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Entrevistas / HQ

Papo com João Pinheiro, autor de Depois que o Brasil Acabou: “Ser um país vermelho é nosso destino manifesto desde o nome”

Depois que o Brasil Acabou reúne trabalhos do quadrinista João Pinheiro publicados na revista Cavalo de Teta, na coletânea Na Quebrada – Quadrinhos de Hip Hop #1, no blog da editora Veneta, no programa Convida do Instituto Moreira Salles e outros títulos. São HQs e ilustrações produzidas pelo autor a partir do golpe contra Dilma Rousseff em 2016, centradas na ascensão de Jair Bolsonaro e no caos do Brasil em meio à pandemia do novo coronavírus.

“O recorte para o livro foi reunir essas HQs que tratam da vida social brasileira dos últimos cinco anos”, me contou o autor sobre a coletânea recém-publicada pela editora Veneta.

Pinheiro é autor de Kerouac, (2011), Burroughs (2015), Carolina (2016, em parceria com Sirlene Brabosa) e Diário Vagulino: Desenhos das Quebradas (2017). Depois que o Brasil Acabou consiste em registros das perspectivas e leituras de um dos autores mais relevantes da cena nacional de HQs sobre um país em crise crescente. São histórias curtas, com propostas e abordagens distintas de trabalhos prévios do autor, tanto trágicas quanto divertidas.

Na conversa a seguir, Pinheiro fala sobre suas inspirações, suas técnicas e suas avaliações sobre o Brasil contemporâneo. Saca só:

“Voltamos a ser uma colônia extrativista”

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas por aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

Estamos caminhando, é a resposta mais positiva que consigo dar. Ainda é difícil avaliar, mas parece acertado dizer que essa pandemia será um trauma coletivo para várias gerações. Aqui, aos poucos, fomos nos acostumando com a rotina de cuidados e restrições que, no meu caso, não foi tão alterada na questão do isolamento, já que trabalho a maior parte do tempo em casa há mais de dez anos. Em 2020 fiquei alguns meses paralizado, sem conseguir produzir, apenas trabalhando no necessário pra pagar as contas, mas sem ânimo pra criar nada pessoal. 

João, você pode contar um pouco sobre as origens de Depois que o Brasil Acabou? O álbum reúne trabalhos publicados por você apenas na internet ou em publicações de tiragens menores. Você já tinha em mente reunir esses trabalhos um dia? Qual foi o recorte, o filtro editorial de vocês, durante o processo de edição desse livro?

A origem foi a criação do zine Cavalo de Teta, que começou quando conheci pessoalmente meu ídolo Schiavon, em 2016, durante as manifestações dos book blocs, quando participei com meu escudo do Abajur Lilás, de Plínio Marcos, e o Schiva tava lá com o escudo que reproduzia a capa da revista Dundum número 1. Trocamos ideia e nos identificamos. Depois, quando da ocasião da Ugra Fest, que rolou no SESC Belenzinho, combinamos de fazer um zine, 12 páginas de cada e tal (ele mesmo escreveu sobre aqui). Na empolgação falei de chamar outros caras que eu acompanhava e curtia: Gerlach, Evandro Alves e MZK. Logo na primeira edição pensei no bordão: ‘Cavalo de Teta, a primeira revista pós-Brasil do mundo’. Infelizmente não era um exagero de retórica, pois o clima do golpe já estava todo lá e as garras do imperialismo já faziam sombra do Oiapoque ao Chuí. No entanto, as HQs foram sendo feitas sem a ideia pré-concebida de reuní-las no futuro. Eu estava com vontade de fazer histórias curtas, de experimentar abordagens diferentes e, ao mesmo tempo, de fazer uma revista que fosse divertida para quem lesse. O recorte para o livro foi reunir essas HQs que tratam da vida social brasileira dos últimos cinco anos. 

Página de Depois que o Brasil Acabou, obra de João Pinheiro publicado pela editora Veneta (Divulgação)

Você pode falar, por favor, sobre a escolha do título? Como vocês chegaram em Depois que o Brasil Acabou? Por que esse título?

Inicialmente eu havia sugerido esse título: Quadrinhos Pós-Brasil, porque era uma expressão constante que utilizei durante esse último período pra divulgar a Cavalo de Teta. Porém, o Rogério [de Campos, editor da Veneta] sugeriu Depois que o Brasil Acabou, e eu achei que soava melhor e amarrava bem o conteúdo geral da coletânea. Batemos o martelo nessa segunda opção. Para mim o título não é uma hipérbole, pois acho que realmente deixamos de ser um país oprimido, mas com algum desenvolvimento econômico autônomo, para nos tornarmos uma neocolônia dos EUA e demais países dominantes do capitalismo. 

Aliás, você consegue estabelecer algum ponto específico na nossa história em que esse pós-Brasil tem início? Em meio aos vários ocorridos trágicos recentes, você consegue estabelecer algum fato ou conjunto de eventos em particular que impulsionou a chegada da nossa atual realidade?

A história recente do Brasil é complexa e seriam necessários vários volumes pra dar conta de tantos golpes sucessivos aplicados contra o povo somente nessa quadra histórica que abrange o final da ditadura militar, em 1985, e a chamada Nova República até os dias atuais. Mas resumidamente, e sem querer defender tese sobre o assunto, apenas como um cidadão de 40 anos que presenciou isso tudo da periferia dos acontecimentos, vejo que o povo derrubou a ditadura com as manifestações populares, greves, movimento estudantil etc… Acuados, a burguesia e os militares prepararam o primeiro golpe, que foi o de sequestro dessa luta pelas oligarquias e a consequente eleição indireta do cidadão chamado Tancredo Neves, avô do Aécio Neves, mas provavelmente mais eficaz na arte de realizar maldades contra o povo por ser um homem dos militares e do poder econômico. Daí esse cidadão teve um piripaque providencial e quem assumiu foi o líder dos militares no congresso: o ilmo. sr. José Sarney, que tinha sido o líder do Arena – principal partido militar. Transição melhor que essa não poderia existir, do ponto de vista dos militares é claro. Em seguida, a burguesia fabricou o Collor, com todo seu poder financeiro e midiático, e foi aquele desastre que conhecemos.  Após o governo Itamar, finalmente Fernando Henrique eleito, começa a implementação da política neoliberal que deu início às privatizações de várias estatais importantes seguindo as orientações do Consenso de Washington e FMI. Ali começa verdadeiramente a liquidação do país que levou milhões de brasileiros à fome e liquidou parte substancial da indústria nacional que vinha sendo construída pelo menos desde os anos 1930.

No início desse século o país estava em pedaços e milhares morriam de fome. Nessa situação, o Partido dos Trabalhadores assumiu o governo em 2003 e, através de uma série de programas sociais, conseguiu conter a explosão social que já ocorria concomitantemente nos países vizinhos da América Latina, como resposta desses povos por problemas muito semelhantes. Com algumas concessões, o governo petista conseguiu governar por três mandatos, mas após a crise capitalista de 2008, os capitalistas nacionais e internacionais viram a necessidade de retomar a sanha privatista a fim de salvar o capitalismo agonizante. Ou seja, a alternativa deles diante da crise, foi fazer com que os países pobres do globo paguem a conta da crise. O golpe de 2016 foi dado para retomar essa política iniciada lá atrás de liquidação do país e para os golpistas do momento a ordem é privatizar tudo, liquidar o país. Estão conseguindo. A aprovação do teto de gastos, da autonomia do Banco Central, a retirada de direitos dos trabalhadores etc… Tudo configura a perda total de nossa soberania. Voltamos a ser uma colônia extrativista. 

Acho que Depois que o Brasil Acabou é uma grande amostra da sua versatilidade, tanto em termos de estilo de desenho quanto em termos de investidas em diferentes gêneros. Fico curioso em relação aos seus critérios para optar por uma ou outra abordagem e estabelecer esse ou aquele traço para uma determinada HQ. Como funciona esse processo para você?

Eu sou mais fascinado pela linguagem dos quadrinhos do que por algum estilo, autor ou gênero específico. Acho que ideias são mais legais de seguir do que um estilo. Nos meus diários gráficos sempre experimentei com diferentes abordagens e quando decidi fazer histórias curtas para publicar na Cavalo, achei que era uma boa oportunidade de colocar pra jogo essas propostas diferenciadas. No geral procurei me manter mais fiel a ideia, e ao que determinado argumento pedia, do que a um estilo específico. 

“Acho que ideias são mais legais de seguir do que um estilo”

Página de Depois que o Brasil Acabou, obra de João Pinheiro publicado pela editora Veneta (Divulgação)

Você pode me falar um pouco sobre as suas técnicas preferidas? Quais são os materiais que você costuma usar com mais frequência? Há alguma técnica predominante nos seus trabalhos em Depois que o Brasil Acabou?

O que eu mais gosto é do bico de pena e nanquim sobre papel Bristol. Mas nesse livro temos algumas histórias que foram desenhadas totalmente no computador.

Tem dois trabalhos seus em Depois que o Brasil Acabou com a presença de cores. São cores discretas e usadas com parcimônia, mas estão lá. A maior parte dos seus trabalhos publicados até hoje é em preto e branco. Você tem alguma preferência em particular pelo preto e branco? Como foi essa experiência trabalhando com cores?

Sempre preferi os quadrinhos em preto e branco. Um dos primeiros gibis que lembro de ter lido, foi um do Conan do meu irmão mais velho. Era desenhado pelo John Buscema, com toda aquela elegância que lhe é característica. Depois tiveram as revistas nacionais que em sua imensa maioria eram em PB também. É meio que minha escola. Sei que naquela época as publicações também eram publicadas desse modo por questões econômicas, mas como essas histórias a que você se refere, foram feitas para serem publicadas na internet, aproveitei para usar esse recurso a mais onde auxiliasse a narrativa. 

