Vitralizado

Posts com a tag Veneta

Entrevistas / HQ

Papo com Nick Drnaso, autor de Sabrina: “Ninguém acha que está vendo notícia falsa ou distorcida, então, é difícil pensar no que eu mesmo consumo”

É difícil imaginar um quadrinho mais atual e relevante do que Sabrina. Sua repercussão foi muito além do meio dos quadrinhos e a obra de Nick Drnaso se tornou a primeira HQ indicada ao prêmio Man Booker Prize. Sabrina trata de fake news, conspiracionismo e do impacto de boatos e informações falsas nas vidas de cidadãos comuns ao narrar o desaparecimento da mulher que dá título à obra.

Entrevistei Drnaso para escrever sobre o lançamento da edição brasileira de Sabrina, pela editora Veneta, em tradução de Érico Assis (que também traduziu a entrevista abaixo). Esse papo virou matéria para o jornal O Globo. Escrevi no meu texto sobre as origens do livro, o desenvolvimento da obra, as técnicas e métodos do autor e a repercussão da HQ desde sua publicação em 2018. Você lê o meu texto clicando aqui.

Reproduzo a seguir a íntegra da minha conversa com Drnaso, na qual ele ainda fala sobre seu ambiente de trabalho, sua relação com outros quadrinistas e o suas leituras recentes. Leia a minha matéria, leia o quadrinho e depois leia a minha entrevista com o autor.

“Aconteceu de eu estar pensando em tragédias que ganham grande cobertura”

Quadro de Sabrina, HQ de Nick Drnaso publicada no Brasil pela editora Veneta

Antes de tudo, como você está? Como está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua rotina de trabalho?

Tenho a sorte de conseguir dar continuidade ao meu próximo álbum em casa, em quarentena. Portanto, minha rotina diária não mudou grande coisa. Acho que minha produtividade segue a mesma.

Como você acha que essa realidade que estamos vivendo vai afetar o seu ambiente profissional? Você tem conversado com outros autores e editores sobre essa situação?

Não tenho como especular quanto ao que vem pela frente.

Você pode me contar um pouco sobre o ponto de partida de Sabrina? Você lembra de como surgiu a ideia desse livro?

Aconteceu de eu estar pensando em tragédias que ganham grande cobertura na mídia. Tinha muita coisa acontecendo naquela época, quando houve Sandy Hook aqui nos EUA. A única ideia que eu tinha no começo era que um cara iria morar com um amigo da Força Aérea depois que a namorada do primeiro desapareceu.

“Tudo é desenhado e finalizado no papel, ao modo tradicional, com materiais simples e alguns instrumentos”

Página de Sabrina, HQ de Nick Drnaso publicada no Brasil pela editora Veneta

Você poderia me contar um pouco sobre a sua dinâmica de trabalho? Quanto tempo você leva criando um roteiro? E depois quanto tempo você leva no desenho esse roteiro?

Eu escrevo um pedaço do roteiro de cada vez, algumas cenas por vez, aí passo para o desenho até finalizar. Vou e volto nisso até terminar a história. Aí geralmente eu tenho que voltar lá no início, editar e redesenhar algumas coisas que acabaram não fechando como eu gostaria. Desenhar e colorir sempre tomam mais tempo que escrever; acho que umas 20 ou 30 horas por página.

Com quais técnicas você trabalhou em Sabrina? Você tem preferência por alguma técnica em particular? Quais materiais você utiliza?

Tudo é desenhado e finalizado no papel, ao modo tradicional, com materiais simples e alguns instrumentos. A cor é digital. Tentei colorir tudo à mão com canetinha, mas percebi que o processo ficava lento demais e não me dava muita flexibilidade para mexer no final.

Eu gosto muito ritmo de Sabrina. Acho que os grids e quadros que você usa são fundamentais para determinar o andamento da leitura. Você concorda?

