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Entrevistas / HQ

Papo com os editores da revista Ragu: “São registros que nos ajudarão a compreender esse Brasil de hoje daqui a muitos anos”

A revista Ragu está de volta. Idealizada e editada por Christiano Mascaro e João Lin, a publicação teve oito números lançados entre março de 2000 (Ragu #0) e agosto de 2009 (Ragu #7), além de alguns spin-offs. A recém-lançada nona edição da revista (Ragu #8) reúne trabalhos de mais 40 artistas, convidados e editados por Mascaro e Lin na companhia dos jornalistas e pesquisadores Paulo Floro e Dandara Palakonf (também coeditores da revista Plaf).

Com capa assinada pelo artista gráfico alemão Henning Wagenbreth e publicada pelo Cepe HQ, a Ragu #8 é um dos mais importantes títulos e uma das mais belas publicações de 2021. A revista faz jus à história e ao legado de um das coletâneas mais celebradas das HQs nacionais. Aliás, sobre a história da revista recomendo a matéria A saga da revista Ragu, escrita por Dandara Palankof para a revista Plaf.

“A ideia era que as histórias refletissem o momento que vivemos, mas não queríamos impor”, me conta Mascaro sobre o pauta passada por ele e seus colegas de edição para os artistas convidados para a revista. “Não queríamos perder a liberdade característica da Ragu e nem queríamos uma edição panfletária, temendo histórias repetitivas. Também para evitar que ela eventualmente ficasse datada. Acho que acertamos”.

Mascaro respondeu às minhas perguntas junto com Lin, Floro e Palankof. Eles me contaram sobre as origens da Ragu, a produção e a curadoria dessa nona edição e o futuro da revista. Listo a seguir os nomes de todos os artistas participanto da Ragu #8 e, em seguida, a íntegra da minha conversa com os quatro editores. Saca só:

Aline Lemos, Aline Zouvi, Allan Sieber, Alves, Amanda Miranda, Ayodê França, Cau Gomes, Celso Hartkopf, Christiano Mascaro, Fábio Zimbres, Flavão, Flavush, Gabriela Güllich, Gomez, Greg, Guazzelli, Henning Wagenbreth, Jaca, João Lin, João Pinheiro, Julia Balthazar, Laerte Coutinho, Lalo, LoveLove6, Luiza Nasser, Mafé, Márcio Vieira, Mariana Waechter, Marília Marz, Miguel Carvalho, Miguel Moura, Nuno Sousa, Puiupo, Rafael Coutinho, Rafael Sica, Raoni Assis, Raul Souza, Rogi Silva (autor da arte que abre o post), Samuca, Silvino e Taís Koshino.

“Precisamos de válvulas de escape que carreguem criticidade e que nos permitam abstrair sem perder a noção do que se passa”

Arte da HQ de Amanda Miranda presente na revista Ragu #8 (Divulgação)

A nova edição da Ragu tem início com a reprodução de dois parágrafos da escritora Toni Morrison sobre o papel da arte em um mundo machucado e sangrando. A revista está sendo publicada pouco depois do Brasil passar a marca de mais de 500 mil mortos de COVID-19, em meio ao governo fascista de Jair Bolsonaro. Qual vocês consideram o papel de uma publicação como a Ragu dentro desse contexto?

João Lin: Considero que seja o mesmo papel de todo e qualquer coletivo que esteja antenado com o tempo que estamos vivendo e que acredite num Brasil democrático, com o mínimo que se deve esperar de uma democracia: a manutenção dos direitos básicos, segurança alimentar, educação de qualidade, saúde gratuita para a população e políticas públicas que garantam igualdade de direitos para os grupos historicamente excluídos e marginalizados.

Paulo Floro: Concordo com Lin que o momento atual pede que todos os artistas que acreditam na democracia tragam alguma contribuição para esse embate contra o fascismo. Não é um momento comum. O que me deixa realmente feliz é ver que a Ragu 8 poderá servir como um documento importante do papel dos quadrinhos de discutir questões urgentes a partir da sensibilidade e talento de artistas incríveis. São registros que nos ajudarão a compreender esse Brasil de hoje daqui muitos anos no futuro. 

Christiano Mascaro: Toni Morrison escreveu esse texto quando Bush filho assumiu a presidência. Imagina, ia piorar bem ainda. Estamos passando por um período já longo de muitas dores. O Brasil mergulhou numa crise política, institucional e econômica antes da pandemia, que só veio agravar e evidenciar essa condição em que nos encontramos. Precisamos de “válvulas de escape” que carreguem criticidade e que nos permitam abstrair sem perder a noção do que se passa. Mais do que isso. Que nos auxilie no entendimento dessa sandice toda e nos tire desse torpor.

Dandara Palankof: Acho que a Ragu sempre teve uma perspectiva política porque fazer arte como Mascaro e Lin se propõe sempre acaba levando a isso de uma forma ou de outra (as histórias do Menino de Rua Gigante são um exemplo muito claro). Quando essa Ragu começou a ser gestada ainda nem tínhamos chegado ao início da pandemia no Brasil (chegamos até a nos encontrar presencialmente antes disso), mas o desastre da atual presidência já era uma nuvem sobre as cabeças de todo mundo – até porque a gente vem nesse descalabro desde 2016. Então creio que a vontade de refletir sobre o estado das coisas acabou sendo meio natural, de tentar exorcizar um pouco esse nosso estado de exceção.

Eu queria voltar lá atrás e saber mais sobre as origens da Ragu. Vocês podem contar um pouco sobre o ponto de partida da revista? Como ela teve início? Qual era a proposta inicial de vocês com a Ragu?

