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HQ

– Prêmio Grampo 2022 de Grandes HQs – Sobre Escuta, Formosa Márcia, de Marcello Quintanilha

Texto originalmente publicado no post com o anúncio do resultado do Prêmio Grampo 2022 de Grandes HQs, vencido por Escuta, Formosa Márcia (Veneta), de Marcello Quintanilha.

O editor Rogério de Campos já chamou atenção para a pequena história secreta e pessoal do Brasil tecida por Marcello Quintanilha a cada obra. Os subúrbios, principalmente fluminenses, servem de pano de fundo para grande parte desse cenário maior construído pelo autor. E em torno de suas tramas ele coloca em prática sua aclamada oralidade e justapõe seus quadros sempre desalinhados. Escuta, Formosa Márcia é o mais recente capítulo dessa bibliografia pessoal de Quintanilha, epítome de sua produção e também seu título mais singular até aqui.

O álbum é ambientado em uma favela do Rio de Janeiro e tem como foco o impacto da corrupção dos poderes públicos na vida do cidadão comum. A enfermeira Márcia administra sua rotina em um hospital público com bicos como cuidadora de idosos num bairro rico. Em casa, ela concilia um relacionamento amoroso pouco inspirado com as tensões com a filha e a proximidade de traficantes e milicianos de sua moradia.

Assim como Tungstênio (2014), Talco de Vidro (2015) e Luzes de Niterói (2018), Escuta, Formosa Márcia também é influenciado pelo neorrealismo italiano e sua busca por um retrato social de uma época. Quintanilha, no entanto, também se distancia dos ares documentais de seus trabalhos prévios. A presença de cores, em uma paleta limitada e alheia à realidade, e o traço caricato enfatizam esse distanciamento. Segundo o próprio autor, ele se aproxima do teatro do absurdo e de Samuel Beckett (a “chave do páthos” da HQ, disse ele) ao criar um enredo em torno da solidão, do isolamento e das dúvidas existenciais de sua protagonista.

Quintanilha já falou mais de uma vez sobre sua rotina de trabalho “absolutamente anárquica”, com ele ocupado em vários projetos simultâneos, sem que seu título mais novo seja necessariamente sua produção mais recente. Por isso é difícil falar em “nova fase” do autor. Ainda assim, Escuta, Formosa Márcia apresenta novas perspectivas para sua produção.

Não faço ideia do que está por vir em um próximo trabalho de Quintanilha e não tenho interesse em saber antes de ter a obra em mãos. Que ele dê continuidade às inovações de Márcia, retome conceitos de obras prévias ou apresente conceitos e abordagens inéditos em seu trabalho, estarei sempre no aguardo da HQ seguinte do mais instigante quadrinista nacional.

A capa de Escuta, Formosa Márcia (Veneta), obra de Marcello Quintanilha vencedora do Prêmio Grampo 2022
HQ / Matérias

Simon Hanselmann fala sobre Zona de Crise: “A HQ foi criada para entreter pessoas com senso de humor e enfurecer e confundir todos os babacas ultrapolitizados”

O quadrinista Simon Hanselman diz que odeia soar cuzão, mas parece ser mais forte do que ele. A estimativa é que 1,8 milhão de pessoas morreram de COVID-19 em 2020, mas o autor australiano tem certeza de que o ano passado foi o melhor da vida dele. Ele trabalhou sem parar, vendeu mais livros do que nunca e não foi distraído por visitas inesperadas.

“2020 foi incrível pra caralho”, comemora Hanselman em conversa com o Vitralizado. “As pessoas estavam trancadas em casa e acabaram ficando sem ter o que ver na Netflix, se viram forçadas a comprar livros!”

A rotina dele durante o primeiro ano da pandemia consistia em trabalhar sem parar até terminar sua página diária, geralmente indo até meia-noite. Vez ou outra ele acabava mais cedo e ficava grelhando carne na companhia da esposa ou deitado no pufe jogando vídeo game.

“Eu me divertia também dando um scroll apocalíptico no Twitter, observando todo mundo simplesmente endoidecendo, e me sentindo vastamente superior a todos”, conta o autor de Zona de Crise, com lançamento previsto para janeiro de 2022, pela editora Veneta, com tradução do quadrinista Diego Gerlach.

Hanselman às vezes se confunde com seus personagens. Ele tem um pouco da alienação, do niilismo, da arrogância e da estupidez de Megg, Mogg, Coruja e Lobisomem Jones. Criado pelo autor em 2012, o quarteto teve suas histórias inicialmente publicadas no Tumblr pessoal do autor. Hoje as HQs saem primeiro no Instagram dele e depois são impressas como zines independentes ou álbuns pela editora Fantagraphics.

Zona de Crise foi publicada no Instagram de Hanselmann entre 13 de março e 22 de dezembro de 2020, em atualizações quase diárias. A série rendeu ao autor um Eisner Award, premiação máxima da indústria norte-americana de quadrinhos, na categoria de melhor webcomic. Ele também foi indicado ao Harvey Awards na categoria Digital Book of the Year.

“É a minha comédia política alucinada, uma explosão de insanidade”, resume Hanselmann sobre seu trabalho em Zona de Crise. “Eu mal tive tempo de processar tudo. Geralmente penso em ternos de negócios: é meu trabalho mais ‘popular’ até hoje, minha narrativa mais longa, e o melhor webcomic de todos os tempos. Eu deixei no chinelo qualquer outro artista do planeta.”

“Eu deveria na real ter ganho o prêmio Nobel de literatura, mas acho que todo aquele sexo anal assustou eles. Ao menos ganhou um prêmio Eisner. Me sacanearam no prêmio Harvey.”

“Fiz com que todos me odiassem”

Página de Zona de Crise, HQ de Simon Hanselmann publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Zona de Crise é o trabalho mais surtado de Hanselmann. Ele capturou o espírito de uma época ao retratar as tensões decorrentes da pandemia do novo coronavírus enquanto as mortes causadas por COVID-19 estavam no pico, muito antes do início das campanhas de vacinação. A dinâmica tóxica entre seus personagens chegou ao ápice enquanto eles tentavam sobreviver à COVID-19.

O álbum de 296 páginas, quase todas compostas pelo mesmo design de 12 quadros, é centrado nas respostas de Megg, Mogg, Coruja e Lobisomem Jones à pandemia e o impacto da disseminação da doença em seu convívio. O livro impresso conta com conteúdo extra, painéis inéditos da versão do Instagram e textos complementares do próprio autor.

