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Posts por data maio 2021

Entrevistas / HQ

Papo com Paulo Floro, coeditor da revista Plaf: “Existe um desejo legítimo de editores e público de fortalecer a relação entre os quadrinhos latino-americanos”

A quinta edição da revista Plaf está impressa. Uma das principais publicações de jornalismo sobre quadrinhos do país, a revista tem como foco em seu mais recente número a rodução latino-americana de HQs. A arte da capa é do quadrinista Rogi Silva, autor de Pumii do Vulcão, Não Tenho Uma Arma, Aterro, Mergulhão, Planta e Pedra Pome. Assim como fiz na época do lançamentos dos quatro números prévios, voltei a conversar com um dos editores da Plaf para tratar da produção e do conteúdo dessa nova edição.

O papo dessa vez foi com o jornalista Paulo Floro, coeditor da revista junto com Dandara Palankof e Carol Ameida e editor do site Revista O Grito (casa virtual da Plaf). Ele falou sobre a dificuldade de produzir esse quinto número em meio à pandemia do novo coronavírus, expôs algumas de suas reflexões sobre quadrinhos latino-americanos e adiantou um pouco sobre o andamento da sexta edição da Plaf.

Além de HQs inéditas de Rogi Silva, Puiupo, Jessica Groke, Talles Molina e Jarbas, a Plaf #5 ainda apresenta resenhas, entrevista com a quadrinista equatoriana-colombiana Powerpaola, matéria sobre a ida de Will Eisner a Recife para o Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de 2001 e um perfil da letrista Lilian Mitsunaga. Confira a seguir a minha conversa com Paulo Floro, um dos editores da Plaf:

“A revista está permeada pela memória de um mundo em transição”

Trecho da HQ de Jéssica Groke publicada na quinta edição da revista Plaf (Divulgação)

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a produção desse quinto número da Plaf?

Valeu demais por perguntar! Então, eu estou vivendo uma montanha-russa de emoções como a grande maioria das pessoas. Reflete muito essa falta de perspectiva sobre a saída dessa situação, a depressão que é esse desgoverno irresponsável, a falta de empatia das pessoas, a banalização da morte. Mas, na real me sinto realmente sortudo, pois todos na família estão bem de saúde, isolados e protegidos na medida do possível. Mas tem momentos que é difícil, sobretudo com crianças pequenas em casa, isoladas e angustiadas. É bem mais complicado com crianças, mas estamos felizes de estarmos em segurança.

A Plaf 5 demorou muito mais tempo pra fechar por conta da pandemia, pois demoramos a ajustar as dinâmicas da nossa vida à edição da revista. Além disso, a gráfica que contratamos passou um longo período parada ou em um ritmo menor por conta dos decretos de restrições à Covid-19 aqui no Estado. Enfim, foi um desafio, mas estamos bem felizes com o resultado.

Imagino que cada edição da revista tenha suas peculiaridades e desafios específicos. Você destaca ou chama atenção para alguma experiência específica relativa a esse quinto número da revista?

Essa edição foi cercada de expectativa, pois quando começamos a editá-la tínhamos a ideia de levar ao FIQ e à Bienal de Quadrinhos, ambos cancelados por conta da pandemia. Nossa ideia era chegar nesses eventos com bastante força e por isso até imprimimos uma nova tiragem da primeira edição, que estava esgotada. O tempo todo ficávamos “será que tudo isso vai passar rápido”, etc, aquela indefinição seguida do choque de que tudo era bem mais sério do que imaginávamos. Então, a 5 é muito permeada por essa memória de um mundo em transição. Quando vi a edição saindo da gráfica bateu aquela emoção de ter conseguido finalizar algo, palpável, bonito, depois de um ano tão difícil.

“Encontramos mais elementos em comum do que divergências em relação à produção de HQs no continente”

As páginas de abertura da matéria de capa da quinta edição da revista Plaf (Divulgação)

A matéria principal dessa quinta Plaf trata de quadrinhos latino-americanos. Você chegou a alguma conclusão maior ou tirou alguma lição em particular referente às HQs latino-americanas ao escrever essa matéria? Você vê algum elemento em comum ou alguma unidade quando falamos de HQs latino-americanas?

