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Posts por data janeiro 2020

Entrevistas / HQ

Papo com Thiago Borges, editor da revista Banda: “Pegamos O Pasquim como ponto de partida para chegar a questões políticas contemporâneas”

Está marcado para as 16h de sábado (01/02), na loja Ugra, em São Paulo, o lançamento do segundo número da revista Banda. Você confere outras informações sobre o evento na página do lançamento no Facebook. Após tratar dos clássicos das HQs nacionais em sua edição de estreia, a publicação agora tem como tema “HQ, política e liberdade de expressão” e celebrando os 50 anos recém-completados do lançamento do jornal O Pasquim.

Editada pelo jornalista Thiago Borges (editor do blog O Quadro e o Risco) a Banda conta com uma equipe fixa formada pelo designer Douglas Utescher (sócio-proprietário da Ugra) e pelos jornalistas Carlos Neto (editor do Papo Zine) e Gustavo Nogueira (editor do Êxodo). Os colaboradores desse segundo número são a designer, fotógrafa e escritora Alê Meira; as quadrinistas Aline Lemos e Aline Zouvi; o editor Rogério de Campos; e o quadrinista Diego Gerlach, responsável pela capa da publicação.

Bati um papo com Thiago Borges sobre a produção desse segundo número da Banda. Ele falou do aniversário do Pasquim como ponto de partida para o tema da publicação, comentou como a campanha “quadrinhos sem política” impulsionou algumas das reflexões propostas pela revista, expôs um pouco dos temas tratados nesse segundo número e adiantou o tema da terceira edição da revista: eventos de quadrinhos. Saca só:

(OBS. 1: Você relê a minha entrevista Thiago Borges sobre a primeira edição da Banda clicando aqui. OBS. 2: Como já foi noticiado aqui no blog, fui um dos colaboradores da Banda #1)

“Quem confunde antifascismo com ideologia provavelmente é analfabeto político – ou mau caráter”

A segunda edição da revista Banda tem lançamento marcado para o dia 1º de fevereiro, em São Paulo

Por que tratar de política nessa segunda edição da Banda?

O tema nasceu lá atrás, antes de lançarmos a campanha no Catarse pra #1. 2019 marcou o aniversário de cinquenta anos do nascimento de O Pasquim, o maior ícone da contracultura e do jornalismo alternativo nacionais. Então, era meio que uma “obrigação” falar disso de alguma forma. E O Pasquim foi um símbolo do engajamento político contra a ditadura e a favor da liberdade de expressão. Portanto, as matérias deveriam focar em questões como censura, produção em períodos de intolerância etc. Curioso que, conforme os meses foram passando e a gente começou a escrever essas reportagens para a #2, vários assuntos surgiram pra dar mais força ainda a esse tema: a tentativa de censura do prefeito do Rio de Janeiro contra um simples beijo gay num gibi dos Vingadores durante a Bienal do Livro, a absurda campanha “Quadrinhos Sem Política”, surgida pra bater de frente com o movimento “Quadrinistas Antifascistas” e outros. Vale ressaltar, né: quem confunde antifascismo com ideologia provavelmente é analfabeto político – ou mau caráter.

Às vésperas do lançamento desse segundo número, qual avaliação você faz do debate político na cena brasileira de quadrinhos?

Acho um debate bem limitado, assim como o debate político brasileiro em geral, preso a um “nós contra eles” que parece não terminar nunca. O grande problema é: como falar desse assunto sem cair em acusações, mesmo dentro dos quadrinhos? Os artistas do campo progressista, com trabalhos mais atuantes na questão política, parecem falar para convertidos. E isso nem deve ser culpa deles, mas reflexo das bolhas em que cada pessoa está metida e não faz questão de sair. Por exemplo, se alguém tem convicção que debater racismo, abuso sexual e homofobia é coisa de “comunista”, como fazê-lo enxergar o mundo com outros olhos? Aí está o entrave disso tudo: fazer as ideias circularem, como Laerte comenta na matéria escrita pelo Carlos Neto, mas também fazer com que sejam minimamente entendidas pelos leitores. Sem isso, a população (e quem lê quadrinhos) continuará interessada em política, só que da forma mais superficial possível.

