Vitralizado

Posts por data abril 2018

HQ / Matérias

Ramón K. Perez, o roteiro perdido de Jim Henson e Jerry Jhul e a sinfonia de cores de Conto de Areia

Fiz uma entrevista com o quadrinista canadense Ramón K. Perez sobre o trabalho dele no álbum Conto de Areia (Pipoca & Nanquim), adaptação para o formato de quadrinhos do roteiro nunca filmado assinado por Jim Henson (1936-1990) e Jerry Juhl (1938-2005). O papo virou matéria para o Segundo Caderno do jornal O Globo. Na matéria eu conto um pouco sobre como Perez acabou sendo selecionado para para transformar o texto do criador dos Muppets e da Vila Sésamo em uma HQ. No texto o autor da adaptação também fala como foi o processo de dar sentido a um roteiro pensado para o cinema no formato de HQ e como as cores tiveram papel fundamental nesse processo. Você lê aqui a minha matéria.

HQ

Valeu, Gibiteria!

Eu nunca morei em uma São Paulo sem a Gibiteria. Mudei pra cá em março de 2010 e a loja de quadrinhos da Praça Benedito Calixto foi inaugurada em dezembro de 2009. Na época, eu não conhecia quase ninguém na cidade, estava atrás de emprego e as minhas idas à loja serviam como um bom escape enquanto tentava colocar a vida nos eixos. Foi lá que vi pessoalmente, pela primeira vez, vários ídolos de infância, presenças constantes nos eventos organizados pela Aninha e o Seu Octávio.

Passei a frequentar mais assiduamente a loja em 2011, quando já trabalhava no Estadão. Eu cobria cinema no jornal, não tinha o blog e o meu espaço pra escrever sobre HQs era limitado. Numa das primeiras deixas pra falar sobre gibis, fiz um breve perfil da loja e do Seu Octávio pro Divirta-se, suplemento semanal com a programação cultural de SP. Escrevi sobre as origens da Gibiteria e a diversidade de títulos à venda (reproduzo a página com o texto no pé do post).

Passei um ano fora, morando em Londres, e a Gibiteria foi uma das minhas primeiras paradas na volta a São Paulo. Lembro de uma tarde por lá no final de 2014 com a Aninha me colocando em dia o que eu havia perdido e o que ela considerava mais ou menos obrigatório para ser lido de imediato. Um tempo depois, fui convidado a mediar alguns eventos da loja e participei de conversas com Felipe Nunes, João Montanaro, Tobias Daneluz, DW Ribatski, Thiago Souto, Wagner Willian e Gidalti Jr. Também lancei por lá o trabalho da Bárbara Malagoli pra Série Postal.

A notícia do encerramento das atividades da loja deve ser muito lamentada e refletida. É sintomático que ela esteja fechando no ápice desse relacionamento cada vez mais promíscuo e nefasto entre produtores de conteúdo sobre quadrinhos e a Amazon. A Gibiteria sempre foi um ponto de encontro, um espaço de reflexão e de troca de ideias, não apenas um ponto de venda. Deixo aqui o meu muito obrigado ao Seu Octávio, à Aninha, ao Guilherme e à Gibiteria. Foram oito anos incríveis.

HQ

Leia o prefácio de Super-Homem e o Romantismo de Aço, o novo livro de Rogério de Campos

Fui convidado pelo Douglas Utescher, sócio e editor da Ugra Press, para escrever o prefácio de Super-Homem e o Romantismo de Aço, livro do editor e jornalista Rogério de Campos que será lançado no dia 5 de maio na loja da Ugra, aqui em São Paulo. Como consta na quarta-capa da obra, o livro aproveita os recém-completados 80 anos do Homem de Aço para refletir sobre mercado de quadrinhos, cultura pop, censura, justiceiros uniformizados e autoritarismo. Acho incríveis as ideias apresentadas pelo Rogério de Campos nas 60 páginas do livro, assim como as excelentes provocações feitas por ele. Enfim, honra imensa assinar esse texto de apresentação, que reproduzo na íntegra por aqui. Ó:

Revolução interrompida

Eu roubo o título aqui em cima do capítulo final de ‘Imageria – O Nascimento das Histórias em Quadrinhos’, obra-prima de Rogério de Campos publicada em 2015 pela editora Veneta. No livro, Rogério apresenta os primeiros 500 anos das histórias em quadrinhos, listando os precursores da linguagem e reproduzindo trabalhos canônicos até então inéditos no Brasil. O autor foca as últimas duas páginas de ‘Imageria’ no fim de um período de liberdade ilimitada para os quadrinhos norte-americanos como linguagem artística. As agências de quadrinhos conhecidas como syndicates não tinham mais interesse em ousadias e queriam o que fosse previsível, não apresentasse nenhum risco financeiro e fosse garantia de fortunas em licenciamentos.

