Vitralizado

Posts por data novembro 2019

Entrevistas / HQ

Papo com Jão, editor da coletânea PARAFUSO 1: “Minha ideia foi fazer uma investigação sobre os recursos da linguagem das narrativas gráficas com o auxílio de restrições criativas”

Caso você esteja em Belo Horizonte no próximo sábado (30/11), recomendo um pulo na Livraria da Rua (R. Antônio de Albuquerque, 913, Funcionários), a partir das 13h, para o lançamento da coletânea PARAFUSO 1. Editada e idealizada pelo quadrinista Jão, o álbum de narrativas gráficas experimentais conta com trabalhos de 12 artistas de Belo Horizonte além do autor responsável pelo projeto: Aline Lemos, Batista, Bruno Pirata, Daniel Pizani, Estevam, Faw Carvalho, Gabriel Nascimento, Ing Lee, João Belo, Julhelena e Priscapaes.

Parceria das editoras Pulo e Miguilim, PARAFUSO 1 tem 48 páginas e é fruto de um período de três dias de trabalhos dos 12 artistas envolvidos no projeto no Laboratório de Quadrinhos Potenciais coordenado por Jão em janeiro de 2018. O Laboratório inclusive já rendeu dois posts de bastidores aqui no blog: um no qual Jão escreveu sobre a origem do projeto e outro sobre os temas e das restrições impostas aos artistas participantes. Também compartilhei por aqui uma prévia de sete páginas da PARAFUSO 1.

Às vésperas do lançamento de PARAFUSO 1 eu bati um papo com Jão sobre a criação, o desenvolvimento e a publicação da coletânea. Ele falou sobre a dinâmica dos trabalhos do Laboratório de Quadrinhos Potenciais, suas inspirações no OuBaPo, a opção pela cidade como tema central da obra e uma explicação didática sobre seu “universo PARAFUSO”. Como sempre, conversa bem massa. Saca só:

(na imagem que abre o post, quadros do trabalho de Ing Lee para a coletânea PARAFUSO 1)

“Minha ideia foi priorizar as trocas a partir do convívio de produção em conjunto”

Quadros do trabalho de Bruno Pirata para a coletânea PARAFUSO 1

Os quadrinhos presentes na PARAFUSO 1 foram criados durante o Laboratório de Quadrinhos Potenciais que você organizou em janeiro de 2018. O que foi o Laboratório? Como você concebeu esse projeto?

O Laboratório de Quadrinhos Potenciais foi uma residência artística que criei para desenvolver trabalhos em conjunto com outros profissionais que já tinham experiências com publicações impressas. É importante frisar que a proposta não era direcionada apenas para quadrinistas, mas também para pessoas de outras áreas ligadas às artes visuais, que poderiam contribuir por meio de um certo deslocamento em relação aos quadrinhos, o que é ótimo. Minha ideia, ao desenvolver a atividade, foi priorizar as trocas a partir do convívio de produção em conjunto, assim como fazer uma investigação sobre os recursos da linguagem das narrativas gráficas com o auxílio das restrições criativas do OuBaPo. Ao longo dos encontros uma série de exercícios foram propostos para os artistas, com várias limitações pré-estabelecidas, para analisarmos, em conjunto, a forma como esses desafios seriam trabalhados. Os resultados são incríveis e muito do que foi discutido no período está transposto na PARAFUSO 1! Além disso, temos ainda uma quantidade grande de páginas prontas para lançar em uma publicação futura.

“As histórias e narrativas presentes na PARAFUSO 1 ganharam outras dimensões para mim”

Página de Aline Lemos presente na coletânea PARAFUSO 1

Quase dois anos depois dos encontros do Laboratório de Quadrinhos Potenciais, a PARAFUSO 1 está sendo finalmente lançada. Qual balanço você faz desse projeto? Você consegue fazer um comparativo entre o que imaginava que essa obra poderia ser e a versão que acabou sendo impressa?

Apesar do distanciamento em relação ao momento em que as histórias foram geradas e a publicação eu já tinha preparado a organização e como gostaria de apresentar este trabalho ainda no primeiro semestre de 2018. De todo modo, um lado bom da espera foi que quando retomei as conversas com a Miguilim, para finalmente lançarmos esse trabalho, percebi que as histórias e narrativas presentes na PARAFUSO 1 ganharam outras dimensões para mim, o que acho importante, pois não gostaria de desenvolver algo que ficasse datado. Ainda aprendo e ainda sou estimulado pelo que os autores criaram ali.