“Se alguém tem convicção que debater racismo, abuso sexual e homofobia é coisa de ‘comunista’, como fazê-lo enxergar o mundo com outros olhos?

Thiago Borges e Aline Zouvi entrevistaram Cecília Alves Pinto, a Ciça, para a segunda edição da revista Banda

Imagino que “política” seja um universo mais abrangente que “clássicos”, tema da primeira edição. Qual foi o principal desafio para fechar as pautas desse segundo número?

Foi realmente encontrar assuntos relevantes atuais sobre a relação entre gibis e política. Não queríamos focar em coisas manjadas desse tema, como Watchmen, V de Vingança etc. A ideia era pensar a respeito de um ponto de vista brasileiro, pegando O Pasquim como ponto de partida para chegar a questões contemporâneas, como as tentativas recentes de censura por aqui, a interação com leitores facilitada pela internet (e também o ódio propagado contra artistas), a tendência cada vez mais reacionária da tal “cultura nerd”… Por isso mesmo, a entrevista com a Ciça é muito importante. Mostra quem esteve lá, contra a opressão da ditadura, fazendo humor gráfico em prol da liberdade de expressão.

Uma das suas pautas nessa segunda edição trata da relação do Mauricio de Sousa e da Turma da Mônica com a realidade sócio-política brasileira. O que você pode adiantar sobre essa matéria?

Ficou uma matéria bem interessante (e falo isso não só porque eu a escrevi hahaha), e bem longe de abordar o tema com um teor polemista. Não dava pra falar de “quadrinhos, política e liberdade de expressão” sem citar Maurício ou a Turma, dois patrimônios da cultura nacional. Por isso, analisamos como criador e criatura abordam essa realidade do Brasil, com todas as contradições inerentes.

“Diego Gerlach é um de nossos maiores criadores, e ter um trabalho dele em nossa revista é algo inacreditável

Matéria do jornalista Gustavo Nogueira para a segunda edição da revista Banda

Assim como no primeiro número, com o trabalho da Mariana Waechter, vocês acertaram muito bem na capa dessa segunda edição, assinada pelo Diego Gerlach. Quais foram as instruções que vocês passaram para ele quando encomendaram esse trabalho?

A gente tenta deixar o artista escolhido pra capa o mais livre possível. Nas duas vezes, mostramos a pauta com a relação das reportagens. O Gerlach deu mais sorte, pois quase todas as matérias estavam prontas a tempo de lê-las antes de finalizar o desenho. E acho que ele pegou o espírito certeiro do conteúdo. A imagem meio que é um quadrinho em si, pois tem uma história contada ali, e isso só a deixou ainda mais potente. Sou grande fã do Gerlach, pra mim é um de nossos maiores criadores, e ter um trabalho dele em nossa revista é algo inacreditável.

“Nossa intenção nunca é esgotar determinado tema, mas, sim, analisá-lo sob diferentes ângulos”

A equipe da revista Banda: Carlos Neto, Douglas Utescher, Gustavo Nogueira e Thiago Borges

Quais foram as principais lições que vocês tiraram do primeiro número da Banda e aplicaram nessa segunda edição?

Ainda estamos aprendendo a fazer a revista. Falta arrumar algumas coisas no processo aqui e ali, mas tudo bem, isso virá com o tempo. A Banda não é nosso ganha pão (isso se algum dia ganharmos dinheiro com ela hehehe), porém queremos sempre deixá-la cada vez melhor e mais profissional. A maior lição da #1, que seguiremos em todas as edições, é fazer com que as reportagens tenham uma sequência lógica, um fio condutor pra deixar tudo amarrado e fazer com que o tema faça sentido na hora de ler. Lembrando que nossa intenção nunca é esgotar determinado tema, mas, sim, analisá-lo sob diferentes ângulos.

Como estão os preparativos para a terceira edição da Banda? Em que pé está a produção desse próximo número?