Fazer essa reportagem foi muito difícil, mas ao mesmo tempo bem prazeroso. Além disso, gosto de fazer essas matérias a seis mãos (ao lado de Dandara Palankof e Carol Almeida, que editam a revista comigo). Nós partimos de uma pauta aparentemente simples – a “falta” de conexão entre as cenas de quadrinhos dos países latinos que falam espanhol e o Brasil – mas depois descobrimos que o assunto é bem mais complexo do que isso. Envolve questões históricas, editoriais e sociopolíticas que vão bem além da tal barreira linguística.

Encontramos bem mais elementos em comum do que divergências em relação à produção de quadrinhos no Continente e acredito que existe um desejo legítimo de editores e público de fortalecer essa relação. Dá pra perceber pelo aumento do número de lançamentos, o que reflete o amadurecimento do mercado, mas também pelo maior entendimento sobre nossa identidade e de nossos pontos em comum.

Página da HQ de Rogi Silva publicada na Plaf #5 (Divulgação)

Gostei muito da capa dessa quinta edição. Aliás, acho que o Rogi Silva tá numa fase especial. Por que chamá-lo para ilustrar essa capa? Qual foi a encomenda que vocês fizeram para ele para esse trabalho? O que você vê de mais especial na arte dele?

Somos fãs do trabalho de Rogi e nos dá um orgulho danado tê-lo na capa da Plaf em um momento tão especial da carreira dele. Sei que ele está produzindo uma HQ longa, ou seja, vem coisa muito boa dele por aí. Ficamos amigos de Rogi e já trabalhamos com ele em outros projetos: ele coassinou a HQ online “Gemini”, organizada pelo O Grito! e o Consulado da França no Recife durante uma residência em Nantes e as artes dos Melhores de 2020. Amo como a arte dele evoluiu para um traço mais fluido e experimental, que explora o componente espacial da linguagem dos quadrinhos. Mas é um artista muito versátil. Os gibis independentes dele que saíram em Pedra Pome são lindos e têm um roteiro afetivo e biográfico que conecta o leitor de uma maneira muito especial.

Como sempre fazemos com os artistas que assinam a capa apenas informamos a reportagem de capa da edição, mas sem entregar muitos detalhes. Já gostávamos do trabalho de Rogi, mas a ideia de chama-lo partiu muito da nossa vontade de trazer um artista pernambucano de destaque na nova cena de quadrinhos daqui. Quando ele nos mandou a proposta de capa ficamos maravilhados. Na real, sem falsa modéstia, gostamos muito de todas as capas da revista até agora, lindas.

“Acho importante fortalecer eventos que destacam a produção local”

Quadro da HQ de Talles Molina publicada na Plaf #5 (Divulgação)

Gostei muito da matéria sobre o Festival Internacional de Humor e Qquadrinhos. A última edição do festival foi em 2007, mas parece se tratar de algo de um passado ainda mais distante. Você vê possibilidade de um evento assim voltar em um futuro próximo pós-pandemia?

Em toda reunião para compor uma nova edição a gente sempre tenta buscar uma pauta que traga alguma história sobre a memória da cena de quadrinhos e essa vinda do Eisner ao Recife era algo que sempre atiçava nossa curiosidade. Hoje nos parece tão surreal ter um nome como Eisner no Recife, mas houve uma época em que o Brasil contava com vários eventos voltado para os quadrinhos mais, digamos, autorais e o FIHQ era um dos mais importantes. Fui em várias edições e o clima era muito bom, conheci muitos artistas incríveis. O modelo de negócios das comic cons ainda não tinha chegado por aqui.