E é fácil para você alternar os seus “modos de produção”? Digo, é tranquilo para você ir do “João galhofeiro e bem-humorado” de alguns desses trabalhos para o “João mais reflexivo e sóbrio” de outros? A experiência de produção para você é muito distinta, por exemplo, quando você está trabalhando em uma Cloro Maldita de uma Farol de Quebrada?

Sim, porque, na verdade, na infância e na adolescência, eu fazia mais HQs de humor do que ‘sérias’. Meu estilo era mais cartum, mas depois que publiquei meu primeiro livro, um estilo mais realista passou a prevalecer. Até agora. 

Página de Depois que o Brasil Acabou, obra de João Pinheiro publicado pela editora Veneta (Divulgação)

O que mais te interessa hoje na linguagem das histórias em quadrinhos?

Eu sou completamente tarado pela linguagem das histórias em quadrinhos. Os desenhos separados por quadros ou não, o balão e as letras que funcionam como desenhos também, a leitura muito rápida desses vários elementos. Tudo isso é fascinante. Mas o principal é contar histórias.

Acho que Depois que o Brasil Acabou faz um panorama e um registro muito precisos do Brasil pós-golpe. Você fez quadrinhos sobre os golpistas logo após o golpe, escreveu sobre o Temer enquanto ele estava no poder, tratou do início do governo Bolsonaro com ele em curso e fez trabalhos sobre a pandemia ainda no começo dela. Como é para você a experiência de produzir todos esses trabalhos no calor do momento? 

Ao mesmo tempo, me angustia e me obriga a refletir e pesquisar pra tentar entender o que aconteceu. Parafraseando o cineasta Jeferson De: só de raiva, desenho com amor. 

Página de Depois que o Brasil Acabou, obra de João Pinheiro publicado pela editora Veneta (Divulgação)

João, você consegue fazer alguma previsão para o futuro do Brasil? Você consegue vislumbrar alguma perspectiva de melhora para o país?

É muito difícil prever essas coisas que dependem de muitos fatores, mas sim, acho que o povo um dia vai fazer a revolução no Brasil. E pra desespero dos lunáticos direitista só digo o seguinte: Brasil significa Vermelho como uma brasa. Ser um país vermelho é nosso destino manifesto desde o nome. 

No que mais você está trabalhando no momento, João? Você tem algum outro quadrinho em vista para um futuro próximo? Alguma perspectiva para um possível novo número da Cavalo de Teta?

Estou finalizando uma adaptação da peça Barrela, de Plínio Marcos, para os quadrinhos e minha HQ A Tragédia dos Cães até o final deste ano. Inclusive, a HQ dos Cães tem um site onde pretendo publicar o processo e extras periodicamente.

Eu gostaria muito de fazer uma nova edição da Cavalo de Teta. Se sobrevivermos, vou tentar convencer meus parceiros pra fazermos algo pro ano que vem. 

Você pode recomendar algo que tenha visto, ouvido ou lido recentemente?

Tenho lido HQs brasileiras dos anos 70/80, principalmente de terror. Redescobri uma caixa de HQs antigas com trabalhos do Elmano Silva, Mozart Couto, Shimamoto, Flavio Colin, E.C. Nickel, Watson Portela, Rodolfo Zalla, Jayme Cortez, Eugênio Colonnese… Foi incrível relê-los tantos anos depois e perceber o quanto estão impregnados no meu trabalho sem que eu me desse conta. Também estou lendo toda a obra do William Blake e sua biografia, além de textos sobre as seitas gnósticas do início da era cristã. É um tema fascinante. 

A capa de Depois que o Brasil Acabou, obra de João Pinheiro publicado pela editora Veneta (Divulgação)
HQ

Assista ao bate-papo de lançamento de Kit Gay, com Vitorelo e Aline Zouvi

Mediei o evento de lançamento de Kit Gay, obra da quadrinista Vitorelo recém-publicada pela editora Veneta. Eu, a autora e a quadrinista Aline Zouvi conversamos sobre as origens desse projeto, a produção do livro e o impacto do lançamento de Kit Gay no Brasil de hoje. Compartilho o vídeo com a íntegra da nossa conversa mais abaixo. Aproveito a deixa para recomendar mais uma vez o excelente trabalho de Vitorelo no livro. Leia o Kit Gay, dê de presente e faça o livro circular por aí. A seguir, Vitorelo e Aline e Zouvi falando sobre Kit Gay:

HQ

5ª (4/11) é dia de live de lançamento de Kit Gay, de Vitorelo

Vou mediar a live de lançamento de Kit Gay, obra da quadrinista Vitorelo recém-publicada pela editora Veneta. O evento rola amanhã, quinta-feira, dia 4 de novembro, às 21h, no canal da Veneta no YouTube e na página da editora no Facebook. Também participa do papo a quadrinista Aline Zouvi, autora de Síncope e Óleo Sobre Tela (Ugrito #17).

Conheci Vitorelo e suas HQs em algum dos muitos eventos na loja da Ugra, em São Paulo. Minhas leituras de Perigeu e Tomboy, em 2017, me levaram a convidá-la para participar da Série Postal em 2018. Para o meu projeto de quadrinhos em formato de cartão postal ela produziu Crônica – que você lê aqui e confere os bastidores de sua produção aqui e aqui.

Depois ainda vieram as excelentes TILT e Lilibel, além da versão zine do Kit Gay e de participações em publicações coletivas como a 18ª edição da revista Café Espacial e as coletâneas Sob a Luz do Arco-Íris e Quadrinhos Queer, ambos da editora Skript.

Em suma: trata-se de uma das minhas autoras preferidas publicando um trabalho necessário para os tempos retrógrados que estamos vivendo. Reforço o convite: 5ª, 4/11, 21h, no YouTube e no Facebook da Veneta. O papo vai ser massa, tenho certeza. Fico no seu aguardo.   

A capa de Kit Gay, obra de Vitorelo publicada pela editora Veneta (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Joe Sacco, autor de Palestina: “O que os palestinos têm a favor deles, além de sua própria humanidade?”

Entrevistei o quadrinista e jornalista maltês Joe Sacco. O foco da conversa foi o relançamento de seu mais conhecido e celebrado trabalho no Brasil, o clássico Palestina, pela editora Veneta. A obra retorna às livrarias nacionais às vésperas do aniversário de 30 anos da viagem do autor ao Oriente Médio que serviu de base para a produção da HQ. Transformei essa conversa com Sacco em matéria para o caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo.

Compartilho agora a íntegra da minha entrevista com o artista. Conversamos por vídeo, com ele falando de sua casa em Portland, no estado norte-americano do Oregon.

Sacco refletiu sobre os 30 anos de Palestina; falou sobre o impacto da ascensão de líderes de extrema-direita no recrudescimento da ofensiva de Israel contra os palestinos; apontou paralelos entre o roubo de terras na Palestina, no Canadá e no Brasil; analisou os 10 anos da Primavera Árabe; e contou um pouco sobre o livro que está desenvolvendo sobre os Rolling Stones. Entre outros temas.

Recomendo a leitura de todos os títulos de Sacco. São grandes quadrinhos e excelentes reportagens. Leia (ou releia) a nova edição de Palestina, também o meu texto para a Folha e confira a íntegra da minha conversa com o autor:

“Israel serve a um propósito na dinâmica do poder, no contexto colonial”

Quadro de Palestina, HQ de Joe Sacco (Divulgação)

Palestina está sendo relançado no Brasil 21 anos após sua primeira publicação e 30 anos após o início da série nos Estados Unidos. Você vê muitas mudanças no conflito entre Israel e Palestina do início dos anos 1990 até o nosso presente?

Acho que piorou. É uma coisa muito infeliz de se dizer, mas acho que o livro Palestina ainda tem sua relevância porque a ocupação continua. Mas eu diria que tudo aumentou: o nível de violência aumentou, o número de colonos aumentou, e a ocupação se fortaleceu. E temos visto muitos indícios disso. As demolições de casas estavam acontecendo quando eu estava lá e estão se intensificando. Portanto, as pessoas ainda estão sendo expulsas de suas terras, e eu acho que o projeto final de remover os palestinos ou separá-los de alguma forma de suas terras continua.

Você vê algum impacto da ascensão recente de líderes de extrema-direita nos debates e no desenrolar dos conflitos entre Israel e Palestina nos últimos anos?

Muitos destes líderes de direita também são apoiadores ferrenhos das políticas israelenses. [Donald] Trump, obviamente, fez o que muitos presidentes norte-americanos falavam… Quando se está falando sobre o contexto norte-americano, quase todos os políticos apoiam bastante Israel e vão apoiar as políticas israelenses, e vão dizer exatamente as mesmas coisas. Trump apenas empurrou a coisa para onde já estava indo de qualquer maneira. Pode-se dizer que ele foi mais grosseiro ou mais brutal ou o que seja, mas também pode-se dizer que ele representa algo que é verdadeiramente norte-americano e estava sempre indo nessa direção. Bolsonaro também é um amigo de Israel; Modi [Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia] é um amigo de Israel; Orbán [Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria] é um amigo de Israel; talvez Erdogan [Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia] nem tanto; mas sim, é uma ascensão da direita e a ascensão de certa brutalidade na política. E isso sempre me faz pensar que, no contexto dos Estados Unidos, o período de, digamos, o início dos anos 1970 até meados dos anos 1980 foi uma espécie de bolha em que vivemos. Achamos que as coisas iam ficar mais tranquilas. Políticas públicas tendiam a ajudar mais as pessoas. E acho que estamos vendo algo diferente agora. Acho que vivíamos em uma bolha naquela época, e agora estamos apenas vendo a realidade do poder, como o poder se expressa e certamente como o poder tem se expressado no contexto de Israel e Palestina. Quero dizer, o que os palestinos têm? O que eles têm a favor deles, além da humanidade deles? A humanidade deles simplesmente não funciona neste contexto, ou certamente não funciona com aqueles que estão no poder. Israel cumpre certas funções para os Estados Unidos. Israel meio que se colocou no papel, como Biden disse, de basicamente ser nosso porta-aviões no Oriente Médio. É um aliado dos Estados Unidos. Quero dizer, não é apenas o lobby aqui, ou o forte apoio dos cristãos evangélicos. Claro, tem muito a ver com isso. Mas na verdade tem a ver com o fato de que Israel serve a um propósito na dinâmica do poder, no contexto colonial.

