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Entrevistas / HQ

Papo com os editores da revista A Zica: “Fazer esta revista com recursos públicos durante este governo é uma retomada de posse e marcação de território para produção cultural” 

A sexta edição da revista A Zica tem como tema “escola, café e videogame”. Com capa de Suryara Bernardi, o mais recente número da publicação editada por Luiz NavarroMarcos Batista e João Perdigão tem 168 páginas e conta com trabalhos de 73 artistas (brasileiros, argentinos, mexicanos, indianos e portugueses). Sua impressão foi bancada via recursos públicos da Lei Aldir Blanc.

Entrevistei os três editores e perguntei sobre a importância do lançamento dessa nova Zica em meio ao governo de Jair Bolsonaro. A resposta: “Quando ela for lida daqui a muitos anos, será entendida neste contexto neofascista, e os trabalhos produzidos vão ser uma nota histórica importante de que tinha muita gente horrorizada e insatisfeita com este anacronismo que é essa extrema-direita no poder”.

No nosso papo, Navarro, Batista e Perdigão também fizeram um balanço sobre esse sexto número da revista, comentaram suas principais surpresas com essa nova edição e refletiram sobre os mais de 10 anos de existência do título, entre outros temas. Aproveito para recomendar a leitura da minha entrevista com o trio na época do lançamento da Zica #5 e deixo, a seguir, a minha nova conversa com os três. Ó:

“Cada vez mais queremos abarcar diversidades de estilos e artistas”

Página de HQ de Beatriz Shiro publicada na sexta edição da revista A Zica (Divulgação)

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas aí? Como vocês estão lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a produção e a rotina diária de vocês?

Absolutamente. Nós três somos escritores, pesquisadores, livreiros, produtores, comerciantes – em maior ou menor grau todos exercemos estas funções – e a pandemia acabou fechando algumas dessas portas para nós. João e Batista lançaram livros durante a pandemia e não puderam fazer uma rotina de lançamento viajando e divulgando seus trabalhos. A própria Zica não pode ter um lançamento com evento festivo e alegre, como a gente gosta. A Feira Canastra que tem entre seus produtores Luiz e João tem data incerta para a próxima edição, a grana ficou curta para todos nós. Mas a gente não adoeceu, e os nossos, em grande maioria, estão bem, então estamos gratos e atentos.

No editorial da revista vocês explicam a escolha de “escola, café e videogame”. Fiquei com a impressão de vocês irem num tema central/factual/urgente da nossa realidade (escola) a dois métodos escapistas muito convenientes para encarar (café) e fugir (videogame) dessa mesma realidade. Vocês podem fazer um balanço entre as expectativas de vocês quando optaram por esses temas e as obras que receberam?

Os temas em geral seguem a lógica de ter um sobre o Zeitgeist do momento da edição (apocalipse, Rússia, América Latina, propaganda), uma mais comportamental (maconha, bullying, vandalismo) e um mais zoeiro-tema livre (vermes, dinossauro, trevas). Mais ou menos assim que vemos a escolha dos temas. Então ficamos nesta edição com escola como o grande tema da temporada (o zeitgeist), o video-game como o comportamental e o café como tema livre. Mas sempre cremos que não há uma hierarquia entre eles, que todos importam da mesma forma, têm o mesmo peso.

Nesta edição a expectativa era que todos temas trariam boas reflexões e múltiplas abordagens, e foi exatamente o que aconteceu. Já teve edições que um dos temas quase não foi abordado, já teve outras que um dos temas era quase onipresente nos trabalhos. Nesta há um equilíbrio e uma diversidade muito satisfatória, que dão uma dimensão bem grande de leitura da revista.

Página de HQ de Diego Melo Gomes publicada na sexta edição da revista A Zica (Divulgação)

E como vocês acham que essa nossa atual realidade sócio-econômica-pandêmica impactou o resultado final da revista? Eu tendo a ver coletâneas como A Zica como espaços muito ocupados por obras de humor e não sei se foi o caso dessa edição nova de vocês. Ela me parece mais séria, com algumas obras mais pessimistas e agressivas, do que encontrei em edições prévias. Vocês concordam?

Concordamos em parte. De fato a maior parte das antologias brasileiras desta natureza têm um foco em humor, creio que é um brilho e uma tradição do país. Mas cremos que A Zica está em constante mudança, nunca primamos por ser uma publicação de humor. Cada edição fica à mercê do que recebemos, e apesar de haver um processo de edição, não temos todo esse poder de direcionar a revista para um lado ou outro pois se recebermos somente quadrinhos, ou somente ilustrações, será uma edição que reflete o conteúdo recebido. Por exemplo, a primeira edição era basicamente com trabalhos de artistas de rua, só com ilustrações e textos (sem quadrinhos), a quinta edição é mais bem humorada, a sexta é mais sóbria, com menos peças de humor e mais reflexão.

Esta última achamos que ficou bem engraçada, muitos trabalhos bem humorados também, mesmo que em um humor que talvez reflita o desespero, o desolamento e o cinismo das pessoas ante este mundo e este Brasil de 2021. Não é uma revista sobre a pandemia, mas uma revista produzida durante a pandemia. Inevitavelmente esse contexto influiu nos trabalhos. E engraçado pensar sobre sua percepção, creio que nenhum de nós pensaria que A Zica seria mais ocupada por humor, talvez sempre vimos ela com mais ênfase no protesto. Mas é a visão de cada pessoa que lê que forma a revista, aliado ao material recebido a cada edição.  

Repito duas perguntas da entrevista que fiz com vocês sobre a edição passada: o que houve de mais singular durante o desenvolvimento desse sexto número d’A Zica? E o que mais surpreendeu vocês em relação aos trabalhos que receberam?

Uma das coisas que mais nos surpreendeu foi receber e publicar tantos trabalhos do universo LGBTQI+. A Zica nunca recebeu tantos trabalhos que versam sobre o queer como nesta edição. É uma coisa que nos deixa feliz, a revista ser vista por artistas como um espaço para publicação de trabalhos que tocam nesta vivência. Foi muito espontânea essa abordagem, pois nós não incentivamos aos artistas que enviassem trabalhos queers, nem os temas desta edição são particularmente sugestivos para que esta vivência fosse abordada. E cremos que o que isso mostra, como já sabemos, é que o queer está embebido no nosso mundo e atravessa todos os assuntos, então falar de video-game, escola e café, ou qualquer outro assunto, permite este tipo de visão das pessoas que estão vivendo e trabalhando sob esta ótica.

Outra questão que marcou nessa edição foi o processo de desenvolvimento da capa. Nós estávamos pensando se escolhíamos entre algum dos trabalhos recebidos ou se convidávamos um artista para produzir a capa. Numa conversa entre o João e uma amiga, a Débora, surgiu a ideia de fazer uma referência às manifestações dos secundaristas que ocuparam as escolas do país entre 2015 e 2016. Essa ideia surgiu a partir da inspiração de um dos trabalhos que recebemos, da Suryara: uma ilustração de uma estudante negra em cima de uma cadeira com uma bandeira de protesto. Nós não conhecíamos a Suryara nem o trabalho dela e fomos pesquisar. Foi surpreendente. Ela tem um traço delicado e muito bonito. Daí, convidamos ela para a capa. A ideia, que foi uma sugestão também da Débora, foi fazer uma releitura de uma foto emblemática daqueles protestos de uma estudante negra chamada Marcela Nogueira disputando uma carteira com um policial militar. O resultado foi incrível e muito forte. Toda a potência da imagem traduzida em um traço muito delicado. Gostamos muito desta capa. E isso revela outro aspecto surpreendente desta Zica: recebemos muitos trabalhos com traços e estilos mais delicados, mais sensíveis. O que derruba um estigma da Zica ter uma identidade hardcore e só. Cada vez mais queremos abarcar diversidades de estilos e artistas e estamos conseguindo.

“A Zica nunca recebeu tantos trabalhos que versam sobre o queer”

Página da HQ de Manda Conti publicada na sexta edição da revista A Zica (Divulgação)

E sobre a proposta da Zica de servir de vitrine para novos talentos: quais autores que nunca tinham saído na revista que mais chamaram atenção de vocês? Confesso ter ficado bastante impressionado com o trabalho de Manda Conti.

Manda Conti foi uma das alegrias que a descoberta traz. Outra é a Suryara, que já comentamos. Falar de nomes é sempre um dodói num tipo de publicação assim, ainda mais pra Zica que novidades e nomes conhecidos são sempre vistos na mesma régua de certa maneira. Mas o trabalho de Ismael Flores é uma surpresa maravilhosa, pois é um ilustrador mexicano de mão cheia que nunca havia publicado um quadrinho, e logo na Zica ele envia um trabalho tão complexo (em termos de execução) e sensível – Memórias de um Mirão, leiam. Temos também os textos, que nesta edição tivemos uma atenção maior em publicar, para que nas próximas edições possamos ter uma adesão maior de quem escreve sem pressão entre quem é jornalista, poeta ou contista, queremos que escritores e escritoras tenham A Zica como um lugar de publicação também. Tem uma participação supimpa do Cecil Silveira que fez nossa primeira duotone, que agora abre as portas para que na próxima edição possamos receber trabalhos em duas cores, e não apenas em escala de cinza. Tem o Diego Gomes que nos divertiu imensamente com sua junção de Hermes e Renato com Charles Darwin, a Bia Shiro com uma porradona riot zoando os macho game. Mas no geral esta é a revista com mais surpresas, o que nos mostra que já circulamos mais do que imaginamos, e mais artistas fora do nosso radar entram em contato conosco, o que nos alegra pois a revista está cumprindo sua missão.

Página da HQ de Marco Vieira publicada na sexta edição da revista A Zica (Divulgação)

Já são mais de 10 anos desde o lançamento da primeira Zica. Na nossa última conversa vocês já falaram sobre as muitas diferenças que notaram no cenário de quadrinhos/publicações independentes no qual A Zica está inserida. Queria saber agora: nesses mais de 10 anos, vocês notam muitas transformações nos interesses e nas investidas estéticas dos autores desse cenário? Se sim, vocês veem essas transformações presentes de alguma forma nessa sexta Zica? 

Totalmente. Os interesses e investidas apresentados nos trabalhos estão bem mais diversos do que o cenário apresentava 10 anos atrás. Como falamos, muitos trabalhos queer, e também mais liberdade e maturidade para falar de sentimentos mais complexos como perdas, amadurecimento e sentimentos íntimos. Creio que de forma inconsciente o habitual de trabalhos passados eram impressionar, pelo visual do trabalho ou pelo choque do discurso. Falo isso não das edições passadas, mas do cenário brasileiro. E assim como a cena artística nacional, que A Zica é mero reflexo, esta edição apresenta trabalhos mais radicais, seja pela honestidade escancarada, sem que o choque seja o gancho que fisgue quem lê, seja pela diversidade de técnicas e estilos, que já não são mais tão espetaculares ou toscos radicais. Temos uma gama de artistas produzindo trabalhos de tudo que é forma, mas menos preocupados em atender uma estética publicitária ou das redes sociais, mas que sejam honestas com a verdade de quem produz, então nesta edição fica bem claro que o desenho mais (tecnicamente) incrível e o mais radicalmente desgraçado não querem agradar uma agenda social, mas sim agradar quem os cria. Ficamos felizes em ver que os artistas e as artistas conseguem veicular mais e melhor suas próprias vozes e verdades, o que talvez fosse ainda incipiente há 10 anos.