Recife (e o Nordeste como um todo) é muito carente de eventos de quadrinhos, o que é uma pena pois temos muitos autores talentosos e sabemos da importância que esses espaços presenciais promovem para o fomento da produção e consumo. Existiam algumas movimentações para pensar em um evento, mas tudo entrou em pausa por conta da Covid. Acho super importante fortalecer esses eventos que destacam a produção local e olham para as HQs como um produto artístico, como o FIQ e a Bienal. Tem consumo também, mas a experiência desses encontros vai muito além disso. Acredito que depois da pandemia tenhamos que ampliar a articulação para um calendário consistente de eventos que envolva festivais e feiras no Nordeste e no Norte do país.

É um desafio enorme fazer jornalismo especializado em quadrinhos”

As duas primeiras páginas da entrevista com a quadrinista Powerpaola publicada na Plaf #5 (Divulgação)

Publicar qualquer coisa impressa no Brasil é cada vez mais difícil. Publicar uma revista de jornalismo sobre quadrinhos me parece ainda mais desafiador. A Plaf está chegando agora ao seu quinto número. Que balanço você faz desse projeto até aqui?

É um desafio enorme, mas ficamos felizes de ver a Plaf tão bem recebida. Tivemos vários contratempos nas quatro primeiras edições que reflete muito essa dificuldade de editar, produzir e distribuir a revista, mas acho que também aprendemos muito nesse processo. E avançamos em muita coisa: temos uma nova loja online, mais robusta e bonita e um novo site onde iremos publicar matérias dos números anteriores e alguns conteúdos exclusivos.

Estamos editando a 6 e 7, mas a 6 está bem adiantada, com capa e quadrinhos já editados. Queremos a partir de agora retomar o nosso plano inicial de ter quatro edições da Plaf ao ano.

Além disso, a Plaf segue como um dos carros-chefe da cobertura de quadrinhos do O Grito!. É um desafio enorme fazer jornalismo especializado em quadrinhos, mas acho que estamos em um momento excelente com colegas incríveis como o Balburdia, o Raio Laser, você aqui com o Vitralizado, sem falar de veteranos como o Universo HQ que seguem em uma fase excelente. Mas ainda há muito a avançar, como uma maior profissionalização, remuneração, etc, mas já avançamos bastante. É um papo que reeeende bastante, envolve muitas questões.

Quadro da HQ de Jarbas publicada na Plaf #5 (Divulgação)

Em que pé tá a produção da sexta edição da Plaf?

A maior parte das matérias estão prontas e em fase de revisão. A capa também – e é linda. É também de um nome novo da cena atual e que também está em um excelente momento da carreira, mas ainda não posso divulgar hehe. As HQs inéditas também. Acabamos de lançar a 5, mas já tô ansioso pra que o público veja a 6.

Última! Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Tenho assistido a muitos filmes, inclusive fazendo um esforço real de ver trabalhos que sempre ouvi falar ou dos quais conheço apenas a estética, como Drácula (1931), O Martírio de Joana Dark, etc. Vejo também muita coisa em família com as crianças, como Príncipe Dragão (excelente), She-Ra e todos do estúdio Ghibli. Também tenho revisto séries e filmes que gosto muito, como forma de dar um reset do excesso de informação. Já revi Community inteiro, Fleabag, Akira e agora estou vendo Parks and Recreation e Arquivo X hehe. De quadrinhos continuo lendo os lançamentos como prioridade, mas criei o hábito de fazer uma pilha com obras que quero reler ou que comprei e nunca li. Tem sido bem legal ter essa leitura mais demorada e desconectada de uma “agenda de trabalho”.

A capa da quinta edição da Plaf, com arte de Rogi Silva (Divulgação)

Entrevistas / HQ

Papo com Rafael Sica e Paulo Scott, autores de Meu Mundo Versus Marta: “As leituras distópicas de nossa realidade são incontornáveis”

Escrevi para o jornal Folha de S. Paulo uma crítica de Meu Mundo Versus Marta, parceria do quadrinista Rafael Sica com o escritor Paulo Scott publicada pela editora Companhia das Letras. Chamo atenção no meu texto para vários dos méritos da obra, uma das minhas leituras preferidas de 2021 até aqui, mas destaco principalmente o espetáculo narrativo em preto e branco de Sica e os paralelos da trama com o Brasil distópico de Jair Bolsonaro. Você lê a minha crítica clicando aqui.