Por mais que você tivesse planos para o lançamento de uma obra impressa fruto do Laboratório de Quadrinhos Potenciais, esse é um projeto que você tinha controle mínimo em relação àquilo que era realizado pelos 12 autores. O que mais te surpreendeu nessa experiência?

Nossa, existem tantas surpresas! É difícil até criar uma lista, mas vou citar duas situações que me marcaram: 

Em primeiro lugar a produção da Ing Lee: até então ela não havia feito nenhuma história em quadrinhos, mas eu gostava muito do trabalho que ela desenvolvia com os zines e, em uma edição da Faísca, convidei ela para produzirmos alguma coisa juntos. Acabou que até o Laboratório não conseguimos, mas a participação dela na atividade e depois é fundamental para mim. A Ing tem uma energia e uma vontade, assim como uma sabedoria gráfica e narrativa, que sempre me levam a lugares que ainda não tinha estado. Desde os encontros do Laboratório que ela tem se tornado, cada vez mais, uma das grandes representantes dos quadrinhos em Belo Horizonte e no país.

A maior surpresa que tive, no entanto, foi com o trabalho do Batista: eu conhecia as obras dele por conta dos cartuns que lançava na internet e, até então, ainda não tinha visto nenhuma narrativa um pouco mais longa feita por ele. Lembro de uma conversa durante o Laboratório, que ele dizia que estava aberto e que queria experimentar situações que o tirassem da zona de conforto. Foi o que aconteceu. Quando a história que ele produziu chegou ao meu e-mail foi como uma explosão. O grau de amadurecimento e sensibilidade que estavam presentes nas páginas que ele enviou, e que estão presentes na revista, é gigantesco! É impressionante como, em apenas quatro páginas, ele consegue desenvolver algo tão denso, tão aberto, e que me fez pensar (e ainda estou) durante tanto tempo.

“O OuBaPo e a experimentação na linguagem eram isso: novos universos a serem explorados”

Página de Julhelena presente na coletânea PARAFUSO 1

Nos posts de bastidores que fizemos aqui no blog você falou sobre seu interesse em uma “forma lúdica de criação”. Foi lúdico o processo de criação desse livro? Quais são as suas principais lições e experiências e suas melhores memórias desse processo de criação coletivo com esses 12 autores que participam do livro?

Acredito que em janeiro de 2018, quando o Laboratório foi realizado, eu precisava encontrar novos motivos para seguir com minha produção autoral. Para isso optei por procurar paralelos com o momento e a energia que me fizeram começar minha carreira nos quadrinhos. O que descobri foi que, naquela época (2007, 2008…), eu não criava histórias como um modelo de trabalho, mas sim porque era divertido para mim. Era um universo completamente novo a ser explorado, o que sempre me instigou. Ao chegar nessa conclusão, percebi que queria construir algo assim tanto para as atividades como para uma forma de produzir quadrinhos que pudesse ser passada para outras pessoas. O OuBaPo e a experimentação na linguagem eram isso: novos universos a serem explorados. Ao partir desta premissa, elaborei alguns exercícios para guiar os encontros, mas outras atividades foram pensadas em conjunto também. A residência foi muito boa nesse sentido, pois percebi que todos ali estavam se divertindo ao produzir e elaborar histórias, foi meio que um jeito de sair do cotidiano. Dos retornos que tive dos artistas quando o Laboratório já havia acabado e cada um estava criando as narrativas que comporiam a PARAFUSO 1, também recebi muitas mensagens deles sobre o quanto estavam gostando de fazer aquilo. Percebo que a imersão nesses processos foi um bom respiro para os participantes e para a cena de Belo Horizonte.

“Foi estabelecido uma espécie de tema, que permeia toda a obra, que é a ‘cidade'”

Página de Estevam presente na coletânea PARAFUSO 1

Pelos prévias já divulgadas por você, chama atenção a variedade de estilos e técnicas presentes no livro. Como foi conciliar toda essa diversidade e dar unidade à coletânea?

