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Entrevistas / HQ

Papo com Paulo Floro, coeditor da revista Plaf: “Existe um desejo legítimo de editores e público de fortalecer a relação entre os quadrinhos latino-americanos”

A quinta edição da revista Plaf está impressa. Uma das principais publicações de jornalismo sobre quadrinhos do país, a revista tem como foco em seu mais recente número a rodução latino-americana de HQs. A arte da capa é do quadrinista Rogi Silva, autor de Pumii do Vulcão, Não Tenho Uma Arma, Aterro, Mergulhão, Planta e Pedra Pome. Assim como fiz na época do lançamentos dos quatro números prévios, voltei a conversar com um dos editores da Plaf para tratar da produção e do conteúdo dessa nova edição.

O papo dessa vez foi com o jornalista Paulo Floro, coeditor da revista junto com Dandara Palankof e Carol Ameida e editor do site Revista O Grito (casa virtual da Plaf). Ele falou sobre a dificuldade de produzir esse quinto número em meio à pandemia do novo coronavírus, expôs algumas de suas reflexões sobre quadrinhos latino-americanos e adiantou um pouco sobre o andamento da sexta edição da Plaf.

Além de HQs inéditas de Rogi Silva, Puiupo, Jessica Groke, Talles Molina e Jarbas, a Plaf #5 ainda apresenta resenhas, entrevista com a quadrinista equatoriana-colombiana Powerpaola, matéria sobre a ida de Will Eisner a Recife para o Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de 2001 e um perfil da letrista Lilian Mitsunaga. Confira a seguir a minha conversa com Paulo Floro, um dos editores da Plaf:

“A revista está permeada pela memória de um mundo em transição”

Trecho da HQ de Jéssica Groke publicada na quinta edição da revista Plaf (Divulgação)

Tenho perguntando para todo mundo que entrevisto desde o início do ano passado: como estão as coisas aí? Como você está lidando com a pandemia? Ela afetou de alguma forma a produção desse quinto número da Plaf?

Valeu demais por perguntar! Então, eu estou vivendo uma montanha-russa de emoções como a grande maioria das pessoas. Reflete muito essa falta de perspectiva sobre a saída dessa situação, a depressão que é esse desgoverno irresponsável, a falta de empatia das pessoas, a banalização da morte. Mas, na real me sinto realmente sortudo, pois todos na família estão bem de saúde, isolados e protegidos na medida do possível. Mas tem momentos que é difícil, sobretudo com crianças pequenas em casa, isoladas e angustiadas. É bem mais complicado com crianças, mas estamos felizes de estarmos em segurança.

A Plaf 5 demorou muito mais tempo pra fechar por conta da pandemia, pois demoramos a ajustar as dinâmicas da nossa vida à edição da revista. Além disso, a gráfica que contratamos passou um longo período parada ou em um ritmo menor por conta dos decretos de restrições à Covid-19 aqui no Estado. Enfim, foi um desafio, mas estamos bem felizes com o resultado.

Imagino que cada edição da revista tenha suas peculiaridades e desafios específicos. Você destaca ou chama atenção para alguma experiência específica relativa a esse quinto número da revista?

Essa edição foi cercada de expectativa, pois quando começamos a editá-la tínhamos a ideia de levar ao FIQ e à Bienal de Quadrinhos, ambos cancelados por conta da pandemia. Nossa ideia era chegar nesses eventos com bastante força e por isso até imprimimos uma nova tiragem da primeira edição, que estava esgotada. O tempo todo ficávamos “será que tudo isso vai passar rápido”, etc, aquela indefinição seguida do choque de que tudo era bem mais sério do que imaginávamos. Então, a 5 é muito permeada por essa memória de um mundo em transição. Quando vi a edição saindo da gráfica bateu aquela emoção de ter conseguido finalizar algo, palpável, bonito, depois de um ano tão difícil.

“Encontramos mais elementos em comum do que divergências em relação à produção de HQs no continente”

As páginas de abertura da matéria de capa da quinta edição da revista Plaf (Divulgação)

A matéria principal dessa quinta Plaf trata de quadrinhos latino-americanos. Você chegou a alguma conclusão maior ou tirou alguma lição em particular referente às HQs latino-americanas ao escrever essa matéria? Você vê algum elemento em comum ou alguma unidade quando falamos de HQs latino-americanas?

Fazer essa reportagem foi muito difícil, mas ao mesmo tempo bem prazeroso. Além disso, gosto de fazer essas matérias a seis mãos (ao lado de Dandara Palankof e Carol Almeida, que editam a revista comigo). Nós partimos de uma pauta aparentemente simples – a “falta” de conexão entre as cenas de quadrinhos dos países latinos que falam espanhol e o Brasil – mas depois descobrimos que o assunto é bem mais complexo do que isso. Envolve questões históricas, editoriais e sociopolíticas que vão bem além da tal barreira linguística.

Encontramos bem mais elementos em comum do que divergências em relação à produção de quadrinhos no Continente e acredito que existe um desejo legítimo de editores e público de fortalecer essa relação. Dá pra perceber pelo aumento do número de lançamentos, o que reflete o amadurecimento do mercado, mas também pelo maior entendimento sobre nossa identidade e de nossos pontos em comum.

Página da HQ de Rogi Silva publicada na Plaf #5 (Divulgação)

Gostei muito da capa dessa quinta edição. Aliás, acho que o Rogi Silva tá numa fase especial. Por que chamá-lo para ilustrar essa capa? Qual foi a encomenda que vocês fizeram para ele para esse trabalho? O que você vê de mais especial na arte dele?

Somos fãs do trabalho de Rogi e nos dá um orgulho danado tê-lo na capa da Plaf em um momento tão especial da carreira dele. Sei que ele está produzindo uma HQ longa, ou seja, vem coisa muito boa dele por aí. Ficamos amigos de Rogi e já trabalhamos com ele em outros projetos: ele coassinou a HQ online “Gemini”, organizada pelo O Grito! e o Consulado da França no Recife durante uma residência em Nantes e as artes dos Melhores de 2020. Amo como a arte dele evoluiu para um traço mais fluido e experimental, que explora o componente espacial da linguagem dos quadrinhos. Mas é um artista muito versátil. Os gibis independentes dele que saíram em Pedra Pome são lindos e têm um roteiro afetivo e biográfico que conecta o leitor de uma maneira muito especial.

