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Entrevistas / HQ

Papo com Diego Gerlach, autor de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem: “O objetivo era caminhar por outro lugar, por uma realidade com regras próprias, que descobriria mais ou menos no mesmo ritmo que a pessoa que lê”

As 252 páginas do álbum Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem reúnem em um única edição os primeiros experimentos impressos de Diego Gerlach com a linguagem das histórias em quadrinhos. As 19 histórias presentes na coletânea lançada pelo selo Pé-de-Cabra foram originalmente publicadas entre 2009 e 2016 em antologias nacionais e internacionais e em títulos independentes do autor, além de uma obra inédita, todas ambientadas na cidade fictícia de Pinacoderal.

“O objetivo toda vez que sentava para criar uma HQ dessas era de fato caminhar por outro lugar, por uma cidade e uma realidade com regras próprias, que descobriria mais ou menos no mesmo ritmo que a pessoa que lê”, afirma Gerlach em conversa com o blog sobre essas primeiras empreitadas em quadrinhos impressas na coletânea.

As histórias de Pinacoderal são protagonizadas por figuras suspeitas como Boy Rochedo, Verloch, Caranguejêra, Vingax e Zuêro em tramas girando ao redor da realidade hostil e imunda de Pinacoderal. São histórias que soam como um prólogo do trabalho atual de Gerlach, editor do selo Vibe Tronxa Comix e responsáveis por obras como a série Know-Haole e NÓIA: Uma História de Vingança (Escória Comix).

Pinacoderal é um imenso serviço prestado pelo selo Pé-de-Cabra aos leitores interessados na formação e na história de um dos principais nomes da vanguarda dos quadrinhos nacionais. O projeto gráfico assinado pelo também quadrinista Pedro Franz só corrobora a singularidade do projeto.

Na conversa a seguir, Diego Gerlach lembra a origem das histórias ambientada em Pinacoderal, fala sobre a produção da coletânea reunindo esses quadrinhos, comenta a dinâmica de seu trabalho com Pedro Franz, trata da relação de suas histórias com o ambiente urbano e exalta a curadoria dos selos Pé-de-Cabra e Escória Comix – “Idealmente, eles se tornariam um tipo de referência, pois o mercado e as grandes editoras estão totalmente fora de sintonia com a produção nacional”, diz o autor. Papo ótimo. Saca só:

“Com um atraso de meros sete anos, chegamos ao livro”

O teaser do primeiro anúncio da coletânea que viria a ser Pinacoderal, divulgado em 2011

No posfácio de Pinacoderal: Fragmentos de Linguagem você comenta como já tinha passado um pdf reunindo esse mesmo material para outros editores e que não teve nenhum retorno. O plano de publicar essa coletânea é antigo? Como ele ganha forma? Como o Panhoca e a Pé-de-Cabra entram na história?

Em 2011, anunciei no meu Flickr que no ano seguinte Pinacoderal seria publicado, sem maiores detalhes. Na época, a ideia era compilar os zines originais (mais algumas histórias que já estavam prontas) num livro. Nem lembro como achava que iria financiar essa empreitada, provavelmente financiamento coletivo. Na época, acreditava que em pouco tempo lançaria a quinta edição de Pinacoderal (o zine) e teria uma história fechada. Mal sabia eu que, devido a N fatores (os principais sendo minha inexperiência e o desejo de brincar com novos personagens), essa história (iniciada em Pinacoderal 3 e continuada no 4) nunca seria concluída. Aí a ideia de compilar tudo começou a ficar mais disforme: com algumas histórias incompletas, na minha cabeça o fluxograma ficava zoado. E, quanto mais produzia, mais difícil se tornava a ideia de publicar o material de maneira independente, pois os custos de impressão e distribuição também cresceriam. Foi só por volta de 2017, quando parei pra somar o número de páginas que já tinha publicado que percebi que poderia tranquilamente remover as HQs que não tinham sido concluídas e ainda assim ter em mãos uma publicação substancial. Foi isso que fiz. Com um atraso de meros sete anos, chegamos ao livro.

O Panhoca foi na verdade a primeira pessoa a me abordar a respeito da publicação do Pinacoderal. Já éramos amigos fazia algum tempo, mas ele ainda não tinha feito nada como editor, e sabia que editar esse treco seria casca-grossa, eu mesmo não sabia muito bem por onde começar, e aí acabou que deixamos a coisa de lado. O material passou na mão de duas outras editoras, que a princípio mostaram interesse (com base na minha descrição do material), mas que quando se depararam com a coisa em si, como disse, não emitiram qualquer parecer. Você nunca sabe por que, exatamente, um editor não responde. Pela minha experiência, em 90% dos casos tem a ver com alguma mudança súbita nos planos editorias, instabilidade do mercado, correria insana, uma combinação de todos esses fatores, etc. Mas, como esse material tem lá sua dose de esquisitice, rolou um questionamento interno, do tipo “Será que é totalmente incompreensível?”. Ano passado o Panhoca expressou de novo desejo de publicar algo meu. Com a Revista Pé-de-Cabra já consolidada como uma iniciativa editorial, selamos com um aperto de mão a parceria (na Bienal de Curitiba do ano passado) e começamos a trocar ideia sobre como de fato seria o rolê. Como menciono no posfácio, a insistência do Panhoca foi fundamental.

“Pessoas que acompanhavam com relativa proximidade minha produção ficaram surpresas ao descobrir que todas essas histórias fazem parte de uma mesma realidade”

Quadros de uma das HQs de Diego Gerlach publicadas em Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem

E como foi o trabalho de edição desse projeto? Ou melhor: o livro que vocês estão publicando é muito diferente/parecido com aquilo que você tinha em mente pra essa coletânea? O Pedro Franz é creditado como responsável pelo projeto gráfico do livro. Por que chamá-lo? Como foi a dinâmica entre ele, você e o Panhoca?

 Foi quando Pedro Franz topou fazer o projeto gráfico que eu e Panhoca começamos a botar fé que a coisa ia acontecer de fato. A ideia de convidar ele foi minha, porque gosto muito do trampo dele como designer e porque já colaboramos em diversos projetos, rola uma comunicação meio telepática. Ele definiu todo o aspecto da edição (incluindo a ordem das histórias) com um ou outro pitaco meu e do Panhoca (que ficou encarregado mais de nos colocar rédeas, organizar a logística com a gráfica e evitar que tivéssemos algum rompante faraônico que inviabilizasse a empreitada). Os protótipos chegavam e meu único trabalho era ficar mais e mais empolgado. Ainda não vi o livro pronto, mas o projeto gráfico ficou 112% do meu agrado.

Como você definiu o que entraria e o que ficaria de fora dessa coletânea Nem todo material ambientado no Universo Pinacoderal está impresso nessa edição, certo?  

A maioria do material já estava definido, normalmente tenho claro na minha cabeça se determinada história pertence a um universo específico (bom, não no começo, mas logo a coisa se define). A única questão eram algumas histórias que não tinham sido fechadas, como mencionei. Mas teve coisas (imagens e detalhes) usados na edição do livro que teria esquecido se o Franz não tivesse perguntado ‘Ei, isso não é Pinaco também?’. Produzi muita coisa, entre HQs e desenhos avulsos focados nesses personagens. Tenho certeza que alguma coisa ficou de fora. Por outro lado, foi trocando ideia com o Franz que entendi que, ao mesmo tempo que era uma edição que se pretendia bastante completa, tinha que traçar uma linha na areia e deixar algumas coisas de fora pra dar coesão ao material. Pessoas que acompanhavam com relativa proximidade minha produção ficaram surpresas ao descobrir que todas essas histórias (acho que quase ninguém leu tooodas em conjunto) fazem parte de uma mesma realidade. 

“Pinacoderal é um mistério para mim”

Uma das páginas de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea de Diego Gerlach publicada pelo selo Pé-de-Cabra

Eu quero saber sobre os seus sentimentos enquanto trabalhava nessa coletânea. Quais reflexões e balanços você fez em relação ao seu trabalho? Tem algum aspecto específico dessa sua produção que te interessa mais?