Acho que já falei aqui no Vitralizado sobre o meu grande interesse pelo formato revista. Eu fui criado assim e é algo que me atrai demais. Essa experiência vai também de encontro com as antologias de quadrinhos, sejam elas gringas ou nacionais, sendo que a principal influência que tenho é da Graffiti 76% Quadrinhos, que era uma antologia editada aqui em BH. Nesse tipo de publicação é comum essas reuniões de variados estilos e técnicas. No caso da PARAFUSO 1, o que fiz foi organizar tudo de um jeito que fazia algum sentido para mim, mas que também pudesse contar uma história por meio da sequência de narrativas, que gerasse uma experiência de leitura mesmo. Além disso, foi estabelecido uma espécie de tema, que permeia toda a obra, que é a “cidade”. Não Belo Horizonte ou algum outro lugar determinado, mas o espectro de cidade. Sendo assim, meio que uma unidade já havia sido formatada desde o início.

Por que “a cidade” como tema desse projeto?

Quando estava elaborando o Laboratório de Quadrinhos Potenciais pensei que deveria encontrar um mote para ligar tudo aquilo que seria produzido na residência, mas estava com dificuldades para achar isso. Foi a Helen Murta, minha companheira e sócia na Editora Pulo, que sugeriu o tema “cidade”. Pesquei na hora essa ideia porque já era algo que estava muito enraizado em meu trabalho, mas percebi que seria legal que a troca de experiências entre os participantes partisse desse lugar para que outras conclusões sobre os centros urbanos fossem discutidas a partir da linguagem dos quadrinhos.

“Já tenho dois ou três universos distintos para números posteriores da PARAFUSO”

Página de Gabriel Nascimento presente na coletânea PARAFUSO 1

Você já lançou a PARAFUSO 0, agora esta lançando a PARAFUSO 1 e prometeu para breve o lançamento da PARAFUSO ZERO – Expansão. Qual a diferença entre cada um desses trabalhos? Por que esse interesse por parafusos?

Desde o início, com o lançamento da revista PARAFUSO 0, eu tinha definido que queria desenvolver 10 edições da PARAFUSO. A ideia, no início, era fazer duas ou três por ano, mas acabei percebendo que PARAFUSO é um projeto de vida, é meu laboratório e um jeito de dar vazão ao que estou pensando e criando como autor. Dessa forma, acho que o projeto vai me acompanhar durante um bom tempo.

Para complicar um pouco as coisas, percebi que as edições não precisavam, necessariamente, serem fechadas em um número. Então tenho trabalhado cada obra como um universo, que pode ter desdobramentos ou não.
O universo PARAFUSO ZERO é uma série sobre superseres, uma reflexão sobre a sociedade e uma jornada pelos estudos que tenho feito sobre autoritarismo e democracia, que são, no fim, o que tenho vivido e pensado. Ela está sendo ampliada por meio da construção do PARAFUSO ZERO – Expansão, que em breve será publicado.

Já o universo PARAFUSO UM é mais ligado à produção de quadrinhos do que sobre uma temática específica. A ideia é que outras antologias e outras formas de pensar o processo de confecção das narrativas gráficas sejam desdobrados a partir daí.

Como não me canso, já tenho dois ou três universos distintos para números posteriores da PARAFUSO. Vamos ver quando começo a trabalhar neles…

“Minha forma de apreciação para essa linguagem está muito mais focada na narrativa ou no desenho do que nos textos”

Página de Batista presente na coletânea PARAFUSO 1

O que mais te interessa em termos de quadrinhos hoje? O que você mais tem interesse em ler e tentar fazer e experimentar com a linguagem das HQs?

Eu tenho lido poucos quadrinhos nos últimos anos, apesar de ser bem nerd quando sismo de encontrar trabalhos por conta própria. Mas normalmente eu não leio quadrinhos, ou, pelo menos, não do jeito que costumamos tratar como leitura. Minha forma de apreciação para essa linguagem está muito mais focada na narrativa ou no desenho do que nos textos ou para saber o que acontece a seguir numa história. Tive uma conversa com o Bruno Pirata (que também participa da PARAFUSO 1), há algum tempo, em que chegamos juntos na conclusão de que os quadrinhos se tornaram um meio obsoleto para se contar histórias por conta de toda a quantidade de informação e mecanismos que existem, como Netflix, cinema, literatura etc. Estou muito mais interessado nos conceitos sobre a narrativa gráfica. Vez ou outra eu me pergunto os motivos para seguir fazendo quadrinhos e não partir para outros caminhos artísticos, mas sempre chego na conclusão de que esta é minha forma de expressão, é como consigo passar o que penso, que, de certa forma, é como segue o meu fluxo de pensamentos no cotidiano. Enfim, fui para um lugar bem distante do que me perguntou, então retomando: pesquiso muito sobre novos autores ou artistas que estão desenvolvendo trabalhos nessa linguagem pelo mundo. Sigo acompanhando também o que hoje pode ser considerado um recorte do nosso mercado, que seriam os trabalhos de vanguarda dos quadrinhos, aqueles que estão à margem, mas que empurram a nossa produção para frente, como o Gerlach, a Puiupo, a Lovelove 6, o Sica, o Odyr, o Dahmer, o Gabriel Góes, o Lucas Gehre, a Ing Lee, a Aline Lemos, e mais um monte de gente. E o Chris Ware sempre.