Sim, é certo que o grid que eu usei em Sabrina ditou o ritmo. Comecei o roteiro com esse grid em mente. Com essa possibilidade de quebrar um quadro grande em quatro menores, eu consegui muitas cenas de silêncio. O álbum em que estou trabalhando agora tem outro grid que não condiz com quadros pequenos, então o texto e ritmo são mais contidos. É bom fazer essa mudança depois de Sabrina.

“Tenho alguns arrependimentos em relação ao visual”

Página de Sabrina, HQ de Nick Drnaso publicada no Brasil pela editora Veneta

Você pode contar um pouco sobre o desenvolvimento de seus personagens? Você tem algum hábito particular de observar pessoas na sua rotina diária?

Meu primeiro álbum, Beverly, tinha mais personagens baseados diretamente em gente que eu conhecia. A vida e o emprego do Calvin de Sabrina, aliás, vieram de um amigo que trabalha na Força Aérea no Colorado. É um processo muito natural. Ele meio que surge assim que eu começo a trabalhar. Talvez eu só perceba que o personagem é baseado numa pessoa que eu conheço meses depois de entrar na história, o que sempre acho bizarro.

Há um padrão nas cores de Sabrina e Beverly. Qual é a sua abordagem em relação a cores? Por que essa paleta e esse estilo?

Limitar a paleta me ajudou nos dois álbuns. Tenho alguns arrependimentos em relação ao visual. Entendo onde eu queria chegar e como saí do rumo, mas é coisa do meu olho. Colorir no computador foi um processo relativamente novo pra mim quando comecei Beverly, então tentei ser simples e usar um monte de pastel suave. Mas queria poder voltar e aprimorar, em parte.

Vivemos em um período de extremismos crescentes e de conspiracionistas radicais que acreditam que a terra é plana, são contra vacinas e não querem ficar em quarentena durante a pandemia. São questões muito presentes em Sabrina. Esses temas são caros para você? Você passa muito tempo refletindo sobre os rumos da humanidade?

Eu me interessava pela cultura das teorias da conspiração antes de escrever Sabrina. Agora eu não acompanhado nada, nem por curiosidade.

“Não julgo nenhum tema com pressa, mas sei que eu tenho pontos cegos imensos”

Página de Sabrina, HQ de Nick Drnaso publicada no Brasil pela editora Veneta

E como você lida com fake news?

Olha, ninguém nesse mundo acha que está vendo notícia falsa ou distorcida, então é difícil pensar no que eu mesmo consumo de notícia. Tento fazer o que me é possível e não julgo nenhum tema com pressa, mas sei que eu tenho pontos cegos imensos e um nível de atenção menor do que gostaria de admitir

Tenho curiosidade em relação à sua visão do mundo no momento. Vivemos numa realidade na qual Donald Trump é o presidente dos EUA e Jair Bolsonaro é o presidente do Brasil. O que você acha que está acontecendo com o mundo? Você é otimista em relação ao nosso futuro?

Não tenho a mínima qualificação para responder essa pergunta, que é muito difícil. Se estivéssemos conversando por telefone, eu ia perguntar a você sobre o Brasil com Bolsonaro. Infelizmente não tenho nada de interessante ou particular a dizer sobre a situação dos EUA com Trump que não seja dito milhões de vezes, todo dia, sem parar.

O que você pensa quando um trabalho seu é publicado em um país como o Brasil? Somos todos americanos, mas são culturas muito diferentes. Você tem alguma curiosidade em relação à forma como um trabalho seu será lido e interpretado por pessoas de um ambiente tão diferente dos seu?

Com certeza! Não tenho noção de como nenhum álbum é lido em outro país, mas tenho curiosidade. Provavelmente eu teria que visitar o país para ter noção, mas não viajei muito na vida, até agora. Quem sabe isso mude.

“Sempre me interessei por desenho e era ávido pelos livros do Shel Silverstein quando era pequeno”

Página de Sabrina, HQ de Nick Drnaso publicada no Brasil pela editora Veneta

Você pode me falar como é seu ambiente de trabalho? Você poderia descrever o local no qual Sabrina foi criado?

