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Entrevistas / HQ

Papo com Lobo Ramirez, autor de Supermercadinho Brasil: “Tentei me aventurar na dimensão das palavras”

Uma criança foi assassinada em um mercado. Dez pessoas estavam no estabelecimento no instante do ocorrido, todas são suspeitas do crime. As 72 páginas em preto e branco de Supermercadinho Brasil, nova HQ Lobo Ramirez, são focadas na investigação da morte da criança e na interação entre os indivíduos presentes no local quando o corpo foi encontrado.

Entre os suspeitos constam um policial com impulsos assassinos, uma senhora extremamente religiosa, um segurança racista, um rapaz com trejeitos de incel e outros tipos representativos da sociedade brasileira.

Publicada pela Escória Comix, selo do próprio autor da obra, Supermercadinho Brasil é marcada pela arte limpa, ao contrário das muitas hachuras e retículas que caracterizam Asteroides – Estrelas em Fúria, trabalho prévio de Ramirez. Também chama atenção a alternância entre as longas cenas de diálogo e as sequências de perseguição e extrema violência.

“Tentei claramente uma experimentação com diálogos, criando tensão, clima e suspense apenas com os verbetes certos”, diz Ramirez. Na conversa com o blog ele também falou sobre seus métodos de trabalho, tratou do desenvolvimento dos personagens de sua nova obra e lamentou o impacto da pandemia nas operações de sua editora.

Além de grande editor, Ramirez mostra-se também um autor versátil, crítico e engraçado. Supermercadinho Brasil é dos lançamentos mais certeiros dos quadrinhos brasileiros nesse primeiro semestre de 2020. A seguir, minha conversa com o artista:

“A serena calma de um monge guerreiro

Quadro de Supermercadinho Brasil, obra de Lobo Ramirez publicada pela Escória Comix

Queria começar sabendo como você tá lidando com a pandemia. Você tá conseguindo produzir durante esse período? Essa realidade de isolamento social afetou de alguma forma os seus trabalhos?

Putz, no começo disso tudo dei aquela travada, a cabeça despirocou e não consegui fazer nada, mas depois voltei ao normal, que já era o isolamento social mesmo, e agora estou produzindo normalmente. Se eu parar de desenhar aí que fico louco de vez. Foi o trabalho que me salvou.

E como seguem as operações da Escória Comix dentro desse mesmo contexto? Você já consegue dimensionar o impacto da pandemia para a editora?

Bom, justo esse ano, que eu tinha arranjado um calendário maneiro bem grandão e já tinha várias datas marcadas, com grandes estratégias de marketing, aconteceu essa pandemia. Eu quis rasgar tudo e jogar fora, mas mantive a serena calma de um monge guerreiro e tentei focar no que dava pra ser feito, assim sendo, as operações continuam enquanto os Correios funcionarem, mas vamos ir mais devagar nos lançamentos.  O impacto por enquanto é de apenas uma martelada bem forte no joelho, mas daquelas bem dada mesmo, que tu até cai no chão, mas ainda pode rastejar. 

“Se essa é a nova realidade, que assim seja”

Quadros de Supermercadinho Brasil, obra de Lobo Ramirez publicada pela Escória Comix

Você chegou a fazer uma enquete nas redes sociais perguntando o que as pessoas achavam de lançar agora ou não o quadrinho novo. Por que você decidiu lançar apesar da pandemia, das lojas fechadas e dos eventos suspensos?

Normalmente eu não faria essa enquete, porém tempos desesperados exigem medidas desesperadas e, para o meu espanto, 99,9% das pessoas disseram para lançar o quadrinho novo apesar do fim do mundo. Sendo assim, me senti seguro para lançar, afinal a previsão é que vai demorar para ter qualquer evento ou loja aberta, então não tem motivo para ficar esperando o mundo melhorar, até porque a tendência é piorar. Se essa é a nova realidade, então que assim seja.

Quadros de Supermercadinho Brasil, obra de Lobo Ramirez publicada pela Escória Comix

Agora sobre a Supermercadinho Brasil. Como e quando surgiu a ideia para essa HQ? Houve algum ponto de partida para esse trabalho?

Não estou conseguindo lembrar direito  quando surgiu a ideia, mas eu basicamente queria fazer um HQ que tivesse mais coisa da nossa gloriosa nação brasileira, uns cenários bonitos que a gente vê por aí e algo que mais gente pudesse se identificar. Cheguei a desenhar 20 páginas em março de 2019, porém era outra história que eu percebi que ia acabar se alongando muito até chegar na CENA DO MERCADINHO.  Então, depois de avaliar bem, minha vontade de fazer outra HQ “longa” (mais de 100 páginas) e perceber que eu não queria passar meses no mesmo projeto, decidi fazer uma HQ apenas com a cena do mercadinho. A ideia ficou entubada em meu crânio durante o ano todo de 2019 e eu já estava adquirindo experiências de laboratório cada vez que adentrava um mercado. Quando começou janeiro de 2020  eu já comecei a desenhar SUPERMERCADINHO BRASIL, que estava prevista para ser lançada no FIQ. 

“É a técnica da bunda quadrada, lápis, borracha, caneta nanquim e Chamequinho”

Quadro de Supermercadinho Brasil, obra de Lobo Ramirez publicada pela Escória Comix

Quanto tempo você levou produzindo esse quadrinho? Quais técnicas utilizou?

Só a parte de desenhar mesmo, quando decidi sentar e começar pra valer, foram três meses e meio. E basicamente é a técnica da bunda quadrada, lápis, borracha, caneta nanquim e papel sulfite Chamequinho. Houve uma grande experimentação artística com pincel véio em umas páginas também.