Lin: A Ragu surgiu principalmente da nossa necessidade de publicar nossas histórias, ilustrações, cartuns, e de ver nas bancas uma revista de quadrinhos autorais, coisa que era rara nos anos 2000 quando fizemos a primeira edição da revista  (número zero). Ter uma publicação que “mirasse” na produção nordestina de quadrinhos também era nossa intenção, visto que era raro autores da região publicarem em revistas “nacionais”.  

Mascaro: As primeiras conversas sobre a Ragu acho que ocorreram em 1998, 1999. Ela saiu em 2000. Era um cenário em que o quadrinho estava muito em baixa. Mesmo o quadrinho mainstream estava sendo pouco publicado. Acho que o que resume bem nossa motivação original, e meio que ela segue como bússola, era fazer uma revista de quadrinhos que queríamos ver nas bancas (ainda existiam bancas). Nossa ideia também era a de publicar autores e introduzir outras vozes que estivessem fora do eixo Rio-São Paulo. Não era uma voz com sotaque necessariamente, apenas novos autores contando histórias próprias. À medida que ela passou a ser publicada ela foi ganhando público fora do Recife e aos poucos ampliamos nosso leque de colaboradores. Foi um processo natural de expansão do nosso alcance, tanto com leitores como colaboradores.

“Considero a produção dos quadrinhos hoje mais inventiva”  

Página de Rafael Sica presente na Ragu #8 (Divulgação)

E quais vocês consideram as principais diferenças, os maiores contrastes, entre o mercado brasileiro de quadrinhos da época da estreia da Ragu e o cenário atual, no qual a revista está voltando?

Lin: A quantidade de quadrinhos publicados (falo de quadrinhos independentes) era muito menor e a diversidade também. A possibilidade de publicar um livro de quadrinhos, uma história longa por uma editora era bem menor naquele cenário. Também considero a produção dos quadrinhos hoje mais inventiva, mais criativa, mais ousada, com um pé na realidade e muita liberdade para divagar e recriar mundos. 

Mascaro: Naquela época não tinha um mercado propriamente. Isso é um exagero e uma verdade ao mesmo tempo. De quadrinho nacional podemos dizer que não tinha mesmo (mercado). É algo muito recente. Essa pulsão de hoje é inédita. Ela é profundamente estimulante e inspiradora. O quadrinho brasileiro não só é compatível com o que se produz fora – mas é dos mais interessantes.

Por que voltar com a Ragu hoje? Como esse projeto teve início?

Lin: Desde a edição 7 da revista, fizemos algumas tentativas de retorno buscando financiamento via editais públicos, mas não tivemos sorte. Nunca paramos de buscar alternativas para editar a Ragu. Essa edição é resultado dessas tentativas.. 

Mascaro: Na verdade a gente nunca quis parar. Durante todo esse tempo aplicamos o projeto nas Leis de Incentivo a Cultura, ano a ano, mas nunca mais fomos contemplados. Ano passado conseguimos aprovar nosso projeto com a Cepe, que tinha criado um selo de quadrinhos e acolheu a Ragu.

“Nossa ideia foi estender a experiência da colaboração para a edição”

Quadros da HQ de Aline Zouvi para a revista Ragu #8 (Divulgação)

Por que chamar o Paulo Floro e a Dandara Palankof para coeditar esse novo número da Ragu?

Lin: Temos muita afinidade com Paulo e Dandara, quando vimos a Plaf já nos identificamos com a forma deles pensarem quadrinhos. A nossa aproximação foi se dando nas conversas sobre quadrinhos, nos espaços de reflexão sobre a produção gráfica-visual e na instigação para a criação de ações como festivais e mostra de quadrinhos e ilustração aqui em Recife. Essa parceria na edição também abria a possibilidade da Ragu chegar junto de autores e autoras dessa nova geração.

Mascaro: Nossa ideia foi estender a experiência da colaboração para a edição. Queríamos trabalhar junto com a Plaf, revista que admiramos e respeitamos. Carol não pôde porque estava terminando o doutorado. Paulo e Dandara são peças importantes para a qualidade que essa edição traz. Seus insights, ponderações e curadoria enriqueceram muito o produto final. 

Paulo e Dandara, o que representou para vocês trabalhar nessa nona edição da Ragu? Quais vocês consideraram o maior desafio desse projeto?

Floro: Pra mim foi uma honra participar desse projeto, pois a Ragu sempre foi uma referência importante pra mim desde que comecei a cobrir e acompanhar quadrinhos. Quando criamos a Plaf pensamos logo de cara em trazer uma reportagem histórica sobre a Ragu como forma de recuperar um legado que consideramos importante para os quadrinhos brasileiros, mas sobretudo para a cena artística aqui do Nordeste. O desafio para esta nova edição foi conectar o espírito inovador das primeiras edições da Ragu com este novo número, mas acho que conseguimos isso com a seleção de autoras e autores deste novo número. Essa seleção tem a cara da Ragu ao mesmo tempo em que insere a revista no contexto desse cenário atual dos quadrinhos, que é bem mais instigante e prolífico que no início dos anos 2000. 

Dandara: É o tipo de coisa que nunca imaginei que um dia faria, que estaria contribuindo em um projeto como esse, que significa tanta coisa, que tem tanta história. Eu até alguns anos era só uma leitora e entusiasta, às vezes acho até meio surreal. Acho que Paulo sintetizou bem, talvez o maior desafio tenha sido esse de pensar o que poderia ser essa nova Ragu, nesse momento do quadrinho brasileiro, nesse contexto sociopolítico. Mas a proposta que então Lin e Mascaro botaram na mesa pra essa edição foi perfeita nesses aspectos, a partir daí foi só uma questão de ir dando forma a ela.

Quadro da HQ de João Pinheiro para a Ragu #8 (Divulgação)

Queria saber como foi a dinâmica entre vocês na edição. Como foi esse trabalho em equipe? Como vocês distribuíram as funções de cada um?