A Zica #5 saiu às vésperas das eleições de 2018. Na época perguntei qual vocês consideravam o papel de uma publicação independente, com ares subversivos como A Zica em um contexto de conservadorismo crescente. As coisas pioraram muito de lá para cá. Qual vocês consideram o papel de uma publicação como a Zica hoje, no Brasil de Jair Bolsonaro?

Fundamental, histórica. Nesta edição tivemos noção que ela é um documento histórico para daqui 20, 30, 100 anos. Quando ela for lida daqui a muitos anos, ela será entendida neste contexto neofascista, e os trabalhos produzidos vão ser uma nota histórica importante de que tinha muita gente horrorizada e insatisfeita com este anacronismo que é essa extrema-direita no poder. E para que isso ficasse mais pungente tomamos certas atitudes como inserir os créditos junto das próprias páginas, e não escolher temas correlatos ao momento como a própria pandemia ou o fascimo. Isso contribuiu para que os trabalhos enviados refletissem sobre essas questões de forma mais mundana, dando aos leitores futuros essa noção de que quem viveu e estava ativo durante esse período falava de assuntos da vida, da liberdade, do entretenimento, falando desta realidade atual de forma escancarada ou sutil, formando assim um mosaico mais complexo e completo deste nossos tempos.  

Ter a marca deste governo na quarta capa é a cereja do bolo. Fazer esta revista com recursos públicos (via Lei Aldir Blanc) durante este governo é uma retomada de posse e marcação de território para produção cultural. E criar uma revista que se opõe a tudo que estas marcas impressas na nossa contracapa é uma das coisas mais gostosas que a revista nos permitiu criar.

Outro ponto importante: é um tesão produzir trabalhos editoriais impressos, gráficos, feitos de papel, em pleno 2021, em contraposição à onipresença das telas e dos conteúdos digitais, virtuais. É muito bom criar espaços para artistas produzirem sem os moldes e expectativas de uma mídia como o Instagram.

“É um tesão produzir trabalhos editoriais impressos em pleno 2021”

Página da HQ de Cecil Silveira publicada na sexta edição da revista A Zica (Divulgação)


Última! Pediria para cada um dos três, por favor: você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Batista: minha recomendação é o novo single da banda Isso, de Belo Horizonte, com a música A Estrada, belíssima composição e grande gravação; a biografia do João Perdigão para Guignard, chamada Balões, vida e tempo de Guignard que estou lendo; e o gibi DF Medieval, do Munha da 7 e do Gabriel Mombasca, ambos de Brasília, que contam a história da Idade Média do DF de forma absolutamente engraçada e original (no momento o livro está no Catarse e já atingiu a meta, mas conheço o projeto há anos, e já li boa parte do material publicado em zine, e é incrível).

Luiz: Durante a pandemia, não tem jeito, é surra de Netflix rs. Tenho visto muitos filmes e séries ótimas. Entre os mais recentes que vi, tem o Judas, o Messias Negro e A Voz Suprema do Blues, esse último com atuações muito boas do Chadwick Boseman e da Viola Davis. Nele, me chama a atenção a história da produção cultural independente americana, com suas pequenas gravadoras musicais, e me remete ao que vivemos hoje no universo das publicações, com muitos artistas e pequenas editoras se profissionalizando. O documentário do Elvis Presley também é muito legal pra observar esse universo. Já sobre o universo maluco das artes plásticas, tem o documentário Fake Art, que dá uma ideia de como é doida a forma como o capitalismo lida com a arte. Uma animação: Midnight Gospel, é bem pop mas vale a pena assistir. E tão rolando várias produções não americanas muito boas, como a série sueca Dinheiro Fácil (Snabba Cash), que tem um ritmo e um estilo muito legais. Entre os brasileiros, sugiro o Joaquim, filme biográfico sobre o Tiradentes, do mesmo diretor de Cinema Aspirinas e Urubus, e o Arábia, dos mineiros Affonso Uchoa e João Dumans.  Videogame: tô viciado em Two Dots, um quebra cabeça para celular, muito inteligente e bem feito.

João: Trabalho como pesquisador e escritor, mas meu consumo cotidiano geralmente tá relacionado com trabalhos de pesquisa e documentário – amo! O último livro que li e gostei muito foi Enverga, mas não quebra: Cintura Fina em Belo Horizonte, do Luiz Morando, que é um pesquisador monstrão da memória LGBTQI+ de BH, que através de documentos, revela a vida de Cintura Fina, que até então era uma figura mitológica que só era conhecida nossa através de sua representação na mini-série Hilda Furacão – e a abordagem é bem diferente. Outro livro que chapei foi História da poesia visual brasileira, organizado pelo Paulo Bruscky, que fez uma compilação belíssima sobre a produção gráfica nacional dos últimos 100 anos de uma maneira muito bonita. O que conto quando conto como piada, do Batista virou um livro de cabeceira aqui em casa, é pra ler várias vezes e rachar de rir. Já de documentário, tenho pirado muito em festivais que me mostram coisas muito boas produzidas além da bolha Netflix/Amazon, como É Tudo Verdade (de docs), e mais recente, o In Edit Brasil (de docs musicais), além do bom e velho forum makingoff.org, que me aplica outros tantos -destes aí, vou citar  três; Tio Tommy – O homem que fundou a News-Week (2021), sobre o empresário/espião norte-americano que viveu no Brasil, SpeedfreakS: Psicopata camarada (2021), sobre a trajetória do rapper morto misteriosamente em Niterói e Falso ou verdadeiro – Fabricando ignorância (2021), produção do canal de TV alemão DW sobre a invenção de revisionismo científico patrocinado pelas grandes corporações.E de música, vou citar três sons de diferentes gêneros; Matéria Prima, Divergência Socialista e Arca. 

A capa da sexta edição da revista A Zica (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Lobo Ramirez fala sobre os cinco anos da Escória Comix: “Uma editora de HQs podres, gerenciada por um desenhista preguiçoso, prestes a se pagar e ainda gerar grana é um feito e tanto”

A editora Escória Comix completou cinco anos em junho de 2021. Criado e editado pelo quadrinista Lobo Ramirez, o selo tem entre seus títulos mais célebres publicações como Úlcera Vórtex e O Alpinista, de Victor Bello; Esgoto Carcerário, de Emilly Bonna; Nóia – Uma História de Vingança, de Diego Gerlach (em parceria com a Vibe Tronxa Comix); e O Deplorável Caso do Dr. Milton e 400 Morcegos, ambos de Fabio Vermelho. Como já comentei em outras oportunidades, considero um dos catálogos mais consistentes do mercado brasileiro de HQs.

Lobo Ramirez celebrou o aniversário de cinco anos de sua editora com o anúncio da revista El Perro Feo, coletânea com chamada aberta para HQs girando em torno da temática “TOSCO, PODRE & RADICAL!” – você encontra outras informações sobre as incrições clicando aqui.

Conversei como o criador e responsável pela Escória Comix sobre esses cinco primeiros anos da editora. Ele me falou sobre as origens da El Perro Feo, refletiu sobre a história de sua editora, comentou algumas das HQs publicadas por ele, adiantou lançamentos de um futuro próximo (trabalhos novos de Victor Bello e Fábio Vermelho) e revelou alguns planos para um futuro mais a longo prazo. Papo bem bom. Compartilho a seguir, posts publicados aqui no blog sobre os títulos da Escória Comix e, em seguida, a íntegra da minha conversa com Lobo Ramirez. Saca só:

*Papo com Lobo Ramirez, editor do selo Escória Comix: “O que realmente importa é a essência de ir contra qualquer pensamento ignorante, falsos moralismos e fanatismos”;
*Papo com Lobo Ramirez, autor de Supermercadinho Brasil: “Tentei me aventurar na dimensão das palavras”;
*Escória Comix e Pé-de-Cabra: respostas das HQs brasileiras a tempos sombrios;
*Papo com Victor Bello, autor de O Alpinista e Úlcera Vórtex: “Quando começo a desenhar eu nunca sei no que vai dar”;
*Papo com Emilly Bonna, a autora de Esgoto Carcerário: “É o resultado de um aglomerado de coisas que consumo desde a infância, de Castelo Rá-Tim-Bum a John Waters”;
*Papo com Riotsistah, autora da Máquina Assassina: “Se for para recomendar um álbum para ouvir enquanto você lê a HQ, seria o Maggot Brain, do Funkadelic”;
*Papo com os autores da coletânea Porta do Inferno: “A gente vê o diabo diariamente e faz de conta que não”;
*Papo com Fábio Vermelho, autor de Eu Fui um Garoto Gorila e 400 Morcegos: “Represento a violência de forma gráfica porque é assim que ela é”;
*Papo com Fabio Vermelho, autor da revista Weird Comix: “Quero que as pessoas sintam algo lendo, seja vergonha, diversão, nojo, raiva ou pena”;

“Eu já teria desistido se as coisas não viessem progredindo”

A arte da quadrinista Emilly Bonna para a capa da revista El Perro Feo, publicação do selo Escória Comix (Divulgação)

Por que lançar agora a revista El Perro Feo? Por que esse nome? Você teve alguma inspiração em particular para esse projeto?

Deu vontade  de comemorar os cinco anos da firma com alguma coisa nova, saca? O nome veio de uma pintura daquelas de cartaz de filmes de Gana, que os caras fazem umas versão foda de filmes ruins e/ou bons. Eu vi uma pintura dessas de algum filme de cachorro e era um puta cachorro feio pra porra, sei lá, achei engraçado na época e ficou na cabeça, CACHORRO FEIO. Aí uns anos atrás eu fiz um quadrinho de uma página só chamado LOS DEFENSORES DEL PERRO FEO, que era um monte de doido com bigode protegendo um pobre cão horrível. A idéia era ser uma série com vários autores fazendo a continuação, com um página apenas, mas só rolou uma página minha e uma do Victor Bello. Beleza, o nome ficou na cabeça e eu decidi usar só o EL PERRO FEO pra revista, porque é um nome que acho engraçado. Mas outro motivo é que o nome em espanhol simboliza a união latino-americana contra os imperialistas estadunidenses.

E por que TOSCO, PODRE & RADICAL! como tema? Quais são as suas expectativas para essa publicação? 

Parece uma boa trindade mística para o primeiro volume da revista, resume bastante toda a essência da Escória Comix. Se não me engano, quem deu a ideia desse slogan aí foi o Diego Gerlach, não pra revista especificamente, mas no geral são três palavras que uso faz tempo pra divulgar os trabalhos, me pareceu ornar bem.

