discos folk nos anos 60 e 70. E também álbuns solo de John Renbourn. O Lagosta foi o último filme que eu realmente gostei. Mas devo admitir que também assisto a muitos filmes do James Bond, Missão: Impossível e John Wick.

A capa da edição brasileira de Eu Matei Adolf Hitler, do quadrinista norueguês Jason
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Especial Vitralizado: Jason fala sobre Eu Matei Adolf Hitler, viagens no tempo e casais em crise

Os quadrinhos do artista norueguês Jason são habitualmente protagonizados por personagens antropomorfizados, as páginas são geralmente compostas por um número fixo de quadros e os balões de fala são raros. Eu Matei Adolf Hitler (Mino) segue este padrão. Apenas duas das 48 páginas do álbum não são compostas por oito quadros e o personagem principal é um assassino profissional de poucas palavras com feições de cachorro e problemas de comunicação com a namorada.  

O que foge à regra é a trama da obra: o protagonista é contratado por um cientista para viajar no tempo, matar o líder nazista e impedir o Holocausto e a Segunda Guerra Mundial.

“Eu sinto muito pelas crianças de hoje, que terão que viver no futuro. Se houver algo como reencarnação, eu diria ‘não, obrigado’”

Quadros de Eu Matei Adolf Hitler, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino

Hoje aos 53 anos e morando desde 2007 na cidade francesa de Montpellier, Jason é dono de dois Eisner Awards, prêmio máximo da indústria norte-americana de quadrinhos. Ambos os troféus foram vencidos na categoria de Melhor Edição Americana de Obra Internacional, um deles conquistado em 2008 por Eu Matei Adolf Hitler – traduzido para o português por Dandara Palankof.

Segundo quadrinho do autor publicado no Brasil – o primeiro foi Sshhh!, em 2017 -, a obra teve como ponto de partida a vontade de Jason de desenvolver uma ficção científica que contasse com uma máquina do tempo. A presença de Hitler é um acaso. “Hitler não é realmente importante na história. Eu estava mais interessado nos outros personagens, no casal principal e em como eles são afetados por todos os acontecimentos da história”, conta.

Habitantes de uma realidade sombria na qual assassinatos por encomenda ocorrem rotineiramente, o matador de aluguel está entediado com sua rotina profissional e sua companheira lamenta a falta de perspectiva do relacionamento dos dois. A encomenda da morte de Hitler e suas consequências afetam em definitivo a vida amorosa da dupla.

“Eu ainda gosto de painéis silenciosos e gosto de usá-los entre painéis que tenham mais textos. Às vezes o silêncio acaba dizendo mais”

Quadros de Eu Matei Adolf Hitler, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino

“As pessoas às vezes mencionam uma qualidade escandinava em meus quadrinhos, talvez em referência a uma espécie de simplicidade ou melancolia, e ela pode até estar lá”, pondera o autor sobre as reações pouco emotivas e as decisões práticas adotadas pelo casal para lidar com os ocorridos extraordinários ao seu redor.

Quadros de Eu Matei Adolf Hitler, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino

Já a opção quase obsessiva pelo número fixo de quadros é influência declarada do belga Hergé (1907-1983), criador do jornalista Tintim: “Cabe ao leitor decidir se um painel é mais importante que o seguinte. Dessa forma a história acaba sendo a coisa mais importante, não a forma como ela é contada. O leitor não deveria notar a narrativa”.

Hoje mais habituado com a presença de texto em seu trabalho, Jason prefere atualmente escrever do que desenhar. “O desenho é a parte chata. Eu ainda gosto de painéis silenciosos e gosto de usá-los entre painéis que tenham mais textos. Às vezes o silêncio acaba dizendo mais”, afirma

Quadros de Eu Matei Adolf Hitler, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino

Jason diz não ter pensado sobre como faria uso de uma máquina do tempo e se mataria Hitler caso tivesse a oportunidade de voltar ao passado. Já em relação ao futuro, ele é pessimista. O autor crê na autodestruição da humanidade.

“As coisas só serão feitas quando for tarde demais. Eu estarei morto em talvez 30 anos. Felizmente. Eu sinto muito pelas crianças de hoje, que terão que viver no futuro. Se houver algo como reencarnação, eu diria ‘não, obrigado’”.

