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Entrevistas / HQ

Papo com Galvão Bertazzi, autor Olívia Foi Pra Lua: “O Galvão autor de livro infantil foi um espasmo fofo da minha natureza”

É explícito o contraste entre o Galvão Bertazzi autor da série Vida Besta e o Galvão Bertazzi autor do livro infantil Olívia Foi Pra Lua. Os traços e as cores são os mesmos, mas fica de lado o que o autor chama de sua versão “noiada-paranóica-apocalíptica”, presente nas tiras dele, e vem à tona uma personalidade mais otimista e poética do quadrinista.

Com lançamento previsto para junho de 2021 pela editora Beleleu, Olivia Foi Pra Lua está atualmente em campanha de financiamento coletivo no Catarse. O projeto já alcançou a meta estabelecida para sua publicação, mas continua no ar até o dia 22 de maio de 2021.

Inspirada em uma história contada por Bertazzi para a filha dele antes de colocá-la para dormir, o livro infantil narra o empenho da jovem Olivia em viabilizar uma viagem pessoal para a lua. A arte sempre gritante do autor talvez seja o elemento mais emblemático da obra, mas chamo atenção para a missão bem-sucedida autoimposta por Bertazzi em não subestimar seu público infantil.

Conversei com Bertazzi sobre o ponto de partida e o desenvolvimento de Olívia Foi Pra Lua, suas inspirações por trás da obra e a experiência de ocupar o espaço de Laerte durante o período da autora se recuperando de COVID-19. Papo bem bom (assim como as conversas que tivemos em 2017 e 2019), saca só:

“Um bom livro infantil não subestima a criança”

Página de Olivia Foi Pra Lua, livro infantil do quadrinista Galvão Bertazzi (Divulgação)

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

As coisas estão loucas. Eu estou louco. Perdi a noção de tempo, de espaço. Tenho crianças em casa que pararam de ir pra escola, eu e minha companheira dividimos o tempo de home office, as contas não param, os trabalhos deram uma embananada completa, mas ainda sim consigo desenhar bastante, pintar e tocar guitarra e aos poucos essa anormalidade foi se tornando normal. Eu sou um puta privilegiado por morar numa casa com quintal, mato e espaço pra respirar e pensar. Mas essa coisa de não poder sair quando quer, fazer o que quer é um treco muito bizarro. Resumo, tá tudo louco de forma normal-anormal.

Você contou que o ponto de partida de Olivia Foi Pra Lua é uma história que você contava para a sua filha. Mas como foi o processo de transformar essa história em livro. O quanto da história original se manteve? Como foi essa adaptação de uma história oral para uma versão ilustrada e escrita?

A história original está praticamente ali, o que foi trabalhado e lapidado foi o texto. Me lembro de ter contado essa história pra Olivia, numa noite e enquanto eu estava botando ela pra dormir me veio o estalo: “Um livro infantil!”. O que até o momento era uma coisa que eu ainda não havia feito.

Me lembro dela pegar no sono e eu correr pro computador pra digitar as ideias iniciais e alguns desenhos rápidos do que logo depois seriam as ilustrações. A coisa toda deve ter durado uma semana mais ou menos. Eu tenho essa coisa de não fazer rascunhos antes de começar a desenhar, eu acabei trabalhando assim no processo do livro, tanto com os textos quanto ilustrações.

Eu ia escrevendo cada página e já desenhando o traço. Uma coisa que eu botei na cabeça foi fazer um trabalho meu, sem interferência de críticas, sugestões ou qualquer coisa externa. Eu não queria desconstruir narrativa e muito menos desenho. Foi pura diversão e a coisa fluiu rapidamente de um jeito legal. O texto foi a parte mais trabalhosa porque eu tenho uma tendência a ser verborrágico e ululante (como você pode notar nas minhas respostas). Eu gosto disso, mas tive que ir aceitando que é uma obra infantil, então precisei ser mais comedido

Essa não é a sua primeira experiência com obras infantis, certo? O que você considera mais essencial em uma obra voltada para crianças? Tem algum elemento que você acha que não pode ficar de fora de um livro ou uma HQ infantil?

Eu já ilustrei muitos livros infantis, mas nunca havia me aventurado em escrever e ilustrar. Um bom livro infantil é aquele que não subestima a criança. Eu sou pai de dois filhos, sabe? Uma das coisas que primeiro aprendi nessa maluquice de ser pai é que os moleques, desde muito cedo já estão atentos e compreendem (do jeito deles, claro) o mundo ao redor. E a gente aprende muito mais com eles do que o contrário. Então a primeira coisa que descartei foi a necessidade de passar alguma lição de moral, apresentar valores morais ou essa coisa clássica de enfrentar um grande obstáculo para se conseguir um objetivo final. MInha intenção era deixar tudo fluido e fácil. O mundo real já é chato demais!

“O mundo real é chato demais”

Página de Olivia Foi Pra Lua, livro infantil do quadrinista Galvão Bertazzi (Divulgação)

Acho que nos últimos meses, devido a todo o contexto social-político-pandêmico que estamos vivendo, as suas tiras têm ecoado sentimentos de cansaço, frustração e raiva. Fico curioso: é muito difícil para você desligar o modo Galvão-tiras para o Galvão-autor de livro infantil?

O Olivia Foi Pra Lua foi escrito em 2018, ou seja, nem em minhas previsões mais absurdas sobre o futuro eu poderia imaginar que estaríamos afundados nessa pandemia e o pior, essa pandemia no Brasil. O Galvão autor de livro infantil até o momento foi um espasmo fofo da minha natureza, coisa que ainda não se repetiu. Eu tenho trabalhado em passos lentíssimos num outro livro infantil, mas ao contrário do Olivia Foi Pra Lua que nasceu num lampejo, este está mais demorado que a encomenda.

Então, para todos os efeitos, eu sou apenas o Galvão-noiado-paranóico-apocalíptico-das-tiras-de-humor-duvidoso.

Você pode contar um pouco, por favor, sobre a concepção do projeto gráfico do Olívia Foi Para a Lua?

Os desenhos e as cores meio que já apareciam prontos na minha cabeça a medida que eu escrevia os textos. Os dois foram nascendo juntos e de certa formas resolvidos.  O que eu quis foi usar todo o repertório que eu tenho pra desenhar: linhas, cores, personagens e cenários absolutamente dentro do meu universo pictórico, então tudo surgiu naturalmente. Se eu ficasse preocupado demais em desconstruir desenhos, formas, abstrair as coisas eu teria travado e provavelmente o livro nunca ficaria pronto.

Agora, o pulo do gato partiu da Editora Beleleu. O editor Tiago Lacerda teve uma puta sacada em resgatar aqueles bonequinhos de papel destacáveis, muito comuns em revistinhas e livros infantis dos anos 80, juntamente com um cenário que pode ser montado. É uma coisa simples e que ficou LINDO de morrer. Vai ser um materia legal de se ter em mãos!

“Quis usar todo o repertório que tenho para desenhar”

Uma arte de divulgação de Olivia Foi Pra Lua, livro ilustrado do quadrinista Galvão Bertazzi (Divulgação)

Vi algo de Space Oddity do David Bowie no seu livro, faz sentido?

SIM! Space Oddity estava realmente rolando no repeat nessa época. Aliás Bowie está sempre tocando por aqui.

Você recentemente substituiu a Laerte nas tiras diárias da Folha enquanto ela se recuperava da COVID-19. Como foi essa experiência?

Primeiro, vou usar uma frase que to usando todas as vezes que me perguntam isso. A Laerte é insubstituível! Ou seja, o que eu fiz foi quebrar um galho, enquanto ela se recuperava desse vírus maldito.

Foi uma montanha russa de emoções porque não escondo de ninguém meu desejo de publicar diariamente naquela seção de tiras da Folha, mas levando em conta as circunstâncias, tudo que eu queria era honrar aquele espaço e devolver logo o espaço pra ela. E ufa!! Tudo terminou bem, publiquei umas tiras muito legais e a Laerte voltou melhor do que antes!!

Última! Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Eu gostaria de recomendar muito os livros da Editora Pé de Cabra. Com certeza é um material pros adultos, mas na minha cabeça, é a editora mais bacana da atualidade.