Megg encontra conforto para seus temores nas redes sociais, Mogg fica paranóico e dissemina teorias da conspiração, Lobisomem Jones vira astro pornô na internet e depois protagonista de série do Netflix e Coruja passa por uma transformação extrema ao deixar de ser o careta do grupo, principal alvo de bullying de seus colegas, para se tornar um grande líder.

Hanselmann segue focado na dinâmica interna dos quatro, nos excessos e na relação deles com o mundo ao redor. Eles continuam em sua busca incessante por sexo e drogas e maltratando uns aos outros. Apesar de alienados, eles agora precisam lidar com a realidade imposta pela pandemia.

Hanselmann já celebrou seu trabalho com Megg e sua turma pela ausência de “questões políticas”. Em entrevista publicada aqui no blog em 2020, quando Mau Caminho saiu no Brasil, ele disse que seus quadrinhos tratam de “pessoas egoístas que odeiam política e estão às voltas com seu próprio tumulto emocional”. O autor assume que não é o caso de Zona de Crise.

“Sim, Zona de Crise foi super política, foi propositalmente meu ‘quadrinho político’”, quando pergunto sobre o impacto da realidade na obra. “Mas pra mim chega disso, política é um negócio vergonhoso pra caralho. As pessoas que se deixam consumir por isso são chatas pra caralho. Eu vou voltar a escrever sobre junkies, depressão e piadas de piroca.”

O trabalho de Hanselmann foi inclusive facilitado pelos vários absurdos vivenciados pela humanidade desde 2020.

“O que não faltava eram coisas imbecis e loucas vindas de todos os lados. As pessoas realmente piraram ano passado…”, me diz o autor. “Eu meio que queria poder continuar Zona de Crise, para poder tirar onda com essas coisas, colocar elas em perspectiva, mas como eu disse, política é algo vergonhoso.”

“É patético e triste ver comediantes e artistas que um dia respeitei se deixarem consumir por política pura, abandonarem quase completamente a comédia em si. Todos eles parecem exaustos e deprimidos. Enquanto eu estou o mais feliz que já estive em toda minha vida.”

Zona de Crise começa com o início do lockdown da pandemia. Lobisomem Jones se muda com os dois filhos para a casa dividida por Megg, Mogg e Coruja. Um dos quatro pega COVID-19, outro busca pagar as contas com vídeos pornô na internet, eles constroem uma casa na árvore no quintal para abrigar amigos e acabam protagonistas de um reality show do Netflix chamado Anus King. 

Hanselmann nunca se distanciou tanto de sua fonte original de inspiração para os quadrinhos de Megg e Mogg. A dupla foi concebida como uma paródia despretensiosa da série de livros infantis britânicos protagonizados pela bruxinha Meg e seu gato Mog, da escritora Helen Nicoll e do ilustrador polonês Jan Pienkowski, publicados nos anos 1970 e populares no Reino Unido e na Austrália.

“Eu não fazia ideia de como seria, quando comecei Zona de Crise”, me conta o autor. “Eu imaginei que seria um troço de 30 páginas, mas o lance foi ficando cada vez mais louco. Foi basicamente no improviso. Ainda não tive tempo de ler o livro como uma ‘coisa’ grande desde que terminei ele, espero que não seja uma leitura de merda como livro!”

Hanselmann assume que muitos dos rumos da HQ foram ditados pelos comentários frenéticos de cada novo post no Instagram com os painéis inéditos de Zona de Crise. Tanto ao acatar sugestões de seus leitores quanto seguindo rumos opostos àqueles sugeridos por seus seguidores.

“A coisa mais engraçada dos comentários eram todos os babaquinhas políticos raivosos, malucos direitóides e os imbecis de extrema-esquerda, crianças ‘lacradoras’ e arrogantes. Eu fiz com que todos eles me odiassem. Zona de Crise foi criada para entreter pessoas com senso de humor e para enfurecer e confundir todos os babacas ultrapolitizados. Foi divertido.”

E diversão sempre foi o propósito maior do autor: “Minha esposa entrava no estúdio e me via rindo das minhas próprias piadas. Minha declaração de intento com ZC era divertir todo o povo apavorado e trancado em casa, mas principalmente para, de modo egoísta, me divertir, como sempre. Foi realmente divertido. Eu amo pra caralho fazer quadrinhos.”

“Não aguento mais quadrinho-poesia”

Página de Zona de Crise, HQ de Simon Hanselmann publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Apesar de sua paixão pela própria profissão, Hanselmann revela estar em busca de uma nova plataforma para compartilhar seus trabalhos. Após ver o Tumblr minguar com suas políticas de censura para conteúdo proibido para menores de 18 anos, ele se vê alvo de suspensões cada vez mais constantes no Instagram e teme perder sua conta.

“Seria um desastre para minhas finanças”, diz sobre a possibilidade de se ver excluído do Instagram. “Comecei a ter que censurar um monte de merda que posto lá. Não tenho planos de serializar trabalho inédito por lá de novo, atualmente procuro por plataformas alternativas. Instagram é pros covardes!”

Ele também não se vê muito confortável como parte da cena de quadrinhos autorais norte-americana. Nascido na Tasmânia em 1981, ele vive em Seattle há vários anos.

“A cena atual na América do Norte é predominantemente composta por maricas chorões. Gosto mais da cena na Europa, da cena do México, da cena britânica. Mas tem babacas chatos em tudo que é canto. Eu só meio que ignoro todo mundo hoje em dia, vivo na minha ilha deserta, não tenho vontade de estar conectado a nenhuma cena.”

“Espero que a cena norte-americana se torne um pouco mais divertida nos próximos anos, com menos ostentação política e resmungos, e mais diversão… Veremos… Tenho curtido o Nate Garcia, ele tem 19 anos e é muito engraçado, faz quadrinhos cretinos e divertidos. Mais coisas assim, por favor. Não aguento mais quadrinho-poesia e punhetas de vanguarda tediosas.” 

Página de Zona de Crise, HQ de Simon Hanselmann publicada pela editora Veneta (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com João Pinheiro, autor de Depois que o Brasil Acabou: “Ser um país vermelho é nosso destino manifesto desde o nome”

Depois que o Brasil Acabou reúne trabalhos do quadrinista João Pinheiro publicados na revista Cavalo de Teta, na coletânea Na Quebrada – Quadrinhos de Hip Hop #1, no blog da editora Veneta, no programa Convida do Instituto Moreira Salles e outros títulos. São HQs e ilustrações produzidas pelo autor a partir do golpe contra Dilma Rousseff em 2016, centradas na ascensão de Jair Bolsonaro e no caos do Brasil em meio à pandemia do novo coronavírus.