Posso adiantar com exclusividade que o tema da #3 será “eventos de quadrinhos”. Uma das principais matérias, sobre a CCXP, já está apurada, obviamente. Teremos outras bem bacanas também, mas ainda dependemos de algumas confirmações. A pauta está quase 100% fechada.

A capa da segunda edição da revista Banda, com arte do quadrinista Diego Gerlach
HQ / Matérias

Wagner Willian e a relação entre o ser humano e a natureza em Silvestre

Escrevi para o jornal Folha de São Paulo uma crítica sobre Silvestre, trabalho do quadrinista Wagner Willian publicado pela DarkSide Books. O livro é a obra mais recente de uma leva anual de publicações impactantes do autor, iniciada em 2016 com Bulldogma e continuada com O Maestro, O Cuco e A Lenda (2017) e O Martírio de Joana Dark Side (2018).

Silvestre narra a aventura derradeira de um caçador. Ele rememora aquela que teria sido sua grande caça e vê sua cabana sendo visitada por entidades místicas que habitam a flora e a fauna de diversos contos, lendas e fábulas. Como escrevo no texto para a Folha, Willian é um virtuoso e Silvestre uma das principais HQs de 2019.

A capa de Silvestre, HQ de Wagner Willian publicada pela editora DarkSide Books
Entrevistas / HQ

Papo com Guilherme Kroll, editor da Balão Editorial: “O que me surpreende no mercado de HQs é uma falta de coesão maior para resolver problemas comuns”

A Balão Editorial completou 10 anos de existência no último sábado, dia 25 de janeiro de 2020. A editora foi criada por Flavia Yacubian, Guilherme Kroll e Natalia Tudrey em um momento de agitação singular na história recente das HQs brasileiras. É contemporânea do ProAc, edital fundamental para a publicação de alguns dos principais títulos nacionais lançados nos últimos anos; viu a ascensão do Catarse como principal plataforma de financiamento de publicações independentes do país; e estava em seu quarto ano quando ocorreu a primeira Comic Con Experience.

Durante esses 10 anos a Balão ganhou o troféu HQ Mix na categoria Edição Especial Estrangeira em 2014 pelo livro Pobre Marinheiro, de Sammy Harkham, e contribuiu para a vitória de Felipe Nunes na categoria Novo Talento Desenhista em 2015, ao publicar Klaus. Também em 2015, Lobisomem Sem Barba, de Wagner Willian, ficou no segundo lugar da categoria Ilustração do Prêmio Jabuti. Em 2019 a editora publicou o quarto número da série Hell No!, de Leo Finocchi, e Clean Break, de Felipe Nunes.

Assim como fiz no início de 2019, volto a entrevistar o editor Guilherme Kroll nas primeiras semanas do ano recém-iniciado. Ele fez um balanço sobre o as atividades da Balão Editorial em 2019, refletiu sobre os 10 primeiros anos de publicações da editora e adiantou um dos lançamento com o selo da Balão em 2020 – Aquarela, de André Bernardino e Vitor Flynn. A seguir, papo com Guilherme Kroll:

(OBS. #1: a arte que abre o post é de Clean Break, de Felipe Nunes; OBS. #2: como já foi amplamente noticiado aqui no blog, em 2018, trabalhei em parceria com a Balão Editorial na edição do álbum Por muito tempo tentei me convencer de que te amava, de Thiago Souto).

“Sinto uma tremenda desunião no nosso meio no último ano”

Arte de Leo Finocchi para Hell No!, um dos álbuns publicados pela Balão Editorial em 2019

Qual balanço você faz do 2019 da Balão Editorial? Qual foi a maior surpresa da editora em relação ao mercado brasileiro de quadrinhos no ano passado?

Ano passado foi muito positivo em alguns sentidos, os livros de 2018 engrenaram mesmo em 2019 e os de 2019 foram bem no fim do ano. Lançamos nosso maior livro de quadrinhos até agora, Clean Break, e o resultado foi bem legal. O que me surpreende no mercado de quadrinhos é uma falta de coesão maior para resolver problemas comuns. Sinto uma tremenda desunião no nosso meio no último ano.