“Há aspectos do poder que sempre vão atuar contra pessoas que pensam nas coisas de uma maneira mais ampla”

Página de Palestina, HQ de Joe Sacco (Divulgação)

Já vi o seu trabalho descrito como humanitário. E nesse contexto atual de ascensão da extrema-direita e de toda essa brutalidade que você mencionou, vejo um predomínio de tudo que compreendo como oposto de humanitário ou humanista. Enfim, você vê alguma causa em particular para a ascensão dessas lideranças de extrema direita?

Essa é uma grande questão. Não tenho certeza se estou totalmente qualificado para respondê-la, mas diria que muita gente está sendo deixada para trás, e posso falar sobre o que conheço melhor, que são os Estados Unidos. Talvez se aplique a outros contextos, como até mesmo o seu. Mas nos Estados Unidos temos esse tipo de conceito liberal de que todos serão ajudados, todos serão puxados para cima. Você vai conseguir o seu plano de saúde, você vai conseguir isso, você vai conseguir aquilo. E na verdade, não tem funcionado assim. Se você olhar para as cidades norte-americanas – eu moro em Portland, Oregon, e o establishment aqui é totalmente democrata. Não é um establishment republicano. Está muito à esquerda ou é assim que eles se representam. Muito progressista, sabe, mas eles são muito brutais com as pessoas em situação de rua ou sem moradia. A polícia aqui é muito violenta. E, sabe, muitas pessoas estão realmente excluídas desse papo liberal. Elas estão realmente do lado de fora. E acho que foi isso que aconteceu nos Estados Unidos. Se você for para o meio dos Estados Unidos, os lugares estão fechados com tábuas. Não há empregos. A única comida é fast food, fast food gorduroso. Você tem que dirigir 45 minutos até um Wal-Mart, ou uma dessas grandes redes de lojas, para conseguir vegetais de qualquer tipo, e não os melhores vegetais, sabe. Então, é como se muitos lugares tivessem ficado para trás enquanto ouvíamos coisas como a retórica elevada de Barack Obama, sabe, como se tudo estivesse ótimo.

E no meu contexto em Portland, com meus amigos progressistas, tudo parece muito bom. Mas a realidade é que, para muita gente do lado de fora, não tem sido bom e elas são ignoradas e demonizadas, eu diria, pela mídia progressista. Eu não vou justificar a direita de forma alguma, mas há muitas pessoas que, se tivessem sido ajudadas, ajudadas de verdade, e se simplesmente não tivessem ouvido tanta retórica… Talvez as coisas fossem um pouco mais fáceis, um pouco mais tranquilas neste país, mas não são, porque muitas pessoas perderam suas casas. Muitas pessoas não têm emprego. Os salários são muito baixos. E um demagogo como Trump atrai essas pessoas, porque embora ele seja um milionário e nada parecido com essas pessoas, e provavelmente as deteste a portas fechadas, ele fala a língua delas. E acho que é o que funciona agora. Sabe, sobre o contexto brasileiro, não sei. Quero dizer, você olha para alguém como Bolsonaro, você nem consegue imaginar que alguém assim conseguiria chegar ao poder. Mas se você olhar para o que aconteceu com Dilma e Lula, eles foram tirados do poder. Não sei se você quer entrar na política brasileira…

Sim, claro. E eu concordo com você.

Sim. Quer dizer, eles [políticos de direita] jogam bem pesado. E alguém como Lula obviamente atrai muita gente. Mesmo assim, você pode encontrar maneiras de, se controlar certos aspectos do poder, tirar essas pessoas de lá. E mesmo no contexto dos Estados Unidos, alguém como Bernie Sanders, sabe, não o apoio cem por cento, mas acho que ele representava algo melhor. Mas mesmo o establishment do Partido Democrata garantiu que ele nunca chegaria perto da indicação [à candidatura democrata para a Presidência dos EUA]. E parecia que ele tinha uma chance. Mas, sabe, simplesmente há aspectos do poder que sempre vão atuar contra aquelas pessoas que pensam nas coisas de uma maneira mais ampla. Quer dizer, o poder funciona para certos interesses, sabe, quais são os interesses? Acho que essa é a grande questão. Quem está realmente por trás dessas pessoas?

“Quando as pessoas dizem que não vão sair, é aí que sinto esperança”

Página de Palestina, HQ de Joe Sacco (Divulgação)

O seu trabalho mais recente, Paying the Earth, também diz respeito a disputas territoriais. E aqui no Brasil também há um debate crescente sobre o roubo de terras indígenas. Crimes do tipo não são recentes, mas eles parecem estar sendo mais noticiados atualmente. Ou você acha que eles estão realmente se tornando mais frequentes ao redor do mundo?

Sim, é verdade. Temos essas fronteiras nacionais, digamos o Brasil, mas na verdade existe um projeto de colonização interna, assim como foi no Canadá. Você tem uma fronteira, Canadá, mas então você tem que realmente colonizar o Canadá e você tenta colonizar da maneira que puder. E a terra é e sempre será uma questão. Não vamos conseguir contornar a terra e o apego das pessoas à terra. E os paralelos que se podem ver entre o contexto palestino e o contexto dos povos indígenas no Canadá, no Brasil ou onde quer que seja, é que as pessoas que querem aquela terra, por qualquer motivo, seja um espaço para viver, para manter o seu próprio povo, como no contexto palestino; ou no contexto brasileiro, para derrubar florestas e plantar lavouras, soja, ou criar gado ou o que tiver lá; ou no contexto indígena no Canadá, pelos recursos, é a separação. Você tem que separar as pessoas de suas terras, e há maneiras de fazer isso: ou você as expulsa da terra ou as mata, ou faz uma combinação de ambos, ou tenta culturalmente separar as pessoas de suas terras, como fizeram no Canadá.

Não foi tanto um ataque explícito como tivemos nos Estados Unidos, ou uma série de ataques explícitos. Foi mais algo como pegar as crianças, colocá-las numa escola, quebrá-las, bater nelas quando elas falam suas próprias línguas; você corta qualquer relação delas com sua cultura. Então, quando elas voltam para suas casas, elas não podem mais falar a língua. E em um lugar onde as tradições são transmitidas oralmente, se elas não conseguem mais falar o idioma, elas não vão ouvir o que os anciãos têm a lhes dizer. Assim foi feito lá. Sabe, existem maneiras diferentes, existem maneiras mais sutis. E agora, claro, vemos no Canadá mais um reconhecimento do que aconteceu. Mas você pode passar gerações e gerações pensando “ah, bem, as pessoas indígenas estão nas escolas, isso é bom, elas vão aprender a ler e escrever”. Mas, sabe, há algo mais acontecendo. É um projeto. É um projeto para roubar a terra, obter o que está nela para seus próprios fins. Está acontecendo no Brasil, está acontecendo na Palestina, está praticamente concluído nos Estados Unidos e está acontecendo no Canadá.

E fico curioso, em meio a todos esses casos de extermínio e roubo de terra, você consegue se sentir de alguma forma otimista por um futuro melhor?

Sou otimista porque acho que as pessoas resistem. E acho que nunca podemos dizer que vamos chegar a um ponto em que vamos vencer. É uma luta constante. Você tem sorte se conseguir recuperar algo do que eles tiraram, mas eles sempre tentarão tirar mais de você. Apesar de tudo o que aconteceu com os povos indígenas do Canadá, você vê uma parte da população — algumas pessoas se sentem meio derrotadas, mas uma parte da população resiste, toma consciência, se apega à sua cultura, tenta encontrar força através da cultura. Você vê isso com os palestinos. Quero dizer, olhe o que está acontecendo [em referência aos protestos da população palestina que aconteceram em maio]. Ainda há resistência acontecendo. Os palestinos estão tentando fincar os pés na terra o máximo possível e eles basicamente estão dizendo “não vamos sair”. E quando as pessoas dizem que não vão sair, é aí que sinto esperança. Quando elas vão embora, quando elas se resignam, quando elas cedem, é aí que eu começo a perder a esperança. Mas ainda sinto que em todo o mundo as pessoas fincam os pés na terra. Até no Brasil existe uma reação. Mas é sempre uma luta, que estará sempre conosco.

“A Primavera Árabe foi uma decepção em muitos aspectos, mas ainda não sabemos as consequências dela”

Página de Palestina, HQ de Joe Sacco (Divulgação)

Falando sobre lutas e esperança, a Primavera Árabe completou 10 anos em 2021. Como você analisa esse movimento após 10 anos? Na época, enquanto ocorria, me pareceu muito mais revolucionário e esperançoso do que acabou sendo. Você concorda?

Sim, eu fui uma das pessoas que ficaram extremamente animadas com aquilo. E [a Primavera Árabe] de fato mostrou o poder das pessoas nas ruas. Mostrou quanta força as pessoas têm. Se você olhar para o caso do Egito, por exemplo, eles se livraram de Mubarak [Hosni Mubarak, que foi presidente do Egito entre 1981 e 2011], e isso foi incrível. Mas o problema era que havia outro grupo. Havia a Irmandade Muçulmana, que por muitas décadas vinha construindo um movimento. E era um verdadeiro movimento social, eles estavam ajudando as pessoas. Eles podem ter valores com os quais eu não concordaria, mas eles eram um movimento de longo prazo e meio que sequestraram aquela vitória das pessoas nas ruas, que eram estudantes e pessoas assim. Eles meio que tomaram aquela vitória para eles. E então, é claro, eles estragaram tudo. E o exército está de volta ao poder. Mas há certos lugares que têm correntes opositoras muito fortes. O exército no Egito é muito forte. Ele controla muito da economia. O exército no Egito é uma potência manufatureira, produz geladeiras, tem muito dinheiro e poder. As pessoas meio que esperavam que o exército ficasse do lado delas. E, no fim das contas, não é assim que as coisas funcionam.

