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Entrevistas / HQ

Papo com Adrian Tomine, autor de A Solidão de Um Quadrinho Sem Fim: “A solidão é inescapável à minha personalidade”

Conversei com o quadrinista norte-americano Adrian Tomine sobre A Solidão de Um Quadrinho Sem Fim (Nemo), obra mais recente do autor de Intrusos e da série Optic Nerve. Esse papo e o lançamento desse novo trabalho dele em português, em tradução de Érico Assis, foram o tema da 12ª edição da Sarjeta, minha coluna mensal sobre histórias em quadrinhos publicada no site do Instituto Itaú Cultural.

Recomendo a leitura do meu texto para você saber um pouco mais sobre A Solidão de Um Quadrinho Sem Fim. Também recomendo uma conferida na minha outra conversa com o autor, feita no ano passado, quando Intrusos foi publicado no Brasilpapo que rendeu uma matéria para o jornal O Globo. Por fim, deixo a dica de uma investida no vasto arquivo do Vitralizado focado na produção de Tomine.

Também dê uma conferida na minha resenha sobre A Solidão e, por fim, leia a entrevista a seguir, a íntegra dessa minha conversa mais recente com o autor – traduzida por Érico Assis. Tomine é, sem dúvidas, um dos grandes nomes das HQs ocidentais das últimas décadas e suspeito que esse trabalho mais recente dele acabe em muitas listas de melhores de 2020 quando o ano estiver chegando ao fim. A seguir, o meu papo com Adrian Tomine:

“Eu queria fazer um álbum diferente do que eu tenho feito”

Quadro de A Solidão de Um Quadrinho Sem Fim, HQ de Adrian Tomine publicada pela editora Nemo (Divulgação)

Como você está? Como está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a sua rotina de trabalho? Como vocês se organizaram com os eventos de divulgação online do livro sem a possibilidade de eventos físicos? 

Ter que cancelar a turnê do livro foi uma decepção. Mas estamos aí em seis meses de decepções de todos os níveis, e publicar meu livro estava bem abaixo na escala de preocupação. Acho que a ‘turnê virtual’ foi um sucesso que me pegou de surpresa, e também acho que eu consegui me abrir mais e falar mais nesse formato, se comparar a quando eu fico sentado num palco de frente para a plateia. Agradeço a quem assistiu pela internet e comprou o livro, e espero que eu possa fazer uma turnê grande e que eu autografe tantos livros quanto possível quando for seguro.

Você já publicou obras autobiográficas, mas nenhum tão pessoal como esse livro novo. Como foi essa experiência?

Sim, não tenha dúvida que foi um desafio. Principalmente depois que eu fiquei à vontade para escrever ficção. Só que eu queria fazer um álbum diferente do que eu tenho feito e achei que não tinha sentido fazer um autobiográfico se não fosse uma coisa pessoal nem em que eu me expusesse.

“A solidão me levou a ler e a fazer quadrinhos”

Quadros de A Solidão de Um Quadrinho Sem Fim, HQ de Adrian Tomine publicada pela editora Nemo (Divulgação)

Quando conversamos pela primeira vez, você falou: “Os tipos de histórias que eu crio são resultado direto de eu observar, escutar e matutar”. Você comentou como a observação é “importante para se chegar na escrita que é crível e se identifica como humano”. Ter você como protagonista tornou essa busca por credibilidade de alguma forma mais difícil?

Não, acho que não. Acho que, quando eu entro no estado mental certo, é fácil me observar e ser brutal comigo.

Gosto da presença da palavra “solidão” no título, porque muito do livro é sobre a sua relação com você mesmo. O que a solidão representa para você? Como a solidão se faz presente no seu trabalho?

A solidão é inescapável à minha personalidade. É o que me levou a ler e a fazer quadrinhos. Por ironia, também é um dos resultados inerentes de ser profissional de quadrinhos. Mas, mesmo fora do trabalho, é uma sensação onipresente dentro de mim, mesmo quando estou ocupado e minha vida me satisfaz.