Super-Homem e o Romantismo de Aço é centrado exatamente na influência da criação mais icônica desse período de pasmaceira criativa das histórias em quadrinhos publicadas nos Estados Unidos, quando estas já haviam perdido “a vitalidade anárquica” (aspas tiradas de ‘Imageria’) que as caracterizavam nas primeiras décadas do século 20. Os alvos mais explícitos do livro que você tem em mãos são o alter-ego de Clark Kent e os comics industrializados das editoras DC e Marvel Comics, mas seus questionamentos são muito mais amplos e miram em uma indústria cultural que prima, também segundo Rogério, “pela manutenção do estado das coisas em um mundo cada vez mais autoritário e obscurantista”.

Grande parte das investidas de Rogério no mundo dos quadrinhos, como editor ou jornalista, se propôs antagônica ao Super-Homem como ícone anacrônico da cultura pop, como um dos principais responsáveis pela percepção popular dos quadrinhos como uma linguagem infantilóide e como apropriação pela indústria do entretenimento de uma ideia concebida para simbolizar esperança e inspiração para crianças em tempos sombrios.

Rogério idealizou a revista subversiva ‘Animal’ e apresentou aos leitores brasileiros nomes como Tamburini, Liberatore, Hernandez e Pazienza; publicou trabalhos que apontavam o início do afastamento de Alan Moore da indústria norte-americana de quadrinhos, como ‘A Voz do Fogo’ e ‘Do Inferno’; apostou em HQs autorais brasileiras de vozes e traços singulares assinadas por artistas como Marcello Quintanilha e Marcelo D’Salete; desbravou o vasto universo dos mangás – lançando Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco e Pokémon em português. O antagonismo ideológico do autor a tudo aquilo que o Super-Homem representa sempre esteve no ar (e em alguns posts no Facebook), mas agora está materializado nas páginas a seguir.

HQ

Alexandre S. Lourenço e a produção da primeira edição da Série Postal 2018

Reúno aqui no Vitralizado a íntegra do depoimento do quadrinista Alexandre S. Lourenço para o site da Série Postal sobre os bastidores da produção da HQ assinada por ele para a coleção. Lourenço é autor de obras aclamadas como Você é Um Babaca, Bernardo​ (Mino), ​Robô Esmaga​ (JBC) e Boxe (La Gougoutte) e produziu para a Série Postal 2018 uma obra composta por 89 quadros no espaço de 10×15 cm do cartão postal. Confira a seguir, os comentários do artista sobre os bastidores de criação do gibi:

“Eu queria ver quantos quadrinhos eu conseguiria colocar no postal”

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“Eu peguei o postal feito pelo Pedro Cobiaco no ano passado. Um dos quadros dele é bem pequeno e eu dividi em quatro pra ter um ideia como ficaria impresso. Peguei esse quadro, já dividido, e multipliquei pra ver quantos conseguiria colocar no postal, 91 no total. Então a minha ideia inicial foi: eu quero fazer algo com a maior quantidade de quadros possível e que ainda fique legível, claro”

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“Eu queria um quadrinho que fosse uma história de fato. Eu queria uma história com início, meio e fim e que fosse mais do que um momento. Como o espaço é curto, alguns dos postais do ano passado acabaram focando no trecho de alguma coisa, mas eu queria algo mais extenso, aproveitando o tamanho do quadrinho. A ideia inicial foi essa”

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“Eu não sei muito bem como cheguei nessa história em particular… Eu queria tratar da relação entre pais e filhos. A minha ideia principal era essa e eu também gosto de super-heróis, mas nunca tinha feito nada com super-heróis. Não queria algo que fosse um quadrinho da Marvel, longe disso, mas gostaria que fosse algo nessa temática que eu gosto tanto”

