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Papo com Adrian Tomine, autor de A Solidão de Um Quadrinho Sem Fim: “A solidão é inescapável à minha personalidade”

Conversei com o quadrinista norte-americano Adrian Tomine sobre A Solidão de Um Quadrinho Sem Fim (Nemo), obra mais recente do autor de Intrusos e da série Optic Nerve. Esse papo e o lançamento desse novo trabalho dele em português, em tradução de Érico Assis, foram o tema da 12ª edição da Sarjeta, minha coluna mensal sobre histórias em quadrinhos publicada no site do Instituto Itaú Cultural.

Recomendo a leitura do meu texto para você saber um pouco mais sobre A Solidão de Um Quadrinho Sem Fim. Também recomendo uma conferida na minha outra conversa com o autor, feita no ano passado, quando Intrusos foi publicado no Brasilpapo que rendeu uma matéria para o jornal O Globo. Por fim, deixo a dica de uma investida no vasto arquivo do Vitralizado focado na produção de Tomine.

Também dê uma conferida na minha resenha sobre A Solidão e, por fim, leia a entrevista a seguir, a íntegra dessa minha conversa mais recente com o autor – traduzida por Érico Assis. Tomine é, sem dúvidas, um dos grandes nomes das HQs ocidentais das últimas décadas e suspeito que esse trabalho mais recente dele acabe em muitas listas de melhores de 2020 quando o ano estiver chegando ao fim. A seguir, o meu papo com Adrian Tomine:

“Eu queria fazer um álbum diferente do que eu tenho feito”

Quadro de A Solidão de Um Quadrinho Sem Fim, HQ de Adrian Tomine publicada pela editora Nemo (Divulgação)

Como você está? Como está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua rotina de trabalho? Como vocês se organizaram com os eventos de divulgação online do livro sem a possibilidade de eventos físicos? 

Ter que cancelar a turnê do livro foi uma decepção. Mas estamos aí em seis meses de decepções de todos os níveis, e publicar meu livro estava bem abaixo na escala de preocupação. Acho que a ‘turnê virtual’ foi um sucesso que me pegou de surpresa, e também acho que eu consegui me abrir mais e falar mais nesse formato, se comparar a quando eu fico sentado num palco de frente para a plateia. Agradeço a quem assistiu pela internet e comprou o livro, e espero que eu possa fazer uma turnê grande e que eu autografe tantos livros quanto possível quando for seguro.

Você já publicou obras autobiográficas, mas nenhum tão pessoal como esse livro novo. Como foi essa experiência?

Sim, não tenha dúvida que foi um desafio. Principalmente depois que eu fiquei à vontade para escrever ficção. Só que eu queria fazer um álbum diferente do que eu tenho feito e achei que não tinha sentido fazer um autobiográfico se não fosse uma coisa pessoal nem em que eu me expusesse.

“A solidão me levou a ler e a fazer quadrinhos”

Quadros de A Solidão de Um Quadrinho Sem Fim, HQ de Adrian Tomine publicada pela editora Nemo (Divulgação)

Quando conversamos pela primeira vez, você falou: “Os tipos de histórias que eu crio são resultado direto de eu observar, escutar e matutar”. Você comentou como a observação é “importante para se chegar na escrita que é crível e se identifica como humano”. Ter você como protagonista tornou essa busca por credibilidade de alguma forma mais difícil?

Não, acho que não. Acho que, quando eu entro no estado mental certo, é fácil me observar e ser brutal comigo.

Gosto da presença da palavra “solidão” no título, porque muito do livro é sobre a sua relação com você mesmo. O que a solidão representa para você? Como a solidão se faz presente no seu trabalho?

A solidão é inescapável à minha personalidade. É o que me levou a ler e a fazer quadrinhos. Por ironia, também é um dos resultados inerentes de ser profissional de quadrinhos. Mas, mesmo fora do trabalho, é uma sensação onipresente dentro de mim, mesmo quando estou ocupado e minha vida me satisfaz.

“Concebi o formato em conjunção com o conteúdo”

Quadro de A Solidão de Um Quadrinho Sem Fim, HQ de Adrian Tomine publicada pela editora Nemo (Divulgação)

E o quanto essa solidão foi afetada pela formação da sua família? Casar e ter filhas afetou de alguma forma como você se vê como artista e a sua rotina profissional?