Como sempre fazemos com os artistas que assinam a capa apenas informamos a reportagem de capa da edição, mas sem entregar muitos detalhes. Já gostávamos do trabalho de Rogi, mas a ideia de chama-lo partiu muito da nossa vontade de trazer um artista pernambucano de destaque na nova cena de quadrinhos daqui. Quando ele nos mandou a proposta de capa ficamos maravilhados. Na real, sem falsa modéstia, gostamos muito de todas as capas da revista até agora, lindas.

“Acho importante fortalecer eventos que destacam a produção local”

Quadro da HQ de Talles Molina publicada na Plaf #5 (Divulgação)

Gostei muito da matéria sobre o Festival Internacional de Humor e Qquadrinhos. A última edição do festival foi em 2007, mas parece se tratar de algo de um passado ainda mais distante. Você vê possibilidade de um evento assim voltar em um futuro próximo pós-pandemia?

Em toda reunião para compor uma nova edição a gente sempre tenta buscar uma pauta que traga alguma história sobre a memória da cena de quadrinhos e essa vinda do Eisner ao Recife era algo que sempre atiçava nossa curiosidade. Hoje nos parece tão surreal ter um nome como Eisner no Recife, mas houve uma época em que o Brasil contava com vários eventos voltado para os quadrinhos mais, digamos, autorais e o FIHQ era um dos mais importantes. Fui em várias edições e o clima era muito bom, conheci muitos artistas incríveis. O modelo de negócios das comic cons ainda não tinha chegado por aqui.

Recife (e o Nordeste como um todo) é muito carente de eventos de quadrinhos, o que é uma pena pois temos muitos autores talentosos e sabemos da importância que esses espaços presenciais promovem para o fomento da produção e consumo. Existiam algumas movimentações para pensar em um evento, mas tudo entrou em pausa por conta da Covid. Acho super importante fortalecer esses eventos que destacam a produção local e olham para as HQs como um produto artístico, como o FIQ e a Bienal. Tem consumo também, mas a experiência desses encontros vai muito além disso. Acredito que depois da pandemia tenhamos que ampliar a articulação para um calendário consistente de eventos que envolva festivais e feiras no Nordeste e no Norte do país.

É um desafio enorme fazer jornalismo especializado em quadrinhos”

As duas primeiras páginas da entrevista com a quadrinista Powerpaola publicada na Plaf #5 (Divulgação)

Publicar qualquer coisa impressa no Brasil é cada vez mais difícil. Publicar uma revista de jornalismo sobre quadrinhos me parece ainda mais desafiador. A Plaf está chegando agora ao seu quinto número. Que balanço você faz desse projeto até aqui?

É um desafio enorme, mas ficamos felizes de ver a Plaf tão bem recebida. Tivemos vários contratempos nas quatro primeiras edições que reflete muito essa dificuldade de editar, produzir e distribuir a revista, mas acho que também aprendemos muito nesse processo. E avançamos em muita coisa: temos uma nova loja online, mais robusta e bonita e um novo site onde iremos publicar matérias dos números anteriores e alguns conteúdos exclusivos.

Estamos editando a 6 e 7, mas a 6 está bem adiantada, com capa e quadrinhos já editados. Queremos a partir de agora retomar o nosso plano inicial de ter quatro edições da Plaf ao ano.

Além disso, a Plaf segue como um dos carros-chefe da cobertura de quadrinhos do O Grito!. É um desafio enorme fazer jornalismo especializado em quadrinhos, mas acho que estamos em um momento excelente com colegas incríveis como o Balburdia, o Raio Laser, você aqui com o Vitralizado, sem falar de veteranos como o Universo HQ que seguem em uma fase excelente. Mas ainda há muito a avançar, como uma maior profissionalização, remuneração, etc, mas já avançamos bastante. É um papo que reeeende bastante, envolve muitas questões.

Quadro da HQ de Jarbas publicada na Plaf #5 (Divulgação)

Em que pé tá a produção da sexta edição da Plaf?

A maior parte das matérias estão prontas e em fase de revisão. A capa também – e é linda. É também de um nome novo da cena atual e que também está em um excelente momento da carreira, mas ainda não posso divulgar hehe. As HQs inéditas também. Acabamos de lançar a 5, mas já tô ansioso pra que o público veja a 6.

Última! Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Tenho assistido a muitos filmes, inclusive fazendo um esforço real de ver trabalhos que sempre ouvi falar ou dos quais conheço apenas a estética, como Drácula (1931), O Martírio de Joana Dark, etc. Vejo também muita coisa em família com as crianças, como Príncipe Dragão (excelente), She-Ra e todos do estúdio Ghibli. Também tenho revisto séries e filmes que gosto muito, como forma de dar um reset do excesso de informação. Já revi Community inteiro, Fleabag, Akira e agora estou vendo Parks and Recreation e Arquivo X hehe. De quadrinhos continuo lendo os lançamentos como prioridade, mas criei o hábito de fazer uma pilha com obras que quero reler ou que comprei e nunca li. Tem sido bem legal ter essa leitura mais demorada e desconectada de uma “agenda de trabalho”.

A capa da quinta edição da Plaf, com arte de Rogi Silva (Divulgação)

Entrevistas / HQ

Papo com Paulo Floro, coeditor da revista Plaf: “Queremos fortalecer cada vez mais a rede de lojas especializadas e espaços que vendem e fomentam a produção de quadrinhos autorais brasileiros”

A quarta edição da revista Plaf tem lançamento marcado para sábado, dia 25 de abril, às 16h, em uma live no perfil da loja e editora Ugra Press no Instagram. O evento será um bate-papo entre uma das coeditoras da publicação, a jornalista Dandara Palankof, e o editor e sócio da Ugra, Douglas Utescher.