É super estranho ver o material todo reunido, pois lido assim ele assume nova forma, um contexto próprio. Rola uma repetição de símbolos e elementos narrativos que vão dando estofo a um universo, mas vão também revelando obsessões e cacoetes por trás de quem faz, o que é um pouco desconcertante de se ler num primeiro momento. Passa um slideshow monumental na minha cabeça dos diversos lugares em que produzi essas histórias, situações, pessoas, momentos pontuais. Por mais que tente explicar, tem coisas do meu trabalho que são um mistério pra mim também, que só consigo ter alguma ideia do que estava querendo dizer ou fazer olhando de modo retrospectivo. E Pinacoderal é um dos maiores exemplo disso dentro de tudo que fiz: o objetivo toda vez que sentava para criar uma HQ dessas era de fato caminhar por outro lugar, por uma cidade e uma realidade com regras próprias, que descobriria mais ou menos no mesmo ritmo que a pessoa que lê. Pinacoderal é um mistério pra mim também. 

“Uma verdadeira suruba em termos estéticos”

Quadro de uma das HQs de Diego Gerlach publicadas em Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem

Essa coletânea da Pinacoderal reúne trabalhos publicados em um intervalo de sete anos. O quanto as suas técnicas mudaram durante esse período? Há o predomínio de alguma técnica específica nos trabalhos impressos nesse livro?

As técnicas foram se adaptando, e o material do livro é uma verdadeira suruba em termos estéticos. Essas histórias têm todas o embrião de algo que mais adiante utilizei bastante. As primeiras HQs eram finalizadas com aguadas de nanquim (o tipo de finalização que usei também em Ano do Bumerangue), algo que aos poucos fui deixando de fazer, conforme aprendia a usar retículas para tonalizar. Tem também histórias desenhadas sem tinta, ou em lápis, ou de modo inteiramente digital. Mesmo as páginas coloridas foram experiências bem novas na época.  

Quando eu te entrevistei pela primeira vez, em 2015, você falou do impacto que teve na sua produção a conclusão de que o que mais te interessa no desenho “é a necessidade de desenvolver um vocabulário gráfico próprio”. Eu li o Pinacoderal e fiquei com a impressão que as HQs mais antigas são exatamente desse período em que você busca fugir daquilo que você chama nessa entrevista de “estilos, digamos, não canônicos”. É isso mesmo? Essas histórias mais antigas da Pinacoderal são uma espécie de prólogo para o que veio a ser o seu estilo atual?

De certa forma, é um prólogo, embora na época não parecesse. É um dos motivos do subtítulo (Rudimentos da Linguagem), o fato de que estava começando a aprender um vocabulário de quadrinhos possível. Com as primeiras histórias, independente de quão pouco aprimorado e incongruente o desenho fosse, sentia uma energia imensa por finalmente ter rompido uma barreira imaginária e estar fazendo quadrinhos. O estilo era necessariamente ‘não-canônico’ (a.k.a. ‘ruinzera’) pela minha falta de prática e pelo fato de estar tentando produzir HQs sem, naquele momento específico, pensar na história dos quadrinhos, ou em como eu mesmo presumia que quadrinhos deveriam ser feitos. 

“Pra mim é muito rara aquela sensação de ‘sei perfeitamente o que estou fazendo’, normalmente é o contrário disso”

Páginas de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea de Diego Gerlach publicada pelo selo Pé-de-Cabra

Nessa mesma entrevista você também fala da sua busca por uma “delimitação de possibilidades” para que você não fique eternamente preso à prancheta. Novamente comparando esses trabalhos mais antigos com a sua produção mais recente, eu fico com a impressão que você tem buscado um traço cada vez mais objetivo e narrativas cada vez mais lineares. Faz sentido essa interpretação?

Não sei… Quando olho pra trás, questiono coisas que falei o tempo todo e me mando um ‘Calaboca moleque’ mental com frequência. Essa afirmação em particular… Faz parecer que tenho total controle sobre as ferramentas que vou usar numa história, o que quase nunca é o caso. Já ocorreu de começar uma HQ digitalmente e sentir que não era o correto pra ocasião, e reiniciar tudo no papel. Pra mim é muito rara aquela sensação de ‘sei perfeitamente o que estou fazendo’, normalmente é o contrário disso. Pra criar uma história, minha estratégia é sempre ‘ir criando’, o que mostra que é sempre um método empírico, de construção, tentativa e erro, e o mesmo pode ser dito da técnica, e de como isso influencia o resultado. Acho que muito do meu estado emocional se reflete nas histórias, às vezes consigo ser conciso e direto, e às vezes me enredo em coisas mais… Abstratas e difíceis de entender. Em algumas histórias recentes senti que estava tomando um rumo mais barroco, menos claro, me fez sentir como se essas questões de foco e clareza fossem coisas que vêem e vão em ondas, acabam se alternando com outras tentativas narrativas. Mas no fim só os leitores podem dizer se minha impressão, enquanto criador, é a mesma que sentem ao ler o trabalho quando terminado.

“Creio que Pinacoderal é onde a influência da experiência urbana é mais sentida em todo meu trampo”

Quadro de uma das HQs de Diego Gerlach publicadas em Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem

Ler a Pinacoderal reforçou ainda mais pra mim o peso do ambiente urbano no seu trabalho. Quando conversamos pela primeira vez, lá em 2015, você comentou como esse cenário impulsiona uma maior quantidade de conflitos e amplia as possibilidades de “abordar o ser humano de modo mais tridimensional”. Você pode me falar mais sobre a sua relação com cidades? Você já morou em mais de uma capital, em grandes centros urbanos e outros menores. Qual o impacto dessas vivências no seu trabalho? 

Creio que Pinacoderal é onde essa influência da experiência urbana é mais sentida em todo meu trampo. O próprio fato do nome da cidade ser o título pelo qual me refiro à obra já destoa do resto das coisas que faço e frisa que não há um personagem central, mas um organismo composto de vários tipos, mais ou menos similares entre si – como numa cidade. Como menciono no posfácio, Pinacoderal começou enquanto ainda morava na Paraíba, e isso influenciava a história de modo direto. Da mesma forma, quando voltei a morar na minha cidade natal no Rio Grande do Sul, isso também impactou a narrativa – às vezes de modo mais simbólico, às vezes de modo mais direto. Como meu estilo de desenho passa longe do ultra realismo e é repleto de simplificações cartunísticas, os elementos diretamente pinçados de ambientes totalmente disparatados são, digamos, alinhados, assimilados em uma coisa única, que é o mapa do obscuro interior do meu crânio. 

Eu acho alguns dos seus trabalhos realmente engraçados – mesmo alguns que não sei se eram pra ser de humor. Ao mesmo tempo, vejo essa sujeira e podridão do ambiente urbano que você retrata e a hostilidade entre os seus personagens, e tudo me soa sombrio e pessimista. Você é pessimista? Como você vê o mundo hoje? Você tem esperanças de melhorias? Como as suas impressões e crenças em relação à realidade impactam os seus trabalhos?

Acho que já respondi isso uma vez: não me considero pessimista e ou otimista, e acho que isso tem a ver com o fato de nunca ter compreendido por completo o conceito de fé. Pra mim já é difícil definir com razoável grau de certeza se as coisas meramente ‘são’, que dirá afirmar se ‘são boas’ ou ‘são ruins’. Acho que minha visão às vezes parece sombria, também, porque tento não ver o ser humano como algo dissociado do reino animal, e isso não é algo que pontua o primeiro plano da discussão quando conversamos sobre sociedade. O reino animal, do ponto de vista humano, é violento. O ser humano é parte do reino animal; logo, o ser humano é violento. O que se espera é que almejemos a pureza e a ordem do divino, e não os impulsos venais das bestas, mas na prática… Mesmo com um suposto apreço pela cultura e pela ordem social, ainda somos movidos pelos mesmos instintos básicos que guiam a lontra ou o sabiá, e que precisam ser constantemente colocados em xeque pela regra da lei para que tenhamos alguma tipo de sociedade funcional. Um animal sofisticado, ok. A maneira como aprendi a me situar diante da vida me levou a prestar atenção nessas minúcias mais brutais da existência  como mecanismo de defesa, e a encontrar humor nisso pelo mesmo motivo. Acho.  

“O preço de certos álbuns de quadrinhos chegaram a um patamar proibitivo pra mim, e imagino que pra muita gente também”

Página de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea de Diego Gerlach publicada pelo selo Pé-de-Cabra

Aliás, falando em realidade. Em novembro do ano passado eu fiz uma entrevista com você e o João Pinheiro sobre o lançamento da Cavalo de Teta #2. O Bolsonaro tinha acabado de ser eleito e você dizia esperar que “as ameaças de censura que pairam no ar não se confirmem”. Menos de um ano depois quase rolou a censura de um gibi da Marvel na Bienal do Rio. E aí, piorou? Ainda piora mais antes de melhorar? 