“Concebi o formato em conjunção com o conteúdo”

Quadro de A Solidão de Um Quadrinho Sem Fim, HQ de Adrian Tomine publicada pela editora Nemo (Divulgação)

E o quanto essa solidão foi afetada pela formação da sua família? Casar e ter filhas afetou de alguma forma como você se vê como artista e a sua rotina profissional?

Ter família diminuiu um pouco dessa sensação, ainda mais durante essa experiência de confinados. Comecei a desejar solidão!

Gosto de títulos longos e o título desse livro novo é não apenas longo, mas também muito poético. Você pode falar um pouco sobre as origens desse título? Em que momento da produção do livro ele surgiu?

Por algum motivo, peguei o hábito de batizar minhas obras autobiográficas seguindo obras de arte maiores e mais importantes. Scenes from an Impending Marriage [Cenas de um Casamento Iminente] é brincadeira com o título do Bergman. Este novo, obviamente, se baseia no [conto de] Sillitoe. Não era um título que eu tinha desde o começo, mas brotou na minha cabeça quando estava finalizando o álbum e não pensei em nada melhor!

O formato do livro torna a experiência de leitura ainda mais intimista, como se eu estivesse lendo um diário pessoal. Você sempre teve esse design em mente?

Sim, o formato é uma coisa que eu concebi em conjunção com o conteúdo. Foi por isso que eu tive que me empenhar para mantermos o plano, mesmo que tenha sido excepcionalmente difícil e caro nos primeiros dias de quarentena.

“Faz um tempo que tenho ideia de usar essas memórias em livro”

Quadro de A Solidão de Um Quadrinho Sem Fim, HQ de Adrian Tomine publicada pela editora Nemo (Divulgação)

Fico curioso em relação à sua memória. Você se considera uma pessoa boa de memória? Você tem o hábito de registrar eventos particulares da sua vida? Você sempre teve em mente a possibilidade de transformar as suas vivências em histórias em quadrinhos?

Todas as histórias são verdadeiras para mim. Essas duas palavras no final da frase são muito importantes, pois tenho certeza de que outros vão contestar detalhes e não tenho como garantir que minhas memórias não foram afetadas pela experiência de lembrar e contar estas anedotas com o passar dos anos. Faz um tempo que tenho ideia de usar essas memórias em livro, mas foi só depois dos fatos do último capítulo que eu entendi como podia juntar tudo.

O quanto os grids que você estabeleceu como padrão auxiliaram na produção desse livro?

São muito úteis, pois eu nunca tive que pensar no grid! Tentei desenhar esse álbum do jeito mais rápido e mais direto possível, e não queria perder tempo pensando em layout exibido.

Eu queria saber sobre a sua relação com a crítica e a cobertura de seus trabalhos. Imagino que você esteja no olho do furacão dessa experiência, dando várias entrevistas e o livro recebendo várias resenhas. O que você sente em relação a toda essa exposição?

Já tem um tempo que eu faço isso, por isso me acostumei. Não curto o processo, mas sei que é necessário. Tenho uma editora ótima, uma assessora ótima, que deixa tudo o mais agradável possível pra mim. Mas, no geral, prefiro a fase mais anônima, a da criação.

“Entendo a conveniência da Amazon, mas, em termos de livrarias, eu a vejo como um inimigo inegável”

Quadros de A Solidão de Um Quadrinho Sem Fim, HQ de Adrian Tomine publicada pela editora Nemo (Divulgação)

Quais materiais você usou durante a produção desse livro?

Papel barato, canetão PITT e uma caneta tinteiro do Japão. E só.

Você pode me falar como é seu ambiente de trabalho? Você poderia descrever o local no qual esse livro novo foi criado?

Não tem nada de mais. É um canto do nosso quarto de casal. Tenho uma mesa de desenho antiga que comprei quando me mudei pra Nova York e é isso. Tentei alugar um estúdio por um tempo, mas não curtia o trânsito (mesmo que fosse a três quadras).