A Plaf chega em seu quarto número tratando do futuro dos quadrinhos no Brasil, com textos abordando modelos de distribuição e o uso da linguagem das HQs. Entre os destaques da edição estão um texto assinado pelo editor da Veneta, Rogério da Campos, e uma entrevista da pesquisadora Maria Clara Carneiro com a quadrinista Luli Penna.

A publicação ainda conta com um texto da jornalista Gabriela Borges sobre obras experimentais, uma matéria sobre a democratização de eventos de quadrinhos, um perfil do quadrinista José Marcio Nicolosi e HQs de Adri A. e Henrique Magalhães. A capa é assinada pela quadrinista Amanda Miranda.

Além do lançamento dessa quarta edição da Plaf, também foi divulgado o novo site da publicação, no qual as três edições prévias estarão disponíveis para leitura gratuita.

Bati um papo por email com o jornalista Paulo Floro, coeditor da Plaf ao lado de Dandara Palankof e Carol Almeida. Na conversa a seguir ele fala um pouco sobre os destaques desse quarto número, faz um balanço da publicação até aqui e faz uma breve análise sobre os possíveis impactos da pandemia do novo coronavírus na cena brasileira de HQs. Saca só:

As três primeiras edições da revista Plaf (@RevistaPlaf)

A Plaf tá chegando agora em sua quarta edição. Qual balanço você faz desse projeto?

Estamos empolgados que o projeto esteja vivo e com novidades para o futuro, pois desde o início sabíamos das possibilidades que ele poderia alcançar. Já tinha experiência na cobertura de quadrinhos e na edição de um veículo, a Revista O Grito!, mas nada se compara a tocar uma edição impressa. É um desafio enorme e fico feliz que a gente tenha conseguido se manter, apesar de todos os percalços. Tivemos contratempos após a segunda edição, que atrasou o lançamento da 3, mas isso nos deu experiência para melhorar, sobretudo na questão da distribuição. Queremos fortalecer cada vez mais a rede de lojas especializadas e espaços que vendem e fomentam a produção de quadrinhos autorais brasileiros.

A cena de quadrinhos no Brasil segue forte e queremos colaborar com essa cena discutindo e refletindo sobre ela. Mesmo enfrentando uma crise financeira anterior a essa pandemia, vemos artistas e editoras interessados em explorar diferentes possibilidades dos quadrinhos e trazendo discussões interessantes, apesar das adversidades. É um momento bem interessante e estamos felizes em poder participar de alguma maneira.

Além desse número 4, estamos já editando a número 5, que sairá ainda este ano. E também já iniciamos conversas com parceiros para manter o projeto por mais tempo. Queremos também pensar projetos atrelados à revista, mas ligados aos quadrinhos, ainda tudo muito incipiente. Temos tido um bom retorno de leitores e artistas a cada número da Plaf e esgotamos praticamente as tiragens anteriores, então, acredito que o potencial da revista para crescer segue forte.

“É o tempo de descobrir o serviço de entregas de sua comic shop preferida ou pelo menos checar como eles estão se mantendo nesses dias de quarentena”

A capa da primeira edição da revista Plaf, com arte de Lu Cafaggi

O que você pode adiantar sobre o perfil do José Marcio Nicolosi e da entrevista com a Luli Penna?

O perfil do Nicolosi faz parte da nossa seção HQPedia, que tem como proposta fazer um perfil de autores e autoras brasileiras de diferentes épocas. Queríamos falar de alguém que tem um estilo muito próprio, mas que também atua no quadrinho mainstream brasileiro, que é o caso dele. O trabalho dele é incrível, tanto na Turma da Mônica quanto em sua série Fetichast. Já a entrevista de Luli Penna foi feita por Maria Clara Carneiro e traz uma conversa bem interessante sobre como os quadrinhos podem nos ajudar a recontar o passado, trazer novos olhares sobre o presente.

Gostei muito da capa dessa quarta edição da Plaf. Por que convidar a Amanda Miranda? Vocês passaram alguma pauta específica para a produção desse trabalho?

Somos suspeitos, mas essa capa de Amanda ficou mesmo linda. Quando ela nos enviou ficamos abobalhados, de cara. Pensamos nela depois de ler Hibernáculo, que é uma HQ incrível com um domínio grande da ambientação. É isso que mais curto no trabalho de Amanda, essa capacidade que ela tem de criar um clima específico, um “espaço” próprio, que te deixa preso ali. Como aconteceu com os outros autores da capa, nós conversamos sobre a pauta principal da edição, de uma maneira mais geral. Então ela sabia que falaríamos sobre futuro, mudanças, perspectivas, etc. Mas o direcionamento e visão foi totalmente livre. Tanto a capa quanto a HQ principal, também assinada por ela, comunicam bem o que queremos passar com essa edição.

A capa da segunda edição da revista Plaf, com arte do quadrinista e designer Mascaro

Essa quarta Plaf trata do futuro dos quadrinhos tanto em termos de linguagem quanto de negócios. Por que esses temas?

Nós editamos a Plaf 3 e 4 quase ao mesmo tempo e pensamos que uma maneira de encerrar essa primeira fase do projeto (#1 a #4) fosse falar de passado (a edição #3) e futuro (esta edição #4). Acho que isso nos ajuda a compreender esse momento atual ao mesmo tempo em que nos dá abertura para pensar possibilidades e perspectivas. Então, essa revista discute futuro em termos mercadológicos, como é o caso do texto de Rogério de Campos e da reportagem das novas convenções (PerifaCon/Palafitacon) como em linguagem, que é a matéria de Gabriela Borges. Mas tem também um olhar sobre o país a partir das HQs, como no papo sobre Sem Dó, da Luli Penna.

“A pandemia vai nos ajudar a entender melhor a importância de fortalecer uma cena onde todo mundo seja beneficiado”

A capa da terceira edição da revista Plaf, com arte da quadrinista Aline Lemos

Ainda sobre o futuro… O FIQ foi adiado, autores e editoras estão suspendendo lançamentos e lojas especializadas estão fechadas. Ainda estamos no olho do furacão, mas você já consegue dimensionar o impacto da pandemia do novo coronavírus no mercado brasileiro de quadrinhos?