Grandes expectativas para a REVISTA  EL PERRO FEO. A ideia é não ser apenas uma antologia de quadrinhos nacionais e dessa vez ter até material de gringo (se eles mandarem e estiverem à altura, pensarei com carinho se aceito), textos elucidantes sobre o futuro da humanidade, dicas culinárias para sobreviver numa ilha remota, resenhas de bandas, filmes e etc. Então vai ser uma mistura de vários quadrinhos e umas coisas que teria em alguma revista doida. A princípio  vai ser uma por ano, sempre com algum tema novo, e, possivelmente, um dia virar um programa de variedades de domingo, em algum canal aberto na TV. O apresentador vai ser Carlos Panhoca, mas ele não sabe disso ainda. Bom, espero que o perro feo seja divulgado para o mundo todo e alcance sucesso intergaláctico bem maior que a própria Escória .

Queria saber mais sobre as origens da Escória Comix. Quando você teve a ideia de criar a editora? Qual era o seu objetivo com ela? Você tinha algum artista em mente para publicar?

Cara, vou começar bem na gênese da podreira, se liga, tudo começou num verão caliente muito tempo atrás, numa era em que a coxinha na padaria ainda custava um real. Minha versão jovem, sem bigode, mas com cabelos longos de metaleiro punheteiro, decidiu parar de procrastinar e terminar de desenhar um quadrinho. Até então eu só tinha feito um monte de rabisco imbecil. Monstrinhos e pirocas voadoras. Minha ideia genial pra não pensar muito foi pegar uma folha sulfite, desenhar seis quadros iguais e xerocar uma porrada de cópia, assim era só ir preenchendo os quadros com a história e pronto, deu certo. Enfim, terminei incríveis oito páginas de uma história chamada Escrotum – Vaginal Vortex, mas ficou por isso mesmo, até que no ano seguinte, 2014, conheci a criatura horrível Luiz Berger. Realmente não consigo lembrar como foi que tive esse azar, mas fato é que ele me concedeu a oportunidade de lançar um gibi pelo selo dele, Gordo Seboso. Decidi usar o Escrotum como base para um zine de mesmo nome, desenhei mais umas páginas e pronto, meu primeiro gibizinho estava em mãos. E daí pra uma mesinha em uma feira de quadrinhos independentes foi um peido. 

Nas feiras fui conhecendo a mística CENA DE GIBI “BRASILEIRA”, claro que como estava em São Paulo talvez o correto fosse ”cena de gibi paulistana, meo”, mas ainda assim vinha muita gente de outros estados, então acho que dava pra ter uma visão geral. A questão é que, com o tempo, percebi que tinha pouca coisa nova que eu realmente gostava e me incomodava muito a quantidade enorme de trabalhos ditos artísticos (sabe aqueles zines em formato de triângulo conceituais, feitos por um hipster universitário que se acha um gênio e vende aquela merda por 100 reais?!). Passei muito  tempo reclamando e ficando pistola com qualquer quadrinho metido a besta de algum designer de 17 anos fazendo autobiografia sentimental. Essa raiva toda e a frustração de não ter ficado milionário vendendo zine tosco me fizeram repensar toda a minha existência, eu estava cansado de só reclamar e decidi fazer alguma coisa. Foi quando  me veio na cabeça a ideia de criar um selo/editora que juntasse vários autores de quadrinhos mais podres, imbecis, toscos, sujos, drogados, retardados, engraçados e etc. O objetivo era divulgar essa gloriosa produção que eu sabia que era vasta e com ótimos quadrinistas. O primeiro deles que quis publicar foi ninguém menos que o próprio Victor Bello.

Nessa origem da Escória, o quanto você já tinha resolvido sobre a linha editorial com a qual você queria trabalhar? Você tinha algum filtro específico em mente?

Veja bem, meu caro mastodonte do jornalismo, nunca pensei em linha editorial ou nada nesses termos. Apenas segui o lema “se eu gosto disso aqui deve ter outro doido que nem eu que gosta também”. Claro que eu gosto de muita coisa que não se encaixaria na Escória, mas sempre foi muito simples seguir o filtro do “É divertido? Desenho tá massa? Não se leva muito a sério? Se permite ser idiota, mas sem deixar de ser sexy?” .

“O divisor de águas para o selo foi Úlcera Vortex, do Victor Bello”

Página de Úlcera Vórtex, obra do quadrinista Victor Bello publicada pela Escória Comix (Divulgação)

E nesse começo da Escória, o que mais te surpreendeu? Aliás, qual era a sua experiência com edição e publicação antes da Escória? Qual era a sua bagagem em relação a lidar com autores e lojas de quadrinhos antes de começar a editora?

Claro que o mais surpreendente é ainda não ter largado tudo e ir viver da minha dança sensual e da venda de fotos eróticas para amantes de mullets.  Mas, na real mesmo, o que sempre me surpreende são os quadrinhos que os autores me entregam para publicar, sempre uma coisa mais animal que a outra. Fico muito feliz de poder publicar tanta gente foda.

Minha experiência anterior veio de ter lançado o zine Escrotum, pelo selo Gordo Seboso. Então, pra mim, edição é saber mandar o arquivo certo pra gráfica, imprimir e não vir com páginas na ordem errada. O resto é só propaganda e papo de vendedor que fui aprendendo com tentativa e erro. 

Em relação a lidar com autores, acho que por eu mesmo ser um autor e saber como é ficar meses desenhando um treco que não vai vender o suficiente pra pagar as horas perdidas da minha vida, ajudou e ajuda bastante. Com as lojas de quadrinhos tive que sacar como funcionam as coisas. Eu nunca tinha lidado com lojas antes, mas tive sorte de conhecer o Douglas [Utescher] e a Dani [Utescher], da Ugra, que sempre me ajudaram muito e deram os toques todos.

Qual balanço você faz entre as suas expectativas quando deu início às atividades da Escória e o que o selo é hoje? E quais você considera as principais lições dessa empreitada? Quais são os seus principais aprendizados nesses cinco anos?

O plano inicial sempre foi insistir por cinco anos e se, depois desse tempo, a editora fosse autossustentável, então sucesso puro. Essa era minha expectativa e, pra ser sincero, ela não se realizou, a Escória não é autossustentável, porém eu teria desistido já se as coisas não viessem progredindo. Sinto que aos poucos consegui construir algo relativamente sólido, sabe? A Escória é coerente com sua proposta e alcançou uma certa consistência, mas acho muito importante que ela se torne autossustentável e talvez falte muito pouco pra isso. Enquanto enxergar essa possibilidade, vou lutar. E só pra deixar claro, a importância disso é poder ter uma base forte para se manter a longo prazo e realmente entregar os frutos maduros (ou podres mesmo) dessa árvore mutante. 

Mas é isso aí, a Escória começou desconhecida e agora até que tem uma certa visibilidade. A principal lição disso tudo é se manter verdadeiro com o objetivo inicial: divulgar o quadrinho tosco, podre e radical. 

Rapaz, acho que o principal aprendizado nesses cinco anos foi encontrar o meu “papo furado interior de vendedor” e pôr em prática essa arte da mentira. Afinal, é tudo uma questão de saber entreter o cliente o tempo suficiente para que meus comparsas possam roubar suas carteiras. 

Suspeito que a primeira vez que conversamos pessoalmente foi em alguma feira de quadrinhos. Para mim, a Escória é um desses selos muito associados a eventos de HQs e publicações independentes. Como está sendo para a editora esse quase um ano e meio sem eventos por conta da pandemia?

Com certeza foi em um ambiente insalubre desses que tivemos nosso encontro cósmico. Ter uma editora é só uma desculpa para ir nas feiras e eventos e dar rolê, conhecer lugares novos, se embebedar com novas bebidas e ainda conseguir pagar uma parte dos custos dessa mini-férias vendendo gibi podre. Ou seja, está sendo uma merda essa vida sem fazer o que realmente importa que é diversão e curtição.

Agora, em relação à editora, as feiras e os eventos são muito importantes para o ecossistema da produção independente. Porém, nunca quis depender delas para encontrar meu público, então sempre mantive uma divulgação constante nas redes sociais. As vendas no site aumentaram um pouco na pandemia e foi o suficiente para manter a editora rodando e lançando material novo, que também é o que importa. 

“Sempre fui ativo nas redes sociais, não queria depender somente das feiras”

A capa de Esgoto Carcerário, HQ de Emilly Bonna publicada pela Escória Comix (Divulgação)

E apesar dessa presença constante da Escória em feiras, você também sempre foi muito ativo em redes sociais, divulgando as suas publicações. Imagino que esse trabalho nas redes ganhou um outro peso desde o início da pandemia, certo?

Exatamente, sempre fui ativo nas redes sociais porque não queria depender somente das feiras. Mas é engraçado porque no começo eu tinha a ideia de também procurar outros meios de divulgação para não depender apenas das redes sociais também, isso foi por água abaixo. O que antes era uma parte importante, mas não exatamente o principal foco, acabou se tornando o principal foco durante a pandemia. Resta apenas gerar conteúdo infinito para o deus algoritmo do Instagram, rezando para que as novidades da editora continuem chegando aos fiéis leitores.  

E qual é a situação da Escória hoje? O selo é autossustentável?

QUASE. Como disse anteriormente, falta bem pouco pra que isso aconteça. Pode não parecer grande coisa, mas, cara, esse lance é significativo demais. Uma editora de quadrinhos podres nacionais, gerenciada por um desenhista preguiçoso e desorganizado, estar prestes a se pagar e ainda gerar grana suficiente pra rodar sozinha é um feito e tanto. Eu mereço o Nobel da Paz ou o Lobo de Ouro, no mínimo, não acha? Sei que muita gente ainda acha piada tudo que eu faço ou não da valor, mas foda-se, porque fatos são fatos e a realidade é que a situação da Escória hoje é QUASE boa e isso ninguém me tira. 

Quantos títulos a Escória publicou até hoje? Tem algum título do catálogo da Escória que tem algum significado especial para você? Alguma obra que tenha um peso mais marcante para a história do selo?

Porra bixo, eu queria contar certinho pra saber mas vou arredondar, por volta de uns 30 títulos. E com certeza, o quadrinho divisor de águas para a história do selo foi o Úlcera Vortex – Volume I, do Victor Bello. 

Acho que a obra que realmente chamou minha atenção para o seu trabalho foi a primeira edição de Úlcera Vórtex. O que esse título representa para a história da Escória? O que você vê de mais especial no trabalho do Victor Bello (e não me refiro apenas ao Úlcera, no geral mesmo)?

Olha aí, não disse? Úlcera Vortex, do Victor Bello, é foda. Eu não sei o que seria da Escória sem esse lançamento, devo tudo ao Bello. Cara, ele é o melhor quadrinista dessa porra toda e ponto final. Não tem chororô, o jogo acabô!!! É isso mano, Quintanilha meu cu, Victor Bello que é o rolê.