Acabei de receber o último lançamento, o Tiger Fist. Uma HQ divertidíssima e cheia de ação saída da cabeça do Gabriel Góes e desenhada por um time de quadrinistas fantásticos. Conseguiram resgatar com primasia esse gênero, estilo filmes de ação! Acho que tô um pouco de saco cheio de tanta HQ filosófica-existencial, então pra mim foi um prazer ter esse gibi na mão. Recomendo!

A capa de Olivia Foi Pra Lua, livro infantil do quadrinista Galvão Bertazzi (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Paulo Floro, coeditor da revista Plaf: “Existe um desejo legítimo de editores e público de fortalecer a relação entre os quadrinhos latino-americanos”

A quinta edição da revista Plaf está impressa. Uma das principais publicações de jornalismo sobre quadrinhos do país, a revista tem como foco em seu mais recente número a rodução latino-americana de HQs. A arte da capa é do quadrinista Rogi Silva, autor de Pumii do Vulcão, Não Tenho Uma Arma, Aterro, Mergulhão, Planta e Pedra Pome. Assim como fiz na época do lançamentos dos quatro números prévios, voltei a conversar com um dos editores da Plaf para tratar da produção e do conteúdo dessa nova edição.

O papo dessa vez foi com o jornalista Paulo Floro, coeditor da revista junto com Dandara Palankof e Carol Ameida e editor do site Revista O Grito (casa virtual da Plaf). Ele falou sobre a dificuldade de produzir esse quinto número em meio à pandemia do novo coronavírus, expôs algumas de suas reflexões sobre quadrinhos latino-americanos e adiantou um pouco sobre o andamento da sexta edição da Plaf.

Além de HQs inéditas de Rogi Silva, Puiupo, Jessica Groke, Talles Molina e Jarbas, a Plaf #5 ainda apresenta resenhas, entrevista com a quadrinista equatoriana-colombiana Powerpaola, matéria sobre a ida de Will Eisner a Recife para o Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de 2001 e um perfil da letrista Lilian Mitsunaga. Confira a seguir a minha conversa com Paulo Floro, um dos editores da Plaf:

“A revista está permeada pela memória de um mundo em transição”

Trecho da HQ de Jéssica Groke publicada na quinta edição da revista Plaf (Divulgação)

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a produção desse quinto número da Plaf?

Valeu demais por perguntar! Então, eu estou vivendo uma montanha-russa de emoções como a grande maioria das pessoas. Reflete muito essa falta de perspectiva sobre a saída dessa situação, a depressão que é esse desgoverno irresponsável, a falta de empatia das pessoas, a banalização da morte. Mas, na real me sinto realmente sortudo, pois todos na família estão bem de saúde, isolados e protegidos na medida do possível. Mas tem momentos que é difícil, sobretudo com crianças pequenas em casa, isoladas e angustiadas. É bem mais complicado com crianças, mas estamos felizes de estarmos em segurança.

A Plaf 5 demorou muito mais tempo pra fechar por conta da pandemia, pois demoramos a ajustar as dinâmicas da nossa vida à edição da revista. Além disso, a gráfica que contratamos passou um longo período parada ou em um ritmo menor por conta dos decretos de restrições à Covid-19 aqui no Estado. Enfim, foi um desafio, mas estamos bem felizes com o resultado.

Imagino que cada edição da revista tenha suas peculiaridades e desafios específicos. Você destaca ou chama atenção para alguma experiência específica relativa a esse quinto número da revista?

Essa edição foi cercada de expectativa, pois quando começamos a editá-la tínhamos a ideia de levar ao FIQ e à Bienal de Quadrinhos, ambos cancelados por conta da pandemia. Nossa ideia era chegar nesses eventos com bastante força e por isso até imprimimos uma nova tiragem da primeira edição, que estava esgotada. O tempo todo ficávamos “será que tudo isso vai passar rápido”, etc, aquela indefinição seguida do choque de que tudo era bem mais sério do que imaginávamos. Então, a 5 é muito permeada por essa memória de um mundo em transição. Quando vi a edição saindo da gráfica bateu aquela emoção de ter conseguido finalizar algo, palpável, bonito, depois de um ano tão difícil.

“Encontramos mais elementos em comum do que divergências em relação à produção de HQs no continente”

As páginas de abertura da matéria de capa da quinta edição da revista Plaf (Divulgação)

A matéria principal dessa quinta Plaf trata de quadrinhos latino-americanos. Você chegou a alguma conclusão maior ou tirou alguma lição em particular referente às HQs latino-americanas ao escrever essa matéria? Você vê algum elemento em comum ou alguma unidade quando falamos de HQs latino-americanas?

Fazer essa reportagem foi muito difícil, mas ao mesmo tempo bem prazeroso. Além disso, gosto de fazer essas matérias a seis mãos (ao lado de Dandara Palankof e Carol Almeida, que editam a revista comigo). Nós partimos de uma pauta aparentemente simples – a “falta” de conexão entre as cenas de quadrinhos dos países latinos que falam espanhol e o Brasil – mas depois descobrimos que o assunto é bem mais complexo do que isso. Envolve questões históricas, editoriais e sociopolíticas que vão bem além da tal barreira linguística.

Encontramos bem mais elementos em comum do que divergências em relação à produção de quadrinhos no Continente e acredito que existe um desejo legítimo de editores e público de fortalecer essa relação. Dá pra perceber pelo aumento do número de lançamentos, o que reflete o amadurecimento do mercado, mas também pelo maior entendimento sobre nossa identidade e de nossos pontos em comum.

Página da HQ de Rogi Silva publicada na Plaf #5 (Divulgação)

Gostei muito da capa dessa quinta edição. Aliás, acho que o Rogi Silva tá numa fase especial. Por que chamá-lo para ilustrar essa capa? Qual foi a encomenda que vocês fizeram para ele para esse trabalho? O que você vê de mais especial na arte dele?

Somos fãs do trabalho de Rogi e nos dá um orgulho danado tê-lo na capa da Plaf em um momento tão especial da carreira dele. Sei que ele está produzindo uma HQ longa, ou seja, vem coisa muito boa dele por aí. Ficamos amigos de Rogi e já trabalhamos com ele em outros projetos: ele coassinou a HQ online “Gemini”, organizada pelo O Grito! e o Consulado da França no Recife durante uma residência em Nantes e as artes dos Melhores de 2020. Amo como a arte dele evoluiu para um traço mais fluido e experimental, que explora o componente espacial da linguagem dos quadrinhos. Mas é um artista muito versátil. Os gibis independentes dele que saíram em Pedra Pome são lindos e têm um roteiro afetivo e biográfico que conecta o leitor de uma maneira muito especial.

Como sempre fazemos com os artistas que assinam a capa apenas informamos a reportagem de capa da edição, mas sem entregar muitos detalhes. Já gostávamos do trabalho de Rogi, mas a ideia de chama-lo partiu muito da nossa vontade de trazer um artista pernambucano de destaque na nova cena de quadrinhos daqui. Quando ele nos mandou a proposta de capa ficamos maravilhados. Na real, sem falsa modéstia, gostamos muito de todas as capas da revista até agora, lindas.

“Acho importante fortalecer eventos que destacam a produção local”

Quadro da HQ de Talles Molina publicada na Plaf #5 (Divulgação)

Gostei muito da matéria sobre o Festival Internacional de Humor e Qquadrinhos. A última edição do festival foi em 2007, mas parece se tratar de algo de um passado ainda mais distante. Você vê possibilidade de um evento assim voltar em um futuro próximo pós-pandemia?

Em toda reunião para compor uma nova edição a gente sempre tenta buscar uma pauta que traga alguma história sobre a memória da cena de quadrinhos e essa vinda do Eisner ao Recife era algo que sempre atiçava nossa curiosidade. Hoje nos parece tão surreal ter um nome como Eisner no Recife, mas houve uma época em que o Brasil contava com vários eventos voltado para os quadrinhos mais, digamos, autorais e o FIHQ era um dos mais importantes. Fui em várias edições e o clima era muito bom, conheci muitos artistas incríveis. O modelo de negócios das comic cons ainda não tinha chegado por aqui.