Pra mim, estava dada a morta de que todas essas merdas iria acontecer. Quem, a partir das eleições de 2018, não mentiu para si mesmo e para aqueles ao seu redor? Por enquanto, parece que ainda estão testando as áreas cinzentas, uma exposição fechada pela câmara de vereadores aqui, um gibi recolhido pela prefeitura ali. Todas essas medidas foram eventualmente derrubadas em instâncias superiores, mas só as tentativas de censura já são o suficiente para deixar claro o rumo das coisas. Todo mundo que faz muito sentido nesse momento soa desesperado, mas por outro lado não é nenhuma opinião controversa dizer isso: é claro que vai piorar. Demos as chaves da casa para um bando de escrotos pseudo-religiosos, pseudo-conservadores, pseudo-liberais, pseudo-íntegros… é de admirar que tenhamos uma pseudo-democracia deliberada por uma cúpula militar?

O que mais te interessa na linguagem dos quadrinhos hoje? O que você mais gosta de ler em quadrinhos? O que você mais gosta de fazer com quadrinhos?

Eu leio de tudo, desde que ache o desenho interessante. E note que interessante não é (necessariamente) ‘bom’. Adoro estudar HQs, qualquer tipo de HQ. Mas como quase sempre tô quebrado, fico restrito ao que ganho de editoras ou troco com autores, mais um ou outro gibi de banca eventual (tipo Pato Donald). O preço de certos álbuns de quadrinhos chegaram a um patamar proibitivo pra mim, e imagino que pra muita gente também. Foi uma discussão constante enquanto definíamos as especificações do Pinacoderal: como manter o preço acessível e ainda assim fazer uma edição caprichada? O único quadrinho extenso (e caro) que li esse ano foi Marcha Para a Morte, que é uma obra-prima do Shigeru Mizuki. Às vezes acontece também de ficar um tempo ser ler muita HQ, focando mais em livros. Tô passando por uma fase forte de Philip K. Dick: li O Homem do Castelo Alto e agora tô na metade de Blade Runner. 

“Idealmente, Escória e Pé-de-Cabra se tornariam um tipo de referência, pois o mercado e as grandes editoras estão totalmente fora de sintonia com a produção nacional”

Página de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea de Diego Gerlach publicada pelo selo Pé-de-Cabra

Voltando à primeira pergunta: você comenta no posfácio da Pinacoderal como tentou vender o projeto da coletânea para outras editoras e agora finalmente rolou com a Pé-de-Cabra. Eu vejo cada vez mais a Pé-de-Cabra e a Escória Comix como os selos/editoras mais interessantes da cena autoral de quadrinhos. Acho os filtros do Lobo Ramirez e do Panhoca já os mais atentos e com potencial para serem os mais relevantes em um futuro próximo. Já tendo sido publicado pelos dois selos, como você avalia o trabalho deles? O que você vê de mais singular nos trabalhos feitos pela Pé-de-Cabra e pela Escória?

Acho que essas duas editoras representam um caminho pouco explorado no cenário nacional, e que é um dos que mais me empolga. Essa coisa de acharem autores novos com um trabalho forte e já bem formado, mas que ao mesmo tempo se encaixem na ‘vibe’ do selo, e de tentarem de fato criar um pequeno império com isso, com um cronograma de publicação tão constante quanto possível, com comunicação direta com o público leitor. É emocionante. Vai tão na contramão da maioria das editoras que estão tentando se estabelecer, e ao mesmo tempo é tão próximo dos meus gostos. Só o fato do Lobo ter lançado o Victor Bello para além dos zines provavelmente vai comutar vários anos da pena dele (digo, quando ele finalmente for condenado por todas as falcatruas que fez pra manter a Escória no mercado – e olha que não foram poucas). E o Panhoca tem tipo um tourette editorial: depois da primeira Pé-de-Cabra ele não consegue NÃO PUBLICAR, pode reparar. É uma compulsão, o cara é tipo masturbador compulsivo só que, tipo, sem as implicações sinistras e criminais. Ele me falou que a Pé-de-Cabra 3 já tá começando a ser pensada e tem outros planos na manga. Idealmente, Escória e Pé-de-Cabra se tornariam um tipo de referência, pois o mercado e as grandes editoras estão totalmente fora de sintonia com a produção nacional. Vamos ver.

A capa de Pinacoderal: Rudimentos da Linguagem, coletânea de Diego Gerlach publicada pelo selo Pé-de-Cabra
Entrevistas / HQ

Papo com Galvão Bertazzi, autor da série Vida Besta: “Minhas tiras são um catálogo dos demônios internos que perambulam ao meu lado e dentro de mim”

A coletânea de tiras da série Vida Besta chega às lojas especializadas em quadrinhos 20 anos após Galvão Bertazzi comprar o domínio www.vidabesta.com. Com exceção de alguns breves períodos de hiato, o site continua na ativa desde o final da década de 90, apresentando em tons de vermelho, amarelo e laranja um pouco dos demônios internos do autor.

A publicação lançada pelo selo Pé de Cabra tem 64 páginas, introdução do quadrinista, músico e pesquisador Marcio Paixão Jr. e reúne as tiras mais recentes de Bertazzi, produzidas entre 2018 e 2019, sendo parte delas inéditas.

“Deve ter sido o choque com essa realidade medonha em que nos metemos”, cogita o quadrinista em relação à inspiração que o levou a retomar o ritmo quase diário de produção da Vida Besta entre o final de 2018 e o início de 2019 e impulsionou a impressão da coletânea.

Apesar de apresentado pelo editor Panhoca como a reunião das tiras mais recentes de Bertazzi “focadas no ódio, na mediocridade humana e na desesperança crônica do amanhã”, o autor diz ver essa leva recente de tiras impressa no livro funcionando “numa esfera muito mais pessoal do que sócio-política”.

“Mas obviamente a coisa toma seus próprios rumos e eu não posso mais controlar a leitura que fazem do meu trabalho”, pondera Bertazzi. No papo a seguir o quadrinista fala sobre falta de esperança, hipocrisia, religião, técnicas e o uso de botas. Sim, botas. Conversa bem boa, saca só:

“O apocalipse está acontecendo bem diante dos meus olhos, mas eu fui surpreendido de chinelo. Estou estupefato e não tenho pra onde correr sem machucar os pés”

Uma das tiras de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra

Uma pergunta constante nas entrevistas do Vitralizado diz respeito à nossa realidade. Desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que é a nossa sociedade hoje. Levando tudo isso em conta, geralmente eu pergunto pros autores se eles são otimistas em relação ao nosso futuro, mas acho que a Vida Besta deixa explícito o seu pessimismo em relação ao Brasil e ao mundo. É isso mesmo? Você tem alguma esperança de mudança e/ou melhoria para a nossa realidade?

Vejo uma esperança, sim. Esperança que um meteoro caia mês que vem na Terra e destrua logo isso aqui, porque olha… Do jeito que a coisa anda, ter algum tipo de otimismo beira a loucura.

Pra começo de conversa, você precisa entender que eu sou um cara que até pouco tempo atrás ficava de botas dentro do apartamento, o dia inteiro. Eu ficava de botas porque acreditava que se algum tipo de catástrofe acontecesse, eu estaria preparado pra sair correndo ou caminhar por sobre os escombros em segurança. Pode parecer piada, mas isso é verdade! Foram anos de terapia pra dar uma aliviada nessa tensão constante de que algo muito ruim pudesse acontecer a qualquer momento. E vejam só, eu estava certo. O apocalipse está acontecendo bem diante dos meus olhos, mas eu fui surpreendido de chinelo. Estou estupefato e não tenho pra onde correr sem machucar os pés.

Resumindo. Não tem essa de “otimismo” não. Os canalhas venceram de vez! Fim.

P.S.: Mas não deixaremos eles em paz!

“Existe um quê de diversão masoquista no ato de se fazer as tiras

Uma das tiras de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra

O editor da coletânea, Panhoca, me falou que esse livro é “só o ódio do Galvão”. Você acha essa uma boa síntese do que é essa obra?