Veja bem, o dia que tu me mostrar um quadrinista que consegue juntar todo aquele caldo de referências nostálgicas de filmes trash, videogames e desenhos animados, sem parecer um nerd bosta que fala easter egg, e misturar tudo com personagens memoráveis e carismáticos, saídos diretamente da realidade brasileira, sem parecer uma novela da Globo, ainda assim adicionar uma pitada  de ficção científica retardada, num roteiro frenético e alucinante criado coerentemente, com lindos desenhos preto e branco abarrotados de detalhes obsessivos, mas ao mesmo tempo com uma simplicidade acessível e expressiva, inserindo imagens vindas diretamente de um quadro de Grant Wood, com a naturalidade de quem entendeu tudo, e conseguir contar histórias extremamente divertidas, aí sim eu posso pensar duas vezes. Mas, mesmo assim, vai ter que ser um quadrinista que tem uma frequência na produção e que vive uma vida honesta, longe das drogas, cuidando de suas queridas galinhas e que quando menos você esperar lance um videojogo de texto chamado 5 DIAS COM TONY BUMBUM!!! 

“Precisei encontrar um jeito de  fazer a máquina funcionar, com muita tralha e zoeira” 

Página de Nóia – Uma História de Vingança, HQ de Diego Gerlach publicada pelos selos Escória Comix e Vibe Tronxa Comix (Divulgação)

E acho que publicar um quadrinho do Diego Gerlach, Nóia, também teve algum peso, porque era você investindo em um autor já conhecido das HQs nacionais. O que significou para você publicar o Nóia? O que esse título representa para o catálogo da Escória?

Eis aí a outra pedra fundamental da história da editora, o icônico NÓIA, do Gerlach, lançado em conjunto com a editora dele, Vibe Tronxa Comix. Significou credibilidade para a Escória, afinal se o cultuado, nos círculos internos, Diego Gerlach, estava sendo publicado por essa nova editora, alguma coisa ela deve ter, talvez milhões para investir nas contas offshore do magnânimo.

Certamente a editora foi posta à vista naquele momento, aos olhos de alguns figurões reptilianos da indústria dos gibis nacionais. Eu, particularmente, gosto muito do NÓIA porque é um gibi divertido, com um ritmo acelerado, que entrega justamente uma história de vingança e é isso, simples. E é um puta quadrinho. Claro que tem toda aquela história de usar a imagem do Cebolinha com cabelo de maconha ,mas é tudo parte do apelo sensacionalista de marketing agressivo, o que importa mesmo é que, com NÓIA, a Escória Comix conseguiu pôr na prateleira da locadora aquele VHS que pode ser alugado todo fim de semana e ainda vai ser diversão para a família toda.

Uma autora que você publicou e eu queria ler mais trabalhos dela é a Emilly Bonna. Como você chegou nela? O que você vê de mais especial no trabalho dela?

Eu também queria. Acredite, sempre que posso encho o saco dela pra fazer mais quadrinhos. 

Foi o Luiz Berger que me mostrou o instagram dela, na época de nome NECROSE. Continha alguns desenhos podres bem lindos e foi paixão à primeira vista pelo trabalho dela. Mandei mensagem perguntando se ela tinha interesse em fazer um  quadrinho pra Escória, acho que na época ela tava sem ideia, mas depois de um tempo acabou rolando o maravilhoso ESGOTO CARCERÁRIO. Caramba, que gibi divertido né? Um dos meus preferidos.

Bixo, ela tem aquele senso de humor particular que envolve uma dose grande de nojeira e perebas, com um existencialismo singelo que é como uma flor de lótus carnívora que desabrocha num aterro sanitário atrás da sua casa. Dá vontade de abraçar todas aquelas criaturas gosmentas que ela desenha e sentir o fedor de pertinho, até ele corroer suas narinas. E tudo isso com um estilo autêntico de desenho que é claramente de alguém que se diverte e curte o que está fazendo. 

Queria saber mais também sobre a sua relação com o Fabio Vermelho. Eu já conhecia os trabalhos dele pela Weird Comix, mas acho que foi o lançamento do Dr. Milton que chamou atenção para a produção dele – e 400 Morcegos, depois, foi um dos meus títulos preferidos do ano passado. Enfim, como você conheceu o trabalho dele? O que você vê de mais especial nos quadrinhos dele?

Eu acho que tinha visto alguma coisa  dele numa Revista Prego ou até mesmo depois, na Revista Pé-de-Cabra, mas estava tudo em inglês. E apesar de ter gostado do desenho com mil hachurinhas eu tinha preguiça de ler, mas foi o Panhoca [editor da Pé-de-Cabra], que disse que valia à pena trocar uma ideia com o doido e eu mandei mensagem pelo instagram mesmo, perguntando pra ele se tinha interesse em lançar algo em PORTUGUÊS pela Escória e o Fábio topou. Porra, o puto ia ficar só fazendo revista pra gringo? Tinha que lançar alguma coisa pra gente ler também e o maldito é daqueles maníacos que tem tesão em desenhar, saca? Depois que mandei umas ideias pra ele desenvolver e fechamos a ideia geral do Dr.Milton ele desandou a desenhar, sem saber onde ia parar, e deu no que deu, um belo romance gráfico, também conhecido como gibi de putaria, com 150 páginas.

Eu vejo de especial essa insanidade pelo desenho que ele tem e também como ele consegue fazer um novelão banal com finais péssimos, mas mesmo assim você curte a viagem, esperando aparecer alguma putaria doida ou desmembramento. 

Entre as suas publicações de 2021 estão o Máquina Assassina, da Riotsistah, e o Jimmy Pizza, do Atópico. São artistas que nunca tinham publicado nada impresso de quadrinhos. Como você chegou nesses dois autores?

Duas grandes surpresas e ótimas pessoas. No caso da Riotsistah, eu não conheço ela pessoalmente, conheci o trabalho dela pelo Instagram. Ela é leitora da escória já faz um tempo e estava sempre lá nas redes sociais, curtindo os gibis da firma. Vi que ela desenhava e, principalmente, curtia umas coisas locas (filmes trash no geral), então faltava apenas um incentivo para se criar o monstro (quadrinista), mandei mensagem perguntando se ela faria um quadrinho. Acho que na época ela tava sem ideia, mas se interessou e, felizmente, um tempo depois, ela conseguiu fazer seu primeiro quadrinho, MÁQUINA ASSASSINA, um gibi divertido que entrega o sexo com lagartos que promete na capa. Já o Atópico também é leitor da Escória faz tempo, mas esse caba eu conheci pessoalmente em alguma feira ou lançamento de quadrinhos. Depois de trocar ideia, ver que ele tinha os parafusos a menos necessários e desenhava, soube que poderia ser um futuro autor de quadrinhos. Ele tinha interesse em fazer algum gibi e eu sempre disse ‘faz aí e depois nois vê!’ e para a nossa alegria ele fez um puta gibi loco, fritado, com uma história maluca de gangue de pizza e magia retardada, então lancei a braba.

Acho que os dois são exemplos de autores que tiveram uma influência direta da Escória e o fato de nunca terem publicado nada antes não faz diferença nenhuma. O que importa é que eles fizeram bons quadrinhos e entenderam a proposta da editora. E espero que continuem fazendo muitos outros quadrinhos, sejam publicados pela Escória ou não. 

“Um sonho é conseguir publicar alguma coisa da Escória na gringa. Quem sabe?” 

A capa de 400 Morcegos, obra de Fábio Vermelho publicada pela Escória Comix (Divulgação)

É bem evidente esse seu olhar para novos artistas, para autores com pouca experiência e que muitas vezes nunca publicaram nada. Como você equaciona o risco de investir em alguém que nunca foi publicado? Emendo outra sobre o tema: é importante para você investir nesses artistas sem histórico de publicações?

Vejo principalmente se a pessoa tem o potencial e a vontade para continuar crescendo e desenvolver o próprio trabalho. O primeiro quadrinho não tem que ser perfeito ou excelente, mas se tiver qualidade e potencial as pessoas vão ficar de olho nos próximos lançamentos daquele autor, que com o tempo vai  amadurecendo e aí teremos ótimos quadrinhos para ler.

É extremamente importante investir em novos autores, assim a gente mantém a produção de quadrinhos variada, possibilitamos ótimos quadrinhos, novas surpresas aparecem por aí e com o tempo geramos novos quadrinhos fodas. E também penso nos milhões que vou ganhar quando emprestar o autor da categoria de base pra jogar no Barcelona. 

Eu compreendo o seu humor e acho divertidos os brindes e o material de divulgação que você produz – e acredito que isso tudo contribuiu muito para a manutenção da Escória ao longo desses cinco anos. Mas acho que isso tudo só funciona e só faz sentido porque você publica bons quadrinhos. Enfim, o que quero saber: é difícil administrar a imagem da Escória? Como você concilia o combo zoeira+podreira com o seu trabalho editorial?

Pra variar, é tudo misturado na minha cabeça, mas eu nunca pensei em administrar a imagem de nada, simplesmente tento me manter na linha do que eu curto e me divirto. E acredito que a consequência disso é a Escória permanecer coesa. O foco é nos quadrinhos e todo o resto é ferramenta para divulgar e conseguir grana para as publicações. Beleza, você pode comprar um bonézinho engraçadinho no site, e eu quero mais que você faça isso mesmo, mas, por favor, tente ler os quadrinhos também, são eles que importam. Mas é isso, né? Precisei encontrar um jeito de  fazer essa máquina funcionar e é com muita tralha e zoeira, mas pode analisar friamente aí o trabalho editorial e você vai ver que a editora permanece na ativa, lançando um material de qualidade, 100% independente e nacional. É o puro creme do milho, não deixe as piadinhas ofuscarem todo esse ouro da sétima arte. 

Como você vê o futuro da Escória Comix? Você administra a editora pensando o quanto à frente? Quais são seus planos para os próximos anos? Você pode adiantar algum título que planeja publicar ou autor com quem pretende trabalhar?

Tenho várias ideias e caminhos que posso seguir daqui para frente e vai depender de como as coisas andam. Por exemplo, existe o sonho de criar uma loja física em algum momento. Ou transformar a Escória num buteco, só lançar um título por ano e olhe lá. Ou talvez virar uma produtora de filmes B semi-eróticos e vender os direitos para Bollywood. Outro grande sonho é conseguir publicar alguma coisa da Escória na gringa, mas não fui atrás disso ainda com o devido afinco. Quem sabe? Veremos, mas por enquanto tento pensar apenas no ano seguinte, afinal muitos quadrinhos demoram pra ficar prontos. Então pra ter algum lançamento parrudo no ano que vem eu preciso já negociar agora.

Falando especificamente de 2022, tenho um grande lançamento aí do Victor Bello, não vou dizer nada sobre ele por enquanto, e gostaria de tentar desenhar alguma coisa pro ano que vem também.  Existem sim alguns autores que eu gostaria muito de lançar e já conversei com eles, mas é uma vida corrida, de muito trabalho, e nem sempre rola definir datas, mas eles sabem que tenho o interesse e quando tiverem a idéia é só chegar chegando que a gente vai fazer um puta lançamento foda. Por enquanto só  posso adiantar o Bebês Maníacos da Lagoinha, que sai ainda esse ano, e é do Fábio Vermelho, a criatura já está trabalhando nessa obra horrível.  