Recife (e o Nordeste como um todo) é muito carente de eventos de quadrinhos, o que é uma pena pois temos muitos autores talentosos e sabemos da importância que esses espaços presenciais promovem para o fomento da produção e consumo. Existiam algumas movimentações para pensar em um evento, mas tudo entrou em pausa por conta da Covid. Acho super importante fortalecer esses eventos que destacam a produção local e olham para as HQs como um produto artístico, como o FIQ e a Bienal. Tem consumo também, mas a experiência desses encontros vai muito além disso. Acredito que depois da pandemia tenhamos que ampliar a articulação para um calendário consistente de eventos que envolva festivais e feiras no Nordeste e no Norte do país.

É um desafio enorme fazer jornalismo especializado em quadrinhos”

As duas primeiras páginas da entrevista com a quadrinista Powerpaola publicada na Plaf #5 (Divulgação)

Publicar qualquer coisa impressa no Brasil é cada vez mais difícil. Publicar uma revista de jornalismo sobre quadrinhos me parece ainda mais desafiador. A Plaf está chegando agora ao seu quinto número. Que balanço você faz desse projeto até aqui?

É um desafio enorme, mas ficamos felizes de ver a Plaf tão bem recebida. Tivemos vários contratempos nas quatro primeiras edições que reflete muito essa dificuldade de editar, produzir e distribuir a revista, mas acho que também aprendemos muito nesse processo. E avançamos em muita coisa: temos uma nova loja online, mais robusta e bonita e um novo site onde iremos publicar matérias dos números anteriores e alguns conteúdos exclusivos.

Estamos editando a 6 e 7, mas a 6 está bem adiantada, com capa e quadrinhos já editados. Queremos a partir de agora retomar o nosso plano inicial de ter quatro edições da Plaf ao ano.

Além disso, a Plaf segue como um dos carros-chefe da cobertura de quadrinhos do O Grito!. É um desafio enorme fazer jornalismo especializado em quadrinhos, mas acho que estamos em um momento excelente com colegas incríveis como o Balburdia, o Raio Laser, você aqui com o Vitralizado, sem falar de veteranos como o Universo HQ que seguem em uma fase excelente. Mas ainda há muito a avançar, como uma maior profissionalização, remuneração, etc, mas já avançamos bastante. É um papo que reeeende bastante, envolve muitas questões.

Quadro da HQ de Jarbas publicada na Plaf #5 (Divulgação)

Em que pé tá a produção da sexta edição da Plaf?

A maior parte das matérias estão prontas e em fase de revisão. A capa também – e é linda. É também de um nome novo da cena atual e que também está em um excelente momento da carreira, mas ainda não posso divulgar hehe. As HQs inéditas também. Acabamos de lançar a 5, mas já tô ansioso pra que o público veja a 6.

Última! Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Tenho assistido a muitos filmes, inclusive fazendo um esforço real de ver trabalhos que sempre ouvi falar ou dos quais conheço apenas a estética, como Drácula (1931), O Martírio de Joana Dark, etc. Vejo também muita coisa em família com as crianças, como Príncipe Dragão (excelente), She-Ra e todos do estúdio Ghibli. Também tenho revisto séries e filmes que gosto muito, como forma de dar um reset do excesso de informação. Já revi Community inteiro, Fleabag, Akira e agora estou vendo Parks and Recreation e Arquivo X hehe. De quadrinhos continuo lendo os lançamentos como prioridade, mas criei o hábito de fazer uma pilha com obras que quero reler ou que comprei e nunca li. Tem sido bem legal ter essa leitura mais demorada e desconectada de uma “agenda de trabalho”.

A capa da quinta edição da Plaf, com arte de Rogi Silva (Divulgação)

Entrevistas / HQ

Papo com Rafael Sica e Paulo Scott, autores de Meu Mundo Versus Marta: “As leituras distópicas de nossa realidade são incontornáveis”

Escrevi para o jornal Folha de S. Paulo uma crítica de Meu Mundo Versus Marta, parceria do quadrinista Rafael Sica com o escritor Paulo Scott publicada pela editora Companhia das Letras. Chamo atenção no meu texto para vários dos méritos da obra, uma das minhas leituras preferidas de 2021 até aqui, mas destaco principalmente o espetáculo narrativo em preto e branco de Sica e os paralelos da trama com o Brasil distópico de Jair Bolsonaro. Você lê a minha crítica clicando aqui.

Entrevistei os autores da obra há algumas semanas. A nossa conversa foi focada principalmente na dinâmica dos dois durante o desenvolvimento do quadrinho, mas eles também contaram sobre o início dessa parceria, comentaram alguns dos temas tratados na HQ e analisaram essas semelhanças entre o cenário do quadrinho com a atual realidade sócio-econômica-pandêmica do país. Leia a HQ, depois o meu texto e volte aqui em seguida para conferir essa conversa. Papo massa, saca só:

“O que fizemos não está nem próximo de uma relação roteirista e desenhista”

Quadro de Meu Mundo Versus Marta, parceria de Paulo Scott e Rafael Sica (Divulgação)

Tenho perguntado para todo mundo que entrevisto ao longo dos últimos meses: Como estão as coisas por aí? Como vocês estão lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a produção e a rotina de vocês?

Paulo Scott: Para quem escreve e trabalha em casa não há muita mudança de rotina. Penso, entretanto, que, havendo essa trágica justificativa para ficar trabalhando em casa em tempo integral, a pandemia, o confinamento exigido, facilitou o desenvolvimento de ideias e projetos que demandariam muito mais tempo e foco direcionado em condições de existência normal para acontecerem.

Rafael Sica: Quando começou a pandemia recém tínhamos lançado o livro Triste e foi impossível trabalhá-lo como gostaríamos. Minha produção não foi diretamente afetada pois trabalho em casa e de certa forma já é um tipo de isolamento. O livro Brasil, que desenhei e foi lançado durante a pandemia é um reflexo desse período e, nesse sentido da temática, afetou a produção.

O que vocês podem contar sobre o ponto de partida de Meu Mundo Versus Marta? Desde quando esse projeto está em desenvolvimento? Como teve início a parceria de vocês nesse livro?

Paulo Scott: Sou um fã confesso dos desenhistas e quadrinistas do meu tempo, da minha geração. Tenho trabalhos feitos em parceria com a Laerte, com o Fabio Zimbres – com ele criei o projeto Na TáBUA, que é só uma de nossas invenções –, Adão Iturrusgarai, Guazzelli entre outros e estou sempre atento aos novos. Entre os nomes geniais que apareceram no início deste século, não lembro de ter ficado tão impactado por outro como fiquei com o Rafael Sica, com o seu trabalho, sua singularidade, sua potência, sua inteligência.

A iniciativa foi minha. Procurei o Rafael, a quem fui apresentado pelo Fabio Zimbres, e disse que tinha escrito um roteiro de graphic novel para ele, um roteiro inspirado no trabalho dele, nas idiossincrasias dos desenhos e narrativas dele. Foi uma história que meio que surgiu pronta na minha cabeça, sem diálogos, dentro de um arco narrativo bem simples.

Ele foi muito generoso ao responder que gostaria de ler o que escrevi. E ainda mais generoso ao aceitar a proposta de parceria. Importante dizer que isso que chamo de roteiro nunca foi visto por mim como um roteiro tradicional, um roteiro escrito a ser cumprido por um quadrinista. Não. O que fiz foi apresentar ao Rafael Sica uma história escrita, uma ideia, minha para que, a partir dela, ele contasse a história dele.

Nesse sentido, eu diria que a graphic novel Meu Mundo Versus Marta é trabalho autoral do Rafael Sica feito a partir da leitura exclusiva dele de uma ideia minha, de uma história que eu escrevi.

