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Entrevistas / HQ

Papo com Juscelino Neco, autor de Reanimator: “Tentei estabelecer uma trama que vai escalonando a bizarrice a níveis cada vez mais absurdos”

Escrevi na 11ª edição da Sarjeta, minha coluna sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural, sobre Reanimator, obra do quadrinista Juscelino Neco livremente inspirada tanto no conto Herbert West-Reanimator, de H.P. Lovecraft (1890-1937), quanto no longa Re-Animator: A Hora dos Mortos-Vivos (1985), do diretor Stuart Gordon.

Neco é um dos meus quadrinistas preferidos. Autor da surtada Parafusos, Zumbis e Monstros do Espaço (2013), da intensa Matadouro de Unicórnios (2016) e da tensa Cadeado (2017), ele tem em Reanimator seu trabalho mais bruto e brusco.

Recomendo a leitura da Sarjeta, feita a partir de uma entrevista com Juscelino Neco, para você saber um pouco mais sobre os bastidores e o desenvolvimento de Reanimator. Também recomendo que você não deixe passar a HQ. Depois, volte aqui e leia a íntegra da minha entrevista com o quadrinista. Papo bom, saca só:

“Acredito que consegui levar a coisa toda para um novo nível de infâmia”

Quadro de Reanimator, obra de Juscelino Neco publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Queria começar sabendo como você está. Como andam as coisas por aí? Como a pandemia afetou a sua rotina? 

No geral, está tudo bem. Na normalidade que o apocalipse permite. Como sou professor, boa parte das minhas atividades estão paralisadas. Tem um lado bom, já que estou conseguindo colocar a leitura em dia. Mas sinto falta da rotina e, nunca pensei que diria isso, dos alunos também. Fora isso, não perdi nenhum amigo ou familiar. Nesses dias que correm, isso é um grande luxo.

Você pode contar um pouco, por favor, sobre a sua relação com Lovecraft? Você lembra da primeira vez que assistiu ao filme Re-Animator? Quando você viu o filme, já sabia quem era Lovecraft?

Como eu sempre gosto de lembrar, os anos 90 eram tempos selvagens. Passava filmes como Fome Animal e O Último Americano Virgem no meio da tarde. Foi numa dessas que assisti o Re-Animator. Devia ter coisa de 8, 9 anos. Não tinha a menor ideia de quem era o Lovecraft, embora já conhecesse outros filmes com elementos das suas obras: Enigma do Outro Mundo, Uma Noite Alucinante… Bons tempos!

“Quem não leu o conto Herbert West – Re-Animator não perdeu porra nenhuma”

Quadro de Reanimator, obra de Juscelino Neco publicada pela editora Veneta (Divulgação)

E qual foi o impacto tanto do filme quanto do conto na sua formação?

O filme teve um grande impacto, o conto eu li já adulto e não achei grandes coisas. Adoro a mistura de terror e humor que esse filme tem. Os efeitos são ótimos! A violência é maravilhosa. Até a continuação, A Noiva do Re-Animator, dirigido pelo Brian Yuzna, é sensacional. Tem muito a cara do terror dos anos 80, aquele mistura de transgressão, criatividade, baixo-orçamento e picaretagem. Fome Animal e Evil Dead, que tem uma pegada similar, também tiveram muito impacto sobre minha formação.

Já li que o Lovecraft criou Reanimator a partir do Frankenstein, da Mary Shelley. Eu nunca li o livro do Lovecraft, mas Frankenstein é um dos livros de terror mais impactantes que já li. O que mais te interessa em obras de terror? O que você considera mais fundamental para uma boa história de terror?

Quem não leu o conto Herbert West – Re-Animator não perdeu nada, nem porra nenhuma. É uma história bem boba e mal escrita, até pros padrões do Lovecraft. Claramente é inspirado no Frankenstein e até os personagens, aqueles médicos idealistas que querem vencer a morte, se parecem. Mas a história da Mary Shelley é bem mais sofisticada, tem aquela coisa de vingança, de embate, aquelas paixões e ódios intenso, uma coisa maravilhosa. O conto do Lovecraft é um pastiche safado, coisa de começo de carreira. Até o Lovecraft achar seu ‘estilo’, vamos chamar assim na falta de uma palavra melhor, ele fazia muito pastiche de outros escritores, principalmente Edgar Allan Poe. Agora, finalmente, respondendo a sua pergunta, muitas coisas me interessam numa história de terror, a depender da mídia. Tenho muita dificuldade em me engajar em literatura de terror. Gosto de pouquíssima coisa, mas gosto de tudo que li Clive Barker. É muito interessante quando o escritor consegue tratar de uma temática sobrenatural com um estilo limpo e direto. No cinema, me interesso por muitos aspectos, principalmente a atmosfera do filme, essa impressão de estranheza que filmes como Hereditário conseguem passar. Mas sou capaz de assistir um filme de terror só pra ver os efeitos de maquiagem e a criatividade com que as pessoas são assassinadas. Assisto Sexta-Feira 13 apenas pra isso. E o que eu considero essencial para que uma história de terror funcione é a capacidade do autor em criar um conceito novo que trabalhe os medos da mente humana. O medo é uma emoção processada pela parte mais primitiva do nosso cérebro e compartilhada pelo humano de todos os tempos. É universal. Se considerarmos os primeiros rituais fúnebres, dá pra perceber que temos medo dos mortos desde sempre. Por isso que histórias de vampiros e mortos-vivos têm tanto apelo e sempre se renovam. 

