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Entrevistas / HQ

Papo com Box Brown, autor de Tetris: “É quase impossível não ter algum propósito comercial na sua arte”

Entrevistei o quadrinista norte-americano Box Brown sobre o lançamento da edição brasileira de Tetris, prevista para o início de abril, pela editora Mino, e transformei esse papo em matéria publicada na sexta edição da Sarjeta, minha coluna mensal sobre histórias em quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. Você lê meu texto clicando aqui.

Também autor dos excelentes Cannabis, Andre The Giant e An Entity Observes All Things, Brown é um dos meus autores preferidos. Ele é capaz de manter seu estilo seja na produção seus trabalhos independentes para a Retrofit Comics ou em suas obras documentais para a First Second Books.

Recomendo a leitura da Sarjeta para você saber mais sobre a história e a produção de Tetris e depois uma investida na entrevista a seguir – feita quando Brown ainda viria ao Brasil para o Mino Day, evento da editora Mino que estava marcado para abril, mas acabou adiado por conta da epidemia do coronavírus.

No minha conversa com o autor falamos sobre a presença de videogames em sua vida, sobre seus métodos de pesquisa e produção, sobre a relação entre arte e comércio e sobre seu novo livro, Child Star. Saca só:

“Tetris foi algo imenso no momento perfeito para mim”

Quadros de Tetris, HQ de Box Brown publicada no Brasil pela editora Mino

Você tem um histórico de trabalhos documentais sobre temas que parecem caros a você: a biografia do André The Giant, a história da ilegalização da maconha nos Estados Unidos e Tetris. Qual foi o ponto de partida de Tetris? Por que contar a história daquele que talvez seja o mais famoso dos games?

Ah, porque Tetris foi algo imenso no momento perfeito para mim. O Game Boy saiu quando eu tinha 8 ou 9 anos e veio com o Tetris. A minha família inteira jogava. Foi o primeiro jogo que me permitiu criar uma conexão com o meu pai e outros adultos, porque eles também jogavam. Foi a primeira vez que eles realmente compreenderam a obsessão da minha geração por videogames.

Você pode me contar sobre a sua relação com videogames? Você lembra do seu primeiro contato com games? Qual foi o primeiro jogo que você jogou? Você lembra do seu primeiro contato com tetris?

Eu jogo desde sempre. Quando eu tinha 5 anos ganhei um Nintendinho de Natal. Isso foi em 1985. Logo depois ganhamos um Atari usado, depois um Sega e um TurboGrafx 16 e tudo mais o que veio depois. Eu também joguei muitos jogos de fliperama nas minhas quebradas. A loja de quadrinhos tinha duas máquinas de videogame onde eu jogava de tudo. Eu lembro que tinha de tudo por lá, pinball também, ainda tinham os quadrinhos, os cards e as balas. Era um verdadeiro paraíso.

“A história do Tetris é um ótimo exemplo de interseção entre arte e comércio”

E como foi o seu primeiro contato com a história por trás da produção de Tetris? Quando você ouviu falar pela primeira vez sobre todas as questões políticas relacionadas ao desenvolvimento do jogo?

Sim. Quando eu era criança havia duas versões do Tetris para o Nintendinho. Havia um que se parecia com todos os outros da Nintendo e, também, uma versão diferente produzida pela Tengen, com um cartucho diferente, preto. Não se parecia em nada com os outros jogos. O boato era que o cartucho preto era ilegal… Mas era tudo o que sabíamos! Isso criou um ar legal de mistério em torno do jogo. Mas depois, muito mais tarde, me deparei com um documentário sobre a história do Tetris. Sou entusiasta de documentários e a história do Tetris é um ótimo exemplo de interseção entre arte e comércio.

Durante a sua infância, teve algum jogo ou console que você quis muito ter e não teve?

Sim, muitos jogos que até cheguei a joguar depois e descobri que são horríveis haha Quando eu era criança jogávamos um único jogo por semanas, meses até. Agora eu jogo 20 em um único dia brincando com o meu Switch. Eu lembro de querer desesperadamente um Sega Saturno e nunca ganhar um.