Acho que a Primavera Árabe foi uma decepção em muitos aspectos, mas ainda não sabemos as consequências dela. É como se você pudesse falar sobre o Occupy Wall Street, que se inspirou muito na Primavera Árabe. Você pode dizer que [o Occupy] foi derrotado também. Mas quais são as implicações? [O Occupy] ainda mantém algumas brasas acesas de algo vivo? E sim, ainda há ditadores no poder, mas por outro lado, você vê o poder das pessoas nas ruas tentando formular suas ideias. Sabe, é sempre um projeto contínuo. Se você olhar para um período, você pode dizer “ah, foi derrotado”. Mas, em outro sentido, o que disso ainda veremos no futuro? O que isso vai inspirar no futuro? Não podemos realmente dizer.

O foco dos seus trabalhos costuma ser na perspectiva civil em cenários de conflito. Você evita, por exemplo, expor vozes oficiais. Por que essa sua opção em tratar de conflitos globais pelo ponto de vista de civis e de pessoas que costumam não ser ouvidas por grandes meios de comunicação? 

Para ser honesto, é algo meio acidental, porque quem sabe o que eu teria sido se tivesse saído imediatamente, quando me formei em jornalismo, quem sabe que tipo de jornalista eu seria, se tivesse ido direto para a grande mídia. Digamos que eu trabalhasse para a NBC News. Eu provavelmente teria me tornado um jornalista que estaria nos corredores do poder falando com os poderosos. E eu provavelmente teria aceitado muitas das opiniões deles e teria reportado a um chefe da grande mídia que queria certas histórias. Felizmente, eu não tinha dinheiro, nada por trás de mim, nenhuma grande instituição me dando apoio. Então, sempre que eu ia aos lugares, eu meio que encontrava meu próprio caminho. E a única maneira de encontrar meu próprio caminho foi viver com muito pouco. Nunca pude pagar para me hospedar em hotéis com os outros jornalistas; eu tive que morar ou ficar em albergues, ou tive que alugar um quarto na casa das pessoas, como na Bósnia, em que morei com uma pessoa idosa que estava alugando um quarto. Então você começa a ver as pessoas nesse nível. Eu não estava passando meu tempo com outros jornalistas. E não tenho nada contra isso necessariamente, mas eu simplesmente via uma perspectiva diferente, e essa se tornou minha perspectiva. E sou muito grato por isso. Honestamente, sou grato por não ter começado a trabalhar com uma grande instituição por trás de mim. Isso me faz pensar que talvez… Não sei, não me dou tanto crédito, eu poderia ter me tornado um tipo de pensador muito convencional. Mas quando você está se misturando com as pessoas, quando você está frequentando os cafés delas, quando você não tem grana para tomar um drinque no Holiday Inn ou seja lá o que for, você está em uma seara diferente. E esta seara meio que se torna aquilo em que você se interessa, aquilo a que tem acesso. E isso se torna uma história sobre os civis, sobre as pessoas que não têm nada, porque você meio que não tem nada. Sabe, você está meio que nessa mistura. Agora, tudo isso dito, não sou necessariamente contra estar com as forças militares. Estou interessado em como eles percebem as coisas. Não passei muito tempo com as Forças de Defesa de Israel, mas passei alguns dias com elas em Rafa [cidade palestina na Faixa de Gaza]. E passei algumas semanas com fuzileiros navais norte-americanos no Iraque. Sabe, eu sou um jornalista. Estou interessado em tudo.

“Para mim, entreter é, na verdade, fazer alguém querer continuar lendo”

Página de Palestina, HQ de Joe Sacco (Divulgação)

Palestina foi muito importante para a minha formação como leitor de quadrinhos, li o seu livro quando tinha 15 anos. E uma coisa que me impressionou muito na época eram os seus designs de página e como você mesclava os textos com a arte. Depois, quando estudei jornalismo tive várias aulas tratando de hierarquização de informação. Enfim, como você pensa e constrói uma página? Como você administra a relação entre textos, ilustrações e as informações que você quer passar? Não sei se faz sentido, talvez eu esteja querendo saber o grande segredo por trás dos seus trabalhos…

Esta é uma pergunta interessante… Não é uma questão de design, não se trata de pensar em desenhar uma página. Obviamente, desenhar [a página] é importante e é divertido e tudo mais. Mas, na verdade, é uma questão de atitude. Eu estudei jornalismo, assim como você, mas os livros que realmente me cativaram, no que diz respeito a livros de jornalismo, foram as obras de pessoas como Hunter S. Thompson ou Michael Herr, que escreveu um livro chamado Dispatches, sobre a Guerra do Vietnã. Eles tinham uma atmosfera. E eu li outros livros sobre a Guerra do Vietnã escritos por jornalistas realmente bons. Eles me deram informações realmente boas, mas não me deram esse gosto na boca de como era estar ali. E se você leu Michael Herr ou leu Hunter S. Thompson, talvez Fear and Loathing [in Las Vegas] no contexto da campanha eleitoral da eleição de 1972 nos Estados Unidos, é um livro incrivelmente apaixonante, incrivelmente engraçado, ele vai removendo as camadas de baboseira e está realmente entrando nisso. Mas, por outro lado, Hunter S. Thompson realmente entendia o projeto eleitoral norte-americano e realmente se importava com os Estados Unidos. E toda aquela paixão, você pode sentir na página.

Então, de certa forma, é meio que pegar essa atitude e colocá-la nos desenhos. Não se trata apenas de informações secas. Na verdade, é tão fácil entediar as pessoas com jornalismo. É tão fácil transformar um tema muito interessante como a Palestina em um trabalho longo e arrastado. E toda a minha ideia era que [o quadrinho] não seria um trabalho longo e arrastado. Seria algo que alguém vai continuar virando a página. E eu não uso essa palavra levianamente, mas tem que ter algo de entretenimento. E não digo isso de maneira frívola; para mim, entreter é, na verdade, fazer alguém querer continuar lendo. Isso é entretenimento para mim. Como se você estivesse muito envolvido naquilo. É atraente. E foi isso que tentei fazer, e por isso não é tanto uma questão de como eu desenho uma página. É mais sobre qual estética estou trazendo para esse desenho.

“[O livro sobre os Rolling Stones] É sobre muitas coisas que sempre estiveram na minha mente, mas que não se enquadram bem nos limites do jornalismo”

Quadro de Palestina, obra de Joe Sacco (Divulgação)

Falando sobre entretenimento, li que você está trabalhando em um livro sobre os Rolling Stones. Você tem reportagens sobre artes e música, mas é conhecido principalmente sobre suas obras tratando de conflitos. O que você pode contar sobre esse próximo projeto? O que difere entre a produção de um trabalho político e uma obra sobre artes e cultura?

Bem, o livro dos Rolling Stones meio que começou como um livro sobre os Rolling Stones, mas realmente se tornou algo que, não sei como dizer exatamente, mas ainda é sobre um conflito. É sobre muitas coisas que sempre estiveram na minha mente, mas que não se enquadram bem nos limites do jornalismo. Porque, com jornalismo, você se interessa pelo fato, pelo que aconteceu aqui, quem fez o quê a quem. É disso que se trata Palestina. É sobre tentar chegar a um conjunto de coisas que podemos dizer que são fatos e descobrir o que está acontecendo, o que está ligado a isso. Mas há muitas coisas que um escritor de ficção pode fazer que um jornalista nunca pode fazer. Porque se um jornalista não consegue provar… Um jornalista pode descobrir isso e descobrir aquilo, mas não pode realmente ligar esses pontos. Mesmo que o jornalista saiba que eles estão conectados, ele não pode provar isso. Enquanto um escritor de ficção pode fazer isso. Estou me movendo em um espaço que não vou chamar de ficção, mas um espaço de uma espécie de ensaio onde estou pensando mais sobre a psicologia humana, por que as coisas são como são, em lugar de pensar quem fez o quê a quem. É disso que se trata o livro dos Stones. Além disso, espero que seja muito divertido. Estou curtindo muito, mas é mais profundo do que inicialmente pensei que seria. Tornou-se algo realmente muito maior. É muito difícil para mim descrever o que ele é.

E você já tem alguma previsão de lançamento? 

Bem, se eu continuar trabalhando nele nesse ritmo, provavelmente você o veria em três anos. Mas a questão é que tenho um livro de jornalismo estrito que tenho que terminar, então tenho que interromper [o trabalho no livro dos Stones]. E esse livro é sobre uma revolta que ocorreu na Índia. Então eu ainda tenho meus projetos de jornalismo, mas eu meio que preciso desse livro [dos Stones] porque os diários e projetos, depois de um tempo, ficam muito pesados, o jornalismo rigoroso é muito pesado, então eu preciso do livro dos Stones também.

A capa de Palestina, obra de Joe Sacco republicada pela editora Veneta (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Marcello Quintanilha, autor de Escuta, Formosa Márcia: “Nada é mais urgente do que parar o genocídio”

Conversei com o quadrinista Marcello Quintanilha sobre Escuta, Formosa Márcia, mais novo trabalho do autor de obras como Luzes de Niterói, Talco de Vidro e Tungstênio. Transformei essa entrevista em matéria para o caderno Ilustrada, do jornal Folha de S.Paulo, que você lê clicando aqui. Tratei no meu texto, principalmente, das distinções entre esse novo título do artista e alguns de seus trabalhos prévios. Escrevi sobre a trama do livro, as cores da obra e algumas leituras recentes do autor que acabaram impactando o desenvolvimento da HQ.

