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Entrevistas / HQ

Papo com Pablito Aguiar, autor de Almoço: Uma Conversa com Eliane Brum: “Foi com ela que aprendi sobre ser repórter”

O quadrinista Pablito Aguiar conheceu o trabalho da jornalista Eliane Brum após vê-la sendo entrevistada pelo apresentador Antônio Abujamra (1932-2015), em uma edição de 2013 do programa Provocações. Ele diz ter ficado “impactado com a voz doce dela e ao mesmo tempo a fala tão forte sobre como ela enxerga o jornalismo e a vida”. As 80 páginas de Almoço: Uma Conversa com Eliane Brum (Arquipélago) apresentam, em quadrinhos, uma entrevista do autor com a jornalista na casa dela, em Altamira, no Pará.

Ao longo dos últimos anos, Pablito se tornou um especialista em grandes entrevistas com figuras anônimas. Em 2017 ele publicou Alvorada em Quadrinhos, reunindo histórias de 23 moradores de sua cidade natal, Alvorada, no Rio Grande do Sul. Durante a pandemia do novo coronavírus, ele produziu a série Fala que eu Desenho, sobre vivências de diferentes pessoas durante seus períodos de isolamento social. Ele é um dos expoentes de uma cena brasileira de jornalismo em quadrinhos que ainda conta com Carol Ito, Gabriela Güllich, Cecília Marins, Alexandre De Maio e outros.

Em Almoço, Pablito faz uso de seu traço cada vez mais minimalista para apresentar algumas das principais reflexões em curso na mente de uma das jornalistas brasileiras mais premiadas e reconhecidas de sua geração – e grande inspiração para o trabalho jornalístico desenvolvido por ele.

O álbum mostra Brum preparando um almoço para o quadrinista enquanto ela conta suas motivações por trás de sua mudança para o norte do país e o início de seus trabalhos na Sumaúma – Jornalismo do Centro do Mundo, plataforma de jornalismo baseada na Amazônia e voltada para a cobertura de “uma guerra contra a natureza”.

Mandei algumas perguntas por email para Pablito Aguiar sobre o desenvolvimento de Almoço, sua admiração por Eliane Brum e seus trabalhos com jornalismo em quadrinhos. Compartilho a seguir a íntegra dessa conversa. Saca só que massa:

“O que me tocou primeiro foi ver como ela ama ser jornalista”

Quadros de Almoço: Uma Conversa com Eliane Brum, obra de Pablito Aguiar publicada pela Arquipélago Editorial (Divulgação)

Você se lembra do seu primeiro contato com o trabalho da Eliane Brum? Você se lembra de qual reportagem foi e quais foram suas impressões sobre ela?

Eu lembro sim, muito bem. Foi a [quadrinista] Grazi Fonseca que me apresentou pela primeira vez uma entrevista da Eliane Brum, na TV Cultura, no antigo programa Provocações com o Abujamra. A Grazi viu o meu interesse em entrevistar pessoas e disse que tinha uma jornalista que eu iria adorar. Eu não sabia quem era a Eliane. Eu fiquei impactado com a voz doce dela e ao mesmo tempo a fala tão forte sobre como ela enxerga o jornalismo e a vida. E, a partir daí, fui lendo todos os livros da Eliane e vendo todos os vídeos dela no YouTube e me transformando a cada uma dessas experiências.

E o que você vê de mais especial no trabalho da Eliane Brum?

Foi com a Eliane que aprendi sobre ser repórter, o cuidado com o entrevistado, a ética, a importância de checar os fatos… A Eliane tem um jeito delicado e ao mesmo tempo intenso de escrever os textos que deixam o leitor quase sem respiração, mas acho que o que me tocou primeiro foi ver como ela ama ser jornalista. No posfácio do livro A Vida que Ninguém vê ela diz:

“Ser repórter é um dos grandes caminhos para entrar na vida (principalmente a alheia) com os dois pés e com estilo. Desde pequena, o que mais me fascinava era passar pelas casas e prédios de apartamentos, adivinhar a luz lá dentro e imaginar o que acontecia, que vidas eram aquelas, com o que sonhavam, que dramas tinham, o que as fazia rir. Pronto. Arranjei uma maneira de entrar em qualquer casa iluminada por dentro, mesmo que seja com uma vela. Ser repórter não tem preço. Em todos os sentidos”.

Ela fala que quando percebeu que poderia entrar em qualquer lugar, conversar com qualquer pessoa, com um bloquinho e uma caneta na mão, se encantou pela profissão. Para mim também foi assim. Quando percebi que poderia conhecer qualquer pessoa com um gravador e a promessa de fazer um quadrinho, me apaixonei. Sabe, e ainda contar histórias que valorizem a vida das pessoas! Só vantagens. Me vi nesse amor que a Eliane tem pelo jornalismo e decidi que era isso que gostaria de ser.

“Sempre procuro que a entrevista pareça uma conversa”

Página de Almoço: Uma Conversa com Eliane Brum, obra de Pablito Aguiar publicada pela Arquipélago Editorial (Divulgação)

O que significou para você essa oportunidade de conversar com a Eliane Brum?

Para ter uma ideia, eu já vinha planejando ir para a Altamira antes da pandemia. Planejava entrevistar pessoas da cidade e tentar encontrar a Eliane. Não seria fácil. Eu não tinha ninguém para me apresentá-la. Quando recebi uma mensagem da editora Arquipélago, que também edita os livros da Eliane, em abril de 2022, dizendo que gostariam de conversar comigo sobre um projeto que unisse o meu trabalho com o dela, fiquei sem acreditar. Era ainda mais do que eu estava me permitindo sonhar. Era um trabalho direto com a Eliane. Ainda não estava certo sobre como seria esse projeto, então fiz uma proposta para eles: e se eu fosse até Altamira, no Pará, conversar com a Eliane Brum na casa dela? E eles toparam!

Encontrar a Eliane significou a realização de um sonho e ouvir dela que o meu trabalho era importante e que ela gostou de conversar comigo me fizeram acreditar ainda mais nos quadrinhos que eu faço.

Eu fico curioso em relação aos seus métodos de trabalhos. Como são os seus preparativos antes de uma entrevista? Você grava as suas entrevistas? Você tira fotos?

No caso da Eliane, eu pensei bastante que perguntas fazer e no dia levei um roteiro escrito no bloco de desenho. Mas sempre procuro que a entrevista pareça uma conversa, para que ela flua naturalmente com perguntas que façam sentido na sequência. Me guio muito pela minha curiosidade, e as perguntas que anoto previamente eu uso só caso eu não consiga pensar em nenhuma questão. Paralelo às perguntas, eu tiro muitas e muitas fotos, e faço vídeos também durante a conversa. Sempre com um gravador ligado, claro, porque a minha memória é péssima.