Você poderia recomendar algo que esteja lendo, ouvindo ou assistindo no momento?

Leiam As Veias Abertas da América Latina, do Eduardo Galeano. Recomendo a banda Sakuran Zensen e assistam Wet City no YouTube.

Arte de divulgação de Úlcera Vórtex, obra de Victor Bello publicada pelo selo Escória Comix (Divulgação)

Entrevistas / HQ

Papo com Amanda Miranda, autora de Aparição (Ugrito #24): “O que mais impactou o roteiro foi o sentimento angustiante de, praticamente todos os dias, ouvir algum caso de feminicídio”

Conversei com a quadrinista Amanda Miranda sobre Aparição, 24ª edição da Coleção Ugritos. Esse meu papo com a autora virou o foco da 20ª Sarjeta, minha coluna mensal sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. Você lê o meu texto clicando aqui. Lá eu trato das origens da HQ e apresento algumas falas da autora sobre o desenvolvimento da obra – além de comentar as duas edições prévias dos Ugritos.

Compartilho agora a íntegra da minha entrevista com a quadrinista. Ela falou um pouco sobre as técnicas usadas por ela, expôs algumas de suas preferências no gênero de terror, comentou o formato dos Ugritos e refletiu sobre as peculiaridades de fazer horror em HQ. Então faça assim: leia o meu texto, leia Aparição e leia a minha entrevista com Amanda Miranda. Papo bem massa, saca só:

“Me interesso demais por tensão e lacunas”

Quadro de Aparição, Ugrito da quadrinista Amanda Miranda (Divulgação)

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

Essa eu nem queria responder, sinceramente hahaha Não estão boas, continuo muito preocupada com a saúde da minha família, ano passado perdi uma pessoa próxima, enfim. Um desgaste emocional enorme. Mas poderia estar pior, né? Sempre pode.

Imagino que o formatinho fixo da coleção Ugritos acabe tendo algum impacto no desenvolvimento das histórias. Você já tinha em mente a história de Aparição quando foi convidada para participar da coleção ou ela foi desenvolvida a partir desse convite?

Eu já estava pensando em fazer uma história que fosse mais próxima da minha vida há algum tempo, tocando no interior de São Paulo, a influência pesada do cristianismo nos anos de formação, etc. Mas Aparição foi escrita pensando no Ugrito, mesmo. Tentando criar uma história que funcionasse nesse formato pequeno e curtinho. De maneira aleatória me lembrei dessa notícia sobre a aparição da imagem de uma santa na janela de uma casa, lembro de ver isso na TV quando era criança, a partir dessa lembrança comecei a escrever o roteiro.

E como foi para você trabalhar nesse formatinho dos Ugritos? Qual foi o impacto desse formato para o desenvolvimento do seu quadrinho?

Foi um desafio! muito tempo que eu não pensava num grid de página que desse certo para o formato A6. Mesmo assim, achei bem divertido.

“O horror funciona melhor em mídias que dispõe de maior controle na experiência do público”

Página de Aparição, Ugrito da quadrinista Amanda Miranda (Divulgação)

O que mais te atrai em uma história de horror? O que você considera essencial para uma boa história de horror?

Como é um dos meus gêneros favoritos, eu assisto e leio praticamente qualquer coisa. Mas no meu filtro de referências, me interesso demais por tensão e lacunas. Dar espaço para o leitor participar da narrativa e se relacionar com a história de maneira mais subjetiva. Entre meus subgêneros favoritos entram o horror psicológico, o body horror e as produções experimentais e de baixo orçamento dos anos 70.

E o que você considera mais desafiador em contar uma história de horror em quadrinhos?

O horror funciona melhor em mídias que dispõe de maior controle na experiência do público, quando entrávamos em uma sala de cinema estavamos entregues à própria sorte.  Em HQ é um pouco mais difícil fazer a grande revelação ou tentar assustar de súbito o leitor. Mas é possível causar impacto usando de outras ferramentas narrativas, envolvimento, virada de página, etc. Dentro da técnica de viradas o [Junji] Ito é um mestre, mas tendo a me interessar mais pelo formato do Suehiro Maruo, que assusta através do absurdo, incômodo, desagradável.

Teve alguma obra (filme, música, livro, hq ou o que for) com algum impacto em particular em você durante o desenvolvimento desse quadrinho? Como a nossa atual realidade sócio-econômica-pandêmica influenciou esse seu trabalho? Pergunto tendo em mente as suas várias investidas recentes em trabalhos com ilustrações editoriais para publicações jornalísticas. Imagino que você esteja bastante alerta a tudo que tá rolando no mundo…

Posso citar em HQs: Encruzilhada, do Marcelo D’Salete, e Pretending is Lying, da Dominique Goblet. Na época estava acompanhado uma seleção de documentários da Criterion Collection chamado Tell Me: Women Filmmakers, Women’s Stories e durante toda criação do quadrinho pensei na música Fio de Cabelo, do Chitãozinho e Xororó.

Mas o que mais impactou o roteiro foi o sentimento angustiante de, praticamente todos os dias, ouvir no jornal regional algum caso de feminicídio. Um em específico marcou por ter acontecido no meu bairro, onde um cozinheiro assassinou a ex-esposa na frente dos filhos e depois se suicidou.

Muito tem se falado nos últimos anos sobre novas investidas no gênero de terror no cinema – penso nos filmes do Jordan Peele e da produtora A-24, por exemplo. Vi um pouco dessas propostas, mais pé no chão e psicológicas, no seu Ugrito. Faz sentido? Você se vê influenciada por essas produções?

Sinto que desde Anticristo do Lars Von Trier aconteceu um aumento significativo nas produções que focam nesse horror meio cético e cínico, às vezes só atmosférico (como alguns da A-24), ou de cunho explicitamente político (no caso do Peele). Acompanho e gosto de alguns. A produção brasileira também está bem interessante, gosto muito dos filmes da Gabriela Amaral Almeida e da Juliana Rojas. Mas a maioria das minhas referências e inspirações vêm de filmes antigos, a primeira fase do [David] Cronenberg, a histeria do [Andrzej] Zulawski, a violência desregrada dos anos 70 e até produções mais sutis que nem chegam a entrar 100% no gênero como A Mulher Sem Cabeça da [Lucrecia] Martel.

“Gosto de escrever pensando nas cenas, costurar essas imagens que estão na minha cabeça com texto”

Página de Aparição, Ugrito da quadrinista Amanda Miranda (Divulgação)

Você pode me falar, por favor, um pouco sobre as técnicas e materiais que usou na produção desse Ugrito?

Escrevo no papel, desenho tudo no digital. Pra essa história quis testar uma arte final mais expressiva e próxima do rascunho, mantendo imperfeições.

Não sei se essa pergunta vai soar meio abstrata… Eu queria saber qual é a sua abordagem em relação a uma página? Nesse Ugrito, por exemplo, você trabalha com quadros e também com duplas compostas por um painel único reunindo várias cenas. Como você pensa e chega nessas soluções gráficas? Você chegou a finalizar um roteiro antes de elaborar as artes desse quadrinho?

A inspiração varia, mas sempre vêm o texto antes. Não chega a ser um roteiro todo formatado, mas gosto de escrever pensando nas cenas, costurar essas imagens que estão na minha cabeça com texto, pra daí desenhar. Sempre faço as páginas como se fossem duplas, mesmo quando não são. Gosto de ter a visão completa do que o leitor verá quando a página virar. 

Última! Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Essa semana assisti Jardim de Guerra, do Neville D’Almeida, e gostei muito. Reforço a recomendação de Pretending is Lying, da Dominique Goblet, queria ver esse publicado no Brasil. Voltei a ouvir com frequência o DUMMY, do Portishead.

A capa de Aparição, Ugrito da quadrinista Amanda Miranda (Divulgação)


Entrevistas / HQ

Papo com Galvão Bertazzi, autor Olívia Foi Pra Lua: “O Galvão autor de livro infantil foi um espasmo fofo da minha natureza”

É explícito o contraste entre o Galvão Bertazzi autor da série Vida Besta e o Galvão Bertazzi autor do livro infantil Olívia Foi Pra Lua. Os traços e as cores são os mesmos, mas fica de lado o que o autor chama de sua versão “noiada-paranóica-apocalíptica”, presente nas tiras dele, e vem à tona uma personalidade mais otimista e poética do quadrinista.

Com lançamento previsto para junho de 2021 pela editora Beleleu, Olivia Foi Pra Lua está atualmente em campanha de financiamento coletivo no Catarse. O projeto já alcançou a meta estabelecida para sua publicação, mas continua no ar até o dia 22 de maio de 2021.

Inspirada em uma história contada por Bertazzi para a filha dele antes de colocá-la para dormir, o livro infantil narra o empenho da jovem Olivia em viabilizar uma viagem pessoal para a lua. A arte sempre gritante do autor talvez seja o elemento mais emblemático da obra, mas chamo atenção para a missão bem-sucedida autoimposta por Bertazzi em não subestimar seu público infantil.

Conversei com Bertazzi sobre o ponto de partida e o desenvolvimento de Olívia Foi Pra Lua, suas inspirações por trás da obra e a experiência de ocupar o espaço de Laerte durante o período da autora se recuperando de COVID-19. Papo bem bom (assim como as conversas que tivemos em 2017 e 2019), saca só:

“Um bom livro infantil não subestima a criança”

Página de Olivia Foi Pra Lua, livro infantil do quadrinista Galvão Bertazzi (Divulgação)

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

As coisas estão loucas. Eu estou louco. Perdi a noção de tempo, de espaço. Tenho crianças em casa que pararam de ir pra escola, eu e minha companheira dividimos o tempo de home office, as contas não param, os trabalhos deram uma embananada completa, mas ainda sim consigo desenhar bastante, pintar e tocar guitarra e aos poucos essa anormalidade foi se tornando normal. Eu sou um puta privilegiado por morar numa casa com quintal, mato e espaço pra respirar e pensar. Mas essa coisa de não poder sair quando quer, fazer o que quer é um treco muito bizarro. Resumo, tá tudo louco de forma normal-anormal.

Você contou que o ponto de partida de Olivia Foi Pra Lua é uma história que você contava para a sua filha. Mas como foi o processo de transformar essa história em livro. O quanto da história original se manteve? Como foi essa adaptação de uma história oral para uma versão ilustrada e escrita?

A história original está praticamente ali, o que foi trabalhado e lapidado foi o texto. Me lembro de ter contado essa história pra Olivia, numa noite e enquanto eu estava botando ela pra dormir me veio o estalo: “Um livro infantil!”. O que até o momento era uma coisa que eu ainda não havia feito.

Me lembro dela pegar no sono e eu correr pro computador pra digitar as ideias iniciais e alguns desenhos rápidos do que logo depois seriam as ilustrações. A coisa toda deve ter durado uma semana mais ou menos. Eu tenho essa coisa de não fazer rascunhos antes de começar a desenhar, eu acabei trabalhando assim no processo do livro, tanto com os textos quanto ilustrações.