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“A produção foi 100% digital, com muito zoom. Eu dava zoom in pra fazer o desenho e zoom out pra ver se ficava legível. E ficava trabalhando nessa forma, testando. Embora sejam 89 quadros, são poucos para o pedaço de história que eu queria contar. Fui testando e vendo o que funcionava ou não. Espero que tenha funcionado”

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“No ano passado, quando saiu a coleção de 2017 da Série Postal, eu fiquei com muita vontade de fazer por causa do espaço. Eu sempre tento pensar no espaço quando vou produzir uma página ou um quadrinho inteiro. Eu queria muito fazer por ser uma coisa mais rápida, uma página, no caso, e um espaço pequeno. Isso me motivou bastante. Não queria que fosse só um trecho ou um momento na vida de uma pessoa, mas que fosse uma história maior. Tentei fazer algo que funcionasse nesse espaço, então dividi o máximo de quadros que consegui e fui desenhando pequenininho lá dentro”

“Não sei como cheguei nessas cores do quadrinho, eu só fui fazendo. Na verdade eu não tenho nenhum processo consciente de cor. Vou testando até achar que ficou bonito. Como era tudo digital, eu cheguei a testar algumas cores, fui mexendo nas poucas ferramentas que conheço no Photoshop pra tentar dar essa uniformidade”

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“O primeiro quadrinho do Jason que eu li foi Werewolves of Montpellier, esse livro tem uma coisa de quebrar o tempo da narrativa que eu acho do caralho. O Jason dá umas quebras no tempo sem nenhum pudor. Ele corta a história e vai pro outro quadro, tudo num ritmo muito diferente do que eu estou acostumado. Uma coisa que eu pensei enquanto fazia o postal era tentar emular esse tipo de narrativa cortada: do super-herói lutando contra alguém, depois contra outro vilão, aí a mulher dele tá grávida, ela vai embora… Eu tentei investir nessa sequência mais rápida e o Jason foi uma das maiores influências pra esse quadrinho”

HQ

Série Postal 2018: a HQ produzida por Raquel Vitorelo para a coleção

Aqui está o trabalho da quadrinista Raquel Vitorelo para a segunda edição da Série Postal 2018. O quadrinho será lançado amanhã (19/4), na loja da Ugra aqui em São Paulo (Rua Augusta, 1371, loja 116), com um bate-papo mediado pelo jornalista Carlos Neto seguido por uma sessão de autógrafos. Vai ser massa, viu? Você confere outras informações sobre o lançamento lá na página do evento no Facebook.

A Série Postal 2018 teve sua primeira edição lançada no mês de março, com um trabalho do quadrinista Alexandre Lourenço. As 12 edições prévias do projeto foram assinadas por Mariana Paraizo, Jão, Felipe Nunes, Daniel Lopes, Paula Puiupo, Manzanna, Felipe Portugal, Bárbara Malagoli, Bianca Pinheiro, Taís Koshino, Pedro Cobiaco e Pedro Franz.

HQ / Matérias

“Arregaram em prol de argumentos acefálicos de pessoas com níveis intelectuais baixíssimos, cederam à opressão”, diz Gidalti Jr sobre a censura à capa de Castanha do Pará

Eu escrevi para o jornal O Globo sobre a censura da obra do quadrinista Gidalti Jr. em uma exposição de quadrinhos realizada no Parque Shopping de Belém. A arte censurada pelos organizadores da mostra estampa a capa de Castanha do Pará, primeira HQ do autor e obra vencedora do prêmio Jabuti na categoria Histórias em Quadrinhos em 2017, a arte apresenta o protagonista do álbum sendo perseguido por um policial com o cassetete em riste durante uma perseguição no Mercado Ver-o-Peso.

Conversei com Gidalti Jr, com o curador da exposição e com os assessores do shopping – que se limitaram a confirmar a continuidade da exposição até o dia 30 de abril. Você confere a minha matéria clicando aqui. A seguir, aspas do artista vítima da censura:

“Eu não sei se partiu da curadoria da exposição ou do shopping, mas os responsáveis arregaram. A arte é perfeitamente aceitável em um espaço público, mas mesmo que fosse provocativa, essa decisão seria obscurantista. Arregaram em prol de argumentos acefálicos de pessoas com níveis intelectuais baixíssimos, cederam à opressão”, Gidalti Jr sobre a censura à arte da capa de Castanha do Pará.