“O recorte para o livro foi reunir essas HQs que tratam da vida social brasileira dos últimos cinco anos”, me contou o autor sobre a coletânea recém-publicada pela editora Veneta.

Pinheiro é autor de Kerouac, (2011), Burroughs (2015), Carolina (2016, em parceria com Sirlene Brabosa) e Diário Vagulino: Desenhos das Quebradas (2017). Depois que o Brasil Acabou consiste em registros das perspectivas e leituras de um dos autores mais relevantes da cena nacional de HQs sobre um país em crise crescente. São histórias curtas, com propostas e abordagens distintas de trabalhos prévios do autor, tanto trágicas quanto divertidas.

Na conversa a seguir, Pinheiro fala sobre suas inspirações, suas técnicas e suas avaliações sobre o Brasil contemporâneo. Saca só:

“Voltamos a ser uma colônia extrativista”

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas por aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

Estamos caminhando, é a resposta mais positiva que consigo dar. Ainda é difícil avaliar, mas parece acertado dizer que essa pandemia será um trauma coletivo para várias gerações. Aqui, aos poucos, fomos nos acostumando com a rotina de cuidados e restrições que, no meu caso, não foi tão alterada na questão do isolamento, já que trabalho a maior parte do tempo em casa há mais de dez anos. Em 2020 fiquei alguns meses paralizado, sem conseguir produzir, apenas trabalhando no necessário pra pagar as contas, mas sem ânimo pra criar nada pessoal. 

João, você pode contar um pouco sobre as origens de Depois que o Brasil Acabou? O álbum reúne trabalhos publicados por você apenas na internet ou em publicações de tiragens menores. Você já tinha em mente reunir esses trabalhos um dia? Qual foi o recorte, o filtro editorial de vocês, durante o processo de edição desse livro?

A origem foi a criação do zine Cavalo de Teta, que começou quando conheci pessoalmente meu ídolo Schiavon, em 2016, durante as manifestações dos book blocs, quando participei com meu escudo do Abajur Lilás, de Plínio Marcos, e o Schiva tava lá com o escudo que reproduzia a capa da revista Dundum número 1. Trocamos ideia e nos identificamos. Depois, quando da ocasião da Ugra Fest, que rolou no SESC Belenzinho, combinamos de fazer um zine, 12 páginas de cada e tal (ele mesmo escreveu sobre aqui). Na empolgação falei de chamar outros caras que eu acompanhava e curtia: Gerlach, Evandro Alves e MZK. Logo na primeira edição pensei no bordão: ‘Cavalo de Teta, a primeira revista pós-Brasil do mundo’. Infelizmente não era um exagero de retórica, pois o clima do golpe já estava todo lá e as garras do imperialismo já faziam sombra do Oiapoque ao Chuí. No entanto, as HQs foram sendo feitas sem a ideia pré-concebida de reuní-las no futuro. Eu estava com vontade de fazer histórias curtas, de experimentar abordagens diferentes e, ao mesmo tempo, de fazer uma revista que fosse divertida para quem lesse. O recorte para o livro foi reunir essas HQs que tratam da vida social brasileira dos últimos cinco anos. 

Página de Depois que o Brasil Acabou, obra de João Pinheiro publicado pela editora Veneta (Divulgação)

Você pode falar, por favor, sobre a escolha do título? Como vocês chegaram em Depois que o Brasil Acabou? Por que esse título?

Inicialmente eu havia sugerido esse título: Quadrinhos Pós-Brasil, porque era uma expressão constante que utilizei durante esse último período pra divulgar a Cavalo de Teta. Porém, o Rogério [de Campos, editor da Veneta] sugeriu Depois que o Brasil Acabou, e eu achei que soava melhor e amarrava bem o conteúdo geral da coletânea. Batemos o martelo nessa segunda opção. Para mim o título não é uma hipérbole, pois acho que realmente deixamos de ser um país oprimido, mas com algum desenvolvimento econômico autônomo, para nos tornarmos uma neocolônia dos EUA e demais países dominantes do capitalismo. 

Aliás, você consegue estabelecer algum ponto específico na nossa história em que esse pós-Brasil tem início? Em meio aos vários ocorridos trágicos recentes, você consegue estabelecer algum fato ou conjunto de eventos em particular que impulsionou a chegada da nossa atual realidade?

A história recente do Brasil é complexa e seriam necessários vários volumes pra dar conta de tantos golpes sucessivos aplicados contra o povo somente nessa quadra histórica que abrange o final da ditadura militar, em 1985, e a chamada Nova República até os dias atuais. Mas resumidamente, e sem querer defender tese sobre o assunto, apenas como um cidadão de 40 anos que presenciou isso tudo da periferia dos acontecimentos, vejo que o povo derrubou a ditadura com as manifestações populares, greves, movimento estudantil etc… Acuados, a burguesia e os militares prepararam o primeiro golpe, que foi o de sequestro dessa luta pelas oligarquias e a consequente eleição indireta do cidadão chamado Tancredo Neves, avô do Aécio Neves, mas provavelmente mais eficaz na arte de realizar maldades contra o povo por ser um homem dos militares e do poder econômico. Daí esse cidadão teve um piripaque providencial e quem assumiu foi o líder dos militares no congresso: o ilmo. sr. José Sarney, que tinha sido o líder do Arena – principal partido militar. Transição melhor que essa não poderia existir, do ponto de vista dos militares é claro. Em seguida, a burguesia fabricou o Collor, com todo seu poder financeiro e midiático, e foi aquele desastre que conhecemos.  Após o governo Itamar, finalmente Fernando Henrique eleito, começa a implementação da política neoliberal que deu início às privatizações de várias estatais importantes seguindo as orientações do Consenso de Washington e FMI. Ali começa verdadeiramente a liquidação do país que levou milhões de brasileiros à fome e liquidou parte substancial da indústria nacional que vinha sendo construída pelo menos desde os anos 1930.