Lin: Não pensamos antecipadamente como se daria o trabalho na edição, fomos construindo de maneira espontânea à medida que as demandas iam surgindo. As indicações dos nomes para a edição eram colocadas na mesa e todos juntos avaliávamos até chegar a um consenso. A relação/interação com os autores e autores se deu a partir da proximidade com os/as colaboradores/as. Cada um de nós se responsabilizou por um grupo de autores/as com os quais tínhamos maior afinidade.

Mascaro: Além de todos opinarem em tudo, dividimos por cada editor um número de colaboradores e a administração dessa troca (fazer contato, encaminhar e receber burocracia, acompanhamento da produção, etc). Tudo foi muito orgânico. Discutíamos sobre o que recebíamos e lapidamos juntos essa edição. Diogo, além de participar dessas discussões, foi nossa ponte na dinâmica com a editora. Eu também fiquei responsável pelo design – sugerindo a sequência das histórias para dar o ritmo da revista. 

“A ideia era que as histórias refletissem esse momento que vivemos”

Quadro da HQ de Aline Lemos para a Ragu #8 (Divulgação)

Vocês estabeleceram algum filtro ou recorte editorial para os trabalhos publicado nessa Ragu #8? Qual foi a encomenda feita por vocês aos artistas que participaram da revista?

Lin: Nós estabelecemos um tema/guarda-chuva que orbitava em torno da ideia de engajamento e posicionamento político diante do momento que vivemos. Apesar disso a liberdade nas abordagens tinha que ser garantida e até estimulada, assim garantimos uma diversidade de olhares e percepções ampla e sem restrições para a criação e experimentação. Acho que isso sempre foi presente na Ragu. A encomenda foi feita para contemplar esse “grande tema”, mas estimulando a livre expressão sobre ele.

Floro: Inclusive nós decidimos evitar comentar muito esse tema em releases e na própria Ragu, pois queríamos que as HQs falassem por si. Acho que a seleção deixa isso bem claro, esse ativismo artístico a partir da experiência da linguagem dos quadrinhos. 

Mascaro: Trabalhamos com o que chamamos de um “quase conceito” para a edição. Mandamos um texto sobre essa ideia para os colaboradores junto com o convite. A ideia era que as histórias refletissem esse momento que vivemos, mas não queríamos impor. Poderiam, claro, abordar de qualquer maneira. Diretamente, metaforicamente, sugerir ou ir direto ao ponto. Como quisessem. Os colaboradores também poderiam ignorar esse “quase conceito”. Não queríamos perder a liberdade característica da Ragu e nem queríamos uma edição panfletária, temendo histórias repetitivas. Também para evitar que ela eventualmente ficasse datada. Acho que acertamos. Ela é “quase temática”. Essa edição reflete o espírito do nosso tempo de maneira crítica, lúdica e estimulante. Também tem coisas completamente fora desse recorte. Esses “respiros” ajudaram a balancear a edição. 

Dandara: E acho que no fim esse “quase tema” funcionou melhor do que se houvesse uma proposta,  um conceito fechados, um briefing que direcionasse demais. As histórias são muito diversas, muito plurais em abordagens e estéticas. Mas para além de uma antologia que mostra os artistas sendo tão sinceros, por causa dessa liberdade, todas essas histórias meio que se entrelaçam em um outro plano, mas relações de causa e efeito vindas das estruturas nas quais se baseiam nossas relações e sistemas sociais. Creio que essa Ragu, em sua totalidade, acaba sendo uma bela representação disso que dificilmente poderia ser realizada de outro modo.

E como foi o trabalho de seleção dos artistas que participaram dessa nova Ragu? Quais foram os critérios de vocês? Por que chamar as pessoas que vocês chamaram?

Lin: Diversidade de olhares e de lugares de fala nos orientou nas escolhas. Além disso a “presença”, atuação, engajamento dos autoras e autores no momento atual com a sua produção gráfica nos ajudou nas escolhas. 

Floro: A Ragu 8 deixa bem explícito o quanto a cena atual de quadrinhos no Brasil hoje é diversificada. E falo isso em todos os sentidos, tanto do ponto de vista dos interesses artísticos, das temáticas, identidades, origens, estilos…

Dandara: Todo mundo trouxe vários nomes e jogou na roda meio que tentando antever, a partir das características de cada um, o que possivelmente eles trariam pra compor o que acredito que todos queríamos que fosse um grande mosaico. Daí somos quatro com muitas intersecções, mas muitas diferenças – e esse era o objetivo, creio que a pluralidade da edição comece desde a pluralidade dos nossos olhares. E no processo de chegar a esses consensos, talvez o que guiasse foi o entendimento de que todos ali teriam algo de pujante a “dizer” (e coloco entre aspas pq obviamente a gente não tá falando só dos aspectos mais literais). E acho que que foi um objetivo cumprido, não creio que haja uma só página nessa edição pela qual o leitor passa passar batido.

“A pluralidade de maneiras de propor narrativas denota uma maturidade incontestável do nosso quadrinho”

Página da HQ de Laerte e Rafael Coutinho para a Ragu #8 (Divulgação)

Gostei muito da capa. Por que convidar o Henning Wagenbreth? Vocês fizeram alguma encomenda em particular para ele?

Lin: O trabalho do Henning dialoga com essa perspectiva crítica presente na Ragu e especialmente nesta edição. Além disso é um cara que tem uma relação com elementos da cultura nordestina como a literatura de cordel. Em 2018 ele fez uma grande exposição em Berlin que envolvia essas referências da literatura de cordel no trabalho dele e da xilogravura como elemento presente na sua produção gráfica, no seu desenho. 