Entrevistei os autores da obra há algumas semanas. A nossa conversa foi focada principalmente na dinâmica dos dois durante o desenvolvimento do quadrinho, mas eles também contaram sobre o início dessa parceria, comentaram alguns dos temas tratados na HQ e analisaram essas semelhanças entre o cenário do quadrinho com a atual realidade sócio-econômica-pandêmica do país. Leia a HQ, depois o meu texto e volte aqui em seguida para conferir essa conversa. Papo massa, saca só:

“O que fizemos não está nem próximo de uma relação roteirista e desenhista”

Quadro de Meu Mundo Versus Marta, parceria de Paulo Scott e Rafael Sica (Divulgação)

Tenho perguntado para todo mundo que entrevisto ao longo dos últimos meses: Como estão as coisas por aí? Como vocês estão lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a produção e a rotina de vocês?

Paulo Scott: Para quem escreve e trabalha em casa não há muita mudança de rotina. Penso, entretanto, que, havendo essa trágica justificativa para ficar trabalhando em casa em tempo integral, a pandemia, o confinamento exigido, facilitou o desenvolvimento de ideias e projetos que demandariam muito mais tempo e foco direcionado em condições de existência normal para acontecerem.

Rafael Sica: Quando começou a pandemia recém tínhamos lançado o livro Triste e foi impossível trabalhá-lo como gostaríamos. Minha produção não foi diretamente afetada pois trabalho em casa e de certa forma já é um tipo de isolamento. O livro Brasil, que desenhei e foi lançado durante a pandemia é um reflexo desse período e, nesse sentido da temática, afetou a produção.

O que vocês podem contar sobre o ponto de partida de Meu Mundo Versus Marta? Desde quando esse projeto está em desenvolvimento? Como teve início a parceria de vocês nesse livro?

Paulo Scott: Sou um fã confesso dos desenhistas e quadrinistas do meu tempo, da minha geração. Tenho trabalhos feitos em parceria com a Laerte, com o Fabio Zimbres – com ele criei o projeto Na TáBUA, que é só uma de nossas invenções –, Adão Iturrusgarai, Guazzelli entre outros e estou sempre atento aos novos. Entre os nomes geniais que apareceram no início deste século, não lembro de ter ficado tão impactado por outro como fiquei com o Rafael Sica, com o seu trabalho, sua singularidade, sua potência, sua inteligência.

A iniciativa foi minha. Procurei o Rafael, a quem fui apresentado pelo Fabio Zimbres, e disse que tinha escrito um roteiro de graphic novel para ele, um roteiro inspirado no trabalho dele, nas idiossincrasias dos desenhos e narrativas dele. Foi uma história que meio que surgiu pronta na minha cabeça, sem diálogos, dentro de um arco narrativo bem simples.

Ele foi muito generoso ao responder que gostaria de ler o que escrevi. E ainda mais generoso ao aceitar a proposta de parceria. Importante dizer que isso que chamo de roteiro nunca foi visto por mim como um roteiro tradicional, um roteiro escrito a ser cumprido por um quadrinista. Não. O que fiz foi apresentar ao Rafael Sica uma história escrita, uma ideia, minha para que, a partir dela, ele contasse a história dele.

Nesse sentido, eu diria que a graphic novel Meu Mundo Versus Marta é trabalho autoral do Rafael Sica feito a partir da leitura exclusiva dele de uma ideia minha, de uma história que eu escrevi.

Rafael Sica: Eu já tinha visto algumas coisas do Paulo por conta do Na TáBUA, projeto que ele faz junto do Fabio Zimbres. Já era um fã mas conhecia pouca coisa. O Paulinho Chimendes, artista plástico fundamental em Porto Alegre, foi quem me emprestou Ainda Orangotangos, livro do Scott. Primeiro livro que li dele. Depois fui conhecer pessoalmente o Scott numa festa literária em Porto Alegre. Não lembro quem nos apresentou, mas em poucos dias eu já recebia um texto no meu mail e a pergunta se eu gostaria de desenhar. Topei na hora. Isso foi lá por 2012. De lá pra cá, tive tempo de ler quase todos os livros do Scott e ir aos poucos pensando como desdobraria aquele texto de sete páginas em uma narrativa gráfica longa.
 
E como foi a dinâmica de trabalho de vocês? Vocês chegaram a fechar a trama inteira e um roteiro antes do Rafael começar a desenhar? Qual foi a influência do Rafael na trama? Como era a relação do Paulo com a arte à medida que o Rafael ia produzindo as páginas?

Paulo Scott: Sobretudo por se tratar de uma história de resultado final muito baseada na estética, na imagem, o desenho é o que dá a complexidade para uma história que, sem dúvida, é bastante simples, elementar. A trama pode ser resumida em duas linhas – embora o roteiro tenha tomado cinco ou seis laudas, pelo que me lembro –, mas o contar, em formato de graphic novel, envolve um grau de detalhamentos sem os quais o fabular da narrativa jamais aconteceria.

Como eu disse, apresentei ao Rafael a história escrita. E, quando ele começou a desenhar, fez as alterações que achou necessárias. À medida que ia produzindo as páginas, ele ia me mostrando, mas eu jamais tive qualquer ingerência sobre o que ele estava realizando, jamais dei qualquer sugestão, limitei-me a aplaudir e agradecer a oportunidade da experiência.

Rafael Sica: Tive toda a liberdade que você possa imaginar pra criar a narrativa. Já tive roteiros de quadrinhos em minhas mãos e o que fizemos não está nem próximo de uma relação roteirista e desenhista.

“Tudo é narrativa, a vontade e a urgência de contar”

Página de Meu Mundo Versus Marta, parceria de Paulo Scott e Rafael Sica (Divulgação)

Paulo, você já escreveu romances, contos, poesias e peças. Meu Mundo Versus Marta (MMXM) é sua primeira HQ, certo? Como foi essa experiência? Escrever uma HQ se aproximou mais de alguma outra experiência de escrita sua?

Paulo Scott: MMXM é o meu terceiro roteiro para graphic novel. Antes fiz dois, pelos quais recebi adiantamentos de direitos autorais e tudo, mas que acabaram não se realizando na época programada. Um deles, eu pretendo concretizar no ano que vem, porque os desenhos já estão prontos, é o Não Me Mande Flores, em parceria com outro gaúcho, o talentoso Eduardo Medeiros, do Sopa de Salsicha. Estou escrevendo um quarto roteiro – é um projeto meio paralelo à empreitada de escrita do romance Rondonópolis para o qual estou me dedicando no momento.

Para mim, tudo é narrativa, a vontade e a urgência de contar. A adequação às formas e aos tempos é uma questão importante, mas não é o principal. Mesmo na escrita de romances, se você for honesto com o processo e consigo mesmo, cada livro demanda uma nova trajetória, uma série de novas descobertas, formatos, lógicas, de novas inquietudes e perplexidades.

Aliás, Paulo, você pode falar um pouco, por favor, sobre a sua relação com HQs?

Paulo Scott: Sempre fui leitor de gibis, colecionava. Mas foi a chegada às minhas mãos de um exemplar de segunda mão da Heavy Metal com o Ranxerox na capa no início de 1984, eu tinha 17 anos, que mudo a minha vida. Foi quando começou minha busca apaixonada pelas revistas europeias, sobretudo, graphic novels, uma busca que reverberou – assim como aconteceu com o rap novaiorquino na mesma época – diretamente sobre minha poesia. Os quadrinistas de Porto Alegre foram fundamentais nesse processo também.

“É bem cansativo mesmo nas ideias curtas, imagina numa história longa”

Página de Meu Mundo Versus Marta, parceria de Paulo Scott e Rafael Sica (Divulgação)

Rafael, Meu Mundo Versus Marta é sua primeira experiência em parceria com um escritor, correto? Fico com a impressão que seus trabalhos são muito intimistas e pessoais, como foi essa experiência de trabalhar com outra pessoa?