A capa da coletânea PARAFUSO 1
HQ / Matérias

Sarjeta #2: Os títulos dos selos Escória Comix e Pé-de-Cabra e disparates necessários em tempos de conservadorismo crescente

Está no ar a segunda edição da Sarjeta, minha coluna mensal sobre quadrinhos no site do Instituto Itaú Cultural. Dessa vez eu escrevi sobre os trabalhos de autores como Emilly Bonna, Fabio Vermelho e Victor Bello para os selos Escória Comix e Pé-de-Cabra, respectivamente capitaneados pelos editores Lobo Ramirez e Panhoca.

Chamo atenção para a originalidade das tramas de obras como Esgoto Carcerário, O Deplorável Caso do Dr. Milton e Úlcera Vórtex, disparates necessários em tempos reacionários. Na entrevista que fecha a coluna, bati um papo com a quadrinista Débora Santos, autora do álbum Lua Cheia e coautora de Sapacoco e Pombos!, em parceria com Márcio Moreira.

Você lê a segunda Sarjeta clicando no link a seguir: Sarjeta #2: Escória Comix e Pé-de-Cabra: respostas das HQs brasileiras a tempos sombrios.

HQ

Plaf: confira a capa e uma prévia das HQs e das matérias da 3ª edição da revista

O terceiro número da revista Plaf tem capa da quadrinista Aline Lemos, que também assina uma história em quadrinho inédita para a publicação. Editada por Paulo Floro, Dandara Palankof e Carol Almeida, a Plaf #3 teve seu lançamento marcado para o dia 6 de dezembro, às 19h, no Ursa Bar e Comedoria (Rua Carneiro Vilela, 30, Espinheiro), em Recife.

A terceira Plaf tem como foco principal o olhar dos quadrinhos sobre a história brasileira. A revista conta com HQs inéditas dos quadrinistas Jota Mendes e Luiz Gê (protagonista da entrevista da edição) e reúne textos sobre o imaginário do Nordeste nas histórias em quadrinhos e sobre a importância de Angelo Agostini para os quadrinhos nacionais.

Uma prévia da Plaf #3 sobre o trabalho do quadrinista Luiz Gê

A revista ainda conta com uma releitura crítica da revista Tico-Tico e um artigo sobre o olhar dos quadrinhos sobre a história. O editor Paulo Floro mandou aqui pro blog a capa e uma prévia do conteúdo presente nessa Plaf nova e avisou que a primeira edição da revista, que estava esgotada, vai ganhar reimpressão. Ele também contou que logo mais estará disponível na internet uma versão da revista com a audiodescrição das HQs.

“Queremos apostar nessa acessibilidade e esperamos colocar mais números em audiodescrição de forma periódica”, diz Floro. A promessa é de versões com audiodescrição dos quadrinhos da Plaf #1 para o mês de dezembro. A seguir, a prévia de algumas das matérias e HQs da Plaf #3:

Duas páginas da Plaf #3 dedicadas à revista O Tico-Tico
Trecho da HQ de Jota Mendes para a Plaf #3
Trecho da HQ de Luiz Gê para a Plaf #3
Uma página da HQ de Aline Lemos para a Plaf #3
Entrevistas / HQ

Papo com Sergio Chaves, editor da revista Café Espacial: “Foi fundamental não nos calarmos diante desse governo medíocre”

As 132 páginas da 17ª edição da revista Café Espacial estão dividias em 15 histórias em quadrinhos e três textos. Criada em 2007 pelo editor Sergio Chaves e pela jornalista Lídia Basoli, a revista é uma das publicações independentes de quadrinhos mais tradicionais do país e retorna às lojas após um período de pouco mais de um ano de hiato.