Mascaro: Tínhamos o desejo de convidá-lo há muito tempo. João conheceu ele anos atrás num evento em Porto Alegre, eu acho. E ajudou o Henning na pesquisa sobre cordel para uma exposição em Berlim. Quando conseguimos aprovar a edição o convidamos. Ele não seguiu, necessariamente, o “quase conceito” e fez uma capa linda. Ela tem muita força. Lembro que quando o convidamos ele respondeu: “se vocês acham que sou a pessoa certa eu topo”. 

Mando essas perguntas às vésperas do lançamento da revista, imagino que a edição já esteja fechada. Qual balanço vocês fazem do resultado final desse oitavo número? O que mais surpreendeu cada um de vocês?

Mascaro: Gosto muito da edição. Acho que ela marca o retorno do projeto traduzindo de maneira contundente não só o momento que estamos passando, mas também o momento do quadrinho brasileiro. A pluralidade de maneiras de propor narrativas, muito distintas entre si, todas poderosas, denota uma maturidade incontestável do nosso quadrinho. Outro aspecto muito importante nessa edição é a presença feminina. Quando a Ragu começou era bem raro. Incrível como mudou rápido.  Hoje elas são parte fundamental desse movimento no quadrinho brasileiro. É importante criar canais para essas novas narrativas – são muitos lugares de vozes que precisam ser contemplados. Acho que é isso que a Ragu sempre fez e acredito que continua fazendo. 

“A cada nova HQ que chegava todos ficávamos impressionados”

Quadros da HQ de Marília Marz para a Ragu #8 (Divulgação)

Aliás, vocês podem, por favor, cada um, comentar algum dos trabalhos impressos publicado nesse retorno da Ragu que tocou ou chamou a sua atenção por algum motivo específico?

Lin: Gosto muito da forma direta, de como se implica explícitamente a Aline Zouvi na sua HQ. A simplicidade do seu desenho. Me toca forte também a melancolia e desencanto do olhar de Sica, o pôster é muito forte com aquele cenário desolador. Os trabalhos de Zimbres e Jaca tem a pegada experimental e nonsense que me instigam e que tem uma presença marcante na história da Ragu.

Floro: Todos os trabalhos ficaram incríveis, a cada nova HQ que chegava todos ficávamos impressionados. Eu gosto muito da experimentação que Aline Lemos faz com o próprio suporte das HQs através da colagem e do lambe-lambe. Mariana Waechter também me chamou atenção por sua HQ que tem um clímax e plot twist bem interessante. E também gosto dos trabalhos mais experimentais como Zimbres, Flavush, Luiza Nasser. 

Dandara: Eu sei que pode parecer conversa de mãe que diz que não tem filho preferido, mas: todas. Sério. Todas. Por todas essas razões que a gente veio citando até aqui. E mesmo as histórias mais longas ainda são curtas, além das ilustras; e mesmo assim eu olho pra todas e vejo muita alma, muita entrega – e nisso incluo as páginas dos próprios Lin e Mascaro, que são dois monstrinhos. Acho que foi resultado da mistura do momento que a gente vive com a crença no projeto e na história da Ragu. Foi um privilégio enorme poder contar com artistas e obras nesse nível – e aproveito então pra agradecer mais uma vez a todos eles: obrigada por terem topado a empreitada, obrigada por esses trabalhos incríveis, obrigada por fazerem quadrinhos. A Ragu só existe por causa desse fogo. E falando nisso: obrigada a Lin e Mascaro (que são dois monstrinhos, já disse isso?) por nunca terem desistido de trazer a Ragu de volta. E obrigada por levar a gente pra junto pra participar desse momento.

Vocês têm planos para dar continuidade à revista após esse oitavo número?

Lin: Sim, estamos negociando com a Cepe a continuidade da Ragu (formato mix), mas também estamos com planos de outras publicações com o selo Ragu, como foi o caso da Ragu Cordel e da edição Domínio Público. 

Floro: A ideia com essa parceria com a Cepe é manter a regularidade de uma edição por ano da Ragu. 

A capa da revista Ragu #8, com arte de Henning Wagenbreth (Divulgação)

HQ

Está no ar o Catarse da IMPRESSORAMA, caixa de experiências gráficas do Jão

Está no ar a campanha de financiamento coletivo recorrente da IMPRESSORAMA, nova investida de publicações impressas do quadrinista Jão. O projeto é voltado para a assinatura de uma caixa reunindo os trabalhos mais recentes do autor com histórias em quadrinhos: as novas HQs do universo PARAFUSO ZERO, que contam com a minha participação como editor, e as novas aventuras do guerreiro Flores, O Bárbaro. Você assina o Catarse da IMPRESSORAMA clicando aqui.

As publicações PARAFUSO ZERO presentes na IMPRESSORAMA consistem na contraparte física da PARAFUSO ZERO: Experiência, newsletter que você assina de graça na qual Jão explora outras perspectivas de seu mundo de superseres apresentado ao mundo em PARAFUSO ZERO: Vigilantes (2016) na companhia de Ing Lee, Jéssica Groke e La Cruz (com edição minha e revisão da jornalista Carolina de Assis). Você assina a newsletter PARAFUSO ZERO: Experiência, de graça, clicando aqui.

Páginas de Flores, O Bárbaro que estarão presentes na caixa da IMPRESSORAMA

Além dos meus textos e das minhas entrevistas com os autores envolvidos no projeto, cada uma das 20 edições semanais da newsletter ainda vai contar com uma história de Jão, uma página de Ing Lee para a história Dapdapada, uma página de Jéssica Groke para Querência e uma página de La Cruz para UÓ.

Os meus trabalhos com Jão em seu universo PARAFUSO ZERO começaram lá em 2018. Estamos conversando sobre as histórias e os desdobramentos de suas ideias para o seu universo de superseres há mais de três anos, sempre refletindo sobre como apresentá-las ao mundo. O projeto está ganhando vida após ser aprovado na Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte e tenho um orgulho imenso do que produzimos até aqui. Por isso, reforço o convite, assine a newsletter PARAFUSO ZERO: Experiência e apoie o Catarse da IMPRESSORAMA.