Rafael Sica: É a primeira vez que desenho com texto de outra pessoa, também é meu primeiro quadrinho mais longo. Foram muitos desafios e acredito que esse tempo todo com o texto na mão, pensando a história, buscando caminhos. Por vezes eu até esquecia que outra pessoa tinha escrito, de tanta intimidade que criei com o argumento do Paulo.

Rafael, você pode me falar um pouco sobre sua dinâmica de trabalho durante o desenvolvimento dessa HQ? Você trabalhou dentro de alguma rotina enquanto desenhava esse quadrinho? Você pode me falar, por favor, quais materiais usou?

Rafael Sica: Comecei a desenhar lá em 2012, quando fiz dois capítulos. Depois, ficou um longo tempo parada. Quando voltei a desenhar, já em 2018, fiz uma média de duas páginas por dia, inclusive refiz os dois primeiros capítulos. Pra desenhar usei bico de pena e nanquim.

Mais uma para o Rafael: você está mais habituado a trabalhar com tiras e HQs curtas. Como foi a experiência de desenvolver esse trabalho mais longo?

Rafael Sica: Geralmente, depois que faço um desenho, deixo ele de lado e já não quero mais saber. Parto pra outra ideia e persigo ela. É bem cansativo mesmo nas ideias curtas, imagina numa história longa. Foi uma relação bem íntima e dolorosa. Mas gosto do resultado. Próximas histórias longas só farei se for muito bem pago por esse tipo de trabalho, o que suspeito que não irá acontecer tão cedo. 

“Se fosse um tempo verbal, diria que MMXM se passa no futuro do pretérito”

Página de Meu Mundo Versus Marta, parceria de Paulo Scott e Rafael Sica (Divulgação)

Um dos elementos mais marcantes de Meu Mundo Versus Marta para mim é o design das páginas, como vocês administram a velocidade da trama com o uso de mais ou menos quadros por página ou quadros menores e maiores. Vocês podem falar um pouco, por favor, sobre a construção dessa estética da HQ?

Rafael Sica: O texto do Paulo tinha esse ritmo, de acompanhar os personagens a cada minuto do dia. Então optei por deixar bem fragmentada, marcando um tempo que é quase um tempo de animação ou cinema mudo. O gestual foi muito trabalhado. Quando a personagem levanta da cama e vai até a cozinha e sai de casa, todo esse caminho é mostrado. É uma história muito íntima, você entra na vida daqueles dois seres e pra isso era preciso mostrar tudo nos mais intrincados detalhes.

O ambiente urbano tem um peso grande em trabalhos do Sica, penso principalmente em Fachadas e Ordinário. Obras distópicas como Meu Mundo Versus Marta tendem ser ambientadas em grandes centros urbanos. Vocês veem alguma justificativa para isso? Vocês sempre estiveram claros em relação a essa ambientação do quadrinho?

Paulo Scott: A aglomeração urbana é o lugar do absurdo racional, da loucura, dos excessos, onde o futuro, que é sempre aposta, se coloca como uma obsessão, um projetar que é disputa, a ilusão de que se pode projetar. Achei magnifico o cenário que o Rafael armou para a MMXM, deu um aspecto lúdico que dilui o lado aterrador da narrativa. Uma solução genial.

Rafael Sica: No texto do Paulo tinham algumas referências a lugares aqui de Pelotas, cidade onde vivo atualmente e sempre foi o cenário dos meus desenhos. Em Fachadas, Ordinário e etc é sempre o mesmo cenário.

Agora, temos essa ideia de ficção científica e obras distópicas ambientadas em grandes centros urbanos, mas esquecemos que numa cidade de interior a loucura também chega. Então, desde o começo do projeto, minha ideia era ambientar a história em uma cidade de interior imaginada. Se fosse um tempo verbal, diria que MMXM se passa no futuro do pretérito.

Há muitas comparações entre o atual cenário político-social-pandêmico brasileiro com uma distopia. Essa realidade impactou de alguma forma o desenvolvimento do trabalho de vocês?