Rafael Sica: Eu já tinha visto algumas coisas do Paulo por conta do Na TáBUA, projeto que ele faz junto do Fabio Zimbres. Já era um fã mas conhecia pouca coisa. O Paulinho Chimendes, artista plástico fundamental em Porto Alegre, foi quem me emprestou Ainda Orangotangos, livro do Scott. Primeiro livro que li dele. Depois fui conhecer pessoalmente o Scott numa festa literária em Porto Alegre. Não lembro quem nos apresentou, mas em poucos dias eu já recebia um texto no meu mail e a pergunta se eu gostaria de desenhar. Topei na hora. Isso foi lá por 2012. De lá pra cá, tive tempo de ler quase todos os livros do Scott e ir aos poucos pensando como desdobraria aquele texto de sete páginas em uma narrativa gráfica longa.
 
E como foi a dinâmica de trabalho de vocês? Vocês chegaram a fechar a trama inteira e um roteiro antes do Rafael começar a desenhar? Qual foi a influência do Rafael na trama? Como era a relação do Paulo com a arte à medida que o Rafael ia produzindo as páginas?

Paulo Scott: Sobretudo por se tratar de uma história de resultado final muito baseada na estética, na imagem, o desenho é o que dá a complexidade para uma história que, sem dúvida, é bastante simples, elementar. A trama pode ser resumida em duas linhas – embora o roteiro tenha tomado cinco ou seis laudas, pelo que me lembro –, mas o contar, em formato de graphic novel, envolve um grau de detalhamentos sem os quais o fabular da narrativa jamais aconteceria.

Como eu disse, apresentei ao Rafael a história escrita. E, quando ele começou a desenhar, fez as alterações que achou necessárias. À medida que ia produzindo as páginas, ele ia me mostrando, mas eu jamais tive qualquer ingerência sobre o que ele estava realizando, jamais dei qualquer sugestão, limitei-me a aplaudir e agradecer a oportunidade da experiência.

Rafael Sica: Tive toda a liberdade que você possa imaginar pra criar a narrativa. Já tive roteiros de quadrinhos em minhas mãos e o que fizemos não está nem próximo de uma relação roteirista e desenhista.

“Tudo é narrativa, a vontade e a urgência de contar”

Página de Meu Mundo Versus Marta, parceria de Paulo Scott e Rafael Sica (Divulgação)

Paulo, você já escreveu romances, contos, poesias e peças. Meu Mundo Versus Marta (MMXM) é sua primeira HQ, certo? Como foi essa experiência? Escrever uma HQ se aproximou mais de alguma outra experiência de escrita sua?

Paulo Scott: MMXM é o meu terceiro roteiro para graphic novel. Antes fiz dois, pelos quais recebi adiantamentos de direitos autorais e tudo, mas que acabaram não se realizando na época programada. Um deles, eu pretendo concretizar no ano que vem, porque os desenhos já estão prontos, é o Não Me Mande Flores, em parceria com outro gaúcho, o talentoso Eduardo Medeiros, do Sopa de Salsicha. Estou escrevendo um quarto roteiro – é um projeto meio paralelo à empreitada de escrita do romance Rondonópolis para o qual estou me dedicando no momento.

Para mim, tudo é narrativa, a vontade e a urgência de contar. A adequação às formas e aos tempos é uma questão importante, mas não é o principal. Mesmo na escrita de romances, se você for honesto com o processo e consigo mesmo, cada livro demanda uma nova trajetória, uma série de novas descobertas, formatos, lógicas, de novas inquietudes e perplexidades.

Aliás, Paulo, você pode falar um pouco, por favor, sobre a sua relação com HQs?

Paulo Scott: Sempre fui leitor de gibis, colecionava. Mas foi a chegada às minhas mãos de um exemplar de segunda mão da Heavy Metal com o Ranxerox na capa no início de 1984, eu tinha 17 anos, que mudo a minha vida. Foi quando começou minha busca apaixonada pelas revistas europeias, sobretudo, graphic novels, uma busca que reverberou – assim como aconteceu com o rap novaiorquino na mesma época – diretamente sobre minha poesia. Os quadrinistas de Porto Alegre foram fundamentais nesse processo também.

“É bem cansativo mesmo nas ideias curtas, imagina numa história longa”

Página de Meu Mundo Versus Marta, parceria de Paulo Scott e Rafael Sica (Divulgação)

Rafael, Meu Mundo Versus Marta é sua primeira experiência em parceria com um escritor, correto? Fico com a impressão que seus trabalhos são muito intimistas e pessoais, como foi essa experiência de trabalhar com outra pessoa?

Rafael Sica: É a primeira vez que desenho com texto de outra pessoa, também é meu primeiro quadrinho mais longo. Foram muitos desafios e acredito que esse tempo todo com o texto na mão, pensando a história, buscando caminhos. Por vezes eu até esquecia que outra pessoa tinha escrito, de tanta intimidade que criei com o argumento do Paulo.

Rafael, você pode me falar um pouco sobre sua dinâmica de trabalho durante o desenvolvimento dessa HQ? Você trabalhou dentro de alguma rotina enquanto desenhava esse quadrinho? Você pode me falar, por favor, quais materiais usou?

Rafael Sica: Comecei a desenhar lá em 2012, quando fiz dois capítulos. Depois, ficou um longo tempo parada. Quando voltei a desenhar, já em 2018, fiz uma média de duas páginas por dia, inclusive refiz os dois primeiros capítulos. Pra desenhar usei bico de pena e nanquim.

Mais uma para o Rafael: você está mais habituado a trabalhar com tiras e HQs curtas. Como foi a experiência de desenvolver esse trabalho mais longo?

Rafael Sica: Geralmente, depois que faço um desenho, deixo ele de lado e já não quero mais saber. Parto pra outra ideia e persigo ela. É bem cansativo mesmo nas ideias curtas, imagina numa história longa. Foi uma relação bem íntima e dolorosa. Mas gosto do resultado. Próximas histórias longas só farei se for muito bem pago por esse tipo de trabalho, o que suspeito que não irá acontecer tão cedo. 

“Se fosse um tempo verbal, diria que MMXM se passa no futuro do pretérito”

Página de Meu Mundo Versus Marta, parceria de Paulo Scott e Rafael Sica (Divulgação)

Um dos elementos mais marcantes de Meu Mundo Versus Marta para mim é o design das páginas, como vocês administram a velocidade da trama com o uso de mais ou menos quadros por página ou quadros menores e maiores. Vocês podem falar um pouco, por favor, sobre a construção dessa estética da HQ?

Rafael Sica: O texto do Paulo tinha esse ritmo, de acompanhar os personagens a cada minuto do dia. Então optei por deixar bem fragmentada, marcando um tempo que é quase um tempo de animação ou cinema mudo. O gestual foi muito trabalhado. Quando a personagem levanta da cama e vai até a cozinha e sai de casa, todo esse caminho é mostrado. É uma história muito íntima, você entra na vida daqueles dois seres e pra isso era preciso mostrar tudo nos mais intrincados detalhes.

O ambiente urbano tem um peso grande em trabalhos do Sica, penso principalmente em Fachadas e Ordinário. Obras distópicas como Meu Mundo Versus Marta tendem ser ambientadas em grandes centros urbanos. Vocês veem alguma justificativa para isso? Vocês sempre estiveram claros em relação a essa ambientação do quadrinho?

Paulo Scott: A aglomeração urbana é o lugar do absurdo racional, da loucura, dos excessos, onde o futuro, que é sempre aposta, se coloca como uma obsessão, um projetar que é disputa, a ilusão de que se pode projetar. Achei magnifico o cenário que o Rafael armou para a MMXM, deu um aspecto lúdico que dilui o lado aterrador da narrativa. Uma solução genial.

Rafael Sica: No texto do Paulo tinham algumas referências a lugares aqui de Pelotas, cidade onde vivo atualmente e sempre foi o cenário dos meus desenhos. Em Fachadas, Ordinário e etc é sempre o mesmo cenário.

Agora, temos essa ideia de ficção científica e obras distópicas ambientadas em grandes centros urbanos, mas esquecemos que numa cidade de interior a loucura também chega. Então, desde o começo do projeto, minha ideia era ambientar a história em uma cidade de interior imaginada. Se fosse um tempo verbal, diria que MMXM se passa no futuro do pretérito.

Há muitas comparações entre o atual cenário político-social-pandêmico brasileiro com uma distopia. Essa realidade impactou de alguma forma o desenvolvimento do trabalho de vocês?