“A Café Espacial segue seu papel de contracultura, apresentando narrativas sobre a vida e o mundo a partir de diversos pontos de vista e linguagens artísticas”, sintetiza Chavez em relação ao que ele acredita ser a linha editorial da publicação capitaneada por ele. “É uma maneira de se fazer política a partir do que a gente gosta e acredita”.

Eu havia conversado com o editor da Café Espacial em fevereiro, quando entrou no ar a chamada para publicação da revista e voltei a entrevistá-lo agora, com a chegada da 17ª às lojas especializadas. Conversamos sobre o processo de seleção dos trabalhos impressos na revista, sobre o recorte desse número e o futuro da publicação.

Chavez também contou um pouco sobre o álbum Entre Cegos e Invisíveis, novo trabalho do quadrinista André Diniz que será lançado pelo selo Café Espacial na Comic Con Experience 2019.

Listo a seguir os nomes dos colaboradores da Café Espacial #17 e depois compartilho a íntegra da minha entrevista com o editor da revista. Ó: Sergio Chaves, Lídia Basoli, Jefferson Cortinove, Aline Zouvi, Alberto Pessoa, Ana Vieira, André Diniz, Brian Janchez, Camila Suzuki, Carol Ito, Débora Cassolatto, Diogo Hayashi, Fabrina Martinez, Gabriela Güllich, Germana Viana, Jéssica Reinaldo, Henrique Magalhães, Laudo Ferreira, Leonardo Pascoal, Liber Paz, Lielson Zeni, Luiza Nasser, Marta Teives, Matheus Aguiar, Milton Mastabi Filho, Pablo D’Alio, Panhoca e Reno.

(na arte que abre o post, quadros de Experiência de Quase-Morte, HQ de Lielson Zeni e Milton Mastabi Filho publicada na Café Espacial #17)

“A 17ª edição deixa claro que a retomada da revista veio em boa hora”

Quadros de Experiência de Quase-Morte, HQ de Lielson Zeni e Milton Mastabi Filho publicada na Café Espacial #17

Nós fizemos a nossa primeira entrevista em fevereiro, quando você anunciou a convocatória pra Café Espacial #17. Essa segunda entrevista tá rolando em novembro, poucas semanas após a revista chegar às lojas. Você já parou para fazer um balanço dessa edição?

Ainda não fiz um balanço tão preciso, mas durante o processo mesmo ficou claro que seria uma edição marcante na trajetória da Café Espacial, pois trata-se de uma consequência direta de várias coisas que estão acontecendo atualmente. Na minha opinião, a 17ª edição deixa claro que a retomada da revista veio em boa hora.

O que mais te surpreendeu nessa 17ª edição da Café Espacial? Há algum trabalho específico que te marcou de alguma forma em particular?

Acredito que não, na verdade. Seja direta ou indiretamente, todos os trabalhos apresentam um olhar, uma reflexão sobre o atual momento do país. Mas não há, para mim, um destaque na edição. Cada trabalho cumpre seu papel, funcionando exatamente onde está posicionado na publicação e dando o ritmo ideal da edição como um todo.

“Nosso posicionamento político nunca ficou tão evidente como agora”

Quadros de Filhas do Campo: um retrato em quadrinhos de agricultoras assentadas na Paraíba, HQ de Gabriela Gülllich publicada na Café Espacial #17

Lá em fevereiro eu te perguntei “como é o processo de seleção das obras que acabam impressas na revista?”. No editorial dessa 17ª edição você falou em mais de 1500 páginas recebidas, então agora eu gostaria de saber: como foi esse processo pra esse novo número?

Muito intenso. A quantidade recebida foi surpreendente e foi necessário nos reorganizar para cumprir o lançamento no último trimestre do ano, como queríamos. A nova edição da Café Espacial conta com 15 HQs e também com três textos (um conto literário e dois textos ilustrados, sendo um sobre música  e outro, cinema). E mesmo aumentando o número de páginas de 100 para 132, muitos trabalhos acabaram ficando de fora por conta de espaço, como sempre acaba acontecendo.

Lá em fevereiro você falou sobre como não está habituado a delimitar muito a linha editorial da revista. Mas imagino que cada edição tenha um perfil, uma cara, para você. Como você sintetiza essa 17ª edição?