IMPRESSORAMA, nova investida de publicações impressas do quadrinista Jão

HQ

Assine PARAFUSO ZERO: Experiência, nova newsletter do quadrinista Jão

O quadrinista Jão agendou para o dia 20 de julho o envio da primeira edição da newsletter PARAFUSO ZERO: Experiência, projeto que marca o retorno do autor ao seu universo de superseres. Fui o responsável pela edição dos quadrinhos e pela produção dos textos e das entrevistas presentes em cada uma das edições. Além de quadrinhos e ilustrações de Jão, a newsletter ainda conta com obras assinadas por Ing Lee, Jéssica Groke e La Cruz (e revisão da jornalista Carolina de Assis). Você assina a newsletter PARAFUSO ZERO: Experiência, de graça, clicando aqui.

Além dos meus textos e das minhas entrevistas com os autores envolvidos no projeto, cada uma das 20 edições semanais da newsletter ainda vai contar com uma história de Jão, uma página de Ing Lee para a história Dapdapada, uma página de Jéssica Groke para Querência e uma página de La Cruz para UÓ.

Os meus trabalhos com Jão em seu universo PARAFUSO ZERO começaram lá em 2018. O projeto está ganhando vida após ser aprovado na Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte. Em um futuro próximo vamos tratar de outros desdobramentos dessa empreitada. Além da newsletter, também teremos algumas investidas impressas protagonizadas pelos mesmos superseres de PARAFUSO ZERO: Vigilantes, mas conto mais em um próximo post. Aguenta aí que logo mais volto com novidades.

Cinema / HQ / Séries

Vitralizado #105: 06.2021

Sigo por aqui, nesse eterno março de 2020, isolado e no aguardo da minha dose da vacina. Escrever sobre quadrinhos e atualizar o blog é respiro nesse caos reacionário e negacionista que estamos vivendo. Espero que o Vitralizado também ofereça algum alívio para você. Compartilho agora o sumário com o conteúdo produzido por aqui nos 30 dias que ficaram para trás. Teve Laerte, Manda Conti, Shiko, Lobo Ramirez, Zica e Adrian Tomine. Na imagem que abre o post, arte de divulgação do relançamento de The Death-Ray, obra de Daniel Clowes, em 2011, pela editora Drawn & Quarterly. Ó:

*Escrevi na 21ª edição da Sarjeta, minha coluna sobre quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural, sobre Manual do Minotauro, coletânea publicada pela editora Companhia das Letras reunindo o melhor da produção recente da quadrinista Laerte. Desde já, candidata potencial às primeiras colocações nas listas de melhores lançamentos do ano;

*Ainda na Sarjeta, bati um papo rápido com Manda Conti;

*Publiquei por aqui uma crítica da excelente Carniça e a Blindagem Mística – Parte 2: A Tutela do Oculto, do quadrinista Shiko. Aguardo ansiosamente pela terceira edição;

*Entrevistei o editor e quadrinista Lobo Ramirez sobre os cinco anos da Escória Comix, uma das minhas editoras preferidas, responsável por algumas das minhas melhores leituras nos últimos anos e por apresentar alguns dos artistas que mais chamaram a minha atenção desde 2016;

*Também bati um papo com Luiz Navarro, Marcos Batista e João Perdigão, os três editores da revista A Zica, sobre o recém-lançado sexto número da publicação;

*E viu essa capa aqui do Adrian Tomine para a revista New Yorker?;

>> Veja o que rolou no Vitralizado #104 – 05.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #103 – 04.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #102 – 03.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #101 – 02.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #100 – 01.2021;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #99 – 12.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #98 – 11.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #97 – 10.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #96 – 09.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #95 – 08.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #94 – 07.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #93 – 06.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #92 – 05.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #91 – 04.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #90 – 03.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #89 – 02.2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #88 – 01. 2020;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #87 – 12.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #86 – 11.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #85 – 10.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #84 – 09.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #83 – 08.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #82 – 07.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #81 – 06.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #80 – 05.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #79 – 04.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #78 – 03.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #77 – 02.2019;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #76 – 01.2019
>> Veja o que rolou no Vitralizado #75 – 12.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #74 – 11.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #73 – 10.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #72 – 09.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #71 – 08.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #70 – 07.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #69 – 06.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #68 – 05.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #67 – 04.2018;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #66 – 03.2018;
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>> Veja o que rolou no Vitralizado #63 – 12.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #62 – 11.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #61 – 10.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #60 – 09.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #59 – 08.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #58 – 07.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #57 – 06.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #56 – 05.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #55 – 04.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #54 – 03.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #53 – 02.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #52 – 01.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #51 – 12.2016;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #50 – 11.2016;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #49 – 10.2016;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #48 – 09.2016.

Entrevistas / HQ

Papo com os editores da revista A Zica: “Fazer esta revista com recursos públicos durante este governo é uma retomada de posse e marcação de território para produção cultural” 

A sexta edição da revista A Zica tem como tema “escola, café e videogame”. Com capa de Suryara Bernardi, o mais recente número da publicação editada por Luiz NavarroMarcos Batista e João Perdigão tem 168 páginas e conta com trabalhos de 73 artistas (brasileiros, argentinos, mexicanos, indianos e portugueses). Sua impressão foi bancada via recursos públicos da Lei Aldir Blanc.

Entrevistei os três editores e perguntei sobre a importância do lançamento dessa nova Zica em meio ao governo de Jair Bolsonaro. A resposta: “Quando ela for lida daqui a muitos anos, será entendida neste contexto neofascista, e os trabalhos produzidos vão ser uma nota histórica importante de que tinha muita gente horrorizada e insatisfeita com este anacronismo que é essa extrema-direita no poder”.