Há uma crise no mercado editorial brasileiro e na realidade econômica nacional. Vocês inclusive publicaram menos títulos em 2019 do que e 2018. Quais são as perspectivas da Balão Editorial para 2020?

Publicamos mais em 2018, mas pretendemos publicar mais em 2020. Hoje em dia, dependemos muito de ferramentas como o Catarse e o Proac para publicar nossos livros e vamos atrás cada vez mais de financiamento dessa forma.

“A grande revolução acontecendo nos nossos quadrinhos é a questão da representatividade”

Página de Clean Break, álbum de Felipe Nunes publicado pela Balão Editorial

Um dos grandes lançamentos da Balão Editorial e do mercado brasileiro de HQs em 2019 foi o Clean Break, do Felipe Nunes. Qual foi o retorno que vocês tiveram do público em relação a essa obra?

O público tem dado feedback positivo. O livro é grande e complexo, muitas vezes demanda mais de uma leitura, então imagino que muita gente ainda sequer terminou de ler. Ainda aguardo mais opiniões.

Em 2020 a Balão Editorial completa 10 anos de atividades. Qual a maior diferença que você entre o mercado brasileiro de quadrinhos em 2010 e em 2020?

Tem três grandes mudanças, todas em relação a uma mudança do status dos quadrinhos frente a sociedade. A primeira é o Proac. Ele surgiu exatamente no começo dos anos 2010 e todos os anos ajuda a financiar dezenas de HQs. Muitos gibis ousados ganharam a luz do dia por conta disso, como, por exemplo, Angola Janga, o maior quadrinhos brasileiros dos últimos tempo. Em 2011 surgiu o Catarse, que também vem ajudando muitos gibis a conseguirem sair do papel. O terceiro é a CCXP, que apareceu na segunda metade da década. Um evento que ajuda a vender gibis como nunca, todos os anos e sempre cheio de público. Isso tudo ajudou muito a mudar o cenário nesses 10 anos.

“Temos muita coisa em mente para 2020”

Arte do quadrinista Thiago Souto em homenagem aos 10 anos da Balão Editorial

O que você vê de mais interessante sendo feito nas HQs brasileiras hoje?

Se pensarmos em história registrada da humanidade, temos aí uns 7 ou 8 mil anos de narrativas. Quadrinhos em si, temos do jeito como conhecemos há um século e meio. É muito difícil ser 100% original ou diferente quando se está no topo de tudo isso. Posto isso, acho que a grande revolução acontecendo nos nossos quadrinhos é a questão da representatividade. Temos gente que não conseguia se manifestar antes conquistando sua voz e os quadrinhos refletem isso.

O que os leitores podem esperar do catálogo da Balão Editorial em 2020? Há algum título ou autor que vocês já podem adiantar que sairá por vocês nos próximos meses?

Temos muita coisa em mente para 2020, mas posso adiantar que já está no prelo Aquarela, do André Bernardino e do Vitor Flynn

Desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que é a nossa sociedade hoje. Qual você considera o papel de um editora como a Balão Editorial dentro desse contexto?

É muito difícil combater toda uma estrutura de poder sendo uma editora minúscula. Nossa forma de negar as ideias perpetradas pelo presidente é expor as nossas por meio das nossas publicações. Acho que Clean Break tem uma forte mensagem a respeito da sociedade contemporânea, por exemplo.

A capa de Hell No! #4, obra de Leo Finocchi publicada pela Balão Editorial em 2019
HQ / Matérias

Sarjeta #4: Festivais de HQs, ComiXology e quadrinistas contra a Amazon

Está no ar a quarta edição da Sarjeta, minha coluna mensal sobre quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. Escrevi dessa vez sobre aquele que considero um dos grandes acontecimentos de 2019 nos quadrinhos mundiais: o protesto de quadrinistas norte-americanos contra o patrocínio da Amazon em festivais de HQs por meio da plataforma ComiXology.