Cara, não acredite nas coisas que o Panhoca fala. Ele mente pra vender livros, sabe? É praxe entre os grandes editores de livros esse tipo de coisa. Não é “só ódio” que me move. Tem o medo, o rancor, o desprezo, um sentimento de vingança latente. Mas a grande verdade é que existe um quê de diversão masoquista no ato de se fazer as tiras. É um exercício desafiador ( ou estúpido ) abrir os braços pro caos, ao invés de somente denunciar, alertar e fazer alarde. Tenho plena consciência que eu também sou , de certa forma, responsável por toda essa merda instaurada. É angustiante, mas ao mesmo tempo me faz desenhar com um pouco mais de liberdade pra criticar qualquer lado e dar risada de mim mesmo também. A chave de tudo é isso: rir de nós mesmos.

Consigo abordar esses desastres que se passam na minha cabeça e ao meu redor de forma pseudo natural, eu acho. O mais curioso é isso: não acho o Vida Besta engraçado, sabe? Eu queria fazer as pessoas chorarem. Mas sabe como é, os fracassos a gente não escolhe….

“Me divirto desenhando uma realidade onde os pensamentos mais obscuros pipocam pela boca de cada personagem sem nenhum pudor”

Uma das tiras de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra

O Panhoca também me falou de três alvos principais desses quadrinhos da Vida Besta: religião, política e a mediocridade da classe média. Qual desses três temas te causa mais repulsa hoje? Qual desses três tópicos mais te incomoda e você sente mais necessidade de tratar?

Aqui eu preciso pontuar um aspecto importante do meu trabalho pra que ninguém nunca me acuse de hipocrisia quando eu ganhar meu primeiro prêmio Eisner, na categoria “Quadrinhos desnecessários para a humanidade”. O Vida Besta fala muito mais sobre mim, o Galvão Ser Humano Bípede e Cretino do que sobre as pessoas ao meu redor. Minhas tiras são um catálogo dos demônios internos que perambulam ao meu lado e dentro de mim.  

Eu tenho um apreço especial pelo tema religião. Só pra resumir: fui criado no berço de uma família católica que aos poucos foi, sorrateiramente, se debandando pra igreja evangélica. Os rituais da igreja católica eram demasiado apáticos naquela época, chatos e insuportáveis e o espetáculo circense e pirotécnico dos evangélicos levou todo mundo pra uma alegria demente e duma hora pra outra estavam todos falando na língua dos anjos e recebendo recados secretos do próprio Jesus.  Esse movimento foi muito esquisito e, graças a deus (ou ao capeta ), fui salvo pela maconha, o vinho barato e o rock vagabundo na hora certa, e aí consegui me abortar da família nesse aspecto.

Você precisa entender que brincar com Jesus, Deus e o Diabo é algo muito pessoal. Tem um peso muito forte pra mim, pois durante muito tempo foi desafiador fazer piada ou deboche com algo tão “sério”, sabe?  Hoje eu tenho a plena consciência que, tendo me libertado desses receios há muito tempo, eu acumulei muita munição pra usar nos dias atuais, quando parece que estamos caminhando de volta aos tempos sombrios da idade média inquisitória. Então ainda teremos muito capeta e piroca, sim senhor.

Por outro lado, deve dar pra contar nos dedos o número de tiras pontuais sobre política. O lance é que eu não gosto de desenhar sobre política. A verdade é que eu não entendo NADA de política. Nunca entendi e meus esforços pra ter alguma clareza só me deixam mais confuso. Eu sou o sujeito na mesa de bar que fala bobagens sem sentido e é repreendido, tanto pelos amiguinhos da esquerda quanto pelos amiguinhos da direita ( é, eu tenho amiguinhos de direita ).  Se você acompanha meu trabalho, vai perceber que quando o assunto é política a análise é rasa e quase sempre termina em algo como “vai tomar no cu, ( coloque aqui o nome do seu político preferido )”, ou com algum personagem tacando fogo ou explodindo tudo. A fórmula que eu achei pra falar sobre política é focar no inconsciente coletivo, no que as pessoas comuns pensam, fingem não pensar e sintetizo isso tudo num desabafo quase sempre fatalista. Parece funcionar.  

O meu foco sempre esteve nas relações humanas e suas nuances. Me divirto desenhando uma realidade onde os pensamentos mais obscuros pipocam pela boca de cada personagem sem nenhum pudor, e todos eles se resolvem de forma natural e patética, porque sabem que são todos iguais em seus medos, preconceitos, ganâncias e etc. Meus personagens são seres perdidos e sem rumo, como eu e você.  

A gente sabe que depois de 2013 a caixa de pandora foi aberta. Desde então eu nem me esforço muito pra tentar desvendar o que se passa na cabeça de mais ninguém. Já ficou tudo escancarado e meu único trabalho vem se tornando quase que obsoleto. Tudo que preciso fazer é repetir o que dizem e desenhar na tira ou no cartum. Nunca foi tão fácil! E é por isso que a classe média é um prato cheio pra me lambuzar. O fomento pra bizarrice é infinito.

De vez em quando acontece de conhecer pessoalmente alguém que já segue meu trabalho há um tempo e ouvir um “ah, você é assim, mas eu achei que era mais…”. Acho que pelo teor das tiras, muita gente tem uma imagem fictícia de mim. Algo como um revolucionário anarquista com coquetel molotov na mão ou coisa parecida. Mas não… Eu sou esse cara sem graça das tiras. Só isso. Puf!

“Tem dia em que eu desenho uma única tira e tem dia em que produzo umas 10 ou 15 de uma só vez”

Uma das tiras de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra

Te faz bem dar vazão ao pessimismo e à repulsa que você dá a entender que sente pelo mundo e pelo Brasil? É saudável pra você criar em torno desses temas?

Não é bem uma questão de fazer bem ou não. Eu simplesmente faço e é um pouco difícil discorrer sobre como funciona esse processo. Tem dias em que eu desenho uma única tira e tem outros em que produzo umas 10, 15 tiras de uma só vez. Isso me cansa, sim. A cabeça fica exaurida, a mão dói. Mas quando isso acontece é muito bom. Me sinto útil em minha inutilidade. Eu tenho esse compromisso com minha produção e isso me deixa em paz com o mundo em volta, porque no final do processo, parece que eu descobri algo novo! O que estou querendo dizer é que fazer as tiras ( desenhar de modo geral)  me ajuda a entender a mim mesmo e o mundo a minha volta. É um movimento constante de troca, que vai do micro pro macro e vice versa, tipo uma pulsação que funciona com mais intensidade quando estou desenhando (ficou bonito isso, hei? Vou usar na minha palestra de Coaching). E olha, eu desenho o tempo inteiro.

“Acho visualmente sedutor o vermelho do ladinho do alaranjado indo pro amarelinho e páááá, acontece a mágica”

Uma das tiras de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra

Eu gosto muito das paletas de cores com as quais você trabalha. No caso da Vida Besta há esse predomínio de laranja e amarelo que dialoga com os ares infernais que você aborda. Como você pensa as suas cores? Como você define as paletas de cada trabalho?

Tenho essa tendência pros tons quentes. Acho visualmente sedutor o vermelho do ladinho do alaranjado indo pro amarelinho e páááá, acontece a mágica.  Essas cores foram escolhidas conscientemente em algum momento da minha pesquisa e fui lapidando e refinando a paleta.

Na minha cabeça parece mesmo que tudo está em chamas e essas cores me passam essa sensação no desenho. Parece que está tudo inserido num inferninho frenético, sabe?  Eu usei esse conceito descaradamente na capa desse novo livro. Gostei do resultado.

Mas tenho que admitir que morro de inveja de quem sabe usar o azul. Eu tenho uma dificuldade tremenda de usar cores frias. A VERDADE É QUE EU NÃO SEI USAR A PORRA DO AZUL!

“O capeta senta no meu colo e vai dando as ideias erradas”

Uma das tiras de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra

Você pode me falar um pouco sobre as técnicas que utilizou nessas tiras da Vida Besta? Esses trabalhos foram feitos com tinta e papel ou é tudo digital? Você tem alguma preferência em relação às estruturas e materiais nos quais produz os seus trabalhos?

Faz uns anos que já aceitei que as tiras Vida Besta funcionam perfeitamente no formato digital. O Marcio Jr. captou muito bem no prefácio do livro essa minha urgência em desenhar e resolver a parada. Não tem muita firula, sabe? Eu desenho muito rápido no tablet e consigo manter um traço relativamente fiel ao traço no papel. Geralmente as tiras nascem no período da manhã, nas primeira horas de trabalho do dia. Acordo, passo um cafezão, ligo um som qualquer e sento na frente do computador e a coisa vai fluindo. É muito raro eu já ter uma ideia do que vou fazer antes de sentar. É praxe eu começar desenhando um bonequinho sem antes ter planejado o que ele vai dizer, com quem vai interagir e nem mesmo o cenário. E aí as ideias vão aparecendo.  O capeta senta no meu colo e vai dando as ideias erradas.