Um dos pontos altos desse livro para mim são os personagens. Como você elencou os indivíduos que estariam presentes no cenário do quadrinho? Como você estabeleceu quais seriam as personalidades que estariam envolvidas com o mistério relatado no quadrinho?

Eu fui pensando em vários estereótipos que poderiam estar ali e no começo tinha muito mais personagens mas fui juntando alguns e no fim foram esses aí que ficaram, as personalidades tentei misturar um pouco de amigos e conhecidos, cada personagem é umas três ou quatro pessoas que eu conheço.

Quadros de Supermercadinho Brasil, obra de Lobo Ramirez publicada pela Escória Comix

Ainda sobre esses personagens, acho que tá bem explícito que você se propôs a trabalhar com estereótipos de figuras marcantes da sociedade brasileira dentro de um mesmo cenário, lidando com a resolução de um crime. De todas essas figuras caricatas que compõem a sociedade brasileira hoje, tem alguma em particular que é mais repulsiva para você?

Cara, de todas ali acho que a figura que eu mais odeio mesmo, de verdade verdadeira, aquele ódio odiento, é a figura da religiosa.

Grande parte desse quadrinho é centrado em cenas de diálogos. Você chegou a finalizar o roteiro todo da HQ antes de começar a desenhar? A produção desse trabalho foi muito diferente, por exemplo, do desenvolvimento de Asteroides?

Tentei me aventurar na dimensão das palavras nessa HQ, claramente uma experimentação com diálogos, tentando criar tensão, clima e suspense apenas com os verbetes certos. Creio que consegui uma grande profundidade com uma pequena gama de palavrões e ofensas gratuitas. Mais uma vez eu não tinha um roteiro finalizado, apenas uma ideia geral do que ia acontecer e uns rascunhos de páginas. O texto eu nem tinha noção do que ia escrever e por isso mesmo fui desenhando os balões sem texto, apenas sabendo a intenção do personagem ali, saca? Depois eu poderia escolher as palavras certas e seria mais fácil modificar qualquer texto. No Asteroides, por exemplo, fui desenhando e escrevendo na hora, essa foi a maior diferença.

“País horrível, deveria mudar o nome para Brasilquistão e usar logo um Rider como bandeira”

Quadro de Supermercadinho Brasil, obra de Lobo Ramirez publicada pela Escória Comix

Aliás, comparando com o Asteroides, Supermercadinho apresenta uma arte muito mais limpa, sem as hachuras desse livro anterior, por exemplo. Você pensou em trabalhar algum estilo específico ou se propôs a fazer algo diferente em enquanto concebia esse quadrinho novo?

Sim, é bem mais limpinho o SUPERMERCADINHO BRASIL. A real é que eu curto muito as hachuras e as retículas que usei no ASTEROIDES, mas a ideia era que isso ia me poupar tempo e eu gastei o dobro do tempo para colocar tudo no computador depois, então dessa vez tentei resolver a arte sem as lindas e gostosas retículas e para isso busquei me inspirar nos trabalhos do Lawrence Hubbard, Elmano Silva e Benjamin Marra.

Qual é a sua leitura para o Brasil hoje, com Bolsonaro, coronavírus e tudo mais? Você tem algum otimismo em relação ao nosso futuro? 

País horrível, deveria mudar o nome para Brasilquistão e usar logo um chinelo Rider como bandeira. Não tenho nenhum otimismo em relação ao futuro mas também nunca tive muito otimismo. Talvez a gente consiga restabelecer o feudalismo e dar sorte dos senhores feudais locais serem alfabetizados. 

A capa de Supermercadinho Brasil, obra de Lobo Ramirez publicada pela Escória Comix
Entrevistas / HQ



Papo com Lobo Ramirez, editor do selo Escória Comix: “O que realmente importa é a essência de ir contra qualquer pensamento ignorante, falsos moralismos e fanatismos”



Escrevi na segunda edição da Sarjeta, minha coluna sobre quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural, sobre os trabalhos dos quadrinistas e editores Lobo Ramirez e Panhoca à frente dos selos Escória Comix e Pé-de-Cabra. Comentei algumas obras publicadas por eles e chamei atenção para a importância dos disparates lançados pelos dois em tempos de conservadorismo crescente como aqueles que estamos vivendo.

Compartilho aqui no blog as entrevistas que fiz com os dois autores antes de escrever a coluna, tratando da história de seus selos, de algumas das percepções deles em relação à cena de HQs na qual eles estão inseridos e sobre planos futuros de suas editoras.

No papo com Lobo Ramirez, ele ainda lembra de seu primeiro contato com alguns dos autores de obras que hoje compõem o catálogo da Escória Comix – como Arame Surtado (Ketacop – A Anticop), Emilly Bonna (Esgoto Carcerário) e Victor Bello (O Alpinista). Você lê a Sarjeta #2 clicando aqui, lê a entrevista com Panhoca clicando aqui e lê a seguir a minha conversa com Lobo Ramirez. Ó:

“Eu precisava de um nome que deixasse bem claro qual era a linha da editora…”

Quadro de Victor Bello presente em Úlcera Vórtex

Como surge a Escória Comix? Quando surge a Escória Comix?