Paulo Scott: Não há grande impacto, no meu caso. A história do Brasil se desenvolve sobre as tragédias e violências mais injustificadas imagináveis, fomos o último país a abolir a escravatura de pessoas raptadas do continente africano e trazidas como produtos mercantis, desfeitas de sua identidade, de sua mínima dignidade, somos um país marcado pela perversidade militar, o país mais dominado e desrespeitado pelos bancos no mundo, o país de uma das elites mais covardes e insensíveis do planeta, basta saber ler o que se passa, o que passou. As leituras distópicas de nossa realidade são incontornáveis, me parece, são uma consequência natural.

Penso, no entanto, que MMXM trata de um terror que é mundial, expressado no século XX e perpetuado nas ambições de muitos. A presença do personagem Marta remete a uma intervenção heterônoma com a qual a humanidade ainda não sabe muito bem como lidar. O medo é a paz, mas uma paz que só aumenta o terror. Marta é o juízo final sempre retardado, sempre contornado, o que não impede que a humanidade prossiga com seus abusos, com suas maldades, com seus totalitarismos.  

Rafael Sica: Especificamente, não. Foi produzida anteriormente a toda essa situação atual desastrosa em que nos encontramos.

“Tendo a achar que a leitura é o que dá o caminho da obra”

Página de Meu Mundo Versus Marta, parceria de Paulo Scott e Rafael Sica (Divulgação)

Pesou muito para mim na leitura do quadrinho o clima de desconfiança e conspiração da história. Foi intenção de vocês fomentar essa impressão de desconforto e tensão constantes?

Paulo Scott: Penso que esta é uma pergunta para o Rafael responder.

Tendo a achar que a leitura (no caso a sua) é o que dá o caminho da obra. Não gosto de falar em dimensão mais profunda dos meus poemas, por exemplo. A magia está na leitura. Acho que sua pergunta já coloca um interessante caminho possível.

Rafael Sica: Como falei, é uma história muito íntima, você entra fundo na intimidade das personagens e isso gera essa sensação de insegurança a angústia. É tão íntimo que parece com a nossa vida. Tão íntimo que vira público.

Mando essas perguntas cerca de um mês antes do lançamento do quadrinho. Ele ainda não foi impresso, mas o arquivo final já foi entregue para a editora. Qual balanço vocês fazem dessa experiência de produção de Meu Mundo Versus Marta?

Paulo Scott: Uma alegria indescritível ver, dez anos depois, a leitura de uma ideia minha realizada por um artista tão incomum, um artista que eu tanto admiro, impressa no papel, impressa para ficar – o trabalho do Rafael é daqueles que ganham outra dimensão quando impressos no velho e bom papel. Isso é inegável. Não é a mesma coisa ver uma tela de uma grande pintora, de um grande pintor, num monitor eletrônico. Com a MMXM, do Rafael Sica, tenho certeza de que é a mesma coisa.

Penso que exercitamos a paciência e a determinação de realizar, tenho orgulho da amizade que se formou e se fortaleceu em torno de um projeto que combinou dois trabalhos distintos, que foi diálogo entre dois caras que se admiram e se respeitam e, sobretudo, que aprendem um com o outro. Da minha parte, o que posso dizer é que foi uma escola.

Rafael Sica: Não acredito que enviaram um PDF pra você. [Nota do editor: no caso, o artista expressa seu incômodo em relação ao envio da obra, pela editora, em formato de PDF antes do lançamento de sua versão impressa.]

Vocês podem recomendar algo que tenham lido/assistido/ouvido nos últimos meses?

Paulo Scott: Poesia. Há muitos bons livros de poesia lançados no último ano.

Rafael Sica: Frequente e alimente bibliotecas comunitárias. Aqui no bairro tem uma que me salvou durante a pandemia. Você vai lá e pega um livro, outra vez vai lá e deixa um livro, tudo no auto-serviço. Tudo na confiança, além de seguro em tempos de vírus circulando.