Compartilho agora a íntegra de minha conversa com Quintanilha. Ele me falou sobre técnicas e materiais de trabalho, me contou sobre a influência do teatro do absurdo e de Fiódor Dostoiévski, tratou de sua paixão por música e Hugo Pratt e expôs suas avaliações sobre o atual contexto sócio-político-pandêmico do Brasil.

Escuta, Formosa Márcia é o meu quadrinho preferido de 2021 até aqui. Recomendo sua leitura assim que possível. Também recomendo a leitura da minha matéria sobre o livro para a Folhaassim como o meu texto para o jornal sobre Luzes de Niterói e a entrevista que fiz com o autor no início de 2019. Depois, volte aqui, e leia a conversa a seguir, minha mais recente entrevista com Marcello Quintanilha:

“A linha preta é mínima, discreta, quase uma concessão, permitindo que as cores explodam nos enquadramentos”

Página de Escuta, Formosa Márcia, obra de Marcello Quintanilha (Divulgação)

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas por aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

A dor da perda atingiu a todos em maior ou menor medida e talvez ainda seja cedo para dimensionar a tragédia. Pessoalmente, vivi menos complicações do que outras pessoas a minha volta, muitas das quais passaram por situações realmente extremas, familiar e profissionalmente. 

No Luzes de Niterói você usou papel, grafite, pastel oleoso e guache com a colorização digital. Nesse livro novo você usou alguma técnica ou material diferentes?

Escuta, formosa Márcia é integralmente digital. Para ela, desenvolvi uma paleta que consiste em apenas 28 cores que se alternam diegeticamente em calidez, frieza e acidez, sem, no entanto, corresponder a seu equivalente no mundo tangível, porque pretendia espelhar a progressiva desconexão com a realidade tão característica dos dias atuais. 

A linha preta é mínima, discreta, quase uma concessão, permitindo que as cores explodam nos enquadramentos, cores que traduzem o estado de ânimo daqueles que são capazes de gargalhar de alegria, mas nunca sorrir de verdadeira felicidade. 

“O teatro do absurdo é a chave do páthos de Escuta, Formosa Márcia”

Página de Escuta, Formosa Márcia, obra de Marcello Quintanilha (Divulgação)

Os seus trabalhos já foram associados mais de uma vez ao cinema neorrealista italiano. Qual é a sua relação com o cinema neorrealista italiano? Você tem algum filme ou diretor preferido desse movimento? Tem algum aspecto das obras desse movimento que chame mais a sua atenção ou tenha um apelo maior para você?

É uma relação muito profunda, porque me interessa o caminhão de honestidade com que o neorrealismo abasteceu a história do cinema depois do cerceamento de ideias promovido pelo regime fascista.

Vittorio de Sica foi, é e sempre será parte do meu panteão sagrado. 

Entre os aspectos mais destacáveis do movimento, está imbricação entre ficção e realidade, a tal ponto que podemos apreciar imagens documentais inseridas em uma construção ficcional, como é o caso de Roma, Cidade Aberta, de Rossellini.

Da mesma forma, me interessa grandemente o free cinema de Tony Richardson, assim como sua sucessora francesa no âmbito dos temas sociais, a nouvelle vague.

Escuta, Formosa Márcia, por sua vez, tem referências ainda mais específicas, fundamentalmente, três obras: Os Demônios, de Dostoiévski, Esperando Godot, de Beckett, e A Juventude de Corto Maltese, de Hugo Pratt.

O primeiro, por essa filigrana técnica da qual Fiódor lança mão para contar sem contar uma trama subjacente à vivida por Stiepan Trofimovitch e cia., que nos dá a medida da efervescência política que campeava na Rússia da segunda metade do século XIX e que resultaria naqueles dez dias que abalaram o mundo em 1917. Narrar sem narrar é uma das experiências mais sedutoras no campo da escrita.

Quanto a Beckett, sou fascinado pelo teatro do absurdo, por sua contundência em questionar o propósito da existência em si mesmo, fruto do trauma advindo da segunda guerra mundial; por seu empenho em esvaziar as palavras de seu significado dicionarizado e mesmo os personagens de sua identidade enquanto indivíduos, além de subverter a própria estrutura da ficção como relato. Nada mais concomitante com o século XXI. 

Se a atmosfera do neorrealismo e do free cinema estão sempre presentes, recriadas em muitas das minhas obras, o teatro do absurdo é a chave do páthos de Escuta, Formosa Márcia.

Hugo Pratt fez o então jovem Corto Maltese caminhar de um lado a outro, bailando com seu nêmesis Rasputin sobre terreno acidentado, entrando e saindo, indo e voltando, em um teatro de operações de escassos metros quadrados. Até hoje esse álbum é uma das minhas principais referências, pela concisão no desdobramento da história, pela mecânica que conduz as ações e pelo despojamento lírico do traço.

E como é a sua relação com mangás? Tem algum autor, alguma obra ou algum gênero dos quadrinhos japoneses que chamam mais a sua atenção?

A primeira vez que folheei um mangá, quase o confundi com uma história em quadrinhos, veja você… 

Tatsumi é uma luz no fim, no meio e no começo do túnel. Mushi-shi despertou meus mais arraigados terrores infantis. Na Prisão me prendeu para sempre. Nenhuma das histórias do Lobo Solitário deveria chegar ao fim. Nenhuma. Nunca. Maruo não é autor, é omen.

“Me seduz tratar do ser humano em sua natureza mais crua, independentemente de um imperativo geográfico”

Página de Escuta, Formosa Márcia, obra de Marcello Quintanilha (Divulgação)

O que mais te interessa hoje na linguagem das histórias em quadrinhos?

Exatamente o mesmo que me interessava no passado, ou seja, a sequencialidade em si. Nunca houve nenhuma mudança.

A comunicação com o leitor mediante uma simplória sequência de quadros continua sendo a expressão mais poderosa pra mim.

O que você considera mais importante na construção de um personagem?

Não há uma faceta mais importante que outra, então não consigo dar uma resposta objetiva. Quando crio um personagem, me desfaço de qualquer espécie julgamento, porque nada dos seus valores ou visões de mundo me (nos) é realmente alheio, por mais antagônicas às minhas (nossas) que possam parecer, uma vez que compartilhamos a mesma precariedade da condição humana. 

Nunca os prendo às amarras do enredo ou os encaixoto em perspectivas identificadas com a brasilidade, porque seria condescender com uma série de generalizações com as quais estou em franco desacordo a maior parte do tempo. Não me interessa apresentar uma ideia de brasileiro, definir uma forma de ser que corresponda ao que se entende por brasileiro. Acho que por isso minhas histórias têm sido tão bem recebidas fora do Brasil ao longo dos anos, porque me seduz tratar do ser humano em sua natureza mais crua, independentemente de um imperativo geográfico.

Me vejo constantemente refém dos personagens e de suas reivindicações como protagonistas. Eles decidem os rumos das histórias. Um caso emblemático é o da personagem Caju, que transformou toda a trama de Tungstênio, ao exigir ser muito, muito mais que um coadjuvante.

“A música me inspira diretamente e muitas vezes trabalho para reproduzir em traço sua tensão rítmica”

Página de Escuta, Formosa Márcia, obra de Marcello Quintanilha (Divulgação)

Você pegou o título do quadrinho emprestado de uma modinha de salão, gênero típico do Brasil imperial, que tinha o Rio de Janeiro como capital. Vejo uma imagem muito romantizada do Rio imperial que contrasta bastante com o Rio violento e miliciano do nosso presente. Você também nota esse contraste?

Me parece incongruente que se romantize um recorte de tempo que tem a escravidão como base de seu sistema econômico, a menos que você se refira ao estrato aristocrático/ burguês de então, esse sim, idealizado, mas em detrimento de seus coetâneos de classes inferiores. 

O que identifico é uma correlação direta com aquele período, na repetição de sistemas de opressão dos quais determinadas instâncias não pretendem abrir mão facilmente (nem dificilmente).

Você pode falar um pouco, por favor, sobre a sua relação com música? O que você gosta de ouvir? Você lembra dos seus primeiros contatos com modinhas de salão?

Ouço música profana a maior parte do tempo. Sobretudo, rock. Quanto à música sacra, ou seja, samba, choro, quadrilha, coco, forró, etc., ouço bem menos, porque sou facilmente arrebatado por ela, então, preciso ter cuidado.

A música me inspira diretamente e muitas vezes trabalho para reproduzir em traço sua tensão rítmica. Sucessivamente me pego pensando em que tipo de música melhor nos condensa ou, dizendo de outro modo, que música seríamos se em vez de pessoas fossemos música. De ser assim, adoraria que minha contraparte sonora fosse Sabão, de Patápio Silva.

No começo dos anos 1990, eu frequentava assiduamente a livraria Mário de Andrade, no Centro do Rio, que comercializava o acervo da FUNARTE, e mergulhava em dezenas de monografias sobre figuras icônicas da MPB, entre elas, Patápio Silva, flautista, chorão, morto aos 26 anos, acometido de uma febre misteriosa (o que, talvez, tenha suscitado as teorias sobre seu assassinato). Granadilha, história que integra o álbum Almas Públicas, de 2011, é frenética e escandalosamente dedicada a ele. Mas Chão Bento, do mesmo álbum, também é reverencialmente dedicada a um compositor, a um sambista, a um pai — Silas de Oliveira, morto em um terreiro de samba, ambiente que frequentou desde cedo, contra a vontade do pai, pastor protestante.

Mas meu suspiro pelas modinhas não veio do encantamento pelo choro. Modinhas já eram o pão de cada dia desde que a paixão pela obra de Mário de Andrade me conduziu a suas pesquisas sobre música brasileira e à publicação de Modinhas Imperiais, onde Mário reunia tanto as modinhas recolhidas por Spix e Martius em seu Viagem pelo Brasil, de 1823 (entre elas, Escuta, Formosa Márcia), quanto as publicadas na coleção de Filippone e Tornaghi ou as espalhadas por folhetos e águas fortes que circulavam no fim do século XIX.