No início desse século o país estava em pedaços e milhares morriam de fome. Nessa situação, o Partido dos Trabalhadores assumiu o governo em 2003 e, através de uma série de programas sociais, conseguiu conter a explosão social que já ocorria concomitantemente nos países vizinhos da América Latina, como resposta desses povos por problemas muito semelhantes. Com algumas concessões, o governo petista conseguiu governar por três mandatos, mas após a crise capitalista de 2008, os capitalistas nacionais e internacionais viram a necessidade de retomar a sanha privatista a fim de salvar o capitalismo agonizante. Ou seja, a alternativa deles diante da crise, foi fazer com que os países pobres do globo paguem a conta da crise. O golpe de 2016 foi dado para retomar essa política iniciada lá atrás de liquidação do país e para os golpistas do momento a ordem é privatizar tudo, liquidar o país. Estão conseguindo. A aprovação do teto de gastos, da autonomia do Banco Central, a retirada de direitos dos trabalhadores etc… Tudo configura a perda total de nossa soberania. Voltamos a ser uma colônia extrativista. 

Acho que Depois que o Brasil Acabou é uma grande amostra da sua versatilidade, tanto em termos de estilo de desenho quanto em termos de investidas em diferentes gêneros. Fico curioso em relação aos seus critérios para optar por uma ou outra abordagem e estabelecer esse ou aquele traço para uma determinada HQ. Como funciona esse processo para você?

Eu sou mais fascinado pela linguagem dos quadrinhos do que por algum estilo, autor ou gênero específico. Acho que ideias são mais legais de seguir do que um estilo. Nos meus diários gráficos sempre experimentei com diferentes abordagens e quando decidi fazer histórias curtas para publicar na Cavalo, achei que era uma boa oportunidade de colocar pra jogo essas propostas diferenciadas. No geral procurei me manter mais fiel a ideia, e ao que determinado argumento pedia, do que a um estilo específico. 

“Acho que ideias são mais legais de seguir do que um estilo”

Página de Depois que o Brasil Acabou, obra de João Pinheiro publicado pela editora Veneta (Divulgação)

Você pode me falar um pouco sobre as suas técnicas preferidas? Quais são os materiais que você costuma usar com mais frequência? Há alguma técnica predominante nos seus trabalhos em Depois que o Brasil Acabou?

O que eu mais gosto é do bico de pena e nanquim sobre papel Bristol. Mas nesse livro temos algumas histórias que foram desenhadas totalmente no computador.

Tem dois trabalhos seus em Depois que o Brasil Acabou com a presença de cores. São cores discretas e usadas com parcimônia, mas estão lá. A maior parte dos seus trabalhos publicados até hoje é em preto e branco. Você tem alguma preferência em particular pelo preto e branco? Como foi essa experiência trabalhando com cores?

Sempre preferi os quadrinhos em preto e branco. Um dos primeiros gibis que lembro de ter lido, foi um do Conan do meu irmão mais velho. Era desenhado pelo John Buscema, com toda aquela elegância que lhe é característica. Depois tiveram as revistas nacionais que em sua imensa maioria eram em PB também. É meio que minha escola. Sei que naquela época as publicações também eram publicadas desse modo por questões econômicas, mas como essas histórias a que você se refere, foram feitas para serem publicadas na internet, aproveitei para usar esse recurso a mais onde auxiliasse a narrativa. 

E é fácil para você alternar os seus “modos de produção”? Digo, é tranquilo para você ir do “João galhofeiro e bem-humorado” de alguns desses trabalhos para o “João mais reflexivo e sóbrio” de outros? A experiência de produção para você é muito distinta, por exemplo, quando você está trabalhando em uma Cloro Maldita de uma Farol de Quebrada?

Sim, porque, na verdade, na infância e na adolescência, eu fazia mais HQs de humor do que ‘sérias’. Meu estilo era mais cartum, mas depois que publiquei meu primeiro livro, um estilo mais realista passou a prevalecer. Até agora. 

Página de Depois que o Brasil Acabou, obra de João Pinheiro publicado pela editora Veneta (Divulgação)

O que mais te interessa hoje na linguagem das histórias em quadrinhos?

Eu sou completamente tarado pela linguagem das histórias em quadrinhos. Os desenhos separados por quadros ou não, o balão e as letras que funcionam como desenhos também, a leitura muito rápida desses vários elementos. Tudo isso é fascinante. Mas o principal é contar histórias.

Acho que Depois que o Brasil Acabou faz um panorama e um registro muito precisos do Brasil pós-golpe. Você fez quadrinhos sobre os golpistas logo após o golpe, escreveu sobre o Temer enquanto ele estava no poder, tratou do início do governo Bolsonaro com ele em curso e fez trabalhos sobre a pandemia ainda no começo dela. Como é para você a experiência de produzir todos esses trabalhos no calor do momento? 

Ao mesmo tempo, me angustia e me obriga a refletir e pesquisar pra tentar entender o que aconteceu. Parafraseando o cineasta Jeferson De: só de raiva, desenho com amor. 

Página de Depois que o Brasil Acabou, obra de João Pinheiro publicado pela editora Veneta (Divulgação)

João, você consegue fazer alguma previsão para o futuro do Brasil? Você consegue vislumbrar alguma perspectiva de melhora para o país?

É muito difícil prever essas coisas que dependem de muitos fatores, mas sim, acho que o povo um dia vai fazer a revolução no Brasil. E pra desespero dos lunáticos direitista só digo o seguinte: Brasil significa Vermelho como uma brasa. Ser um país vermelho é nosso destino manifesto desde o nome. 

No que mais você está trabalhando no momento, João? Você tem algum outro quadrinho em vista para um futuro próximo? Alguma perspectiva para um possível novo número da Cavalo de Teta?

Estou finalizando uma adaptação da peça Barrela, de Plínio Marcos, para os quadrinhos e minha HQ A Tragédia dos Cães até o final deste ano. Inclusive, a HQ dos Cães tem um site onde pretendo publicar o processo e extras periodicamente.

Eu gostaria muito de fazer uma nova edição da Cavalo de Teta. Se sobrevivermos, vou tentar convencer meus parceiros pra fazermos algo pro ano que vem. 

Você pode recomendar algo que tenha visto, ouvido ou lido recentemente?

Tenho lido HQs brasileiras dos anos 70/80, principalmente de terror. Redescobri uma caixa de HQs antigas com trabalhos do Elmano Silva, Mozart Couto, Shimamoto, Flavio Colin, E.C. Nickel, Watson Portela, Rodolfo Zalla, Jayme Cortez, Eugênio Colonnese… Foi incrível relê-los tantos anos depois e perceber o quanto estão impregnados no meu trabalho sem que eu me desse conta. Também estou lendo toda a obra do William Blake e sua biografia, além de textos sobre as seitas gnósticas do início da era cristã. É um tema fascinante. 