“Todos os meus quadrinhos trabalham com essa mistura que os estadunidenses chamam de horror-comedy. Em bom português, terrir”

Página de Reanimator, obra de Juscelino Neco publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Você vê alguma desafio particular para terror funcionar como HQ?

Existe um desafio fundamental em fazer um quadrinho de terror porque boa parte do poder de sugestão da literatura é eliminado. Cada pessoa imagina o Drácula, por exemplo, de uma forma especifica. As cenas de horror que o Lovecraft descreve são sempre melhores na imaginação do leitor do que em qualquer imagem, por mais talentoso que seja o desenhista. Da mesma forma, os quadrinhos carecem dos processos de imersão e realismo que o dispositivo do cinema consegue proporcionar. Você vê um filme de terror e logo percebe que a música tem um papel central. O diretor consegue manipular as emoções da audiência com um jump scare, as cenas de violência conseguem chocar de forma convincente, a atuação funciona como um índice de reconhecimento para que espectador se engaje. Enfim, nada disso funciona nos quadrinhos. Considero que o terror nos quadrinhos são um processo muito mais cerebral, que causa um desconforto quando o leitor reflete acerca da natureza do que está sendo narrado.

Qual foi o ponto de partida desse quadrinho novo? Por que adaptar Reanimator? Aliás, você vê esse quadrinho mais como uma adaptação do livro do Lovecraft ou do filme do Stuart Gordon?

O filme do Gordon sempre foi uma grande influência no meu trabalho, já que mistura elementos de terror e humor. Todos os meus quadrinhos trabalham com essa mistura que os estadunidenses chamam de horror-comedy. Em bom português, terrir. Sendo bem sincero eu acho esse conto do Lovecraft uma merda. Foi publicado originalmente em 1922, então é uma história de quase 100 anos que envelheceu tão bem quando um viciado em heroína. É interessante porque é uma das primeiras histórias de zumbis. Fora isso, não vejo muito valor… Há quem diga que esse conto tem um certo tom de paródia. Não consigo enxergar isso. Não consigo enxergar Lovecraft fazendo qualquer coisa que tenha o menor traço de humor ou jocosidade. Ele tinha uma grande imaginação, mas não acredito que tenha contado uma piada em toda a sua vida…Quanto à adaptação, acho que ela se aproxima mais do filme, já que tem muito sexo e violência. Mas acredito que consegui levar a coisa toda para um novo nível de infâmia.

Lovecraft virou uma bolha gigante

Quadro de Reanimator, obra de Juscelino Neco publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Eu tenho a impressão de uma comoção recente em torno da obra do Lovecraft. Você também nota isso? Você vê algum motivo em particular para esse interesse crescente em torno do trabalho dele?

Certamente. Lovecraft virou uma bolha gigante. Vejo edições luxuosas do trabalho dele, adaptações para quadrinhos, cinema. Acho que boa parte desse sucesso se deve ao fato de que as obras do Lovecraft caíram em domínio publico, então todo mundo quer tirar uma lasquinha. Outro aspecto é o Lovecraft criou uma metanarrativa que funciona bem. É quase que como o Tolkien, tudo é amarradinho, aquela coisa dos grandes antigos, terror cósmico, mitos do Cthulhu. A impressão que eu tenho é que o jovem artista lê aquilo e quer fazer uma coisa dentro daquele universo. É quase como criar uma aventura de RPG dentro de um sistema. Como eu gosto de falar mal dos colegas não perco a oportunidade: os resultados são sofríveis.

Você tem alguma adaptação ou reinterpretação preferida para o trabalho do Lovrecraft?


Sim, um filme do John Carpenter chamado À Beira da Loucura (In The Mouth of Madness, 1994). É a história de um escritor que vai parar numa cidadezinha onde tem de tudo de ruim e Lovecraftiano. Não é a adaptação de nenhuma história, mas tem muitos elementos das narrativas daquela racista safado. 

Acho que um mérito desse seu Reanimator é funcionar sozinho e não depender da obra do Lovecraft para ser compreendido e divertir. Você teve alguma preocupação em particular para ser mais ou menos fiel ao filme e ao livro?

Nenhuma. Peguei só a premissa, que é mais simples que fazer um ‘o’ com uma quenga: um cientista inventa um soro que ressuscita os mortos e se mete em altas confusões. O resto eu inventei.

“Gosto de pensar que faço um tipo de quadrinhos muito simples, direto, sem firula”

Quadro de Reanimator, obra de Juscelino Neco publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Por que a opção pelo antropomorfismo na HQ? Acho que o caso mais famoso de antropomorfismo em quadrinhos é Maus e ali tá bem explícito como foi um artifício para ressaltar a relação entre oprimidos e opressores. No caso desse seu Re-Animator, fiquei pensando no aspecto animalesco e selvagem das ações dos personagens. Era essa a sua intenção?