Ter família diminuiu um pouco dessa sensação, ainda mais durante essa experiência de confinados. Comecei a desejar solidão!

Gosto de títulos longos e o título desse livro novo é não apenas longo, mas também muito poético. Você pode falar um pouco sobre as origens desse título? Em que momento da produção do livro ele surgiu?

Por algum motivo, peguei o hábito de batizar minhas obras autobiográficas seguindo obras de arte maiores e mais importantes. Scenes from an Impending Marriage [Cenas de um Casamento Iminente] é brincadeira com o título do Bergman. Este novo, obviamente, se baseia no [conto de] Sillitoe. Não era um título que eu tinha desde o começo, mas brotou na minha cabeça quando estava finalizando o álbum e não pensei em nada melhor!

O formato do livro torna a experiência de leitura ainda mais intimista, como se eu estivesse lendo um diário pessoal. Você sempre teve esse design em mente?

Sim, o formato é uma coisa que eu concebi em conjunção com o conteúdo. Foi por isso que eu tive que me empenhar para mantermos o plano, mesmo que tenha sido excepcionalmente difícil e caro nos primeiros dias de quarentena.

“Faz um tempo que tenho ideia de usar essas memórias em livro”

Quadro de A Solidão de Um Quadrinho Sem Fim, HQ de Adrian Tomine publicada pela editora Nemo (Divulgação)

Fico curioso em relação à sua memória. Você se considera uma pessoa boa de memória? Você tem o hábito de registrar eventos particulares da sua vida? Você sempre teve em mente a possibilidade de transformar as suas vivências em histórias em quadrinhos?

Todas as histórias são verdadeiras para mim. Essas duas palavras no final da frase são muito importantes, pois tenho certeza de que outros vão contestar detalhes e não tenho como garantir que minhas memórias não foram afetadas pela experiência de lembrar e contar estas anedotas com o passar dos anos. Faz um tempo que tenho ideia de usar essas memórias em livro, mas foi só depois dos fatos do último capítulo que eu entendi como podia juntar tudo.

O quanto os grids que você estabeleceu como padrão auxiliaram na produção desse livro?

São muito úteis, pois eu nunca tive que pensar no grid! Tentei desenhar esse álbum do jeito mais rápido e mais direto possível, e não queria perder tempo pensando em layout exibido.

Eu queria saber sobre a sua relação com a crítica e a cobertura de seus trabalhos. Imagino que você esteja no olho do furacão dessa experiência, dando várias entrevistas e o livro recebendo várias resenhas. O que você sente em relação a toda essa exposição?

Já tem um tempo que eu faço isso, por isso me acostumei. Não curto o processo, mas sei que é necessário. Tenho uma editora ótima, uma assessora ótima, que deixa tudo o mais agradável possível pra mim. Mas, no geral, prefiro a fase mais anônima, a da criação.

“Entendo a conveniência da Amazon, mas, em termos de livrarias, eu a vejo como um inimigo inegável”

Quadros de A Solidão de Um Quadrinho Sem Fim, HQ de Adrian Tomine publicada pela editora Nemo (Divulgação)

Quais materiais você usou durante a produção desse livro?

Papel barato, canetão PITT e uma caneta tinteiro do Japão. E só.

Você pode me falar como é seu ambiente de trabalho? Você poderia descrever o local no qual esse livro novo foi criado?

Não tem nada de mais. É um canto do nosso quarto de casal. Tenho uma mesa de desenho antiga que comprei quando me mudei pra Nova York e é isso. Tentei alugar um estúdio por um tempo, mas não curtia o trânsito (mesmo que fosse a três quadras).

Você e a Drawn & Quarterly têm feito um trabalho muito cuidadoso de promover a venda desse livro novo em lojas independentes durante a pandemia. O quanto essas lojas são importantes para você? O crescimento da Amazon te preocupa?

Pois é, isso é uma cruzada pessoal e tenho a sorte de uma editora que se alinha com o que eu penso. Muitas lojas vão e vêm em Nova York, mas as perdas que mais me doem e que mais perduram são das livrarias e lojas de HQ que somem. Entendo a conveniência da Amazon, mas, em termos de livrarias, eu a vejo como um inimigo inegável.