Eu ia escrevendo cada página e já desenhando o traço. Uma coisa que eu botei na cabeça foi fazer um trabalho meu, sem interferência de críticas, sugestões ou qualquer coisa externa. Eu não queria desconstruir narrativa e muito menos desenho. Foi pura diversão e a coisa fluiu rapidamente de um jeito legal. O texto foi a parte mais trabalhosa porque eu tenho uma tendência a ser verborrágico e ululante (como você pode notar nas minhas respostas). Eu gosto disso, mas tive que ir aceitando que é uma obra infantil, então precisei ser mais comedido

Essa não é a sua primeira experiência com obras infantis, certo? O que você considera mais essencial em uma obra voltada para crianças? Tem algum elemento que você acha que não pode ficar de fora de um livro ou uma HQ infantil?

Eu já ilustrei muitos livros infantis, mas nunca havia me aventurado em escrever e ilustrar. Um bom livro infantil é aquele que não subestima a criança. Eu sou pai de dois filhos, sabe? Uma das coisas que primeiro aprendi nessa maluquice de ser pai é que os moleques, desde muito cedo já estão atentos e compreendem (do jeito deles, claro) o mundo ao redor. E a gente aprende muito mais com eles do que o contrário. Então a primeira coisa que descartei foi a necessidade de passar alguma lição de moral, apresentar valores morais ou essa coisa clássica de enfrentar um grande obstáculo para se conseguir um objetivo final. MInha intenção era deixar tudo fluido e fácil. O mundo real já é chato demais!

“O mundo real é chato demais”

Página de Olivia Foi Pra Lua, livro infantil do quadrinista Galvão Bertazzi (Divulgação)

Acho que nos últimos meses, devido a todo o contexto social-político-pandêmico que estamos vivendo, as suas tiras têm ecoado sentimentos de cansaço, frustração e raiva. Fico curioso: é muito difícil para você desligar o modo Galvão-tiras para o Galvão-autor de livro infantil?

O Olivia Foi Pra Lua foi escrito em 2018, ou seja, nem em minhas previsões mais absurdas sobre o futuro eu poderia imaginar que estaríamos afundados nessa pandemia e o pior, essa pandemia no Brasil. O Galvão autor de livro infantil até o momento foi um espasmo fofo da minha natureza, coisa que ainda não se repetiu. Eu tenho trabalhado em passos lentíssimos num outro livro infantil, mas ao contrário do Olivia Foi Pra Lua que nasceu num lampejo, este está mais demorado que a encomenda.

Então, para todos os efeitos, eu sou apenas o Galvão-noiado-paranóico-apocalíptico-das-tiras-de-humor-duvidoso.

Você pode contar um pouco, por favor, sobre a concepção do projeto gráfico do Olívia Foi Para a Lua?

Os desenhos e as cores meio que já apareciam prontos na minha cabeça a medida que eu escrevia os textos. Os dois foram nascendo juntos e de certa formas resolvidos.  O que eu quis foi usar todo o repertório que eu tenho pra desenhar: linhas, cores, personagens e cenários absolutamente dentro do meu universo pictórico, então tudo surgiu naturalmente. Se eu ficasse preocupado demais em desconstruir desenhos, formas, abstrair as coisas eu teria travado e provavelmente o livro nunca ficaria pronto.

Agora, o pulo do gato partiu da Editora Beleleu. O editor Tiago Lacerda teve uma puta sacada em resgatar aqueles bonequinhos de papel destacáveis, muito comuns em revistinhas e livros infantis dos anos 80, juntamente com um cenário que pode ser montado. É uma coisa simples e que ficou LINDO de morrer. Vai ser um materia legal de se ter em mãos!

“Quis usar todo o repertório que tenho para desenhar”

Uma arte de divulgação de Olivia Foi Pra Lua, livro ilustrado do quadrinista Galvão Bertazzi (Divulgação)

Vi algo de Space Oddity do David Bowie no seu livro, faz sentido?

SIM! Space Oddity estava realmente rolando no repeat nessa época. Aliás Bowie está sempre tocando por aqui.

Você recentemente substituiu a Laerte nas tiras diárias da Folha enquanto ela se recuperava da COVID-19. Como foi essa experiência?

Primeiro, vou usar uma frase que to usando todas as vezes que me perguntam isso. A Laerte é insubstituível! Ou seja, o que eu fiz foi quebrar um galho, enquanto ela se recuperava desse vírus maldito.

Foi uma montanha russa de emoções porque não escondo de ninguém meu desejo de publicar diariamente naquela seção de tiras da Folha, mas levando em conta as circunstâncias, tudo que eu queria era honrar aquele espaço e devolver logo o espaço pra ela. E ufa!! Tudo terminou bem, publiquei umas tiras muito legais e a Laerte voltou melhor do que antes!!

Última! Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Eu gostaria de recomendar muito os livros da Editora Pé de Cabra. Com certeza é um material pros adultos, mas na minha cabeça, é a editora mais bacana da atualidade.

Acabei de receber o último lançamento, o Tiger Fist. Uma HQ divertidíssima e cheia de ação saída da cabeça do Gabriel Góes e desenhada por um time de quadrinistas fantásticos. Conseguiram resgatar com primasia esse gênero, estilo filmes de ação! Acho que tô um pouco de saco cheio de tanta HQ filosófica-existencial, então pra mim foi um prazer ter esse gibi na mão. Recomendo!

A capa de Olivia Foi Pra Lua, livro infantil do quadrinista Galvão Bertazzi (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Paulo Floro, coeditor da revista Plaf: “Existe um desejo legítimo de editores e público de fortalecer a relação entre os quadrinhos latino-americanos”

A quinta edição da revista Plaf está impressa. Uma das principais publicações de jornalismo sobre quadrinhos do país, a revista tem como foco em seu mais recente número a rodução latino-americana de HQs. A arte da capa é do quadrinista Rogi Silva, autor de Pumii do Vulcão, Não Tenho Uma Arma, Aterro, Mergulhão, Planta e Pedra Pome. Assim como fiz na época do lançamentos dos quatro números prévios, voltei a conversar com um dos editores da Plaf para tratar da produção e do conteúdo dessa nova edição.

O papo dessa vez foi com o jornalista Paulo Floro, coeditor da revista junto com Dandara Palankof e Carol Ameida e editor do site Revista O Grito (casa virtual da Plaf). Ele falou sobre a dificuldade de produzir esse quinto número em meio à pandemia do novo coronavírus, expôs algumas de suas reflexões sobre quadrinhos latino-americanos e adiantou um pouco sobre o andamento da sexta edição da Plaf.

Além de HQs inéditas de Rogi Silva, Puiupo, Jessica Groke, Talles Molina e Jarbas, a Plaf #5 ainda apresenta resenhas, entrevista com a quadrinista equatoriana-colombiana Powerpaola, matéria sobre a ida de Will Eisner a Recife para o Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de 2001 e um perfil da letrista Lilian Mitsunaga. Confira a seguir a minha conversa com Paulo Floro, um dos editores da Plaf:

“A revista está permeada pela memória de um mundo em transição”

Trecho da HQ de Jéssica Groke publicada na quinta edição da revista Plaf (Divulgação)

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a produção desse quinto número da Plaf?

Valeu demais por perguntar! Então, eu estou vivendo uma montanha-russa de emoções como a grande maioria das pessoas. Reflete muito essa falta de perspectiva sobre a saída dessa situação, a depressão que é esse desgoverno irresponsável, a falta de empatia das pessoas, a banalização da morte. Mas, na real me sinto realmente sortudo, pois todos na família estão bem de saúde, isolados e protegidos na medida do possível. Mas tem momentos que é difícil, sobretudo com crianças pequenas em casa, isoladas e angustiadas. É bem mais complicado com crianças, mas estamos felizes de estarmos em segurança.

A Plaf 5 demorou muito mais tempo pra fechar por conta da pandemia, pois demoramos a ajustar as dinâmicas da nossa vida à edição da revista. Além disso, a gráfica que contratamos passou um longo período parada ou em um ritmo menor por conta dos decretos de restrições à Covid-19 aqui no Estado. Enfim, foi um desafio, mas estamos bem felizes com o resultado.

Imagino que cada edição da revista tenha suas peculiaridades e desafios específicos. Você destaca ou chama atenção para alguma experiência específica relativa a esse quinto número da revista?

Essa edição foi cercada de expectativa, pois quando começamos a editá-la tínhamos a ideia de levar ao FIQ e à Bienal de Quadrinhos, ambos cancelados por conta da pandemia. Nossa ideia era chegar nesses eventos com bastante força e por isso até imprimimos uma nova tiragem da primeira edição, que estava esgotada. O tempo todo ficávamos “será que tudo isso vai passar rápido”, etc, aquela indefinição seguida do choque de que tudo era bem mais sério do que imaginávamos. Então, a 5 é muito permeada por essa memória de um mundo em transição. Quando vi a edição saindo da gráfica bateu aquela emoção de ter conseguido finalizar algo, palpável, bonito, depois de um ano tão difícil.

“Encontramos mais elementos em comum do que divergências em relação à produção de HQs no continente”

As páginas de abertura da matéria de capa da quinta edição da revista Plaf (Divulgação)

A matéria principal dessa quinta Plaf trata de quadrinhos latino-americanos. Você chegou a alguma conclusão maior ou tirou alguma lição em particular referente às HQs latino-americanas ao escrever essa matéria? Você vê algum elemento em comum ou alguma unidade quando falamos de HQs latino-americanas?

Fazer essa reportagem foi muito difícil, mas ao mesmo tempo bem prazeroso. Além disso, gosto de fazer essas matérias a seis mãos (ao lado de Dandara Palankof e Carol Almeida, que editam a revista comigo). Nós partimos de uma pauta aparentemente simples – a “falta” de conexão entre as cenas de quadrinhos dos países latinos que falam espanhol e o Brasil – mas depois descobrimos que o assunto é bem mais complexo do que isso. Envolve questões históricas, editoriais e sociopolíticas que vão bem além da tal barreira linguística.

Encontramos bem mais elementos em comum do que divergências em relação à produção de quadrinhos no Continente e acredito que existe um desejo legítimo de editores e público de fortalecer essa relação. Dá pra perceber pelo aumento do número de lançamentos, o que reflete o amadurecimento do mercado, mas também pelo maior entendimento sobre nossa identidade e de nossos pontos em comum.

Página da HQ de Rogi Silva publicada na Plaf #5 (Divulgação)

Gostei muito da capa dessa quinta edição. Aliás, acho que o Rogi Silva tá numa fase especial. Por que chamá-lo para ilustrar essa capa? Qual foi a encomenda que vocês fizeram para ele para esse trabalho? O que você vê de mais especial na arte dele?