Você e a Drawn & Quarterly têm feito um trabalho muito cuidadoso de promover a venda desse livro novo em lojas independentes durante a pandemia. O quanto essas lojas são importantes para você? O crescimento da Amazon te preocupa?

Pois é, isso é uma cruzada pessoal e tenho a sorte de uma editora que se alinha com o que eu penso. Muitas lojas vão e vêm em Nova York, mas as perdas que mais me doem e que mais perduram são das livrarias e lojas de HQ que somem. Entendo a conveniência da Amazon, mas, em termos de livrarias, eu a vejo como um inimigo inegável.

Arte de Adrian Tomine para capa da revista New Yorker de junho de 2008 (Reprodução)

Você pode recomendar alguma coisa que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Acabei de ler uma HQ chamada Sunday, de Olivier Schrauwen, e achei ótima. Fico animado em ver a Drawn & Quarterly publicando Yoshiharu Tsuge. De cinema, sempre recomendo O Matador de Ovelhas. Também estou ansioso pela segunda temporada de Pen15.

Essa última é mais uma curiosidade pessoal… Você assiste à série High Maintenance? Eu vejo um diálogo imenso entre essa série e o seu trabalho, com pequenas crônicas sobre solidão e relacionamentos na cidade grande. 

Claro. E amo.

A capa da edição brasileira de A Solidão de um Quadrinho Sem Fim, obra do quadrinista Adrian Tomine publicada pela editora Nemo (Divulgação)
Entrevistas / HQ

Papo com Adrian Tomine, autor de Intrusos: “Já escrevi histórias de várias maneiras, mas o ingrediente em comum é o tempo. Gosto de pensar numa história durante bastante tempo, às vezes durante anos”

Intrusos é o primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado em português. O trabalho do autor só havia dado as caras por aqui antes em 11 páginas de Comic Book: O Novo Quadrinho Americano, publicado em 1999 pela editora Conrad. É muito pouco para um dos nomes mais interessantes da narrativa gráfica norte-americana e um dos principais representantes do universo dos quadrinhos autorais feitos nos Estados Unidos.

Ontem foi publicada no Segundo Caderno do jornal O Globo a minha matéria sobre o lançamento de Intrusos no Brasil. Eu entrevistei Tomine e no texto apresento algumas falas dele sobre o desenvolvimento desse projeto e também sobre fazer e pensar quadrinhos e viver nos EUA de Donald Trump. O texto está disponível no site do jornal. Reproduzo a seguir a íntegra da entrevista – traduzida pelo tradutor/ pesquisador/ editor/ crítico Érico Assis (valeu, Érico!). Saca só:

“Quem lê meus quadrinhos teve que, de certa forma, correr atrás. São leitores que já se interessam pelo que eu faço ou, no mínimo, se interessam por quadrinhos”

Quadros de uma das histórias de Intrusos, primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil

Você pode contar um pouco sobre as suas principais referências? Quais obras foram essenciais para a sua formação como autor? O que você tem lido ultimamente?

Minhas primeiras inspirações vieram dos gibis da Marvel dos anos 1970 e dos Peanuts de Charles Schulz. Foi o que fez eu querer ser cartunista. Depois que eu cresci, tive influência muito forte dos gibis “underground” ou “alternativos” como Love & Rockets, Eightball e Yummy Fur. Também fiz faculdade de Letras-Literatura, que foi meu contato com livros que eu não teria lido de outro modo e que despertou meu interesse por literatura moderna. Li faz pouco um livro chamado Homesick for Another World [Saudades de Outro Mundo], de Ottessa Moshfegh, que gostei muito.

Eu fico curioso em relação ao alcance do seu trabalho. Você é bastante conhecido para o público de quadrinhos, mas também tem estado cada vez mais presente em revistas como New Yorker e outras não relacionadas ao mundo das HQs. Esses universos são muito diferentes para você?

São. Na prática, penso como dois empregos à parte, mas com certeza um influencia o outro. Imagino que eu não ia me contentar só com um.