Paulo Scott: Não há grande impacto, no meu caso. A história do Brasil se desenvolve sobre as tragédias e violências mais injustificadas imagináveis, fomos o último país a abolir a escravatura de pessoas raptadas do continente africano e trazidas como produtos mercantis, desfeitas de sua identidade, de sua mínima dignidade, somos um país marcado pela perversidade militar, o país mais dominado e desrespeitado pelos bancos no mundo, o país de uma das elites mais covardes e insensíveis do planeta, basta saber ler o que se passa, o que passou. As leituras distópicas de nossa realidade são incontornáveis, me parece, são uma consequência natural.

Penso, no entanto, que MMXM trata de um terror que é mundial, expressado no século XX e perpetuado nas ambições de muitos. A presença do personagem Marta remete a uma intervenção heterônoma com a qual a humanidade ainda não sabe muito bem como lidar. O medo é a paz, mas uma paz que só aumenta o terror. Marta é o juízo final sempre retardado, sempre contornado, o que não impede que a humanidade prossiga com seus abusos, com suas maldades, com seus totalitarismos.  

Rafael Sica: Especificamente, não. Foi produzida anteriormente a toda essa situação atual desastrosa em que nos encontramos.

“Tendo a achar que a leitura é o que dá o caminho da obra”

Página de Meu Mundo Versus Marta, parceria de Paulo Scott e Rafael Sica (Divulgação)

Pesou muito para mim na leitura do quadrinho o clima de desconfiança e conspiração da história. Foi intenção de vocês fomentar essa impressão de desconforto e tensão constantes?

Paulo Scott: Penso que esta é uma pergunta para o Rafael responder.

Tendo a achar que a leitura (no caso a sua) é o que dá o caminho da obra. Não gosto de falar em dimensão mais profunda dos meus poemas, por exemplo. A magia está na leitura. Acho que sua pergunta já coloca um interessante caminho possível.

Rafael Sica: Como falei, é uma história muito íntima, você entra fundo na intimidade das personagens e isso gera essa sensação de insegurança a angústia. É tão íntimo que parece com a nossa vida. Tão íntimo que vira público.

Mando essas perguntas cerca de um mês antes do lançamento do quadrinho. Ele ainda não foi impresso, mas o arquivo final já foi entregue para a editora. Qual balanço vocês fazem dessa experiência de produção de Meu Mundo Versus Marta?

Paulo Scott: Uma alegria indescritível ver, dez anos depois, a leitura de uma ideia minha realizada por um artista tão incomum, um artista que eu tanto admiro, impressa no papel, impressa para ficar – o trabalho do Rafael é daqueles que ganham outra dimensão quando impressos no velho e bom papel. Isso é inegável. Não é a mesma coisa ver uma tela de uma grande pintora, de um grande pintor, num monitor eletrônico. Com a MMXM, do Rafael Sica, tenho certeza de que é a mesma coisa.

Penso que exercitamos a paciência e a determinação de realizar, tenho orgulho da amizade que se formou e se fortaleceu em torno de um projeto que combinou dois trabalhos distintos, que foi diálogo entre dois caras que se admiram e se respeitam e, sobretudo, que aprendem um com o outro. Da minha parte, o que posso dizer é que foi uma escola.

Rafael Sica: Não acredito que enviaram um PDF pra você. [Nota do editor: no caso, o artista expressa seu incômodo em relação ao envio da obra, pela editora, em formato de PDF antes do lançamento de sua versão impressa.]

Vocês podem recomendar algo que tenham lido/assistido/ouvido nos últimos meses?

Paulo Scott: Poesia. Há muitos bons livros de poesia lançados no último ano.

Rafael Sica: Frequente e alimente bibliotecas comunitárias. Aqui no bairro tem uma que me salvou durante a pandemia. Você vai lá e pega um livro, outra vez vai lá e deixa um livro, tudo no auto-serviço. Tudo na confiança, além de seguro em tempos de vírus circulando.

A capa de Meu Mundo Versus Marta, HQ de Paulo Scott e Rafael Sica publicada pela editora Companhia das Letras (Divulgação)
HQ / Matérias

Rafael Sica, Paulo Scott e o espetáculo visual de Meu Mundo Versus Marta

Escrevi para a Folha de S.Paulo sobre Meu Mundo Versus Marta, parceria do quadrinista Rafael Sica com o escritor Paulo Scott publicada pela editora Companhia das Letras. Expliquei no texto porque considero a obra, desde já, um dos grandes títulos das HQs brasileiras em 2021. Ainda chamei atenção para o espetáculo estético apresentado por Sica, a proposta da dupla em oferecer uma experiência narrativa estritamento visual e os paralelos do cenário distópico do quadrinho com a atual realidade sócio-econômica-pandêmica brasileira. Obra que vale ser lida, relida e bastante analisada e discutida. Você lê o meu texto clicando aqui.

Cinema / HQ / Séries

Vitralizado #103: 04.2021

Fico com a impressão que o ano do Vitralizado só começa para valer depois da divulgação do resultado do Prêmio Grampo. Talvez, junto com a já tradicional arte de aniversário do blog, seja um dos grandes marcos anuais das minhas atividades por aqui. E eu, Maria Clara Carneiro e Lielson Zeni, divulgamos os vencedores desse sexto Grampo no início de abril. Resultado bem massa, diferente do meu top 3 pessoal, mas coerente com o filtro editorial do blog. E nas últimas semanas ainda fiz algumas entrevistas, participei de algumas conversas que curti muito e escrevi sobre projetos que recomendo a sua atenção. Enfim, vamos lá, segue o sumário do blog nos 30 dias que ficaram para trás (no abre, arte de Jaime Hernandez para Love & Rockets tirada lá do Bristol Board):

*Eu, Maria Clara Carneiro e Lielson Zeni divulgamos o resultado da edição de 2021 do Prêmio Grampo de Grandes HQs. O Grampo de Ouro ficou com Sabrina (Veneta), de Nick Drnaso; o Grampo de Prata com A Solidão de um Quadrinho Sem Fim (Nemo), de Andrian Tomine; e o Grampo de Bronze com Mau Caminho (Veneta), de Simon Hanselmann. Você confere o resultado final, com os 20 primeiros colocados e todos os títulos citados pelos jurados, clicando aqui. E aqui você confere os 20 rankings individuais dos nossos jurados;

*Depois de divulgar o resultado do Grampo, reuni em um único post todo o material que produzi sobre os três primeiros colocados na edição de 2021 da premiação;

*E você já assistiu à live sobre o Grampo de 2021 que gravei na companhia de Maria Clara Carneiro, Lielson Zeni e Douglas Utescher? Papo bem massa, viu?;

*Conversei com a quadrinista Helô D’Ângelo sobre Isolamento, webcomic produzida por ela desde o início de 2020 e compartilhada nas redes sociais da autora, sobre a rotina dos moradores de um prédio durante o período de isolamento social decorrente da pandemia do novo coronavírus. Esse papo foi o foco da 19ª edição da Sarjeta, minha coluna sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. Depois compartilhei por aqui a íntegra da minha entrevista com a autora;

*E nessa Sarjeta mais recente ainda teve um papo com a quadrinista Jéssica Groke, autora de Me Leve Quando Sair, Babilônia, Piracema (coleção da Tabu) e co-organizadora da coletânea 11:11;

*Fui o responsável pela mediação do episódio especial do Lasercast celebrando o aniversário de 20 anos do blog Raio Laser, um dos principais espaços voltados para a crítica dos quadrinhos na internet brasileira. Papo bem massa na companhia de Ciro I. Marcondes, Pedro Brandt, Raimundo Lima Neto, Bruno Porto, Marcos Maciel de Almeida e Márcio Jr. Já ouviu?;

*E bati um papo beeeem massa com o cartunista Batista sobre O que Conto Quando Conto uma Piada, coletânea de 192 páginas reunindo alguns dos melhores trabalhos de um dos principais nomes do humor gráfico brasileiro contemporâneo. Papo bom demais, viu?