Comecei a desenhar Sabrina usando o armário do meu apartamento antigo como estúdio. Era o único lugar da casa onde cabia minha mesa de desenho. Aí eu e minha namorada (hoje esposa) mudamos para outro apartamento e consegui montar o estúdio no quarto. Depois nos mudamos para o apartamento atual e, aqui, a mesa de desenho também fica no nosso quarto. É onde estou respondendo essa entrevista.

Eu nunca estive em Chicago, mas sei da relação da cidade com arquitetura, museus, autores de quadrinhos e arte em geral. Você se vê influenciada por esse ambiente tão criativo?

Eu cresci bem perto de Chicago e nunca morei em outra região, portanto é a única que eu conheço. Tive sorte de ver muitos quadrinistas por aqui, assim como escritores, escolas, museus, colégios. Sou muito satisfeito com o ambiente. Gosto da arquitetura e do inverno sombrio. Talvez isso tenha reflexo no jeito como eu desenho.

Qual a memória mais antiga da presença de quadrinhos na sua vida?

Eu só passei a ler e pensar sobre HQ depois que acabei o ensino médio. Sempre me interessei por desenho e era ávido pelos livros do Shel Silverstein quando era pequeno. Acho que foram os primeiros desenhos que me causaram uma reação.

“Gosto de muita coisa que não chega nem perto do jeito como eu trabalho”

Eu gostaria de saber sobre a sua relação com a crítica e com esse interesse crescente pelo seu livro por parte da imprensa. O que você sente ao ver o seu trabalho tão analisado e interpretado e tantas pessoas interessadas no seu quadrinho?

Consigo ler resenhas críticas e positivas sem grandes problemas, mas faço o possível para manter distância de menções ao livro no Twitter e lugares assim. Sou grato a todos que tiverem escrito o que quer que seja sobre o álbum, mas tenho uma autocrítica interna que me impede de absorver algo a fundo, seja bom ou mau.

Eu gostaria de saber o que são histórias em quadrinhos para você. Você tem alguma definição pessoal?

Não, não tenho opinião forte sobre a mídia. O que eu tenho é uma forma de trabalhar que criei pra mim, mas não é algo que eu colocaria pra outros. Gosto de muita coisa que não chega nem perto do jeito como eu trabalho.

“Tenho ouvido muito mais música nesse ano”

Quadro de Sabrina, HQ de Nick Drnaso publicada no Brasil pela editora Veneta

Você poderia recomendar algo que esteja lendo, ouvindo ou assistindo no momento?

Tenho ouvido muito mais música nesse ano. É muita coisa para citar. Estou lendo Praia de Manhatan, de Jennifer Egan, e curtindo. Depois vou ler The Broken Brain, de Nancy Andreasen. Há poucos dias eu e minha mulher assistimos Mal do Século, de Todd Haynes, e achamos ótimo.

Há uma mistura de melancolia e tristeza que está presente no seu trabalho e também nas obras de quadrinistas norte-americanos como Seth, Adrian Tomine, Chris Ware e Daniel Clowes. Você vê esse padrão? Você consegue elaborar alguma justificativa para o predomínio desses temas?

Identifico que há um padrão, mas não sei ao certo qual é. Produto desse ambiente, quem sabe. Ou porque a vida solitária do quadrinista atrai certo tipo de pessoa. Gostaria de ser mais objetivo nesse aspecto, mas me parece difícil, se não impossível.

A capa da edição brasileira de Sabrina, publicada pela editora Veneta
HQ / Matérias

Nick Drnaso fala sobre Sabrina, fake news, Chicago e cenas de silêncio

Entrevistei o quadrinista norte-americano Nick Drnaso, autor de Sabrina, uma das histórias em quadrinhos mais comentadas dos últimos anos. Primeira HQ listada entre as finalistas do tradicional Man Booker Prize, o álbum trata do desaparecimento da personagem-título e a repercussão do ocorrido na vida de pessoas ligadas a ela. O título acabou de ganhar versão em português, pela editora Veneta, com tradução de Érico Assis.