Acho entrevistas ao vivo, sejam pessoalmente ou por telefone, mais interessantes, mas confesso que odeio transcrever. Me fala também, por favor, sobre suas rotinas pós-entrevistas? Você transcreve tudo? Você tem algum método pessoal para selecionar os “melhores momentos” de cada conversa?

É chato mesmo transcrever, mas eu transcrevo tudo ainda. Acho importante ouvir tudo de novo, sabe? Porque para mim, quando estou em casa transcrevendo, acabo ouvindo com mais atenção. Sem distrações. Vou transcrevendo, sentindo tudo de novo e já pensando no que foi importante na nossa conversa. Depois de transcrita a entrevista, eu imprimo (a transcrição da Eliane deu 14 páginas) e vou destacando com o lápis as partes que eu considero mais importantes. Depois imagino como vai ser a narrativa da história e começo a montar, como um mosaico, as falas da pessoa no quadrinho.

“O meu objetivo é que o leitor tenha a experiência mais próxima possível da que eu tive”

Página de Almoço: Uma Conversa com Eliane Brum, obra de Pablito Aguiar publicada pela Arquipélago Editorial (Divulgação)

Como você e os seus editores chegaram no recorte desse livro com a Eliane Brum? Em qual momento você determinou que o foco na obra seria nesse seu almoço com ela?

Foi lendo o livro Banzeiro Òkòtó, da Eliane Brum, publicado pela Companhia das Letras, que eu tive essa ideia. Na página 371 ela fala: “Cozinhar feijão é como elaboro magicamente a minha vida. Em fogo lento, tirando o máximo de sabor daquilo que a terra me dá, usando temperos e ervas como bruxa.”

Quando li isso, pensei que seria muito bonito se eu tivesse a oportunidade de conhecer e desenhar esse lado caseiro da Eliane e ao mesmo tempo conversar sobre assuntos tão importantes para ela. Esse momento na cozinha, onde ela reflete sobre a vida, me pareceu ideal. E felizmente ela aceitou.

Mas o livro acabou indo além só do preparo do feijão, e virou um livro em que ela prepara todo o almoço. O feijão, o arroz, a salada, o suco de cupuaçu… Como foi no nosso encontro. E cada um desses elementos acabou virando um capítulo do livro.

 São muito comuns obras de jornalismo em quadrinhos com jornalistas se colocando como personagens. Por que a sua opção por não se retratar na HQ?

Eu adoro livros e quadrinhos onde o repórter se coloca como personagem. A própria Eliane faz isso. Mas nos meus quadrinhos eu fiz uma escolha narrativa diferente. Procuro criar a impressão de que o entrevistado esteja conversando com o leitor, e não comigo. O meu objetivo é que o leitor tenha a experiência mais próxima possível da que eu tive, por isso desapareço e coloco ele no meu lugar.

“Cada palavra escolhida diz muito sobre a personalidade da pessoa”

Página de Almoço: Uma Conversa com Eliane Brum, obra de Pablito Aguiar publicada pela Arquipélago Editorial (Divulgação)

Eu gosto de uma reflexão proposta pelo Joe Sacco no livro Reportagens que ele questiona “como conciliar a subjetividade inerente aos desenhos com a verdade objetiva que se aspira em uma matéria jornalística?”. Eu repasso a pergunta para você: como? 

Pois é, acredito que o resultado dessa conciliação entre a subjetividade e a verdade objetiva deva ser um trabalho em que a pessoa entrevistada se reconheça na criação. O trabalho que eu faço tem que ser sobre quem eu escutei, não sobre mim. E algo que me ajuda nesse processo de produção é montar um quadrinho respeitando as falas da pessoa. Respeitando a sintaxe e a linguagem utilizada, sem sinônimos, porque cada palavra escolhida diz muito sobre a personalidade da pessoa, e se eu alterasse estaria ficando distante de quem ela é. É claro que o quadrinho dá espaço também para criações, no caso da Eliane, por exemplo, quando fui pela primeira vez na casa dela e fiz a entrevista não havia quatro gatinhos, e sim dois… mas durante a minha estadia em Altamira a Eliane adotou mais dois gatos e não quis excluí-los da obra. Queria que toda a família da Eliane estivesse nesse registro. Foi uma criação, que o quadrinho possibilita, que acredito que ajudou a entender mais quem a Eliane é, não o contrário.

Algo que gosto muito no seu trabalho é o contraste entre o minimalismo do seu traço e as muitas nuances das falas e dos gestos dos seus entrevistados. E eu fico com a impressão que você investe cada vez mais nesse contraste. Procede essa minha impressão? 

Eu percebo que estou cada vez tentando olhar com mais atenção a pessoa que entrevisto. Os gestos, a forma como sorri, como fica triste, como é a casa onde ela mora, os sons… Acredito que quanto mais detalhes eu trouxer, mesmo com o meu traço minimalista, melhor a pessoa vai se enxergar no meu trabalho.

A capa de Almoço: Uma Conversa Com Eliane Brum, obra de Pablito Aguiar publicada pela Arquipélago Editorial (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Marcelo D’Salete, autor de Mukanda Tiodora: “Não podemos imaginar um governo contra as populações negras, quilombolas, indígenas, pobres e mulheres, novamente assumindo o poder”

Como escrevi na minha reportagem sobre Mukanda Tiodora, é provável que o novo quadrinho de Marcelo D’Salete seja a grande HQ brasileira de 2022. O álbum de 224 páginas recém-lançado pela editora Veneta é uma ficção histórica sobre os esforços reais de uma mulher escravizada em busca de sua liberdade na cidade de São Paulo do século 19.

A obra é baseada na história de Teodora Dias da Cunha, Tiodora, mulher escravizada originária das terras de Angola. Com auxílio de um homem escravizado alfabetizado, ela escreveu sete cartas, para diferentes destinatários, entre autoridades e familiares, tendo em vista sua alforria. D’Salete criou ficção a partir de uma das cartas, construindo uma trama envolvendo a jornada da mensagem até seu destinatário. Você lê o meu texto sobre a HQ clicando aqui.

Compartilho agora a íntegra da minha entrevista com D’Salete. Ele fala sobre o desenvolvimento de seu novo trabalho, mas também expõe suas expectativas para o governo Lula a partir de 2023, reflete sobre os rumos de suas técnicas de desenho e revela sua saudade de desenhar cidades e centros urbanos modernos. Papo massa, saca só:

“Espero realmente que possamos superar esses últimos quatro anos”

Quadro de Mukanda Tiodora, obra de Marcelo D’Salete publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Hoje é 4 de novembro de 2022, cinco dias depois da vitória do Lula nas eleições presidenciais. Queria começar sabendo como você recebeu esse resultado? Quais expectativas você tem em relação a esse novo governo?