Eu também fico curioso em relação à recepção do público em relação às suas publicações independentes e curtas e a republicação posterior em encadernados. Você acha que a experiência é muito diferente para os leitores?

Não sei direito. Acho que essa pergunta é para os leitores!

Quadros de uma das histórias de Intrusos, primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil

Eu gosto muito das cartas das edições avulsas de Optic Nerve. Quando você começou acho que cartas eram a principal forma de contato dos seus leitores com você e imagino que isso tenha mudado e o retorno se tornado mais fácil e imediato. Você sente essa mudança no relacionamento e na interação com os seus leitores?

Não mudou muito para mim, pois não divulgo meu e-mail e não estou no Twitter nem no Facebook. A melhor maneira de entrar em contato comigo é enviar uma carta para minha caixa posta. Sinceramente não sei como outros artistas conseguem ter o envolvimento direto com os leitores e ainda ter tempo de produzir!

Você relatou recentemente uma comoção negativa por parte dos leitores da New Yorker por causa de uma capa mostrando sua experiência em um acampamento com a sua família. É muito diferente o retorno que você tem de uma capa como essa do que a resposta que costuma ter com os seus quadrinhos?

Olha, quem lê meus quadrinhos teve que, de certa forma, correr atrás. São leitores que já se interessam pelo que eu faço ou, no mínimo, se interessam por quadrinhos. Mas a capa da New Yorker fica diante de um público muito maior, por isso às vezes a reação é outra. Às vezes vejo comentários que sugerem que a pessoa não tem familiaridade alguma nem com a ideia do cartunismo ou de ilustração, aí levam a imagem muito para o literal!

“A arte que é sincera, principalmente a que enfoca a interação humana, pode ter algo de universal”

Quadros de uma das histórias de Intrusos, primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil

Você começou a fazer quadrinhos ainda adolescente. Hoje você tem 44 anos e filhos. Imagino que sua leitura do mundo tenha mudado bastante durante esse período. O seu público também mudou? Quem você vê lendo os seus quadrinhos atualmente?

Quando faço sessões de autógrafos, fico muito contente quando vejo gente na plateia que amadureceu comigo e com meu trabalho, assim como gente que nem era nascida quando eu comecei a publicar. O público está mais diversificado, em todos os sentidos, e isso é gratificante.

Aliás, ter filhos e se tornar pai afetou de alguma forma o seu trabalho? O quanto essa experiência influencia nos temas e na produção da suas obras?

Ter virado pai é de longe a maior influência que houve no meu trabalho nos últimos dez anos. Mudou como (e quando) eu trabalho, mas também me mudou profundamente como pessoa, o que eu suponho que não tenho como deixar de transpassar no trabalho.

Há uma mistura de melancolia e tristeza que percorre o seu trabalho e de outros quadrinistas norte-americanos da sua geração. Você vê esse padrão? Você consegue elaborar alguma justificativa para o predomínio desses temas?

Sim, acho que você encontrou bem o ponto, mas não sei explicar.

“Eu me atraio por histórias que expressem uma experiência ou ponto de vista que seja singular e que se, por acaso, for bem desenhada ou tiver um design legal, melhor ainda”

Quadros de uma das histórias de Intrusos, primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil

O mundo tem ficado cada vez mais conservador, preconceituoso e xenófobo. Isso afeta o seu trabalho? Você se sente estimulado de alguma forma a tratar desses temas nos seus trabalhos?

Bom, isso que você falou afeta as pessoas de várias maneiras, e é importante manter as coisas em perspectiva. Tive dificuldade em botar o trabalho em dia nos últimos anos porque o noticiário anda muito penoso, deprimente, vergonhoso e não para nunca. Mas estou ciente de que há outros artistas nesse mundo que são afetados de forma direta e profunda pelas mesmas notícias que me afetam, mas de maneiras que nem tenho como imaginar. Ser afetado só no emocional é um grande privilégio.

O que você pensa ao ver o seu trabalho sendo publicado em um país como o Brasil? Você fica curioso em relação à forma como seu quadrinho será lido e interpretado em uma realidade tão diferente daquela em que você vive?

Sim, sempre fico curioso. Meus quadrinhos foram traduzidos para vários idiomas, publicados em lugares distantes, e eu nunca tenho noção de como são recebidos. Mas, ao mesmo tempo, é uma lisonja. Não é tão incomum eu pensar no meu trabalho traduzido, pois sempre me atraí pela arte, pelo cinema, pela literatura, pelos quadrinhos etc. traduzidos de outras línguas. Já descobri que a arte que é sincera, principalmente a que enfoca a interação humana, pode ter algo de universal.

O que mais te interessa em quadrinhos hoje?

Meu interesse primário nos quadrinhos, principalmente como leitor, continua o mesmo de vinte anos atrás. Eu me atraio por histórias que expressem uma experiência ou ponto de vista que seja singular e que se, por acaso, for bem desenhada ou tiver um design legal, melhor ainda.

“Já escrevi histórias de várias maneiras, mas o ingrediente em comum é o tempo. Gosto de pensar numa história durante bastante tempo, às vezes durante anos”

Quadros de uma das histórias de Intrusos, primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil

Você pode contar um pouco sobre o desenvolvimento de seus personagens? Você tem algum hábito particular de observar pessoas na sua rotina diária?

Acho que você trata de um ponto crucial: observação. Eu acredito que os tipos de histórias que eu crio são o resultado direto de eu observar, escutar e matutar… ou seja, por eu ser um introvertido que mais absorve do que interage com o mundo. Acho que também importa sempre se perguntar: “É assim que uma pessoa de verdade fala e se comporta? Ou eu estou me baseado no que eu vi na TV ou no cinema?” Às vezes essa resposta é complicada (principalmente porque muita gente de verdade fala de um jeito que tem muita influência da TV e do cinema), mas descobri que é um caminho importante para se chegar na escrita que é crível e que se identifica como humana.

As suas histórias costumam ter algum ponto de partida em comum? Você já sabe como cada quadrinho vai terminar quando começa a criá-lo?

Já escrevi histórias de várias maneiras, mas o ingrediente em comum é o tempo. Gosto de pensar numa história durante bastante tempo, às vezes durante anos. Posso não estar trabalhando nela direto, mas ela está lá num cantinho da cabeça, se remexendo, perdendo as arestas, evoluindo. Essa é uma grande sacada: deixar o subconsciente dar jeito na história que ela vai melhorar, como se acontecesse uma coisa mágica.

A capa da edição brasileira de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine, publicada pela editora Nemo
HQ / Matérias

Adrian Tomine fala sobre Intrusos, sua primeira edição solo em português

Eu entrevistei o quadrinista Adrian Tomine sobre Intrusos, título nacional do álbum Killing and Dying, e essa conversa virou matéria pra edição de hoje do Segundo Caderno do jornal O Globo. O texto está disponível para leitura clicando aqui. No nosso papo, o autor falou sobre as origens dos seis contos presentes no livro publicado pela editora Nemo, comentou algumas de suas influências e refletiu sobre o impacto do nascimento das filhas e da presidência de Donald Trump em seus trabalhos. Logo mais a íntegra dessa entrevista dá as caras por aqui.

Quadros de uma das histórias de Intrusos, primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil
HQ

Traduzir de pé: Érico Assis e a tradução de Intrusos, o primeiro álbum solo de Adrian Tomine publicado no Brasil

Intrusos é o primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil. O quadrinho lançado por aqui pela Nemo saiu originalmente em 2015, pela editora canadense Drawn & Quarterly, com o título Killing and Dying. Eu convidei o tradutor, pesquisador, jornalista e crítico Érico Assis, responsável pela tradução de Intrusos, para falar um pouco sobre a escolha do título nacional da HQ. Com vocês, Érico Assis:

Traduzir de pé, por Érico Assis

KILLING AND DYING.


MATAR E MORRER.

Ou MATANDO E MORRENDO.

Fácil de traduzir, né. Então, por que INTRUSOS?

Tem muita coisa em tradução que é fácil. Aqui não foi um caso.