>> Veja o que rolou no Vitralizado #102 – 03.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #101 – 02.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #100 – 01.2021;
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Entrevistas / HQ

Papo com Helô D’Angelo, autora de Isolamento: “Gosto de tecer finais para histórias que ouvimos pela metade”

Conversei com a quadrinista Helô D’Angelo sobre Isolamento, série que acompanha a rotina dos moradores de um prédio desde o início da pandemia do novo coroanvírus. A obra é publicada no Instagram e no Twitter da autora desde os primeiros meses de 2020 e está atualmente em campanha de financiamento coletivo para lançamento de sua versão impressa. Transformei essa entrevista com a artista no tema da edição de abril da Sarjeta, minha coluna mensal sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. Você lê meu texto clicando aqui.

Reproduzo agora a íntegra do meu papo com Helô D’Angelo. Ela me falou sobre as inspirações por trás da HQ, contou sobre seus hábitos de observação, expôs as técnicas usadas por ela na produção da série e refletiu sobre o impacto da realidade sócio-econômica-pandêmica brasileira em seus trabalhos. Recomendo o seguinte: leia Isolamento, depois invista na minha coluna no site do Itaú Cultural e, em seguida, retorne aqui para ler a entrevista. Conversa bem boa, saca só:

“As fofocas que ouvimos por aí são inspiradoras e material para criarmos histórias mais verossímeis”

Painel da série Isolamento, obra da quadrinista Helô D’Angelo (Divulgação)

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua produção e a sua rotina diária?

Pergunta super pertinente! Por aqui, as coisas estão como num grande Dia da Marmota: mesma rotina, mesmas aflições, mesmas angústias dia após dia. No começo da pandemia, eu estava com bastante energia acumulada – muita raiva, impotência, ansiedade. Então, produzia sem parar, trabalhei demais… e isso me rendeu um burnout com pitadas de noites insones. Então, no final do ano passado, reduzi minha carga de trabalho, inseri na rotina umas caminhadas na praça e tenho tentado não ler tanto as notícias. Agora estou totalmente focada em Isolamento, que inclusive é um projeto que tem me dado bastante amparo sentimental nesses tempos obscuros.

Quero saber sobre o ponto de partida de Isolamento. Houve algum momento em particular que bateu a ideia de transformar a pandemia e o isolamento social em trama de um quadrinho?

Bom, eu me mudei para o apartamento onde moro agora poucas semanas antes do início do isolamento brasileiro. O apartamento fica no topo de uma elevação, um pequeno morro, e é no primeiro andar, de modo que a minha janela se tornou, na prática, o camarote de um anfiteatro. Ouço e observo praticamente TUDO que as pessoas dizem e fazem pelas janelas. Particularmente uma vizinha nossa, que morava numa casa bem abaixo da nossa janela, era bem irritante: ela falava, berrava e cantava de madrugada, dava festas, ridicularizava nossos pedidos de silêncio, era um inferno. Outros vizinhos não faziam barulho, mas reclamavam da gente (denunciaram nossas plantas na janela à síndica… coisas assim). No começo, eu ficava muito irritada com a situação, porque sou dessas que curtem um silêncio, mas quando vi que não tinha jeito (e que a pandemia ia longe), decidi fazer uma tirinha da situação, meio que pra tirar o peso da coisa. Criei, então, esse prédio imaginário, com 12 apartamentos, e personagens que eram amálgamas de todas as pessoas reais que eu ouvia, de forma adaptada. A tirinha seria só isso mesmo, uma tirinha, se não tivesse feito tanto sucesso. Experimentei fazer uma segunda tira – sobre os panelaços – e aí, mais inspirada, comecei a seriar a HQ. Hoje, já temos duas temporadas do predinho.

Você já disse que as histórias de isolamento são parcialmente inspiradas nas suas observações dos seus vizinhos. Uma vez eu entrevistei o Adrian Tomine e ele ressaltou a importância da observação para a criação dos personagens e desenvolvimento das histórias dele. Você tem algum hábito ou rotina em particular de observação do mundo ao seu redor?

Sim, eu concordo demais com Tomine. Eu sempre digo que, para ser um bom quadrinista, a pessoa precisa ter apenas uma característica: ser uma boa fofoqueira. Porque as fofocas que ouvimos por aí são inspiradoras e material para criarmos histórias mais verossímeis. E eu sempre tive ouvidos atentos: gosto muito de ouvir os bafafás na rua, no ônibus, e especialmente de vizinhos. Fico imaginando o que aconteceu ali e frustrada por saber que nunca vou descobrir de fato. Então, nesse sentido, acho que para além da inspiração eu gosto de tecer finais para essas histórias que ouvimos pela metade. Outro hábito que tenho é o de desenhar estranhos: estou sempre com meu caderninho, pra lá e pra cá, tentando conhecer aquela pessoa pelo traço e a observação. Acho que muitas dessas pessoas e seus desenhos ficam gravados na memória, num baú de referências, e reaparecem quando preciso delas.

“Sem minha experiência jornalística eu jamais teria chegado a Isolamento porque não saberia como ouvir e ver de verdade”

Painel da série Isolamento, obra da quadrinista Helô D’Angelo (Divulgação)

E você fala da sua observação dos seus vizinhos como inspiração, mas cada uma daquelas varandas ali também me soa como uma conta de rede social. Os seus vizinhos de rede também são inspiração para o desenrolar de Isolamento?

Que boa pergunta! Com certeza, muito da inspiração para a HQ vem de outras fontes que não os vizinhos em si. E como passamos muito tempo pendurados nessas “janelas” das redes sociais, acredito que muito das histórias vindas das redes se derrama para Isolamento. Principalmente as histórias mais gerais, como o sentimento das pessoas naquele momento específico – um período de muitos panelaços, ou um período de recorde de mortes, por exemplo -, e algumas específicas, como a de uma blogueira que, ao ser cancelada, começa um caminho de autocuidado e terapia. Pra citar Drummond, acho que são vários sentimentos do mundo que eu desenho na HQ, e como o mundo está restrito às janelas (reais ou virtuais), acabo usando o material que chega para mim.

Ainda sobre seus hábitos de observação: o quanto você acha que a sua formação em jornalismo contribui para os seus registros e suas assimilação do mundo à sua volta e para o desenvolvimento de Isolamento?

Olha, quando eu estava na faculdade de jornalismo, achava que estava perdendo tempo da minha vida com algo que eu não queria fazer. Mas a verdade é que aprender a entrevistar e a escutar (uma escuta real, que às vezes acho que a gente só alcança na análise ou numa boa entrevista) moldou os meus quadrinhos. Acho que, quando a gente faz uma boa entrevista, é como se um véu se abrisse naquele momento; um véu que separa você da outra pessoa. De repente, você pode ver a pessoa com mais clareza. pode acessar pontos que antes estavam ocultos ou protegidos. E é uma satisfação imensa quando a gente chega lá, e algo como um pacto se cria entre jornalista e fonte. Eu gosto de tirar o véu dos meus personagens para quem lê, e acho que os leitores atentos podem descobrir coisas muito interessantes sobre esses personagens, se prestarem atenção e estiverem dispostos a ouvir de verdade. E isso pode, assim como uma boa entrevista, ensinar ao leitor coisas sobre si mesmo. Então, acho que sem minha experiência jornalística eu jamais teria chegado a Isolamento porque não saberia como ouvir e ver de verdade.

E eu imagino que parar para observar o mundo, pensar uma história deve ser uma experiência bastante terapêutica. Ao mesmo tempo, imagino que possa não ser tão agradável assim criar em torno da pandemia e retratar pessoas com posições ideológicas extremas à sua… Enfim, como tá sendo a sua experiência de trabalhar na série?