Estávamos pensando em lançar a edição da 5 no FIQ e todo nosso planejamento estava voltado para isso. A 4 também seria lançada em São Paulo, estava tudo organizado. Acho que, em um primeiro momento, a quarentena deixou todo mundo sem eixo. Agora, ainda que eu tenha tentado ter uma atitude mais assertiva para esse momento, ainda acho tudo muito nebuloso, incerto. É um momento difícil, sobretudo por conta do contexto desse desgoverno que torna tudo ainda pior. Estamos trabalhando, isolados, na próxima edição e esperando definições.

Para esta edição 4 decidimos realizar um lançamento virtual, com uma live, porque acho que a cena precisa seguir, na medida do possível, ativa. É o momento da gente exercitar a solidariedade e pensar no que pode contribuir de alguma maneira. Ligar para a banca preferida, saber se estão entregando gibis, revistas. É o tempo de descobrir o serviço de entregas de sua comic-shop preferida ou pelo menos checar como eles estão se mantendo nesses dias de quarentena. E, mais do que nunca, ter a consciência de que o quadrinho é parte de uma economia criativa, não é diletantismo, e que todos os profissionais são afetados com esse isolamento.

Quando tudo isso passar, as grandes redes de livrarias e multinacionais como a Amazon terão sobrevivido (e talvez estejam ainda mais fortalecidas), mas aquela loja que te apresentava novos artistas e que guardava os lançamentos pra você, talvez tenha fechado as portas. Não gosto de ser aquele que fica dizendo onde a pessoa deve ou não comprar ou ficar policiando comportamentos de consumo, mas acho que essa pandemia vai nos ajudar a entender melhor a importância de fortalecer uma cena onde todo mundo seja beneficiado (artistas, editores, lojistas e público).

A capa da quarta edição da revista Plaf, com arte da quadrinista Amanda Miranda
HQ

Plaf: confira a capa e uma prévia das HQs e das matérias da 3ª edição da revista

O terceiro número da revista Plaf tem capa da quadrinista Aline Lemos, que também assina uma história em quadrinho inédita para a publicação. Editada por Paulo Floro, Dandara Palankof e Carol Almeida, a Plaf #3 teve seu lançamento marcado para o dia 6 de dezembro, às 19h, no Ursa Bar e Comedoria (Rua Carneiro Vilela, 30, Espinheiro), em Recife.

A terceira Plaf tem como foco principal o olhar dos quadrinhos sobre a história brasileira. A revista conta com HQs inéditas dos quadrinistas Jota Mendes e Luiz Gê (protagonista da entrevista da edição) e reúne textos sobre o imaginário do Nordeste nas histórias em quadrinhos e sobre a importância de Angelo Agostini para os quadrinhos nacionais.

Uma prévia da Plaf #3 sobre o trabalho do quadrinista Luiz Gê

A revista ainda conta com uma releitura crítica da revista Tico-Tico e um artigo sobre o olhar dos quadrinhos sobre a história. O editor Paulo Floro mandou aqui pro blog a capa e uma prévia do conteúdo presente nessa Plaf nova e avisou que a primeira edição da revista, que estava esgotada, vai ganhar reimpressão. Ele também contou que logo mais estará disponível na internet uma versão da revista com a audiodescrição das HQs.

“Queremos apostar nessa acessibilidade e esperamos colocar mais números em audiodescrição de forma periódica”, diz Floro. A promessa é de versões com audiodescrição dos quadrinhos da Plaf #1 para o mês de dezembro. A seguir, a prévia de algumas das matérias e HQs da Plaf #3:

Duas páginas da Plaf #3 dedicadas à revista O Tico-Tico
Trecho da HQ de Jota Mendes para a Plaf #3
Trecho da HQ de Luiz Gê para a Plaf #3
Uma página da HQ de Aline Lemos para a Plaf #3
Entrevistas / HQ

A Plaf #2 está nas lojas: “Os quadrinhos não podem se alienar de seu papel político, democrático”

O segundo número da revista Plaf já está disponível nas principais lojas especializadas em quadrinhos do país. Editada por Paulo Floro, Carol Almeida e Dandara Palankof, a publicação tem capa assinada pelo quadrinista Mascaro, uma entrevista com o artista Marcelo D’Salete e quadrinhos de autoria de Jô Oliveira, Brendda Costa Lima, Felipe Portugal e Mascaro. Eu escrevi uma das matérias da edição, tratando dos hábitos de consumo de leitores brasileiros e sobre questões relacionadas ao comércio de HQs no país. A revista tem 60 páginas, formato 21x28cm e preço de R$ 15.

Conversei por email com um dos editores da Plaf, o jornalista Paulo Floro. Ele falou sobre os principais desafios na edição desse segundo número da publicação, as principais lições da edição de estreia, as matérias e os quadrinhos presentes na Plaf #2 e a missão de uma revista sobre quadrinhos em um contexto político conturbado, de conservadorismo aflorado e princípios democráticos em risco. Papo massa, saca só:

“Acreditamos na democracia e vamos defendê-la acima de tudo”

Duas páginas da Plaf #2 com entrevista com Marcelo D’Salete

A primeira edição da Plaf foi lançada em agosto de 2017, com a promessa de periodicidade bimestral, mas o segundo número saiu apenas em outubro de 2018. O que aconteceu? Por que esse atraso?

O que aconteceu foi uma série de problemas referentes a um edital de cultura que tínhamos vencido. A produção do número 2 se iniciou quase que ao mesmo tempo do lançamento da edição 1, mas nos vimos imersos em uma discussão em relação às regras do edital, sobretudo quanto aos prazos. Se tivéssemos sabido que existia essa possibilidade de atraso nunca teríamos divulgado a periodicidade. Tentamos de todas as maneiras explicar a importância do projeto, dos benefícios que isso trazia às publicações independentes. Esses atrasos no repasse da verba nos fizeram atrasar o lançamento da edição 2, que estava pronta. Queríamos primeiro resolver qualquer pendência primeiro.

Esse atraso afetou de alguma forma a produção da revista e o conteúdo presente nesse segundo número?

Não. A revista ficou praticamente pronta ao final do lançamento da #1. Mudamos algumas matérias, mas por uma questão editorial mesmo, não por conta do atraso. Ficamos felizes com o resultado, com as colaborações e com o incrível trabalho de diagramação de Erika Simona, que também criou nosso logo.

“Queremos discutir a forma, falar de mercado e celebrar esse divertido entretenimento que é ler um gibi, mas não podemos deixar de dar nossa contribuição sobre o que está acontecendo no Brasil”

Matéria da Plaf #2 sobre consumo de quadrinho no Brasil

Quais as principais lições que vocês tiraram do primeiro número da revista? Como vocês tentaram aplicar esse aprendizado na segunda edição?

O principal aprendizado é em relação à gestão mesmo. Acredito que agora temos mais experiência em trabalhar com editais e captação de recursos. É algo que demanda muita organização, conhecimento jurídico e paciência. Aqui em Pernambuco os artistas sempre foram bastante engajados no papel do poder público na promoção da arte e da cultura, mas os quadrinhos sempre tiveram pouca presença. Agora vejo que já existe uma organização nesse sentido, com editores e artistas mais próximos, dialogando sobre possibilidades. Espero que um dia a cena de quadrinhos possa ser articulada como a do cinema e música, que por batalharam por tantos anos hoje já possuem uma abertura bem maior junto aos espaços de discussões de políticas culturais, bem como nas empresas e editais governamentais. Mas, ao mesmo tempo, vejo que os tempos estão mais difíceis para todos. Além da cena de quadrinhos, esse movimento de união deve ser de toda a cadeia produtiva de arte e cultura.

Você pode falar um pouco mais sobre a capa desse segundo número? Por que o Cristiano Mascaro? Vocês passaram alguma pauta pra ele em relação à arte que estamparia a capa dessa edição?

Para a capa do segundo número queríamos um artista pernambucano, este foi nosso primeiro pensamento quando começamos a desenhar o número 2. E Mascaro sempre foi alguém que admiramos. Ele foi um dos criadores da Ragu, revista pioneira em Pernambuco e no Brasil. Até hoje acho impactante uma HQ que ele fez para a Ragu que trazia os meninos de rua gigantes. Lembro de ter ficado emocionado de verdade lendo aquela história e ainda hoje sinto o impacto quando releio. Mascaro sempre uniu a busca por uma inovação na forma e na narrativa com questões sociais no roteiro. Pra gente que tem a Ragu como uma das maiores inspirações, ter Mascaro nesta edição é uma honra. A gente pediu uma HQ a ele, mas não pautamos nenhum tema. Como já sabíamos do seu estilo a confiança de que sairia algo incrível era total. Ele fez uma história incrível, que lembra um lambe-lambe, ao mesmo tempo em que se assemelha a um ensaio visual, bem inovador mesmo. E bastante atual para representar essa crise moral e política em que vivemos. Em relação à capa dissemos apenas o tom do editorial, que conclama os leitores a irem pra rua comprar gibi, de fortalecer a circulação autoral de quadrinhos, de celebrar leitores e lojistas.

Página da HQ de Jô Oliveira presente no segundo número da revista Plaf

O que vocês destacam nesse segundo número da revista? 

Para esse segundo número a gente quis debater um pouco o mercado editorial brasileiro, dar nossa contribuição em um debate que é bastante complexo e que possui diversas abordagens. Então em um primeiro momento a proposta foi falar da lógica de consumo, o modo como consumimos quadrinhos. Tem ainda uma entrevista com Marcelo D’Salete sobre Angola Janga e a representação da negritude nos quadrinhos. Quando ele venceu o prêmio Eisner, a revista estava pronta, mas não tinha ido à gráfica ainda e por isso conseguimos incluir essa informação, que é um registro poderoso. D’Salete é uma voz importante não só nos quadrinhos brasileiros, mas da cultura como um todo. O trabalho que ele vem fazendo de pautar uma nova perspectiva de nossa história é algo importante, urgente, muda paradigmas da história dos negros e negras no país. Destaco também o perfil de Jô Oliveira, que é um quadrinista pernambucano que tem um trabalho muito importante, mas pouco reconhecido. Ele é mais publicado no exterior do que aqui. E tem a cobertura que fiz do Festival de Angoulême, que neste ano teve uma boa presença de brasileiros. E tem ainda um perfil da Marca de Fantasia, editoria da Paraíba feita por um homem só, o Henrique Magalhães.

De quadrinhos temos a HQ de Mascaro, que já citei, que é bem legal. Chamamos Roberta Cirne por ter um estilo muito particular, um traço barroco, denso, que curtimos muito. Ela se dedica a pesquisar histórias de terror no Recife e faz parte de uma cena de horror que vem crescendo em Pernambuco nas HQs, no cinema, teatro. Já Brendda Lima é um nome importante dessa nova geração de quadrinistas que se dedicam a trabalhos mais autobiográficos, já acompanhávamos há um tempo as HQs dela na web. E teve Felipe Portugal, que trouxe um ensaio em primeira pessoa, inclusive citando a revista. Já a HQ de Jô Oliveira era um trabalho que ele tinha guardado e nos cedeu depois do perfil que fizemos com ele. Imagina a nossa alegria quando ele nos mandou? Não chegou a ser intencional, mas ficamos felizes em saber que todos os quadrinhos desta edição são de autores nordestinos.

Uma página do quadrinho de Brendda Costa Lima para a Plaf #2

Eu fico curioso em relação a essa missão dupla da Plaf, como uma revista de quadrinhos e sobre quadrinhos. É muito distinta a experiência de editar uma matéria ou uma crítica e editar uma HQ? Aliás, como é a dinâmica de vocês com os quadrinistas? Vocês pautam os temas sobre os quais eles devem tratar?

