Liber Paz e os dois momentos da produção de Dias Interessantes

O quadrinista Liber Paz lançou sua segunda HQ impressa na mais recente edição do FIQ. De acordo com o autor, Dias Interessantes é “uma história em quadrinhos sobre boas intenções, escolhas difíceis e aquelas coisinhas intangíveis que chacoalham as nossas almas”. Com um belo roteiro, designs de páginas muito bem pensados e ótimos diálogos, a HQ conta a história de um casal às vésperas de um término inevitável surpreendido com uma gravidez inesperada.

Dois anos após chamar atenção por sua estreia em As Coisas que Cecília Fez, Paz produziu uma HQ madura, cheia de referências a cultura pop, na qual ele investe em possibilidades de paginação e texto pouco exploradas em gibis nacionais. Recomendo fortemente a leitura da resenha de Dias Interessantes feita pelo Paulo Cecconi no Blog da Itiban.

Pedi para o quadrinista fazer uma espécie de making-of de Dias Interessantes. O resultado foi um relato curioso e detalhado sobre os dois principais momentos da produção da obra. O texto a seguir é assinado por Liber Paz:

“Quando eu faço uma história em quadrinhos, há dois momentos.

Primeiro momento: o caderno.

Figura 01

Porque começa com a escolha de um caderno onde vou trabalhar. Ali vou anotar tudo o que puder, palavras-chave, filmes, músicas, esboços de diálogos, personagens. O caderno entra no processo como uma ferramenta pra ajudar a pensar a história. Eu mais escrevo que desenho. A maioria esmagadora das coisas não é aproveitada. Tudo é feito de maneira bem solta, rápida.

Figura02

A parte mais importante pra mim são os diálogos. Os diálogos é que darão a dimensão de todas as coisas. Os silêncios fazem parte dos diálogos. Junto com isso, tenho uma preocupação com eventos. Fico pensando no que acontece na história, em como os eventos se ligam, em como a coisa vai se desenrolar. Às vezes fico obcecado com coisas como datas, horas, coincidências, sincronicidades e outras coisas que acabam se mostrando irrelevantes.

Figura03

Essas são as preocupações que vão conduzindo meu processo de roteiro, que constitui de esboços pequenos das páginas da hq, com layout, distribuição dos painéis, enquadramentos. Tudo feito bem rápido, só pra dar uma ideia. Ao lado, vão os textos dos diálogos. O bom desse processo é que consigo visualizar o espaço que o texto vai ocupar, então, a composição de texto e layout vai acontecendo junto.
Essa etapa de produção do roteiro é a parte que mais gosto e costuma ser bem demorada. É que vou pensando na história e nas soluções e às vezes as coisas funcionam e outras vezes não. Às vezes demora semanas pra achar uma solução, às vezes eu simplesmente abandono o projeto. Acontece.
Junto com a etapa de produção do roteiro eu também vou imaginando que cara o livro vai ter. Que formato? Qual papel? Tudo caminha junto com o roteiro.
Tudo isso é anotado no caderno.

Segundo momento: a folharada.

O grande Shiko uma vez disse: “fazer história em quadrinhos é meio que viver um namoro que durou mais do que devia”. Achei uma definição justa.
Porque, uma vez feito o roteiro, ou pelo menos, uma vez que eu tiver certezas o bastante a respeito da história, daí começa o trabalho pesado. Vamos trazer a coisa pro mundo real.
Eu sou um designer por formação e sou daquela escola que gosta de grids e relações matemáticas e tals. Penso nessas coisas pra definir as margens que serão a estrutura da hq.
Eu me oriento pelos esboços do roteiro pra construir as linhas dos painéis (em grafite vermelho), tudo com esquadro e escalímetro (sou velho, me deixa). Feitas as marcações dos painéis, eu esboço (grafite azul), detalho à lápis, apago, refaço, apago, refaço. Faço o letreiramento à mão antes de começar a finalizar os desenhos com nanquim. Daí apago os excessos.

Figura04

Esse processo se repete página por página e tem momentos que parece que essa coisa não vai acabar nunca, tenho uns surtos, penso em largar tudo, escuto podcasts e filmes e vou desenhando. (Curiosidade: ao final da produção de Dias Interessantes, eu deixei o filme Mad Max: Fury Road tocando em loop e o usava com unidade de tempo. Uma página levava em média 2 a 3 Mad Max:Fury Road pra ficar pronta. Medíocre, Morsov, medíocre.)

Figura05

Figura06

Figura07

O processo de produção de Dias interessantes teve umas especificidades. Por exemplo, eu comecei a desenhar a história sem ter nem 10% do roteiro pronto. Eu tinha uma boa ideia do que eu ia fazer, do que eu ia mostrar e fui fazendo tudo ao mesmo tempo. Então, o caderno e a folharada foram acontecendo juntos. Outra coisa é que a arte foi toda feita em nanquim, incluindo todas as letras utilizadas na edição. Pra esse projeto, era muito importante (pra mim) que tudo fosse feito à mão. Houve poucos ajustes no computador. A capa foi a última coisa realizada.
Capa sempre é um problema e patinei com ela por uns cinco dias. Não conseguia achar uma ideia e o deadline da gráfica estava chegando. O bom dos prazos é que eles te obrigam a apresentar resultados. O duvidoso dos prazos é que talvez não sejam os melhores resultados possíveis. Paciência. Mas, às vezes, a gente dá sorte. No caso, seguindo a ideia de fazer tudo à mão, decidi fazer uma aquarela. A imagem, um close próximo de Christian e Sabine num momento de carinho, não mostra uma cena da história, mas o ponto de partida.

Figura08

Dias interessantes com suas 72 páginas foi minha segunda história “longa”. A primeira foi As coisas que Cecília fez, que teve 56. Fazer quadrinhos envolve bem mais processos do que “caderno” e “folharada”. Há a produção gráfica, a distribuição, a divulgação. Mas é no pensar e desenhar que acredito que reside a base fundamental de qualquer projeto. Há variações no processo não só de pessoa para pesssoa, mas de projeto para projeto. Em As coisas que Cecília fez o processo se deu de maneira mais insegura, temerosa, mas ao mesmo tempo de maneira mais leve e divertida. Dias interessantes aconteceu de maneira muito mais pesada, triste, mas também foi um processo mais solto, mais tranquilo em abraçar suas próprias limitações. Eu não via a hora de acabar. E não vejo a hora de começar o próximo projeto”.

DiasInteressantesLiber

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Ramon Vitral

Meu nome é Ramon Vitral, sou jornalista e nasci em Juiz de Fora (MG). Edito o Vitralizado desde 2012 e sou autor do livro Vitralizado - HQs e o Mundo, publicado pela editora MMarte.

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