Arte de Adrian Tomine para capa da revista New Yorker de junho de 2008 (Reprodução)

Você pode recomendar alguma coisa que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Acabei de ler uma HQ chamada Sunday, de Olivier Schrauwen, e achei ótima. Fico animado em ver a Drawn & Quarterly publicando Yoshiharu Tsuge. De cinema, sempre recomendo O Matador de Ovelhas. Também estou ansioso pela segunda temporada de Pen15.

Essa última é mais uma curiosidade pessoal… Você assiste à série High Maintenance? Eu vejo um diálogo imenso entre essa série e o seu trabalho, com pequenas crônicas sobre solidão e relacionamentos na cidade grande. 

Claro. E amo.

A capa da edição brasileira de A Solidão de um Quadrinho Sem Fim, obra do quadrinista Adrian Tomine publicada pela editora Nemo (Divulgação)
HQ

Adrian Tomine desdenha de qualquer expectativa de glamour na vida de um autor de histórias em quadrinhos

A Solidão de um Quadrinho sem Fim é apenas o segundo álbum solo do quadrinista norte-americano Adrian Tomine publicado no Brasil. Com 168 páginas, tem 40 páginas a mais que Intrusos, sua outra obra lançada por aqui – ambas pela editora Nemo e com tradução de Érico Assis. Mesmo somando as 11 páginas de uma historinha curta publicada em 1999 na coletânea Comic Book: O Novo Quadrinho Americano (Conrad), o saldo do autor no Brasil acaba sendo de mais páginas de autobiografia do que ficção: 168 X 139.

Lançado no Brasil apenas alguns meses após sua chegada às livrarias dos Estados Unidos, o novo trabalho de Tomine causou comoção ao ser anunciado exatamente por ser seu primeiro trabalho autobiográfico longo. Sua única experiência prévia foi na curtinha Scenes from an Impending Marriage (inédita em português), sobre os preparativos de seu casamento. Hoje aos 46 anos, autor de HQs desde o fim da adolescência, ele se tornou um dos principais nomes da cena de quadrinhos autorais norte-americana exatamente por seus trabalhos de ficção.

Tomine deu início à sua carreira com a revista Optic Nerve, independente em seus primeiros números e depois impressa pela editora Drawn & Quarterly. À medida que arcos de histórias dessa publicação eram fechados, as HQs eram reunidas em álbuns. Assim saíram Sleepwalk and Other Stories, Summer Blonde, Shortcomings e Intrusos. Suas ilustrações para capas de discos e revistas, artes de pôsteres e outros projetos editoriais foram impressas nas coletâneas New York Drawings e Scrapbook. Quase tudo inédito por aqui.

Quadro de A Solidão de Um Quadrinho Sem Fim, HQ de Adrian Tomine publicada pela editora Nemo (Divulgação)

Como autor de ficção Tomine especializou-se em pequenas crônicas sobre solidão, relacionamentos e dinâmicas familiares  contadas em terceira pessoa, como um narrador distante que beira a frieza. Suas tramas são quase sempre focadas em um único indivíduo e sem repercussão em um contexto maior.  Por isso, sim, destoa vê-lo como protagonista e tão exposto em A Solidão, mas o escopo é o mesmo.

O álbum é uma coletânea de 26 momentos na vida do autor, experiências dele como quadrinista, marido e pai de família. Na primeira história ele tem 8 anos de idade e vira alvo de bullying após uma defesa efusiva de sua paixão por quadrinhos na escola. A última é ambientada em 2018, em um relato passional focado principalmente em sua relação com as filhas. Sempre em preto e branco e desenhos minimalistas distribuídos em páginas construídas a partir de grid padrão de seis quadros

Ele aborda sua relação com fãs e a crítica, mostra-se inseguro em relação à repercussão de seus trabalhos e explicita toda sua falta de desenvoltura social. O pano de fundo registra as transformações em sua vida pessoal e em sua carreira. Mostra o alcance e o prestígio crescentes de suas HQs, suas viagens em turnês internacionais para lançamento de seus livros e sua presença em festas com figurões do mercado editorial.

Quadro de uma das histórias de Intrusos, primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil (Divulgação)

É um álbum mais engraçado que a maior parte dos títulos de Tomine, mas sua tão característica melancolia se faz presente com sobras.