Um exercício que eu sempre faço é me imaginar entrando num ambiente novo, uma sala, num escritório, enfim…  E aí começo a ouvir as conversas aleatórias entre aqueles desconhecidos que estão ali. Do que estão falando, de quem estão reclamando e as ideias surgem. Eu digito tudo muito rápido, pra não perder a ideia. Acho que demoro mais tempo apagando e reescrevendo os balões do que no desenho em si. Eu sou meio afoito. Gosto de já terminar a tira e postar na web, e isso é um grande defeito. Se você reparar, as tiras da internet estão sempre cheias de erros de digitação, erros ortográficos horrorosos. Tudo isso por causa de uma dislexia bizarra e desse afobamento em terminar a parada e já mostrar pro mundo. Tive que pedir pro Panhoca, que é o editor do livro revisar UM MILHÃO DE VEZES cada tira antes de mandar o livro pra gráfica. E olha… até o último minuto ele ainda estava catando erro. 

É comum eu ficar MUITO tempo enfurnado na frente do computador e isso me deixa exausto também. Nos últimos anos consegui fugir um pouco do digital e voltar às raizes. Ando desenhando muito com caneta e aquarela, além de produzir uma penca de telas em formatos bem maiores que um papel. A tinta acrílica me responde à essa urgência de ter um trabalho pronto num curto espaço de tempo e me solta um pouco mais as mãos e as idéias. Tento fugir completamente dos “temas Vida Besta” quando pinto uma tela ou aquarela por exemplo. A coisa fica um tanto mais lúdica e é ótimo pra refrescar as idéias.

“Dei de presente pro mundo o meu bem mais precioso e o que eu ganhei em troca? Só desgosto”

Uma das tiras de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra

Você publica seus quadrinhos na internet há um bom tempo, talvez esteja na leva inicial de quadrinistas e cartunistas brasileiros que investiu na internet para publicar seus trabalhos. Você consegue fazer um balanço de como era a internet no início dos anos 2000 para difusão de quadrinhos e tiras e como é hoje? Melhorou ou piorou? As redes sociais ajudaram ou atrapalharam?

Eu faço tiras de forma constante desde 1996. A internet tava tomando forma e eu achei nela uma forma de mostrar minha produção. Eu fritava nessa ideia, sabe? Ninguém me conhecia, eu não conhecia ninguém. E teve essa troca mágica e avassaladora. A internet era um mundo desconhecido e acho até que era mais legal antes, mesmo com suas limitações. Difícil não parecer nostálgico. Mas o que eu pensava era: “Estou aqui em Goiânia, ninguém me conhece, muito menos meu trabalho. Então vou comprar um domínio e divulgar meu trabalho”. E foi basicamente isso.

Fiquei pensando com meus botões, enquanto respondia essa entrevista e me liguei que eu despejei quase toda minha produção de tiras, desenhos e cartuns na internet esse tempo todo. Bicho, se a gente começar a contar desde 1999, que foi quando comprei o domínio www.vidabesta.com, vai fazer 20 anos, cara!  Eu não tinha feito essa conta ainda. Dei de presente pro mundo o meu bem mais precioso e o que eu ganhei em troca? Só desgosto.

Sabe que lá pelos idos de 2016, mais ou menos, eu havia decidido nunca mais desenhar tiras. Sei lá. Me deu uma daquelas broxadas homéricas e quase abri mão do domínio www.vidabesta.com. Mas aí, 2019 chegou e com ele veio essa vontade  enorme de fazer o Vida Besta de novo. Deve ter sido o choque com essa realidade medonha em que nos metemos. Pois bem, aqui estou.

“Faz um tempo que ando pesquisando um monte de coisas sobre ocultismo”

Uma das tiras de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra

Você também tem um histórico de trabalhos editoriais para veículos impressos tradicionais, principalmente a Folha de São Paulo. Há uma crise crescente no mercado editorial. Essa crise impacta a sua vida profissional? 

Impacta sim. E eu não entendo muito bem, também. Sei que a maioria dos jornais impressos não publicam tiras em suas páginas, por exemplo. Eu tive a sorte de publicar tiras diárias por mais de uma década em dois veículos de circulação grande, em diferentes regiões do país. Era sempre legal. Eu ainda sonho em publicar tiras diárias num grande jornal, em especial na Folha. Quem sabe um dia.

Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Olha… eu posso recomendar o que não ler: as notícias de jornais ou redes sociais, por exemplo! Hahahha

Na verdade, ando lendo coisas bem fora do mundo dos quadrinhos ou qualquer coisa que remeta ao “mundo real”. Faz um tempo que ando pesquisando um monte de coisas sobre ocultismo, por exemplo. Lendo textos antigos, procurando coisas sobre alquimia e rituais de magia. Acho que tem a ver com uma busca interna por algum tipo de resposta, que o mundo real e as cosias racionais não conseguem me dar mais pistas. Cara… Eu ando de saco cheio do mundo real e acho que já teve gente que endoidou bem mais pesado sobre esses temas “místicos”. 

Na verdade, eu não sou uma pessoa de gosto refinado pra literatura, cinema e música, sabe? E aí eu coloco a culpa nos filhos pequenos pelo cansaço e confesso que a noite, eu e minha companheira sentamos no sofá e dormimos vendo qualquer bobagem em algum serviço de streaming qualquer.

Música pra mim é basicamente Rock Alternativo e Barulhento. Minha playlist orbita em volta de Sepultura com o Max ( SEMPRE COM O MAX ) e Pixies, indo de vez em quando pra Cartola, pegando a curva pra The Clash e the Who e aceitando de bom coração as Descobertas da Semana do Spotify.

A capa de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra
Entrevistas / HQ

Papo com Pedro D’Apremont, autor de Notas do Underground: “A graça da série era justamente me soltar e fazer as coisas sem muito filtro”

Há dois eventos marcados para o lançamento do álbum Notas do Underground, do quadrinista Pedro D’Apremont: o primeiro no próximo sábado, dia 15 de junho, na Loja Monstra, em São Paulo, e o segundo no sábado seguinte, dia 22 de junho, na Itiban Comic Shop, em Curitiba. Na capital paulista, D’Apremont estará na companhia do editor da obra e do selo Pé-de-Cabra, Carlos Panhoca, da artista Arame Surtado e do editor Lobo Ramirez – que estarão lançando a revista Ketacop pelo selo Escória Comix. Já no evento no Paraná, também estará sendo lançada a nona edição da revista Weird Comix, do quadrinista Fábio Vermelho.

As 44 páginas coloridas de Notas do Underground reúnem pela primeira vez em português as sete histórias em quadrinhos publicadas por D’Apremont no site americano da revista Vice protagonizadas por músicos, fãs de música e figuras pouco usuais do punk e do metal.

“Desde a adolescência que sou apaixonado por metal e punk, toquei em bandas, contribuí pra blogs de resenha de discos, fui em centenas de shows, etc”, conta o quadrinista em conversa com o blog. “Me amarro em explorar microgêneros estranhos, discos raros e subculturas associadas a todo tipo de música e lugar, então esse tema de música underground sempre me foi muito querido”, explica o autor em relação ao tema da coletânea publicada pelo selo Pé-de-Cabra.

Reproduzo a seguir a íntegra da entrevista com D’Apremont, na qual ele fala mais sobre o desenvolvimento das histórias que estão impressas em Notas do Underground, expõe algumas de suas técnicas e influências e comenta a sua paixão pelos trabalhos do quadrinista Peter Bagge. Papo bem massa, saca só:

“Resolvi que ia voltar a fazer histórias curtas sobre coisas que eu gosto, não importa o quão de nicho elas são”

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

Eu queria saber como o Notas do Undergound teve início. A revista é uma coletânea das histórias que você publicou na Vice, certo? Mas como começou esse projeto com a Vice? Eles te passaram um tema ou você que sugeriu? Quanto tempo durou a parceria com eles? Que tipo de retorno você teve dos editores e dos leitores?