Falei um pouco sobre a dinâmica de funcionamento da ComiXology, sobre alguns dos principais argumentos da carta assinada pelos quadrinistas e sobre a presença crescente da Amazon no Brasil – e também tratei da possível chegada da ComiXology ao país em um futuro próximo. Fechei a coluna com uma entrevista com o quadrinista Rogi Silva, autor de Pedra Pome e Não Tenho uma Arma.

Você lê a quarta Sarjeta clicando no link a seguir: Sarjeta #4: Protesto de quadrinistas contra gigante digital marcou o 2019 das HQs nos EUA. Na imagem que abre o post, arte do quadrinista Michael DeForge, um dos autores da carta assinada por artistas norte-americanas e endereçada aos festivais de quadrinhos. Reproduzo a seguir a íntegra da versão traduzida da carta:

Uma Carta Aberta aos Festivais de Quadrinhos

Esta é uma carta de artistas, escritores, editores, voluntários, trabalhadores e outros membros da comunidade de quadrinhos que exigem que os festivais deixem de aceitar dinheiro de patrocínio da ComiXology, subsidiária da Amazon. A ComiXology, plataforma de distribuição digital e de venda de quadrinhos, foi comprada pela Amazon em 2014. O patrocínio da ComiXology / Amazon à Small Press Expo (SPX), em Bethesda, resultou em controvérsias e questionamentos públicos em 2018, assim como o patrocínio a vários outros festivais de quadrinhos, incluindo o Toronto Comics Art Festival (TCAF), o Cartoon Crossroads Columbus (CXC) e o Thought Bubble. É louvável que o TCAF não liste mais a ComiXology como parceira em seu site, mas o relacionamento entre a empresa e outros festivais permanece obscuro.

A SPX, uma organização sem fins lucrativos, também atua como angariadora de fundos para o Comic Book Legal Defense Fund (CBLDF). O CEO e co-fundador da ComiXology, David Steinberger, ingressou no conselho de administração da CBLDF em junho de 2019.

Os horríveis abusos trabalhistas da Amazon estão bem documentados. A empresa sujeita seus funcionários a condições de trabalho desumanas (exemplo 1exemplo 2exemplo 3) e suprime regularmente seus esforços de sindicalização (exemplo 1). Além disso, a presença física da empresa devasta comunidades, bairros e cidades que ocupa, deixando para trás um legado de remoções que afeta desproporcionalmente comunidades marginalizadas (exemplo 1exemplo 2).

A Amazon também hospeda a Palantir, a empresa de tecnologia que fornece informações sobre imigrantes e autoridades alfandegárias (ICE) sobre pessoas sem documentos, a fim de prendê-las e detê-las, e que está implicada na vigilância de organizadores e ativistas sindicais. Grupos de direitos dos imigrantes, como Mijente, Cosecha e Never Again Action, estiveram na linha de frente para documentar e protestar contra o vínculo entre a Amazon e a ICE. Em 14 de agosto de 2019, um agente da ICE dirigiu um caminhão contra uma multidão de manifestantes do lado de fora do Wyatt Detention Center em Rhode Island. Cartunistas locais estavam entre os manifestantes cujas vidas foram ameaçadas. A SPX se orgulha de sua lista de artistas internacionais, o que torna a parceria com uma corporação que se beneficia do encarceramento de migrantes ainda mais inconcebível.

A arte não é apolítica e os trabalhadores da arte não recebem neutralidade especial como espectadores inocentes. Devemos examinar as maneiras pelas quais a Amazon usa patrocínios para camuflar sua exploração brutal de trabalhadores e os efeitos desastrosos que ela tem nas cidades em que se instala. Devemos examinar nossa culpabilidade em um sistema que imponha e lucre com o tratamento violento e desumano com imigrantes; um sistema de operações de ataque aéreo e campos de concentração que separa famílias e assassinatos de crianças e adultos por negligência. Quando pegamos dinheiro da Amazon e olhamos para o outro lado, estamos permitindo que essas ações aconteçam com o nosso silêncio.