Foi com grande esperança, alívio e alegria que veio a notícia da última eleição, no domingo, em relação à Presidência. Imagino que romper esse ciclo destrutivo e extremamente prejudicial ao Brasil, ao mundo, aos trabalhadores, da política atual, do Bolsonaro, é algo urgente e necessário. Creio que teremos o desafio, nos próximos meses e anos, de criar formas de lutar contra essa desinformação praticada de modo extremamente devastador pelo bolsonarismo. Não podemos imaginar um governo contra as populações negras, quilombolas, indígenas, pobres e mulheres, novamente assumindo o poder de uma forma tão desastrosa. Teremos desafios muito grandes para que isso não volte a ocorrer. Haja visto o número de votos que eles conseguiram na última eleição.

Agora, por outro lado, não deixa de ser extraordinário ver, mesmo com tantas empresas gastando muito dinheiro para eleição do atual presidente, utilizando a máquina pública para isso, a gente tenha o Lula sendo eleito presidente. É uma vitória popular muito grande contra o interesse dessas oligarquias endinheiradas. Espero realmente que possamos superar esses últimos quatro anos, mas também criar estratégias para que isso não volte a acontecer. Isso é possível com muita organização popular, com a população negra, indígena, de mulheres, LGBTI e outros grupos, se fazendo ouvir. Precisamos de diálogos efetivos com esses grupos.

Em meio aos vários retrocessos do governo Bolsonaro, quais são aqueles que você acha que devem ser encarados com maior atenção a partir de 1º de janeiro de 2023?

Olha, são muitos os retrocessos do atual governo. Não tem como você pensar no futuro do país tendo cortes tão bruscos nas áreas da educação, saúde e cultura. Eu acho que qualquer sonho de um país possível, com menos desigualdade e, de fato, por uma outra sociedade, passa necessariamente pela formação, pela instrução e por melhores condições para sua população. Diria que esses são apenas alguns dos temas que precisam ser tratados a partir do próximo ano. Mas é claro, é uma realidade muito complexa, de enormes problemas, que iremos enfrentar. Com certeza. Principalmente em relação ao discurso negacionista e extremamente conservador da extrema direita, diferente daquele de 20 anos atrás.

Superar a política da indiferença e do negacionismo é algo fundamental. Nós precisamos realmente colocar em pauta, novamente, uma política de solidariedade e de mudança social, que é urgente e necessária no Brasil.

Você pode me falar, por favor, sobre o seu primeiro contato com a história da Tiodora? Quando você soube pela primeira vez da existência dela? O que mais te impactou na história dela?

O meu novo livro trata da história da Tiodora. Ela foi uma mulher, negra, escravizada que em 1866 escreveu algumas cartas com ajuda de outro escravizado, o Claro. Eu tive contato com os registros dessas cartas a partir do livro Sonhos Africanos, da Cristina Wissenbach. Ele trata de São Paulo no século 19 e principalmente da população negra naquele período. É um livro incrível. Ele revela uma São Paulo, no século 19, com uma presença forte da população negra, com pessoas escravizadas e livres. As cartas da Tiodora foram enviadas para diversas pessoas. Uma era para o “senhor”, outra para um irmão do “senhor”, outra para seu esposo – Luís, que estava no interior de São Paulo – e outra para o seu filho, Inocêncio. A Tiodora queria ter contato com seus parentes e ter ajuda para conseguir a sua carta de alforria.

Elas revelam muito também sobre a própria trajetória da Tiodora. Ela vem das terras de Angola, chegou no Brasil e foi vendida no interior de São Paulo. Foi para a cidade de São Paulo, morando na Rua da Liberdade, por volta de 1860. Sendo que o seu esposo e filho ficaram no interior. É preciso entender que o interior de São Paulo e a cidade de São Paulo, ambos escravistas, formavam uma sociedade extremamente desigual e violenta. Mas havia formas diferenciadas de escravidão. E o livro tenta trazer um pouco disso.

Foi um impacto enorme ler as cartas da Tiodora. Eu lembro que chorava ao ler as cartas dela, porque ela é muito contundente. Ela é muito direta em mostrar ali as suas emoções e também o seu interesse de conseguir a sua alforria. E claro, de ter esse contato com pessoas de quem ela foi separada. Este conjunto de cartas, com certeza, como considera a historiadora Cristina Wissenbach, é algo único para pensar na cidade de São Paulo nesse período.

“Pensei que poderia até mesmo ser um livro juvenil”

Página de Mukanda Tiodora, obra de Marcelo D’Salete publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Você definiu para mim Angola Janga como “uma ficção que dialoga com fatos históricos”. Você também vê Mukanda Tiodora dentro desse mesmo “gênero”?

Eu vejo Mukanda Tiodora, assim como meus outros livros, como ficção. Mas há aproximações em relação à história, em relação a essa tentativa de imaginar São Paulo no século 19 e, principalmente, sobre a população negra nesse período. Ele é uma forma de aproximação, uma forma de investigação poética e ficcional sobre aquele momento, trazendo diferentes personagens para entender aquele contexto. Não considero um livro de registro apenas histórico, mas é uma tentativa de imaginar a história criando novas formas de interpretar aqueles fatos a partir da ficção.

Você faz uso de várias referências bibliográficas, mas construiu a HQ a partir das sete cartas de Tiodora. São cartas curtas, mas com muitas informações sobre a realidade da personagem e também sobre as origens e a personalidade dela. Como foi criar a trama dessa HQ tendo essa base como ponto de partida?

O livro da Tiodora passou por diversos estágios. É um livro atualmente com 224 páginas. Mas no início, quando comecei a elaborar o roteiro, pensei que poderia até mesmo ser um livro juvenil, falando da população negra, de cartas, de escrita, um livro quase sem texto. Seria um livro bem menor, com cerca de 40 ou 60 páginas. Aos poucos essa ideia foi crescendo, cada vez mais, como é bem comum de acontecer com meus trabalhos. E foram entrando ali novos personagens, novas ideias e isso fez com que eu tivesse que aprofundar um pouco mais em algumas pesquisas sobre o período.

As cartas da Tiodora são um ponto de partida, um documento potencial que serviu como um grande gerador de novas imagens, de novos personagens, de narrativas possíveis. Aos poucos eu fui pensando na Tiodora e como trazer esses personagens todos para narrativa, tudo inspirado no que tem ali nas cartas da Tiodora.