Acredito que nosso posicionamento político nunca ficou tão evidente como agora. Nada partidário, óbvio, até porque não somos, mas esse novo número foi fundamental não nos calarmos diante desse governo medíocre. 

A Café Espacial não é um produto, mas sim um processo que vai além da publicação impressa. Em meio a essa cultura de restrições e desumanização do outro, a Café Espacial segue seu papel de contracultura, apresentando narrativas sobre a vida e o mundo a partir de diversos pontos de vista e linguagens artísticas. É uma maneira de se fazer política a partir do que a gente gosta e acredita. Então a 17ª edição compartilha dessa lógica. 

“Nunca vi tantas coisas interessantes acontecendo no cenário de HQs no Brasil”

Uma página de Meu 1º Beijo ou Quando Aprendi que o Desejo Feminino era Errado, HQ de Carol Ito publicada na Café Espacial #17

A primeira edição da Café Espacial é datada de 2007. Nesses seus mais de 12 anos trabalhando como editor e curador de quadrinhos no Brasil, quais você considera as principais mudanças e transformações que viu rolando na cena nacional de HQs?

Acho que eu nunca vi tantas coisas interessantes acontecendo no cenário de HQs no Brasil. Antigamente, tinha uma coisa aqui, outra ali. Hoje em dia, é até difícil de acompanhar mesmo que parcialmente a produção nacional. 

E o que você vê de mais interessante rolando hoje nos quadrinhos brasileiros?

Sem dúvida, a diversidade, tanto em temática, gênero ou mesmo soluções gráficas. Vejo um maior número de pessoas pensando e se expressando por meio das histórias em quadrinhos e indo muito além do próprio meio. E  isso contribui para inspirar outras pessoas a se organizar e somar ao cenário atual. Isso é fundamental.  

“Entre Cegos e Invisíveis é uma ficção que tem como cenário a ditadura militar brasileira”

Quadros de O Crânio do Crocodilo, HQ de Brian Janchez e Pablo D’Alio publicada na Café Espacial #17

Aliás, você esteve em Portugal e há toda uma leva de publicações brasileiras chegando lá – em alguns casos, obras de autores brasileiros que saem até antes lá do que aqui. Como você vê a percepção do quadrinho brasileiro em Portugal? 

Parece que sempre houve boa abertura por parte dos leitores portugueses para as produções brasileiras, mas hoje há um espaço muito maior para os autores daqui. Boa parte dessa ampliação se deve ao trabalho do editor Rui Brito, da editora Polvo, que conta com muitos autores brasileiros em seu catálogo, mas de modo geral a diversidade dos quadrinhos brasileiros é vista com muito interesse. Conhecer o Festival de Amadora neste ano só deixou isso muito mais claro. A produção portuguesa é também muito interessante e seria muito bom se tivéssemos no Brasil uma abertura maior para essa troca. Já faz um bom tempo que a Café Espacial publica autores portugueses e mantém uma boa relação com Portugal. A ideia agora é estreitar essas relações cada vez.

O que você pode adiantar sobre a edição brasileira de Entre Cegos e Invisíveis? Como foi o processo para trazer essa edição para o Brasil?

Foi uma ideia que surgiu naturalmente diante da retomada da Café Espacial e também da longa amizade que tenho com André Diniz, autor do álbum. Do ano passado para cá, acompanhei o processo de criação da HQ que André lançaria em maio deste ano pela editora Polvo, em Portugal, e programamos seu lançamento no Brasil logo após a revista Café Espacial 17. 

Entre Cegos e Invisíveis é uma ficção que tem como cenário a ditadura militar brasileira e trata de questões sociais e existenciais por meio de uma família marcada pela ausência do pai, um herói militar, que acabara de falecer. A HQ é contada pela perspectiva dos filhos e aborda uma série de acontecimentos em plena estrada após o funeral. O traço já conhecido de André Diniz dá o ritmo ideal à HQ, que vai ganhando densidade conforme a narrativa avança. Trata-se de uma obra que me deixa particularmente realizado ao compor o catálogo da Café Espacial.

“Temos muitos planos para a Café Espacial, muitos deles para 2020”

Quadros de O Reflexo de Narciso, HQ de Leonardo Pascoal publicada na Café Espacial #17

O que o futuro reserva para a Café Espacial?

Num país onde arte e cultura são vistas como desnecessárias ou até mesmo criminosas, é um grande desafio planejar qualquer coisa hoje em dia. Por exemplo, a Secretaria da Cultura acabou de ser transferida para a pasta do Turismo e a Lei Rouanet, grande mau no imaginário dos ignorantes, agora poderá subsidiar eventos religiosos, num oportunismo escancarado dessa onda evangélica que contribui para a desconstrução do país. Desse ponto de vista e diante dos absurdos do atual desgoverno, qualquer planejamento é uma incógnita, mas é necessário enxergar além. Fazer arte é ato político e revolucionário. E é cada vez mais necessário. 

Temos muitos planos para a Café Espacial, muitos deles para 2020. E é como sempre digo, se conseguirmos concretizar 20% do que desejamos, teremos muita coisa em breve. Seguiremos produzindo.

A arte de Aline Zouvi para a capa e a 4ª capa da Café Espacial #17

HQ

Kainã Lacerda narra os bastidores da saga A Ascensão, o Auge e a Queda do Bebe-Mijos

O quadrinista Kainã Lacerda lança a terceira edição da revista Cintaralha Comix na Butantã GibiCon, em São Paulo, no dia 1º de dezembro. O álbum terá 52 páginas coloridas e vai marcar o início de uma saga em três partes batizadas pelo autor de A Ascensão, o Auge e a Queda do Bebe-Mijos – protagonizada por um personagem que tem como única motivação sua obsessão por urina.

Conversei recentemente com Lacerda pouco antes da abertura da exposição de originais do autor da 9ª Arte Galeria. Seus trabalhos tem como principais características forte teor pornográfico – e possivelmente ofensivas para muitos. É um quadrinista extremamente técnico e habituado ao uso do nanquim, prática inspirada pelos trabalhos de autores como Daniel Clowes e Peter Bagge.

Em meio à produção dessa terceira Cintaralha Comix o quadrinista escreveu um texto de bastidores sobre o desenvolvimento do quadrinho. Ele falou sobre o ponto de partida da obra e a criação de seus personagens e também compartilhou algumas imagens mostrando o making of da HQ. Texto bem massa, dá uma lida:

Estudo do personagem Bebe-Mijos, criado por Kainã Lacerda e protagonista da HQ presente em Cintaralha Comix #3

O personagem do BEBE-MIJOS surgiu num zinezinho que eu fiz em 2017, chamado DUMP COMIX, que eu fiz com o intuito de ser uma compilação de historinhas escatológicas sem nada mais além disso, só pra ser maneiro mesmo. Eu tive a idéia de criar o personagem do Bebe-Mijos numa madrugada que eu tava sem conseguir dormir e tava lendo coisas aleatórias no meu celular. Dentre elas, eu resolvi revisitar um site que eu via anos e anos atrás, não lembro quem me apresentou, mas é uma parada incrível. Se chama THE CHURCH OF EUTHANASIA (Igreja da Eutanásia). A Igreja da Eutanásia é uma instituição gringa que prega o fim da raça humana. O lema deles é “Salve o planeta, se mate”. Enfim, eles tem vários artigos malucos super-interessantes que envolvem suicídio, aborto, sodomia (ou qualquer forma de sexo que não resulte em procriação) e canibalismo (sem envolver homicídio, canibalismo de pessoas previamente mortas). É morbidamente incrível! 

Dentre esses artigos, eles têm um sobre os benefícios de beber a sua própria urina, chamado “A Água da Vida”. Foi lendo esse artigo numa madrugada de insônia que me veio a primeira inspiração pra criar um personagem que sua única motivação é beber mijos
“.

Estudo do personagem Bebe-Mijos, criado por Kainã Lacerda e protagonista da HQ presente em Cintaralha Comix #3

“Inicialmente, o personagem do Bebe-Mijos ia ser um carinha humano normal. Eu cheguei a rascunhar a primeira página com ele como um cara, mas eu não gostei muito do resultado e achei que o personagem precisava de uma característica mais própria. Foi numa dessas, que olhando meu sketchbook, eu vi um desenho que eu tinha feito um tempão atrás, de um monstrinho, super simples, e eu achei ele perfeitamente carismático o suficiente pra ser a encarnação do Bebe-Mijos.

Eu fiz essa primeira história dele e lancei na Dump Comix, atualmente esgotada. Nela, aparecem como personagens, o Bebe-Mijos e uma outra personagem chamada Joanna Esquisitona”.