Na verdade, não. Eu acho que desenhar quadrinhos é uma atividade muito entediante, então começo a inventar coisa pra me divertir um pouco. Meus quadrinhos também tem um elemento de autoreferencialidade muito presente. Gosto de pensar que faço um tipo de quadrinhos muito simples, direto, sem firula. Como os quadrinhos antigos. Então minha intenção foi buscar dentro da tradição dos quadrinhos um estilo que se adequasse ao tipo de história que eu queria contar. Achei que a desconstrução do gênero dos funny animals, perpetrado por autores como Robert Crumb e Mattioli, seria um bom caminho. Além disso, acho que esse quadrinhos tem as cenas mais grotescas que eu já desenhei. Se não fosse o antropomorfismo, essas imagens teriam outro sentido, se afastando muito do tom de humor negro que eu quis imprimir.

Falando em Maus, como você avalia essa opção do Art Spiegelman pelo antropomorfismo? Você já leu essa carta que o Harvey Pekar publicou em uma edição do Comics Journal questionado essa escolha? Ele diz ser uma metáfora “rasa e óbvia, sem sentido”.

Concordo com o Pekar: a história curta que antecede Maus funciona melhor num nível simbólico. Essa história é uma fábula, os animais encarnam tipos ao estilo do La Fontaine. Já o Maus que saiu em formato de livro se insere na tradição dos funny animals. Enquanto processo metafórico é realmente um pouco raso, mas acho que funciona muito bem como índice de reconhecimento dos personagens. Ele facilita o processo de leitura a partir da simplificação das formas e permite que a ação seja encenada de forma mais clara. Em sua essência, Maus é um quadrinhos clássico: simples, limpo, de fácil leitura. Se um dia você você estiver lendo um quadrinho e tiver a mínima dificuldade de entender a ação que está sendo encenada, jogue-o fora. Esse é um quadrinho bosta.

“Reanimator foi feito à moda antiga, com muito nanquim em papel Canson A3”

Quadros de Reanimator, obra de Juscelino Neco publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Fiquei com a impressão desse trabalho seu estar mais “sujo”, ter mais hachuras, ser mais preto e branco e ter menos espaço para cinzas do que o Matadouro e o Parafusos. Faz sentido?

Sim. Em Matadouro e Parafusos eu utilizei tons de cinza para estabelecer um pouco os volumes dos desenhos, nesse eu utilizei apenas hachuras. É bem decupado do estilo que o Crumb fazia em Fritz – The Cat.

Quais materiais você utilizou na produção desse trabalho novo? É tudo papel e tinta ou tem algum aspecto digital?

Recentemente migrei para o digital, mas Reanimator foi feito à moda antiga, com muito nanquim em papel Canson A3.

“A produção de Reanimator realmente foi meu Vietnã”

Quadro de Reanimator, obra de Juscelino Neco publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Você pode contar um pouco sobre a produção dessa HQ? Foi quanto tempo entre o início desse projeto e o lançamento? Você chegou a finalizar um roteiro antes de dar início às ilustrações?

O roteiro de Reanimator foi finalizado no final de 2016 e, descontando uma pequena alteração na sequência final, se manteve o mesmo até agora. Eu só consigo começar a desenhar depois que o roteiro está finalizado… A produção de Reanimator realmente foi meu Vietnã. Descartei umas duas versões iniciais e, durante todo o processo, muitas vezes tive certeza de que não ia conseguir terminar. Ou melhor, me sentia incapaz de terminar esse quadrinho. Foi um inferno. Ano passado pensei até em queimar tudo e deixar isso pra lá. Felizmente fui dissuadido dessa ideia pelos meus amiguinhos, os astros se alinharam e conseguir finalizar o quadrinho. Fico feliz por deixar o mundo mais estranho.

Houve alguma mudança em particular dos seus métodos de produção dos seus álbuns prévios para essa HQ nova?

Normalmente eu produzo meus quadrinhos num processo de guerrilha, reservo uns dois, três meses, e fico trabalhando 10 horas por dia. Desde que comecei a fazer o Reanimator minha atividades acadêmicas se intensificaram muito e eu não consigo mais tirar esse tempo de folga. Então tenho desenhando quando aparece um tempo. Férias, carnaval, essas coisas. Por isso demorou tanto. Eu não tenho disciplina pra trabalhar na HQ todo dia um pouquinho. Tenho que pensar como resolver isso, porque já estou com o roteiro da minha próxima história e não quero que demore quatro anos pra sair…

“Utilizei muita referência fotográfica da Nova York suja e perigosa do começo dos anos 80”

Quadro de Reanimator, obra de Juscelino Neco publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Acho esse Reanimator o seu trabalho mais bruto. Os personagens não tem muitas nuances, a história é bastante linear e é tudo voltado para expor absurdo e violência. Como foi a experiência de conceber e desenvolver esse livro? Que balanço você faz da criação dessa HQ?