Aos poucos eu fui tentando entender, também, o Brasil e São Paulo em 1866. E aí nós temos a Guerra do Paraguai; a Guerra Civil nos Estados Unidos, que já tinha acabado nesse período. Nós temos um momento em que as pessoas estão sendo pegas, principalmente pobres e negros, e sendo mandados para morrer na guerra. Por isso foi muito importante dialogar também com outros historiadores e quadrinistas – como o André Toral, que me deu dicas excelentes para pensar nesse contexto. A guerra do Paraguai é um dos temas muito bem discutidos pelo André Toral em diversos livros.

Nesse período, nós temos uma confluência de intelectuais e artistas que atuam juntos na criação de alguns jornais importantes em São Paulo. Nós temos o Luís Gama, que é uma pessoa que vem de Salvador, um jovem que foi escravizado, passa pelo interior e depois fica na cidade de São Paulo. Ele consegue a sua liberdade e se torna um escritor. Além disso, se torna também advogado, tendo lutado em diferentes causas e participado da libertação de mais de 500 pessoas. Enfim, o Luís Gama é uma pessoa que teve conhecimento do processo da Tiodora. Porque as cartas dela foram apreendidas pela polícia depois que o Claro, quem escreveu as cartas, é suspeito de um crime. E o Luís Gama foi uma das pessoas que relatou todo esse caso da Tiodora, então ele tinha conhecimento do que estava acontecendo ali. Inicialmente ele não estaria na história, mas depois ele foi se impondo. Porque a relação do Luís Gama com o Ferreira Menezes, que também era um jornalista e escritor abolicionista, começa em São Paulo, quando o Ferreira Menezes vem estudar na Faculdade de Direito. Ele conhece o Luís Gama e eles trocam diversas cartas ao longo da vida deles, até 1880. Então esses dois personagens entraram. 

Nesse período, 1860, aqui em São Paulo também estava o Ângelo Agostini. Ele publicou jornais em São Paulo junto com o Luís Gama, dentro do contexto de luta abolicionista também de luta pela República. Enfim, tem todo esse contexto político contra os poderosos. O Luís Gama fazia uma crítica acirrada, extremamente forte, contra o poder instaurado naquele momento, contra os grandes fazendeiros e contra a igreja. Se por um lado você tinha os fazendeiros, que possuíam o dinheiro, o poder para manter essa estrutura, por outro lado, você tinha a igreja, que infelizmente dava apoio moral ao regime da escravidão. O Luís Gama nunca foi condescendente com esses abusos e com essa “distorção”, vamos dizer assim, dos ensinamentos que vem da própria igreja em relação à igualdade e tudo mais.

O que essas cartas trouxeram de mais revelador para você sobre o Brasil do século 19?

É muito interessante pensar que, nas primeiras décadas de 1800, no interior de São Paulo, assim como no Rio de Janeiro, havia uma população enorme de pessoas africanas escravizadas. Chegava a ser 50% em alguns locais, durante algumas décadas foi maior do que a população livre. Isso chamava atenção de muitas pessoas que viajavam, que vinham para o Brasil também.

Havia uma produção de café enorme no interior do Rio e essa produção, depois, passa pelo interior de São Paulo, região de Campinas, Limeira. Há um fluxo enorme de pessoas escravizadas da África, de Angola principalmente, vindo para o Rio de Janeiro e depois indo diretamente para o interior de São Paulo. Campinas e região era o local mais brutal do escravismo nesse período. No início de 1800, muitos países estão abolindo o tráfico no Atlântico. Inglaterra, França, Estados Unidos e vários outros países aqui na América Latina, quando se tornam independentes, acabam com a escravidão. Isso não acontece no Brasil. O Brasil se tornou independente e reforçou a instituição cruel da escravidão. Existe um verdadeiro pacto das elites para que a independência aconteça, mas com a continuidade e o incremento da escravidão, trazendo ainda mais pessoas para cá.

A primeira lei sobre a abolição do tráfico no Atlântico aconteceu em 1831. Só que a lei virou uma letra morta. Inicialmente há, sim, um momento de fiscalização e de interrupção do tráfico no Atlântico de escravizados africanos. Mas logo depois os poderosos da época, grandes fazendeiros, apoiadores do escravismo, acabam fazendo com que a lei seja ignorada e o tráfico continue acontecendo de modo ilegal.

Então, é muito interessante compreender esse período e o Luís Gama foi uma das pessoas que mais soube perceber e lutar contra isso. Ele sabia: quem vinha para o Brasil a partir de 1831 era a partir do tráfico ilegal. Essas pessoas não poderiam ser escravizadas. O Luís Gama é provavelmente uma das primeiras pessoas a utilizar esse termo naquele período: ‘libertos escravizados’. Ele compreendia que pela lei, aquelas pessoas já deveriam ser consideradas livres quando chegavam aqui. Mas, de acordo com o conluio entre os grandes fazendeiros e também a polícia da época, todo aparato jurídico e criminal daquele período não tornavam aquilo um crime hediondo.

“Tiodora nos ajuda a compreender um momento crucial da história do Brasil”

Página de Mukanda Tiodora, obra de Marcelo D’Salete publicada pela editora Veneta (Divulgação)

E você vê diálogo entre a realidade da Tiodora e o Brasil contemporâneo?

Olha, acho que a Tiodora nos ajuda a compreender um momento crucial da história do Brasil. Ela serve também para a gente relacionar com outras personalidades à margem da sociedade brasileira em diferentes períodos. Eu sempre lembro da história da Tiodora e, 100 anos depois, na história da Carolina de Jesus, por exemplo. E nós poderíamos pensar na história de muitas outras mulheres que utilizaram a escrita como uma estratégia de resistência e de sobrevivência.

Os seus primeiros livros, com ambientações mais contemporâneas, têm forte presença da realidade urbana de São Paulo. Em Cumbe e Angola Janga você se afastou desses cenários, tanto em termos geográficos quanto temporais. Em 2017, quando Angola Janga saiu, você falou como foi difícil essa transição. Em Mukanda Tiodora você volta para São Paulo, mas no século 19. Como você vê a São Paulo escravocrata dessa época influenciando a formação da cidade que existe hoje?

Imagino que as cartas da Tiodora são importantes para mostrar a São Paulo daquele período. São registros únicos para compreender certos espaços negros na cidade de São Paulo naquele período, antes de todo o processo de imigração. Por exemplo, o Bairro da Liberdade, local onde a Tiodora morou e onde ficava a forca. A Igreja do Rosário dos Homens Pretos, que inicialmente ficava na praça na Praça Antônio Prado, onde hoje existe a bolsa de valores de São Paulo. É muito emblemático que uma igreja com forte presença negra e afro-brasileira no século 19 tenha sido destruída, sobre ela, foram construídos os principais prédios da cidade naquele período, inclusive da bolsa de valores. Aquele solo foi local de grande importância negra, afro-brasileira e africana, em São Paulo no século 19.