Estudos de uma página presente em Cintaralha Comix #3, de Kainã Lacerda

“A Joanna foi uma personagem que eu criei pra ser o corta-barato do Bebe-Mijos. Eu criei ela pra ser apática e indiferente ao sofrimento dele, da sede insaciável por urinas. Achei que foi uma combinação legal e é isso aí. Fim da história.

Quando eu lancei o Dump Comix, um amigo muito próximo meu curtiu muito a história e me falou que eu deveria expandir o LORE desse personagem. E foi daí que veio A ASCENSÃO, AUGE E QUEDA DO BEBE-MIJOS, uma história em três atos, em três edições diferente da minha revista, CINTARALHA COMIX, a primeira edição que vai ser lançada agora na Butantã GibiCon, se a gráfica colaborar”.

Uma etapa da criação de uma arte de Cintaralha Comix #3, de Kainã Lacerda

“Inicialmente, parecia uma idéia de boa expandir esse personagem, mas eu percebi que era muito difícil desenvolver um personagem do qual sua única motivação era beber mijos. Não tem muito pra onde ir. Eu tive que pensar em várias paradas pra deixar ele interessante e no final das contas eu comecei a criar todo um universo em volta dele. A história se passa numa sociedade paralela à nossa, que coisas aconteceram que meio que mudaram o rumo da história, mas isso é algo que eu vou expandir mesmo no segundo capítulo”.

Estudo para a capa de Cintaralha Comix #3, de Kainã Lacerda

“Eu acabei criando uns personagens coadjuvantes e secundários que eu acho que acabam enriquecendo a história. Entre elas está uma chamada NICOLE, que eu queria que fosse o exato retrato do mal encarnado. Ela é fortemente baseada em algumas pessoas que eu já conheci, só que  exagerada ao extremo.

O meu processo nessa história é todo no digital. Desde os thumbnails até a finalização, e eu tô adorando trabalhar dessa forma. Eu consigo me organizar bem mais no computador e eu acho que combina com o visual que eu queria que essa história tivesse. Eu queria algo mais limpinho, meio parecido com estilinho de animação do Cartoon Network, pra dar contraste com o conteúdo da história, que provavelmente é o aposto disso”.

Página de DUMP Comix #1, HQ de Kainã Lacerda na qual foi apresentado o personagem Bebe-Mijos, protagonista da terceira edição da revista Cintaralha Comix
Página de DUMP Comix #1, HQ de Kainã Lacerda na qual foi apresentado o personagem Bebe-Mijos, protagonista da terceira edição da revista Cintaralha Comix
Página de DUMP Comix #1, HQ de Kainã Lacerda na qual foi apresentado o personagem Bebe-Mijos, protagonista da terceira edição da revista Cintaralha Comix
Uma etapa da criação de uma arte de Cintaralha Comix #3, de Kainã Lacerda
HQ

Cavalo de Teta: confira a capa e uma prévia do terceiro número da revista editada por João Pinheiro

Tá virando tradição as capas matadoras da Cavalo de Teta. Depois do Temer de Lex Luthor líder da Liga da Injustiça na primeira edição e do bonecão do Moro no segundo número, a terceira é assinada por Diego Gerlach mostrando a real de um encontro entre Jair Bolsonaro e Donald Trump.

A Cavalo de Teta foi criada em 2017 pelo quadrinista João Pinheiro, editor do projeto, na companhia de MZKGerlachSchiavon e Evandro Alves. O segundo número contou com uma participação do escritor Ferréz e o convidado especial da vez é o quadrinista Rafa Campos Rocha.

A Cavalo de Teta #3 será lançada na Butantã GibiCon, em São Paulo, no dia 1º de dezembro. Recomendo uma lida na minha entrevista com Gerlach e Pinheiro na época do lançamento da segunda edição e deixo o preview da terceira que o João Pinheiro liberou aqui pro blog:

Página de Cavalo de Teta #3, revista editada pelo quadrinista João Pinheiro
Página de Cavalo de Teta #3, revista editada pelo quadrinista João Pinheiro
Página de Cavalo de Teta #3, revista editada pelo quadrinista João Pinheiro
Página de Cavalo de Teta #3, revista editada pelo quadrinista João Pinheiro
Página de Cavalo de Teta #3, revista editada pelo quadrinista João Pinheiro
Página de Cavalo de Teta #3, revista editada pelo quadrinista João Pinheiro