Eu acho que é uma experiência bem terapêutica, sim, no sentido de que eu tenho um espaço para encarar de uma forma segura as pessoas que me incomodam. Um dos meus personagens favoritos, ironicamente, é um senhor idoso, eleitor de Bolsonaro, seu Oswaldo. Gosto dele porque é um poço de profundidade, com um monte de interpretações possíveis: é um bolsonarista, mas também é um idoso solitário, e também um pai triste por ter rompido com a filha, e ao mesmo tempo um homem com suas sensibilidades, que curte tricotar e ver novela, mas que foi podado emocionalmente por tanto tempo que já não se lembra como acessar emoções. É uma sensação boa poder desenhar essas faces de seu Oswaldo, me faz entender que as pessoas todas são assim, multifacetadas. Isso me faz sentir um pouco mais de calma sobre a situação geral do mundo. Por mais que eu ainda sinta bastante raiva de pessoas como ele, rs. E isso se repete com muitos moradores do predinho. A coisa se torna uma espécie de meditação sobre aquilo que não posso mudar e a preciosidade que existe, ainda assim, no mundo.

“Estou criando conforme a realidade avança, e algumas coisas eu mudo ao longo do caminho”

Painel da série Isolamento, obra da quadrinista Helô D’Angelo (Divulgação)

Aliás, fico curioso, por mais que você possa ter planos para cada um dos seus personagens, eles me parecem meio à mercê da realidade… Como é para você criar enquanto o pano de fundo da série tá em curso?

Na primeira temporada, eu desenhei 24 episódios direto, adiantados. E era isso. Ia postando aos poucos e a realidade não estava se movendo com tanta rapidez, então deu tudo certo. Quando cheguei à segunda temporada, comecei a desenhar furiosamente e meu namorado, Luis, disse “Xi… agora, você vai ter que prever o futuro”. Eu ri, mas de fato me deparei com o problema da realidade estar mudando a cada semana. Eu não podia, então, adiantar tantas semanas da HQ porque, de uma semana para a outra, saía uma vacina. Ou começava um BBB e as dinâmicas relacionadas ao programa, começavam panelaços, enfim, coisas que eu não podia ignorar. Então, fiz um roteiro-base bem simples para cada janelinha e adiantei o que era possível. O resto estou criando conforme a realidade avança, e algumas coisas eu mudo ao longo do caminho: desenhei a vovó, que mora com o neto, sendo vacinada; contaminei o Marcelo, morador da cobertura que não para de dar festas na pandemia; desenhei o esperado parto de uma das personagens… Pra mim, é uma forma nova de fazer HQ: em geral, tenho um roteiro pronto e faço poucas mudanças ao longo das postagens. Tem sido estranhamente libertador.

Imagino que você tenha preferências por um ou outro personagem em particular, prefira desenvolver mais esse ou aquele e se sinta mais distante de alguns… Acho que quero perguntar é: é difícil não se livrar dos bolsonaristas do prédio?

Hahaha, acho que já respondi um pouquinho na pergunta sobre a HQ ser terapêutica, mas a resposta é não. Embora eu sinta um ódio gigante quando penso na situação do país e nas pessoas que elegeram Bolsonaro, e mais ainda nas que seguem apoiando o governo, eu realmente gosto dos meus personagens. Me fazem lembrar, por exemplo, da minha relação com meu pai – um homem muito simples, muito amedrontado pela mudança dos tempos, pela alteração de um mundo que ele foi criado para achar que era seu reino. Ele não sabe mais como funcionam as relações e às vezes ergue um muro de fúria e machismo em torno de si mesmo. Passei muitos meses sem conversar com ele, logo após as eleições de 2018. Agora, voltamos a nos falar, com um pouco mais de abertura e compreensão. Eu me sinto um pouco conversando com meu pai quando desenho esses personagens; me vejo tentando compreender que tipos de extremos levam uma pessoa a apoiar um genocida no meio da maior crise sanitária e humanitária das últimas décadas. Acho que é mesmo um lugar de muito medo, o dessas pessoas. E eu gosto de tentar desvendar isso e de, talvez, nutrir esperanças por uma mudança de pensamento, como tem rolado com meu pai. Mas, lógico, tem momentos em que eu gostaria muito de jogar esses personagens pela janela…

O quanto você já tem elaborado da série? Até onde você já tem definido em relação aos destinos de cada personagem?

Teoricamente, a HQ está roteirizada inteira, até o fim. Mas eu posso vir a fazer algumas mudanças, como contei antes, por causa das novidades da vida real: o início da vacinação de uma determinada faixa etária, aumento do número de mortos, coisas assim. Outros detalhes eu também preciso alterar porque percebo que alguma coisa não ficou clara, ou que precisa ser mais desenvolvida – às vezes eu só percebo isso ao postar o episódio e reler ao mesmo tempo que os leitores. São coisas como um flerte entre personagens que evoluiu rápido ou lento demais, a gravidez de uma personagem que precisa acabar e não previ isso, uma personagem que raspou o cabelo e agora ele está crescendo de novo. Mas a linha geral das histórias, o começo, meio e fim, já estão definidos.

“Minha previsão do projeto é que ele termine no episódio 40 da segunda temporada”

Painel da série Isolamento, obra da quadrinista Helô D’Angelo (Divulgação)

Você já tem um final em vista para a série? Caso não tenha, até onde você acha que ela pode ir?

Hoje, minha previsão do projeto é que ele termine no episódio 40 da segunda temporada, sem contar várias HQs extra, ilustrações e conteúdos assim. Mas… como a pandemia não parece estar nem perto de acabar, pode ser que eu continue por mais algum tempo. O mais provável é que eu foque em alguma das janelas e desenvolva histórias mais longas de alguns dos personagens do prédio. Fortes candidatos são Catarina e seu cachorro falante, por exemplo. Outra ideia é narrar coisas que aconteceram fora do prédio, com personagens que não aparecem ali. Ou, talvez um novo prédio… Por enquanto, são só ideias!

Acho que são propostas muito diferentes, mas o Aqui, do Richard McGuire também se propõe a narrar sob um único ponto de vista, com saltos temporais e informações vagas sobre a vida de cada personagem. Essa obra te influenciou de alguma forma durante a produção de Isolamento? Teve alguma outra obra (seja HQ, filme, livro, música, série ou o que for), que impactou de alguma forma o seu trabalho em Isolamento?

Eu li o Aqui bem no começo da pandemia e, sim, ele me influenciou bastante nesse sentido, de uma visão poética de um mesmo ponto de vista. Tive outras referências também, como Jimmy Corrigan, o menino mais esperto do mundo, de Chris Ware, uma HQ que me marcou muito pelo cuidado com os mais minúsculos detalhes, algo que eu gostaria de incorporar nesta HQ (claro que não tenho a pretensão de ir até a nota de rodapé da nota de rodapé, mas adorei os cenários detalhados pequeninos). Os filmes Janela indiscreta, do Hitchcock, e Delicatessen, de Jean-Pierre Jeunet, foram dois que assisti no começo do isolamento e também me inspiraram bastante – o primeiro, obviamente, pelo formato, e o segundo pela diversidade de pessoas convivendo num mesmo espaço e produzindo alguma doçura no meio de canibalismo e alguma praga ambiental pós-apocalíptica. E um álbum que me deixou bastante inspirada enquanto fazia a HQ foi Fetch the Bolt Cutters, da Fiona Apple: ela lançou durante a pandemia e, ao fundo, ouvimos vários sons de sua casa, incluindo seus cachorros.

Você pode, por favor, falar um pouco sobre as suas técnicas em Isolamento? Dora e a Gata foi todo com tinta, né? E agora? Você está trabalhando com papel ou no digital? Quais foram os seus critérios para a escolha dos materiais que está usando nesse projeto?

Dora e a gata foi totalmente feito em aquarela, e Isolamento é 100% digital, feito no Photoshop. Essa mudança se deu um pouco por sorte: eu recebi, de uma marca chinesa chamada Huion, um display para desenho digital que me permitiu finalmente desenhar direto na tela (Huion Kamvas 12 pro). Uma das minhas birras com desenho digital é que a maioria dos tablets é como se fosse um mouse, você desenha nele mas olha para a tela do computador, o que me atrapalha muito. Então poder desenhar olhando para a tela foi uma grande melhora e uma porta de entrada para o desenho digital. E isso mudou minha relação com o tempo de trabalho: agilizou tudo. Cortou a necessidade de escanear e tratar meus desenhos, o que leva horas, e permitiu que eu criasse, por exemplo, o layout da HQ Isolamento, e me focasse apenas nos personagens, sem precisar voltar a desenhar todas as janelas a cada nova página, algo que eu precisaria fazer se trabalhasse em aquarela. Também me deixou mais livre para experimentar, porque, afinal, aquarela é uma mídia caríssima, e o digital te permite erros infinitos sem custos adicionais. Então, essa mudança de mídia foi mais por comodidade, economia e praticidade do que estética. Mas tem sido bem divertido também. Menos pressão, acho!