E curiosidade minha: você sente falta de desenhar prédios e pichações e cenários mais contemporâneos?

(Risos) Sim, às vezes sim. Eu tenho alguns projetos focados no Brasil mais contemporâneo. Mas esses outros projetos, mais históricos, acabaram se impondo de uma forma muito grande na minha relação com os quadrinhos. Eram histórias que eu via e pensava “é importante que isso seja contado de algum modo”. Mas ainda espero voltar, sim, para as histórias mais contemporâneas, como fazia com Encruzilhada e Noite Luz.

Apesar de Cumbe ter saído antes de Angola Janga, você já me disse que vê Cumbe como uma extensão de Angola Janga, por um ter surgido das pesquisas do outro. Mukanda Tiodora também é desdobramento dessas pesquisas?

Olha, Mukanda Tiodora, de certo modo, acaba sendo um desdobramento, mas bem diferente para pensar na história do Brasil. Em Mukanda Tiodora eu abordo um outro momento e contexto da escravidão. Mostro outras estratégias da população negra em relação à tentativa de obter a sua liberdade ou melhores condições de vida. Essa negociação passava pela fuga, às vezes pela formação de quilombos, mas também por uma negociação tensa com os “senhores”, usando cartas, como aconteceu com a Tiodora, como aconteceu com a Esperança Garcia também. Então, a escrita, assim como a ação das irmandades negras, eram uma outra forma de tentativa de negociação com esse poder escravista, tentando melhores condições de vidas e também a liberdade.

É muito importante que a gente entenda que havia diferentes formas de resistência e negociação com o poder escravista. Todas essas formas, de certo modo, são relevantes para a gente compreender que essas pessoas buscavam melhores condições de vida, às vezes conseguindo sua alforria de fato, mas às vezes conseguindo mais tempo para os seus trabalhos, mais tempo para vender as suas coisas, para conseguir juntar dinheiro, para compra da carta de alforria, para os seus momentos festivos também. Tudo isso faz parte dessas formas de negociação e diz respeito a essa história negra de resistência, de luta contra o poder escravista.

“Desenvolvi uma outra relação com o desenho”

Página de Mukanda Tiodora, obra de Marcelo D’Salete publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Também queria saber um pouco mais sobre as suas técnicas nesse livro novo. Você usou caneta nanquim e pincel com nanquim no Angola Janga e evitou tinta acrílica, uma constante nos seus trabalhos prévios. E agora? Quais materiais você usou?

No livro Tiodora eu trabalhei bastante com nanquim e papel. Eu desenvolvi uma outra relação com o desenho. Eu mudei o estilo para algo que eu sempre persegui de certo modo, nessa relação com o preto e branco, com o cinza, o contraste, algo que lembra um pouco a gravura.

Acabava pintando boa parte da cena e da figura com aguadas de nanquim e depois ia construindo as partes de luz com tinta branca, corretivo. Gostei bastante do resultado. Tem sido uma outra forma de pensar desenho e composição. Senti que estava precisando desenvolver outras formas de desenho. Fiquei bem feliz com o resultado, com o que consegui até agora. Não sou um artista eclético, que muda muito de traço de um trabalho para o outro. Mas avalio que o livro Tiodora mostra uma nova fase em relação à composição, ao desenho, às texturas. Me agradou bastante. E claro, tem muita influência de artistas latino-americanos também, como Alberto Breccia e um pouco do José Muñoz.

As minhas lembranças de aula de história no colégio sobre o fim da escravidão são de uma narrativa em torno do movimento abolicionista como uma iniciativa de líderes políticos brancos. Tanto Cumbe, quanto Angola Janta e Mukanda Tiodora reforçam para mim a versão pouco difundida da abolição decorrente muito mais de lutas e empenhos de escravizados e ex-escravizados. Como você vê o contraste entre essas duas “narrativas”?

Em Mukanda Tiodora aparece um pouco o início desse movimento abolicionista, nas figuras do Luís Gama e do Ferreira Menezes e do jornal O Cabrião – com participação do Ângelo Agostini, indiretamente. É sempre importante compreendermos que, nesse período da abolição, houve aí um verdadeiro movimento popular, talvez um dos primeiros e mais importantes no Brasil do século 19, que chegou em grande parte da sociedade. Então nas últimas décadas, a partir de 1870 e 80, a escravidão começa a ficar insustentável.  Há uma grande comoção popular de pessoas que não compactuam mais com esse tipo de regime. Apesar disso, o Brasil, infelizmente, foi um dos últimos países a abolir a escravidão, justamente pelo poder que esses grandes fazendeiros, tinham na manutenção desse sistema e a partir sempre de muita violência.  

Nesse momento temos Luiz Gama, Ferreira Menezes, José do Patrocínio e diferentes levantes negros acontecendo em São Paulo, Minas Gerais, Paraná e outras proximidades. Há uma tentativa de levante, por exemplo, em 1832, em Campinas, que foi organizada por um barbeiro, um tropeiro e centenas de escravizados do interior. 

Enfim, nós temos aí diversos exemplos que mostram que havia um agenciamento, uma luta, muito forte de alguns grupos negros organizados pelo fim do escravismo e pela abolição de fato. Isso influenciou muito para que esse tipo de política acabasse. Não podemos esquecer também que tivemos, no final do século 18 e início do século 19, a revolução no Haiti. Isso causou um temor muito grande dos senhores.

Esse momento do século 19 foi extremamente tenso para quem defendia a manutenção da escravidão, não era algo tranquilo, por mais que no Brasil tenha demorado muito tempo para decretar a abolição. Há inúmeros casos de violência, de revoltas, levantes ou outras formas de negociação empreendidas também por pessoas negras livres que também compunham boa parte da população nas cidades no Brasil a partir de 1850.

Eu queria saber o que mais te interessa hoje no uso da linguagem das histórias em quadrinhos? O que mais te atrai no uso da linguagem das HQs para contar uma história?

Eu ainda quero fazer uma narrativa praticamente sem falas, só com imagens. Eu adoro a possibilidade de contar histórias com imagens, de elaborar novos quebra-cabeças com o desenho, o texto, a composição do layout, símbolos e conceitos. E claro, ainda quero me desenvolver em relação ao meu próprio desenho e à minha forma de contar histórias.