Em Reanimator eu tentei revisitar o estilo e a estrutura de quadrinhos clássicos, onde os personagens não tem muita complexidade. Tudo é estruturado em função da trama e o ritmo é muito acelerado. Em termos de narrativa, eu tentei estabelecer uma trama que vai escalonando a bizarrice a níveis cada vez mais absurdos. Não posso negar que me diverti bastante desenhando as cenas, apesar dos percalços da produção. Em termos de narrativa visual, acho que é meu melhor trabalho. Utilizei muita referência fotográfica da Nova York suja e perigosa do começo dos anos 80 e fiquei bem feliz com o resultado. É quase como se o quadrinho se passasse no universo dos filmes que eu curtia quando criança, como The Warriors e O Assassino da Furadeira.

Você recentemente publicou um quadrinho com uma mensagem esperançosa em relação ao nosso futuro, apesar de todos os pesares que estamos vivendo. Você se considera uma pessoa otimista? 

Eu sou uma pessoa que acredita que o universo é um lugar completamente sem sentido e todas as coisas da vida são sem importância. Mas, como vou ser pai daqui uns meses, tento não nutrir esses pensamentos.

“Ultimamente tenho desenhado num iPad, o que tem deixado minha vida mais fácil”

Quadro de Reanimator, obra de Juscelino Neco publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Você pode me falar como é seu ambiente de trabalho? Você poderia descrever o local no qual Reanimator foi criado?

Eu não tenho estúdio. Meu apartamento inteiro é um amontoado de livros e gibis. Tenho uma mesinha que uso pra tocar meu trabalho de professor e, quando vou desenhar, coloco as pilhas de livros e papeis no chão, limpo a mesa e coloco uma pranchetinha portátil. Ultimamente tenho desenhado num iPad, o que tem deixado minha vida mais fácil e permitido que eu desenhe no sofá. Espero conseguir acelerar o processo de produção dos quadrinhos com esse novo gadget. 

Você poderia recomendar algo que esteja lendo, ouvindo ou assistindo no momento?

Do que li recentemente, recomendo O Mestre e a Margarida, do Mikahail Bulgákov. Uma das histórias mais inventivas, interessantes e absurdas que vi na vida. Colocar o diabo e sua trupe chegando na Moscou dos anos 1930 é coisa de gênio.

A capa de Reanimator, HQ de Juscelino Neco publicada pela editora Veneta (Divulgação)
HQ / Matérias

Simon Hanselmann e o desencanto com o mundo em Mau Caminho

Escrevi para o jornal O Globo uma crítica sobre Mau Caminho, primeiro álbum do quadrinista australiano Simon Hanselmann publicado no Brasil, lançado pela editora Veneta e com tradução do quadrinista brasileiro Diego Gerlach. Contei um pouco da jornada do artista entre o início do Tumblr que impulsionou sua fama até sua chegada à editora Fantagraphics e chamei atenção para aqueles que considero seus principais méritos: a dinâmica interna dos personagens de Hanselmann, seus excessos e a indiferença deles em relação ao mundo.

Junto com Sabrina, de Nick Drnaso, Mau Caminho é um dos principais lançamentos de 2020 até o momento. Você lê o meu texto clicando aqui.

Entrevistas / HQ

Papo com Nick Drnaso, autor de Sabrina: “Ninguém acha que está vendo notícia falsa ou distorcida, então, é difícil pensar no que eu mesmo consumo”

É difícil imaginar um quadrinho mais atual e relevante do que Sabrina. Sua repercussão foi muito além do meio dos quadrinhos e a obra de Nick Drnaso se tornou a primeira HQ indicada ao prêmio Man Booker Prize. Sabrina trata de fake news, conspiracionismo e do impacto de boatos e informações falsas nas vidas de cidadãos comuns ao narrar o desaparecimento da mulher que dá título à obra.

Entrevistei Drnaso para escrever sobre o lançamento da edição brasileira de Sabrina, pela editora Veneta, em tradução de Érico Assis (que também traduziu a entrevista abaixo). Esse papo virou matéria para o jornal O Globo. Escrevi no meu texto sobre as origens do livro, o desenvolvimento da obra, as técnicas e métodos do autor e a repercussão da HQ desde sua publicação em 2018. Você lê o meu texto clicando aqui.

Reproduzo a seguir a íntegra da minha conversa com Drnaso, na qual ele ainda fala sobre seu ambiente de trabalho, sua relação com outros quadrinistas e o suas leituras recentes. Leia a minha matéria, leia o quadrinho e depois leia a minha entrevista com o autor.

“Aconteceu de eu estar pensando em tragédias que ganham grande cobertura”

Quadro de Sabrina, HQ de Nick Drnaso publicada no Brasil pela editora Veneta

Antes de tudo, como você está? Como está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua rotina de trabalho?

Tenho a sorte de conseguir dar continuidade ao meu próximo álbum em casa, em quarentena. Portanto, minha rotina diária não mudou grande coisa. Acho que minha produtividade segue a mesma.

Como você acha que essa realidade que estamos vivendo vai afetar o seu ambiente profissional? Você tem conversado com outros autores e editores sobre essa situação?

Não tenho como especular quanto ao que vem pela frente.

Você pode me contar um pouco sobre o ponto de partida de Sabrina? Você lembra de como surgiu a ideia desse livro?