“Produzir esta HQ, prestando atenção ao mundo que me cerca, me colocou em contato com esperanças de várias formas”

Painel da série Isolamento, obra da quadrinista Helô D’Angelo (Divulgação)

E me fala um pouco sobre a sua rotina de produção, por favor? Você tem algum hábito em particular em relação a horários, ambientes e contextos preferidos para a produção de Isolamento?

Tenho organizado minha rotina de uma forma cada vez mais certinha pra estruturar um pouco esses dias da marmota. Então, começo o dia com uma caminhada numa praça aqui perto, onde sento e tomo um solzinho por uns minutos. Organizo a cabeça pros trabalhos do dia. Aí, volto, tomo banho, me alongo, trabalho um pouquinho em esboços e coisas assim para trampos mais urgentes, almoço, e daí sento para desenhar Isolamento, geralmente com trilhas sonoras de musicais. Quando acontece alguma coisa específica – recorde de mortos, vacina aprovada pela Anvisa -, eu inverto, porque a urgência é maior, e desenho logo a página de Isolamento. Nas páginas em si, a coisa é bem mecânica: uso um mesmo arquivo do Photoshop com as partes do layout (portas, janelas, grades das varandas) separadas em camadas, e já tenho uma paleta definida. Eu faço o traço, depois a cor e a sombra, e por último adiciono os balões, exporto o arquivo e é isso – leva aí umas 3h para finalizar cada episódio. Às vezes, paro, tomo um café olhando pela janela, à espera de alguma fofoca nova que eu possa usar. Trabalho até por volta das 20h, depois faço uma yoga, jogo um pouco algum game, leio ou vejo uma série e tento dormir. E é basicamente isso. Agora, durante o Catarse, tenho feito lives semanais finalizando as páginas, mostrando algumas das partes do processo e trocando ideia com os seguidores, tem sido bem bacana.

Gêneros literários acabam sendo meio bestas, sendo estabelecidos principalmente para ajudar na escolha das prateleiras de livrarias, mas fico curioso: você tem um gênero definido para Isolamento? Pergunto isso porque fico com a impressão de que cada varanda parece estar contando uma história de um gênero distinto.

Nossa, essa é uma leitura bem bacana – cada janela é um gênero. Posso usar na sinopse? rsrs

Mas, falando sério, eu não pensei muito em gênero. Gosto de misturar gêneros: num dia uma janela está triste, no outro, está alegre; há algum romance rolando entre varandas que, semanas depois, passam a brigar; o prédio inteiro um dia está comemorando a noite de São João e, no outro, entediado… Eu acho que a vida é um pouco isso, essa mistura de gêneros. Mas provavelmente uma livraria me colocaria em “ficção realista” ou algo assim (ignoremos o cachorro falante na última varanda abaixo, rs).

Painel da série Isolamento, obra da quadrinista Helô D’Angelo (Divulgação)

Você é bastante ativa nas redes sociais e tá publicando Isolamento via Twitter e Instagram. Quando conversamos sobre a produção de Dora e a Gata você falou que não se deixava influenciar pelo retorno dos seus leitores enquanto desenvolvia a história. Você segue assim com Isolamento? O retorno que você tem dos seus leitores já impactou de alguma forma o desenvolvimento desse trabalho atual?

Eu não gosto de ceder às pressões das pessoas porque detesto a sensação de que sou um braço desenhando o que outros me pedem. Acho bacana quando as pessoas gostam, ou quando eu já tinha planejado algo e as pessoas, por coincidência, pedem aquilo, mas gostaria de fazer coisas um pouco menos esperadas, menos confortáveis. Nem acho que consiga na maior parte das vezes, mas gosto de tentar. Com Dora, eu tentava resistir a essa pressão e muitas vezes era julgada por isso, e o resultado, às vezes, eram personagens um pouco mais rasos e engessados, como o vilão da história, Caio, o namorado abusivo sem nenhum lado “bom”; presos entre o que eu queria fazer e as expectativas que eu não queria seguir. Em Isolamento, recebi muitos pedidos e observei muitas frustrações. Em especial porque, como o conceito da HQ é “você está observando o prédio à frente”, muitas informações ficam de fora: se um personagem se muda do prédio, nunca mais saberemos o que houve com ele, por exemplo. E as pessoas ficam bravas com isso! Pra contar uma história engraçada: uma das janelas na primeira temporada tinha um casal, e um dos namorados, que era médico, pegou COVID. Eventualmente, ele para de aparecer; o outro namorado fica triste e, então, vemos uma placa de “aluga-se” na varanda. Fui bastante xingada por ter “matado” o personagem, até vieram me dizer que eu estava “alimentando estereótipos de relacionamentos homossexuais tristes”, mas eu respondia que nós não sabemos o que aconteceu com eles de verdade. Só podemos supor! E eu tenho gostado dessa “justificativa” para poder quebrar expectativas dos leitores: são pessoas “reais”, eu não tenho controle sobre elas, lide com suas expectativas. O resultado são personagens um pouco mais ricos, como o velho bolsonarista que também quer se reconectar com a filha, a blogueira cancelada que começa a se autoconhecer, a menina que conversa com seu cachorro (ou consigo mesma?), um casal de pessoas com visões políticas opostas, mas que de algum jeito ainda se amam…

Quando te entrevistei pela primeira vez, em julho de 2019, você disse que se considerava otimista apesar de Bolsonaro e tudo mais que já estava por aí… Quase dois anos depois, Bolsonaro + pandemia + tudo muito pior: você mantém o seu otimismo em relação ao nosso futuro?

Eu estava otimista, né? Hahaha! Bom, não vou mentir, a minha esperança está bem pequenina nos últimos meses. De Dora para cá, vi um lado das pessoas que eu jamais imaginava que fosse tão forte: um lado egoísta, de “eu primeiro”, de se aglomerar enquanto morrem 3 mil, 4 mil pessoas por dia. Mas, ao mesmo tempo, produzir esta HQ, prestando atenção ao mundo que me cerca, me colocou em contato com esperanças de várias formas. Uma festa de São João isolada, com uma “quadrilha vertical”, aconteceu de verdade em um prédio próximo ao meu. Vejo amigos criando esquemas de cozinhas comunitárias para pessoas que passam fome. Observo colegas e pessoas que admiro organizadas politicamente, lutando por direitos que vão desde o auxílio emergencial até as vacinas. E, claro, o fato da minha campanha de Catarse estar sendo bem sucedida me mostra que as pessoas têm fé em mim e nas pessoas que desenho. Tudo isso me dá, se não otimismo, algum ânimo para encarar o que vem por aí.

Última! Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Eu estou lendo e jogando duas narrativas muito interessantes. A leitura é uma trilogia divertidíssima chamada The Locked Tomb, de Tamsyn Muir, sobre necromantes espaciais, e tem sido ótima para me tirar deste mundo maluco em que estamos. É tipo uma mistura entre Blade Runner e algo como Game of Thrones, mas mais gótico e bem pastelão, como se a autora não ligasse muito para a minha opinião. E o jogo, que eu vejo muito como narrativa também, é Disco Elysium, em que você é um policial alcoólatra que acorda com amnésia e precisa solucionar um assassinato. Ao mesmo tempo, você vai (re)descobrindo o mundo ao seu redor, em ruínas após uma revolução, mas bonito em sua decadência. O mundo fala com você através das coisas – você troca ideia com sua gravata, com sua empatia, com as pessoas. Eu também tenho ouvido muito o musical Cats, a versão de 1983. Por algum motivo eu adoro essa peça estranhíssima – talvez seja porque ela é tão insana que faz a realidade parecer mais tolerável -, e muitas das páginas de Isolamento foram finalizadas ao som de Memory.

Painel da série Isolamento, obra da quadrinista Helô D’Angelo (Divulgação)