Transformei esse papo com o quadrinista em matéria para o jornal O Globo e o texto está na capa de hoje do caderno de cultura da publicação. Conversamos sobre os pontos de partida de Sabrina; o desenvolvimento da obra; a relação do autor com alguns dos temas tratados no livro, principalmente fake news; e a repercussão da HQ. Você lê a matéria clicando aqui.

Entrevistas / HQ

Papo com Marcello Quintanilha, o autor de Luzes de Niterói: “Do meu ponto de vista, o horizonte apresenta nuvens de tempestade”

Luzes de Niterói é a primeira grande HQ brasileira a chegar às livrarias nacionais em 2019. Publicada na França e em Portugal no final de 2018, a obra de Marcello Quintanilha lançada pela editora Veneta tem 232 páginas coloridas e é livremente inspirada em um dia de caos vivido pelo pai do autor, o ex-futebolista Hélcio Quintanilha, nos anos 50. O álbum também é o primeiro projeto longo longo do quadrinista publicado em português desde Talco de Vidro (2015) e Tungstênio (2014) – nesse intervalo foram lançadas as coletâneas Hinário Nacional (2016) e Todos os Santos (2018).

Eu entrevistei o autor brasileiro residente em Barcelona e transformei essa conversa em matéria para o jornal Folha de São Paulo. Você lê o meu texto para a publicação clicando aqui. Depois, recomendo a leitura do álbum e da entrevista a seguir, a íntegra do meu bate-papo com o quadrinista. Nós conversamos sobre a relação dele com futebol, a produção de Luzes de Niterói, algumas de suas memórias de infância e as impressões dele sobre o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro. Saca só:

“O aspecto da região foi se solidificando mais e mais para mim a medida em que seus componentes iam dando adeus cotidianamente, dizimados pela locomotiva do progresso”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Luzes de Niterói é o seu primeiro livro longo desde Talco de Vidro e marca um retorno ao mundo dos subúrbios fluminenses, cenário da maior parte das suas histórias curtas. O que essa ambientação representa para você?

Não se pode voltar ao que nunca se deixou para trás. O aspecto da região foi se solidificando mais e mais para mim a medida em que seus componentes iam dando adeus cotidianamente, dizimados pela locomotiva do progresso, a medida em que as fábricas iam fechando as portas, as vilas operárias sendo descaracterizadas, os campos de futebol, loteados. O que resta, vive comigo. Essa ambientação em relação a Luzes de Niterói representa a comunhão com um país que emergia economicamente no período do pós-guerra, com sua característica indústria cinematográfica, repositório de um conjunto de coisas e valores dos quais infelizmente nos afastamos gradativamente, mas que são o alicerce da atual cultura brasileira de massas. Representa também a recuperação do mito do futebol brasileiro oriundo das fábricas, berço do esporte no país.

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Luzes de Niterói é a sua HQ mais pessoal?

Não, sob nenhuma hipótese. Todas as minhas histórias advém daquilo que me constituiu como ser humano e não estabeleço uma escala nesse campo — todas são o que eu sou.

Qual a memória mais antiga que você tem da presença de quadrinhos na sua vida?

Os quadrinhos publicados nos jornais nos anos 1970, Brucutu, Dick Tracy, etc.

Qual a memória mais antiga que você tem da presença de futebol na sua vida?

Uma transmissão de rádio. O timbre transistorizado da voz de Jorge Curi retinindo pela casa de luzes misteriosamente apagadas. Anos 1970.

“A coluna vertebral da HQ é integralmente baseada no que ouvi sobre o dia da temporal, assim como toda a atividade intramuros do cotidiano dos jogadores”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

O quanto da experiência do seu pai como jogador de futebol você levou para o quadrinho? Há muito dos relatos que você ouviu dele nessa HQ?

Muito, muito, muito. A coluna vertebral da HQ é integralmente baseada no que ouvi sobre o dia da temporal, assim como toda a atividade intramuros do cotidiano dos jogadores.