Não lembro exatamente, mas acho que foi 2013 ou 2014 que comecei a lançar o zine ESCROTUM pelo selo Gordo Seboso. Era de forma despretensiosa, só pela diversão de fazer quadrinhos e por conta disso comecei a frequentar feiras de publicações independentes, como a Feira Plana e a Ugra Fest. Fui entendendo a maneira que as editoras funcionavam e como era publicar de forma independente. Depois de um tempo fui percebendo que a maioria das publicações eu não gostava, nenhum problema em ter uma esmagadora maioria de material que a gente não gosta sendo publicado, mas eu  sempre senti falta de ter o meu nicho também, então em 2016 decidi começar uma editora que agrupasse autores que seguissem uma linha editorial bem clara e específica, quadrinhos toscos, radicais, mal-educados, grosseiros, vulgares, despretensiosos e por último mas não menos importante com humor. 

Eu sabia que se mantivesse o foco todo dia, toda semana, todo mês, todo ano, uma hora ia dar certo, e se não desse, pelo menos eu tentei e poderia desistir sem peso na consciência.  Sigo focado na Escória Comix.

Por que o nome Escória Comix?

Eu precisava de um nome que deixasse bem claro qual era a linha da editora. Na época eu estava lendo Transmetropolitan, do Warren Ellis, e tinha um termo no quadrinho que era Nova Escória, achei interessante e tomei o ESCÓRIA como nome. A ideia é que tudo que é considerado marginal, desprezível, insignificante, tosco, estranho  pela sociedade é a escória. 

“Aos poucos a Escória Comix vem se tornando autossuficiente”

A capa de Esgoto Carcerário, HQ de Emilly Bonna publicada pelo selo Escória Comix

Qual é o público dos quadrinhos da Escória Comix?

Existe o público que eu gostaria de estar atingindo, ou que eu acho que poderia atingir, e o público de fato. Vou me basear em parte numas estatísticas do Instagram e  Facebook pra responder essa pergunta. A maior parte é de São Paulo, depois vem as cidades de Rio de Janeiro, Curitiba, Brasília, Porto Alegre e Fortaleza. 48% do público é de pessoas entre 25 e 34 anos, 24% tem entre 18 e 24 anos e 20% de pessoas entre 35 e 44 anos, sendo 79% de homens. A maior parte, eu percebo, é de pessoas que estão acostumadas a consumir material independente e alternativo. No geral o público da Escória Comix é bem variado mas não tanto como eu gostaria. Existe uma parte que compra os quadrinhos e gosta e uma parte menor de leitores fiéis que SÃO a escória e tem a mesma paixão que eu com essa tosqueira. Sou eternamente grato a essa gangue. Quem é sabe. 

A Escória Comix é um negócio rentável? Você administra a editora dentro de algum plano de negócios?

Não é, mas aos poucos a Escória Comix vem se tornando autossuficiente. Administro tudo sozinho e sou desorganizado e nem tenho formação ou conhecimento na área. A verdade é que eu me baseio na tentativa e erro, algo deu certo, tento replicar, se deu errado, tento não repetir. Total intuição. Sempre penso o que gostaria publicar e depois o que preciso fazer para realizar, nessa entram os outros produtos, tipo bonés, meias, jaquetas, etc. Cada muamba comprada ajuda no custo dos quadrinhos, que ainda não vendem tanto para se tornarem rentáveis. 

A capa do segundo volume de Úlcera Vórtex, de Victor Bello

Você vive exclusivamente da Escória Comix?

Não. Eu trabalho com ilustração e desenho para tudo que alguém precisar, como rótulos de cerveja, camisetas, capa de álbuns, logomarcas, etc…

Qual o maior sucesso de vendas da Escória Comix?

Sem sombra de dúvidas, eu diria que é o Úlcerta Vortex – Volume I do Victor Bello, mas  não tenho exatamente os números em mãos, pode ser que o NÓIA- Uma História de Vingança, do Diego Gerlach, tenha vendido mais, ou o Asteróides, já que se encontra praticamente esgotado.  

Como foi o seu primeiro contato com o trabalho do Victor Bello? O que você vê de mais especial no trabalho dele?

Foi quando me indicaram o zine dele, Feto em Conserva. Foi uma explosão de frescor e diversão ler aquele zine A5, preto e branco, em sulfite, grampeado, simples, mas potente. O Victor Bello tem um traço próprio bem desenvolvido e claramente possui um estilo de narrativa com abordagem 

“Acho que a única influência que eu sempre tive nas obras é sobre a capa, de resto é totalmente com o autor, eu sou meio chato com a capa”

A capa de O Alpinista, de Victor Bello

Como foi o seu primeiro contato com o trabalho da Emilly Bonna? O que você vê de mais especial no trabalho dela?

O Luiz Berger me enviou uns perfis de Instagram de ilustradores que poderiam ser a cara da Escória e o mais foda era um que usava o nome de NECROSE , era a Emilly Bonna. Curti demais os desenhos nojentos de criaturas deformadas, sempre amei monstrinhos. Ela tem um traço próprio e, desde que conheci o trabalho dela, só a vejo melhorando .

Como foi o seu primeiro contato com o trabalho da Arame Surtado? O que você vê de mais especial no trabalho dela?

Mais uma vez eu acho que foi o Luiz Berger que me mostrou pelo Instagram e de cara já curti os desenhos dela, ela claramente tinha as mesmas referências que eu, ou bem parecidas: filmes trash dos anos 80 e muito heavy metal. 

Como foi o seu primeiro contato com o trabalho do Fabio Vermelho? O que você vê de mais especial no trabalho dele?