Essa missão dupla realmente é um desafio massa de se ter, nos dá uma instiga de pensar o cenário de quadrinhos de maneira crítica com matérias e textos ao mesmo tempo em que buscamos dar espaço para artistas que admiramos. Em geral damos liberdade para os quadrinistas, no sentido de estilo, roteiro, narrativa. O que acontece é que muitas vezes pautamos o quadrinista em relação a algum tema ou ideia. Por exemplo: sempre admiramos os quadrinhos que Felipe Portugal postava em que ele aparecia como um alter-ego refletindo sobre diversos temas e tentando explicar algum conceito. Então pedimos algo parecido a ele, mas sem dizer um tema. E o resultado superou nossas expectativas. Na edição 1 queríamos uma HQ que falasse sobre o Recife e se passasse no Recife e convidamos Raoni Assis pela ligação afetiva que ele tem com a cidade enquanto artista, o que deu origem à HQ sobre o OcupeEstelita. Acreditamos que podemos comunicar através das HQs que trazemos na Plaf e por isso sempre estamos em diálogo aberto com os autores.

O Brasil está passando por uma imensa crise editorial e corre o risco de eleger para a presidência um indivíduo militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista (nota do editor: a entrevista foi feita antes do resultado do segundo turno da eleição presidencial). Qual vocês acreditam ser o papel da Plaf dentro desse contexto nefasto? Como a revista se posiciona em relação a esse cenário?

Acreditamos na democracia e vamos defendê-la acima de tudo. Desde o número 1 estamos falando editorialmente sobre o que pensamos, colocando a arte como um espaço de diálogo e reflexão. Os quadrinhos não podem se alienar de seu papel político, democrático. Queremos discutir a forma, falar de mercado e celebrar esse divertido entretenimento que é ler um gibi, mas não podemos deixar de dar nossa contribuição sobre o que está acontecendo no Brasil. Com muita humildade espero que a Plaf possa proporcionar informação para resistir nesses tempos duros. Fiquei feliz de ver uma movimentação nas redes em torno da hashtag #desenhospelademocracia com vários artistas trazendo conteúdo antifascista, debatendo as eleições deste ano. Ninguém mais hoje pode ficar neutro, sobretudo no que diz respeito à perda de direitos e retrocessos na democracia.

Página do quadrinho de Mascaro para a segunda edição da Plaf

Quais as principais lições que vocês tiraram desse segundo número? Como vocês pretendem aplicar esse aprendizado nas próximas edições?

O maior aprendizado diz respeito à gestão de um projeto como a Plaf, que envolve custos relativamente altos de produção e impressão. Queremos aplicar essa experiência para as próximas edições, sobretudo quanto aos prazos. Quando terminamos de editar a revista, a colocamos em pré-venda por acreditar que tudo sairia dentro do nosso cronograma. O resultado é que atrasamos, o que frustrou a expectativa de muita gente. Quando a revista finalmente saiu mandamos uma cartinha pedindo desculpas. Isso é algo que dificilmente faríamos. Também ficamos mais experientes com relação à distribuição, que era algo bastante novo para todo mundo na equipe. É bem mais complexo do que despachar pelos Correios. Envolve gestão de estoque, prestação de conta, loja online, etc, o que melhorou bastante. Aproveito para agradecer a todo mundo que apoia a revista e dizer que somos gratos por todo o carinho que recebemos até agora. O retorno foi bem positivo da número 1 e espero que essa edição 2 tenha o mesmo sucesso.

O que vocês podem adiantar sobre os próximos números da revista? Qual é o futuro da Plaf?

Queremos muito retomar nossos planos de ter quatro edições por ano, mas agora preferimos não mais falar de uma data exata de lançamento da número 3. Esperamos bastante conseguir capitalizar a revista para que ela tenha sustentabilidade a longo prazo. Esperamos sensibilizar marcas e empresas do enorme potencial que a publicação possui, do diálogo que mantém com diversos públicos, pensar parcerias. Para esse número 2, que acabou de sair, ainda queremos fazer mais lançamentos. O mercado vive um momento muito complicado e nem arrisco a fazer uma previsão, mas com certeza vamos manter o nosso projeto editorial de falar de quadrinhos de uma maneira plural, inclusiva, dando destaque para a produção brasileira. Quem quiser embarcar nesse projeto conosco, será super bem-vindx. 🙂

A capa da Plaf #2

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Sábado (30/9) é dia de lançamento da Plaf #1 em São Paulo

Ó que massa: o primeiro número da Plaf terá um evento de lançamento em São Paulo no sábado (30/9), a partir das 16h, na loja da Ugra. A festa vai contar com um bate-papo com o Paulo Floro, um dos editores da revista junto com a Carol Almeida e a Dandara Palankof. Serei o responsável por mediar essa conversa com o Paulo e vou querer saber sobre a produção desse primeiro número da Plaf, do futuro da revista e alguns pitacos dele em relação ao jornalismo especializado em quadrinhos no Brasil.

Certeza de papo bom. Tive um prazer imenso em participar da edição de estreia da revista e tô muito curioso em relação aos próximos números. E acho ótimo conversar com o Paulo sobre esse momento de agitação também nos meios de comunicação especializados em HQs por aqui. E aí, vamos? Vai ser massa, viu? Dá um pulo lá na página do evento no Facebook.

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A capa da 1ª edição da Plaf, a mais nova revista brasileira sobre HQs: “Temos como desafio mostrar os quadrinhos como uma arte que dialoga com o mundo”

A primeira edição da revista Plaf será lançada no final do mês de agosto, com a arte da capa assinada pela quadrinista Lu Caffagi. A publicação terá 64 páginas, custará R$ 15 e foi editada pelos jornalistas Carol Almeida, Dandara Palankof e Paulo Floro. O primeiro número será vendido em lojas especializadas de Recife, João Pessoa, São Paulo e Curitiba. “A ideia principal era fazer uma revista que traduzisse bem o momento atual dos quadrinhos no Brasil”, diz Floro. Além de falar sobre a cena nacional de HQs em reportagens, entrevistas e resenhas, a Plaf também terá quadrinhos inéditos assinados por Lu Cafaggi, João Lin, Caio Oliveira e Raoni Assis.