Eu e o Gabriel Góes já fazíamos a série Vania pra Vice desde 2016 (que também foi compilada e saiu como um gibi pela Ugra Press em 2017, Anexia é um Paraíso). Eu sempre gostei de fazer HQs pro portal deles porque o editor da seção de quadrinhos, o Nick Gazin, tinha uma preferência por histórias curtas e experimentais, o que criava uma espécie de laboratório onde nós podíamos testar diferentes formatos, estilos, narrativas e ver o que funcionava bem ou não. O problema é que como o Vania era um projeto a quatro mãos, as historias demoravam a sair e dependiam muito da disponibilidade não só minha como a do Góes também. Entre uma HQ do Vania e outra, a ideia de começar uma série paralela só minha, com historias mais soltas e sem necessariamente personagens recorrentes, foi fermentando na minha cabeça.

Acho que fazer quadrinhos sobre música foi uma sugestão da Cynthia Bonacossa na época em que a gente dividia um estúdio.  Por volta de 2016 e começo de 2017 eu andava super frustrado com meu trabalho. Me dediquei a vários projetos que já não me davam prazer em produzir e ao que tudo indicava, não iam muito a lugar nenhum. O mercado pra ilustração estava (e continua) péssimo e os poucos trampos freelancer que eu pegava eram bem merda. Desenhar, de repente, não era mais divertido e não me dava nenhum tesão. Pra tentar reverter essa situação resolvi que ia voltar a fazer histórias curtas sobre coisas que eu gosto, não importa o quão de nicho elas são. Desde a adolescência que sou apaixonado por metal e punk, toquei em bandas, contribuí pra blogs de resenha de discos, fui em centenas de shows, etc. Mas também sempre ouvi mil coisas diferentes e me amarro em explorar microgêneros estranhos, discos raros e subculturas associadas a todo tipo de música e lugar, então esse tema de música underground sempre me foi muito querido.

A impressão que eu tenho é que o editor começou a gostar mais dos meus quadrinhos com o tempo haha. No começo ele criticava muito meus roteiros, mas à medida que o tempo foi passando meus enredos foram ficando mais sólidos, mais parecidos com uma história com início, meio e fim e não só uma piada, e senti que ele as aprovava com mais entusiasmo. Eu não faço a menor ideia se os leitores gostaram desde que a Vice acabou com a sessão de comentários. Mas mais gente começou a me seguir e acompanhar meu trabalho desde que eu comecei essas hqs, o que é um bom sinal.

A série se encerrou no começo desse ano, quando a sessão de quarinhos do portal da Vice foi abandonada. Uma pena, tinha muita gente boa publicando lá. RIP.

O cartaz dos eventos de lançamento de Notas de Underground, nova HQ de Pedro D’Apremont, na Loja Monstra, em São Paulo, e na Itiban Comic Shop, em Curitiba

Você tinha um ponto de partida em comum para cada uma das HQs? Digo, algumas me soam como ficção, outras parecem ter elementos autobiográficos e outras são autobiográficas ao pé da letra. Você mantém algum caderno de ideias para essas histórias? Você conversava com amigos sobre histórias ambientadas no universo que é retratado na série?

Na verdade o único ponto de partida era que as historias tinham que se relacionar de algum jeito com o tema central da série. Fora isso era meio vale-tudo mesmo, o que foi bom, pois me fez experimentar com vários tipos de narrativa. Às vezes me dava na telha contar de um bar horrível que eu frequentava e fechou por causa de uma briga de faca, às vezes eu imaginava uma HQ em que uma banda de Black Metal se perdia na floresta enquanto gravava um clipe… A princípio eu usava tudo que dava espaço pra contar uma historia com começo, meio e fim em poucas páginas. A graça da série nesse primeiro momento era justamente me soltar e fazer as coisas sem muito filtro.

Depois de um certo tempo percebi que as HQs estritamente autobiográficas eram as que eu menos gostava de produzir. Sempre fica um pouco aquela dúvida no final de “será que eu só acho essa historia interessante por que ela aconteceu comigo?” ou: “será que essa é uma historia engraçada de se ouvir num bar mas não funciona como quadrinho?”. As minhas histórias fictícias quase sempre têm uma situação que aconteceu comigo ou com amigos e conhecidos misturada no meio, então acabei aposentando as auto-biográficas stricto sensu mais pra frente. Até porque parece que todo mundo produz quadrinhos autobiográficos hoje em dia. Eu mesmo já estou bem enjoado do gênero.

Em geral quando tenho uma ideia pra um roteiro novo eu a anoto num caderno. As primeiras anotações são sempre ideias super soltas, mas a partir delas eu vou dando carne à historia até ela parecer bem firme. Eu costumava evitar falar sobre minhas ideias antes de ter terminado meus quadrinhos, muito por medo de zicar mesmo, mas alguns dos roteiros dessa série eu discuti com o Nick Gazin antes. Primeiro porque se ele não gostasse do meu quadrinho ele não era publicado e eu não era pago haha. Mas depois vi que as críticas que ele fazia aos meus roteiros estavam me ajudando a fazer quadrinhos cada vez melhores e passei a curtir muito essa fase do processo.

“Tenho gostado cada vez mais de escrever tudo antes de fazer o planejamento visual, mas ainda sou muito inquieto, fico querendo desenhar logo”

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

Você pode contar um pouco sobre os seus métodos de produção dessas HQs? Você chegava a finalizar um roteiro antes de começar a desenhar? A coisa saia toda ao mesmo tempo? Você seguia algum padrão específico na produção desses quadrinhos?

As primeiras historias eu fiz sem um roteiro escrito, só storyboard. Eu sempre faço storyboards porque eles me ajudam a planejar tudo bem mais rápido e ter uma ideia do tamanho da HQ no final, mas eu tenho pouquíssima paciência pra sentar em frente ao computador e ficar escrevendo no Word. Um pouco mais pra frente eu passei a escrever roteiros “de verdade” porque as HQs foram ficando mais compridas e verborrágicas, e organizá-las direto no storyboard ficou muito difícil. Tenho gostado cada vez mais de escrever tudo antes de fazer o planejamento visual, mas ainda sou muito inquieto, fico querendo desenhar logo.

Eu também queria saber sobre os materiais que você usa. Você usa tinta e papel ou trabalha com o digital? 

Tirando as cores (que são feitas no Photoshop) faço tudo do jeito mais tradicional possível. Uso pincel, bico de pena, nanquim e canetinhas.

Na hora de finalizar meus desenhos eu sigo o mesmo método do Peter Bagge: pincel nos personagens e objetos moles ou fofos e bico de pena/caneta nos objetos mais retos ou sólidos. É meio estranho mas funciona bem.

Ultimamente eu tenho substituido as canetinhas por bico de pena, porque elas ficaram muito vagabundas e caras. A tinta dessas UniPin apaga muito quando você usa a borracha, e isso é um inferno quando você vai escanear a página.

“Aposto que se algum outro cartunista visse meu processo do começo ao fim ia ficar chocado com o quão tosco ele é”

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

Você pode falar sobre a paleta de cores? Acredito que exista uma paleta predominante nas histórias, certo?

Sim, todas as historias seguem mais ou menos a mesma paleta. Como o tema que conecta todas as historias é muito solto, achei que eu precisava compensar isso fazendo elas com visual bem coerente entre si.

Eu sou um péssimo colorista e não me lembro exatamente como cheguei nessa paleta. Mas tenho quase certeza que comecei copiando as cores de algum quadrinho ou ilustração que eu gosto e fui ajustando os tons e valores de cada cor individual até chegar em algo que me agradava e diferia o suficiente do material original no qual eu me inspirei. Eu não tenho uma educação formal em artes plásticas ou design, então muitas vezes faço as coisas na base da tentativa e erro. Aposto que se algum outro cartunista visse meu processo do começo ao fim ia ficar chocado com o quão tosco ele é. Também apago tudo mil vezes e encho a página de corretivo.

Aos poucos fui fazendo pequenas mudanças na paleta, mas ela permaneceu praticamente a mesma desde o começo da série. Fui acrescentando sombra e focos de luz nas últimas histórias e diferentes tonalidades de acordo com a hora do dia, mas sempre fico cabreiro de tentar complicar demais as coisas e estragar tudo. Em geral trabalho melhor com paletas bem reduzidas.

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

A capa dessa edição é sensacional. Como você chegou nela? Foi difícil definir essa capa?

Pô, valeu! Haha

Eu fiz várias capas antes de chegar nessa. Uma delas acabei usando de 4ª capa. O desenho ficou legal e tudo mais, mas achei que tinha alguma coisa faltando. Mandei pro Nick Gazin e pedi a opinião dele. Ele disse que o que faltava algum elemento mais humano. Não tem nenhuma pessoa no desenho, só uns amplificadores quebrados, com várias garrafas, latas de cerveja e bitucas de cigarro em cima.  Ninguém ia se identificar com essa imagem.