Quadros de Eu Matei Adolf Hitler, álbum do norueguês Jason publicado pela editora Mino
Entrevistas / HQ

Papo com Jason, o autor de Sshhhh!: “Se tenho uma regra para os meus quadrinhos, é: não conte tudo, deixe alguma coisa para o leitor”

As obras assinadas pelo quadrinista norueguês Jason são facilmente identificáveis. São HQs geralmente caracterizadas por desenhos minimalistas, por seus personagens antropomorfizados e por um storytelling extremamente eficaz. Sshhhh! (Mino) é o primeiro álbum do autor publicado no Brasil e reúne todos esses elementos. A obra chegou às livrarias brasileiras quase um ano após Jason fazer sua estreia no país, com um quadrinho de seis páginas presente na segunda edição da revista Antílope.

Sshhhh! é uma coletânea de contos curtos que reúne outros dos principais atributos esperados nos quadrinhos do autor: as tramas urbanas e também surreais, as reflexões sobre relacionamentos e solidão e o humor variando entre a poesia e o sarcasmo.

“Eu acho que tenho um estilo”, afirma Jason em conversa por email. “O meu primeiro álbum foi desenhado com um estilo muito realista, mas não fiquei muito feliz com o resultado e demorou muito tempo pra finalizar, então passei a tentar outros estilos e os personagens antropomorfizados surgiram. Eles pareciam encaixar no tipo de histórias que eu queria contar: fábulas”, diz o autor.

A eficácia da narrativa do Jason o tornaram reverenciado por quadrinistas de todo mundo. A edição brasileira vem acompanhada de exaltações assinadas por Laerte, Fábio Moon, Gabriel Bá, Rafael Coutinho e Gustavo Duarte. A chegada de Sshhhh! no Brasil deve ser aclamada também para que outros de seus trabalhos também possam ser publicados por aqui. Na conversa com o blog, Jason falou sobre quadrinhos noruegueses, sua paixão pelo trabalho de Hergé e por filmes noir e seu interesse recente pelos livros de Julio Cortázar. Papo bem bom. Ó:
 

“Eu acho que um quadrinho deve ser fácil de ler, mesmo que seja uma história sombria ou mais complexa. É preciso ser tentador para aquele leitor que dá uma espiada nas primeiras páginas em uma livraria, para que ele continue lendo e queira descobrir o que vai acontecer a seguir”

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Você não mora mais na Noruega, mas fico curioso em relação à cena de quadrinho local. Você pode contar um pouco como são os quadrinhos noruegueses? Você recomenda algum título em particular?

Há uma cena de quadrinhos em Oslo. Há várias pequenas editoras que publicam o que as pessoas chamam de quadrinhos alternativos. Começou mais ou menos nos anos 90, mesmo tendo alguns trabalhos de antes disso. A Noruega é um país pequeno, então é difícil viver de HQs. São pessoas que também trabalham com ilustração. Não tenho certeza se existe algum tipo particular de estilo norueguês. Eu acho que há mais realismo do que fantasia. Talvez seja algo típico da melancolia escandinava, é difícil dizer. Eu recomendaria o Steffen Kverneland, que fez um quadrinho sobre o Edward Munch, e também o Lars Fiske, que tem um livro saindo pela Fantagraphics sobre o Georg Grosz.

Sshhhh! é completamente sem palavras. Há alguma diferença nos seus métodos de trabalho entre criar um quadrinho mudo ou com palavras?

Há uma certa diferença. Sem texto para explicar o que está acontecendo você precisa ter um storytelling mais claro. Há também mais abertura para interpretação. Fica por conta de cada leitor o que ele tira da história. Fiz quadrinhos sem palavras durante um tempo porque acho mais fácil do que escrever diálogos e eu também buscava um público de fora da Noruega, uma audiência mais ampla. Depois acabou virando um desafio escrever diálogos. Hoje eu já acho a parte mais divertida, mas ainda faço uso de sequências de silêncio. Muitas vezes as palavras são desnecessárias.

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Muitos dos seus quadrinhos têm finais abertos e são classificados como nonsense. Quando você está criando os seus quadrinhos tem em mente qual poderá ser a interpretação dos seus leitores?

Não, na verdade eu busco esses finais em aberto. Se tenho uma regra para os meus quadrinhos, é: não conte tudo. Deixe alguma coisa para o leitor. É esse o tipo de quadrinho que gosto, aquele que não entrega tudo. Cinco leitores interpretarão uma mesma história de cinco maneiras diferentes e isso uma coisa boa.

Li uma matéria sobre o seu trabalho no Buzzfeed em que seus quadrinhos são comparados aos livros do Haruki Murakami. Assim como as suas HQs, os trabalhos dele também são marcados por finais abertos e enigmáticos. Você já leu algum livro dele?

Eu li alguns livros dele e não gostei tanto assim. Não sei precisamente a razão disso. Há uma certa simploriedade na linguagem, não sei. Não senti nenhuma grande conexão com os personagens.

