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Entrevistas / HQ

Papo com João Pinheiro, autor de Depois que o Brasil Acabou: “Ser um país vermelho é nosso destino manifesto desde o nome”

Depois que o Brasil Acabou reúne trabalhos do quadrinista João Pinheiro publicados na revista Cavalo de Teta, na coletânea Na Quebrada – Quadrinhos de Hip Hop #1, no blog da editora Veneta, no programa Convida do Instituto Moreira Salles e outros títulos. São HQs e ilustrações produzidas pelo autor a partir do golpe contra Dilma Rousseff em 2016, centradas na ascensão de Jair Bolsonaro e no caos do Brasil em meio à pandemia do novo coronavírus.

“O recorte para o livro foi reunir essas HQs que tratam da vida social brasileira dos últimos cinco anos”, me contou o autor sobre a coletânea recém-publicada pela editora Veneta.

Pinheiro é autor de Kerouac, (2011), Burroughs (2015), Carolina (2016, em parceria com Sirlene Brabosa) e Diário Vagulino: Desenhos das Quebradas (2017). Depois que o Brasil Acabou consiste em registros das perspectivas e leituras de um dos autores mais relevantes da cena nacional de HQs sobre um país em crise crescente. São histórias curtas, com propostas e abordagens distintas de trabalhos prévios do autor, tanto trágicas quanto divertidas.

Na conversa a seguir, Pinheiro fala sobre suas inspirações, suas técnicas e suas avaliações sobre o Brasil contemporâneo. Saca só:

“Voltamos a ser uma colônia extrativista”

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas por aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

Estamos caminhando, é a resposta mais positiva que consigo dar. Ainda é difícil avaliar, mas parece acertado dizer que essa pandemia será um trauma coletivo para várias gerações. Aqui, aos poucos, fomos nos acostumando com a rotina de cuidados e restrições que, no meu caso, não foi tão alterada na questão do isolamento, já que trabalho a maior parte do tempo em casa há mais de dez anos. Em 2020 fiquei alguns meses paralizado, sem conseguir produzir, apenas trabalhando no necessário pra pagar as contas, mas sem ânimo pra criar nada pessoal. 

João, você pode contar um pouco sobre as origens de Depois que o Brasil Acabou? O álbum reúne trabalhos publicados por você apenas na internet ou em publicações de tiragens menores. Você já tinha em mente reunir esses trabalhos um dia? Qual foi o recorte, o filtro editorial de vocês, durante o processo de edição desse livro?

A origem foi a criação do zine Cavalo de Teta, que começou quando conheci pessoalmente meu ídolo Schiavon, em 2016, durante as manifestações dos book blocs, quando participei com meu escudo do Abajur Lilás, de Plínio Marcos, e o Schiva tava lá com o escudo que reproduzia a capa da revista Dundum número 1. Trocamos ideia e nos identificamos. Depois, quando da ocasião da Ugra Fest, que rolou no SESC Belenzinho, combinamos de fazer um zine, 12 páginas de cada e tal (ele mesmo escreveu sobre aqui). Na empolgação falei de chamar outros caras que eu acompanhava e curtia: Gerlach, Evandro Alves e MZK. Logo na primeira edição pensei no bordão: ‘Cavalo de Teta, a primeira revista pós-Brasil do mundo’. Infelizmente não era um exagero de retórica, pois o clima do golpe já estava todo lá e as garras do imperialismo já faziam sombra do Oiapoque ao Chuí. No entanto, as HQs foram sendo feitas sem a ideia pré-concebida de reuní-las no futuro. Eu estava com vontade de fazer histórias curtas, de experimentar abordagens diferentes e, ao mesmo tempo, de fazer uma revista que fosse divertida para quem lesse. O recorte para o livro foi reunir essas HQs que tratam da vida social brasileira dos últimos cinco anos. 

Página de Depois que o Brasil Acabou, obra de João Pinheiro publicado pela editora Veneta (Divulgação)

Você pode falar, por favor, sobre a escolha do título? Como vocês chegaram em Depois que o Brasil Acabou? Por que esse título?

Inicialmente eu havia sugerido esse título: Quadrinhos Pós-Brasil, porque era uma expressão constante que utilizei durante esse último período pra divulgar a Cavalo de Teta. Porém, o Rogério [de Campos, editor da Veneta] sugeriu Depois que o Brasil Acabou, e eu achei que soava melhor e amarrava bem o conteúdo geral da coletânea. Batemos o martelo nessa segunda opção. Para mim o título não é uma hipérbole, pois acho que realmente deixamos de ser um país oprimido, mas com algum desenvolvimento econômico autônomo, para nos tornarmos uma neocolônia dos EUA e demais países dominantes do capitalismo. 

Aliás, você consegue estabelecer algum ponto específico na nossa história em que esse pós-Brasil tem início? Em meio aos vários ocorridos trágicos recentes, você consegue estabelecer algum fato ou conjunto de eventos em particular que impulsionou a chegada da nossa atual realidade?

A história recente do Brasil é complexa e seriam necessários vários volumes pra dar conta de tantos golpes sucessivos aplicados contra o povo somente nessa quadra histórica que abrange o final da ditadura militar, em 1985, e a chamada Nova República até os dias atuais. Mas resumidamente, e sem querer defender tese sobre o assunto, apenas como um cidadão de 40 anos que presenciou isso tudo da periferia dos acontecimentos, vejo que o povo derrubou a ditadura com as manifestações populares, greves, movimento estudantil etc… Acuados, a burguesia e os militares prepararam o primeiro golpe, que foi o de sequestro dessa luta pelas oligarquias e a consequente eleição indireta do cidadão chamado Tancredo Neves, avô do Aécio Neves, mas provavelmente mais eficaz na arte de realizar maldades contra o povo por ser um homem dos militares e do poder econômico. Daí esse cidadão teve um piripaque providencial e quem assumiu foi o líder dos militares no congresso: o ilmo. sr. José Sarney, que tinha sido o líder do Arena – principal partido militar. Transição melhor que essa não poderia existir, do ponto de vista dos militares é claro. Em seguida, a burguesia fabricou o Collor, com todo seu poder financeiro e midiático, e foi aquele desastre que conhecemos.  Após o governo Itamar, finalmente Fernando Henrique eleito, começa a implementação da política neoliberal que deu início às privatizações de várias estatais importantes seguindo as orientações do Consenso de Washington e FMI. Ali começa verdadeiramente a liquidação do país que levou milhões de brasileiros à fome e liquidou parte substancial da indústria nacional que vinha sendo construída pelo menos desde os anos 1930.

No início desse século o país estava em pedaços e milhares morriam de fome. Nessa situação, o Partido dos Trabalhadores assumiu o governo em 2003 e, através de uma série de programas sociais, conseguiu conter a explosão social que já ocorria concomitantemente nos países vizinhos da América Latina, como resposta desses povos por problemas muito semelhantes. Com algumas concessões, o governo petista conseguiu governar por três mandatos, mas após a crise capitalista de 2008, os capitalistas nacionais e internacionais viram a necessidade de retomar a sanha privatista a fim de salvar o capitalismo agonizante. Ou seja, a alternativa deles diante da crise, foi fazer com que os países pobres do globo paguem a conta da crise. O golpe de 2016 foi dado para retomar essa política iniciada lá atrás de liquidação do país e para os golpistas do momento a ordem é privatizar tudo, liquidar o país. Estão conseguindo. A aprovação do teto de gastos, da autonomia do Banco Central, a retirada de direitos dos trabalhadores etc… Tudo configura a perda total de nossa soberania. Voltamos a ser uma colônia extrativista. 

Acho que Depois que o Brasil Acabou é uma grande amostra da sua versatilidade, tanto em termos de estilo de desenho quanto em termos de investidas em diferentes gêneros. Fico curioso em relação aos seus critérios para optar por uma ou outra abordagem e estabelecer esse ou aquele traço para uma determinada HQ. Como funciona esse processo para você?

Eu sou mais fascinado pela linguagem dos quadrinhos do que por algum estilo, autor ou gênero específico. Acho que ideias são mais legais de seguir do que um estilo. Nos meus diários gráficos sempre experimentei com diferentes abordagens e quando decidi fazer histórias curtas para publicar na Cavalo, achei que era uma boa oportunidade de colocar pra jogo essas propostas diferenciadas. No geral procurei me manter mais fiel a ideia, e ao que determinado argumento pedia, do que a um estilo específico. 

“Acho que ideias são mais legais de seguir do que um estilo”

Página de Depois que o Brasil Acabou, obra de João Pinheiro publicado pela editora Veneta (Divulgação)

Você pode me falar um pouco sobre as suas técnicas preferidas? Quais são os materiais que você costuma usar com mais frequência? Há alguma técnica predominante nos seus trabalhos em Depois que o Brasil Acabou?

O que eu mais gosto é do bico de pena e nanquim sobre papel Bristol. Mas nesse livro temos algumas histórias que foram desenhadas totalmente no computador.

Tem dois trabalhos seus em Depois que o Brasil Acabou com a presença de cores. São cores discretas e usadas com parcimônia, mas estão lá. A maior parte dos seus trabalhos publicados até hoje é em preto e branco. Você tem alguma preferência em particular pelo preto e branco? Como foi essa experiência trabalhando com cores?

Sempre preferi os quadrinhos em preto e branco. Um dos primeiros gibis que lembro de ter lido, foi um do Conan do meu irmão mais velho. Era desenhado pelo John Buscema, com toda aquela elegância que lhe é característica. Depois tiveram as revistas nacionais que em sua imensa maioria eram em PB também. É meio que minha escola. Sei que naquela época as publicações também eram publicadas desse modo por questões econômicas, mas como essas histórias a que você se refere, foram feitas para serem publicadas na internet, aproveitei para usar esse recurso a mais onde auxiliasse a narrativa. 

E é fácil para você alternar os seus “modos de produção”? Digo, é tranquilo para você ir do “João galhofeiro e bem-humorado” de alguns desses trabalhos para o “João mais reflexivo e sóbrio” de outros? A experiência de produção para você é muito distinta, por exemplo, quando você está trabalhando em uma Cloro Maldita de uma Farol de Quebrada?

Sim, porque, na verdade, na infância e na adolescência, eu fazia mais HQs de humor do que ‘sérias’. Meu estilo era mais cartum, mas depois que publiquei meu primeiro livro, um estilo mais realista passou a prevalecer. Até agora. 

Página de Depois que o Brasil Acabou, obra de João Pinheiro publicado pela editora Veneta (Divulgação)

O que mais te interessa hoje na linguagem das histórias em quadrinhos?

Eu sou completamente tarado pela linguagem das histórias em quadrinhos. Os desenhos separados por quadros ou não, o balão e as letras que funcionam como desenhos também, a leitura muito rápida desses vários elementos. Tudo isso é fascinante. Mas o principal é contar histórias.

Acho que Depois que o Brasil Acabou faz um panorama e um registro muito precisos do Brasil pós-golpe. Você fez quadrinhos sobre os golpistas logo após o golpe, escreveu sobre o Temer enquanto ele estava no poder, tratou do início do governo Bolsonaro com ele em curso e fez trabalhos sobre a pandemia ainda no começo dela. Como é para você a experiência de produzir todos esses trabalhos no calor do momento? 

Ao mesmo tempo, me angustia e me obriga a refletir e pesquisar pra tentar entender o que aconteceu. Parafraseando o cineasta Jeferson De: só de raiva, desenho com amor. 

Página de Depois que o Brasil Acabou, obra de João Pinheiro publicado pela editora Veneta (Divulgação)

João, você consegue fazer alguma previsão para o futuro do Brasil? Você consegue vislumbrar alguma perspectiva de melhora para o país?

É muito difícil prever essas coisas que dependem de muitos fatores, mas sim, acho que o povo um dia vai fazer a revolução no Brasil. E pra desespero dos lunáticos direitista só digo o seguinte: Brasil significa Vermelho como uma brasa. Ser um país vermelho é nosso destino manifesto desde o nome. 

No que mais você está trabalhando no momento, João? Você tem algum outro quadrinho em vista para um futuro próximo? Alguma perspectiva para um possível novo número da Cavalo de Teta?

Estou finalizando uma adaptação da peça Barrela, de Plínio Marcos, para os quadrinhos e minha HQ A Tragédia dos Cães até o final deste ano. Inclusive, a HQ dos Cães tem um site onde pretendo publicar o processo e extras periodicamente.

Eu gostaria muito de fazer uma nova edição da Cavalo de Teta. Se sobrevivermos, vou tentar convencer meus parceiros pra fazermos algo pro ano que vem. 

Você pode recomendar algo que tenha visto, ouvido ou lido recentemente?

Tenho lido HQs brasileiras dos anos 70/80, principalmente de terror. Redescobri uma caixa de HQs antigas com trabalhos do Elmano Silva, Mozart Couto, Shimamoto, Flavio Colin, E.C. Nickel, Watson Portela, Rodolfo Zalla, Jayme Cortez, Eugênio Colonnese… Foi incrível relê-los tantos anos depois e perceber o quanto estão impregnados no meu trabalho sem que eu me desse conta. Também estou lendo toda a obra do William Blake e sua biografia, além de textos sobre as seitas gnósticas do início da era cristã. É um tema fascinante. 

A capa de Depois que o Brasil Acabou, obra de João Pinheiro publicado pela editora Veneta (Divulgação)
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Farol de Quebrada, por João Pinheiro

Você ficou sabendo de Farol de Quebrada, HQ do João Pinheiro disponível de graça, na íntegra, no site do Instituto Moreira Salles? Uma pérola desse 2020, viu? Coautor de Carolina, em parceria com Sirlene Barbosa, e autor de Burroughs e Kerouac, o artista faz uma pequena crônica sobre o período dele em isolamento social no Jardim Brasília, distrito da Cidade Líder, zona leste de São Paulo, e a impacto da pandemia do novo coronavírus na região.

O quadrinho foi produzido como parte do Programa Convida, no qual artistas e coletivos convidados pelo Instituto Moreira Salles desenvolvem projetos durante a quarentena. Reproduzo a primeira página da HQ do João Pinheiro mais abaixo e deixo aqui o link para a leitura do resto da obra.

Os cartunistas brasileiros estão fazendo um trabalho imenso de registro do momento trágico que estamos vivendo, desse combo pandemia + desgoverno. No calor do momento, ainda no olho do furacão, é improvável a publicação de quadrinhos longos tratando da realidade em todas as suas nuances. As sete páginas de Farol de Quebrada fazem isso. Tremendo quadrinho e grande registro para o nosso futuro.

A primeira página de Farol de Quebrada, HQ de João Pinheiro publicada no site do IMS
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Cavalo de Teta: confira a capa e uma prévia do terceiro número da revista editada por João Pinheiro

Tá virando tradição as capas matadoras da Cavalo de Teta. Depois do Temer de Lex Luthor líder da Liga da Injustiça na primeira edição e do bonecão do Moro no segundo número, a terceira é assinada por Diego Gerlach mostrando a real de um encontro entre Jair Bolsonaro e Donald Trump.

A Cavalo de Teta foi criada em 2017 pelo quadrinista João Pinheiro, editor do projeto, na companhia de MZKGerlachSchiavon e Evandro Alves. O segundo número contou com uma participação do escritor Ferréz e o convidado especial da vez é o quadrinista Rafa Campos Rocha.

A Cavalo de Teta #3 será lançada na Butantã GibiCon, em São Paulo, no dia 1º de dezembro. Recomendo uma lida na minha entrevista com Gerlach e Pinheiro na época do lançamento da segunda edição e deixo o preview da terceira que o João Pinheiro liberou aqui pro blog:

Página de Cavalo de Teta #3, revista editada pelo quadrinista João Pinheiro
Página de Cavalo de Teta #3, revista editada pelo quadrinista João Pinheiro
Página de Cavalo de Teta #3, revista editada pelo quadrinista João Pinheiro
Página de Cavalo de Teta #3, revista editada pelo quadrinista João Pinheiro
Página de Cavalo de Teta #3, revista editada pelo quadrinista João Pinheiro
Página de Cavalo de Teta #3, revista editada pelo quadrinista João Pinheiro
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Papo com João Pinheiro e Diego Gerlach, autores da Cavalo de Teta #2: “Saímos da condição de país soberano e ‘democrático’ para uma nova colônia em apenas dois anos”

A segunda edição da revista Cavalo de Teta será lançada amanhã (3/11), no primeiro dia da Feira Des.Gráfica 2018, realizada no Museu da Imagem e do Som de São Paulo. A publicação é editada pelo quadrinista João Pinheiro e conta com HQs de autoria dele e outros quatro artistas: Alves, Diego Gerlach, MZK e Schiavon. Autor de obras como Keuroac, Burroughs e Carolina (em parceria com Sirlene Barbosa) e idealizador da Cavalo de Teta, João Pinheiro respondeu a algumas perguntas enviadas a ele sobre o desenvolvimento desse segundo número da revista e alguns dos temas abordados na publicação. A conversa ainda conta com a contribuição de Gerlach para duas perguntas.

Na entrevista, os artistas justificam o subtítulo ‘Edição Pós-Brasil’ na capa da revista, analisam causas e consequências da vitória de um presidente de extrema-direita nas eleições presidenciais brasileiras de 2018, cogitam possibilidades para o futuro da revista e refletem sobre o papel potencial das histórias em quadrinhos em tempos de reacionarismo aflorado. “A arte tem papel fundamental em tempos difíceis, tradicionalmente é quando o público mais corre atrás de entretenimento e reflexão em torno do caos cotidiano”, diz Gerlach. Saca só:

“Os 350 anos de escravidão deixaram traumas profundos na nossa alma e problemas estruturais na sociedade”

Vocês chamaram esse segundo número da Cavalo de Teta de ‘Edição pós-Brasil’. O que vocês querem dizer com esse subtítulo?

João Pinheiro: Quer dizer que venderam o Brasil. Que o Brasil, como nós conhecíamos, acabou de fato. Depois que a casa grande surtou e botou seus capatazes pra correr com os ‘escravizados’ de volta pra senzala à força, uma pá de ideia furada sobre o brasileiro foi pro saco (só pra quem ainda não sabia, claro): ‘Somos um povo miscigenado que convive harmoniosamente e não há racismo ou preconceito social’. Mentira. A maioria dos brasileiros não conhece cidadania e os 350 anos de escravidão deixaram traumas profundos na nossa alma e problemas estruturais na sociedade. Tivemos a oportunidade de olhar no espelho e o reflexo assustou muita gente. E depois, saímos da condição de país soberano e ‘democrático’ para uma nova colônia em apenas dois anos, pois pra a classe dominante, que tomou o poder à força em 2016, foda-se esse lance de soberania popular. Brasil? Pátria? Piada. Estão pouco se lixando pro povo. Na verdade, odeiam o povo. Se acham donos do país, são um punhado de gente, e são desde sempre entreguistas e predadores vorazes, escravagistas e mafiosos. Voltamos a ser a Terra de Vera Cruz, mas agora sob o julgo do imperialismo norte americano. Por isso pós-Brasil.

Você poderia me contar um pouco sobre a produção desse segundo número? Como foi a dinâmica do seu trabalho com o Alves, o Gerlach, o MZK e o Schiavon? Foi muito diferente do processo do primeiro número?

João Pinheiro: Mantemos um grupo de mensagens onde trocamos ideias e informações, mas cada um tem total liberdade para criar a partir do tema sugerido. Nosso papo é muito informal e no final das contas meu único trabalho e encher o saco dos manos com prazos e coordenar a finalização da revista. Nesse sentido, a Cavalo de Teta acaba sendo resultado de uma criação coletiva de fato. Preciso dizer que esses caras, meus cupinchas, são gênios da HQ nacional que admiro fanaticamente e a quem hoje tenho orgulho de chamar de amigos, e eles não dão ponto sem nó.

“A imagem da capa é uma extensão dessa ‘festa nacional’ que reúne os cidadãos de bem fascistas, membros do poder judiciário, batedores de panela com suas camisas da CBF, o sapo da Fiesp, a representação da justiça embriagada dançando no centro furando o boneco do ex-presidente Lula com sua espada enquanto tucanos voam livres ao redor de um Sérgio Moro gigante com chapéu de tio Sam”

Eu gostei muito da capa da revista. Me fale sobre ela, por favor? O que você quis retratar nessa arte?

João Pinheiro: A ideia da capa pintou quando vi as fotos de uma festa organizada pelo dono do Bahamas, Oscar Maroni, em comemoração ao decreto de prisão de Luiz Inácio Lula da Silva. Na foto, divulgada fartamente nas redes na época, o tipo, vestido de irmão metralha, subjuga uma mulher nua tapando sua boca com uma das mãos num gesto extremamente agressivo, em cima de um palco rodeado por marmanjos em êxtase engolindo suas bebida grátis (segundo a imprensa foram distribuídas 9.000 latas de cerveja); Acima dele, no palco montado em frente ao Bahamas, uma espécie de altar exibia as fotos dos juízes Cármen Lúcia, do STF, e Sérgio Moro, responsável pela Lava Jato. Toda aquela encenação me pareceu a iconografia do horror e um instantâneo do proto-fascismo que levantou o pescoço desde 2013 nos espaços públicos e que finalmente, hoje já sabemos, saiu vitorioso de todo esse processo fraudulento ‘elegendo’ um candidato abertamente fascista. A imagem da capa é uma extensão dessa ‘festa nacional’ que reúne os cidadãos de bem fascistas, membros do poder judiciário, batedores de panela com suas camisas da CBF, o sapo da Fiesp, a representação da justiça embriagada dançando no centro furando o boneco do ex-presidente Lula com sua espada enquanto tucanos voam livres ao redor de um Sérgio Moro gigante (estilo boneco de Olinda) com chapéu de tio Sam. Muita bebida, talheres chiques, milionários e um representante da fé ali no meio da muvuca. Obviamente a capa é muito mais suave e chega a ser ingênua perto da cena distópica do horror que a inspirou.

Algumas das HQs da Cavalo de Teta #2 tratam de possíveis causas e desdobramentos do contexto político em que estamos inseridos. Você vê algum ponto de origem fundamental pra essa nossa realidade atual? E o que você imagina para o nosso futuro?

João Pinheiro: É complexo, mas acredito na tese de que a guinada à extrema direita no Brasil, mas que também está ocorrendo em vários outros países, segue a agenda imposta pelo sistema financeiro global centrado em Wall Street – que domina virtualmente o Ocidente inteiro – e não podia simplesmente aceitar a soberania nacional, em sua completa expressão, de um ator regional da importância do Brasil. Segundo essa tese, a ofensiva começa a ser posta em prática já em 2006 e se acentua a partir da crise financeira internacional de 2008 que arrasou a economia mundial. Como dizem: siga o dinheiro. Daí, para implementar as tais reformas (fiscal e tributária) exigidas pelo mercado foi preciso destruir a nossa já falha democracia com o auxílio de agentes internos que pudessem ser corrompidos, começando pelo sistema judiciário e legislativo aliados aos barões da mídia – que incapazes de apresentar um projeto para o país, haviam sido derrotados em quatro eleições consecutivas. Estamos no meio de uma guerra com o imperialismo e até agora estamos levando um cacete daqueles.

Ninguém consegue prever ao certo o que vai acontecer, mas acho que a possibilidade de um golpe militar aberto não pode ser descartada. Além disso, alguns economistas preveem uma nova crise financeira mundial a estourar a partir do ano que vem e parece que a tomada das riquezas naturais brasileiras (petróleo, Aquífero Guarani, Amazônia, minério e etc) são fundamentais no fechamento das contas do dito mercado e principalmente para salvar a economia norte americana.

Diego Gerlach: O começo do nosso fundo do poço foi em Junho de 2013, quando a insatisfação com a crise econômica que se anunciava explodiu, usando o reajuste dos preços das passagens de ônibus como fagulha, o que iniciou uma série de protestos violentos que, além de explicitarem uma insatisfação até então não-articulada, geraram um efeito dominó de equívocos, que enfraqueceu a base do governo e abriu espaço amplo para o populismo de direita. No Brasil, a bomba caiu no colo do PT (envolvido numa série de escândalos de corrupção que receberam incessante cobertura midiática), mas o bom-senso indica que poderia ter sido qualquer outro partido. Junho de 2013 começou a terminar quando foi divulgado o resultado das eleições de domingo passado.

A minha HQ pra CdT2 se situa num hipotético futuro pós-apocalíptico no Planalto Central. No meu caso, a eleição do Bolsonaro figura como detalhe quase incidental na história (o foco principal da HQ é meu asco em relação a religiões organizadas), era algo que já estava no ar fazia algum tempo, mesmo que eu (e quase metade dos eleitores do Brasil) tenhamos feito o possível pra evitar que isso acontecesse. Brexit me surpreendeu (e olha que vivi na Inglaterra por quase três anos na década passada). Já a eleição de Trump nem tanto. E isso porque pouco antes das eleições americanas de 2016 assisti Hypernormalization, documentário político do inglês Adam Curtis, que parecia também já ter captado as cataclísmicas mudanças em andamento e deixava no ar a provável eleição do POTUS twitteiro. Acho Hypernormalization e também o livro Capitalist Realism, de Mark Fischer, fundamentais pra entender o momento atual do ocidente. Em comum, as duas obras explicam onde as esquerdas se perderam (e onde podem se reinventar), e o imenso preço que o capitalismo avançado (onde corporações são mais poderosas que qualquer estadista, e líderes só se veem capazes de inspirar as massas ao propor mudanças radicais e em grande medida irrealizáveis) cobra da nossa psique e do tecido social como um todo, nos conduzindo aos atuais momentos de crise.

E, no momento, não há consenso na esquerda. Dentro da própria CdT2, tivemos discussões muito interessantes, mas que não apontavam necessariamente para uma concordância plena, apenas um apaziguamento em torno de objetivos imediatos (impedir o avanço do fascismo).

Qual você acredita ser o potencial das histórias em quadrinhos dentro desse contexto de conservadorismo aflorado em que estamos afundando?

João Pinheiro: Vejo como potencial pólo de resistência cultural, mas infelizmente ainda com muito pouco alcance. Por outro lado, os chargistas, na minha opinião, são o que há de melhor da crítica política feita nesse último período.

Diego Gerlach: A arte tem papel fundamental em tempos difíceis, tradicionalmente é quando o público mais corre atrás de entretenimento e reflexão em torno do caos cotidiano. Só espero que reste alguém disposto a ler, e a que as ameaças de censura que pairam no ar não se confirmem. Porque se elas se confirmarem, nós vamos ter que intensificar o foco ainda mais, rir ainda mais do meme perigoso que nosso país optou por eleger.

Qual é o futuro da Cavalo de Teta? Vocês já têm planos para uma terceira edição?

João Pinheiro: Sim, temos e se possível gostaria de ampliar a revista convidando outros autores a participar. Porque o Brasil pode acabar, mas os quadrinhos não.

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Cavalo de Teta: confira a capa e uma prévia do segundo número da revista editada por João Pinheiro

Maravilha essa capa do segundo número da Cavalo de Teta, hein? O quadrinista João Pinheiro prometeu pra novembro o lançamento de mais uma edição da coletânea capitaneada por ele, com quadrinhos de MZK, Diego Gerlach, Schiavon e Evandro Alves – dessa vez com uma participação especial do escritor Ferréz. Enquanto no primeiro número, publicado no ano passado, a proposta era ser um “gibi na medida pro nosso atual Brasil Fazendão”, a promessa do editor pra essa segunda edição é que ela está “maravilhosamente apocalíptica – igualzinho na vida real”. Tô curioso aqui, viu? Saca só essa prévia divulgada lá no site do João Pinheiro:

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Estão abertas as inscrições para o curso Criando Quadrinhos, com o quadrinista João Pinheiro, em São Paulo

Estão abertas as inscrições para o curso Criando Quadrinhos, organizado pelo quadrinista João Pinheiro. São quatro aulas, com duas horas de duração cada, entre os dias 4 e 7 de dezembro, sempre das 19h às 21h, na sede da editora Veneta, no centro de São Paulo. São 20 vagas e a matrícula sai por R$300. Beeem massa, hein? Keuroac, Burroughs e Carolina são grandes quadrinhos e o João Pinheiro é um dos artistas mais interessantes da atual cena brasileira de HQs. Eu acho uma tremenda oportunidade pra aprender sobre gibis com um dos melhores. E só pra não deixar passar, segundo o pessoal da Veneta, esse é a apenas o primeiro de uma série de cursos organizado na sede da editora. Promissor isso, hein? Ó a sinopse do curso do João Pinheiro:

Criando Quadrinhos, por João Pinheiro

1º aula
-Introdução às Histórias em Quadrinhos, análise de gibis clássicos e contemporâneos
-Linguagem visual icônica dos quadrinhos (imagens narrativas, ritmo, composição, clareza e persuasão)
-Ferramentas básicas de trabalho
-Atividade: desenho espontâneo de signos sugeridos

2º aula
-Análise de HQs industriais (Disney, Maurício de Souza, Marvel e DC)
-Anatomia expressiva
-Cartuns de um quadro
-Realismo e estilização
-Página simples
-Atividade: Das coisas nascem as coisas. Refazer uma página de quadrinhos a partir de uma pré-existente, aplicando alterações na forma e no conteúdo, a fim de criar uma nova página original

3º aula
-Uso de referências – documentação (das coisas nascem as coisas – “plágio ?”)
-Ideia, o primeiro átomo
-Desenvolvimento da ideia – argumento, storyline
-Roteiro
-Atividade: produção de HQ

4º aula
-Atividade: produção de HQ

Dias 4, 5, 6, 7 de dezembro – das 19h às 21h
Local: Editora Veneta – Rua Araújo, 124, 1º Andar, República, São Paulo, SP
Valor: R$ 300,00
Público: interessados por quadrinhos a partir de 12 anos.
20 vagas
Material incluído