Melancolia, aliás, é um elemento fundamental do galho no qual Tomine está inserido na árvore genealógica dos quadrinhos norte-americanos. Um galho seguinte a uma geração célebre composta por heróis pessoais do autor, como Chris Ware e Daniel Clowes. Já como personagem, ele lembra a criação mais célebre de um dos principais antepassados dessa genealogia, como um Charlie Brown moderno, com insegurança e ar de derrota similares aos do personagem de Charles M. Schulz.

A repercussão em torno de A Solidão é justificada, apesar de ser o trabalho mais distante daqueles que consagraram o autor. Talvez funcione melhor para já iniciados em sua obra, bagagem que dá outro alcance às piadas. Trata-se de um registro sincero, íntimo, visualmente elegante e divertido da jornada pessoal e profissional de um dos principais nomes da história recente das HQs norte-americanas, em uma obra que desdenha de qualquer expectativa de glamour e sucesso na vida de um autor de histórias em quadrinhos.

Quadros de A Solidão de Um Quadrinho Sem Fim, HQ de Adrian Tomine publicada pela editora Nemo (Divulgação)
HQ / Matérias

Sarjeta #12: Adrian Tomine fala sobre A Solidão de Um Quadrinho Sem Fim

Está no ar a 12ª edição da Sarjeta, minha coluna mensal sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. Conversei com o quadrinista norte-americano Adrian Tomine sobre o recém-lançado A Solidão de um Quadrinho Sem Fim (Nemo). O álbum com tradução de Érico Assis é um dos títulos mais celebrados de 2020 e deve ocupar as primeiras posições de muitas das principais listas de melhores do ano. Na entrevista que fecha a coluna, uma conversa com a quadrinista Verônica Berta, autora de Ânsia Eterna e coautora de Quincas Borba em Quadrinhos, ambas publicadas pela SESI-SP.

Você lê a 12ª Sarjeta clicando no link a seguir: Sarjeta #12: Adrian Tomine fala sobre os pequenos fracassos na vida de um quadrinista de sucesso.

HQ

Domingo (27/9) é dia de papo com Fido Nesti e Rodrigo Rosa sobre adaptação de literatura para HQs

Opa, tenho um convite procê. Vou mediar um papo batizado de Romance Gráfico, com a participação dos quadrinistas Fido Nesti e Rodrigo Rosa, no domingo (27/9), a partir das 11h, no canal da editora Companhia das Letras no YouTube. O foco da conversa será em adaptação de obras literárias para a linguagem das histórias em quadrinhos, com o Rodrigo Rosa falando sobre sua experiência adaptando Os Sertões, de Euclides da Cunha, e o Fido Nesti adiantando um pouco de sua aguardada adaptação de 1984, de George Orwell. Você chega no canal da Companhia das Letras clicando aqui.

A conversa que vou mediar faz parte do Na Janela: Quadrinhos, primeiro festival online de quadrinhos do selo Quadrinhos na Cia, da Companhia das Letras. Vão rolar outros oito encontros além desse que participo, com direito a participação da quadrinista sueca Liv Strömquist, autora de A Origem do Mundo; e homenagens aos 20 anos do lançamento de Persépolis, de Marjane Satrapi, e aos 50 anos de carreira de Angeli – em um papo mediado por Érico Assis com a presença de Laerte e Caco Galhardo. Você confere a programação completa no Instagram da Companhia das Letras.

HQ

Last Days, por Chris Ware

A capa da edição de 21 de setembro de 2020 da revista New Yorker é assinada pelo quadrinista Chris Ware. Batizada de Last Days, a arte é o terceiro trabalho do autor de Building Stories e Jimmy Corrigan para a revista com o foco na pandemia do novo coronavírus – ele primeira fez a capa com o título Bedtime, depois outra chamada Still Life e publicou uma HQ celebrando seu autoisolamento por conta da COVID-19.

Lá no site da New Yorker você encontra uma breve entrevista da Françoise Mouly, editora de arte da revista, com o Chris Ware, sobre a produção desse trabalho mais recente, além desse rascunho que reproduzo abaixo mostrando o desenvolvimento da ilustração.

O rascunho de Last Days, arte de Chris Ware para a capa da revista New Yorker
Last Days, arte de Chris Ware para a capa da revista New Yorker
Entrevistas / HQ

O MAU está de volta! Rogério de Campos fala sobre a retomada da publicação após 29 anos, em edição com Robert Crumb, Gilbert Shelton, Simon Hanselmann e Martin Rowson

O MAU está de volta. O editor Rogério de Campos anunciou a retomada do encarte publicado ao longo das 22 edições da lendária revista Animal, encerrada em novembro de 1991. O 24º número será distribuído de graça, a partir de 10 de setembro, em lojas de quadrinhos e livrarias independentes, também podendo ser adquirido como brinde no site da editora Veneta, com a compra de qualquer livro do selo.