Na versão final eu quis dar uma ideia de movimento, de quebradeira, bem forte. Uma das primeiras coisas que me vieram à cabeça foi um mosh gigante e alguém pulando do palco. Aí foi questão de olhar um monte de referências (umas fotos do Fugazi tocando ao vivo, principalmente) e tentar descobrir o jeito mais dinâmico de desenhar a capa. Depois disso foi tranquilo.

O título originalmente ia ser no estilo de um logo de banda metal extremo, completamente ilegível, mas me convenceram de que era uma péssima ideia.

“Talvez a minha coisa favorita das HQs nacionais são aquelas histórias longas dos Pirata do Tietê, tanto pelo desenho insano quanto pelos enredos”

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

Eu vejo no seu traço e nas histórias que você conta uma relação com autores americanos que se propõe a narrar eventos banais e corriqueiros – e torná-los de alguma forma interessantes e/ou engraçados. Tô pensando nuns quadrinistas-cronistas como o Daniel Clowes e o Charles Burns, por exemplo. Essa galera é influência pra você? 

Sim, sou fã dos dois! Vivo relendo os livros do Clowes que eu tenho aqui em casa e nunca me canso deles. Sou muito influenciado pelas coisas da Laerte e do Angeli da época da Circo e Chiclete com Banana também, que tinham essa coisa de misturar o dia a dia na cidade de São Paulo com situações bem absurdas e escrotas. Talvez a minha coisa favorita das HQs nacionais são aquelas histórias longas dos Pirata do Tietê, tanto pelo desenho insano quanto pelos enredos.

Mas meu favorito de todos os americanos em relação a roteiro é o Peter Bagge. Quase todo ano eu releio Hate de cabo a rabo, e cada vez mais me impressiona como cada personagem ali dentro parece real. Quanto mais tempo passa mais me identifico com o Buddy Bradley e é meio assustador o quanto que eu passei por situações parecidas com a de alguns personagens depois de ter lido Hate.

É dose, sou muito paga-pau da “geração Fantagraphics” mesmo.

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

E eu fiquei pensando também na relação do livro com os primeiros quadrinhos do Joe Sacco. Acho que você não se propõe a fazer jornalismo, mas tá ali registrando e narrando o que viu – e também tem o termo “notas” no título, presente constantemente nos quadrinhos do Joe Sacco. Ele também foi/é uma influência pra você?

Na verdade não. Eu li O Derrotista quando estava na faculdade e gostei bastante, mas os quadrinhos dele nunca mexeram muito comigo.
O título do meu gibi é uma brincadeira com o Notas do Subterrâneo do Dostoiévski. Nas traduções em português às vezes ele aparece como “Diário do Subterrâneo” também, mas preferi usar a palavra ‘notas’ porque tem uma conotação mais informal que se relaciona bem com as historias curtas. Além do mais, ‘diário’ ia fazer parecer que o gibi inteiro é composto por historias autobiográficas.

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

No que você está trabalhando atualmente? Você tem algum livro novo nos seus planos?

Estou terminando uma HQ do Harry e do André, aqueles dois personagens adolescentes que aparecem algumas vezes no Notas. Não sei ainda o que vou fazer com ela, nem aonde essa história vai ser publicada, já que eu não estou mais na Vice e fechei meu Tumblr. Veremos qual espaço virtual passarei a habitar!

Espero nos próximos meses terminar um projeto grande que eu negligenciei completamente no último ano, mas não vou falar muito aqui pra não zicar. E também quando você fala que vai fazer uma coisa as pessoas vão cobrar depois, é mó chato.

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

A última! Você pode recomendar algo que esteja lendo /assistindo/ ouvindo no momento?

Esses dias quase que só tenho assistido/lido mangás e animes dos anos 80. Finalmente peguei Berserk pra ler uns meses atrás e já virou uma das minhas HQs favoritas.  O negócio é desgraceira atrás de desgraceira e tem um ritmo absurdo. Cada volume é um disco de Death Metal em forma de gibi, dá vontade de fumar um cigarro depois de terminar de ler. Fora isso tenho acompanhado JoJo’s Bizarre Adventure religiosamente, mas tudo que o mundo menos precisa agora é de mais alguém falando de JoJo.

De música não tenho descoberto nada muito novo… Tem um DJ de House que eu tenho ouvido sem parar quando estou desenhando, chamado Bill Jobs. Se alguém quiser uma recomendação de um som bem obscuro, ouça Circle Of Ouroborus. Principalmente um split deles com o Drowning The Light que chama Moonflares. Essa banda é criminalmente desconhecida, e eu acho ela muito única. Escute sem saber o que esperar.

Pode uma recomendação de videogame também? Joguem Nidhogg.

A capa de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont
HQ

Está no ar a convocatória para a segunda edição da Revista Pé-de-Cabra

A Pé-de-Cabra foi uma das belas novidades dos quadrinhos brasileiros de 2018. O segundo número da publicação tá previsto pro primeiro semestre de 2019 e o editor do projeto, Carlos Panhoca, divulgou hoje a convocatória para artistas interessados em participar da revista. O tema dessa segunda edição será ‘doença’ e as regras para o envio de trabalhos estão disponíveis lá na página da Pé-de-Cabra no Facebook. Reproduzo a seguir a lista com as exigências para participar da revista e deixo aqui o link da minha entrevista com Panhoca, feita na época do lançamento da primeira edição. Saca só:

(a arte da chamada da convocatória é assinada pelo Bernardo França)

“Para mandar trabalhos para essa edição você precisa cumprir isso aqui ó:
01. Os trabalhos podem ser histórias em quadrinhos, colagens, ilustrações ou fotografia, de 1/2 a 6 páginas, no formato 16 x 24,5 cm;
02. Os trabalhos devem ser em preto e branco porque gastamos muita grana com remédio e não temos dinheiro pra fazer uma revista colorida;
03. Os trabalhos devem ser inéditos;
04. Não mande pra gente o mesmo trabalho que vocês estão mandando pra outras revistas porque isso fode com os dois;
05. Conteúdos racistas, xenofóbicos, homofóbicos serão excluídos e o autor devidamente esculachado publicamente. Pense seis vezes antes de mandar merda;
06. Serão avaliados os trabalhos enviados até o dia 20 de fevereiro de 2019;
07. Envie os trabalhos para revistapedecabra@gmail.com escaneados em 300 dpi e tratados. Imagens com baixa resolução ou sem tratamento serão dispensadas.
08. Os trabalhos enviados deverão dialogar com o tema Doença. Pode pirar à vontade em cima do tema;
09. Cada participante selecionado leva 5 revistas para casa (infelizmente a gente é fodido e é o jeito que conseguimos pagar).
10. Não será analisado o portfólio ou os nomes de quem enviou artes, apenas a artes que foi enviada”

Entrevistas / HQ

Papo com Panhoca, o editor da revista Pé-de-Cabra: “Selecionei os trabalhos que se manifestam diretamente contra qualquer forma de poder”

No próximo sábado, dia 17 de março, a partir das 16h, rola o lançamento do primeiro número da revista Pé- de-Cabra em São Paulo, na loja da Ugra Press. Eu vou mediar o bate-papo, seguido de sessão de autógrafos, com o editor Panhoca e seis dos 53 artistas com trabalhos impressos na publicação (Kellen Carvalho, Fabiane Langona, Carambola da Silva, Rafa Campos Rocha, Rebeca Catarina e Diego Esteves). Já li esse primeiro número da Pé-de-Cabra e achei demais a curadoria e toda a linha editorial da revista. Em tempos nefastos de conservadorismo aflorado, é um lançamento necessário, questionando morais, establishments e poderes da sociedade brasileira.

Você confere outras informações sobre a festa de lançamento no sábado aqui na página do evento no Facebook. Enquanto isso, recomendo uma lida no papo que bati por email com o editor Panhoca sobre as origens do projeto, a seleção dos artistas participantes a partir de uma convocatória no Facebook, o desenvolvimento da revista e o futuro da publicação. Dá uma lida:

Eu queria saber do estalo, do momento em que você teve a ideia de fazer a revista. Você lembra? Houve alguma motivação maior que te fez levar esse projeto pra frente? 

Cara, eu acho que rolou mais de um momento. Eu lia muito gibi gringo na faculdade e meu contato com o gibi nacional era muito com coisa dos anos 80: Animal, Udigrudi, Lucife, Circo, essas coisas. Aí teve a Gibicon em Curitiba (agora virou Bienal) e a Mitie, da Itiban, hospedou o Gerlach lá em casa. Nesse momento eu tive um contato com muito artista que o cara me mostrou. Talvez seja aí. Teve o lançamento da última Prego que foi bem importante também. O Alex, editor da Prego, disse que ia pra Portugal. Aí eu comecei a pensar nas revistas que eu curto no formato coletivo mesmo. A Samba tá parada. A Gibi Gibi eu acho que acabou. A Prego deve entrar em hiato. Aí acho que aproveitei um vácuo pra fazer. Ou talvez tenha sido numa vez que eu fui falar bêbado com o Chico Felix no show da banda dele. ‘Ei, Chico, tô fazendo uma revista e tá cheia de artista foda. Você não faz a foto de capa do facebook?’. Eu nem tinha falado com ninguém. A mentira é a base da verdade hahaha

Me fala, por favor, um pouco do passo a passo entre esse instante em que você teve a ideia e até o lançamento? Por que a opção pela convocatória? Como vocês chegaram nesse projeto gráfico? Como rolou o contato com o Pochep? 

Cara, eu me fodi muito como marinheiro de primeira viagem. Eu consultei uma galera que eu converso mais no meio. Rafa Campos, Gerlach, Pablo Carranza, Pedro D’Apremont. Todo mundo falou que mandaria coisa por eu ser amigo, mas que dava pra tentar visgar uma galera mais nova. Eu queria fazer uma convocatória porque eu sabia que eu conseguiria chamar a galera de Curitiba que eu gosto muito do trabalho, mas não conheço direito. Apostei que isso ia chamar muita gente nova. O projeto gráfico saiu através de um estudo das outras revistas que curto. Se não fosse o Júnior (que fez o projeto gráfico) eu ainda estaria batendo a cabeça na parede. A minha primeira ideia era extremamente parecida com a Prego. No final ela foi ficando bem mais elegante que o previsto. Com o Pochep eu tinha conversado a primeira na exposição dele na Bienal de Quadrinhos. Eu não falo francês. Ele não fala português. Quando eu fico bêbado eu tento arranhar um alemão. Foi assim o primeiro diálogo hahaha. Depois disso foram horas e horas de Google tradutor. Eu não fazia ideia do que eu tava mandando de mensagem e ele respondia com um português extremamente coloquial de Google Translator.

Você já tinha trabalhado com edição/curadoria antes? Como foi esse trabalho de seleção de quais trabalhos entrariam e quais ficariam de fora desse primeiro número? Aliás, quantos quadrinhos você recebeu?

Foi minha primeira experiência como editor. Foi bem mais complicado do que eu esperava. Chegaram mais de 200 trabalhos. Só das 19h do último dia até as 23h59 foram mais de 70. Muita coisa boa ficou de fora. Tem uns amigos que tão bravos comigo porque cortei o trabalho deles. Mas tem de saber separar as coisas. Tinha coisa que era extremamente séria e de qualidade fodona, mas que tive de cortar por contrastar demais com o tom da revista. Acabei usando os trabalhos que se manifestam diretamente contra qualquer forma de poder. Não acho que a revista é panfletária, mas ela tem uma carga de revolta contra as autoridades. Eu fui detido duas vezes por desacato. Acho que é algo com o que eu me identifico.

E aí, a revista finalizada, o quanto ela é diferente, hoje, do projeto que você pensou inicialmente?

Totalmente. Eu ia fazer 44 páginas. Achei que ia ser mais agressiva. Quando eu pensei no Pochep eu tinha em mente uma capa mais gay. Uns marinheiros se beijando, sei lá. Não quis sugerir nada porque gosto de deixar a galera com liberdade pra criar. Quando chegou a capa muita gente me disse ‘Eu gostei, achei que ia ser mais punk, sujo’. Muita gente disse o contrário pelo mesmo motivo. No final acho que a galera que me conhece do rolê tava esperando algo que você olhasse e dissesse ‘porra, isso não é da Escória Comix?’. No final eu gostei muito mais desse resultado mais elegante. Lombada quadrada. 100 páginas. Acho ela lindona.

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“O suplemento MAU é uma das melhores coisas que eu já li. Boto junto com, sei lá, Dostoiévski em termos de importância na minha formação”

– X –

Durante todo esse processo de produção da revista, desde o momento que você apresentou essa ideia ao público até hoje, com ela pronta, o que mais te surpreendeu? Há algum trabalho específico que te marcou de alguma forma nessa jornada?

Porra, o que mais me surpreendeu foi a quantidade de trabalhos. E trabalhos de muita gente que eu sou fã. O Batista é um cara que eu não conheço e gosto muito do trabalho dele. Caio Gomez, Victor Belo, Rebeca, Kellen… vai longe a lista das pessoas que nunca vi pessoalmente mas gosto muito do trampo. Eu fiquei bem feliz também de publicar o trabalho da Grace Wilson, da Escócia. Não me lembro de ter visto nada dela por aqui antes.

Na convocatória pra revista você insiste na ideia do incômodo, que a união dos incomodados pode resultar no incômodo ainda maior. Eu vejo esse foco no incômodo na maior parte dos trabalhos da revista. Você, como editor, vê um padrão maior percorrendo os trabalhos impressos na revista?

Eu acho que rola uma insatisfação geral com tudo. De certa forma, todo trabalho ali é uma oposição a algum tipo de poder. Ou vai pra um rolê mais niilista. Mas acho que todo mundo se opõe a alguma coisa.

Você escreve no editorial como o país tá fudido e como estamos vivendo num contexto de moralismo crescente. O Brasil tem um histórico de publicações voltadas para o humor gráfico que marcaram época em períodos parecidos da nossa história recente. Qual potencial você vê para a Pé-de-Cabra nesse nosso contexto atual?

Putz, não sei. Eu não acho que ninguém vá matar um presidente ou governador, mas eu acho a revista muito boa. Os tempos de tiragens enormes acho que não voltam mais. Não sei se ela vai marcar uma geração, mas acho que pode marcar certos indivíduos. Quando eu li minha primeira Animal eu tinha uns oito anos. Aquilo moldou muito minha relação com os quadrinhos e me voltou pra um lance mais punk na minha postura de vida. Eu trabalho como bibliotecário há seis anos e o suplemento MAU é, pra mim, uma das melhores coisas que eu já li. Boto junto com, sei lá, Dostoiévski em termos de importância na minha formação.

O primeiro número da revista acabou de sair, mas eu queria saber sobre os seus planos para os próximos. Você já está trabalhando numa próxima edição?

Já. Eu sou um megalomaníaco. Pra ter ideia, no período de convocatória eu mandei email até pro Jamie Hewllet mandar coisa hahaha Foi assim que o Russell Taysom mandou a página dele. Sou fã da Flabby Dagger e aí o cara me mandou a página. Foi foda. A segunda vai depender de eu vender a primeira bem. Assim que ela se pagar eu faço a segunda. Minha ideia era fazer ela anual, lançar outra convocatória em novembro. Dessa vez eu penso em fazer ela temática, pra eu ter menos dor de cabeça pra selecionar os trabalhos. Não sei, vamos ver o que vem por aí.

HQ

Sábado (10/3) é dia de lançamento da revista Pé-de-Cabra em Curitiba

Tô bastante curioso pra ler o primeiro número da Pé-de-Cabra. Como já comentei por aqui, a revista editada pelo Carlos Panhoca reúne alguns dos principais nomes dos quadrinhos de humor do país – e também conta com a participação de estrangeiros, como o francês Pochep, autor da arte da capa da publicação. Enfim, tudo isso pra dizer que o primeiro evento de lançamento da Pé-de-Cabra rola sábado (10/3), na Itiban Comic Shop de Curitiba, a partir das 16h. O lançamento será precedido por um bate-papo mediado pela jornalista Fernanda Maldonado com a presença de Carlos Panhoca e três dos artistas com trabalhos publicados na revista: Diego Gerlach, Pietro Luigi e Chico Félix.

Lembrando: a Pé-de-Cabra tem 100 páginas e preço de R$ 24. A Itiban Comic Shop fica no número 845 da Avenida Silva Jardim de Curitiba. Outras informações sobre o lançamento você confere na página do evento no Facebook.