O que acontece é que, antes de adquirir esse volume, Villa-Lobos me doutrinara na cultura popular com as Bachianas Brasileiras, o que nos leva diretamente aOs Choros de Câmara em sua primeira gravação completa, de 1977, mas isso só depois que Machado de Assis me esmagasse narrando como Sinhazinha Mota perguntava ao pianista, compositor de modinhas, que se dirigia à janela durante o sarau da viúva Camargo, na Rua do Areal, se ele era o Pestana.

Tudo só pra dizer que não tenho ideia de quando as modinhas entraram na minha vida. Quando percebi, elas já tinham dominado o mundo.

“O atual governo representa um retrocesso assustador”

Página de Escuta, Formosa Márcia, obra de Marcello Quintanilha (Divulgação)

Entre vários temas, Escuta, Formosa Márcia trata bastante sobre o impacto da corrupção dos poderes públicos na vida do cidadão comum. Nos últimos quatro anos, sete políticos que ocuparam os cargos de governador ou prefeito da capital do estado foram presos ou afastados do mandato. Como você vê essa institucionalização da corrupção na realidade do Rio de Janeiro?

Vejo como decorrência natural de nosso passado macabramente idílico, edificado na promiscuidade entre poder público e agentes, digamos, contrários à higiene de seu alicerce burocrático, panorama sensivelmente agravado pela aliança entre ditadura militar, auxiliada por sua extensão policial instrumentalizada, e setores à margem da lei, o que resultou na profissionalização do crime organizado no estado.

Escuta, Formosa Márcia tem algumas das sequências mais tensas e trágicas que já li em um trabalho seu. Como a atual realidade sócio-econômica-política brasileira tem afetado a sua produção?

Ela não afeta propriamente por ser atual, mas por fazer parte de um processo histórico que me interessa em sua totalidade.

Ainda sobre essa atual realidade sócio-econômica-política brasileira, você se vê de alguma forma mais pessimista em função desse Brasil dos últimos anos?

Nunca fui otimista em nenhum momento da vida, não vejo por que deveria começar a ser agora. 

No entanto, a discussão em torno de conjunturas negativas não se trava na esfera do otimismo ou do pessimismo, mas sim dentro dos marcos institucionais.

Quadros extremos de desagregação social podem ser revertidos — sempre mais vagarosamente do que o desejável, é certo — a partir de consensos que precisam ser alcançados entre as diferentes correntes políticas e da permanente participação da sociedade no debate público, embora propostas administrativas de longo prazo, que nos permitam integrar todas as pessoas aos requisitos mínimos de cidadania não sejam as vedetes do processo eleitoral.  O atual governo representa um retrocesso assustador nessa dinâmica, porque nada se tornou mais urgente no Brasil de hoje do que sua retirada do poder, não apenas pela via do Impeachment, mas pela consequente superação de seus cargos remanescentes. Nada é mais urgente do que parar o genocídio.

A capa de Escuta, Forma Márcia, obra de Marcello Quintanilha (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Fábio Vermelho, autor de Eu Fui um Garoto Gorila e 400 Morcegos: “Represento a violência de forma gráfica porque é assim que ela é”

Em 2020 o quadrinista Fábio Vermelho fugiu de seu cenário habitual. Ele deixou os Estados Unidos da década de 1950 para ambientar seu 400 Morcegos no Brasil do fim dos anos 1960. Sem os elementos fantásticos costumeiramente presentes nas histórias do autor, o título publicado pela Escória Comix talvez seja a obra mais violenta do artista até aqui, mostrando as ações de jovens crentes em rituais satânicos que têm como alvo um casal de atores de sucesso.

Já o primeiro trabalho de Vermelho em 2021 retorna à ambientação costumeira de suas HQs. Originalmente publicada entre as edições #3 e #10 da Weird Comix, revista pessoal do autor, Eu Fui um Garoto Gorila agora é reunida em um único volume pela editora Veneta. O álbum narra a história de um adolescente da cidade de West Moss, nos EUA dos anos 1950, que se transforma em um gorila gigante assassino.

O meu primeiro contato com os trabalhos de Vermelho foi em uma HQ de duas páginas na primeira edição da Revista Pé-de-Cabra, publicada em março de 2018. Depois fui atrás de todos os números da Weird Comix e, em seguida, li o violento Assassino na Casa (Ugrito #20) e o doentio O Deplorável Caso do Dr. Milton (Escória Comix). Além de seu traço hachurado, das tramas surtadas e do humor bizarro, me impressiona nos quadrinhos dele a tensão constante de suas histórias.

Dois anos após a minha primeira entrevista com Fábio Vermelho, voltei a conversar com o autor. Focamos esse novo papo em Eu Fui um Garoto Gorila e 400 Morcegos. Ele me falou sobre suas parcerias com as editoras Veneta e Escória Comix, refletiu sobre os temas e as propostas de cada um desses trabalhos, adiantou um pouco sobre a ainda inédita 11ª edição da Weird Comix e comentou a influência dos quadrinhos de Marcello Quintanilha em suas HQs. Saca só:

“Não faz o menor sentido desenhar um gibi com serial killers, assassinato, flagelação e coisas do gênero e não mostrar absolutamente nada”

Página de Eu Fui um Garoto Gorila, de Fábio Vermelho (Divulgação)

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

Está sendo uma montanha russa de emoções. No começo, quando o negócio estourou no mundo todo, fiquei extremamente neurado, então foquei total nos meus desenhos para tentar esquecer. Quando eu terminei de desenhar Morcegos já estava menos neurado, mas ainda estou isolado e hoje em dia só consigo sentir um misto de choque com decepção de ver todo mundo vivendo normalmente por aí, como se nada estivesse acontecendo. Não as pessoas que precisam trabalhar, óbvio, mas as que estão em praias, shows e bares.

Em 2020 você lançou o 400 Morcegos pela Escória e nesse início de 2021 está publicando o Eu Fui Um Garoto Gorila pela Veneta. Você pode falar um pouco sobre as origens de cada um desses trabalhos? Houve alguma inspiração ou ponto de partida em particular para cada uma dessas histórias?

A centelha inicial de 400 Morcegos veio enquanto ainda fazia O Deplorável Caso do Dr. Milton. Falei com o Lobo [Ramirez, editor da Escória Comix] que queria fazer o próximo gibi mais curto e que tivesse algo de satã e sacrifícios, coisas assim. Foi logo aí que bolei a frase da contra-capa (Sangue, Sexo, Satã), que era o que eu queria que tivesse no enredo. E aí, enquanto eu ia terminando o Dr. Milton, fui desenvolvendo a história. Percebi que para fazer um gibi curto não rolava fazer toda a história de um culto grande e tal, então resolvi reduzir para duas pessoas, que acabaram sendo o Walter Victor e a Helô. Um dia, ouvindo Mutantes, me veio a ideia de que o Walter poderia ter toda uma epifania ouvindo a música Trem Fantasma, e que isso tinha que acontecer nos anos 1960, qual década melhor para algum drogado ter epifanias assassinas? Olha o Charles Manson aí que não me deixa mentir. A partir daí, já tendo a ideia inicial, comecei a desenhar. Enquanto ia desenhando esse começo ia pensando no resto, embora eu já tivesse umas e outras cenas que eu queria que estivessem no gibi. Só me faltava encaixar tudo, mas isso vai acontecendo conforme desenvolvo a história.

Já o Gorila foi um processo diferente. Apesar de eu não ter escrito roteiro também, pude ir desenvolvendo a história durante cinco anos. A ideia inicial veio de fazer uma mistura estranha de filmes B dos anos 1950, como I Was a Teenage Frankenstein e I Was a Teenage Werewolf, uma pitada de King Kong e bastante true crime, serial killers, investigadores de polícia e coisas assim. E como fui desenvolvendo ao longo dos anos, desenhei ao mesmo tempo quadrinhos curtos para a Weird Comix, como Goo-Goo Muck, que se passa nessa mesma cidade do Garoto Gorila, West Moss, com alguns personagens recorrentes. É por isso que essa história está no mesmo livro do Gorila.

“Ainda quero fazer HQs com vampiros, zumbis e canibais”

A capa de Eu Fui um Garoto Gorila, de Fábio Vermelho (Divulgação)

Aliás, você começou a sua história como quadrinista como autor independente, publicando a Weird Comix por conta própria. Como é a experiência de publicar dois trabalhos seguidos por editoras? O que mais te surpreendeu dessa experiência com editoras?

Está sendo uma ótima experiência, gosto muito das duas editoras, e cada uma das ideias que o Lobo e o Rogério [de Campos, editor da Veneta] dão. Fico feliz porque são duas editoras que gosto de verdade, então é muito massa ter meus quadrinhos publicados por elas, acho que estão em boas mãos! O que me surpreendeu de verdade foi ver que consigo trabalhar com outras pessoas, ao invés de sozinho. Até então eu fazia tudo só, então se meu gibi fosse um fracasso eu só devia satisfações a mim. Quando comecei a publicar por editoras comecei a me perguntar ‘Mas e se acharem esse gibi uma bosta? E se ninguém comprar e eu falir a editora? Vai ser tudo culpa minha!’. Todo lançamento de gibi é uma nova taquicardia!

O que você pode adiantar sobre essa edição de Garoto Gorila pela Veneta? Ela tem alguma diferença do trabalho que você publicou originalmente nas Weird Comix?

Não tem diferença na história em si, que está integralmente lá, sem tirar nem pôr. Mas para o livro eu acrescentei, como disse antes, uma HQ curta e também, por sugestão do Rogério, inseri umas ilustrações como respiro entre alguns capítulos, Algumas são ilustrações que saíram nas Weird Comix, outras fiz especialmente para o livro. Também para o livro fiz um desenho que usei de abertura para a história principal do livro, a Garoto Gorila.