A capa de Meu Mundo Versus Marta, HQ de Paulo Scott e Rafael Sica publicada pela editora Companhia das Letras (Divulgação)
HQ / Matérias

Rafael Sica, Paulo Scott e o espetáculo visual de Meu Mundo Versus Marta

Escrevi para a Folha de S.Paulo sobre Meu Mundo Versus Marta, parceria do quadrinista Rafael Sica com o escritor Paulo Scott publicada pela editora Companhia das Letras. Expliquei no texto porque considero a obra, desde já, um dos grandes títulos das HQs brasileiras em 2021. Ainda chamei atenção para o espetáculo estético apresentado por Sica, a proposta da dupla em oferecer uma experiência narrativa estritamento visual e os paralelos do cenário distópico do quadrinho com a atual realidade sócio-econômica-pandêmica brasileira. Obra que vale ser lida, relida e bastante analisada e discutida. Você lê o meu texto clicando aqui.

Cinema / HQ / Séries

Vitralizado #103: 04.2021

Fico com a impressão que o ano do Vitralizado só começa para valer depois da divulgação do resultado do Prêmio Grampo. Talvez, junto com a já tradicional arte de aniversário do blog, seja um dos grandes marcos anuais das minhas atividades por aqui. E eu, Maria Clara Carneiro e Lielson Zeni, divulgamos os vencedores desse sexto Grampo no início de abril. Resultado bem massa, diferente do meu top 3 pessoal, mas coerente com o filtro editorial do blog. E nas últimas semanas ainda fiz algumas entrevistas, participei de algumas conversas que curti muito e escrevi sobre projetos que recomendo a sua atenção. Enfim, vamos lá, segue o sumário do blog nos 30 dias que ficaram para trás (no abre, arte de Jaime Hernandez para Love & Rockets tirada lá do Bristol Board):

*Eu, Maria Clara Carneiro e Lielson Zeni divulgamos o resultado da edição de 2021 do Prêmio Grampo de Grandes HQs. O Grampo de Ouro ficou com Sabrina (Veneta), de Nick Drnaso; o Grampo de Prata com A Solidão de um Quadrinho Sem Fim (Nemo), de Andrian Tomine; e o Grampo de Bronze com Mau Caminho (Veneta), de Simon Hanselmann. Você confere o resultado final, com os 20 primeiros colocados e todos os títulos citados pelos jurados, clicando aqui. E aqui você confere os 20 rankings individuais dos nossos jurados;

*Depois de divulgar o resultado do Grampo, reuni em um único post todo o material que produzi sobre os três primeiros colocados na edição de 2021 da premiação;

*E você já assistiu à live sobre o Grampo de 2021 que gravei na companhia de Maria Clara Carneiro, Lielson Zeni e Douglas Utescher? Papo bem massa, viu?;

*Conversei com a quadrinista Helô D’Ângelo sobre Isolamento, webcomic produzida por ela desde o início de 2020 e compartilhada nas redes sociais da autora, sobre a rotina dos moradores de um prédio durante o período de isolamento social decorrente da pandemia do novo coronavírus. Esse papo foi o foco da 19ª edição da Sarjeta, minha coluna sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. Depois compartilhei por aqui a íntegra da minha entrevista com a autora;

*E nessa Sarjeta mais recente ainda teve um papo com a quadrinista Jéssica Groke, autora de Me Leve Quando Sair, Babilônia, Piracema (coleção da Tabu) e co-organizadora da coletânea 11:11;

*Fui o responsável pela mediação do episódio especial do Lasercast celebrando o aniversário de 20 anos do blog Raio Laser, um dos principais espaços voltados para a crítica dos quadrinhos na internet brasileira. Papo bem massa na companhia de Ciro I. Marcondes, Pedro Brandt, Raimundo Lima Neto, Bruno Porto, Marcos Maciel de Almeida e Márcio Jr. Já ouviu?;

*E bati um papo beeeem massa com o cartunista Batista sobre O que Conto Quando Conto uma Piada, coletânea de 192 páginas reunindo alguns dos melhores trabalhos de um dos principais nomes do humor gráfico brasileiro contemporâneo. Papo bom demais, viu?

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