Aconteceu de eu estar pensando em tragédias que ganham grande cobertura na mídia. Tinha muita coisa acontecendo naquela época, quando houve Sandy Hook aqui nos EUA. A única ideia que eu tinha no começo era que um cara iria morar com um amigo da Força Aérea depois que a namorada do primeiro desapareceu.

“Tudo é desenhado e finalizado no papel, ao modo tradicional, com materiais simples e alguns instrumentos”

Página de Sabrina, HQ de Nick Drnaso publicada no Brasil pela editora Veneta

Você poderia me contar um pouco sobre a sua dinâmica de trabalho? Quanto tempo você leva criando um roteiro? E depois quanto tempo você leva no desenho esse roteiro?

Eu escrevo um pedaço do roteiro de cada vez, algumas cenas por vez, aí passo para o desenho até finalizar. Vou e volto nisso até terminar a história. Aí geralmente eu tenho que voltar lá no início, editar e redesenhar algumas coisas que acabaram não fechando como eu gostaria. Desenhar e colorir sempre tomam mais tempo que escrever; acho que umas 20 ou 30 horas por página.

Com quais técnicas você trabalhou em Sabrina? Você tem preferência por alguma técnica em particular? Quais materiais você utiliza?

Tudo é desenhado e finalizado no papel, ao modo tradicional, com materiais simples e alguns instrumentos. A cor é digital. Tentei colorir tudo à mão com canetinha, mas percebi que o processo ficava lento demais e não me dava muita flexibilidade para mexer no final.

Eu gosto muito ritmo de Sabrina. Acho que os grids e quadros que você usa são fundamentais para determinar o andamento da leitura. Você concorda?

Sim, é certo que o grid que eu usei em Sabrina ditou o ritmo. Comecei o roteiro com esse grid em mente. Com essa possibilidade de quebrar um quadro grande em quatro menores, eu consegui muitas cenas de silêncio. O álbum em que estou trabalhando agora tem outro grid que não condiz com quadros pequenos, então o texto e ritmo são mais contidos. É bom fazer essa mudança depois de Sabrina.

“Tenho alguns arrependimentos em relação ao visual”

Página de Sabrina, HQ de Nick Drnaso publicada no Brasil pela editora Veneta

Você pode contar um pouco sobre o desenvolvimento de seus personagens? Você tem algum hábito particular de observar pessoas na sua rotina diária?

Meu primeiro álbum, Beverly, tinha mais personagens baseados diretamente em gente que eu conhecia. A vida e o emprego do Calvin de Sabrina, aliás, vieram de um amigo que trabalha na Força Aérea no Colorado. É um processo muito natural. Ele meio que surge assim que eu começo a trabalhar. Talvez eu só perceba que o personagem é baseado numa pessoa que eu conheço meses depois de entrar na história, o que sempre acho bizarro.

Há um padrão nas cores de Sabrina e Beverly. Qual é a sua abordagem em relação a cores? Por que essa paleta e esse estilo?

Limitar a paleta me ajudou nos dois álbuns. Tenho alguns arrependimentos em relação ao visual. Entendo onde eu queria chegar e como saí do rumo, mas é coisa do meu olho. Colorir no computador foi um processo relativamente novo pra mim quando comecei Beverly, então tentei ser simples e usar um monte de pastel suave. Mas queria poder voltar e aprimorar, em parte.

Vivemos em um período de extremismos crescentes e de conspiracionistas radicais que acreditam que a terra é plana, são contra vacinas e não querem ficar em quarentena durante a pandemia. São questões muito presentes em Sabrina. Esses temas são caros para você? Você passa muito tempo refletindo sobre os rumos da humanidade?

Eu me interessava pela cultura das teorias da conspiração antes de escrever Sabrina. Agora eu não acompanhado nada, nem por curiosidade.

“Não julgo nenhum tema com pressa, mas sei que eu tenho pontos cegos imensos”

Página de Sabrina, HQ de Nick Drnaso publicada no Brasil pela editora Veneta

E como você lida com fake news?

Olha, ninguém nesse mundo acha que está vendo notícia falsa ou distorcida, então é difícil pensar no que eu mesmo consumo de notícia. Tento fazer o que me é possível e não julgo nenhum tema com pressa, mas sei que eu tenho pontos cegos imensos e um nível de atenção menor do que gostaria de admitir

Tenho curiosidade em relação à sua visão do mundo no momento. Vivemos numa realidade na qual Donald Trump é o presidente dos EUA e Jair Bolsonaro é o presidente do Brasil. O que você acha que está acontecendo com o mundo? Você é otimista em relação ao nosso futuro?

Não tenho a mínima qualificação para responder essa pergunta, que é muito difícil. Se estivéssemos conversando por telefone, eu ia perguntar a você sobre o Brasil com Bolsonaro. Infelizmente não tenho nada de interessante ou particular a dizer sobre a situação dos EUA com Trump que não seja dito milhões de vezes, todo dia, sem parar.

O que você pensa quando um trabalho seu é publicado em um país como o Brasil? Somos todos americanos, mas são culturas muito diferentes. Você tem alguma curiosidade em relação à forma como um trabalho seu será lido e interpretado por pessoas de um ambiente tão diferente dos seu?

Com certeza! Não tenho noção de como nenhum álbum é lido em outro país, mas tenho curiosidade. Provavelmente eu teria que visitar o país para ter noção, mas não viajei muito na vida, até agora. Quem sabe isso mude.

“Sempre me interessei por desenho e era ávido pelos livros do Shel Silverstein quando era pequeno”

Página de Sabrina, HQ de Nick Drnaso publicada no Brasil pela editora Veneta

Você pode me falar como é seu ambiente de trabalho? Você poderia descrever o local no qual Sabrina foi criado?

Comecei a desenhar Sabrina usando o armário do meu apartamento antigo como estúdio. Era o único lugar da casa onde cabia minha mesa de desenho. Aí eu e minha namorada (hoje esposa) mudamos para outro apartamento e consegui montar o estúdio no quarto. Depois nos mudamos para o apartamento atual e, aqui, a mesa de desenho também fica no nosso quarto. É onde estou respondendo essa entrevista.

Eu nunca estive em Chicago, mas sei da relação da cidade com arquitetura, museus, autores de quadrinhos e arte em geral. Você se vê influenciada por esse ambiente tão criativo?

Eu cresci bem perto de Chicago e nunca morei em outra região, portanto é a única que eu conheço. Tive sorte de ver muitos quadrinistas por aqui, assim como escritores, escolas, museus, colégios. Sou muito satisfeito com o ambiente. Gosto da arquitetura e do inverno sombrio. Talvez isso tenha reflexo no jeito como eu desenho.

Qual a memória mais antiga da presença de quadrinhos na sua vida?

Eu só passei a ler e pensar sobre HQ depois que acabei o ensino médio. Sempre me interessei por desenho e era ávido pelos livros do Shel Silverstein quando era pequeno. Acho que foram os primeiros desenhos que me causaram uma reação.

“Gosto de muita coisa que não chega nem perto do jeito como eu trabalho”

Eu gostaria de saber sobre a sua relação com a crítica e com esse interesse crescente pelo seu livro por parte da imprensa. O que você sente ao ver o seu trabalho tão analisado e interpretado e tantas pessoas interessadas no seu quadrinho?

Consigo ler resenhas críticas e positivas sem grandes problemas, mas faço o possível para manter distância de menções ao livro no Twitter e lugares assim. Sou grato a todos que tiverem escrito o que quer que seja sobre o álbum, mas tenho uma autocrítica interna que me impede de absorver algo a fundo, seja bom ou mau.

Eu gostaria de saber o que são histórias em quadrinhos para você. Você tem alguma definição pessoal?

Não, não tenho opinião forte sobre a mídia. O que eu tenho é uma forma de trabalhar que criei pra mim, mas não é algo que eu colocaria pra outros. Gosto de muita coisa que não chega nem perto do jeito como eu trabalho.

“Tenho ouvido muito mais música nesse ano”

Quadro de Sabrina, HQ de Nick Drnaso publicada no Brasil pela editora Veneta

Você poderia recomendar algo que esteja lendo, ouvindo ou assistindo no momento?

Tenho ouvido muito mais música nesse ano. É muita coisa para citar. Estou lendo Praia de Manhatan, de Jennifer Egan, e curtindo. Depois vou ler The Broken Brain, de Nancy Andreasen. Há poucos dias eu e minha mulher assistimos Mal do Século, de Todd Haynes, e achamos ótimo.

Há uma mistura de melancolia e tristeza que está presente no seu trabalho e também nas obras de quadrinistas norte-americanos como Seth, Adrian Tomine, Chris Ware e Daniel Clowes. Você vê esse padrão? Você consegue elaborar alguma justificativa para o predomínio desses temas?

Identifico que há um padrão, mas não sei ao certo qual é. Produto desse ambiente, quem sabe. Ou porque a vida solitária do quadrinista atrai certo tipo de pessoa. Gostaria de ser mais objetivo nesse aspecto, mas me parece difícil, se não impossível.

A capa da edição brasileira de Sabrina, publicada pela editora Veneta
HQ / Matérias

Nick Drnaso fala sobre Sabrina, fake news, Chicago e cenas de silêncio

Entrevistei o quadrinista norte-americano Nick Drnaso, autor de Sabrina, uma das histórias em quadrinhos mais comentadas dos últimos anos. Primeira HQ listada entre as finalistas do tradicional Man Booker Prize, o álbum trata do desaparecimento da personagem-título e a repercussão do ocorrido na vida de pessoas ligadas a ela. O título acabou de ganhar versão em português, pela editora Veneta, com tradução de Érico Assis.

Transformei esse papo com o quadrinista em matéria para o jornal O Globo e o texto está na capa de hoje do caderno de cultura da publicação. Conversamos sobre os pontos de partida de Sabrina; o desenvolvimento da obra; a relação do autor com alguns dos temas tratados no livro, principalmente fake news; e a repercussão da HQ. Você lê a matéria clicando aqui.

Entrevistas / HQ

Papo com Marcello Quintanilha, o autor de Luzes de Niterói: “Do meu ponto de vista, o horizonte apresenta nuvens de tempestade”

Luzes de Niterói é a primeira grande HQ brasileira a chegar às livrarias nacionais em 2019. Publicada na França e em Portugal no final de 2018, a obra de Marcello Quintanilha lançada pela editora Veneta tem 232 páginas coloridas e é livremente inspirada em um dia de caos vivido pelo pai do autor, o ex-futebolista Hélcio Quintanilha, nos anos 50. O álbum também é o primeiro projeto longo longo do quadrinista publicado em português desde Talco de Vidro (2015) e Tungstênio (2014) – nesse intervalo foram lançadas as coletâneas Hinário Nacional (2016) e Todos os Santos (2018).

Eu entrevistei o autor brasileiro residente em Barcelona e transformei essa conversa em matéria para o jornal Folha de São Paulo. Você lê o meu texto para a publicação clicando aqui. Depois, recomendo a leitura do álbum e da entrevista a seguir, a íntegra do meu bate-papo com o quadrinista. Nós conversamos sobre a relação dele com futebol, a produção de Luzes de Niterói, algumas de suas memórias de infância e as impressões dele sobre o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro. Saca só:

“O aspecto da região foi se solidificando mais e mais para mim a medida em que seus componentes iam dando adeus cotidianamente, dizimados pela locomotiva do progresso”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Luzes de Niterói é o seu primeiro livro longo desde Talco de Vidro e marca um retorno ao mundo dos subúrbios fluminenses, cenário da maior parte das suas histórias curtas. O que essa ambientação representa para você?

Não se pode voltar ao que nunca se deixou para trás. O aspecto da região foi se solidificando mais e mais para mim a medida em que seus componentes iam dando adeus cotidianamente, dizimados pela locomotiva do progresso, a medida em que as fábricas iam fechando as portas, as vilas operárias sendo descaracterizadas, os campos de futebol, loteados. O que resta, vive comigo. Essa ambientação em relação a Luzes de Niterói representa a comunhão com um país que emergia economicamente no período do pós-guerra, com sua característica indústria cinematográfica, repositório de um conjunto de coisas e valores dos quais infelizmente nos afastamos gradativamente, mas que são o alicerce da atual cultura brasileira de massas. Representa também a recuperação do mito do futebol brasileiro oriundo das fábricas, berço do esporte no país.

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Luzes de Niterói é a sua HQ mais pessoal?

Não, sob nenhuma hipótese. Todas as minhas histórias advém daquilo que me constituiu como ser humano e não estabeleço uma escala nesse campo — todas são o que eu sou.

Qual a memória mais antiga que você tem da presença de quadrinhos na sua vida?

Os quadrinhos publicados nos jornais nos anos 1970, Brucutu, Dick Tracy, etc.

Qual a memória mais antiga que você tem da presença de futebol na sua vida?

Uma transmissão de rádio. O timbre transistorizado da voz de Jorge Curi retinindo pela casa de luzes misteriosamente apagadas. Anos 1970.

“A coluna vertebral da HQ é integralmente baseada no que ouvi sobre o dia da temporal, assim como toda a atividade intramuros do cotidiano dos jogadores”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

O quanto da experiência do seu pai como jogador de futebol você levou para o quadrinho? Há muito dos relatos que você ouviu dele nessa HQ?

Muito, muito, muito. A coluna vertebral da HQ é integralmente baseada no que ouvi sobre o dia da temporal, assim como toda a atividade intramuros do cotidiano dos jogadores.

A literatura brasileira sobre futebol é composta principalmente por crônicas e relatos históricos e jornalísticos. Me refiro a trabalhos assinados por autores como Mário Filho, Nelson Rodrigues e, mais recentemente, Tostão. Há alguns anos foi publicado o livro O Drible, do jornalista Sérgio Rodrigues, um raro caso de literatura brasileira de ficção sobre futebol. Também não são muito comuns filmes com conteúdo ficcional sobre futebol. Você vê alguma particularidade no futebol que dificulta de alguma forma sua representação como obra de ficção?

Não, não vejo. O futebol é apenas mais um item no imenso catálogo de temas que jamais encabeçaram gêneros na ficção brasileira, a ponto de serem exauridos, posteriormente redescobertos e reinventados segundo novos parâmetros, partindo de um arcabouço consistente de histórias serializadas formado ao longo do tempo, em grande medida pela incapacidade por parte de diversos setores da produção de assimilar e, sobretudo, de se apropriar de suas premissas para a conversão em narrativa ficcional ultrapassando noções pré-estabelecidas.

Há uma corrente crescente por parte de fãs de futebol que questionam os rumos do futebol mundial, inclusive aquela que prega o “ódio eterno ao futebol moderno”. O que você pensa a respeito desse tema?

Nada é eterno.

“Meu interesse era criar uma palheta extremamente limitada, objetiva, de saturação média, ao mesmo tempo que nostálgica”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Você mora em Barcelona, cidade sede de um dos times mais tradicionais e conhecidos do mundo, um time com identidade de jogo e ideologia muito característicos, mas também representante desse tão questionado futebol moderno. Pelas suas obras é possível notar uma proximidade grande sua em relação a um tipo de futebol hoje considerado romântico – na falta de uma palavra melhor. A partir dessa perspectiva, você poderia, por favor, falar algumas das suas impressões sobre o Barcelona?