Ah, e claro, tem a minha tradução para o português também, já que tudo foi originalmente pensado e escrito em inglês [todas as edições da Weird Comix são escritas em inglês].

Você já me falou uma vez por seu interesse em subverter essa aura de ingenuidade dos anos 50 e essa é uma das características de Garoto Gorila. Mas eu queria saber: tem um ponto de partida esse seu interesse pelos Estados Unidos dos anos 50? Quais obras dessa época você mais gosta e mais contribuíram para a formação do seu imaginário dessa época?

O interesse começou pela música. Primeiro, com o neo-rockabilly dos anos 1980 e em seguida pelo rockabilly original dos anos 1950. Para criar esse imaginário que uso nas minhas histórias, foi uma mistura de um monte de coisa. Tanto filmes clichês e bobos como Grease e American Graffiti, quanto umas coisas mais trashs que saíram na época, como os filmes B que rolavam nos drive-in, e, claro, os quadrinhos da EC Comics que saiam antes do Código. Lendo também livros como O Apanhador no Campo de Centeio, On The Road, Os Subterrâneos, Queer, Almoço Nu, percebi também o óbvio: desajustados existem desde sempre, inclusive nos anos 1950. Os jovens podiam sim se envolver em crimes, usar drogas, desrespeitar as autoridades, matar e morrer. E por que não mostrar tudo acontecendo em uma cidade normal, mas onde coisas esquisitas como monstros, gorilas gigantes e aliens existem?

Li também livros sobre a origem do rock’n’roll, suas raízes e seu público alvo, os jovens. Li livros também sobre os Teddy Boys, uma subcultura jovem britânica que eu acho super interessante, que explodiu nos anos 1950, baseada no rock’n’roll americano e em vestimentas com estilo da Era Eduardiana.   

Provavelmente parte dessa vontade veio de ver como os Cramps subvertem inúmeras músicas dos anos 1960 para trás e as transformam em algo completamente a cara deles. É tudo uma coisa só, um monte de livro, filmes e músicas que acabam se misturando e saindo em forma de quadrinhos de uma forma que nem sei explicar direito.

“Ouvindo Mutantes me veio a ideia de que tinha que acontecer nos anos 1960. Qual década melhor para epifanias assassinas?”

Página de 400 Morcegos, de Fábio Vermelho (Divulgação)

Uma das surpresas do 400 Morcegos foi a ambientação no Brasil dos fim dos anos 60. Como foi a experiência de trabalhar nesse outro cenário e nessa outra época?

Foi demais! Eu sempre desenhei ilustrações e até um quadrinho curto que se passa nos anos 1960, mas nunca tinha feito algo no Brasil.

E essa devia ser uma época bem esquisita no nosso país, toda aquela parada hippie no mundo e aqui rolando uma ditadura. Tentei botar um pouco desse clima meio calor, praia, música, mas ao mesmo tempo policiais sendo truculentos na rua e pessoas aleatórias xingando os outros de comunista. Na verdade parece bastante como Brasil de hoje, olha só, que bosta.

Ainda sobre essa ambientação dos 400 Morcegos, quais tipos de referência você tem do Brasil dessa época? Quais músicas, filmes e outras obras desse período estão mais presentes no seu imaginário e você usou de referência para a construção da HQ?

Essa parte é divertida! Gosto de procurar referências! Muita coisa peguei de filmes, propagandas da época, revistas de moda, etc. Tem um monte de detalhezinho! Aquela parte em que o avião chega no Rio de Janeiro, por exemplo, fiquei procurando propagandas de companhias aéreas da época para ver como eram os aviões e tal. Acho até que a fala da aeromoça foi copiada de alguma propaganda ou trecho de filme… [ver imagem acima].  Os cartazes dos bares, ou coisas grudadas nas paredes, muitas delas procurei coisas da reais da época, apesar de saber que ninguém vai ligar pra isso. 

Apesar de odiar desenhar automóveis, gosto de procurar os carros da época também. Mesmo não gostando de desenhá-los, os carros dos anos 1970 para trás são muito mais bonitos dos que o de hoje em dia. Gosto de procurar as roupas e penteados também, especialmente em filmes e fotos antigas. Eu perdi a conta de quantas fotos do Woodstock eu olhei durante esse tempo. 

Uma outra referência para juntar tudo nesse gibi foram os filmes do Rogério Sganzerla, como O Bandido da Luz Vermelha e A Mulher de Todos. Queria que o gibi soasse como um filme feito naquela época. Não sei se consegui hahaha.

Qual tipo de terror você gosta mais, tanto de ler quanto de produzir: terror real ou com elementos de fantasia? Você vê muitas diferenças entre essas possibilidades do gênero? 

A verdade é que não leio tanto terror. Gosto muito do Edgar Allan Poe, leio quase tudo que encontro dele, mas fora isso só um pouco de Stephen King e Lovecraft. Li os clássicos também, como Drácula e Franskentein, mas não passo muito disso. O que mais interessa no terror são os filmes: assisto tanto os bem antigos como os mais novos, que estão sendo lançados hoje em dia. Todos me interessam, seja de fantasma, possessão demoníaca, serial killers, gore, vampiros, o que seja. Acabo assistindo muita merda por causa disso, mas na maioria das vezes eu gosto, porque há possibilidades infinitas de histórias para se criar, justamente por causa das diferenças entre o terror real e o terror fantasioso. Já fiz quadrinhos com monstros, serial killers, experimentos científicos que deram errado, rituais satânicos, mas ainda quero fazer um quadrinhos com vampiros, zumbis e canibais (não todos juntos haha). O quadrinho com canibais anunciei numa live da Escória e já pretendo começar no meio do ano, só falta pensar melhor no enredo, amarrar umas pontas e tal, mas ainda há tempo. O quadrinho com vampiro também já tenho uma ideia, mas não pretendo começar por enquanto pois já estou fazendo muitos gibis ao mesmo tempo. Mas pretendo começar tão logo eu termine The Rise and Fall of George Pills e ir soltando aos poucos nas Weird Comix. Quadrinhos com fantasmas eu não sei como faria ainda. E nem com zumbis. Mas quem sabe um dia?

“Adoro os balões de fala do Quintanilha, admito que tentei copiá-los em 400 Morcegos”

Página de 400 Morcegos, de Fábio Vermelho (Divulgação)

As Weird Comix são compostas por várias histórias curtas, mas com algumas exceções mais longas, como é o caso de Garoto Gorila. Da mesma forma, você publicou a 400 Morcegos e a Dr. Milton. Você tem gostado dessa experiência de contar histórias mais longas? Tem algum elemento em particular da construção de uma HQ com mais páginas que te interessa?

Tenho gostado sim! Cada vez mais tenho interesse em fazer quadrinhos longos, como os que você mencionou e o outro que eu disse na pergunta anterior, The Rise and Fall of George Pills (que está na página 90 atualmente e nem está realmente no começo). Não sei bem explicar o porquê, mas acho que as histórias que ando criando estão ficando cada vez mais mirabolantes, não sei. Mas ainda tenho vontade de fazer histórias curtas sim, ainda mais essas que são baseadas em música. Fiz uma de quatro páginas chamada Green Door, que vai sair na Weird Comix 11, e tem outra que quero fazer depois também, chamada Swamp Gal, mas essa provavelmente só para a edição 12. 

Você já me falou que não gosta de escrever uma história toda antes de desenhar, me contou que pensa geralmente em elementos básicos do início, do meio e do fim e vai construindo a história e os diálogos à medida que desenha a HQ. Esse foi o método de Garoto Gorila e 400 Morcegos?

Sim, foi o mesmíssimo método, com a diferença que tive que criar e desenhar 400 Morcegos durante fevereiro e julho de 2020, enquanto que o Garoto Gorila pude desenvolver de 2015 a janeiro de 2020, enquanto ia fazendo outras coisas ao mesmo tempo. E isso vem dando certo pra mim. Por exemplo, se eu estiver sem ideias de como juntar um ponto a outro de 400 Morcegos e já desenhei tudo que tinha pensado até então, posso dar uma pausa e voltar a desenhar George Pills. Faço mais uma ou duas páginas, desenho uma encomenda, faço algum desenho no sketchbook… Nesse meio tempo eu acabo tendo a idéia que eu precisava para o Morcegos e volto à produção dele. Parece meio caótico e dependente de sorte falando desse jeito hahaha Mas tem dado certo. Eu acho que não conseguiria sentar e escrever um quadrinho inteiro antes de começar a desenhá-lo. Só de pensar nisso já me dá dor de cabeça: ter todas as idéias do quadrinho, do início ao fim, de uma vez só. Acho que se algum dia eu fizesse isso, ia acabar mudando o roteiro no meio, enquanto desenho o negócio. Acho que me inspiro demais nas coisas que vejo e leio, então acabo tendo idéias o tempo todo (o que não quer dizer que sejam boas idéias, é só ver os quadrinhos que eu fiz).

Páginas de Eu Fui um Garoto Gorila, de Fábio Vermelho (Divulgação)

Você também já me falou sobre a sua paixão por mangás quando era mais novo. Eu fiquei com a impressão de ver algumas referências a mangás no Garoto Gorila, principalmente na forma como você remete a movimentos em algumas sequências de ação, com alguns traços no fundo das cenas. As suas leituras de mangás foram referência para você nessas passagens?

Na verdade foram, sim, bastante! E o pior é que foi meio inconsciente, saca? Quero dizer… Eu lia muito mangá quando era mais jovem, foi o meu primeiro contato com quadrinhos, porque rolava aos montes nas bancas e na loja de gibis que eu frequentava (infelizmente a loja fechou ainda naquela época). Lia Dragon Ball Z, Rurouni Kenshin, Battle Royale, Fullmetal Alchemist, Shaman King… Mas com o tempo, muitos dos títulos que eu acompanhava, por alguma razão, sumiram das bancas, foram cancelados ou os que continuaram, pareciam que não iam terminar nunca, como One Piece. Então eu meio que acabei abandonando esse negócio de comprar mangás. Eu só fui voltar a comprá-los esses tempos, quando relançaram Uzumaki, que era um gibi que eu queria muito desde aquela época mas era super difícil de encontrar. Só recentemente pude encontrar também cópias usadas dos quadrinhos do Suehiro Maruo, que pra mim é o mais interessante de todos. Os mangás de terror são os únicos que me interessam hoje em dia, ou pelo menos mangás que sejam um livro só, e não esses que são uma coleção eterna.