No nosso papo, Navarro, Batista e Perdigão também fizeram um balanço sobre esse sexto número da revista, comentaram suas principais surpresas com essa nova edição e refletiram sobre os mais de 10 anos de existência do título, entre outros temas. Aproveito para recomendar a leitura da minha entrevista com o trio na época do lançamento da Zica #5 e deixo, a seguir, a minha nova conversa com os três. Ó:

“Cada vez mais queremos abarcar diversidades de estilos e artistas”

Página de HQ de Beatriz Shiro publicada na sexta edição da revista A Zica (Divulgação)

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas aí? Como vocês estão lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a produção e a rotina diária de vocês?

Absolutamente. Nós três somos escritores, pesquisadores, livreiros, produtores, comerciantes – em maior ou menor grau todos exercemos estas funções – e a pandemia acabou fechando algumas dessas portas para nós. João e Batista lançaram livros durante a pandemia e não puderam fazer uma rotina de lançamento viajando e divulgando seus trabalhos. A própria Zica não pode ter um lançamento com evento festivo e alegre, como a gente gosta. A Feira Canastra que tem entre seus produtores Luiz e João tem data incerta para a próxima edição, a grana ficou curta para todos nós. Mas a gente não adoeceu, e os nossos, em grande maioria, estão bem, então estamos gratos e atentos.

No editorial da revista vocês explicam a escolha de “escola, café e videogame”. Fiquei com a impressão de vocês irem num tema central/factual/urgente da nossa realidade (escola) a dois métodos escapistas muito convenientes para encarar (café) e fugir (videogame) dessa mesma realidade. Vocês podem fazer um balanço entre as expectativas de vocês quando optaram por esses temas e as obras que receberam?

Os temas em geral seguem a lógica de ter um sobre o Zeitgeist do momento da edição (apocalipse, Rússia, América Latina, propaganda), uma mais comportamental (maconha, bullying, vandalismo) e um mais zoeiro-tema livre (vermes, dinossauro, trevas). Mais ou menos assim que vemos a escolha dos temas. Então ficamos nesta edição com escola como o grande tema da temporada (o zeitgeist), o video-game como o comportamental e o café como tema livre. Mas sempre cremos que não há uma hierarquia entre eles, que todos importam da mesma forma, têm o mesmo peso.

Nesta edição a expectativa era que todos temas trariam boas reflexões e múltiplas abordagens, e foi exatamente o que aconteceu. Já teve edições que um dos temas quase não foi abordado, já teve outras que um dos temas era quase onipresente nos trabalhos. Nesta há um equilíbrio e uma diversidade muito satisfatória, que dão uma dimensão bem grande de leitura da revista.

Página de HQ de Diego Melo Gomes publicada na sexta edição da revista A Zica (Divulgação)

E como vocês acham que essa nossa atual realidade sócio-econômica-pandêmica impactou o resultado final da revista? Eu tendo a ver coletâneas como A Zica como espaços muito ocupados por obras de humor e não sei se foi o caso dessa edição nova de vocês. Ela me parece mais séria, com algumas obras mais pessimistas e agressivas, do que encontrei em edições prévias. Vocês concordam?

Concordamos em parte. De fato a maior parte das antologias brasileiras desta natureza têm um foco em humor, creio que é um brilho e uma tradição do país. Mas cremos que A Zica está em constante mudança, nunca primamos por ser uma publicação de humor. Cada edição fica à mercê do que recebemos, e apesar de haver um processo de edição, não temos todo esse poder de direcionar a revista para um lado ou outro pois se recebermos somente quadrinhos, ou somente ilustrações, será uma edição que reflete o conteúdo recebido. Por exemplo, a primeira edição era basicamente com trabalhos de artistas de rua, só com ilustrações e textos (sem quadrinhos), a quinta edição é mais bem humorada, a sexta é mais sóbria, com menos peças de humor e mais reflexão.

Esta última achamos que ficou bem engraçada, muitos trabalhos bem humorados também, mesmo que em um humor que talvez reflita o desespero, o desolamento e o cinismo das pessoas ante este mundo e este Brasil de 2021. Não é uma revista sobre a pandemia, mas uma revista produzida durante a pandemia. Inevitavelmente esse contexto influiu nos trabalhos. E engraçado pensar sobre sua percepção, creio que nenhum de nós pensaria que A Zica seria mais ocupada por humor, talvez sempre vimos ela com mais ênfase no protesto. Mas é a visão de cada pessoa que lê que forma a revista, aliado ao material recebido a cada edição.  

Repito duas perguntas da entrevista que fiz com vocês sobre a edição passada: o que houve de mais singular durante o desenvolvimento desse sexto número d’A Zica? E o que mais surpreendeu vocês em relação aos trabalhos que receberam?

Uma das coisas que mais nos surpreendeu foi receber e publicar tantos trabalhos do universo LGBTQI+. A Zica nunca recebeu tantos trabalhos que versam sobre o queer como nesta edição. É uma coisa que nos deixa feliz, a revista ser vista por artistas como um espaço para publicação de trabalhos que tocam nesta vivência. Foi muito espontânea essa abordagem, pois nós não incentivamos aos artistas que enviassem trabalhos queers, nem os temas desta edição são particularmente sugestivos para que esta vivência fosse abordada. E cremos que o que isso mostra, como já sabemos, é que o queer está embebido no nosso mundo e atravessa todos os assuntos, então falar de video-game, escola e café, ou qualquer outro assunto, permite este tipo de visão das pessoas que estão vivendo e trabalhando sob esta ótica.