“A minha série de jogos favorita de todos os tempos é The Legend of Zelda e também a minha história favorita”

Quadro de Tetris, HQ de Box Brown publicada no Brasil pela editora Mino

Qual jogo mais marcou a sua vida? Houve algum jogo ou console em particular que mudou em definitivo a sua relação com video games?

Eu diria que foi Final Fantasy 7. Eu joguei quando tinha 17 anos e fiquei tão obcecado que eu dispensava festas. Era maravilhoso para mim que um jogo pudesse ter uma história tão rica, ser tão complexo e desafiador e ainda assim divertido.

Vejo debates e discussões cada vez mais constantes em torno da “narrativa” de mídias como quadrinhos e games. Em termos narrativos, o que mais te interessa nessas duas mídias?

Acredito definitivamente na importância da narrativa. Eu não consigo jogar um jogo que não conte uma boa história, mesmo que os gráficos sejam incríveis. Acho que o mesmo vale para os quadrinhos para mim. Eu preciso que me contem uma história. A maioria dos jogos que jogo hoje são de simulação de negócios, mas mesmos nesses jogos, com o objetivo de administrar um sistema ao invés de completar uma missão, são as narrativas que direcionam a jogabilidade. Quando falta uma estrutura narrativa coesa ao jogo, ele pode ficar mecanizado. A minha série de jogos favorita de todos os tempos é The Legend of Zelda e também a minha história favorita. Eu jogo esses jogos repetidamente e amo a história mais do que qualquer coisa.

“Queria que as páginas brilhassem, lembrando um pouco um videogame”

Página de Tetris, HQ de Box Brown publicada no Brasil pela editora Mino

Eu fico muito curioso em relação à administração do conteúdo que você reuniu em Tetris. São muitas datas, muitos personagens. Você criou algum método de trabalho ou algum filtro para selecionar o que entraria e o que ficaria de fora do livro?

Bem, a primeira coisa que eu fiz foi criar uma espécie de árvore genealógica de todos os personagens e como estão conectados uns aos outros, mantive isso em um quadro de cortiça na frente da minha mesa enquanto estava criando o livro. Isso meio que se tornou aqueles retratos no início de cada capítulos. Me ajudou a apresentar os inúmeros personagens que desempenharam algum papel nessa história.

E você se preocupava em tornar a leitura da HQ divertida em meio a tantos dados e informações?
Sim, eu fiquei muito preocupado com isso. A maior parte da história trata de vários homens em roupas de negócios durante reuniões. Eu tive que ficar buscando soluções para tornar o livro visualmente dinâmico. Acho que é por isso que escolhi o amarelo, para manter as páginas visualmente atraentes. Eu também queria que as páginas brilhassem, lembrando um pouco um videogame. 

“Você precisa torcer para que o seu trabalho não esteja sendo influenciado por suas necessidades financeiras, mas é quase impossível que isso aconteça”

Quadros de Tetris, HQ de Box Brown publicada no Brasil pela editora Mino

Tetris me fez pensar bastante sobre controle criativo e direitos de propriedades intelectuais. Videogames são mídias caras e talvez sejam a indústria criativa mais rentável do mundo. Qual você considera o impacto do sistema capitalista em indústrias criativas como a dos games e dos quadrinhos?

Isso é algo que os quadrinhos também precisam lidar, assim como os videogames. Na verdade é algo que toda forma de arte acaba tendo de enfrentar de alguma maneira. Você é constantemente confrontado com a possibilidade de fazer coisas por dinheiro. Estamos todos na mira dessa mesma arma. É quase impossível não ter algum propósito comercial na sua arte. Todos nós temos que viver. Você precisa torcer para que o seu trabalho não esteja sendo influenciado por suas necessidades financeiras, mas é quase impossível que isso aconteça. 

O Brasil passa por uma intensa crise política, econômica e social, sendo governado por um governo de extrema direita. O Bolsonaro é provavelmente um pouco mais estúpido, xenófobo, conservador e pior de todas as formas do que o Trump. Quais as suas expectativas para a sua visita ao Brasil? O que a mídia dos Estados Unidos tem noticiado sobre a realidade brasileira?

Estou um pouco nervoso por ir para tão longe de casa, com certeza. O hype da mídia sobre o Brasil nos EUA definitivamente alimenta os medos das pessoas. Existem alguns documentários da Netflix que eu tenho medo de assistir. Eu moro com um monte de eleitores do Trump no meu bairro, então estou me preparando para conhecer a versão brasileira dessas pessoas… Será que elas estarão interessadas no meu livro?

“Me interesso por luta-livre profissional, porque amo as técnicas utilizadas pelos lutadores para iludir o público”

Quadros de Tetris, HQ de Box Brown publicada no Brasil pela editora Mino

Você está trabalhando atualmente em algum trabalho novo? Você tem previsão de lançamento para uma próxima publicação?

Tenho um livro novo para ser lançado em junho nos Estados Unidos, chamado Child Star. É o meu primeiro trabalho de ficção. Minha primeira graphic novel para valer. É sobre um ator infantil na década de 1980.

A última: Cannabis foi publicado aqui e Tetris está às vésperas de seu lançamento em português. Games e drogas são temas muito populares em todo o mundo, mas wrestling nem tanto, pelo menos não no Brasil. Qual argumento você utilizaria para convencer os brasileiros a dar uma chance ao wrestling e assim dar uma chance a Andre The Giant ser publicado por aqui?

Meu livro sobre André The Giant, é o meu best-seller de todos os tempos e acho que é uma cartilha muito boa de como funciona a luta-livre. Me interesso por luta-livre profissional, porque amo as técnicas utilizadas pelos lutadores para iludir o público. É semelhante à maneira como um mágico trabalha ou um vendedor de óleo de cobra.

A capa de Tetris, álbum do quadrinista Box Brown publicado no Brasil pela editora Mino
HQ

Patton Oswalt, por Box Brown

O quadrinista Box Brown é o responsável pela arte do cartaz do próximo show de stand-up comedy do ator Patton Oswalt, marcado para o dia 23 de novembro, na cidade de San Jose, nos Estados Unidos. Não consigo me imaginar nem perto de um local no qual esteja rolando uma apresentação de stand-up comedy, mas curto muito o trabalho do autor de Cannabis e Andre The Giant e simpatizo com o Patton Oswalt, então reproduzo o pôster aqui em cima e deixo o link pra loja do Box Brown caso esteja interessado em comprar a arte com o quadrinista.

HQ / Matérias

Box Brown fala sobre Cannabis, racismo e a ilegalização da maconha nos EUA

Eu entrevistei o quadrinista norte-americano Box Brown sobre o lançamento da edição brasileira de Cannabis: A Ilegalização da Maconha nos Estados Unidos e esse papo virou matéria no jornal O Globo. O livro publicado no Brasil pela editora Mino com tradução de Diego Gerlach tem como foco principal os empenhos de autoridades dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário dos EUA para impedir o consumo e a difusão da erva no país, mas vai muito além disso.

Produzido a partir de extensa pesquisa bibliográfica, Cannabis defende a tese de que todo o processo de combate e proibição do consumo e da difusão da maconha nos Estados Unidos tem o racismo como ponto de partida. É dos lançamentos mais interessantes de 2019 por aqui e recomendo que você leia o quanto antes. Na minha matéria também adianto a publicação em português de Tetris, álbum de Brown sobre o joguinho precursor da indústria de games, para um futuro próximo, também pela Mino. Você lê o meu texto para O Globo clicando aqui.