Somos fãs do trabalho de Rogi e nos dá um orgulho danado tê-lo na capa da Plaf em um momento tão especial da carreira dele. Sei que ele está produzindo uma HQ longa, ou seja, vem coisa muito boa dele por aí. Ficamos amigos de Rogi e já trabalhamos com ele em outros projetos: ele coassinou a HQ online “Gemini”, organizada pelo O Grito! e o Consulado da França no Recife durante uma residência em Nantes e as artes dos Melhores de 2020. Amo como a arte dele evoluiu para um traço mais fluido e experimental, que explora o componente espacial da linguagem dos quadrinhos. Mas é um artista muito versátil. Os gibis independentes dele que saíram em Pedra Pome são lindos e têm um roteiro afetivo e biográfico que conecta o leitor de uma maneira muito especial.

Como sempre fazemos com os artistas que assinam a capa apenas informamos a reportagem de capa da edição, mas sem entregar muitos detalhes. Já gostávamos do trabalho de Rogi, mas a ideia de chama-lo partiu muito da nossa vontade de trazer um artista pernambucano de destaque na nova cena de quadrinhos daqui. Quando ele nos mandou a proposta de capa ficamos maravilhados. Na real, sem falsa modéstia, gostamos muito de todas as capas da revista até agora, lindas.

“Acho importante fortalecer eventos que destacam a produção local”

Quadro da HQ de Talles Molina publicada na Plaf #5 (Divulgação)

Gostei muito da matéria sobre o Festival Internacional de Humor e Qquadrinhos. A última edição do festival foi em 2007, mas parece se tratar de algo de um passado ainda mais distante. Você vê possibilidade de um evento assim voltar em um futuro próximo pós-pandemia?

Em toda reunião para compor uma nova edição a gente sempre tenta buscar uma pauta que traga alguma história sobre a memória da cena de quadrinhos e essa vinda do Eisner ao Recife era algo que sempre atiçava nossa curiosidade. Hoje nos parece tão surreal ter um nome como Eisner no Recife, mas houve uma época em que o Brasil contava com vários eventos voltado para os quadrinhos mais, digamos, autorais e o FIHQ era um dos mais importantes. Fui em várias edições e o clima era muito bom, conheci muitos artistas incríveis. O modelo de negócios das comic cons ainda não tinha chegado por aqui.

Recife (e o Nordeste como um todo) é muito carente de eventos de quadrinhos, o que é uma pena pois temos muitos autores talentosos e sabemos da importância que esses espaços presenciais promovem para o fomento da produção e consumo. Existiam algumas movimentações para pensar em um evento, mas tudo entrou em pausa por conta da Covid. Acho super importante fortalecer esses eventos que destacam a produção local e olham para as HQs como um produto artístico, como o FIQ e a Bienal. Tem consumo também, mas a experiência desses encontros vai muito além disso. Acredito que depois da pandemia tenhamos que ampliar a articulação para um calendário consistente de eventos que envolva festivais e feiras no Nordeste e no Norte do país.

É um desafio enorme fazer jornalismo especializado em quadrinhos”

As duas primeiras páginas da entrevista com a quadrinista Powerpaola publicada na Plaf #5 (Divulgação)

Publicar qualquer coisa impressa no Brasil é cada vez mais difícil. Publicar uma revista de jornalismo sobre quadrinhos me parece ainda mais desafiador. A Plaf está chegando agora ao seu quinto número. Que balanço você faz desse projeto até aqui?

É um desafio enorme, mas ficamos felizes de ver a Plaf tão bem recebida. Tivemos vários contratempos nas quatro primeiras edições que reflete muito essa dificuldade de editar, produzir e distribuir a revista, mas acho que também aprendemos muito nesse processo. E avançamos em muita coisa: temos uma nova loja online, mais robusta e bonita e um novo site onde iremos publicar matérias dos números anteriores e alguns conteúdos exclusivos.

Estamos editando a 6 e 7, mas a 6 está bem adiantada, com capa e quadrinhos já editados. Queremos a partir de agora retomar o nosso plano inicial de ter quatro edições da Plaf ao ano.

Além disso, a Plaf segue como um dos carros-chefe da cobertura de quadrinhos do O Grito!. É um desafio enorme fazer jornalismo especializado em quadrinhos, mas acho que estamos em um momento excelente com colegas incríveis como o Balburdia, o Raio Laser, você aqui com o Vitralizado, sem falar de veteranos como o Universo HQ que seguem em uma fase excelente. Mas ainda há muito a avançar, como uma maior profissionalização, remuneração, etc, mas já avançamos bastante. É um papo que reeeende bastante, envolve muitas questões.

Quadro da HQ de Jarbas publicada na Plaf #5 (Divulgação)

Em que pé tá a produção da sexta edição da Plaf?

A maior parte das matérias estão prontas e em fase de revisão. A capa também – e é linda. É também de um nome novo da cena atual e que também está em um excelente momento da carreira, mas ainda não posso divulgar hehe. As HQs inéditas também. Acabamos de lançar a 5, mas já tô ansioso pra que o público veja a 6.

Última! Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Tenho assistido a muitos filmes, inclusive fazendo um esforço real de ver trabalhos que sempre ouvi falar ou dos quais conheço apenas a estética, como Drácula (1931), O Martírio de Joana Dark, etc. Vejo também muita coisa em família com as crianças, como Príncipe Dragão (excelente), She-Ra e todos do estúdio Ghibli. Também tenho revisto séries e filmes que gosto muito, como forma de dar um reset do excesso de informação. Já revi Community inteiro, Fleabag, Akira e agora estou vendo Parks and Recreation e Arquivo X hehe. De quadrinhos continuo lendo os lançamentos como prioridade, mas criei o hábito de fazer uma pilha com obras que quero reler ou que comprei e nunca li. Tem sido bem legal ter essa leitura mais demorada e desconectada de uma “agenda de trabalho”.

A capa da quinta edição da Plaf, com arte de Rogi Silva (Divulgação)

Entrevistas / HQ

Papo com Rafael Sica e Paulo Scott, autores de Meu Mundo Versus Marta: “As leituras distópicas de nossa realidade são incontornáveis”

Escrevi para o jornal Folha de S. Paulo uma crítica de Meu Mundo Versus Marta, parceria do quadrinista Rafael Sica com o escritor Paulo Scott publicada pela editora Companhia das Letras. Chamo atenção no meu texto para vários dos méritos da obra, uma das minhas leituras preferidas de 2021 até aqui, mas destaco principalmente o espetáculo narrativo em preto e branco de Sica e os paralelos da trama com o Brasil distópico de Jair Bolsonaro. Você lê a minha crítica clicando aqui.

Entrevistei os autores da obra há algumas semanas. A nossa conversa foi focada principalmente na dinâmica dos dois durante o desenvolvimento do quadrinho, mas eles também contaram sobre o início dessa parceria, comentaram alguns dos temas tratados na HQ e analisaram essas semelhanças entre o cenário do quadrinho com a atual realidade sócio-econômica-pandêmica do país. Leia a HQ, depois o meu texto e volte aqui em seguida para conferir essa conversa. Papo massa, saca só:

“O que fizemos não está nem próximo de uma relação roteirista e desenhista”

Quadro de Meu Mundo Versus Marta, parceria de Paulo Scott e Rafael Sica (Divulgação)

Tenho perguntado para todo mundo que entrevisto ao longo dos últimos meses: Como estão as coisas por aí? Como vocês estão lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a produção e a rotina de vocês?

Paulo Scott: Para quem escreve e trabalha em casa não há muita mudança de rotina. Penso, entretanto, que, havendo essa trágica justificativa para ficar trabalhando em casa em tempo integral, a pandemia, o confinamento exigido, facilitou o desenvolvimento de ideias e projetos que demandariam muito mais tempo e foco direcionado em condições de existência normal para acontecerem.

Rafael Sica: Quando começou a pandemia recém tínhamos lançado o livro Triste e foi impossível trabalhá-lo como gostaríamos. Minha produção não foi diretamente afetada pois trabalho em casa e de certa forma já é um tipo de isolamento. O livro Brasil, que desenhei e foi lançado durante a pandemia é um reflexo desse período e, nesse sentido da temática, afetou a produção.

O que vocês podem contar sobre o ponto de partida de Meu Mundo Versus Marta? Desde quando esse projeto está em desenvolvimento? Como teve início a parceria de vocês nesse livro?

Paulo Scott: Sou um fã confesso dos desenhistas e quadrinistas do meu tempo, da minha geração. Tenho trabalhos feitos em parceria com a Laerte, com o Fabio Zimbres – com ele criei o projeto Na TáBUA, que é só uma de nossas invenções –, Adão Iturrusgarai, Guazzelli entre outros e estou sempre atento aos novos. Entre os nomes geniais que apareceram no início deste século, não lembro de ter ficado tão impactado por outro como fiquei com o Rafael Sica, com o seu trabalho, sua singularidade, sua potência, sua inteligência.

A iniciativa foi minha. Procurei o Rafael, a quem fui apresentado pelo Fabio Zimbres, e disse que tinha escrito um roteiro de graphic novel para ele, um roteiro inspirado no trabalho dele, nas idiossincrasias dos desenhos e narrativas dele. Foi uma história que meio que surgiu pronta na minha cabeça, sem diálogos, dentro de um arco narrativo bem simples.

Ele foi muito generoso ao responder que gostaria de ler o que escrevi. E ainda mais generoso ao aceitar a proposta de parceria. Importante dizer que isso que chamo de roteiro nunca foi visto por mim como um roteiro tradicional, um roteiro escrito a ser cumprido por um quadrinista. Não. O que fiz foi apresentar ao Rafael Sica uma história escrita, uma ideia, minha para que, a partir dela, ele contasse a história dele.

Nesse sentido, eu diria que a graphic novel Meu Mundo Versus Marta é trabalho autoral do Rafael Sica feito a partir da leitura exclusiva dele de uma ideia minha, de uma história que eu escrevi.

Rafael Sica: Eu já tinha visto algumas coisas do Paulo por conta do Na TáBUA, projeto que ele faz junto do Fabio Zimbres. Já era um fã mas conhecia pouca coisa. O Paulinho Chimendes, artista plástico fundamental em Porto Alegre, foi quem me emprestou Ainda Orangotangos, livro do Scott. Primeiro livro que li dele. Depois fui conhecer pessoalmente o Scott numa festa literária em Porto Alegre. Não lembro quem nos apresentou, mas em poucos dias eu já recebia um texto no meu mail e a pergunta se eu gostaria de desenhar. Topei na hora. Isso foi lá por 2012. De lá pra cá, tive tempo de ler quase todos os livros do Scott e ir aos poucos pensando como desdobraria aquele texto de sete páginas em uma narrativa gráfica longa.
 
E como foi a dinâmica de trabalho de vocês? Vocês chegaram a fechar a trama inteira e um roteiro antes do Rafael começar a desenhar? Qual foi a influência do Rafael na trama? Como era a relação do Paulo com a arte à medida que o Rafael ia produzindo as páginas?

Paulo Scott: Sobretudo por se tratar de uma história de resultado final muito baseada na estética, na imagem, o desenho é o que dá a complexidade para uma história que, sem dúvida, é bastante simples, elementar. A trama pode ser resumida em duas linhas – embora o roteiro tenha tomado cinco ou seis laudas, pelo que me lembro –, mas o contar, em formato de graphic novel, envolve um grau de detalhamentos sem os quais o fabular da narrativa jamais aconteceria.