“É relevante trazer novas histórias e outras narrativas para além do universo dos super-heróis e de outras narrativas mais hegemônicas”

Página de Mukanda Tiodora, obra de Marcelo D’Salete publicada pela editora Veneta (Divulgação)

E quais HQs você acha que mais impactaram a produção de Mukanda Tiodora? Aliás, quais autores, artistas e obras de ficção estiveram mais presentes ao seu redor durante a produção desse trabalho novo?

Algumas obras serviram de inspiração. Por exemplo, A Infância do Brasil, do Zé Aguiar; os quadrinhos e as pesquisas do André Toral; o Província Negra, do Kris Zullo e do Kaled Kanour; o livro Avenida Paulista, do Luiz Gê, que inicia falando de uma São Paulo de séculos atrás. Essas foram apenas algumas narrativas que revisitei. E claro, nesse período, diferente do Angola Janga e Cumbe, já tinha à disposição alguns trabalhos em fotografia, de artistas como o Militão Azevedo. Essas fotografias de São Paulo, em 1862 e 1880, foram muito interessantes para compreender o crescimento da cidade nesse período.

A primeira vez que te entrevistei foi em 2013. Na época, você celebrou uma ampliação do “contexto temático das HQs” nacionais, mas disse ainda considerar “pequenas as iniciativas com temáticas mais sociais, que exploram os muitos universos de uma cidade grande a partir de personagens comuns”. Quase 10 anos depois, você vê mais iniciativas do tipo nas HQs nacionais?

Hoje eu percebo mais iniciativas nesse sentido. Mas, claro, é uma impressão. Pude acompanhar um pouco mais disso anos atrás. É relevante trazer novas histórias e outras narrativas para além desse universo dos super-heróis e de outras narrativas mais hegemônicas. Continuo achando que isso é essencial. Não é essencial apenas para falar, vamos dizer assim, de pessoas negras, indígenas, das mulheres e outras condições. É essencial para a própria continuidade das histórias em quadrinhos poderem mostrar todo o seu potencial para grande parte do público. A gente não vai conseguir isso se ficarmos restritos apenas a alguns tipos de formatos e narrativas. O público merece, ele precisa disso, assim como a linguagem dos quadrinhos precisa disso para sobreviver.

Lá em 2017, você me falou que seus 11 anos trabalhando em Angola Janga alteraram o seu “modo de compreender o passado e também o presente, em especial sobre os antigos e novos mocambos”. Você teve alguma lição ou reflexão maior do tipo durante os anos em que passou trabalhando em Mukanda Tiodora?

Mukanda Tiodora é um livro para pensar em São Paulo, cerca de 150 anos atrás. Ele é relevante para repensar os diferentes espaços físicos, e mesmo simbólicos, em São Paulo, e como a cidade se transformou, bruscamente, nesses últimos séculos. 

Página de Mukanda Tiodora, obra de Marcelo D’Salete publicada pela editora Veneta (Divulgação)
HQ / Séries

Vitralizado #122: 11.2022

Dezembro chegou junto com a grande HQ brasileira de 2022: Mukanda Tiodora, obra de Marcelo D’Salete recém-publicada pela editora Veneta. Escrevi uma reportagem sobre o mais novo título do autor de Cumbe e Angola Janga com exclusividade aqui para o Vitralizado. Prometo para os próximos dias a íntegra da minha conversa com o autor por aqui – e também uma entrevista com o autor de outra bela HQ brasileira de 2022. Já vem. A seguir, o sumário do blog em novembro de 2022:

*Como falei aqui em cima, escrevi sobre Mukanda Tiodora (Veneta), obra de Marcelo D’Salete e minha HQ brasileira preferida de 2022. É a minha aposta para o Prêmio Jabuti 2023;

*Falando em Prêmio Jabuti, Escuta, Formosa Márcia (Veneta), de Marcello Quintanilha, foi a grande vencedora da categoria Histórias em Quadrinhos na 64ª edição do mais tradicional prêmio literário do país. Fui um dos jurados da categoria, na companhia do jornalista e pesquisador Érico Assis e do professor e pesquisador Waldomiro Vergueiro. Você vê os cinco finalistas clicando aqui e confere o meu texto sobre a vitória do álbum de Quintanilha clicando aqui;

*Compartilhei por aqui as artes de Julie Doucet, Riad Sattouf e Hajime Isayama para a 50ª edição do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême;

*E também noticiei o trabalho mais recente do quadrinista Adrian Tomine para a revista New Yorker.

>> Veja o que rolou no Vitralizado #121 – 10.2022;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #120 – 09.2022;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #119 – 08.2022;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #118 – 07.2022;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #117 – 06.2022;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #116 – 05.2022;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #115 – 04.2022;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #114 – 03.2022;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #113 – 02.2022;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #112 – 01.2022;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #111 – 12.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #110 – 11.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #109 – 10.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #108 – 09.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #107 – 08.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #106 – 07.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #105 – 06.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #104 – 05.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #103 – 04.2021.




HQ

Escuta, Formosa Márcia, de Marcello Quintanilha, é a vencedora da categoria Histórias em Quadrinhos do Prêmio Jabuti 2022

Escuta, Formosa Márcia, de Marcello Quintanilha, é a obra vencedora da categoria Histórias em Quadrinhos do Prêmio Jabuti 2022. A vitória do título lançado pela editora Veneta foi anunciada em cerimônia no Theatro Municipal de São Paulo, na noite de 24 de novembro de 2022. Fui um dos jurados da categoria Histórias em Quadrinhos do Jabuti 2022 na companhia do jornalista e pesquisador Érico Assis e do professor e pesquisador Waldomiro Vergueiro

Os três jurados da categoria Histórias em Quadrinhos do Prêmio Jabuti 2022: Érico Assis, Ramon Vitral e Waldomiro Vergueiro (Reprodução)

A vitória de Escuta, Formosa Márcia é a primeira de Quintanilha no prêmio Jabuti, o mais tradicional do mercado editorial brasileiro. Ele já havia ficado em terceiro lugar em 2017, com Hinário Nacional (Veneta), quando histórias em quadrinhos passaram a concorrer no prêmio e ainda reconhecia os três primeiros colocados de cada categoria. As outras quatro HQs finalistas em 2022 foram: A Menor Distância Entre Dois Pontos É Uma Fuga (independente), de Gabriel Nascimento e João Henrique Belo; Brega Story (Brasa Editora), de Gidalti Jr.; Manual do Minotauro (Quadrinhos na Cia.), de Laerte; e Risca Faca (Monstra), de André Kitagawa. 