A capa de Depois que o Brasil Acabou, obra de João Pinheiro publicado pela editora Veneta (Divulgação)
HQ

Assista ao bate-papo de lançamento de Kit Gay, com Vitorelo e Aline Zouvi

Mediei o evento de lançamento de Kit Gay, obra da quadrinista Vitorelo recém-publicada pela editora Veneta. Eu, a autora e a quadrinista Aline Zouvi conversamos sobre as origens desse projeto, a produção do livro e o impacto do lançamento de Kit Gay no Brasil de hoje. Compartilho o vídeo com a íntegra da nossa conversa mais abaixo. Aproveito a deixa para recomendar mais uma vez o excelente trabalho de Vitorelo no livro. Leia o Kit Gay, dê de presente e faça o livro circular por aí. A seguir, Vitorelo e Aline e Zouvi falando sobre Kit Gay:

HQ

5ª (4/11) é dia de live de lançamento de Kit Gay, de Vitorelo

Vou mediar a live de lançamento de Kit Gay, obra da quadrinista Vitorelo recém-publicada pela editora Veneta. O evento rola amanhã, quinta-feira, dia 4 de novembro, às 21h, no canal da Veneta no YouTube e na página da editora no Facebook. Também participa do papo a quadrinista Aline Zouvi, autora de Síncope e Óleo Sobre Tela (Ugrito #17).

Conheci Vitorelo e suas HQs em algum dos muitos eventos na loja da Ugra, em São Paulo. Minhas leituras de Perigeu e Tomboy, em 2017, me levaram a convidá-la para participar da Série Postal em 2018. Para o meu projeto de quadrinhos em formato de cartão postal ela produziu Crônica – que você lê aqui e confere os bastidores de sua produção aqui e aqui.

Depois ainda vieram as excelentes TILT e Lilibel, além da versão zine do Kit Gay e de participações em publicações coletivas como a 18ª edição da revista Café Espacial e as coletâneas Sob a Luz do Arco-Íris e Quadrinhos Queer, ambos da editora Skript.

Em suma: trata-se de uma das minhas autoras preferidas publicando um trabalho necessário para os tempos retrógrados que estamos vivendo. Reforço o convite: 5ª, 4/11, 21h, no YouTube e no Facebook da Veneta. O papo vai ser massa, tenho certeza. Fico no seu aguardo.   

A capa de Kit Gay, obra de Vitorelo publicada pela editora Veneta (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Joe Sacco, autor de Palestina: “O que os palestinos têm a favor deles, além de sua própria humanidade?”

Entrevistei o quadrinista e jornalista maltês Joe Sacco. O foco da conversa foi o relançamento de seu mais conhecido e celebrado trabalho no Brasil, o clássico Palestina, pela editora Veneta. A obra retorna às livrarias nacionais às vésperas do aniversário de 30 anos da viagem do autor ao Oriente Médio que serviu de base para a produção da HQ. Transformei essa conversa com Sacco em matéria para o caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo.

Compartilho agora a íntegra da minha entrevista com o artista. Conversamos por vídeo, com ele falando de sua casa em Portland, no estado norte-americano do Oregon.

Sacco refletiu sobre os 30 anos de Palestina; falou sobre o impacto da ascensão de líderes de extrema-direita no recrudescimento da ofensiva de Israel contra os palestinos; apontou paralelos entre o roubo de terras na Palestina, no Canadá e no Brasil; analisou os 10 anos da Primavera Árabe; e contou um pouco sobre o livro que está desenvolvendo sobre os Rolling Stones. Entre outros temas.

Recomendo a leitura de todos os títulos de Sacco. São grandes quadrinhos e excelentes reportagens. Leia (ou releia) a nova edição de Palestina, também o meu texto para a Folha e confira a íntegra da minha conversa com o autor:

“Israel serve a um propósito na dinâmica do poder, no contexto colonial”

Quadro de Palestina, HQ de Joe Sacco (Divulgação)

Palestina está sendo relançado no Brasil 21 anos após sua primeira publicação e 30 anos após o início da série nos Estados Unidos. Você vê muitas mudanças no conflito entre Israel e Palestina do início dos anos 1990 até o nosso presente?

Acho que piorou. É uma coisa muito infeliz de se dizer, mas acho que o livro Palestina ainda tem sua relevância porque a ocupação continua. Mas eu diria que tudo aumentou: o nível de violência aumentou, o número de colonos aumentou, e a ocupação se fortaleceu. E temos visto muitos indícios disso. As demolições de casas estavam acontecendo quando eu estava lá e estão se intensificando. Portanto, as pessoas ainda estão sendo expulsas de suas terras, e eu acho que o projeto final de remover os palestinos ou separá-los de alguma forma de suas terras continua.

Você vê algum impacto da ascensão recente de líderes de extrema-direita nos debates e no desenrolar dos conflitos entre Israel e Palestina nos últimos anos?

Muitos destes líderes de direita também são apoiadores ferrenhos das políticas israelenses. [Donald] Trump, obviamente, fez o que muitos presidentes norte-americanos falavam… Quando se está falando sobre o contexto norte-americano, quase todos os políticos apoiam bastante Israel e vão apoiar as políticas israelenses, e vão dizer exatamente as mesmas coisas. Trump apenas empurrou a coisa para onde já estava indo de qualquer maneira. Pode-se dizer que ele foi mais grosseiro ou mais brutal ou o que seja, mas também pode-se dizer que ele representa algo que é verdadeiramente norte-americano e estava sempre indo nessa direção. Bolsonaro também é um amigo de Israel; Modi [Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia] é um amigo de Israel; Orbán [Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria] é um amigo de Israel; talvez Erdogan [Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia] nem tanto; mas sim, é uma ascensão da direita e a ascensão de certa brutalidade na política. E isso sempre me faz pensar que, no contexto dos Estados Unidos, o período de, digamos, o início dos anos 1970 até meados dos anos 1980 foi uma espécie de bolha em que vivemos. Achamos que as coisas iam ficar mais tranquilas. Políticas públicas tendiam a ajudar mais as pessoas. E acho que estamos vendo algo diferente agora. Acho que vivíamos em uma bolha naquela época, e agora estamos apenas vendo a realidade do poder, como o poder se expressa e certamente como o poder tem se expressado no contexto de Israel e Palestina. Quero dizer, o que os palestinos têm? O que eles têm a favor deles, além da humanidade deles? A humanidade deles simplesmente não funciona neste contexto, ou certamente não funciona com aqueles que estão no poder. Israel cumpre certas funções para os Estados Unidos. Israel meio que se colocou no papel, como Biden disse, de basicamente ser nosso porta-aviões no Oriente Médio. É um aliado dos Estados Unidos. Quero dizer, não é apenas o lobby aqui, ou o forte apoio dos cristãos evangélicos. Claro, tem muito a ver com isso. Mas na verdade tem a ver com o fato de que Israel serve a um propósito na dinâmica do poder, no contexto colonial.