Outra questão que marcou nessa edição foi o processo de desenvolvimento da capa. Nós estávamos pensando se escolhíamos entre algum dos trabalhos recebidos ou se convidávamos um artista para produzir a capa. Numa conversa entre o João e uma amiga, a Débora, surgiu a ideia de fazer uma referência às manifestações dos secundaristas que ocuparam as escolas do país entre 2015 e 2016. Essa ideia surgiu a partir da inspiração de um dos trabalhos que recebemos, da Suryara: uma ilustração de uma estudante negra em cima de uma cadeira com uma bandeira de protesto. Nós não conhecíamos a Suryara nem o trabalho dela e fomos pesquisar. Foi surpreendente. Ela tem um traço delicado e muito bonito. Daí, convidamos ela para a capa. A ideia, que foi uma sugestão também da Débora, foi fazer uma releitura de uma foto emblemática daqueles protestos de uma estudante negra chamada Marcela Nogueira disputando uma carteira com um policial militar. O resultado foi incrível e muito forte. Toda a potência da imagem traduzida em um traço muito delicado. Gostamos muito desta capa. E isso revela outro aspecto surpreendente desta Zica: recebemos muitos trabalhos com traços e estilos mais delicados, mais sensíveis. O que derruba um estigma da Zica ter uma identidade hardcore e só. Cada vez mais queremos abarcar diversidades de estilos e artistas e estamos conseguindo.

“A Zica nunca recebeu tantos trabalhos que versam sobre o queer”

Página da HQ de Manda Conti publicada na sexta edição da revista A Zica (Divulgação)

E sobre a proposta da Zica de servir de vitrine para novos talentos: quais autores que nunca tinham saído na revista que mais chamaram atenção de vocês? Confesso ter ficado bastante impressionado com o trabalho de Manda Conti.

Manda Conti foi uma das alegrias que a descoberta traz. Outra é a Suryara, que já comentamos. Falar de nomes é sempre um dodói num tipo de publicação assim, ainda mais pra Zica que novidades e nomes conhecidos são sempre vistos na mesma régua de certa maneira. Mas o trabalho de Ismael Flores é uma surpresa maravilhosa, pois é um ilustrador mexicano de mão cheia que nunca havia publicado um quadrinho, e logo na Zica ele envia um trabalho tão complexo (em termos de execução) e sensível – Memórias de um Mirão, leiam. Temos também os textos, que nesta edição tivemos uma atenção maior em publicar, para que nas próximas edições possamos ter uma adesão maior de quem escreve sem pressão entre quem é jornalista, poeta ou contista, queremos que escritores e escritoras tenham A Zica como um lugar de publicação também. Tem uma participação supimpa do Cecil Silveira que fez nossa primeira duotone, que agora abre as portas para que na próxima edição possamos receber trabalhos em duas cores, e não apenas em escala de cinza. Tem o Diego Gomes que nos divertiu imensamente com sua junção de Hermes e Renato com Charles Darwin, a Bia Shiro com uma porradona riot zoando os macho game. Mas no geral esta é a revista com mais surpresas, o que nos mostra que já circulamos mais do que imaginamos, e mais artistas fora do nosso radar entram em contato conosco, o que nos alegra pois a revista está cumprindo sua missão.

Página da HQ de Marco Vieira publicada na sexta edição da revista A Zica (Divulgação)

Já são mais de 10 anos desde o lançamento da primeira Zica. Na nossa última conversa vocês já falaram sobre as muitas diferenças que notaram no cenário de quadrinhos/publicações independentes no qual A Zica está inserida. Queria saber agora: nesses mais de 10 anos, vocês notam muitas transformações nos interesses e nas investidas estéticas dos autores desse cenário? Se sim, vocês veem essas transformações presentes de alguma forma nessa sexta Zica? 

Totalmente. Os interesses e investidas apresentados nos trabalhos estão bem mais diversos do que o cenário apresentava 10 anos atrás. Como falamos, muitos trabalhos queer, e também mais liberdade e maturidade para falar de sentimentos mais complexos como perdas, amadurecimento e sentimentos íntimos. Creio que de forma inconsciente o habitual de trabalhos passados eram impressionar, pelo visual do trabalho ou pelo choque do discurso. Falo isso não das edições passadas, mas do cenário brasileiro. E assim como a cena artística nacional, que A Zica é mero reflexo, esta edição apresenta trabalhos mais radicais, seja pela honestidade escancarada, sem que o choque seja o gancho que fisgue quem lê, seja pela diversidade de técnicas e estilos, que já não são mais tão espetaculares ou toscos radicais. Temos uma gama de artistas produzindo trabalhos de tudo que é forma, mas menos preocupados em atender uma estética publicitária ou das redes sociais, mas que sejam honestas com a verdade de quem produz, então nesta edição fica bem claro que o desenho mais (tecnicamente) incrível e o mais radicalmente desgraçado não querem agradar uma agenda social, mas sim agradar quem os cria. Ficamos felizes em ver que os artistas e as artistas conseguem veicular mais e melhor suas próprias vozes e verdades, o que talvez fosse ainda incipiente há 10 anos.

A Zica #5 saiu às vésperas das eleições de 2018. Na época perguntei qual vocês consideravam o papel de uma publicação independente, com ares subversivos como A Zica em um contexto de conservadorismo crescente. As coisas pioraram muito de lá para cá. Qual vocês consideram o papel de uma publicação como a Zica hoje, no Brasil de Jair Bolsonaro?

Fundamental, histórica. Nesta edição tivemos noção que ela é um documento histórico para daqui 20, 30, 100 anos. Quando ela for lida daqui a muitos anos, ela será entendida neste contexto neofascista, e os trabalhos produzidos vão ser uma nota histórica importante de que tinha muita gente horrorizada e insatisfeita com este anacronismo que é essa extrema-direita no poder. E para que isso ficasse mais pungente tomamos certas atitudes como inserir os créditos junto das próprias páginas, e não escolher temas correlatos ao momento como a própria pandemia ou o fascimo. Isso contribuiu para que os trabalhos enviados refletissem sobre essas questões de forma mais mundana, dando aos leitores futuros essa noção de que quem viveu e estava ativo durante esse período falava de assuntos da vida, da liberdade, do entretenimento, falando desta realidade atual de forma escancarada ou sutil, formando assim um mosaico mais complexo e completo deste nossos tempos.  