Marcello Quintanilha recebendo o troféu da categoria Histórias em Quadrinhos do Prêmio Jabuti 2022, por Escuta, Formosa Márcia (Reprodução)

Além do Jabuti, Marcello Quintanilha também ganhou por Escuta, Formosa Márcia: O Fauve D’Or 2022 (prêmio máximo do Festival de Angoulême), o Prêmio Grampo de Ouro 2022, o troféu de melhor quadrinista no CCXP Awards 2022 e dois troféus HQMIX (Roteirista Nacional e Relevância Internacional) – ele ainda levou o HQMIX de Exposição, por Marcello Quintanilha – Chão de Estrelas, realizada no Festival de Amadora, em Portugal. Deixo a seguir o vídeo com a íntegra da cerimônia do Prêmio Jabuti 2022:

HQ / Matérias

Marcelo D’Salete fala sobre Mukanda Tiodora: “Mostro outras estratégias da população negra em busca da liberdade”

Quando o quadrinista Marcelo D’Salete deu início aos seus trabalhos em Mukanda Tiodora (Veneta), ele tinha em mente um projeto menor. Seriam entre 40 e 60 páginas, possivelmente uma obra juvenil e quase sem texto. Eram propostas distintas de seus dois trabalhos prévios, os premiados Cumbe (2014) e Angola Janga (2017). O projeto cresceu, novos personagens surgiram e os temas tratados por ele exigiram novas pesquisas. Às vésperas de sua chega às livrarias nacionais, o livro ficou com 224 páginas. É uma ficção histórica sobre os esforços reais de uma mulher escravizada em busca de sua liberdade na São Paulo do século 19.

Possivelmente a grande HQ brasileira de 2022, Mukanda Tiodora aprofunda temas presentes nos trabalhos anteriores de D’Salete, amplia as reflexões propostas por eles sobre o Brasil contemporâneo e soa como um novo capítulo da verdadeira história brasileira sob a perspectiva e o nanquim de seu autor.

O novo álbum de D’Salete começou a ganhar forma quando ele leu Sonhos Africanos, Vivências Ladinas (Hucitec Editora), obra da pesquisadora e historiadora Maria Cristina Cortez Wissenbach. O livro trata da cidade de São Paulo no século 19 e, principalmente, sua população negra, tanto sua parcela escravizada quanto a livre. Um trecho da obra é dedicado às cartas de Teodora Dias da Cunha, Tiodora, mulher escravizada originária das terras de Angola. Com auxílio de um homem escravizado alfabetizado, ela escreveu sete cartas, para diferentes destinatários, entre autoridades e familiares, tendo em vista sua alforria.

As sete cartas de Tiodora estão reproduzidas na íntegra nos extras da HQ – além de textos complementares de D’Salete e Maria Cristina Cortez Wissenbach, fotos e mapas da cidade de São Paulo do fim do século 19 e uma linha do tempo da luta contra a escravidão no estado de São Paulo.

“Foi um impacto enorme ler as cartas da Tiodora”, me disse D’Salete sobre seu primeiro contato com aquele que viria a ser o foco de seu mais novo quadrinho. “Eu lembro que chorava ao ler as cartas, porque ela é muito contundente. Ela é muito direta em mostrar ali as suas emoções e também o seu interesse de conseguir a sua alforria. E claro, de ter esse contato com pessoas de quem ela foi separada. Este conjunto de cartas, com certeza, como considera a historiadora Cristina Wissenbach, é algo único para pensar na cidade de São Paulo nesse período”.

Na avaliação do autor, as cartas ainda são reveladoras sobre a história de vida de Tiodora e o passado recente do país: “Tiodora vem das terras de Angola, chegou no Brasil e foi vendida no interior de São Paulo. Foi para a cidade de São Paulo, morando na Rua da Liberdade, por volta de 1860. Sendo que o seu esposo e filho ficaram no interior. É preciso entender que o interior de São Paulo e a cidade de São Paulo, ambos escravistas, formavam uma sociedade extremamente desigual e violenta. Mas havia formas diferenciadas de escravidão. E o livro tenta trazer um pouco disso”. 

Documentos potenciais

Página de Mukanda Tiodora, obra de Marcelo D’Salete publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Em 2018, Marcelo D’Salete teve um ano de repercussão inédita para um quadrinista brasileiro. Por Angola Janga, lançado no ano anterior, pela editora Veneta, ele levou o Prêmio Jabuti na categoria Histórias em Quadrinhos, quatro troféus HQMix (Melhor Edição Especial, Melhor Desenhista Nacional, Melhor Roteirista Nacional e Destaque Internacional) e o Prêmio Grampo de Ouro. Ele ainda recebeu o Prêmio Eisner, o mais importante da indústria de quadrinhos dos Estados Unidos, na categoria Melhor Edição de Material Estrangeiro, pela versão em inglês de Cumbe (Veneta). As duas obras foram publicadas nos EUA pela lendária editora Fantagraphics, casa de alguns dos nomes mais célebres das HQs locais.

Tanto em Cumbe quanto em Angola Janga, D’Salete criou tramas ficcionais a partir de suas pesquisas sobre o Brasil escravocrata do fim do século 16. Em Mukanda Tiodora ele criou ficção a partir de uma das cartas de Tiodora, construindo uma trama envolvendo a jornada da mensagem até seu destinatário. Segundo o autor, as cartas foram como um ponto de partida: “documentos potenciais” que resultaram em imagens, personagens e todo um enredo.

“Há aproximações em relação à história, em relação a essa tentativa de imaginar São Paulo no século 19 e, principalmente, sobre a população negra nesse período”, refletiu o autor sobre seu novo trabalho. “Ele é uma forma de aproximação, uma forma de investigação poética e ficcional sobre aquele momento, trazendo diferentes personagens para entender aquele contexto. Não considero um livro de registro apenas histórico, mas é uma tentativa de imaginar a história criando novas formas de interpretar aqueles fatos a partir da ficção”.

A mescla de ficção e história e a apresentação de uma nova trama sobre resistência e enfrentamento ao poder escravista enfatizam o diálogo entre Tiodora, Cumbe e Angola Janga. No entanto, o salto temporal, do século 16 nos dois álbuns prévios, para a segunda metade do século 19 nesse trabalho mais recente, expõe outro contexto da escravidão e outro período da história de resistência da população negra contra o poder escravista.

“Mostro outras estratégias da população negra em relação à tentativa de obter a sua liberdade ou melhores condições de vida. Essa negociação passava pela fuga, às vezes pela formação de quilombos, mas também por uma negociação tensa com os ‘senhores’, usando cartas, como aconteceu com a Tiodora. Então, a escrita, assim como a ação das irmandades negras, eram uma outra forma de tentativa de negociação com esse poder escravista, tentando melhores condições de vidas e também a liberdade”, explica ele.