Uma vez sonhei em ser torcedor do Real Madri só para ter a oportunidade de aplaudir o Barcelona de pé no 0-3 da temporada 2005-2006 no Santiago Bernabéu.

Luzes de Niterói é o seu primeiro álbum colorido após três trabalhos em preto e branco. O que motivou o seu retorno às cores?

Novamente, não há um retorno. Esta idéia só faria sentido se a ordem de publicação dos álbuns correspondesse à ordem de confecção efetiva de cada um, o que nem de longe é o caso no que refere a mim. Como já declarei em outras ocasiões, trabalho de modo absolutamente anárquico, posso estar ocupado em vários projetos ao mesmo tempo, com vários registros distintos, de modo que tudo é fruto de um fluxo constante de atividade e álbuns que tenham sido publicados antes, não necessariamente começaram a ser produzidos primeiro. Sei que parece confuso. E é.

Quanto às cores, meu interesse era criar uma palheta extremamente limitada, objetiva, de saturação média, ao mesmo tempo que nostálgica, mas não necessariamente vintage e uma boa parte da pré-produção do álbum foi consumida neste fim.

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Quais técnicas e materiais você utilizou para a produção de Luzes de Niterói?

Esboços e finalização em papel, a base de grafite, pastel oleoso e guache e cores digitais.

Eu gosto como você mantém grande parte dos quadros da HQ desalinhados, ele soam para mim como um ruído que intensifica a tensão da obra. Você pode, por favor, comentar esse recurso?

Na verdade, não mantenho grande parte dos quadros desalinhados, mas sim todos eles. Isto decorre do propósito de reforçar o quadro como unidade narrativa, em oposição à idéia de que esta unidade esteja sujeita à página, prescindindo dela como marco rítmico da leitura.

“Minha intenção, se podemos utilizar esta palavra, é a comunicação mais honesta em qualquer etapa da narrativa e todos os estágios da obra são tratados sob os mesmos fundamentos”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Eu gostei bastante de Luzes de Niterói, sendo a minha sequência preferida aquela na qual o Hélcio vê o ‘filme da vida dele’ enquanto tenta retornar à superfície. Enquanto lia, percebi que fui prendendo a respiração junto com o personagem. Foi essa a sua intenção? Houve alguma particularidade na construção dessa sequência enquanto você produzia o quadrinho?

Não, não houve nenhuma. Minha intenção, se podemos utilizar esta palavra, é a comunicação mais honesta em qualquer etapa da narrativa e todos os estágios da obra são tratados sob os mesmos fundamentos. Acredito muito na musicalidade do texto e no papel que esta musicalidade pode desempenhar uma vez codificada em quadrinhos, imbricando seu léxico de símbolos, criando um andamento peculiar, marcado por esse compasso, na minha forma de ver, oposto ao senso comum de ‘efeito cinematográfico’.

“As artes são sempre vítimas preferenciais dos sistemas de governo em contextos de crise, sejam econômicas ou institucionais”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

O que você tem lido, ouvido e assistido ultimamente? Há alguma obra em particular, seja filme, livro ou música que tenha chamado sua atenção recentemente?

Of Human Bondage, de John Cromwell; Cidades Mortas, de Monteiro Lobato; Pelote das la Fumée, de Miroslav Sekulic-Struja e Arraial da Curva Torta, com Capitão Furtado.

Desde 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita que acabou com o Ministério da Cultura e promete cortes em políticas públicas e sociais de fomento às artes. Como você acredita que a sociedade brasileira será afetada por essa realidade?

As artes são sempre vítimas preferenciais dos sistemas de governo em contextos de crise, sejam econômicas ou institucionais. Sintomaticamente, nos últimos tempos nos deparamos frequentemente com o diagnóstico de “crise de representatividade” como um dos alicerces da campanha do atual presidente, o que sempre considerei uma afirmação fascinante, porque ela define que a classe política deixou de representar os anseios da população, o que traz implícito a idéia de que em momento determinado ela se constituiu de fato em porta voz das aspirações dos cidadãos. Uma olhadela na história da república, no entanto, nos trará uma percepção ligeiramente diferente dessa.

Do meu ponto de vista, o horizonte apresenta nuvens de tempestade. 

A capa de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta
HQ / Matérias

Luzes de Niterói: Marcello Quintanilha, quadrinhos, futebol e memórias

O mais novo trabalho do quadrinista Marcello Quintanilha finalmente chegou às livrarias brasileiras. Publicado pela editora Veneta alguns meses após seu lançamento na França e em Portugal, Luzes de Niterói é livremente inspirado em um dia de caos vivido pelo pai do artista na década de 50, quando Hélcio Carneiro Quintanilha era jogador de futebol. Tão impactante quanto os trabalhos recentes mais aclamados do quadrinista, Tungstênio e Talco de Vidro, Luzes de Niterói constará em muitas listas de melhores do ano quando 2019 chegar ao fim.

Eu entrevistei Quintanilha sobre as inspirações por trás de seu novo álbum e o desenvolvimento da HQ. Transformei essa conversa em texto publicado hoje, no caderno Ilustrada do jornal Folha de São Paulo. Você lê a minha matéria clicando aqui.