Participam da revista Robert Crumb, Gilbert Shelton, Simon Hanselmann, Martin Rowson, Aline Zouvi, Juscelino Neco, João Pinheiro, Rafa Campos Rocha, Carolina Ito, Allan Sieber, Cynthia B., Gustavo Piqueira e Batista. Autora do livro Uma História da Tatuagem no Brasil, a historiadora Silvana Jeha assina um texto sobre o artista plástico Bispo do Rosário, e Rosane Pavam, editora de texto da Animal, produziu um texto sobre Nereu Gargalo, membro do Trio Mocotó.

“Vamos retomar com o número 24 porque na verdade eu perdi a conta”, disse o editor e idealizador do projeto em meio a risos. “O número 23 existiu de maneiras diferentes na cabeça de tanta gente que aí a gente pula e vai para o 24”.

“A minha ideia inicial era fazer um zine. O que acabou acontecendo é que eu falei com umas pessoas e todo mundo disse que queria participar. O Crumb falou: ‘pode pegar o que você quiser’. Aí o Gilbert Shelton mandou uma história nova do gato dos Freak Brothers, o Fat Freddy. Aí o Martin Rowson fez uma especial, linda. Aí ficou melhor que o meu plano original. E ainda tem Allan Sieber, Carol Ito, Aline Zouvi…. Mas não teve muito planejamento, não”. 

E por que retomar o MAU e não a Animal? “A Animal tinha uma certa ambição. Era papel couchê, cor e tudo…. E também porque todo mundo fica me pedindo para ressuscitar a Animal e não vou dar essa satisfação para ninguém. Vai parecer que eu fico atendendo as vontades dos leitores e isso não é uma coisa que me agrada”.

O projeto acabou ganhando fôlego à medida que os artistas convidados pelo editor começaram a enviar seus trabalhos – o que também resultou no corte de algumas histórias maiores que podem ficar para uma possível 25ª edição. Ele disse que apesar de não ter estabelecido nenhum recorte editorial, esse novo MAU reúne histórias principalmente de humor, respostas naturais a tempos reacionários.

“Qualquer sinal de vida é subversivo, né? Esses caras, essa extrema-direita, é anti-humana, né? Então qualquer sinal de vida, de alegria, de risada, de qualquer coisa, é subversão. Dança, riso, samba, rebolado, tudo isso deixa essa gente nervosa”. 

Leia a seguir a íntegra da minha entrevista com Rogério de Campos:

“Agora que acabou o mundo, não tem jeito, vamos fazer

O que você pode me contar sobre esse 24º MAU?

Cara, eu não sei porque eu tô fazendo (risos). A gente fica o tempo todo falando que precisa fazer uma revista, ‘como era bom fazer revista’, e eu fico falando, ‘mas o momento não é mais para isso, agora é mais difícil, não tem jeito’. Mas agora que acabou o mundo, não tem jeito, vamos fazer. Não ia vender mesmo na banca, né? Então vamos fazer desse jeito aí. 

Vai ser uma revista?

A minha ideia inicial era fazer um zine. O que acabou acontecendo é que falei com umas pessoas e todo mundo disse que queria participar. O Crumb falou: ‘pode pegar o que você quiser’. Aí o Gilbert Shelton mandou uma história nova do gato dos Freak Brothers, o Fat Freddy. Aí o Martin Rowson fez uma história especial, linda. Aí ficou melhor do que o meu plano original. E ainda tem o Allan Sieber, a Carol Ito, a Aline Zouvi,… Ficou bom, mas não teve muito planejamento, não. 

E quando sai? Já está pronta?

Tá pronta, já tá na gráfica. Não sei exatamente o que eu vou fazer. A minha ideia é cobrar o frete, a embalagem, o manuseio e pronto, a publicação seria de graça. A ideia é mandar para os pontos de venda, agitar as pequenas livrarias. Então vai ser de graça no site da editora, as pessoas pagam o transporte, a logística e tal, e as gibiterias recebem e resolvem o que fazer com isso (risos).

