Papo com Amanda Miranda, autora de Aparição: “O que mais impactou o roteiro foi o sentimento angustiante de, praticamente todos os dias, ouvir algum caso de feminicídio”

Conversei com a quadrinista Amanda Miranda sobre Aparição, 24ª edição da Coleção Ugritos. Esse meu papo com a autora virou o foco da 20ª Sarjeta, minha coluna mensal sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. Você lê o meu texto clicando aqui. Lá eu trato das origens da HQ e apresento algumas falas da autora sobre o desenvolvimento da obra – além de comentar as duas edições prévias dos Ugritos.

Compartilho agora a íntegra da minha entrevista com a quadrinista. Ela falou um pouco sobre as técnicas usadas por ela, expôs algumas de suas preferências no gênero de terror, comentou o formato dos Ugritos e refletiu sobre as peculiaridades de fazer horror em HQ. Então faça assim: leia o meu texto, leia Aparição e leia a minha entrevista com Amanda Miranda. Papo bem massa, saca só:

“Me interesso demais por tensão e lacunas”

Quadro de Aparição, Ugrito da quadrinista Amanda Miranda (Divulgação)

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

Essa eu nem queria responder, sinceramente hahaha Não estão boas, continuo muito preocupada com a saúde da minha família, ano passado perdi uma pessoa próxima, enfim. Um desgaste emocional enorme. Mas poderia estar pior, né? Sempre pode.

Imagino que o formatinho fixo da coleção Ugritos acabe tendo algum impacto no desenvolvimento das histórias. Você já tinha em mente a história de Aparição quando foi convidada para participar da coleção ou ela foi desenvolvida a partir desse convite?

Eu já estava pensando em fazer uma história que fosse mais próxima da minha vida há algum tempo, tocando no interior de São Paulo, a influência pesada do cristianismo nos anos de formação, etc. Mas Aparição foi escrita pensando no Ugrito, mesmo. Tentando criar uma história que funcionasse nesse formato pequeno e curtinho. De maneira aleatória me lembrei dessa notícia sobre a aparição da imagem de uma santa na janela de uma casa, lembro de ver isso na TV quando era criança, a partir dessa lembrança comecei a escrever o roteiro.

E como foi para você trabalhar nesse formatinho dos Ugritos? Qual foi o impacto desse formato para o desenvolvimento do seu quadrinho?

Foi um desafio! muito tempo que eu não pensava num grid de página que desse certo para o formato A6. Mesmo assim, achei bem divertido.

“O horror funciona melhor em mídias que dispõe de maior controle na experiência do público”

Página de Aparição, Ugrito da quadrinista Amanda Miranda (Divulgação)

O que mais te atrai em uma história de horror? O que você considera essencial para uma boa história de horror?

Como é um dos meus gêneros favoritos, eu assisto e leio praticamente qualquer coisa. Mas no meu filtro de referências, me interesso demais por tensão e lacunas. Dar espaço para o leitor participar da narrativa e se relacionar com a história de maneira mais subjetiva. Entre meus subgêneros favoritos entram o horror psicológico, o body horror e as produções experimentais e de baixo orçamento dos anos 70.

E o que você considera mais desafiador em contar uma história de horror em quadrinhos?

O horror funciona melhor em mídias que dispõe de maior controle na experiência do público, quando entrávamos em uma sala de cinema estavamos entregues à própria sorte.  Em HQ é um pouco mais difícil fazer a grande revelação ou tentar assustar de súbito o leitor. Mas é possível causar impacto usando de outras ferramentas narrativas, envolvimento, virada de página, etc. Dentro da técnica de viradas o [Junji] Ito é um mestre, mas tendo a me interessar mais pelo formato do Suehiro Maruo, que assusta através do absurdo, incômodo, desagradável.

Teve alguma obra (filme, música, livro, hq ou o que for) com algum impacto em particular em você durante o desenvolvimento desse quadrinho? Como a nossa atual realidade sócio-econômica-pandêmica influenciou esse seu trabalho? Pergunto tendo em mente as suas várias investidas recentes em trabalhos com ilustrações editoriais para publicações jornalísticas. Imagino que você esteja bastante alerta a tudo que tá rolando no mundo…

Posso citar em HQs: Encruzilhada, do Marcelo D’Salete, e Pretending is Lying, da Dominique Goblet. Na época estava acompanhado uma seleção de documentários da Criterion Collection chamado Tell Me: Women Filmmakers, Women’s Stories e durante toda criação do quadrinho pensei na música Fio de Cabelo, do Chitãozinho e Xororó.

Mas o que mais impactou o roteiro foi o sentimento angustiante de, praticamente todos os dias, ouvir no jornal regional algum caso de feminicídio. Um em específico marcou por ter acontecido no meu bairro, onde um cozinheiro assassinou a ex-esposa na frente dos filhos e depois se suicidou.

Muito tem se falado nos últimos anos sobre novas investidas no gênero de terror no cinema – penso nos filmes do Jordan Peele e da produtora A-24, por exemplo. Vi um pouco dessas propostas, mais pé no chão e psicológicas, no seu Ugrito. Faz sentido? Você se vê influenciada por essas produções?

Sinto que desde Anticristo do Lars Von Trier aconteceu um aumento significativo nas produções que focam nesse horror meio cético e cínico, às vezes só atmosférico (como alguns da A-24), ou de cunho explicitamente político (no caso do Peele). Acompanho e gosto de alguns. A produção brasileira também está bem interessante, gosto muito dos filmes da Gabriela Amaral Almeida e da Juliana Rojas. Mas a maioria das minhas referências e inspirações vêm de filmes antigos, a primeira fase do [David] Cronenberg, a histeria do [Andrzej] Zulawski, a violência desregrada dos anos 70 e até produções mais sutis que nem chegam a entrar 100% no gênero como A Mulher Sem Cabeça da [Lucrecia] Martel.

“Gosto de escrever pensando nas cenas, costurar essas imagens que estão na minha cabeça com texto”

Página de Aparição, Ugrito da quadrinista Amanda Miranda (Divulgação)

Você pode me falar, por favor, um pouco sobre as técnicas e materiais que usou na produção desse Ugrito?

Escrevo no papel, desenho tudo no digital. Pra essa história quis testar uma arte final mais expressiva e próxima do rascunho, mantendo imperfeições.

Não sei se essa pergunta vai soar meio abstrata… Eu queria saber qual é a sua abordagem em relação a uma página? Nesse Ugrito, por exemplo, você trabalha com quadros e também com duplas compostas por um painel único reunindo várias cenas. Como você pensa e chega nessas soluções gráficas? Você chegou a finalizar um roteiro antes de elaborar as artes desse quadrinho?

A inspiração varia, mas sempre vêm o texto antes. Não chega a ser um roteiro todo formatado, mas gosto de escrever pensando nas cenas, costurar essas imagens que estão na minha cabeça com texto, pra daí desenhar. Sempre faço as páginas como se fossem duplas, mesmo quando não são. Gosto de ter a visão completa do que o leitor verá quando a página virar. 

Última! Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Essa semana assisti Jardim de Guerra, do Neville D’Almeida, e gostei muito. Reforço a recomendação de Pretending is Lying, da Dominique Goblet, queria ver esse publicado no Brasil. Voltei a ouvir com frequência o DUMMY, do Portishead.

A capa de Aparição, Ugrito da quadrinista Amanda Miranda (Divulgação)


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Ramon Vitral

Meu nome é Ramon Vitral, sou jornalista e nasci em Juiz de Fora (MG). Edito o Vitralizado desde 2012 e sou autor do livro Vitralizado - HQs e o Mundo, publicado pela editora MMarte.

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