Os quadrinhos e o método ‘faça você mesmo’ das pequenas publicações promoveram uma cultura longa e histórica de independência. Quadrinistas independentes trabalharam para criar comunidades acolhedoras de todas as vozes, especialmente as que estão à margem. A Amazon procura se proteger dentro de nossas comunidades, comprando tanto o comércio quanto a cultura de nosso meio

Depois de uma rodada renovada de objeções públicas à parceria com a ComiXology em agosto, a SPX discretamente removeu qualquer menção da empresa de seu site e a deixou como patrocinadora. Aplaudimos o SPX e seus organizadores por ouvirem essas preocupações e estarem dispostos a trabalhar com a comunidade de quadrinhos para considerar fontes alternativas de financiamento. Pedimos que eles façam uma declaração pública anunciando sua decisão e se comprometam a recusar o dinheiro da Amazon daqui em diante.

Além disso, pretendemos aproveitar esse momento e exigir de todos os festivais de quadrinhos:
-O rompimento total dos laços da Amazon / ComiXology, incluindo os contínuos patrocínios da empresa à CXC e à Thought Bubble.
-Promessa pública de não aceitar futuras parcerias com a Amazon / Comixology.
-Transparência total em relação a patrocínios e alocação de dinheiro. Os artistas devem poder contribuir e tomar decisões informadas sobre o que implica a nossa participação em qualquer festival.

Isso não é uma incriminação a nenhum dos festivais mencionados nesta carta, nem aos seus organizadores. As conexões e o suporte oferecidos por esses espaços raramente foram tão vitais. Os quadrinhos não são uma indústria lucrativa, mas não podemos permitir que a Amazon explore nossa precariedade e instabilidade para comprar nosso silêncio. Quando contribuímos com nosso dinheiro, tempo e trabalho para esses festivais, merecemos saber como eles estão sendo usados e de onde vem o dinheiro do patrocínio dos festivais. Assinamos esta carta para registrar nossa dissidência, exigir mais de nossas instituições e mostrar nossa solidariedade com os esforços de organização liderados por grupos de direitos de imigrantes locais e nacionais.

Os quadrinhos sempre souberam como se virar por conta própria. Não aceitaremos o dinheiro deles em detrimento aos vizinhos, às nossas famílias, às nossas comunidades, aos nossos empregos e a nós mesmos.

HQ

Society, por Emil Ferris

Ainda tô fechando a minha lista de melhores lançamentos de 2019 no Brasil pro Grampo 2020, mas Minha Coisa Favorita É Monstro, da Emil Ferris, tá ali entre os dois ou três primeiros. Tem erro não, HQ que já nasceu clássica e das coisas mais impactantes que já li.

Enfim, tava ali no Twitter e vi a Emil Ferris divulgando essa capa aqui em cima, assinada por ela para o número mais recente da revista francesa Society, em edição especial dedicada às histórias em quadrinhos. Coisa linda, cara. Você vê o tuíte da Emil Ferris clicando aqui.

E pra quem não leu, tá aqui o link da minha matéria sobre o Minha Coisa é Favorita é Monstro para a Folha de São Paulo e aqui o link da minha entrevista com a Emil Ferris pro blog.

HQ / Matérias

Eles Nos Chamavam de Inimigo e a infância de George Takei em campos de concentração nos EUA

Escrevi para o jornal Folha de São Paulo uma crítica sobre Eles Nos Chamavam de Inimigo, álbum com roteiro de George Takei, Justin Eisinger e Steven Scott e arte de Harmony Becker. Publicado em português pela editora Devir, o quadrinho é focado na infância de Takei, hoje aos 82 anos e famoso por interpretar o personagem Hikaru Sulu, membro da tripulação da USS Enterprise na série Star Trek. 

A HQ é ambientada durante a Segunda Guerra Mundial e centrada no período em que Takei, seus pais e seus irmãos foram expulsos da casa em que moravam em Los Angeles e foram levados para campos de concentração espalhados pelos EUA que chegaram a abrigar mais de 120 mil pessoas de etnia japonesa durante o conflito bélico. Você lê o meu texto clicando aqui.

A capa da edição brasileira de Eles Nos Chamavam de Inimigo, publicada pela editora Devir