Vai ser só quadrinho? Tem texto também?

Tem texto, sim. Tem a Silvana Jeha, autora do Uma História da Tatuagem no Brasil. Ela escreveu sobre o Bispo do Rosário. E a Rosane Pavam, que era a editora de texto da Animal, escreveu um texto sobre o Nereu, do Trio Mocotó, que acompanhava o Jorge Ben, um herói nosso.

“Saudade tem limite

Mas por que o MAU e não a Animal?

Porque saudade também tem limite (risos). E vamos com o número 24 porque na verdade eu perdi a conta. Aí comecei com o número 24. Mas o número 23 existiu de maneiras diferentes na cabeça de tanta gente que aí a gente pula isso e vai para o 24. 

A coleção original terminou na 22?

Eu acho que sim, mas não tenho muita certeza (risos).

Então, de graça, nas lojas independentes e no site de vocês, certo?

É, vai ser nas livrarias independentes, nas livrarias pequenas… Ainda tô vendo como fazer com esse negócio do frete. A ideia é ser de graça com as pessoas pagando os custos da logística. Como se fazia fanzine na época, né? O cara pagava o selo.

“Um monte de gente fica me pedindo para ressuscitar a Animal e não vou dar essa satisfação para ninguém

Só voltando, acho que você não respondeu, por que não a Animal?

Para falar a verdade, a Animal tinha uma certa ambição. Era papel couchê, cor e tudo…. E também porque todo mundo fica me pedindo para fazer a Animal, um monte de gente fica me pedindo para ressuscitar a Animal e não vou dar essa satisfação para ninguém. Vai parecer que eu fico atendendo as vontades dos leitores e isso não é uma coisa que me agradar (risos).

E como foi o convite para os artistas? Você ligou para o Crumb, explicou o projeto, perguntou se ele tinha algum trabalho…

Não, no caso do Crumb ele falou que liberou o que eu quisesse usar da obra dele. No caso do Gilbert Shelton ele falou que estava preparando um negócio e ia me mandar. Já o Martin Rowson, ele perguntou ‘como você quer e tal?’, aí eu falei que era para ele fazer o que quisesse, ele disse que foi o melhor briefing que já teve. 

Como você selecionou os autores nacionais?

Fui chamando as pessoas que estavam mais próximas mesmo. Ficou bastante o povo da Veneta, teve gente que não entrou porque na hora de fechar precisamos derrubar algumas coisas. Ficaram coisas lindas para a próxima, se ela existir. Então foram os autores que estavam próximos: João Pinheiro, Juscelino Neco, Carol Ito… Pessoas que estavam próximas, como acontece em um fanzine.

“Não tem filtro nenhum

Você passou algum tema ou recorte? Você estabelece alguma linha editorial?

Na verdade eu gastei mais tempo explicando para o povo que não tinha nenhuma linha editorial e não tinha filtro nenhum. A Cynthia B e o Batista queriam fazer uma história grandona e tal, aí não cabia aquilo tudo e eles ficaram com cinco páginas, mas ficou muito bom. 

Você falou de “próxima”. Já tem uma próxima edição em mente?

Vai depender desse número. Na verdade a Animal nunca foi mensal, ela saía de vez em quando (risos). 

Por que fazer isso agora?

Porque me deu na veneta (risos).

“Qualquer sinal de vida é subversivo

Com a edição já fechada, você já consegue fazer um balanço dessa revista? O que ela representa para você?

Tem um negócio que eu sinto um pouco de falta, e que a internet até supre um pouco: o humor nos quadrinhos. Acho que o MAU tem esse negócio de humor. Você vê muita produção melancólica… O formato leva um pouco a isso: o quadrinho underground é um quadrinho de humor, principalmente de humor. E com o formato livrão as coisas ficaram um pouco mais sérias, né? Então foi uma diversão. 

É, quando eu conversei com o Simon Hanselmann recentemente…

Ele também está na revista!

Ele me falou sobre o papel do humor como subversão. 

Ah, cara, qualquer sinal de vida é subversivo, né? Esses caras, essa extrema-direita é anti-humana, né? Então qualquer de vida, de alegria, de risada, de qualquer coisa, é subversão. Dança, riso, samba, rebolado, tudo isso deixa essa gente nervosa. 

Post atualizado com a capa do MAU #24: