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Entrevistas / HQ

Papo com Adrian Tomine, autor de Intrusos: “Já escrevi histórias de várias maneiras, mas o ingrediente em comum é o tempo. Gosto de pensar numa história durante bastante tempo, às vezes durante anos”

Intrusos é o primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado em português. O trabalho do autor só havia dado as caras por aqui antes em 11 páginas de Comic Book: O Novo Quadrinho Americano, publicado em 1999 pela editora Conrad. É muito pouco para um dos nomes mais interessantes da narrativa gráfica norte-americana e um dos principais representantes do universo dos quadrinhos autorais feitos nos Estados Unidos.

Ontem foi publicada no Segundo Caderno do jornal O Globo a minha matéria sobre o lançamento de Intrusos no Brasil. Eu entrevistei Tomine e no texto apresento algumas falas dele sobre o desenvolvimento desse projeto e também sobre fazer e pensar quadrinhos e viver nos EUA de Donald Trump. O texto está disponível no site do jornal. Reproduzo a seguir a íntegra da entrevista – traduzida pelo tradutor/ pesquisador/ editor/ crítico Érico Assis (valeu, Érico!). Saca só:

“Quem lê meus quadrinhos teve que, de certa forma, correr atrás. São leitores que já se interessam pelo que eu faço ou, no mínimo, se interessam por quadrinhos”

Quadros de uma das histórias de Intrusos, primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil

Você pode contar um pouco sobre as suas principais referências? Quais obras foram essenciais para a sua formação como autor? O que você tem lido ultimamente?

Minhas primeiras inspirações vieram dos gibis da Marvel dos anos 1970 e dos Peanuts de Charles Schulz. Foi o que fez eu querer ser cartunista. Depois que eu cresci, tive influência muito forte dos gibis “underground” ou “alternativos” como Love & Rockets, Eightball e Yummy Fur. Também fiz faculdade de Letras-Literatura, que foi meu contato com livros que eu não teria lido de outro modo e que despertou meu interesse por literatura moderna. Li faz pouco um livro chamado Homesick for Another World [Saudades de Outro Mundo], de Ottessa Moshfegh, que gostei muito.

Eu fico curioso em relação ao alcance do seu trabalho. Você é bastante conhecido para o público de quadrinhos, mas também tem estado cada vez mais presente em revistas como New Yorker e outras não relacionadas ao mundo das HQs. Esses universos são muito diferentes para você?

São. Na prática, penso como dois empregos à parte, mas com certeza um influencia o outro. Imagino que eu não ia me contentar só com um.

Eu também fico curioso em relação à recepção do público em relação às suas publicações independentes e curtas e a republicação posterior em encadernados. Você acha que a experiência é muito diferente para os leitores?

Não sei direito. Acho que essa pergunta é para os leitores!

Quadros de uma das histórias de Intrusos, primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil

Eu gosto muito das cartas das edições avulsas de Optic Nerve. Quando você começou acho que cartas eram a principal forma de contato dos seus leitores com você e imagino que isso tenha mudado e o retorno se tornado mais fácil e imediato. Você sente essa mudança no relacionamento e na interação com os seus leitores?

Não mudou muito para mim, pois não divulgo meu e-mail e não estou no Twitter nem no Facebook. A melhor maneira de entrar em contato comigo é enviar uma carta para minha caixa posta. Sinceramente não sei como outros artistas conseguem ter o envolvimento direto com os leitores e ainda ter tempo de produzir!

Você relatou recentemente uma comoção negativa por parte dos leitores da New Yorker por causa de uma capa mostrando sua experiência em um acampamento com a sua família. É muito diferente o retorno que você tem de uma capa como essa do que a resposta que costuma ter com os seus quadrinhos?

Olha, quem lê meus quadrinhos teve que, de certa forma, correr atrás. São leitores que já se interessam pelo que eu faço ou, no mínimo, se interessam por quadrinhos. Mas a capa da New Yorker fica diante de um público muito maior, por isso às vezes a reação é outra. Às vezes vejo comentários que sugerem que a pessoa não tem familiaridade alguma nem com a ideia do cartunismo ou de ilustração, aí levam a imagem muito para o literal!

“A arte que é sincera, principalmente a que enfoca a interação humana, pode ter algo de universal”

Quadros de uma das histórias de Intrusos, primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil

Você começou a fazer quadrinhos ainda adolescente. Hoje você tem 44 anos e filhos. Imagino que sua leitura do mundo tenha mudado bastante durante esse período. O seu público também mudou? Quem você vê lendo os seus quadrinhos atualmente?

Quando faço sessões de autógrafos, fico muito contente quando vejo gente na plateia que amadureceu comigo e com meu trabalho, assim como gente que nem era nascida quando eu comecei a publicar. O público está mais diversificado, em todos os sentidos, e isso é gratificante.

Aliás, ter filhos e se tornar pai afetou de alguma forma o seu trabalho? O quanto essa experiência influencia nos temas e na produção da suas obras?

Ter virado pai é de longe a maior influência que houve no meu trabalho nos últimos dez anos. Mudou como (e quando) eu trabalho, mas também me mudou profundamente como pessoa, o que eu suponho que não tenho como deixar de transpassar no trabalho.

Há uma mistura de melancolia e tristeza que percorre o seu trabalho e de outros quadrinistas norte-americanos da sua geração. Você vê esse padrão? Você consegue elaborar alguma justificativa para o predomínio desses temas?

Sim, acho que você encontrou bem o ponto, mas não sei explicar.

“Eu me atraio por histórias que expressem uma experiência ou ponto de vista que seja singular e que se, por acaso, for bem desenhada ou tiver um design legal, melhor ainda”

Quadros de uma das histórias de Intrusos, primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil

O mundo tem ficado cada vez mais conservador, preconceituoso e xenófobo. Isso afeta o seu trabalho? Você se sente estimulado de alguma forma a tratar desses temas nos seus trabalhos?

Bom, isso que você falou afeta as pessoas de várias maneiras, e é importante manter as coisas em perspectiva. Tive dificuldade em botar o trabalho em dia nos últimos anos porque o noticiário anda muito penoso, deprimente, vergonhoso e não para nunca. Mas estou ciente de que há outros artistas nesse mundo que são afetados de forma direta e profunda pelas mesmas notícias que me afetam, mas de maneiras que nem tenho como imaginar. Ser afetado só no emocional é um grande privilégio.

O que você pensa ao ver o seu trabalho sendo publicado em um país como o Brasil? Você fica curioso em relação à forma como seu quadrinho será lido e interpretado em uma realidade tão diferente daquela em que você vive?

Sim, sempre fico curioso. Meus quadrinhos foram traduzidos para vários idiomas, publicados em lugares distantes, e eu nunca tenho noção de como são recebidos. Mas, ao mesmo tempo, é uma lisonja. Não é tão incomum eu pensar no meu trabalho traduzido, pois sempre me atraí pela arte, pelo cinema, pela literatura, pelos quadrinhos etc. traduzidos de outras línguas. Já descobri que a arte que é sincera, principalmente a que enfoca a interação humana, pode ter algo de universal.

O que mais te interessa em quadrinhos hoje?

Meu interesse primário nos quadrinhos, principalmente como leitor, continua o mesmo de vinte anos atrás. Eu me atraio por histórias que expressem uma experiência ou ponto de vista que seja singular e que se, por acaso, for bem desenhada ou tiver um design legal, melhor ainda.

“Já escrevi histórias de várias maneiras, mas o ingrediente em comum é o tempo. Gosto de pensar numa história durante bastante tempo, às vezes durante anos”

Quadros de uma das histórias de Intrusos, primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil

Você pode contar um pouco sobre o desenvolvimento de seus personagens? Você tem algum hábito particular de observar pessoas na sua rotina diária?

Acho que você trata de um ponto crucial: observação. Eu acredito que os tipos de histórias que eu crio são o resultado direto de eu observar, escutar e matutar… ou seja, por eu ser um introvertido que mais absorve do que interage com o mundo. Acho que também importa sempre se perguntar: “É assim que uma pessoa de verdade fala e se comporta? Ou eu estou me baseado no que eu vi na TV ou no cinema?” Às vezes essa resposta é complicada (principalmente porque muita gente de verdade fala de um jeito que tem muita influência da TV e do cinema), mas descobri que é um caminho importante para se chegar na escrita que é crível e que se identifica como humana.

As suas histórias costumam ter algum ponto de partida em comum? Você já sabe como cada quadrinho vai terminar quando começa a criá-lo?

Já escrevi histórias de várias maneiras, mas o ingrediente em comum é o tempo. Gosto de pensar numa história durante bastante tempo, às vezes durante anos. Posso não estar trabalhando nela direto, mas ela está lá num cantinho da cabeça, se remexendo, perdendo as arestas, evoluindo. Essa é uma grande sacada: deixar o subconsciente dar jeito na história que ela vai melhorar, como se acontecesse uma coisa mágica.

A capa da edição brasileira de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine, publicada pela editora Nemo
HQ / Matérias

Adrian Tomine fala sobre Intrusos, sua primeira edição solo em português

Eu entrevistei o quadrinista Adrian Tomine sobre Intrusos, título nacional do álbum Killing and Dying, e essa conversa virou matéria pra edição de hoje do Segundo Caderno do jornal O Globo. O texto está disponível para leitura clicando aqui. No nosso papo, o autor falou sobre as origens dos seis contos presentes no livro publicado pela editora Nemo, comentou algumas de suas influências e refletiu sobre o impacto do nascimento das filhas e da presidência de Donald Trump em seus trabalhos. Logo mais a íntegra dessa entrevista dá as caras por aqui.

Quadros de uma das histórias de Intrusos, primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil
HQ

Traduzir de pé: Érico Assis e a tradução de Intrusos, o primeiro álbum solo de Adrian Tomine publicado no Brasil

Intrusos é o primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil. O quadrinho lançado por aqui pela Nemo saiu originalmente em 2015, pela editora canadense Drawn & Quarterly, com o título Killing and Dying. Eu convidei o tradutor, pesquisador, jornalista e crítico Érico Assis, responsável pela tradução de Intrusos, para falar um pouco sobre a escolha do título nacional da HQ. Com vocês, Érico Assis:

Traduzir de pé, por Érico Assis

KILLING AND DYING.


MATAR E MORRER.

Ou MATANDO E MORRENDO.

Fácil de traduzir, né. Então, por que INTRUSOS?

Tem muita coisa em tradução que é fácil. Aqui não foi um caso.

A capa da edição brasileira de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine, publicada pela editora Nemo com o título Intrusos

Estou tão ou mais feliz que você que um álbum solo do Adrian Tomine vai sair no Brasil. Começaram pelo último, ok, mas sua missão é comprar dez exemplares e dar de presente. É assim que você convence a Nemo de que Shortcomings, Summer Blonde, Sleepwalk e outros valem a pena.

Mas por que este título? Porque tradução, às vezes, não é fácil. E por que é o título de um outro conto do mesmo álbum. Que é uma coleção de contos.

“Killing and Dying” também é o título de um dos contos de Intrusos. O conto trata de uma família – pai, mãe e filha – em que a filha quer ser comediante. Stand-up comedian, gente que faz “comédia de pé”. E como comediante a filha é, digamos, fraquinha.

Killing, na gíria do stand-up, tem sentido positivo: é quando a pessoa no palco está mandando bem, arrasando. “Matando” a plateia (de rir).

Dying, na gíria do stand-up, é o inverso: o ou a comediante é um fracasso. Vacilou, flopou. “Morreu” no palco.

Para complicar, o Tomine encaixou um duplo sentido em cima de dying: tem uma morte no conto. Ninguém mata (killing) ninguém, mas tem uma morte.

Então: Arrasos e Fiascos? Arrasou e Vacilou? Fulminadas e Mancadas?  E Tropeços? E Encalhadas? E Flopou?

Não gostei de nenhum. Nem os editores. Confesso que teve um momento em que eu defendi Matar e Morrer, e que o leitor juntasse os pontinhos com “matar de rir” e com a morte na trama. Não me convenci e também não convenci os editores, a Carol Christo e o Eduardo Soares. (O problema de trabalhar com editores bons é que eles são bons.)

Killing and Dying já tinha sido publicado em outros países, então fui atrás das soluções dos coleguinhas tradutores. Não é um recurso que eu uso muito – por falta de tempo e por falta de existência de edições estrangeiras – mas, neste caso, podia.

Vincenzo Filosa foi de Morire in Piedi na edição italiana. “Morrer de pé”. Parece boa jogada com “Comédia de Pé”… se uma parte significativa do leitorado brasileiro entendesse o termo “comédia de pé”, ou não falasse (como eu falo) “comédia de pé” com ironia escorrendo no cantinho da boca. Não rola.

A capa da edição italiana de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine

Aí descobri que os franceses – ou o tradutor Eric Moreau, no caso – foram de Les Intrus. “Os Intrusos”. É o título do último conto do álbum, “Intruders”. Quer dizer então que os franceses jogaram a toalha e resolveram batizar a coleção com o título de um conto diferente? Que espertinhos.

A capa da edição francesa de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine

Não foram os únicos. Raúl Sastre foi de Intrusos na Espanha. Björn Laser foi de Eindringlinge (Intrusos) na Alemanha. Parece que os franceses, que publicaram quase simultâneos com o original canadense/americano, lançaram moda.

A capa da edição espanhola de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine
A capa da edição alemã de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine

(Cabe aqui o comentário de que mudanças no título “fortes” como esta geralmente têm que passar por aprovação do autor ou da editora de origem. Não sei como foi neste caso e não me meti nessas negociações. [E nunca conversei com o Adrian Tomine.] Mas o fato de uma editora estrangeira ter conseguido mudar o título – ou três editoras, no caso – é sinal de que autor/editora original topam alterar o título.)

(Segundo a Drawn & Quarterly, a editora original, há também edições polonesa, chinesa e japonesa. Mas, destas, só consegui encontrar a capa da japonesa, que diz… Killing and Dying, em inglês.)

A capa da edição japonesa de Killing and Dying, do quadrinista Adrian Tomine

Resolvi seguir a moda. Mas não só pela moda. Em mais de uma resenha que eu li, “Intrusos” é considerado o ponto alto da coleção de contos, talvez o ponto alto da carreira de Tomine como contista, ou sua consagração como herdeiro do gekigá. O Douglas Wolk – não é qualquer crítico, é o Douglas Wolk – diz na resenha da Artforum que “Intrusos” podia ser o título da coleção porque todos os contos tratam, de certo modo, de homens de merda que atrapalham a vida de mulheres. Os intrometidos, os intrusos. Obrigado, Douglas Wolk.

Sim, Intruders podia ter sido o título original, só que Intruders é o nome de outros 142 livros, de um filme de terror recente com o Clive Owen e provavelmente de 7 pornôs. Killing and Dying é mais potente, sonoro, bonito e muito bem sacado para o conto que nomeia – mas só funciona com todos estes sentidos em inglês. Matar e Morrer seria potente, sonoro e bonito, mas não teria nada a ver com o conto.

Aliás, o conto segue na coleção e ganhou um título que veio de um dos editores, o Eduardo Soares (também tradutor experiente). Deixo para você mesmo descobrir quando comprar seus dez exemplares.

Trocar o título para Intrusos foi a melhor solução até onde minha capacidade como tradutor permite. Nada impede que você deixe um comentário logo abaixo com uma tradução genial de Killing and Dying, sonora, potente e com duplos ou triplos sentidos geniais que se encaixam no conto. Se for mesmo, você vai ouvir um TUNC: minha testa batendo na mesa.

Quadro de Intrusos, o primeiro álbum solo do quadrinista Adrian Tomine publicado no Brasil
HQ / Matérias

John Lewis, Andrew Aydin e Nate Powell e as origens da trilogia A Marcha

No dia 7 de março de 1965 um grupo de policiais atacou cerca de 600 manifestantes de movimentos pelos direitos civis nos Estados Unidos que atravessavam a Ponte Edmund Pettus, na cidade de Selma, no estado do Alabama. Os 17 manifestantes hospitalizados e os 50 feridos, segundo dados oficiais, fizeram com que a data seja lembrada até hoje como o Domingo Sangrento. Com 23 anos na época e hoje deputado há 31 pelo estado da Geórgia, o congressista democrata John Lewis era um dos líderes da marcha. Aos 78 anos, Lewis é um dos três autores da HQ A Marcha – Livro 1: John Lewis e Martin Luther King em Uma História de Luta Pela Liberdade (Nemo).

Entrevistei o deputado e seus parceiros no projeto, seu assessor pessoal e co-roteirista Andrew Aydin e o quadrinista e ilustrador Nate Powell. As conversas viraram matéria pro jornal O Globo sobre o lançamento da edição brasileira do primeiro dos três volumes da série – centrado em Lewis, desde a infância na fazenda de 45 hectares de algodão, milho e amendoim de sua família no Alabama até a posse de Barack Obama, o primeiro presidente negro dos EUA, em 2009. Você lê a íntegra da minha matéria por aqui.

HQ

Ghost World: confira uma prévia da edição comemorativa de 20 anos do clássico de Daniel Clowes

Uma ótima surpresa e um dos grandes lançamentos de 2017 é essa edição comemorativa de 20 anos do clássico Ghost World do Daniel Clowes editada pela Nemo. O álbum é um marco dos quadrinhos indies e autorais norte-americanos e chamou atenção para o trabalho de uma geração composta por nomes como Charles Burns, Chris Ware, Chester Brown e outros como o próprio Clowes. Depois da imensa repercussão de Paciência, acho um ótimo momento pro retorno de Ghost World às livrarias. É um dos meus quadrinhos preferidos e já estava muito satisfeito com esse lançamento, fiquei ainda mais feliz ao ser convidado pelo pessoal da Nemo pra escrever a introdução do livro.

O quadrinho foi traduzido pelo Érico Assis e tá previsto pra chegar às lojas até o final do ano. A edição vem cheia de extras, mostrando rascunhos do Daniel Clowes e estudos feitos pelo autor pra páginas e capas da HQ. Pedi pro pessoal da Nemo uma prévia desse material e eles me enviaram as imagens a seguir. Ó que demais:

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Entrevistas / HQ

Papo com Lucy Knisley: “Diários de viagem permitem que eu vivencie e processe uma experiência simultaneamente”

Escrevi pra edição de fevereiro da Rolling Stone sobre o lançamento de Deslocamento – Um Diário de Viagem da Lucy Knisley no Brasil. Já havia conversado com a quadrinista em 2013, logo após a chegada de Relish nas livrarias dos Estados Unidos e voltei a bater um papo com ela pra falar dessa estreia no mercado editorial nacional. O álbum é ambientado em 2012, quando Knisley tinha 27 anos e passou 10 dias em um cruzeiro na companhia de seus avós paternos nonagenários. “Foi a minha forma de lidar com as minhas preocupações com a saúde deles, foram horas acordada em um quarto sem janela desenhando o livro”, me contou a artista.

Relish continua sendo meu quadrinho preferido da Lucy Knisley e não gosto que Deslocamento tenha sido publicado antes de An Age of License, sobre um período da vida da autora que acontece antes do livro lançado pela Nemo. Ainda assim, fico feliz de ver a autora finalmente saindo por aqui. Recomendo um pulo na banca pra ler a íntegra da minha matéria e saber um pouco mais sobre as origens da HQ. Reproduzo a seguir o nosso papo completo. Conversamos sobre a produção do quadrinho, a relação dela com os editores da Fantagraphics e a vida pós-nascimento de seu primeiro filho. Ó:

“Quando você vê seus avós envelhecendo, você se sente triste e fica com medo de perdê-los, quando você tem um filho, você se sente triste e fica com medo de que eles vão te perder. É um contraste interessante”

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Deslocamento foi lançado nos Estados Unidos no início de 2015 e está chegando no Brasil quase dois anos depois. Nesse período você refletiu sobre o resultado final desse trabalho?

Eu fiz o Deslocamento em 2012, então já se passaram quatro anos desde os eventos narrados no livro. Ainda tenho muitos sentimentos confusos em relação ao quadrinho, principalmente após os meus avós morrerem no último outono. Ainda assim, eu fico muito feliz por ter feito um registro dessa viagem que fizemos, por ter uma memória registrada desse período que passamos juntos no fim da vida deles.

A maior parte dos seus trabalhos são autobiográficos. Você é muito crítica em relação à forma como se retrata em seus quadrinhos?

Diários de viagem permitem que eu vivencie e processe uma experiência simultâneamente – e essa é uma sensação única. Ela me força a encontrar conexões com eventos e com os meus próprios pensamentos, mas também me obriga a ser muito honesta em relação a o que passa na minha cabeça e estou sentindo. Eu sempre acho bastante surpreendente quando vejo a pessoa que já fui quando escrevi algum dos meus diários.

Há uma cena no livro em que você lê um trecho de uma obra do David Levithan. Você cita um trecho em que ele fala como uma memória sobre uma determinada pessoa pode ser o maior legado deixado por esse indivíduo. Os seus livros costumam ser principalmente sobre as suas experiências, como é pra você contar histórias de vida de outras pessoas, como você faz com os seus avós?

Não sou capaz de contar a história de alguém sem roubá-la dessa pessoa, então tento contar principalmente histórias sobre mim e pego leve quando estou interpretando as ações das pessoas ao meu redor. Esse livro é um registro das memórias que tenho dos meus avós, não das histórias deles – e esse foi um dos motivos de eu ter incluído trechos da biografia do meu avô, para destacar essa divisão essencial entre o narrador e os personagens.

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Em Relish você escreveu principalmente sobre a sua infância e os seus pais. Em Deslocamento você vai um pouco além e mostra seus avós, tios e outros membros de sua família. Como eles se sentiram se vendo representandos como personagens de histórias em quadrinhos?

Não tenho certeza se a minha tia e o meu tio ficaram muito felizes, mas os eventos foram retratados de forma fiel, acho que retratei como foram todos simpáticos e compreensivos. A minha família sabe qual é a minha profissão e apoia a minha carreira.

Como foi a produção de Deslocamento? Vi um vídeo em seu site em que você fala um pouco sobre seus métodos de produção, mas há alguma particularidade no caso de Deslocamento?

Deslocamento foi produzido muito rápido, enquanto eu estava vivendo esses eventos. Eu usei meus desenhos e meu texto como uma forma de lidar com a tensão e a depressão de estar nesse cruzeiro preocupada com a saúde dos meus avós. Eu passava horas acordadas em um quarto sem janela desenhando as páginas do livro – e nem sempre é assim que trabalho. Para outros livros de viagem eu primeiro faço alguns rascunhos e depois finalizo em casa.

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E como funciona o trabalho de edição em um diário de viagem?

A edição de diários de viagem costuma envolver apenas correções de digitação e trocas de ideias em relação a partes da história que podem crescer.

Esse não é o seu primeiro livro publicado pela Fantagraphics, provavelmente a editora mais importante e influente de quadrinhos autorais nos Estados Unidos. Como é trabalhar com eles?

O meu primeiro livro com a Fantagraphics foi An Age of License. Considero um livro relacionado diretamente com o Deslocamento, por também ser um diário de viagem e relatar alguns eventos ocorrido meses antes dos eventos de Deslocamento. An Age of License é sobre liberdade, romance e independência, enquanto Deslocamento trata de responsabilidade, família e mortalidade. São assuntos dicotômicos, tanto predominantes quanto difíceis de serem tratados quando você é jovem. Sobre a Fantagraphics, foi incrível trabalhar com eles e fiquei muito feliz de ser publicada em meio a tantos artistas que amo e admiro.

Em Deslocamento você fala bastante sobre estar vivendo uma situação inédita na sua vida. Imagino que o mesmo tenha acontecido recentemente, quando o seu filho nasceu. Você vê alguma relação entre essas duas experiências?

Ter um filho, assim como estar com uma pessoa envelhecida que amamos, ressalta o impacto da idade e conexões entre gerações. Quando você vê seus avós envelhecendo, você se sente triste e fica com medo de perdê-los, quando você tem um filho, você se sente triste e fica com medo de que eles vão te perder. É uma mudança interessante.

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Li no seu blog que você está trabalhando em mais de um projeto no momento. Em que estágio está cada um deles?

Passei da metade de um livro que estou fazendo sobre gravidez e parto, chamado Kid Gloves, e também estou em várias etapas distintas de alguns outros projetos. No entanto o Kid Gloves é o meu foco no momento. Gosto de produzir trabalhos que sejam imediatos e recentes, então como o meu filho nasceu no verão passado, estou tentando finalizar esse livro o mais rápido possível.

Você tem lido/assistido/ouvido alguma coisa diferente recentemente? Há alguma obra em particular que você gostaria de recomendar?

Quando não estou trabalhando estou focada em ser uma mãe. Exige muito tempo e energia, mas também me faz muito mais focada no meu trabalho quando tenho tempo para destinar a ele. Então não assisti muitos filmes ou séries desde o início de 2016, mas acabo encontrando algum tempo para ler. Eu realmente gostei muito do Rolling Blackouts da Sarah Glidden. É um ótimo exemplar de jornalismo em quadrinhos tratando dos conflitos no Oriente Médio.

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