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Eu vejo alguma conexão entre seus quadrinhos com desenhos como Adventure Time e Ricky and Morty, os dois investindo no mesmo estilo nonsense e no absurdo. Não sei se é um gênero, mas você vê algum motivo para o sucesso desse estilo nos dias de hoje?

Não conheço esses desenhos. Eu gosto do absurdo. De Magritte e Eugène Ionesco até Monty Phyton. Qual a razão do sucesso desse gênero? Eu não sei. Talvez porque o mundo está ficando cada vez mais absurdo? Quem vai saber? Tenho certeza que alguém já publicou um estudo sobre isso.

Você trabalha com designs de páginas muito específicos. Li que você é um grande admirador do Hergé e o considera um mestre do storytelling. Como essa narrativa dele influenciou o seu trabalho?

Sim, eu gosto de trabalhar com um grid específico e com um um uso tradicional de painéis e storytelling. O trabalho do Hergé é um bom exemplo desse storytelling claro e convidativo. Eu acho que um quadrinho deve ser fácil de ler, mesmo que seja uma história sombria ou mais complexa. Você não deve achar que é garantido que alguém vai querer ler o seu livro. É preciso ser tentador para aquele leitor que dá uma espiada nas primeiras páginas em uma livraria, para que ele continue lendo e queira descobrir o que vai acontecer a seguir.

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Você pode me contar um pouco sobre a dinâmica do seu trabalho? Você costuma trabalhar com roteiros fechados? Há alguma técnica ou método que você costuma utilizar nos seus quadrinhos?

Não, não costumo trabalhar com roteiros. É tudo improvisado, geralmente desenhado já na página. Eu costumo trabalhar em 20 ou 30 páginas ao mesmo tempo, desenhando um pouco e depois arte-finalizando. Estou acostumado a primeiro desenhar os personagens e só depois fazer os cenários. Às vezes eu começo escrevendo alguns trechos de diálogo, outras vezes os desenhos vem primeiro e crio os diálogos depois. Em cenas mais complicadas também costumo fazer thumbnails antes de começar a desenhar.

Os seus quadrinhos são muito identificáveis. Você acha que já tem um estilo definido? Foi muito difícil chegar nessa forma como você desenha e escreve nos dias de hoje?

Eu acho que tenho um estilo. Os personagens antropomorfizados e o estilo seguindo a linha clara. Demorou um tempo para chegar aí. O meu primeiro álbum foi desenhado com um estilo muito realista, mas não fiquei muito feliz com o resultado e demorou muito tempo pra finalizar, então passei a tentar outros estilos e os personagens antropomorfizados surgiram. Eles pareciam encaixar no tipo de histórias que eu queria contar: fábulas. Acredito que eles também sejam mais universais. Todo mundo consegue se identificar com o Pato Donald ou o Mickey Mouse.

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Eu acompanho o seu blog e você gosta muito de filmes clássicos e antigos. Mas você também costuma fazer comentários sobre blockbusters. Você tem algum gosto em particular para filmes ou topa assistir qualquer coisa que chegue a você?

Hoje estou mais por fora de filmes do que há alguns anos. Escrevo menos resenhas e assisto menos filmes. Ocasionalmente vejo algum filme da Marvel ou algum Missão Impossível e ainda me divirto com eles caso sejam bem feitos. Caso contrário eu prefiro filmes mudos ou produções dos anos 70, de qualquer gênero, de verdade. Seja western, ficção científica ou noir. Gosto de diretores com visões peculiares, como Jim Jarmusch, Hal Hartley, Wes Anderson e Aki Kaurismâki.

No blog você falado muito sobre as suas leituras das obras do Julio Cortázar. Há algum motivo em particular para a leitura desses trabalhos recentemente? O que mais você tem lido, visto e ouvido recentemente que recomendaria?

Sim, eu descobri o Cortázar recentemente, senti uma conexão muito grande com o trabalho dele. Por enquanto só li seus contos, ainda não li nenhum dos romances. Gosto do mistério e da ambiguidade de seus trabalhos. No momento estou lendo o livro mais recente do John Irving, mesmo sendo um pouco longo e não sendo seu melhor trabalho. Ainda gosto de livros dele como The Hotel New Hampshire e Cider House Rules. Tenho tentado ler vários clássico que havia evitado até então, como Kafka, Camus e Joyce. Espero encarar Ulysses ainda esse ano. Além de Cortázar, o Denis Johnson é provavelmente minha descoberta mais recente. Jesus’s Son e Angels são livro incríveis. Como disse, tenho visto menos filmes. Gostei de O Lagosta.

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