Como eu disse, apresentei ao Rafael a história escrita. E, quando ele começou a desenhar, fez as alterações que achou necessárias. À medida que ia produzindo as páginas, ele ia me mostrando, mas eu jamais tive qualquer ingerência sobre o que ele estava realizando, jamais dei qualquer sugestão, limitei-me a aplaudir e agradecer a oportunidade da experiência.

Rafael Sica: Tive toda a liberdade que você possa imaginar pra criar a narrativa. Já tive roteiros de quadrinhos em minhas mãos e o que fizemos não está nem próximo de uma relação roteirista e desenhista.

“Tudo é narrativa, a vontade e a urgência de contar”

Página de Meu Mundo Versus Marta, parceria de Paulo Scott e Rafael Sica (Divulgação)

Paulo, você já escreveu romances, contos, poesias e peças. Meu Mundo Versus Marta (MMXM) é sua primeira HQ, certo? Como foi essa experiência? Escrever uma HQ se aproximou mais de alguma outra experiência de escrita sua?

Paulo Scott: MMXM é o meu terceiro roteiro para graphic novel. Antes fiz dois, pelos quais recebi adiantamentos de direitos autorais e tudo, mas que acabaram não se realizando na época programada. Um deles, eu pretendo concretizar no ano que vem, porque os desenhos já estão prontos, é o Não Me Mande Flores, em parceria com outro gaúcho, o talentoso Eduardo Medeiros, do Sopa de Salsicha. Estou escrevendo um quarto roteiro – é um projeto meio paralelo à empreitada de escrita do romance Rondonópolis para o qual estou me dedicando no momento.

Para mim, tudo é narrativa, a vontade e a urgência de contar. A adequação às formas e aos tempos é uma questão importante, mas não é o principal. Mesmo na escrita de romances, se você for honesto com o processo e consigo mesmo, cada livro demanda uma nova trajetória, uma série de novas descobertas, formatos, lógicas, de novas inquietudes e perplexidades.

Aliás, Paulo, você pode falar um pouco, por favor, sobre a sua relação com HQs?

Paulo Scott: Sempre fui leitor de gibis, colecionava. Mas foi a chegada às minhas mãos de um exemplar de segunda mão da Heavy Metal com o Ranxerox na capa no início de 1984, eu tinha 17 anos, que mudo a minha vida. Foi quando começou minha busca apaixonada pelas revistas europeias, sobretudo, graphic novels, uma busca que reverberou – assim como aconteceu com o rap novaiorquino na mesma época – diretamente sobre minha poesia. Os quadrinistas de Porto Alegre foram fundamentais nesse processo também.

“É bem cansativo mesmo nas ideias curtas, imagina numa história longa”

Página de Meu Mundo Versus Marta, parceria de Paulo Scott e Rafael Sica (Divulgação)

Rafael, Meu Mundo Versus Marta é sua primeira experiência em parceria com um escritor, correto? Fico com a impressão que seus trabalhos são muito intimistas e pessoais, como foi essa experiência de trabalhar com outra pessoa?

Rafael Sica: É a primeira vez que desenho com texto de outra pessoa, também é meu primeiro quadrinho mais longo. Foram muitos desafios e acredito que esse tempo todo com o texto na mão, pensando a história, buscando caminhos. Por vezes eu até esquecia que outra pessoa tinha escrito, de tanta intimidade que criei com o argumento do Paulo.

Rafael, você pode me falar um pouco sobre sua dinâmica de trabalho durante o desenvolvimento dessa HQ? Você trabalhou dentro de alguma rotina enquanto desenhava esse quadrinho? Você pode me falar, por favor, quais materiais usou?

Rafael Sica: Comecei a desenhar lá em 2012, quando fiz dois capítulos. Depois, ficou um longo tempo parada. Quando voltei a desenhar, já em 2018, fiz uma média de duas páginas por dia, inclusive refiz os dois primeiros capítulos. Pra desenhar usei bico de pena e nanquim.

Mais uma para o Rafael: você está mais habituado a trabalhar com tiras e HQs curtas. Como foi a experiência de desenvolver esse trabalho mais longo?

Rafael Sica: Geralmente, depois que faço um desenho, deixo ele de lado e já não quero mais saber. Parto pra outra ideia e persigo ela. É bem cansativo mesmo nas ideias curtas, imagina numa história longa. Foi uma relação bem íntima e dolorosa. Mas gosto do resultado. Próximas histórias longas só farei se for muito bem pago por esse tipo de trabalho, o que suspeito que não irá acontecer tão cedo. 

“Se fosse um tempo verbal, diria que MMXM se passa no futuro do pretérito”

Página de Meu Mundo Versus Marta, parceria de Paulo Scott e Rafael Sica (Divulgação)

Um dos elementos mais marcantes de Meu Mundo Versus Marta para mim é o design das páginas, como vocês administram a velocidade da trama com o uso de mais ou menos quadros por página ou quadros menores e maiores. Vocês podem falar um pouco, por favor, sobre a construção dessa estética da HQ?

Rafael Sica: O texto do Paulo tinha esse ritmo, de acompanhar os personagens a cada minuto do dia. Então optei por deixar bem fragmentada, marcando um tempo que é quase um tempo de animação ou cinema mudo. O gestual foi muito trabalhado. Quando a personagem levanta da cama e vai até a cozinha e sai de casa, todo esse caminho é mostrado. É uma história muito íntima, você entra na vida daqueles dois seres e pra isso era preciso mostrar tudo nos mais intrincados detalhes.

O ambiente urbano tem um peso grande em trabalhos do Sica, penso principalmente em Fachadas e Ordinário. Obras distópicas como Meu Mundo Versus Marta tendem ser ambientadas em grandes centros urbanos. Vocês veem alguma justificativa para isso? Vocês sempre estiveram claros em relação a essa ambientação do quadrinho?

Paulo Scott: A aglomeração urbana é o lugar do absurdo racional, da loucura, dos excessos, onde o futuro, que é sempre aposta, se coloca como uma obsessão, um projetar que é disputa, a ilusão de que se pode projetar. Achei magnifico o cenário que o Rafael armou para a MMXM, deu um aspecto lúdico que dilui o lado aterrador da narrativa. Uma solução genial.

Rafael Sica: No texto do Paulo tinham algumas referências a lugares aqui de Pelotas, cidade onde vivo atualmente e sempre foi o cenário dos meus desenhos. Em Fachadas, Ordinário e etc é sempre o mesmo cenário.

Agora, temos essa ideia de ficção científica e obras distópicas ambientadas em grandes centros urbanos, mas esquecemos que numa cidade de interior a loucura também chega. Então, desde o começo do projeto, minha ideia era ambientar a história em uma cidade de interior imaginada. Se fosse um tempo verbal, diria que MMXM se passa no futuro do pretérito.

Há muitas comparações entre o atual cenário político-social-pandêmico brasileiro com uma distopia. Essa realidade impactou de alguma forma o desenvolvimento do trabalho de vocês?

Paulo Scott: Não há grande impacto, no meu caso. A história do Brasil se desenvolve sobre as tragédias e violências mais injustificadas imagináveis, fomos o último país a abolir a escravatura de pessoas raptadas do continente africano e trazidas como produtos mercantis, desfeitas de sua identidade, de sua mínima dignidade, somos um país marcado pela perversidade militar, o país mais dominado e desrespeitado pelos bancos no mundo, o país de uma das elites mais covardes e insensíveis do planeta, basta saber ler o que se passa, o que passou. As leituras distópicas de nossa realidade são incontornáveis, me parece, são uma consequência natural.

Penso, no entanto, que MMXM trata de um terror que é mundial, expressado no século XX e perpetuado nas ambições de muitos. A presença do personagem Marta remete a uma intervenção heterônoma com a qual a humanidade ainda não sabe muito bem como lidar. O medo é a paz, mas uma paz que só aumenta o terror. Marta é o juízo final sempre retardado, sempre contornado, o que não impede que a humanidade prossiga com seus abusos, com suas maldades, com seus totalitarismos.  

Rafael Sica: Especificamente, não. Foi produzida anteriormente a toda essa situação atual desastrosa em que nos encontramos.

“Tendo a achar que a leitura é o que dá o caminho da obra”

Página de Meu Mundo Versus Marta, parceria de Paulo Scott e Rafael Sica (Divulgação)

Pesou muito para mim na leitura do quadrinho o clima de desconfiança e conspiração da história. Foi intenção de vocês fomentar essa impressão de desconforto e tensão constantes?

Paulo Scott: Penso que esta é uma pergunta para o Rafael responder.

Tendo a achar que a leitura (no caso a sua) é o que dá o caminho da obra. Não gosto de falar em dimensão mais profunda dos meus poemas, por exemplo. A magia está na leitura. Acho que sua pergunta já coloca um interessante caminho possível.

Rafael Sica: Como falei, é uma história muito íntima, você entra fundo na intimidade das personagens e isso gera essa sensação de insegurança a angústia. É tão íntimo que parece com a nossa vida. Tão íntimo que vira público.

Mando essas perguntas cerca de um mês antes do lançamento do quadrinho. Ele ainda não foi impresso, mas o arquivo final já foi entregue para a editora. Qual balanço vocês fazem dessa experiência de produção de Meu Mundo Versus Marta?

Paulo Scott: Uma alegria indescritível ver, dez anos depois, a leitura de uma ideia minha realizada por um artista tão incomum, um artista que eu tanto admiro, impressa no papel, impressa para ficar – o trabalho do Rafael é daqueles que ganham outra dimensão quando impressos no velho e bom papel. Isso é inegável. Não é a mesma coisa ver uma tela de uma grande pintora, de um grande pintor, num monitor eletrônico. Com a MMXM, do Rafael Sica, tenho certeza de que é a mesma coisa.

Penso que exercitamos a paciência e a determinação de realizar, tenho orgulho da amizade que se formou e se fortaleceu em torno de um projeto que combinou dois trabalhos distintos, que foi diálogo entre dois caras que se admiram e se respeitam e, sobretudo, que aprendem um com o outro. Da minha parte, o que posso dizer é que foi uma escola.

Rafael Sica: Não acredito que enviaram um PDF pra você. [Nota do editor: no caso, o artista expressa seu incômodo em relação ao envio da obra, pela editora, em formato de PDF antes do lançamento de sua versão impressa.]

Vocês podem recomendar algo que tenham lido/assistido/ouvido nos últimos meses?

Paulo Scott: Poesia. Há muitos bons livros de poesia lançados no último ano.

Rafael Sica: Frequente e alimente bibliotecas comunitárias. Aqui no bairro tem uma que me salvou durante a pandemia. Você vai lá e pega um livro, outra vez vai lá e deixa um livro, tudo no auto-serviço. Tudo na confiança, além de seguro em tempos de vírus circulando.

A capa de Meu Mundo Versus Marta, HQ de Paulo Scott e Rafael Sica publicada pela editora Companhia das Letras (Divulgação)