A capa da edição brasileira de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine, publicada pela editora Nemo com o título Intrusos

Estou tão ou mais feliz que você que um álbum solo do Adrian Tomine vai sair no Brasil. Começaram pelo último, ok, mas sua missão é comprar dez exemplares e dar de presente. É assim que você convence a Nemo de que Shortcomings, Summer Blonde, Sleepwalk e outros valem a pena.

Mas por que este título? Porque tradução, às vezes, não é fácil. E por que é o título de um outro conto do mesmo álbum. Que é uma coleção de contos.

“Killing and Dying” também é o título de um dos contos de Intrusos. O conto trata de uma família – pai, mãe e filha – em que a filha quer ser comediante. Stand-up comedian, gente que faz “comédia de pé”. E como comediante a filha é, digamos, fraquinha.

Killing, na gíria do stand-up, tem sentido positivo: é quando a pessoa no palco está mandando bem, arrasando. “Matando” a plateia (de rir).

Dying, na gíria do stand-up, é o inverso: o ou a comediante é um fracasso. Vacilou, flopou. “Morreu” no palco.

Para complicar, o Tomine encaixou um duplo sentido em cima de dying: tem uma morte no conto. Ninguém mata (killing) ninguém, mas tem uma morte.

Então: Arrasos e Fiascos? Arrasou e Vacilou? Fulminadas e Mancadas?  E Tropeços? E Encalhadas? E Flopou?

Não gostei de nenhum. Nem os editores. Confesso que teve um momento em que eu defendi Matar e Morrer, e que o leitor juntasse os pontinhos com “matar de rir” e com a morte na trama. Não me convenci e também não convenci os editores, a Carol Christo e o Eduardo Soares. (O problema de trabalhar com editores bons é que eles são bons.)

Killing and Dying já tinha sido publicado em outros países, então fui atrás das soluções dos coleguinhas tradutores. Não é um recurso que eu uso muito – por falta de tempo e por falta de existência de edições estrangeiras – mas, neste caso, podia.

Vincenzo Filosa foi de Morire in Piedi na edição italiana. “Morrer de pé”. Parece boa jogada com “Comédia de Pé”… se uma parte significativa do leitorado brasileiro entendesse o termo “comédia de pé”, ou não falasse (como eu falo) “comédia de pé” com ironia escorrendo no cantinho da boca. Não rola.

A capa da edição italiana de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine

Aí descobri que os franceses – ou o tradutor Eric Moreau, no caso – foram de Les Intrus. “Os Intrusos”. É o título do último conto do álbum, “Intruders”. Quer dizer então que os franceses jogaram a toalha e resolveram batizar a coleção com o título de um conto diferente? Que espertinhos.

A capa da edição francesa de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine

Não foram os únicos. Raúl Sastre foi de Intrusos na Espanha. Björn Laser foi de Eindringlinge (Intrusos) na Alemanha. Parece que os franceses, que publicaram quase simultâneos com o original canadense/americano, lançaram moda.

A capa da edição espanhola de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine
A capa da edição alemã de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine

(Cabe aqui o comentário de que mudanças no título “fortes” como esta geralmente têm que passar por aprovação do autor ou da editora de origem. Não sei como foi neste caso e não me meti nessas negociações. [E nunca conversei com o Adrian Tomine.] Mas o fato de uma editora estrangeira ter conseguido mudar o título – ou três editoras, no caso – é sinal de que autor/editora original topam alterar o título.)

(Segundo a Drawn & Quarterly, a editora original, há também edições polonesa, chinesa e japonesa. Mas, destas, só consegui encontrar a capa da japonesa, que diz… Killing and Dying, em inglês.)

A capa da edição japonesa de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine

Resolvi seguir a moda. Mas não só pela moda. Em mais de uma resenha que eu li, “Intrusos” é considerado o ponto alto da coleção de contos, talvez o ponto alto da carreira de Tomine como contista, ou sua consagração como herdeiro do gekigá. O Douglas Wolk – não é qualquer crítico, é o Douglas Wolk – diz na resenha da Artforum que “Intrusos” podia ser o título da coleção porque todos os contos tratam, de certo modo, de homens de merda que atrapalham a vida de mulheres. Os intrometidos, os intrusos. Obrigado, Douglas Wolk.

Sim, Intruders podia ter sido o título original, só que Intruders é o nome de outros 142 livros, de um filme de terror recente com o Clive Owen e provavelmente de 7 pornôs. Killing and Dying é mais potente, sonoro, bonito e muito bem sacado para o conto que nomeia – mas só funciona com todos estes sentidos em inglês. Matar e Morrer seria potente, sonoro e bonito, mas não teria nada a ver com o conto.

Aliás, o conto segue na coleção e ganhou um título que veio de um dos editores, o Eduardo Soares (também tradutor experiente). Deixo para você mesmo descobrir quando comprar seus dez exemplares.

Trocar o título para Intrusos foi a melhor solução até onde minha capacidade como tradutor permite. Nada impede que você deixe um comentário logo abaixo com uma tradução genial de Killing and Dying, sonora, potente e com duplos ou triplos sentidos geniais que se encaixam no conto. Se for mesmo, você vai ouvir um TUNC: minha testa batendo na mesa.

Quadro de Intrusos, o primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil
HQ / Matérias

John Lewis, Andrew Aydin e Nate Powell e as origens da trilogia A Marcha

No dia 7 de março de 1965 um grupo de policiais atacou cerca de 600 manifestantes de movimentos pelos direitos civis nos Estados Unidos que atravessavam a Ponte Edmund Pettus, na cidade de Selma, no estado do Alabama. Os 17 manifestantes hospitalizados e os 50 feridos, segundo dados oficiais, fizeram com que a data seja lembrada até hoje como o Domingo Sangrento. Com 23 anos na época e hoje deputado há 31 pelo estado da Geórgia, o congressista democrata John Lewis era um dos líderes da marcha. Aos 78 anos, Lewis é um dos três autores da HQ A Marcha – Livro 1: John Lewis e Martin Luther King em Uma História de Luta Pela Liberdade (Nemo).

Entrevistei o deputado e seus parceiros no projeto, seu assessor pessoal e co-roteirista Andrew Aydin e o quadrinista e ilustrador Nate Powell. As conversas viraram matéria pro jornal O Globo sobre o lançamento da edição brasileira do primeiro dos três volumes da série – centrado em Lewis, desde a infância na fazenda de 45 hectares de algodão, milho e amendoim de sua família no Alabama até a posse de Barack Obama, o primeiro presidente negro dos EUA, em 2009. Você lê a íntegra da minha matéria por aqui.

HQ

Ghost World: confira uma prévia da edição comemorativa de 20 anos do clássico de Daniel Clowes

Uma ótima surpresa e um dos grandes lançamentos de 2017 é essa edição comemorativa de 20 anos do clássico Ghost World do Daniel Clowes editada pela Nemo. O álbum é um marco dos quadrinhos indies e autorais norte-americanos e chamou atenção para o trabalho de uma geração composta por nomes como Charles Burns, Chris Ware, Chester Brown e outros como o próprio Clowes. Depois da imensa repercussão de Paciência, acho um ótimo momento pro retorno de Ghost World às livrarias. É um dos meus quadrinhos preferidos e já estava muito satisfeito com esse lançamento, fiquei ainda mais feliz ao ser convidado pelo pessoal da Nemo pra escrever a introdução do livro.

O quadrinho foi traduzido pelo Érico Assis e tá previsto pra chegar às lojas até o final do ano. A edição vem cheia de extras, mostrando rascunhos do Daniel Clowes e estudos feitos pelo autor pra páginas e capas da HQ. Pedi pro pessoal da Nemo uma prévia desse material e eles me enviaram as imagens a seguir. Ó que demais:

GW_2NDSCCOLORSKETCH

GW_HCCONTENTSSKETCH-edit

GW_HUBBAROUGH