“É muito importante que a gente entenda que havia diferentes formas de resistência e negociação com o poder escravista”, ressalta D’Salete. “Todas essas formas, de certo modo, são relevantes para a gente compreender que essas pessoas buscavam melhores condições de vida, às vezes conseguindo sua alforria de fato, mas às vezes conseguindo mais tempo para os seus trabalhos, mais tempo para vender as suas coisas, para conseguir juntar dinheiro, para compra da carta de alforria, para os seus momentos festivos também. Tudo isso faz parte dessas formas de negociação e diz respeito a essa história negra de resistência, de luta contra o poder escravista”.

Libertos escravizados

Página de Mukanda Tiodora, obra de Marcelo D’Salete publicada pela editora Veneta (Divulgação)

D’Salete focou Mukanda Tiodora no percurso de uma das cartas de Tiodora. Ele mostra a jornada de um jovem que se propõe a fazer a entrega da mensagem em meio a todos os perigos e ao ambiente hostil da São Paulo escravocrata. A trama simples é cercada por uma ambientação reveladora em relação ao seu contexto. O terceiro capítulo da obra, por exemplo, é protagonizado por Luís Gama e Ferreira de Menezes, figuras icônicas e fundamentais do movimento abolicionista. Os dois aparecem no quadrinho em discussão sobre os vários levantes de escravizados que vinham ocorrendo e o fim inevitável da escravidão, mas como o sistema resistia e a escrita poderia ser uma estratégia de combate.

Nascido livre em Salvador, Luís Gama foi escravizado durante a infância. Já adulto, ele conseguiu na Justiça sua liberdade. Depois, como advogado, foi fundamental na libertação de mais de 500 pessoas. D’Salete conta que a presença de Gama acabou se impondo em Mukanda Tiodora – também por ter sido uma das pessoas que relatou o caso de Tiodora na imprensa da época.

“Luís Gama fazia uma crítica acirrada, extremamente forte, contra o poder instaurado naquele momento, contra os grandes fazendeiros e contra a igreja. Se por um lado você tinha os fazendeiros, que possuíam o dinheiro, o poder para manter essa estrutura, por outro lado, você tinha a igreja, que infelizmente dava apoio moral ao regime da escravidão. O Luís Gama nunca foi condescendente com esses abusos e com essa ‘distorção’, vamos dizer assim, dos ensinamentos que vêm da própria igreja em relação à igualdade e tudo mais”.

D’Salete também lembra que, no contexto da HQ, o tráfico de escravizados no Oceano Atlântico estava proibido há mais de 30 anos. Mas a prática seguiu sob a vista grossa das autoridades e da igreja católica: “Luís Gama é provavelmente uma das primeiras pessoas a utilizar o termo ‘libertos escravizados’. Ele compreendia que pela lei, aquelas pessoas já deveriam ser consideradas livres quando chegavam aqui. Mas, de acordo com o conluio entre os grandes fazendeiros e também a polícia da época, todo aparato jurídico e criminal daquele período não tornavam aquilo um crime hediondo”.

Brasil contemporâneo

Página de Mukanda Tiodora, obra de Marcelo D’Salete publicada pela editora Veneta (Divulgação)

Além do salto temporal de 300 anos, Mukanda Tiodora também se distingue dos trabalhos prévios de D’Salete em relação à sua arte. Seu preto e branco segue em alto contraste, à base de papel e nanquim, mas dialoga ainda mais com a xilogravura. Ele assume ter se empenhado para alcançar um “novo estilo” e “outra forma de pensar desenho e composição”.

“Acabava pintando boa parte da cena e da figura com aguadas de nanquim e depois ia construindo as partes de luz com tinta branca, corretivo”, me explicou o quadrinista. “Senti que estava precisando desenvolver outras formas de desenho. Fiquei bem feliz com o resultado, com o que consegui até agora. Não sou um artista eclético, que muda muito de traço de um trabalho para o outro. Mas avalio que o livro Tiodora mostra uma nova fase em relação à composição, ao desenho, às texturas. E claro, tem muita influência de artistas latino-americanos também, como Alberto Breccia e um pouco do José Muñoz”.

E após três álbuns ambientados no Brasil colonial, D’Salete assume sentir saudade dos cenários mais urbanos e modernos de seus primeiros livros, como Encruzilhada (Veneta) e Noite Luz (Via Lettera): “Eu tenho alguns projetos focados no Brasil mais contemporâneo. Mas esses outros projetos, mais históricos, acabaram se impondo de uma forma muito grande na minha relação com os quadrinhos. Eram histórias que eu via e pensava ‘é importante que isso seja contado de algum modo’. Mas ainda espero voltar, sim, para as histórias mais contemporâneas”.

Já sobre o Brasil contemporâneo ele se diz esperançoso. Focado na produção de Mukanda Tiodora durante grande parte dos quatro anos de presidência de Jair Bolsonaro, D’Salete está aliviado com a vitória de Lula nas eleições do último mês de outubro, mas também lamentou o número expressivo de votos conquistados pelo atual presidente.

“Creio que teremos o desafio, nos próximos meses e anos, de criar formas de lutar contra essa desinformação praticada de modo extremamente devastador pelo bolsonarismo. Não podemos imaginar um governo contra as populações negras, quilombolas, indígenas, pobres e mulheres, novamente assumindo o poder de uma forma tão desastrosa. Teremos desafios muito grandes para que isso não volte a ocorrer”.

A capa de Mukanda Tiodora, obra de Marcelo D’Salete publicada pela editora Veneta (Divulgação)
HQ

Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême 2023, por Julie Doucet, Riad Sattouf e Hajime Isayama

Premiada em 2022 com o Grand Prix de la ville d’Angoulême, reconhecimento pelo conjunto da obra do tradicional Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême, a quadrinista Julie Doucet (Meu Diário de Nova York) assina um dos três cartazes da edição de 2023 do evento francês. Os outros dois cartazes são de autoria de Riad Sattouf (O Árabe do Futuro) e Hajime Isayama (Ataque dos Titãs). A 50ª edição do Festival de Angoulême está marcada para ocorrer entre os dias 26 e 29 de janeiro do próximo ano.

Aproveito a deixa para lembrar da minha matéria exclusiva aqui para o blog sobre Meu Diário de Nova York – publicado pela editora Veneta e uma das minhas leituras preferidas de 2022. Também compartilhei por aqui a íntegra da minha entrevista com a autora. Você pode conferir nos arquivos do blog outros cartazes de edições prévias para o Festival de Angoulême – com artes de Chris WareTaiyo MatsumotoCharles BurnsFanny MichaëlisKatsuhiro OtomoBill Waterson e outros.

A arte de Hajime Isayama para o cartaz do 50º Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême
A arte de Riad Sattouf para o cartaz do 50º Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême