Papo com James Kochalka: “Tenho muita curiosidade artística, há muitas coisas que quero tentar”

Escrevi pro UOL sobre o lançamento de Fungos no Brasil e a chegada tardia dos trabalhos do James Kochalka por aqui. Minha matéria faz um panorama da carreira do quadrinista, explica um pouco da importância dele pro mercado norte-americano de HQs e fala do legado de seus trabalhos. Volto a recomendar o texto antes da leitura da íntegra da minha entrevista com o autor, que publico a seguir. Alguns tópicos bem interessantes abordados na nossa conversa acabaram não entrando na matéria – como a relação dele com o Box Brown, um dos meus quadrinistas preferidos nos últimos tempos. Papo bem bom mesmo. Saca só:

“Não dou conta de todas as minhas ideias. Tenho muita curiosidade artística, há muitas coisas que quero tentar”

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Como surgiu a ideia de Fungos? Li uma entrevista com o Box Brown em que ele comenta que você fez algumas pesquisas de campo nos pântanos do Maine. Como foi isso?

Fiz uma pesquisa de campo em alguns lagos sazonais do Maine, formados quando a neve derrete e as folhas do outono agem como uma espécie de forro que sela o chão e impede que a água desapareça pelo solo. São ambientes que podem existir ao longo de meses e abrigar várias criaturas, como sapos e salamandras. É como uma festa gigante, bem barulhenta, mas assim que você chega perto eles ficam quietos. É muito divertido imaginar o que pode estar rolando por lá enquanto não estamos presentes. Essa foi a inspiração para a primeira história do Fungos e depois segui adiante.

Os personagens do livro fazem algumas reflexões sobre temas universais. Eles conversam sobre a vida, religião, amor, amizade e nossa relação com tecnologias. E eles são fungos. Por que ter fungos debatendo sobre esses temas?

Eu sinto que a maioria de nós tem uma compressão mínima do mundo em que vivemos. Então, como nossas versões alternativas, queria alguns personagens com uma compreensão ainda mais limitada desse mundo em que vivemos. Eles falam sobre filosofia e tecnologia como se compreendessem esses temas plenamente, mas eles definitivamente não compreendem.

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Eu vejo um imenso diálogo entre Fungos e alguns desenho animados surreais e nonsense dos dias de hoje, como Adventure Time e Ricky and Morty. No entanto, você está praticando esse mesmo humor desde o começo de sua carreira. Você vê algum motivo particular para o sucesso recente desse estilo de animação?

O Pendleton Ward, criador do Adventure Time, costumava me escrever cartas como fã na época em que ainda era apenas um estudante. Eu definitivamente vejo o meu estilo presente no trabalho dele e no desenho animado. Acho que posso me sentir orgulhoso pela influência que tenho na nossa cultura, mesmo que eu não seja o cara que conseguiu sucesso financeiro com isso. E o criador do Ricky and Morty foi um dos dubladores na minha animação SuperF*ckers.

Você foi um dos primeiro quadrinistas a usar a internet como plataforma para publicação de seus trabalhos. Você lembra de alguma reação mais cética de seus amigos, familiares ou colegas em relação ao uso da internet como espaço para publicação de HQs?

Não, não me lembro de qualquer resistência.

Eu não fazia ideia de como começar na internet. Por mais cedo que eu tenha começado, eu teria começado ainda mais cedo se soubesse que criar uma página não era o maior mistério do mundo para mim. Por sorte, tive um chefe, Joey Manley, que criou todas as minhas páginas para mim. Infelizmente ele morreu muito novo e, de repente, também morreu a minha página, americanelf.com

No final das contas ainda não sei muito bem como construir uma página, então tenho usado o Tumblr e o Twitter, mas ainda não ganho dinheiro com os dois como conseguia com o site que o Joey tinha feito para mim.

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Você começou sua carreira nos anos 90, lançou seus primeiros quadrinhos e produziu seus primeiros discos e obras quando a internet estava começando a ficar popular. Você hoje trabalha não apenas como quadrinista, mas também como músico, animador e criador de games. Quais as principais mudanças que você viu na indústria do entretenimento desde o começo da sua carreira? Mudou muito a forma como as pessoas consomem arte e cultura nesse período?

Na música, ninguém mais quer pagar por álbuns. Isso é um problema porque música ainda custa muito dinheiro para ser gravada caso você queira utilizar um estúdio profissional. Eu AMO estúdios de gravação, mas não consigo mais justificar financeiramente o uso deles. Para usar um estúdio eu precisaria estar ok com o fato de que sairia no prejuízo.

Acho que talvez a principal forma como as pessoas escutam música hoje em dia é através do YouTube. Tenho muito menos interesse em fazer um clipe do que criar uma música. Sempre sinto que o vídeo muda completamente o significado da música ou limita a canção a um único sentido enquanto poderia ter múltiplos significados. O Spotify pode ser ótimo para o fã de música, mas não paga o artista. Outro dia recebi o pagamento por um determinado período em que a minha canção ‘Hockey Monkey’ tocou cerca de 50 mil vezes, acho que recebi 12 cents.

Mas é assim que o mundo funciona, não posso ficar realmente reclamando disso tudo. De muitas formas, há uma explosão criativa em andamento… Todo mundo, em todos os lugares, está produzindo conteúdo e compartilhando com outras pessoas online. Isso é bastante inspirador em termos criativos.

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E quais você considera as principais mudanças da indústria de quadrinhos durante esse mesmo período, desde o início de sua carreira?

As mulheres se tornaram uma força incrível. Hoje elas dominam as listas de best sellers nos Estados Unidos e também as premiações de quadrinhos. E não apenas revistas de super-heróis. Outra coisa: quadrinistas indie costumavam ser uns esquisitos obsessivos. Agora eles tendem a ser normais, como qualquer outra pessoa.

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Li uma entrevista sua em que você diz que não gosta muito de ser chamado de prolífico. Mas você produz muito e em diversos formatos. Você precisa apertar algum botão para produzir para cada um desses meios ou é tudo a mesma coisa para você?

Amo ser chamado de prolífico, desde que não seja de forma pejorativa. Além de toda a música e os desenhos, tenho lançado vários livros por ano ao longo das últimas duas décadas. Ainda assim, não dou conta de todas as minhas ideias. Tenho muita curiosidade artística, há muitas coisas que quero tentar.

Todo trabalho criativo tem origem no mesmo impulso. Imaginação, curiosidade, ambição e necessidade de explorar e tentar dar sentido ao mundo ao meu redor… São essas coisas que impulsionam todos os meus empreendimentos artísticos.

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O Fungos foi publicado pela Retrofit Comics, uma das editoras de quadrinhos mais interessante nos Estados Unidos hoje em dia. O que você acha do trabalho deles? Você vê algum diferencial neles como editora?

Eles com certeza possuem algo especial, mas não tenho certeza do que é. Eles costumam publicar trabalhos com uma ressonância emocional positiva. O Box Brown é um cara muito gente boa, mas com uma certa dose de ansiedade. Acho que a maior parte dos trabalhos que ele publica é ansioso, mas muito gentil, talvez essa seja a melhor forma de descrevê-lo. Alguém com muita ansiedade, mas adorável.

Você pode citar alguns quadrinhos, livros, filmes, música e outras coisas que você tem consumido ultimamente? Coisas que você acha legais e recomendaria para seus leitores?

Isso é bem difícil de fazer, há muita coisa que amo. Mas tem uma coisa…a série de quadrinho independente Phase 7 do Alex Longstreth. Ele é um cara muito alto astral, mais do que eu jamais conseguiria ser. Ah, os quadrinhos da Laura Knetzger. A série Bug Boys dela é uma espécie de versão mais otimista do Fungos.

Recomendo que todo mundo assista ao filme MARS, do Geoff Marslett. É uma comédia romântica da primeira missão tripulada para Marte e eu tenho um papel bem grandinho. É um filme muito bonito e muito interessante tecnicamente, basicamente uma animação em rotoscopia. Ah, também confiram o filme Kuky Se Vraci. É sobre as aventuras dos brinquedos de pelúcia de um garotinho nas florestas da República Tcheca. É incrível.

Acho que costumo recomendar coisas que façam as pessoas se sentirem bem e que não desanimem ninguém, mesmo que não seja o tipo de trabalho que eu costumo fazer. Gosto de coisas positivas.

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A última! No que você está trabalhando agora? Tem algum trabalho novo para sair em um futuro próximo?

Elf Cat in Love está sendo impresso enquanto digito. Johnny Boo Goes Like This chegou às comic shops há algumas semanas e já deve estar indo para as livrarias. A coletânea Johnny Boo’s Big Boo Box já deve estar para sair. Em breve também sai a primeira edição da mini-série em cinco números SuperF*ckers Forever. E claro, tem a edição brasileira de Fungos! Enquanto isso também estou reunindo coragem pra começar a desenhar uma nova graphic novel e pra gravar um novo álbum.

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Ramon Vitral

Meu nome é Ramon Vitral, sou jornalista e nasci em Juiz de Fora (MG). Edito o Vitralizado desde 2012 e sou autor do livro Vitralizado - HQs e o Mundo, publicado pela editora MMarte.

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