“Há aspectos do poder que sempre vão atuar contra pessoas que pensam nas coisas de uma maneira mais ampla”

Página de Palestina, HQ de Joe Sacco (Divulgação)

Já vi o seu trabalho descrito como humanitário. E nesse contexto atual de ascensão da extrema-direita e de toda essa brutalidade que você mencionou, vejo um predomínio de tudo que compreendo como oposto de humanitário ou humanista. Enfim, você vê alguma causa em particular para a ascensão dessas lideranças de extrema direita?

Essa é uma grande questão. Não tenho certeza se estou totalmente qualificado para respondê-la, mas diria que muita gente está sendo deixada para trás, e posso falar sobre o que conheço melhor, que são os Estados Unidos. Talvez se aplique a outros contextos, como até mesmo o seu. Mas nos Estados Unidos temos esse tipo de conceito liberal de que todos serão ajudados, todos serão puxados para cima. Você vai conseguir o seu plano de saúde, você vai conseguir isso, você vai conseguir aquilo. E na verdade, não tem funcionado assim. Se você olhar para as cidades norte-americanas – eu moro em Portland, Oregon, e o establishment aqui é totalmente democrata. Não é um establishment republicano. Está muito à esquerda ou é assim que eles se representam. Muito progressista, sabe, mas eles são muito brutais com as pessoas em situação de rua ou sem moradia. A polícia aqui é muito violenta. E, sabe, muitas pessoas estão realmente excluídas desse papo liberal. Elas estão realmente do lado de fora. E acho que foi isso que aconteceu nos Estados Unidos. Se você for para o meio dos Estados Unidos, os lugares estão fechados com tábuas. Não há empregos. A única comida é fast food, fast food gorduroso. Você tem que dirigir 45 minutos até um Wal-Mart, ou uma dessas grandes redes de lojas, para conseguir vegetais de qualquer tipo, e não os melhores vegetais, sabe. Então, é como se muitos lugares tivessem ficado para trás enquanto ouvíamos coisas como a retórica elevada de Barack Obama, sabe, como se tudo estivesse ótimo.

E no meu contexto em Portland, com meus amigos progressistas, tudo parece muito bom. Mas a realidade é que, para muita gente do lado de fora, não tem sido bom e elas são ignoradas e demonizadas, eu diria, pela mídia progressista. Eu não vou justificar a direita de forma alguma, mas há muitas pessoas que, se tivessem sido ajudadas, ajudadas de verdade, e se simplesmente não tivessem ouvido tanta retórica… Talvez as coisas fossem um pouco mais fáceis, um pouco mais tranquilas neste país, mas não são, porque muitas pessoas perderam suas casas. Muitas pessoas não têm emprego. Os salários são muito baixos. E um demagogo como Trump atrai essas pessoas, porque embora ele seja um milionário e nada parecido com essas pessoas, e provavelmente as deteste a portas fechadas, ele fala a língua delas. E acho que é o que funciona agora. Sabe, sobre o contexto brasileiro, não sei. Quero dizer, você olha para alguém como Bolsonaro, você nem consegue imaginar que alguém assim conseguiria chegar ao poder. Mas se você olhar para o que aconteceu com Dilma e Lula, eles foram tirados do poder. Não sei se você quer entrar na política brasileira…

Sim, claro. E eu concordo com você.

Sim. Quer dizer, eles [políticos de direita] jogam bem pesado. E alguém como Lula obviamente atrai muita gente. Mesmo assim, você pode encontrar maneiras de, se controlar certos aspectos do poder, tirar essas pessoas de lá. E mesmo no contexto dos Estados Unidos, alguém como Bernie Sanders, sabe, não o apoio cem por cento, mas acho que ele representava algo melhor. Mas mesmo o establishment do Partido Democrata garantiu que ele nunca chegaria perto da indicação [à candidatura democrata para a Presidência dos EUA]. E parecia que ele tinha uma chance. Mas, sabe, simplesmente há aspectos do poder que sempre vão atuar contra aquelas pessoas que pensam nas coisas de uma maneira mais ampla. Quer dizer, o poder funciona para certos interesses, sabe, quais são os interesses? Acho que essa é a grande questão. Quem está realmente por trás dessas pessoas?

“Quando as pessoas dizem que não vão sair, é aí que sinto esperança”

Página de Palestina, HQ de Joe Sacco (Divulgação)

O seu trabalho mais recente, Paying the Earth, também diz respeito a disputas territoriais. E aqui no Brasil também há um debate crescente sobre o roubo de terras indígenas. Crimes do tipo não são recentes, mas eles parecem estar sendo mais noticiados atualmente. Ou você acha que eles estão realmente se tornando mais frequentes ao redor do mundo?

Sim, é verdade. Temos essas fronteiras nacionais, digamos o Brasil, mas na verdade existe um projeto de colonização interna, assim como foi no Canadá. Você tem uma fronteira, Canadá, mas então você tem que realmente colonizar o Canadá e você tenta colonizar da maneira que puder. E a terra é e sempre será uma questão. Não vamos conseguir contornar a terra e o apego das pessoas à terra. E os paralelos que se podem ver entre o contexto palestino e o contexto dos povos indígenas no Canadá, no Brasil ou onde quer que seja, é que as pessoas que querem aquela terra, por qualquer motivo, seja um espaço para viver, para manter o seu próprio povo, como no contexto palestino; ou no contexto brasileiro, para derrubar florestas e plantar lavouras, soja, ou criar gado ou o que tiver lá; ou no contexto indígena no Canadá, pelos recursos, é a separação. Você tem que separar as pessoas de suas terras, e há maneiras de fazer isso: ou você as expulsa da terra ou as mata, ou faz uma combinação de ambos, ou tenta culturalmente separar as pessoas de suas terras, como fizeram no Canadá.