Um quadro de Cannabis: A Ilegalização da Maconha nos Estados Unidos, HQ do quadrinista norte-americano Box Brown publicada no Brasil pela editora Mino
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Is This Guy For Real?: uma prévia do álbum de Box Brown sobre a vida do ator Andy Kaufman

Gosto cada vez mais do trabalho do Box Brown e tô bastante empolgado por esse próximo livro dele. Como eu já tinha comentado por aqui, Is This Guy For Real? sai nos EUA pela First Second e será uma biografia do ator Andy Kaufman. O pessoal do ICV2 acabou de divulgar um preview de sete páginas da obra, reproduzo duas por aqui e deixo o link pra você ver a nota original com as prévias. Quero ler o quanto antes essa gibi. Acho remotas as chances de Andre The Giant dar as caras por aqui, mas acredito ser questão de tempo pra Tetris ser lançado – é uma HQ sobre a história do Tetris, além de excelente tem potencial pra repercutir bastante além do universo dos quadrinhos. Enfim, torçam pra sair algum Box Brown em português.

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Is This Guy For Real?: a próxima HQ longa de Box Brown será uma biografia do ator Andy Kaufman

Ó que massa: o site da Playboy americana acabou de colocar no ar uma matéria revelando o próximo projeto do quadrinista Box Brown, junto com uma prévia de seis páginas da obra e também com algumas falas do autor. O livro vai chamar Is This Guy For Real? e será uma biografia do ator Andy Kaufman, vivido no cinema pelo Jim Carrey em Man on the Moon/O Mundo de Andy. A matéria da Playboy diz que o livro será lançado em fevereiro de 2018. O texto não adianta a editora, mas como os dois projetos biográficos prévios do autor saíram pela First Second, imagino que esse também role por lá. Veja aqui o preview de Is This Guy For Real?.

Tô batendo na tecla do Box Brown tem um tempo por aqui e acredito que alguma das publicações mais recentes dele dê as caras em breve em português. Andre The Giant é fenomenal, mas Tetris seria das apostas mais certeiras pro mercado editorial brasileiro quando levado em conta o elemento video-game da obra. É com esses projetos maiores pra First Second que ele banca a produção dos demais, grande parte deles independentes e ainda mais ousados, tanto em termos de temas quanto de linguagem. Já falei e repito: é o quadrinista que mais vejo potencial pra estar em breve no mesmo naipe de gigantes como Daniel Clowes e Charles Burns. Releia aqui a entrevista que fiz com ele no final de 2014.

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Entrevistas / HQ

Papo com James Kochalka: “Tenho muita curiosidade artística, há muitas coisas que quero tentar”

Escrevi pro UOL sobre o lançamento de Fungos no Brasil e a chegada tardia dos trabalhos do James Kochalka por aqui. Minha matéria faz um panorama da carreira do quadrinista, explica um pouco da importância dele pro mercado norte-americano de HQs e fala do legado de seus trabalhos. Volto a recomendar o texto antes da leitura da íntegra da minha entrevista com o autor, que publico a seguir. Alguns tópicos bem interessantes abordados na nossa conversa acabaram não entrando na matéria – como a relação dele com o Box Brown, um dos meus quadrinistas preferidos nos últimos tempos. Papo bem bom mesmo. Saca só:

“Não dou conta de todas as minhas ideias. Tenho muita curiosidade artística, há muitas coisas que quero tentar”

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Como surgiu a ideia de Fungos? Li uma entrevista com o Box Brown em que ele comenta que você fez algumas pesquisas de campo nos pântanos do Maine. Como foi isso?

Fiz uma pesquisa de campo em alguns lagos sazonais do Maine, formados quando a neve derrete e as folhas do outono agem como uma espécie de forro que sela o chão e impede que a água desapareça pelo solo. São ambientes que podem existir ao longo de meses e abrigar várias criaturas, como sapos e salamandras. É como uma festa gigante, bem barulhenta, mas assim que você chega perto eles ficam quietos. É muito divertido imaginar o que pode estar rolando por lá enquanto não estamos presentes. Essa foi a inspiração para a primeira história do Fungos e depois segui adiante.

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