A literatura brasileira sobre futebol é composta principalmente por crônicas e relatos históricos e jornalísticos. Me refiro a trabalhos assinados por autores como Mário Filho, Nelson Rodrigues e, mais recentemente, Tostão. Há alguns anos foi publicado o livro O Drible, do jornalista Sérgio Rodrigues, um raro caso de literatura brasileira de ficção sobre futebol. Também não são muito comuns filmes com conteúdo ficcional sobre futebol. Você vê alguma particularidade no futebol que dificulta de alguma forma sua representação como obra de ficção?

Não, não vejo. O futebol é apenas mais um item no imenso catálogo de temas que jamais encabeçaram gêneros na ficção brasileira, a ponto de serem exauridos, posteriormente redescobertos e reinventados segundo novos parâmetros, partindo de um arcabouço consistente de histórias serializadas formado ao longo do tempo, em grande medida pela incapacidade por parte de diversos setores da produção de assimilar e, sobretudo, de se apropriar de suas premissas para a conversão em narrativa ficcional ultrapassando noções pré-estabelecidas.

Há uma corrente crescente por parte de fãs de futebol que questionam os rumos do futebol mundial, inclusive aquela que prega o “ódio eterno ao futebol moderno”. O que você pensa a respeito desse tema?

Nada é eterno.

“Meu interesse era criar uma palheta extremamente limitada, objetiva, de saturação média, ao mesmo tempo que nostálgica”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Você mora em Barcelona, cidade sede de um dos times mais tradicionais e conhecidos do mundo, um time com identidade de jogo e ideologia muito característicos, mas também representante desse tão questionado futebol moderno. Pelas suas obras é possível notar uma proximidade grande sua em relação a um tipo de futebol hoje considerado romântico – na falta de uma palavra melhor. A partir dessa perspectiva, você poderia, por favor, falar algumas das suas impressões sobre o Barcelona?

Uma vez sonhei em ser torcedor do Real Madri só para ter a oportunidade de aplaudir o Barcelona de pé no 0-3 da temporada 2005-2006 no Santiago Bernabéu.

Luzes de Niterói é o seu primeiro álbum colorido após três trabalhos em preto e branco. O que motivou o seu retorno às cores?

Novamente, não há um retorno. Esta idéia só faria sentido se a ordem de publicação dos álbuns correspondesse à ordem de confecção efetiva de cada um, o que nem de longe é o caso no que refere a mim. Como já declarei em outras ocasiões, trabalho de modo absolutamente anárquico, posso estar ocupado em vários projetos ao mesmo tempo, com vários registros distintos, de modo que tudo é fruto de um fluxo constante de atividade e álbuns que tenham sido publicados antes, não necessariamente começaram a ser produzidos primeiro. Sei que parece confuso. E é.

Quanto às cores, meu interesse era criar uma palheta extremamente limitada, objetiva, de saturação média, ao mesmo tempo que nostálgica, mas não necessariamente vintage e uma boa parte da pré-produção do álbum foi consumida neste fim.

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Quais técnicas e materiais você utilizou para a produção de Luzes de Niterói?

Esboços e finalização em papel, a base de grafite, pastel oleoso e guache e cores digitais.

Eu gosto como você mantém grande parte dos quadros da HQ desalinhados, ele soam para mim como um ruído que intensifica a tensão da obra. Você pode, por favor, comentar esse recurso?

Na verdade, não mantenho grande parte dos quadros desalinhados, mas sim todos eles. Isto decorre do propósito de reforçar o quadro como unidade narrativa, em oposição à idéia de que esta unidade esteja sujeita à página, prescindindo dela como marco rítmico da leitura.

“Minha intenção, se podemos utilizar esta palavra, é a comunicação mais honesta em qualquer etapa da narrativa e todos os estágios da obra são tratados sob os mesmos fundamentos”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Eu gostei bastante de Luzes de Niterói, sendo a minha sequência preferida aquela na qual o Hélcio vê o ‘filme da vida dele’ enquanto tenta retornar à superfície. Enquanto lia, percebi que fui prendendo a respiração junto com o personagem. Foi essa a sua intenção? Houve alguma particularidade na construção dessa sequência enquanto você produzia o quadrinho?