A Plaf terá periodicidade bimestral, com seus quatro primeiros números produzidos com incentivo do Funcultura (Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura, do Governo do Estado de Pernambuco). O slogan da revista é “O mundo dos quadrinhos é o mundo todo” e o material de divulgação do periódico promete “foco na produção autoral e na diversidade temática, abordando desde autores brasileiros até produções estrangeiras”. A publicação também é uma iniciativa da Revista O Grito!. Segundo os editores, “a ideia é que outras publicações sejam lançadas, sempre tendo como proposta a valorização da cena independente”.

No sumário desse primeiro número da Plaf consta uma matéria minha sobre os ciclos produtivos das HQs brasileiras, inspirada nos meus dois cursos realizados na Ugra em 2016. Dentre os destaques da edição estão uma entrevista com o quadrinista André Dahmer, um infográfico sobre as andanças de Tintin pelo mundo e uma coluna sobre Maria Aparecida Godoy, uma das primeiras roteiristas brasileiras a ganhar destaque no mercado editorial. Também focada na cena pernambucana e nordestina de quadrinhos, a Plaf também virá com uma reportagem sobre a Ragu, importante publicação de quadrinhos de Recife. Um dos quadrinhos impressos é assinado por Raoni Assis e Rodrigo Acioli tratando do Ocupe Estelita, movimento que questiona a especulação imobiliária em uma área histórica do Recife. Lu Caffagi, Renata Rinaldi, João Lin e Caio Oliveira assinam as demais HQs.

Fiz uma entrevista por email com Paulo Floro e Dandara Palankof sobre as origens da Plaf, a linha editorial do projeto, o conteúdo desse primeiro número e os planos para o futuro da publicação. Ó:

“O mundo dos quadrinhos é o mundo todo”

É daquelas perguntas meio óbvias, mas essenciais. Qual é a origem da revista? Vocês lembram do momento em que surgiu a ideia da Plaf?

Paulo: Eu sempre quis criar algum produto derivado da cobertura de quadrinhos que fazíamos na Revista O Grito!, mas não sabia bem o quê. Desde o início, lá em 2008, 2009, quando criamos o site tínhamos como proposta falar de HQs sem ter o nicho geek/nerd como norte, apostando em um olhar mais alternativo, autoral, “indie”, que era a nossa proposta pra falar de música, por exemplo. E sempre amei revistas impressos, como colecionador mesmo, aí fui amadurecendo a ideia de criar um título impresso. Com o crescimento do cenário de quadrinhos brasileiro, com autores nacionais ganhando cada vez mais destaques e a chegada de obras estrangeiras por aqui, novas editoras, toda essa efervescência, criei esse projeto de uma revista sobre esse momento, que comentasse tudo isso. Tentei por dois anos que ela fosse aprovada em um edital de cultura daqui de Pernambuco (o Funcultura) até que fosse aprovado. Sabia que seria caro fazer a revista com o formato que imaginamos. Para a empreitada chamei Dandara Palankof, que é uma amiga pessoal, colega de mestrado (onde pesquisa quadrinhos, assim como eu) e que assina uma coluna n’O Grito! sobre mulheres e HQs, além de ser tradutora para editoras como Mino e Panini. E convidei também Carol Almeida, que foi uma das primeiras pessoas a escrever sobre quadrinhos com regularidade na imprensa daqui e que sempre admirei muito. Eu só concebi o projeto inicial da revista, mas de resto tudo foi criado em conjunto, o formato, as seções, pautas, HQs, tudo. E chamamos Erika Simona, que é uma designer que já colaborou com O Grito! e que tem uma visão muito criativa e elegante.

“A ideia é tornar os quadrinhos – ou melhor, o debate sobre os quadrinhos – popular no Brasil”

Eu ainda não li a Plaf, mas pelo release, pela capa e pelo que vocês me adiantaram, a linha editorial dela parece ser muito focada na diversidade dos quadrinhos brasileiros – seja de estilos, gêneros, regiões… Como vocês chegaram nesse foco?

Paulo: Sim, a ideia principal era fazer uma revista que traduzisse bem o momento atual dos quadrinhos no Brasil. Tanto em relação aos trabalhos autorais daqui quanto em relação à produção estrangeira que está saindo no país. Queremos falar também de mercado, de quadrinhos na universidade, olhar para todos os lados, sabe, mas sem nunca esquecer as HQs como uma expressão artística própria, autoral, criativa. Quando nos reunimos pela primeira vez decidimos estabelecer que a Plaf teria como desafio mostrar os quadrinhos como uma arte que dialoga com o mundo, por isso bolamos o slogan “o mundo dos quadrinhos é o mundo todo”. Você vê isso acontecer com outras artes o tempo todo: cinema para falar de conflitos mundiais, literatura para comentar relações sociais, temas como feminismo, raça, gênero, artes visuais como alegorias para momentos políticos, etc. Mas com quadrinhos sinto essa tendência de se fechar, falar com um só público, analisar a obra de maneira fechada. Hoje não podemos falar de alguém como Dahmer ou D’Salete apenas pelo fato de seus trabalhos serem narrativamente incríveis. Nem com os comics americanos podemos fazer isso, imagine autores brasileiros ousados como esses? Aí demilitamos esse foco. Para o primeiro número nossa matéria principal é sobre quadrinhos LGBT e queer, pois quisemos marcar território, falar com propriedade de algo que sabemos na pele já que a revista tem duas lésbicas e um cara gay como editores hehe.

O segundo foco foi falar de quadrinhos do Nordeste. Tem muita coisa incrível por aqui que não consegue projeção. Queremos também incentivar a produção local, sobretudo aqui de Recife. Nesse número temos uma matéria sobre a Ragu, que é uma revista super importante para os quadrinhos e que sempre admiramos enquanto leitores. Esperamos que ela retorne em breve, pois sua importância para a arte das HQs ainda precisa ser mais reconhecida. E chamamos nomes veteranos para assinar HQs, caso de João Lin e de um mais novo, Raoni Assis, que é também artista plástico.