Foi em alguma Revista Prego e depois na Revista Pé-de-cabra.  Sem sombra de dúvidas, é o desenho dele, o uso de hachuras é um tesão, sempre gostei desse tipo de traço e o Fábio Vermelho realmente sabe usar.  Não tem uma pessoa que, mesmo não gostando, não diga que ele desenha bem.

“Estou fechando uma parte das publicações de 2020 e por enquanto tem umas sete, sendo três delas de autores que nunca foram publicados pela Escória”

Quadro de O Alpinista, de Victor Bello

Como foi o seu primeiro contato com o trabalho do Diego Gerlach? O que você vê de mais especial no trabalho dele?

Acho que foi com algum gibi que ele publicou pela Prego, talvez o Ano do Bumerangue, ou em alguma outra antologia, mas só fui conhecer mesmo o trabalho dele depois que a gente se conheceu pessoalmente numa Desgráfica (não lembro qual ano). O Gerlach chegou num nível de consciência do próprio trabalho que só alguém que produziu bastante e por um longo tempo chega. O domínio da linguagem e o uso dos símbolos do próprio quadrinho são os brinquedos dessa criatura abissal que, por algum motivo sinistro, não ascende ao alto escalão.

Como é a dinâmica do seu trabalho como editor com os autores da Escória?

A primeira vez que me falaram algo do tipo “bom trabalho de editor” eu fiquei sem entender, porque pra mim eu não estava fazendo nada. Eu perguntava se a pessoa queria fazer um quadrinho e o autor entregava, eu só precisava decidir junto com o autor a capa que seria mais legal e mandar pra gráfica, qual era o trabalho? Mas depois, principalmente nas últimas publicações, eu influenciei em grande parte, pedindo pro autor manter um certo número de páginas, mas também não deu certo porque eles não mantiveram – eu sempre digo que a prioridade era a história, se fosse ficar melhor, tudo bem. Acho que a única influência que eu sempre tive na obra é sobre a capa, de resto é totalmente com o autor, eu sou meio chato com a capa e acredito que ela tem que ser impactante, porque isso ajuda a própria divulgação e venda do quadrinho. 

Depois fui descobrir que editor é o cara chato que pede pro autor mudar coisas no PRÓPRIO trabalho. Eu até entendo que em muitos casos a visão de um editor pode melhorar a história, mas pra ser sincero sempre li as histórias dos autores da Escória e nunca tive vontade de mudar nada, meus comentários sempre foram de apoio e o quanto eu estava achando boa a história, mas aos poucos estou começando a propor algumas ideia, porém para isso o autor tem que estar aberto.  No geral, acho que total liberdade é o melhor caminho.

A capa de NÓIA – Uma História de Vingança, de Diego Gerlach

Qual balanço você faz das publicações da Escória em 2019?

Comecei esse ano com altas expectativas, pela primeira vez comprei um calendário daqueles que dá pra ver todos os meses de uma vez e anotei todas as minhas pretensões de lançamentos do ano, eram mais ou menos uns 12 ou 13 títulos e até agora acho que consegui publicar seis. Então o balanço é: pense alto, faça metade que já é muito. Estou feliz principalmente com a qualidade do material publicado em 2019, pra mim foi o melhor ano da Escória.  

Você tem alguma meta para os quadrinhos da Escória para 2020? Você tem em mente algum número de publicações para o próximo ano?

Acho que a meta é tentar manter o ritmo de publicações, ter uma certa frequência de material novo e fresquinho para nossos mutantes do esgoto.  Vou tentar arriscar umas coisas diferentes também em 2020 mas por enquanto não posso falar nada. Estou fechando uma parte das publicações de 2020 e por enquanto tem umas sete, sendo três delas de autores que nunca foram publicados pela Escória. 

“Os três pilares para a Escória continuar existindo são: vendas no site + não levar calote das lojas + feiras de publicação”

A capa de O Deplorável Caso do Dr. Milton, de Fabio Vermelho

O que você vê de mais interessante acontecendo hoje nos quadrinhos brasileiros?

Sinceramente, eu não sei. Quase não leio mais quadrinhos. Acho que talvez o surgimento de várias obras que são consideradas ‘graphic novels’?  Minha percepção é que a 10 anos atrás tinha mais antologias e agora parece que tem mais autores publicando quadrinhos fechados. Mas eu falo muito da cena independente, específica que eu vivo. Acho que também que a quantidade de mulheres fazendo quadrinhos, às vezes parece que tem um monte agora porque a percepção é de um lugar que não tinha quase nenhuma, mas na real ainda tem muito pouca mina, a tendência é só crescer, logo logo vai aparecer a próxima novela gráfica dos quadrinhos brasileiros que vai ser de uma autora. 

Vivemos tempos muito conservadores, qual você considera o papel de uma editora de quadrinhos underground como Escória dentro desse contexto?

Os “quadrinhos underground” fazem parte de uma contracultura que é totalmente oposta ao conservadorismo, mas já que você citou esse termo específico quero dizer que  não gosto de usar o termo underground comix ou quadrinhos underground, porque pode acabar virando apenas um rótulo estético de certas influências, que eu não nego que a Escória Comix tenha com certeza, a gente bebe da fonte, mas o que realmente importa é a essência de ir contra qualquer pensamento ignorante, falsos moralismos e fanatismos. Uma editora que se propõe a ser um caminho fora disso tudo precisa buscar sempre estar de acordo com essa essência dentro do que se propõe que é publicar quadrinhos.

Quadro de O Deplorável Caso do Dr. Milton, de Fabio Vermelho

Qual a importância de feiras e eventos de quadrinhos e publicações independentes para a manutenção das atividades da Escória? 

Importância VITAL, os três pilares para a Escória continuar existindo são: vendas no site + não levar calote das lojas + feiras de publicação.  Nenhuma dessas coisas por si só segura a bronca no fim do mês, mas todas elas juntas já dão um respiro e aquela injeção na parada toda. As feiras são pontos cruciais é quando a gente pode fazer lançamentos e ter aquela resposta instantânea, divulgar o trabalho direto no olho no olho, conversar com várias pessoas que estão no mesmo rolê e ver uma parte do que está sendo produzido no momento.   

A capa de Asteróides – Estrelas em Fúria, de Lobo Ramirez
Entrevistas / HQ

Papo com os autores da coletânea Porta do Inferno: “A gente vê o diabo diariamente e faz de conta que não”

Os editores e quadrinistas Lobo Ramirez (Escória Comix) e Luiz Berger (Gordo Seboso) uniram forças para lançar a coletânea Porta do Inferno. O álbum de 76 páginas reúne histórias assinadas pelos dois editores e outros quatro artistas: Emily Bonna, Victor Bello, Diego Gerlach e o quadrinista mexicano Abraham Diaz. A obra tem início com um enredo assinado por Berger mostrando a abertura da porta do inferno na terra e as HQs seguintes apresentam algumas das consequências desse ocorrido, tendo o narrador Caio Tira-na-Cara como o responsável por conduzir o leitor ao longo do álbum.

Autor do épico ASTEROIDES – Estrelas em Fúria, lançado em março de 2018, em parceria da Escória Comix com a Ugra Press, Lobo Ramirez é das figuras mais ativas da cena brasileira de quadrinhos. Em 2017 ele publicou os celebrados NÓIA – Uma História de Vingança (Escória Comix/Vibe Troncha Comix), de Diego Gerlach, e os dois volumes do já clássico Úlcera Vórtex, de Victor Bello. Nove meses após ASTEROIDES, ele publica a parceria com Berger para encerrar o ano de seu selo pessoal com a coletânea de histórias de horror, morte e destruição protagonizadas pelos demônios de Porta do Inferno.

Após responder à breve entrevista a seguir e revelar o primeiro lançamento de sua editora para 2019 (O Alpinista, de Victor Bello), Lobo Ramirez entrevistou cada um dos cinco autores de Porta do Inferno para o Vitralizado. Nas conversas, os artistas falam sobre as inspirações para suas histórias na publicação e expõem suas suspeitas em relação à vinda do anticristo à terra. Saca só:

– LOBO RAMIREZ –

As portas do inferno estão abertas em território brasileiro?

Lobo Ramirez: Escancaradas.

Qual foi a inspiração de vocês para esse formato, com vários autores escrevendo histórias com a mesma temática?

Lobo Ramirez: A real é que esse era pra ser um quadrinho longo do Berger, mas ele desencanou de terminar e eu fiquei enchendo o saco pra lançar porque as páginas eram fodas. Então surgiu a ideia de chamar um pessoal e continuar a historia do ponto que ele parou. Eu não sei se tem alguma coisa nesse formato específico, já deve ter, mas de toda forma eu achei interessante o resultado e quero tentar outros títulos nesse mesmo estilo.

Quais será a próxima investida da Escória Comix?

Lobo Ramirez: Bom, oficialmente confirmado e em produção é um quadrinho do Victor Bello cujo título revelarei exclusivamente agora: O Alpinista, um gibi que ele vem produzindo desde o começo de 2018. Mas já tenho previstos outros 14 títulos novos para 2019, então vai ser um ano de varias investidas. Deus me acuda.

Um painel do quadrinista Luiz Berger presente em Porta do Inferno

– LUIZ BERGER –

LOBO RAMIREZ: Você já participou, como convidado e editor, de diversas antologias de quadrinhos, reunindo nomes nacionais e internacionais. Alguns nomes se repetem nessas publicações, por que Porta do Inferno é diferente das outras?

Luiz Berger: Sim, vários nomes se repetem e acho que vão continuar se repetindo nas próximas antologias. Eu gosto de seguir uma linha editorial com uma identidade, que é bem parecida, ou até igual, à do lobo ramirez. O que difere a Porta do Inferno das anteriores, é que nessa não são só histórias que seguem um tema, como a revista Goró, que reunia histórias sobre bebida, colocadas meio que em ordem aleatória. Nesse caso, as histórias começam do mesmo ponto, da porta do inferno que foi aberta no final da primeira história do gibi, e todas estão conectadas pelos comentários do personagem-narrador Caio Tiro-na-Cara, como em várias revistas de terror dos anos 50. Acho que essa revista está muito mais bem amarrada que as anteriores.

LOBO RAMIREZ: Quando você vai largar mão de ser trouxa e começar a produzir quadrinhos de merda com mais frequência?

Luiz Berger: Acho que esse ano eu volto a fazer com muito mais frequência. Editar essa revista me deu um belo ânimo pra voltar com o Gordo Seboso.

– ABRAHAM DIAZ –

LOBO RAMIREZ: Você já participou de várias antologias de quadrinhos, incluindo Goró (Gordo Seboso), que tem três dos quadrinistas presentes na Porta do Inferno. Há muitos outros quadrinistas nesse meio mais podre no México? Ou você acha que há uma cota de retardados dos quadrinhos por país?

ABRAHAM DIAZ: No México, o quadrinho marginal está apenas começando a se desenvolver. Sem dúvida, há muitos cartunistas começando a publicar quadrinhos podres e eu acho que nos próximos anos haverá um boom nos quadrinhos mexicanos e na arte em geral.

LOBO RAMIREZ: Você acha que Porta do Inferno é mais uma imagem de um bando de marginais falando sobre o diabo, cocô, violência e blasfêmias gratuitas?

ABRAHAM DIAZ: Sim, eu acho que Porta do Inferno é isso, mas eu também acho que não poderia ser outra coisa hahaha

– EMILLY BONNA –

LOBO RAMIREZ: Conte-nos um pouco sobre sua relação com quadrinhos. Você tem um trabalho com ilustração, mas já tinha feito quadrinhos antes? Qual a diferença entre produzir um quadrinho e uma ilustração?

Emilly Bonna: Na infância não cheguei a ler muitos quadrinhos, mas me chamava atenção a estrutura deles, que possibilitava contar histórias através de desenhos. Comecei a fazer breves historinhas pra mim mesma aos nove anos e, conforme foi passando os anos, continuei fazendo quadrinhos e zines bem amadores e com pouca circulação. Na ilustração eu posso passar uma ideia rápida do que quero expressar e nos quadrinhos as formas de explorar um tema são mais amplas.

LOBO RAMIREZ: Por que você aceitou fazer parte desta patotinha horrível de pessoas degeneradas? Não tem medo do que vão falar de você na igreja?

Emilly Bonna: Eu estava no culto da igreja Deus é Amor e no meio da oração, Jesus, na forma do piolho da irmã que estava na cadeira da frente, me disse: ‘Participe de uma HQ de alto grau satânico para enaltecer o Diabo, tô brigado com meu pai Deus, quero deixar o véio puto’. E então cumpri o pedido de Cristo, amém. Não tenho medo do que vão falar pois já envenenei todos os membros da igreja com cianeto misturado no suquinhos Tang de uva.

– VICTOR BELLO –

LOBO RAMIREZ: Na história Fuim, o Xupador de Ossos, mesmo em poucas páginas, você insere uma vasta gama de personagens e parece que a qualquer momento podemos acompanhar qualquer um deles com uma história diferente. Nessa história específica, quais foram suas inspirações para os personagens?

VICTOR BELLO: Nessa história eu quis fazer uma investigação estilo Arquivo X. O demônio não teve uma inspiração específica, mas os personagens da gangue que trafica cascos de tartaruga eu me inspirei em personagens aleatórios de filmes da produtora Troma, gente esquisita. Outros, como as vítimas, busquei as características em típicos personagens que morrem em filmes slashers, então uma das vítimas é um jovem pixador que usa drogas, o outro é um pescador que pesca tartaruga em extinção. São pessoas que num filme slasher são descartáveis. O jovem pixador é parecido também com personagens de propaganda cristã anti-drogas.

LOBO RAMIREZ: Não te incomoda os editores dessa revista claramente estarem ganhando milhões às custas de jovens talentos?

VICTOR BELLO: Incomoda. E me incomoda tanto que pretendo roubar toda a fortuna desses dois em um golpe que já está em curso e assim montar minha própria editora. Os contratarei com carteira assinada, pagarei um salário e os tratarei com toda decência.

– DIEGO GERLACH –

LOBO RAMIREZ: Fazer parte do gibi Porta do Inferno é mais uma de suas participações numa antologia de quadrinhos. Qual o lugar você enxerga que essa história tem dentro do seu trabalho? Ela dialoga de alguma forma com a sua produção atual ou cada título,  cada quadrinho, se adequa a necessidades específicas?

DIEGO GERLACH: Acho que tem as duas coisas, sempre dialoga com as outras HQs que tenho feito e por outro lado também sempre supre uma necessidade específica. Essa HQ pra Porta do Inferno tem umas coisas que vinha fazendo em outros trabalhos (grids fixos, desenho digital fotoreferenciado), mas ao mesmo tempo a demanda era específica (e inédita pra mim): uma HQ de terror com uma pegada clássica. Levou um bom tempo pra ser concluída, ela meio que mudou de rumo e acabei incorporando alguns elementos de uma lenda urbana que me foi contada algumas vezes na época em que fazia catequese. O terço final foi criado no intervalo do primeiro pro segundo turno das eleições de 2018.

LOBO RAMIREZ: Você acha que o verdadeiro anticristo vira à terra como um homem de deus?

DIEGO GERLACH: Como ateu criado no catolicismo, o diabo pra mim é o conceito alegórico definitivo… Mesmo que não exista um ‘verdadeiro’. Tem vários ‘homens de deus’ que são o diabo em pessoa (preciso dar exemplos…?), vão na direção diametralmente oposta dos ensinamentos do mito crístico. É isso: a gente vê o diabo diariamente e faz de conta que não. (Como curiosidade, meu avô queria que eu me tornasse padre.)

Entrevistas / HQ

Papo com Lobo Ramirez, o autor de ASTEROIDES – Estrelas em Fúria: “O mais importante foi ligar os pontos no emaranhado de cenas sem noção”

ASTEROIDES – Estrelas em Fúria é o primeiro quadrinho solo longo do quadrinista e editor Lobo Ramirez. O álbum é ambientado em um futuro distópico no qual o esporte mais popular e letal do planeta é o salto ornamental. O roteiro da HQ é focado em uma série de ataques contra as atletas da equipe feminina de salto Centaurium, começando pelo assassinato da treinadora do time e dando início a uma investigação que coloca em risco a vida das demais saltadoras. As 120 páginas de violência extrema do quadrinho de Ramirez apresentam uma das tramas mais divertidas e absurdas que você lerá em 2018.

Se em 2017 Ramirez editou e publicou pela sua Escória Comix as excelentes Úlcera Vórtex, de Victor Bello, e Nóia, de Diego Gerlach, ele dá início às atividades do selo em 2018 com um épico tão bizarro e espetacular quanto os dois títulos de maior sucesso de sua editora. “Apliquei o que vinha funcionando: capa coloridona, quadrinho num formato de 15×21 cm, mas dessa vez com maior número de páginas”, conta o artista em entrevista ao blog. O lançamento da publicação está marcado para a Feira Plana 2018 – entre os dias 23 e 25 de março de 2018 na Cinemateca Brasileira em São Paulo.

Na entrevista a seguir, Ramirez fala sobre suas inspirações para ASTEROIDES, seus métodos de produção do quadrinho, os personagens da obra e o estilo de sua arte na HQ. Ele ainda produziu uma playlist com o que chama de “a trilha sonora não oficial do quadrinho”. Saca só:

Como surge a ideia do ASTEROIDES – Estrelas em Fúria? Houve algum ponto de partida específico que te impulsionou a contar essa história?

Foi surgindo aos poucos. Depois que li NÓIA, do Diego Gerlach, e Úlcera Vortex, do Victor Bello, fiquei empolgado e com vontade de fazer alguma coisa também. Eu estava sentindo falta da diversão horrivelmente trabalhosa que é fazer quadrinhos então aproveitei a disposição e o tempo e decidi que ia fazer um quadrinho, só que faltava a história. Revisei um monte de anotações procurando alguma ideia boa, mas a maioria era um monte de trocadilhos e cenas retardadas sem contexto nenhum. Deixei amadurecer um pouco essas ideias e foi quando, num sábado tranquilo assistindo TV, coloquei no canal de esportes e estava passando a final de salto ornamental feminino, de repente tudo fez sentido, todas as ideias começaram a se encaixar, pronto, estava feito, eu tinha uma história.

Eu queria saber sobre os seus métodos de criação do quadrinho. É o seu projeto pessoal mais longo, certo? Você chegou a criar um roteiro fechado e depois desenhou?

Isso mesmo, o objetivo era fazer umas 100 páginas, não dava pra meter o loco e sair desenhando. Nunca fiz roteiro, mas dessa vez senti que, se não tivesse o mínimo de organização, ia acabar me cansando no meio da coisa toda. Fiz vários rascunhos dos personagens e anotações da ordem dos acontecimentos, depois meio que dividi o número de páginas por parte e comecei a desenhar, no início eu desenhei na sequência das páginas depois percebi que não precisava seguir a ordem comecei a fazer as páginas aleatórias que eu estava mais afim de desenhar e ai fui preenchendo o meio. Deixei rolar, muita coisa foi mudando na hora, mas mantive mais ou menos a estrutura inicial. Demorei uns 6 meses pra terminar, sem pressa, às vezes desenhava muito, às vezes deixava de lado, também fui mostrando pruns amigos que deram uns toques.

Eu gosto muito dos personagens do quadrinho, acho que alguns até mereciam uns spin-offs. Como você administra a presença desses vários ‘heróis’ na HQ? Beirando aos spoilers, eu fico quase puto como eu tô curtindo pra caramba um personagem e aí você tira o foco dele e passa a centrar a história em outro.

Não acho que sou bom para criar personagens. Por isso não foquei em nenhum especificamente, na minha cabeça tudo ia acontecendo ao mesmo tempo, quando focava em um personagem eu ficava pensando o que estava acontecendo com o outro, senti necessidade de mudar o foco várias vezes, mas sempre mantendo ali uns três personagens principais, sem saber muito bem se existia um protagonista. O mais importante pra mim foi ligar os pontos no emaranhado de cenas sem noção.

Rascunhos de Lobo Ramirez com estudos das personagens de ASTEROIDES – Estrelas em Fúria

Eu vi o Diego Gerlach fazendo uma referência ao Rob Liefeld em um texto sobre o Asteroides no Facebook e quando acabei de ler também pensei nesse diálogo dos seus quadrinhos com essas HQs da Marvel e do início da Image do começo dos anos 90, tudo meio bizarro, com muito músculo, à base de porradaria, morte e explosão. Esse universo dialoga com a sua formação como leitor de quadrinho?

O incrível universo dos músculos extremos com ASTEROIDES. Mais ou menos, faz parte da minha formação como leitor de quadrinhos, mas sempre comprei muita coisa em sebo e na época, apesar de ter muitos desses quadrinhos do inicio dos anos 90, nunca li muitos não, eu não sou um leitor do Rob Liefeld. Lembro de comprar umas minisséries tipo Robocop vs Exterminador do Futuro, Slash – O Guerreiro do Apocalipse e ALIENS. Eu gosto mais das coisas da revista HEAVY METAL, prum moleque metaleiro aquilo era muito mais legal que histórias de super-heróis ultra-musculosos, e tinha vários artistas e vários estilos de desenhos, sempre me interessei mais por isso. Também comprei muita coisa do Lobo, do Simon Bisley e Alan Grant, que é uma zuera com essa coisa toda de músculo, porradaria, morte e explosão. É retardado, idiota, bobo, imbecil, mas é divertido. Acho que é mais por esse lado.

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“Pô, Picasso é deformado, não é? Acho que Rob Liefeld é o Picasso dos quadrinhos então”

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Aliás, pensando aqui no Rob Liefeld, eu cresci lendo meio mundo execrando o trabalho dele, mas de uns tempos pra cá vi várias pessoas que admiro ressaltando a qualidade do trabalho do cara. Você curte a arte dele?

Nem conheço muito os quadrinhos do Rob Liefeld, mas no geral prefiro traço ‘deformado’. Eu vejo mérito no trabalho que tem um estilo próprio, uma coerência sabe? Pô, Picasso é deformado, não é? Acho que Rob Liefeld é o Picasso dos quadrinhos então.

Além de quadrinista e editor, você também tem uma banda. Você gosta de ouvir música enquanto trabalha? Se sim, isso contribui e influencia de alguma forma o desenvolvimento da história? O que você escutava enquanto criava o ASTEROIDES? Aliás, você consegue imaginar uma trilha sonora pro ASTEROIDES?

Sim, mas não influêcia muito o desenvolvimento da história, só faz o tempo passar mais rápido. No caso do ASTEROIDES, como na minha cabeça esse quadrinho é um filme, eu fiquei curtindo ouvir músicas que encaixavam melhor nas sequências que eu estava desenhando. Escutei bastante trilhas sonoras de filmes/desenhos, como Fuga de Nova Iorque, Hokuto No Ken, Maniac, O Quinto Elemento, Mad Max 2 e também uma porrada de New Retro Wave aleatório no YouTube. Consigo e fiz uma playlist bootleg com a trilha sonora não oficial do ASTEROIDES.

ASTEROIDES é o primeiro lançamento da Escória Comix em 2018, depois de um ano em que você investiu pesado no selo, com lançamentos elogiados pelo público e por críticos. Dessas suas experiências do ano passado, trabalhando com vários artistas, com diversos lançamentos e em formatos diferentes, quais as principais lições que você tirou e aplicou nesse gibi novo?

Eu acho que dei sorte com esses lançamentos do ano passado e não quero contar com a sorte, por isso tentei criar um método que funcionasse pra Escória Comix. A partir das experiências do ano passado decidi usar o ASTEROIDES de teste, apliquei o que vinha funcionando: capa coloridona, quadrinho num formato de 15×21 cm com mais ou menos 45 páginas, mas dessa vez já testei esse formato novo, com maior número de páginas – o maior da Escória, até agora -, testei também uma divulgação mais planejada, produzi um vídeo picareta, mandei release pra blogs e fiz parceria com a Ugra Press.

Rascunhos de Lobo Ramirez para nove das páginas de ASTEROIDES – Estrelas em Fúria

Rascunhos de Lobo Ramirez com estudos das personagens de ASTEROIDES – Estrelas em Fúria

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Asteróides – Estrelas em Fúria: confira a capa da nova HQ de Lobo Ramirez

Já comentei por aqui algumas vezes como acho demais o trabalho do Lobo Ramirez como editor da Escória Comix. Daí tô com altas expectativas para o próximo lançamento do selo, batizado de Asteróides – Estrelas em Fúria e assinado pelo próprio Ramirez. O álbum terá 120 páginas, formato 15X25 cm, capa colorida, miolo em preto e branco e preço de R$ 35. O lançamento tá previsto pro dia 23 de março, na próxima edição da Feira Plana. Saca a sinopse do gibi:

“Em um futuro não tão distante no qual o governo é controlado por corporações, um esporte ultra-violento conhecido como Salto Ornamental Feminino representa o mundo e três de suas atletas mais poderosas se envolvem em uma trama alucinante de assassinatos e fúria.”

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Confira uma prévia de WILSON LANCHÃO, nova HQ de Lobo Ramirez pela editora Escória Comix

O quadrinista e editor Lobo Ramirez vai lançar um quadrinho novo pela Escória Comix na Feira Des.Gráfica 2017. A HQ foi batizada de WILSON LANCHÃO, tem 16 páginas em preto e braso, formato A6 e será vendida por R$5. Acho demais o trabalho de Ramirez na Escória e esse título assinado por ele parece tão promissor quanto gibis prévios lançados pela editora. O quadrinista adiantou aqui pro blog uma prévia de três páginas da obra e uma resenha inspirada assinada por Victor Bello, autor do excelente Úlcera Vortex. A seguir, as páginas de WILSON LANCHÃO e o texto de Bello:

“O premiado autor Lobo Ramirez, conhecido também como Stan Leexo, volta em grande estilo com seu mais novo gibi: WILSON LANCHÃO. Nesta novela gráfica de ação e ficção científica, Lobo nos apresenta um simpático lanche chamado WILSON, cuja vida esta na mais perfeita paz em uma praia paradisíaca. Wilson leva a vida que muitos pediram ao papai do céu: sexo monogâmico, banho quente e boas noites de sono. Porém, tudo vira de cabeça pra baixo quando o sossego de Wilson é interrompido por um soldado maníaco que desafiou as leis do espaço-tempo. Começa aí uma conspiração comandada pelo sinistro Doutor Billy, envolvendo viagens no tempo, dinossauros e muita porradaria.

A trama lembra a saudosa novela Kubanacan, já que se passa em uma ilha e é recheada de reviravoltas e mistérios, sendo que Wilson tem muito do personagem Pescador Parrudo, interpretado pelo ator Marcos Pasquim (1969-2015), pois ambos andam parcialmente nu durante toda a história e sofrem de amnésia. As referências, contudo, vão mais além. O próprio autor divulgou em seu instagram alguns dos gibis que Wilson Lanchão plagiou, como Slash O Guerreiro do Apocalipse, Mandrake e Quadrinhos Sacanas.

Wilson Lanchão é aventura que você precisa ler, tão delicioso que dá até vontade de comer o papel. E aí, irás perder essa?”

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