Não, não houve nenhuma. Minha intenção, se podemos utilizar esta palavra, é a comunicação mais honesta em qualquer etapa da narrativa e todos os estágios da obra são tratados sob os mesmos fundamentos. Acredito muito na musicalidade do texto e no papel que esta musicalidade pode desempenhar uma vez codificada em quadrinhos, imbricando seu léxico de símbolos, criando um andamento peculiar, marcado por esse compasso, na minha forma de ver, oposto ao senso comum de ‘efeito cinematográfico’.

“As artes são sempre vítimas preferenciais dos sistemas de governo em contextos de crise, sejam econômicas ou institucionais”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

O que você tem lido, ouvido e assistido ultimamente? Há alguma obra em particular, seja filme, livro ou música que tenha chamado sua atenção recentemente?

Of Human Bondage, de John Cromwell; Cidades Mortas, de Monteiro Lobato; Pelote das la Fumée, de Miroslav Sekulic-Struja e Arraial da Curva Torta, com Capitão Furtado.

Desde 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita que acabou com o Ministério da Cultura e promete cortes em políticas públicas e sociais de fomento às artes. Como você acredita que a sociedade brasileira será afetada por essa realidade?

As artes são sempre vítimas preferenciais dos sistemas de governo em contextos de crise, sejam econômicas ou institucionais. Sintomaticamente, nos últimos tempos nos deparamos frequentemente com o diagnóstico de “crise de representatividade” como um dos alicerces da campanha do atual presidente, o que sempre considerei uma afirmação fascinante, porque ela define que a classe política deixou de representar os anseios da população, o que traz implícito a idéia de que em momento determinado ela se constituiu de fato em porta voz das aspirações dos cidadãos. Uma olhadela na história da república, no entanto, nos trará uma percepção ligeiramente diferente dessa.

Do meu ponto de vista, o horizonte apresenta nuvens de tempestade. 

A capa de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta
HQ / Matérias

Luzes de Niterói: Marcello Quintanilha, quadrinhos, futebol e memórias

O mais novo trabalho do quadrinista Marcello Quintanilha finalmente chegou às livrarias brasileiras. Publicado pela editora Veneta alguns meses após seu lançamento na França e em Portugal, Luzes de Niterói é livremente inspirado em um dia de caos vivido pelo pai do artista na década de 50, quando Hélcio Carneiro Quintanilha era jogador de futebol. Tão impactante quanto os trabalhos recentes mais aclamados do quadrinista, Tungstênio e Talco de Vidro, Luzes de Niterói constará em muitas listas de melhores do ano quando 2019 chegar ao fim.

Eu entrevistei Quintanilha sobre as inspirações por trás de seu novo álbum e o desenvolvimento da HQ. Transformei essa conversa em texto publicado hoje, no caderno Ilustrada do jornal Folha de São Paulo. Você lê a minha matéria clicando aqui.

Entrevistas / HQ

O Manifesto Comunista em Quadrinhos, Marcello Quintanilha, Ed Piskor, Camilo Solano e Juscelino Neco: confira os lançamentos da Veneta para os primeiros meses de 2019

A editora Veneta adiantou para o Vitralizado os principais lançamentos do selo nos quatro primeiros meses de 2019. Além do já anunciado e aguardado Luzes de Niterói, do quadrinista Marcello Quintanilha, para fevereiro está prevista chegada às lojas de O Manifesto do Partido Comunista em Quadrinhos, adaptação assinada pelo britânico Martin Rowson para o texto escrito em 1848 por Karl Marx e Friedrich Engels.

“Rowson transforma em desenhos a lógica furiosa e sarcástica de Marx. Até os não-marxistas irão se divertir”, promete o editor Rogério de Campos em papo com o blog em relação ao trabalho do quadrinista inglês, cartunista do jornal The Guardian.

Para março está agendado o segundo volume da série Hip Hop Genealogia, do quadrinista norte-americano Ed Piskorentrevistado aqui no blog em 2016, quando saiu o primeiro volume da coleção em português. Outra novidade é o livro Uma História da Tatuagem no Brasil, de Silvana Jeha. Em abril deverão chegar às lojas Fio do Vento, próxima HQ de Camilo Solano, e a adaptação ainda sem título de Juscelino Neco para o clássico Reanimator (1985).

Fiz uma breve entrevista por email com Rogério de Campos, editor da Veneta, sobre esses primeiros lançamentos do selo em 2019. Ele também comentou a repercussão de alguns dos títulos publicados pela editora no ano passado e perspectivas relacionadas ao mercado editorial brasileiro em crise. Saca só:

Quadro de Luzes de Niterói, o mais recente trabalho de Marcello Quintanilha

Você pode, por favor, comentar alguns dos lançamentos da editora em 2019?

Pensamos aqui a respeito da Veneta ficar mais comportada, mais adaptada aos novos tempos medievais. Mas não é de nossa natureza, assim um dos primeiros lançamentos do ano é o Manifesto Comunista em Quadrinhos. Uma adaptação criada pelo celebrado desenhista e escritor inglês Martin Rowson, o grande herdeiro da tradição inglesa do sarcasmo desenhado, uma tradição que vem lá dos tempos do James Gillray e que gerou o Monty Python, por exemplo. E Rowson transforma em desenhos a lógica furiosa e sarcástica de Marx. Até os não-marxistas irão se divertir. Mas não é recomendável para crianças: elas podem se tornar comunistas!

Três das principais publicações da Veneta em 2018 foram A Terra dos Filhos, Ayako e O Perfeito Estranho. Qual foi o retorno do público em relação a esses títulos? Vocês planejam publicar outras HQs do Gipi no Brasil? Há planos para mais mangás e outros quadrinhos do Osamu Tezuka?

A recepção foi ótima, não é? E veja: A Terra dos Filhos é o mais recente livro de um autor contemporâneo, o italiano Gipi. Ayako é uma HQ publicada originalmente em 1972 e O Perfeito Estranho reúne HQs que Krigstein criou na década de 50. No entanto, todas as três são igualmente vivas, surpreendentes. Ou seja, encontramos o novo em todos os lugares, até no passado.

Quadro de Luzes de Niterói, o mais recente trabalho de Marcello Quintanilha

Os dois nomes mais consagrados dos quadrinhos brasileiros contemporâneos são publicados pela Veneta, Marcelo D’Salete e Marcello Quintanilha. Além do já anunciado Luzes de Niterói, há planos para outras obras deles para breve?

Acho que uma das razões da minha boa relação com os autores é que eu não costumo chateá-los tanto com cobranças. Os livros vêm no seu tempo.

E em relação a jovens autores brasileiros, vocês têm em vista projetos de autoria de novos nomes da cena nacional de HQs?

Sim! Aliás autores e autoras. É uma pena o mercado brasileiro estar essa lástima, porque a produção de quadrinhos de hoje é talvez a melhor de todos os tempos. Gostaria de lançar vários novos autores por mês.

Quais as principais lições que a Veneta tirou da crise das grandes livrarias que aflorou em 2018? Como a editora pretende lidar com essa crise em 2019?

Grandes mesmo são as pequenas.

Como a editora está lidando com a chegada ao poder de um governo de extrema-direita que acabou com o Ministério da Cultura e que promete cortes em políticas públicas e sociais de fomento às artes?

Prefiro não comentar. Do jeito que a foi a primeira semana do governo, arrisca ser ex-governo quando você publicar a entrevista.

A capa da edição norte-americana do segundo volume da série Hip Hop Genealogia, do quadrinista Ed Piskor
HQ

“Marcello Quintanilha vai tecendo sua pequena história secreta do Brasil”, diz Rogério de Campos sobre Luzes de Niterói, o novo álbum do autor de Tungstênio e Talco de Vidro

Está no ar a campanha de financiamento coletivo do álbum Luzes de Niterói, novo álbum do quadrinista Marcello Quintanilha. O quadrinho será o primeiro projeto longo do autor desde o lançamento de Talco de Vidro, em 2015. Segundo a sinopse oficial do projeto, a HQ marca um retorno de seu autor à cidade onde nasceu e cresceu, Niterói, em uma trama baseada em fatos ocorridos nos anos 50 envolvendo pescadores, futebol, a vedete Luz del Fuego e o primeiro campo naturista do Brasil. A página do projeto no Catarse pode ser acessada aqui.