Mas voltando ao assunto: acho que foi meio inconsciente, pois eu nunca parei para pensar em usar essas linhas de movimento e tal, eu só fiz.  Acho que enquanto eu desenhava as páginas, só me pareceu extremamente natural utilizar esses recursos. Só fui me dar conta disso quando, na Bienal de Quadrinhos de Curitiba, em 2018, eu tava falando com o Rafa Coutinho (ele não deve se lembrar disso) e tava mostrando para ele a revista que eu tava lançando na época, a Weird Comix # 8, que tem o capítulo seis do Garoto Gorila, e enquanto ele folheava comentou algo como ‘muito legal, tem uma influência de mangá, né, essas linhas de movimento e tal’ hahahaha. Para ver como eu não penso muito nas coisas que faço…

“Acho importantíssimo que os personagens pareçam pessoas reais”

Página de Goo-Goo Muck, obra de Fábio Vermelho presente em Eu Fui um Garoto Gorila (Divulgação)

O Marcello Quintanilha assina a quarta capa do seu trabalho para a coleção Ugrito e já vi algumas obras dele na sua mesa em posts seus no Instagram. Ele é uma influência para você? Quais outros autores que você tem tido como referência e estão influenciando seus trabalhos mais recentes?

É até meio ridículo dizer isso, mas sim, é uma influência. Ridículo no sentido de que se alguém pega um gibi do Quintanilha e depois um meu, essa pessoa vai pensar ‘mas o que diabos esse idiota acha que se influencia no Quintanilha? Não há nem como comparar a arte de um com a do outro, coitado desse Fábio’. Mas é mais em algumas coisas pequenas. O caimento das roupas, por exemplo, eu acho magnífico. As roupas antigamente tinham um caimento característico que acho super importante e acho que o Quintanilha faz isso muitíssimo bem. Fora também os ângulos e as cenas de movimento, que acho impecáveis. Mas uma influência mais direta que posso mostrar foram os balões de fala. Eu adoro os balões de fala que ele desenha, e tenho que admitir que tentei copiá-los em determinados momentos de 400 Morcegos. Eu desenhei esse gibi inteiro com pincel e fiz as hachuras com as canetas, porque queria um traço mais fluido. E achei que a forma como ele desenha os balões, especialmente no Fealdade de Fabiano Gorila (olha que coincidência) se encaixaria perfeitamente na minha proposta. Obviamente os meus balões são feios e tortos em comparação com os dele, mas dá para ter mais ou menos a ideia..

As minhas influências mais recentes, e por conseguinte as usadas em 400 Morcegos, são basicamente Charles Burns, Guido Crepax, Suehiro Maruo… Venho usando cada vez mais o preto sólido também, desde que comecei o Dr. Milton, inspirado pelo Burns. O que é totalmente diferente das referências que usei no Garoto Gorila. Naquela época eu tava pirando demais numas paradas underground como o Crumb (que até hoje me influencia, claro, mas acho que naquela época era mais forte) e o Gilbert Shelton. O Matthias Schultheiss também, e claro, os quadrinhos da EC Comics, como o Tales from The Crypt, principalmente. Naquela época eu tinha no computador toda a coleção de várias dessas revistas de terror. Tudo isso resultou em um quadrinho extremamente hachurado e torto. Adoro isso hahahahha.

Ainda sobre o Quintanilha, algo muito característico dos trabalhos dele está na voz dos personagens, nos diálogos e na oralidade das falas. Eu vejo você dando muita atenção aos diálogos e às falas presentes nas suas HQs, principalmente por serem obras de época. Esse é um foco de atenção seu? 

Com certeza! Eu acho importantíssimo que os personagens pareçam pessoas reais, para que o leitor possa se envolver o máximo possível com a história. As pessoas podem achar que meus gibis têm muito texto, mas é meu jeito de construir a história. Espero estar indo bem em relação a isso, mas só os leitores podem me responder.

E outro elemento muito característico do seu trabalho é a violência. Tem alguma origem em particular esse seu interesse por violência? O que você mais gosta ao representar a violência de forma tão gráfica como ela é apresentada nos seus trabalhos?

Eu represento a violência de forma gráfica porque é assim que ela é. Eu não sei os jornais de outros estados, mas no Pará rolavam uns jornais que na própria capa figurava um cadáver todo ensaguentado de algum coitado que foi morto pela polícia, e eu olhava pra isso na fila do balcão da padaria, saca? Como eu disse antes, quero que o leitor se envolva com a história, quero que ele sinta que está lá, quero que fique nervoso, enojado, envergonhado, amedrontado com tudo que acontece com os personagens. E isso inclui, às vezes, ver corpos desmembrados, estraçalhados, nus, deformados, decapitados e por aí vai. Muitos filmes gore mostram esse tipo de coisa, filmes que eu assistia na década 2000, como O Albergue, A Casa de Cera ou Jogos Mortais. Por que não mostrar esse tipo de coisa nos quadrinhos também? Ainda mais levando em conta que as possibilidades nos quadrinhos são infinitas, já que não preciso matar ninguém de verdade ou gastar grana com efeitos de maquiagem. Não faz o menor sentido para mim desenhar um gibi com serial killers, assassinato, flagelação e coisas do gênero e não mostrar absolutamente nada. Claro que depende do caso, óbvio, mas estou falando especificamente do que eu quero passar com meus quadrinhos. Não estou dizendo que todo mundo tem que fazer assim.

“Na Weird Comics eu publico tudo que eu quero sem interferência externa alguma”

Página de La Tentacion, HQ de Fábio Vermelho que será impressa no próximo número da revista Weird Comix (Divulgação)

Você já está trabalhando em um próximo número da Weird Comix? O que você pode adiantar sobre essa próxima edição? 

Estou sim, na edição 11! Em primeiro lugar, posso adiantar que ao invés de duas por ano, vou lançar apenas uma edição por ano agora. De 2019 para trás eu me dedicava somente a elas, então o tempo era infinitamente maior. Agora que comecei a lançar gibis em português para editoras, as Weird Comix ficaram em segundo plano. Mas com certeza continuarei lançando, porque são basicamente onde eu publico tudo que eu quero sem interferência externa alguma, sejam meus quadrinhos curtos baseados em músicas, minhas ilustrações, minhas tiras, meus textos sobre aleatoriedades. Acho que todo mundo que quer publicar gibi e fica se sentindo desmotivado porque as editoras não lhes dão atenção, deveria se auto-publicar antes. É uma experiência muito legal, você se sente muito mais perto dos leitores e tem liberdade total.

Em segundo lugar, posso adiantar que vou continuar lançando The Rise and Fall of George Pills, o quadrinho longo que venho serializando na revista desde a edição 5; vai ter também uma história curta chamada Green Door, que falei antes, e é baseada em uma música que os Cramps fizeram cover; vai ter uma outra história curta, La Tentación, baseada em uma música homônima de uma banda punk chamada Kaka de Luxe, que saiu originalmente na coletânea Quadrinhos que Podem Desgraçar Sua Vida (Ou Não), em 2018.

Basicamente a mesma coisa de sempre, para quem tá acostumado com a revista. Acho que sai lá pelo meio do ano, depois que sair o Eu Fui um Garoto Gorila.

Depois dos seus trabalhos publicados pela Escória e pela Veneta, você já tem algum próximo título sendo desenvolvido para alguma editora?

No momento estou desenhando um gibi em parceria com o Yuri Moraes. Estamos criando a história juntos, mas ele escreve o roteiro e eu desenho. É a primeira vez que crio um gibi junto com alguém, está sendo uma experiência ótima. Não sabemos ainda como vamos publicar, mas estamos no começo, na página 50. Provavelmente vai ser bem longo, então esse está previsto para 2022 ou, quem sabe, 2023.

Também já tinha falado com o Lobo, enquanto desenhava o Morcegos, sobre lançar um gibi curtinho pela Escória, e eu queria que fosse sobre canibais. O título do gibi é Bebês Maníacos da Lagoinha, e está previsto para outubro. Já comecei a pensar no enredo, mas vou desenvolvendo com o tempo, enquanto desenho os meus outros gibis. Na teoria ele vai ter umas 80 páginas, mas vai saber. Ele pode acabar terminando com 100 ou 105, eu sempre dou essa margem de erro.

Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?

No momento tô lendo um livro do Sartre, A Náusea, mas tô no comecinho, não posso indicar, não sei se vou gostar até chegar no fim hahaha. O livro anterior que li, Os Demônios de Loudun, era bem interessante, mas não recomendo para quem nunca leu nada do Aldous Huxley. Vou indicar então o Admirável Mundo Novo, que é do mesmo autor e apesar de ter sido lançado em 1932, é extremamente atual. De gibi vou recomendar Jeanine, do Matthias Picard, que li recentemente e eu adorei.

Esses tempos ando maratonando e reassistindo todas as temporadas de American Horror Story, uma atrás da outra. É uma série de terror do Ryan Murphy na qual sou viciado. Baixei também toda a temporada clássica de Twilight Zone, a que durou de 1959 à 1964, para reassistir os episódios que já vi e descobrir uns que devo ter perdido.

Quanto a música, estou sempre ouvindo tanta coisa ao mesmo tempo… vou recomendar o Leonard Cohen, algo que ando ouvindo muito ultimamente. E Cramps, é claro, sempre vou recomendar.

A capa de 400 Morcegos, de Fábio Vermelho (Divulgação)