E o terceiro foco da revista é mostrar que os quadrinhos são bem legais, populares, instigantes e que todo mundo deveria ler! Tem quadrinho pra todos os gostos. Nos preocupamos em deixar o texto bem gostoso de ler, ainda que se aprofundem bastante nos temas. O importante é que a gente quis afastar um tom mais acadêmico, distanciado, pelo contrário, queremos a Plaf o mais pop possível. Por conta do incentivo do edital deu para vender a revista por R$ 15, o que é bem barato para a qualidade do papel, tamanho, etc. Mas a ideia é tornar os quadrinhos – ou melhor, o debate sobre os quadrinhos – popular no Brasil.

A revista mescla matérias e resenhas com histórias em quadrinhos. Como foi o trabalho de chegar nas pautas e nos autores que entrariam nessa edição? Vocês sugeriram temas para os quadrinistas?

Paulo: Desde o início nos empolgamos com a ideia de trazer HQs inéditas, o que acredito aumentou o valor simbólico da revista. Cada artista que chamamos teve uma história diferente. A capa decidimos chamar a Lu Cafaggi pois queríamos uma arte delicada como o estilo dela. Aí aproveitamos e pedimos uma HQ. Dissemos a ela o tema principal da edição, que era LGBT e quadrinhos e ela nos entregou uma história linda sobre um casal de meninas. Com João Lin decidimos dar carta livre, pois o estilo dele é bem experimental e ousado e decidimos não interferir nada no processo criativo. Renata Rinaldi é um nome que sempre admiramos e que vem do quadrinho independente e queríamos alguém desse meio, que é mais ousado. Amo os zines dela desde que conheci no FIQ de 2015. Para a HQ de fechamento pensamos em colocar uma tira de humor e um dos nomes que mais curtimos é Caio Oliveira, do Piauí. E a história do Ocupe Estelita surgiu já na nossa primeira reunião de pauta. Quando convidamos Raoni Assis já foi falando dessa pauta. Iríamos chamar Raoni para a revista de uma maneira ou de outra, pois acho que ele é um dos autores mais interessantes no momento em Pernambuco, mas a HQ que ele criou sobre o movimento é algo que vai ficar pra sempre, ficamos bem felizes com o resultado. Cineastas locais têm comentado bastante sobre o mal da especulação imobiliária e a destruição da memória aqui no Recife e agora os quadrinhos também trazem uma contribuição. Isso é muito legal e nos dá muito orgulho.

Recife é um pólo cultural brasileiro e movimentos como o Ocupe Estelita mostraram um pouco do ativismo dessa cena artística local. A Plaf também reflete sobre essa agitação rolando por aí?

Paulo: A gente espera que sim! Tentamos fazer isso com a cobertura na Revista O Grito!, destacando autores que tratam de assuntos importante à cidade. Com a Plaf queremos que os quadrinhos também sirvam como uma expressão artística relevante para debates. Você pega o movimento Ocupe Estelita e vê vários artistas engajados, de música a cinema, passando por artes visuais e teatro. Agora os quadrinhos também estão chegando. O ponto crucial é que a cena de quadrinhos estava adormecida por aqui, mas está ressurgindo. No passado tínhamos um evento de porte, o Festival Internacional de Humor e Quadrinhos, que trouxe até Will Eisner, tínhamos a Ragu, etc, mas foi arrefecendo. Quando eu e Dandara fomos ao FIQ de 2015 as pessoas não paravam de nos perguntar, “porra, cadê os gibis de Recife?, “Vocês tem uma produção gigante de filmes, discos, mas não vemos as HQs”, etc. Agora isso já está mudando: na Comic-Con Experience Tour, que rolou esse ano, pudemos ver muitos lançamentos pernambucanos, além de muitos autores da Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte e Piauí. Ficamos bem felizes. Não quero ter a pretensão de dizer que a Plaf vai significar uma retomada da produção local, mas queremos ajudar de alguma maneira.

“É importante que todo meio, toda expressão artística – tudo que atinge um público intelectualmente e emocionalmente – sofra uma reflexão”

A produção de conteúdo sobre quadrinhos na internet brasileira tá cada vez mais voltada pro consumo. Desde a chegada da Amazon no Brasil há uma proliferação de canais no YouTube e sites especializados voltados pra indicação da compra de HQs – e acredito que isso acaba esvaziando um pouco o debate. Qual vocês consideram ser a importância de se refletir sobre HQs e aprofundar a conversa como a Plaf se propõe a fazer?

Dandara: Realmente, a discussão sobre as histórias em quadrinhos na mídia, hoje, se limita basicamente às resenhas – não que elas não sejam importantes; uma revista como a que nos propusemos a fazer, inclusive, precisa ter uma seção de resenhas – assim como fazem outras publicações, como o Suplemento. Mas a discussão não pode se encerrar em quais os gibis mais maneiros pra comprar no mês. É importante que todo meio, toda expressão artística – tudo que atinge um público intelectualmente e emocionalmente – sofra uma reflexão. Sobre sua história, seus lugares na sociedade, seus discursos. É justamente por percebermos esse vácuo que a Plaf foi criada: pra somar, pra agregar ao público leitor, em formação ou veterano, mais espectros sobre esse mundo tão plural, em gêneros, formatos e mensagens, que são as histórias em quadrinhos.

Quais os planos de vocês pro futuro da revista? A segunda edição já está em produção?

Paulo: A gente aprovou quatro números nesse edital de cultura, então temos planos de manter esse mesmo preço por esse período. A nossa meta é dar vida longa à publicação. Para isso estamos fazendo um caixa para lançar a revista a partir do número cinco. Depois da estreia vamos cair em campo em busca de apoio para financiar a revista e acreditamos que ela tem um potencial enorme de crescer e atingir muitos outros públicos. Estamos já trabalhando no número 2 e estamos empolgadíssimos.