Não foi tanto um ataque explícito como tivemos nos Estados Unidos, ou uma série de ataques explícitos. Foi mais algo como pegar as crianças, colocá-las numa escola, quebrá-las, bater nelas quando elas falam suas próprias línguas; você corta qualquer relação delas com sua cultura. Então, quando elas voltam para suas casas, elas não podem mais falar a língua. E em um lugar onde as tradições são transmitidas oralmente, se elas não conseguem mais falar o idioma, elas não vão ouvir o que os anciãos têm a lhes dizer. Assim foi feito lá. Sabe, existem maneiras diferentes, existem maneiras mais sutis. E agora, claro, vemos no Canadá mais um reconhecimento do que aconteceu. Mas você pode passar gerações e gerações pensando “ah, bem, as pessoas indígenas estão nas escolas, isso é bom, elas vão aprender a ler e escrever”. Mas, sabe, há algo mais acontecendo. É um projeto. É um projeto para roubar a terra, obter o que está nela para seus próprios fins. Está acontecendo no Brasil, está acontecendo na Palestina, está praticamente concluído nos Estados Unidos e está acontecendo no Canadá.

E fico curioso, em meio a todos esses casos de extermínio e roubo de terra, você consegue se sentir de alguma forma otimista por um futuro melhor?

Sou otimista porque acho que as pessoas resistem. E acho que nunca podemos dizer que vamos chegar a um ponto em que vamos vencer. É uma luta constante. Você tem sorte se conseguir recuperar algo do que eles tiraram, mas eles sempre tentarão tirar mais de você. Apesar de tudo o que aconteceu com os povos indígenas do Canadá, você vê uma parte da população — algumas pessoas se sentem meio derrotadas, mas uma parte da população resiste, toma consciência, se apega à sua cultura, tenta encontrar força através da cultura. Você vê isso com os palestinos. Quero dizer, olhe o que está acontecendo [em referência aos protestos da população palestina que aconteceram em maio]. Ainda há resistência acontecendo. Os palestinos estão tentando fincar os pés na terra o máximo possível e eles basicamente estão dizendo “não vamos sair”. E quando as pessoas dizem que não vão sair, é aí que sinto esperança. Quando elas vão embora, quando elas se resignam, quando elas cedem, é aí que eu começo a perder a esperança. Mas ainda sinto que em todo o mundo as pessoas fincam os pés na terra. Até no Brasil existe uma reação. Mas é sempre uma luta, que estará sempre conosco.

“A Primavera Árabe foi uma decepção em muitos aspectos, mas ainda não sabemos as consequências dela”

Página de Palestina, HQ de Joe Sacco (Divulgação)

Falando sobre lutas e esperança, a Primavera Árabe completou 10 anos em 2021. Como você analisa esse movimento após 10 anos? Na época, enquanto ocorria, me pareceu muito mais revolucionário e esperançoso do que acabou sendo. Você concorda?

Sim, eu fui uma das pessoas que ficaram extremamente animadas com aquilo. E [a Primavera Árabe] de fato mostrou o poder das pessoas nas ruas. Mostrou quanta força as pessoas têm. Se você olhar para o caso do Egito, por exemplo, eles se livraram de Mubarak [Hosni Mubarak, que foi presidente do Egito entre 1981 e 2011], e isso foi incrível. Mas o problema era que havia outro grupo. Havia a Irmandade Muçulmana, que por muitas décadas vinha construindo um movimento. E era um verdadeiro movimento social, eles estavam ajudando as pessoas. Eles podem ter valores com os quais eu não concordaria, mas eles eram um movimento de longo prazo e meio que sequestraram aquela vitória das pessoas nas ruas, que eram estudantes e pessoas assim. Eles meio que tomaram aquela vitória para eles. E então, é claro, eles estragaram tudo. E o exército está de volta ao poder. Mas há certos lugares que têm correntes opositoras muito fortes. O exército no Egito é muito forte. Ele controla muito da economia. O exército no Egito é uma potência manufatureira, produz geladeiras, tem muito dinheiro e poder. As pessoas meio que esperavam que o exército ficasse do lado delas. E, no fim das contas, não é assim que as coisas funcionam.

Acho que a Primavera Árabe foi uma decepção em muitos aspectos, mas ainda não sabemos as consequências dela. É como se você pudesse falar sobre o Occupy Wall Street, que se inspirou muito na Primavera Árabe. Você pode dizer que [o Occupy] foi derrotado também. Mas quais são as implicações? [O Occupy] ainda mantém algumas brasas acesas de algo vivo? E sim, ainda há ditadores no poder, mas por outro lado, você vê o poder das pessoas nas ruas tentando formular suas ideias. Sabe, é sempre um projeto contínuo. Se você olhar para um período, você pode dizer “ah, foi derrotado”. Mas, em outro sentido, o que disso ainda veremos no futuro? O que isso vai inspirar no futuro? Não podemos realmente dizer.

O foco dos seus trabalhos costuma ser na perspectiva civil em cenários de conflito. Você evita, por exemplo, expor vozes oficiais. Por que essa sua opção em tratar de conflitos globais pelo ponto de vista de civis e de pessoas que costumam não ser ouvidas por grandes meios de comunicação? 

Para ser honesto, é algo meio acidental, porque quem sabe o que eu teria sido se tivesse saído imediatamente, quando me formei em jornalismo, quem sabe que tipo de jornalista eu seria, se tivesse ido direto para a grande mídia. Digamos que eu trabalhasse para a NBC News. Eu provavelmente teria me tornado um jornalista que estaria nos corredores do poder falando com os poderosos. E eu provavelmente teria aceitado muitas das opiniões deles e teria reportado a um chefe da grande mídia que queria certas histórias. Felizmente, eu não tinha dinheiro, nada por trás de mim, nenhuma grande instituição me dando apoio. Então, sempre que eu ia aos lugares, eu meio que encontrava meu próprio caminho. E a única maneira de encontrar meu próprio caminho foi viver com muito pouco. Nunca pude pagar para me hospedar em hotéis com os outros jornalistas; eu tive que morar ou ficar em albergues, ou tive que alugar um quarto na casa das pessoas, como na Bósnia, em que morei com uma pessoa idosa que estava alugando um quarto. Então você começa a ver as pessoas nesse nível. Eu não estava passando meu tempo com outros jornalistas. E não tenho nada contra isso necessariamente, mas eu simplesmente via uma perspectiva diferente, e essa se tornou minha perspectiva. E sou muito grato por isso. Honestamente, sou grato por não ter começado a trabalhar com uma grande instituição por trás de mim. Isso me faz pensar que talvez… Não sei, não me dou tanto crédito, eu poderia ter me tornado um tipo de pensador muito convencional. Mas quando você está se misturando com as pessoas, quando você está frequentando os cafés delas, quando você não tem grana para tomar um drinque no Holiday Inn ou seja lá o que for, você está em uma seara diferente. E esta seara meio que se torna aquilo em que você se interessa, aquilo a que tem acesso. E isso se torna uma história sobre os civis, sobre as pessoas que não têm nada, porque você meio que não tem nada. Sabe, você está meio que nessa mistura. Agora, tudo isso dito, não sou necessariamente contra estar com as forças militares. Estou interessado em como eles percebem as coisas. Não passei muito tempo com as Forças de Defesa de Israel, mas passei alguns dias com elas em Rafa [cidade palestina na Faixa de Gaza]. E passei algumas semanas com fuzileiros navais norte-americanos no Iraque. Sabe, eu sou um jornalista. Estou interessado em tudo.

“Para mim, entreter é, na verdade, fazer alguém querer continuar lendo”

Página de Palestina, HQ de Joe Sacco (Divulgação)

Palestina foi muito importante para a minha formação como leitor de quadrinhos, li o seu livro quando tinha 15 anos. E uma coisa que me impressionou muito na época eram os seus designs de página e como você mesclava os textos com a arte. Depois, quando estudei jornalismo tive várias aulas tratando de hierarquização de informação. Enfim, como você pensa e constrói uma página? Como você administra a relação entre textos, ilustrações e as informações que você quer passar? Não sei se faz sentido, talvez eu esteja querendo saber o grande segredo por trás dos seus trabalhos…

Esta é uma pergunta interessante… Não é uma questão de design, não se trata de pensar em desenhar uma página. Obviamente, desenhar [a página] é importante e é divertido e tudo mais. Mas, na verdade, é uma questão de atitude. Eu estudei jornalismo, assim como você, mas os livros que realmente me cativaram, no que diz respeito a livros de jornalismo, foram as obras de pessoas como Hunter S. Thompson ou Michael Herr, que escreveu um livro chamado Dispatches, sobre a Guerra do Vietnã. Eles tinham uma atmosfera. E eu li outros livros sobre a Guerra do Vietnã escritos por jornalistas realmente bons. Eles me deram informações realmente boas, mas não me deram esse gosto na boca de como era estar ali. E se você leu Michael Herr ou leu Hunter S. Thompson, talvez Fear and Loathing [in Las Vegas] no contexto da campanha eleitoral da eleição de 1972 nos Estados Unidos, é um livro incrivelmente apaixonante, incrivelmente engraçado, ele vai removendo as camadas de baboseira e está realmente entrando nisso. Mas, por outro lado, Hunter S. Thompson realmente entendia o projeto eleitoral norte-americano e realmente se importava com os Estados Unidos. E toda aquela paixão, você pode sentir na página.

Então, de certa forma, é meio que pegar essa atitude e colocá-la nos desenhos. Não se trata apenas de informações secas. Na verdade, é tão fácil entediar as pessoas com jornalismo. É tão fácil transformar um tema muito interessante como a Palestina em um trabalho longo e arrastado. E toda a minha ideia era que [o quadrinho] não seria um trabalho longo e arrastado. Seria algo que alguém vai continuar virando a página. E eu não uso essa palavra levianamente, mas tem que ter algo de entretenimento. E não digo isso de maneira frívola; para mim, entreter é, na verdade, fazer alguém querer continuar lendo. Isso é entretenimento para mim. Como se você estivesse muito envolvido naquilo. É atraente. E foi isso que tentei fazer, e por isso não é tanto uma questão de como eu desenho uma página. É mais sobre qual estética estou trazendo para esse desenho.

“[O livro sobre os Rolling Stones] É sobre muitas coisas que sempre estiveram na minha mente, mas que não se enquadram bem nos limites do jornalismo”

Quadro de Palestina, obra de Joe Sacco (Divulgação)

Falando sobre entretenimento, li que você está trabalhando em um livro sobre os Rolling Stones. Você tem reportagens sobre artes e música, mas é conhecido principalmente sobre suas obras tratando de conflitos. O que você pode contar sobre esse próximo projeto? O que difere entre a produção de um trabalho político e uma obra sobre artes e cultura?

Bem, o livro dos Rolling Stones meio que começou como um livro sobre os Rolling Stones, mas realmente se tornou algo que, não sei como dizer exatamente, mas ainda é sobre um conflito. É sobre muitas coisas que sempre estiveram na minha mente, mas que não se enquadram bem nos limites do jornalismo. Porque, com jornalismo, você se interessa pelo fato, pelo que aconteceu aqui, quem fez o quê a quem. É disso que se trata Palestina. É sobre tentar chegar a um conjunto de coisas que podemos dizer que são fatos e descobrir o que está acontecendo, o que está ligado a isso. Mas há muitas coisas que um escritor de ficção pode fazer que um jornalista nunca pode fazer. Porque se um jornalista não consegue provar… Um jornalista pode descobrir isso e descobrir aquilo, mas não pode realmente ligar esses pontos. Mesmo que o jornalista saiba que eles estão conectados, ele não pode provar isso. Enquanto um escritor de ficção pode fazer isso. Estou me movendo em um espaço que não vou chamar de ficção, mas um espaço de uma espécie de ensaio onde estou pensando mais sobre a psicologia humana, por que as coisas são como são, em lugar de pensar quem fez o quê a quem. É disso que se trata o livro dos Stones. Além disso, espero que seja muito divertido. Estou curtindo muito, mas é mais profundo do que inicialmente pensei que seria. Tornou-se algo realmente muito maior. É muito difícil para mim descrever o que ele é.

E você já tem alguma previsão de lançamento? 

Bem, se eu continuar trabalhando nele nesse ritmo, provavelmente você o veria em três anos. Mas a questão é que tenho um livro de jornalismo estrito que tenho que terminar, então tenho que interromper [o trabalho no livro dos Stones]. E esse livro é sobre uma revolta que ocorreu na Índia. Então eu ainda tenho meus projetos de jornalismo, mas eu meio que preciso desse livro [dos Stones] porque os diários e projetos, depois de um tempo, ficam muito pesados, o jornalismo rigoroso é muito pesado, então eu preciso do livro dos Stones também.

A capa de Palestina, obra de Joe Sacco republicada pela editora Veneta (Divulgação)