“É um retorno [de Quintanilha] ao mundo dos subúrbios fluminenses, que foi o cenário da maior parte de suas histórias curtas, que fizeram sua fama”, conta o editor da obra e dono da editora Veneta, Rogério de Campos, em papo rápido por email com o blog. A expectativa é que o livro chegue aos apoiadores da campanha de financiamento coletivo em janeiro de 2019.

Na entrevista a seguir, o editor de Quintanilha fala sobre Luzes de Niterói, comenta o retorno do artista às cores após uma leva recente de publicações em preto e branco, trata da repercussão da adaptação de Tungstênio para o cinema, explica a opção pelo financiamento coletivo e promete novas formas de chegar aos leitores da Veneta em tempos de crise no mercado editorial. Ele também adianta a inclusão de novas opções de recompensas para a campanha de financiamento do quadrinho para os próximos dias. A seguir, Rogério de Campos:

Luzes de Niterói é o primeiro trabalho longo do Marcello Quintanilha desde Talco de Vidro. Quais são as suas impressões em relação a esse quadrinho?

Sim. É a primeira história longa desde Talco de Vidro e, ao mesmo tempo, um retorno ao mundo dos subúrbios fluminenses, que foi o cenário da maior parte de suas histórias curtas, que fizeram sua fama. É um retorno a temas que ele abordou em outros livros. O futebol, a praia, a pesca ilegal, a amizade e seus sacrifícios. Um retorno a seu pai, a experiência dele como jogador de futebol. Nesse reatar das linhas, o Quintanilha vai tecendo sua pequena história secreta do Brasil.

Você é um grande admirador de HQs em preto e branco. Luzes de Niterói marca o retorno do Marcello Quintanilha às cores depois de uma leva recente de quadrinhos em preto e branco. Como você avalia a presença das cores nesse projeto?

O que fazer se os artistas não obedecem a ninguém, muito menos a seus editores? Um dos prêmios da campanha de financiamento coletivo é justamente uma gravura com a reprodução da primeira página da HQ apenas no traço. É uma beleza! Mas além do problema que é a teimosia do Quintanilha, tem o problema dele ser tão talentoso como colorista. O resultado final, colorido, ficou lindo.

Você consegue mensurar o impacto do lançamento da adaptação de Tungstênio para o cinema na recepção dos quadrinhos do Marcello Quintanilha? Vocês notaram mais interesse por parte do público e dos livreiros nas obras assinadas por ele?

Serviu para muita coisa. Mas principalmente para mostrar a um público amplo a dimensão da narrativa de Quintanilha. Mais ainda: para mostrar o nível das novas narrativas dos quadrinhos autorais brasileiros. Imagino que para quem se acostumou a pensar em quadrinhos tendo como referência a produção industrial dos gibis infanto-juvenis norte-americanos deve ter sido uma surpresa.

Luzes de Niterói é a primeira campanha de financiamento coletivo da Veneta. Por que essa opção? Por que essa primeira investida no Catarse com um trabalho do Marcello Quintanilha?

O problema de pagamento das duas grandes redes de livrarias, fez a gente acelerar o trabalho para estrearmos esse modo de financiamento. Mas já há anos que considerávamos fazer isso. E o novo livro do Quintanilha pareceu uma ótima oportunidade: é um livro com 240 páginas, colorido, papel couché, capa dura… enfim, um livro que sairia muito caro se fosse depender apenas da venda em livrarias. Além do mais, deu a oportunidade de fazermos prêmios muito bacanas, as risografias estão ficando muito bonitas e eu finalmente terei um jogo de futebol de botão desenhado pelo Quintanilha!

A Veneta tem planos de investir em outros projetos de financiamento coletivo em seguida a Luzes de Niterói?

Sim! E vamos inventar outras formas de chegarmos aos nossos leitores.