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Papo com Guilherme Kroll, editor da Balão Editorial: “O que me surpreende no mercado de HQs é uma falta de coesão maior para resolver problemas comuns”

A Balão Editorial completou 10 anos de existência no último sábado, dia 25 de janeiro de 2020. A editora foi criada por Flavia Yacubian, Guilherme Kroll e Natalia Tudrey em um momento de agitação singular na história recente das HQs brasileiras. É contemporânea do ProAc, edital fundamental para a publicação de alguns dos principais títulos nacionais lançados nos últimos anos; viu a ascensão do Catarse como principal plataforma de financiamento de publicações independentes do país; e estava em seu quarto ano quando ocorreu a primeira Comic Con Experience.

Durante esses 10 anos a Balão ganhou o troféu HQ Mix na categoria Edição Especial Estrangeira em 2014 pelo livro Pobre Marinheiro, de Sammy Harkham, e contribuiu para a vitória de Felipe Nunes na categoria Novo Talento Desenhista em 2015, ao publicar Klaus. Também em 2015, Lobisomem Sem Barba, de Wagner Willian, ficou no segundo lugar da categoria Ilustração do Prêmio Jabuti. Em 2019 a editora publicou o quarto número da série Hell No!, de Leo Finocchi, e Clean Break, de Felipe Nunes.

Assim como fiz no início de 2019, volto a entrevistar o editor Guilherme Kroll nas primeiras semanas do ano recém-iniciado. Ele fez um balanço sobre o as atividades da Balão Editorial em 2019, refletiu sobre os 10 primeiros anos de publicações da editora e adiantou um dos lançamento com o selo da Balão em 2020 – Aquarela, de André Bernardino e Vitor Flynn. A seguir, papo com Guilherme Kroll:

(OBS. #1: a arte que abre o post é de Clean Break, de Felipe Nunes; OBS. #2: como já foi amplamente noticiado aqui no blog, em 2018, trabalhei em parceria com a Balão Editorial na edição do álbum Por muito tempo tentei me convencer de que te amava, de Thiago Souto).

“Sinto uma tremenda desunião no nosso meio no último ano”

Arte de Leo Finocchi para Hell No!, um dos álbuns publicados pela Balão Editorial em 2019

Qual balanço você faz do 2019 da Balão Editorial? Qual foi a maior surpresa da editora em relação ao mercado brasileiro de quadrinhos no ano passado?

Ano passado foi muito positivo em alguns sentidos, os livros de 2018 engrenaram mesmo em 2019 e os de 2019 foram bem no fim do ano. Lançamos nosso maior livro de quadrinhos até agora, Clean Break, e o resultado foi bem legal. O que me surpreende no mercado de quadrinhos é uma falta de coesão maior para resolver problemas comuns. Sinto uma tremenda desunião no nosso meio no último ano.

Há uma crise no mercado editorial brasileiro e na realidade econômica nacional. Vocês inclusive publicaram menos títulos em 2019 do que e 2018. Quais são as perspectivas da Balão Editorial para 2020?

Publicamos mais em 2018, mas pretendemos publicar mais em 2020. Hoje em dia, dependemos muito de ferramentas como o Catarse e o Proac para publicar nossos livros e vamos atrás cada vez mais de financiamento dessa forma.

“A grande revolução acontecendo nos nossos quadrinhos é a questão da representatividade”

Página de Clean Break, álbum de Felipe Nunes publicado pela Balão Editorial

Um dos grandes lançamentos da Balão Editorial e do mercado brasileiro de HQs em 2019 foi o Clean Break, do Felipe Nunes. Qual foi o retorno que vocês tiveram do público em relação a essa obra?

O público tem dado feedback positivo. O livro é grande e complexo, muitas vezes demanda mais de uma leitura, então imagino que muita gente ainda sequer terminou de ler. Ainda aguardo mais opiniões.

Em 2020 a Balão Editorial completa 10 anos de atividades. Qual a maior diferença que você entre o mercado brasileiro de quadrinhos em 2010 e em 2020?

Tem três grandes mudanças, todas em relação a uma mudança do status dos quadrinhos frente a sociedade. A primeira é o Proac. Ele surgiu exatamente no começo dos anos 2010 e todos os anos ajuda a financiar dezenas de HQs. Muitos gibis ousados ganharam a luz do dia por conta disso, como, por exemplo, Angola Janga, o maior quadrinhos brasileiros dos últimos tempo. Em 2011 surgiu o Catarse, que também vem ajudando muitos gibis a conseguirem sair do papel. O terceiro é a CCXP, que apareceu na segunda metade da década. Um evento que ajuda a vender gibis como nunca, todos os anos e sempre cheio de público. Isso tudo ajudou muito a mudar o cenário nesses 10 anos.

“Temos muita coisa em mente para 2020”

Arte do quadrinista Thiago Souto em homenagem aos 10 anos da Balão Editorial

O que você vê de mais interessante sendo feito nas HQs brasileiras hoje?

Se pensarmos em história registrada da humanidade, temos aí uns 7 ou 8 mil anos de narrativas. Quadrinhos em si, temos do jeito como conhecemos há um século e meio. É muito difícil ser 100% original ou diferente quando se está no topo de tudo isso. Posto isso, acho que a grande revolução acontecendo nos nossos quadrinhos é a questão da representatividade. Temos gente que não conseguia se manifestar antes conquistando sua voz e os quadrinhos refletem isso.

O que os leitores podem esperar do catálogo da Balão Editorial em 2020? Há algum título ou autor que vocês já podem adiantar que sairá por vocês nos próximos meses?

Temos muita coisa em mente para 2020, mas posso adiantar que já está no prelo Aquarela, do André Bernardino e do Vitor Flynn

Desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que é a nossa sociedade hoje. Qual você considera o papel de um editora como a Balão Editorial dentro desse contexto?

É muito difícil combater toda uma estrutura de poder sendo uma editora minúscula. Nossa forma de negar as ideias perpetradas pelo presidente é expor as nossas por meio das nossas publicações. Acho que Clean Break tem uma forte mensagem a respeito da sociedade contemporânea, por exemplo.

A capa de Hell No! #4, obra de Leo Finocchi publicada pela Balão Editorial em 2019

1 comentário Papo com Guilherme Kroll, editor da Balão Editorial: “O que me surpreende no mercado de HQs é uma falta de coesão maior para resolver problemas comuns”

  1. Barbara

    O post de ontem vem de encontro com esse…

    Acredito que minha maior tristeza no tempo que tentei tocar uma livraria foi justamente a desunião dentro deste universo dos livros. O discurso muitas vezes é antagônico a ação.

    Por mais que eu saiba bem o mundo que habito, não deixei de nutrir uma (falsa) esperança de que com os livros as coisas seriam (um pouco) diferentes.

    Dito isso, posso afirmar que o Guilherme foi a única pessoa dentro deste mercado que me ofereceu – sem nenhum pedido prévio – algum tipo de ajuda.

    Que a Balão possa seguir por muitos anos e que em seu caminho possa encontrar mais união. Que a construção de alternativas seja nosso horizonte.

    Abraços em vocês dois!

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