Ter a marca deste governo na quarta capa é a cereja do bolo. Fazer esta revista com recursos públicos (via Lei Aldir Blanc) durante este governo é uma retomada de posse e marcação de território para produção cultural. E criar uma revista que se opõe a tudo que estas marcas impressas na nossa contracapa é uma das coisas mais gostosas que a revista nos permitiu criar.

Outro ponto importante: é um tesão produzir trabalhos editoriais impressos, gráficos, feitos de papel, em pleno 2021, em contraposição à onipresença das telas e dos conteúdos digitais, virtuais. É muito bom criar espaços para artistas produzirem sem os moldes e expectativas de uma mídia como o Instagram.

“É um tesão produzir trabalhos editoriais impressos em pleno 2021”

Página da HQ de Cecil Silveira publicada na sexta edição da revista A Zica (Divulgação)


Última! Pediria para cada um dos três, por favor: você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Batista: minha recomendação é o novo single da banda Isso, de Belo Horizonte, com a música A Estrada, belíssima composição e grande gravação; a biografia do João Perdigão para Guignard, chamada Balões, vida e tempo de Guignard que estou lendo; e o gibi DF Medieval, do Munha da 7 e do Gabriel Mombasca, ambos de Brasília, que contam a história da Idade Média do DF de forma absolutamente engraçada e original (no momento o livro está no Catarse e já atingiu a meta, mas conheço o projeto há anos, e já li boa parte do material publicado em zine, e é incrível).

Luiz: Durante a pandemia, não tem jeito, é surra de Netflix rs. Tenho visto muitos filmes e séries ótimas. Entre os mais recentes que vi, tem o Judas, o Messias Negro e A Voz Suprema do Blues, esse último com atuações muito boas do Chadwick Boseman e da Viola Davis. Nele, me chama a atenção a história da produção cultural independente americana, com suas pequenas gravadoras musicais, e me remete ao que vivemos hoje no universo das publicações, com muitos artistas e pequenas editoras se profissionalizando. O documentário do Elvis Presley também é muito legal pra observar esse universo. Já sobre o universo maluco das artes plásticas, tem o documentário Fake Art, que dá uma ideia de como é doida a forma como o capitalismo lida com a arte. Uma animação: Midnight Gospel, é bem pop mas vale a pena assistir. E tão rolando várias produções não americanas muito boas, como a série sueca Dinheiro Fácil (Snabba Cash), que tem um ritmo e um estilo muito legais. Entre os brasileiros, sugiro o Joaquim, filme biográfico sobre o Tiradentes, do mesmo diretor de Cinema Aspirinas e Urubus, e o Arábia, dos mineiros Affonso Uchoa e João Dumans.  Videogame: tô viciado em Two Dots, um quebra cabeça para celular, muito inteligente e bem feito.

João: Trabalho como pesquisador e escritor, mas meu consumo cotidiano geralmente tá relacionado com trabalhos de pesquisa e documentário – amo! O último livro que li e gostei muito foi Enverga, mas não quebra: Cintura Fina em Belo Horizonte, do Luiz Morando, que é um pesquisador monstrão da memória LGBTQI+ de BH, que através de documentos, revela a vida de Cintura Fina, que até então era uma figura mitológica que só era conhecida nossa através de sua representação na mini-série Hilda Furacão – e a abordagem é bem diferente. Outro livro que chapei foi História da poesia visual brasileira, organizado pelo Paulo Bruscky, que fez uma compilação belíssima sobre a produção gráfica nacional dos últimos 100 anos de uma maneira muito bonita. O que conto quando conto como piada, do Batista virou um livro de cabeceira aqui em casa, é pra ler várias vezes e rachar de rir. Já de documentário, tenho pirado muito em festivais que me mostram coisas muito boas produzidas além da bolha Netflix/Amazon, como É Tudo Verdade (de docs), e mais recente, o In Edit Brasil (de docs musicais), além do bom e velho forum makingoff.org, que me aplica outros tantos -destes aí, vou citar  três; Tio Tommy – O homem que fundou a News-Week (2021), sobre o empresário/espião norte-americano que viveu no Brasil, SpeedfreakS: Psicopata camarada (2021), sobre a trajetória do rapper morto misteriosamente em Niterói e Falso ou verdadeiro – Fabricando ignorância (2021), produção do canal de TV alemão DW sobre a invenção de revisionismo científico patrocinado pelas grandes corporações.E de música, vou citar três sons de diferentes gêneros; Matéria Prima, Divergência Socialista e Arca. 

A capa da sexta edição da revista A Zica (Divulgação)
HQ / Matérias

Sarjeta #21: Laerte, subversão, experimentalismo, bom-humor e o Manual do Minotauro

Está no ar a 21ª edição da Sarjeta, minha coluna mensal sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. Escrevi sobre Manual do Minotauro, coletânea publicada pela editora Companhia das Letras reunindo o melhor da produção recente da quadrinista Laerte. Desde já, candidata potencial às primeiras colocações nas listas de melhores lançamentos do ano. Comento no meu texto, entre outros temas, como a produção de Laerte reúne os três elementos pelos quais mais me interesso em HQs nacionais: subversão, experimentalismo e bom-humor. Na entrevista que fecha a coluna, uma conversa com Manda Conti.

Você lê a 21ª Sarjeta clicando no link a seguir: Sarjeta #21: Laerte sintetiza o melhor das HQs nacionais: subversão, experimentalismo e bom-humor.

A capa de Manual do Minotauro, coletânea com trabalhos recentes da quadrinista Laerte (Divulgação)