Papo com Rutu Modan, autora de A Propriedade: “O mais importante é não ter medo de contar a verdade mais desagradável possível”

Antes de tudo, fica o aviso: a entrevista a seguir está repleta de spoilers. Caso você não tenha lido A Propriedade, guarde o link para depois, combinado? Ainda por aqui? Vamos lá: A Propriedade é sem dúvidas um dos grandes quadrinhos lançados no Brasil em 2015. Até o momento, ele ocupa o topo da minha lista junto com Mate Minha Mãe, do quadrinista norte-americano Jules Feiffer. Premiado com o Eisner de Melhor Graphic Novel de 2013, o gibi chega por aqui com atraso, mas com o mesmo vigor da época de seu lançamento. Aproveitei a publicação da edição em português para correr atrás da autora do quadrinho, a israelense Rutu Modan. Ela foi extremamente atenciosa e respondeu uma das entrevistas mais interessantes já publicadas por aqui. Transformei esse papo em matéria pro Uol. Também recomendo a leitura do meu texto para uma melhor compreensão de A Propriedade e da formação de Modan. Então é isso: leu A Propriedade e a minha matéria? Manda bala com a conversa abaixo. Papo bem legal. Ó:

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A Propriedade mostra a ida de uma garota israelense e sua avó para Varsóvia em uma busca relacionada à história de suas famílias durante a 2ª Guerra Mundial. É uma narrativa universal, mas trata de tópicos muito distantes da realidade brasileira. O que você sente ao ver seu trabalhando sendo publicado no Brasil? Você costuma pensar que algo escrito e desenhado por você pode ser consumido por um público de uma realidade tão distante da sua?

Antes de tudo, estou muito empolgada por ser a primeira vez que um livro meu é lançado no Brasil.

Quando crio uma história posso me preocupar que os leitores não vão entender tudo, mas não posso fazer nada em relação a isso. Explicar demais torna a história cansativa e se você fizer apenas coisas que todo mundo vai entender, será uma história rasa e sem graça. Como leitor, você quer ler algo novo, você quer que uma história convincente. Apenas quando o autor está sendo específico ele consegue ser completamente honesto, por estar escrevendo sobre algo que conhece. Os eventos e os ambientes da história são apenas o corpo da história. A alma da história está nos personagens e lá no fundo (peço desculpas pelo clichê) temos mais semelhanças do que diferenças entre nós. Então mesmo que você não entenda todos os detalhes, você entende os personagens e é isso que importa.

Talvez seja um preconceito da minha parte, mas quando penso em um autor de Israel eu acabo esperando uma obra com conteúdo político. Isso acontece com você? Quero dizer, você supreende as pessoas por seus quadrinhos não sejam explicitamente políticos?

Sou questionada constantemente por que meus quadrinhos não são sobre o nosso contexto político (mas nunca por israelenses). Eu entendo essa expectativa. Também acho que as pessoas ficam ansiosas para entender “o que está acontecendo por aí”, por que não podemos resolver o problema como seres humanos normais. Talvez elas esperem que eu possa explicar todo esse contexto pelos meus quadrinhos. Peço desculpas, mas não posso. É ainda mais confuso e assustador viver essa realidade do que acompanhar pela televisão.

Escrever sobre a situação política seria mais como fazer jornalismo em quadrinhos. É um gênero que admiro como leitora, mas nunca me senti 100% segura fazendo. Já tentei, mas senti que estava expondo a minha opinião e tendo a acreditar que há muitas opiniões sendo expressas sobre o conflito e a a minha seria apenas mais uma sem importância. Nunca vi ninguém mudar sua opinião por causa da opinião de outra pessoa, mas um u ponto de vista expresso de forma honesta é sempre interessante e pode abrir algumas mentes. É muito mais fácil sentir empatia por alguém que me conta uma experiência pessoal sem querer me converter. Não tomarei uma posição defensiva, como faço, por exemplo, quando leio um artigo de um jornalista que apoia o governo.

Histórias são exatamente isso, contar alguma coisa a partir de um determinado ponto de vista. Posso até inventar alguns gráficos, cada um deles com um ponto de vista diferente, e será mais próximo da realidade, o que acaba sendo sempre ambivalente e mostrando os muitos pontos de vista de vários tópicos.Tendo deixado isso claro, eu acho que minhas opiniões políticas podem estar presentes em meu livros, como vocês diz na próxima questão.

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Quando disse ‘explicitamente políticos’ na questão anterior é porque eu tenho essa interpretação de A Propriedade que não sei se faz sentido para você. Os Israelenses e os palestinos estão lutando por suas propriedades. A Propriedade mostra essa mesma luta por posse, mas entre poloneses e judeus. Você considera essa uma leitura possível do livro? É uma interpretação que você considerou que seus leitores poderiam ter do livro?

Sim, definitivamente e estou muito feliz que você tenha notado.

Os judeus foram expulsos da Europa e suas propriedades foram tomadas pelos poloneses. Os judeus foram para a Palestina, expulsaram os palestinos e tomaram suas casas. É uma tragédia que segue acontecendo de forma contínua ao longo da história.

Era algo que tinha em mente enquanto trabalhava no livro. Tive medo que ninguém fosse notar, então tentei fazer a Mica, a heroína, dizer algo sobre isso ao longo do livro, mas não funcionou. Soava artificial. A Mica não é o tipo de pessoal interessada em política. Era como se eu estivesse tentando enfiar minhas ideias na cabeça dela. Na verdade, é como se eu estivesse tentando enfiar essa ideia na cabeça dos leitores. Acabei desistindo e confiando que os leitores fariam a conexão por conta própria. Ou não.

Há muitos personagens no livro e cada um deles expressa uma perspectiva diferente do mundo e da realidade em que eles vivem. Foi muito difícil para você criar todas essas vozes distintas? Mesmo a Mica e a Regina parecem estar separadas por um mundo inteiro.

Bem, você acabou de descrever o elemento que mais gosto na escrita: assim como todas as pessoas, eu estou tragicamente presa à minha idade, ao meu gênero e ao tempo e ao espaço nos quais nasci. Escrever sobre personagens diferente é uma oportunidade de me tornar uma outra pessoa, para falar em diferentes vozes. Também é uma oportunidade de tentar e entender outras pessoas. A Regina por exemplo é baseada na minha avó, que não era muito próxima de mim quando era viva. Quando eu escrevia e desenhava ela, é como se eu estivesse me relacionando pela primeira vez com empatia real com tudo que ela tinha passado em sua vida.

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Li que o livro é inspirado parcialmente na história da sua família. Ao mesmo tempo, você não é uma personagem. Mas há um personagem que começa a desenhar um quadrinho sobre o passado da Regina e é bastante criticado pela Mica. Em algum momento você sentiu que estava fazendo algo errado ao produzir o quadrinho? Você sentiu que estava expondo alguém?

É sempre uma questão para mim. Como uma escritora e ilustradora, às vezes eu me sinto como uma ladra. Eu roubo as histórias das pessoas, eu roubo a aparência delas. Eu desenho essas pessoas, uso as falas delas, faço piada com elas e elas acabam nem sabendo disso. Eu sento com uma pessoa, ela me conta uma história pessoal e estou realmente interessada, mas, ao mesmo tempo, eu sei como utilizar aquilo em uma história… Então ao fazer de um personagem um quadrinista, eu estava fazendo piada comigo e talvez até me criticando um pouco.

E você foi a Varsóvia para fazer o quadrinho? Você utiliza algumas técnicas que misturam fotografia, certo? Você fotografou a cidade para desenhar depois? E que tipo de pesquisa você fez para escrever o livro?

Quando comecei a escrever eu não sabia nada sobre a Polônia, mesmo que minha família tenha vindo de Varsóvia e meu pai tenha nascido lá. Por causa do trauma do holocausto, minhas avós nunca falavam sobre a Polônia, na verdade a minha família ‘apagou’ suas raízes e nunca olhou para trás. Eles não falavam polonês e nunca mencionavam o passado. Eu nunca tive interesse na Polônia até decidir fazer essa livro.

De qualquer forma, foi uma oportunidade para aprender bastante. Eu li livro sobre a história da Polônia, sobre a relação entre judeus e poloneses. O mais importante de tudo, eu entrevistei pessoas. Velhos judeus poloneses em Israel, jovens poloneses na Polônia. Fui à Polônia três vezes enquanto trabalhava no livro. Primeiro antes de começar a escrever. Tinha uma ideia geral para a história, mas nunca tinha ido até a Polônia, então queria ver Varsóvia e conhecer e conversar com pessoas para encontrar ideias para o livro.

Depois, enquanto estava no meio da produção e já sabia o que procurar, eu voltei lá, para uma pesquisa mais específica. A última vez foi logo antes de começar a desenhar, para tirar fotos dos locais que pretendia usar no livro. Eu faço bastante uso de fotografias quando desenho. É importante para mim criar um mundo convicente até seus menores detalhes.

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Gosto muito do final do livro, principalmente das últimas páginas no avião. Mostra o final de uma jornada emocional intensa não apenas para a Mica e para a Regina, como também para todos aqueles adolescentes que também estavam no avião que deixou Israel. Assim como esses jovens, a Mica parecia não estar muito interessada na viagem, mas ela viveu várias jornadas durante a sua semana na Polônia. Você sempre teve esse final em mente quando começou a fazer o livro?

Quando estava escrevendo eu não tinha certeza do que aconteceria no final. Não sabia se a Mica, a heroína, desistiria da propriedade. Eu sabia que utilizaria a cena final final no cemitério no Dia de Finados, mas não sabia o que aconteceria lá. E eu sabia que o Thomasz (o jovem que ajuda Mica em sua busca) seria um quadrinista – escolhi essa profissão para ele logo no início da escrita -, mas demorou alguns meses até eu saber o conteúdo de seu quadrinho e como ele estaria conectado ao resto da história.

É parte da graça do processo, descobrir sobre o que é a sua história.

Tenho um conhecimento muito limitado sobre os quadrinhos produzidos em Israel. Vocês têm algum tipo de cena por aí? Li sobre o Actus Tragicus. Vocês ainda trabalham juntos como grupo?

Você nunca ouviu falar nada sobre a cena de quadrinhos de Israel porque ela é praticamente inexistente. Há duas lojas de quadrinhos no país inteiro, nenhuma editora de quadrinho e talvez quatro artistas que vivem de fazer quadrinhos. Israel talvez seja o único país no mundo em que Super-Homem e Tintin são fracassos comerciais. No entanto, há muito jovens e talentosos artistas trabalhando pesado e a situação está mudando aos poucos.

Em relação ao Actus Tragicus, trabalhamos juntos entre 1995 e 2010. Eramos independentes e distribuíamos nossos quadrinhos tanto em Israel quanto no exterior. Separamos quando chegamos num ponto que cada um queria seguir seu caminho. Um se tornou um escritor de sucesso de livros, outro queria focar sua carreira em ilustração de livros infantis, e etc. Mas ainda encontramos algumas formas de trabalharmos juntos. Por exemplo, eu e o Yirmi Pinkus criamos em 2012 uma pequena editora de quadrinhos para crianças, publicando trabalhos de outros artistas. Ainda considero o Actus o melhor e mais importante projeto da minha carreira. Eu recomendo que jovens artistas trabalhem junto com outros artistas. É muito mais fácil e divertido.

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E você trabalha como professora de ilustração e quadrinhos, certo? Você tem algum conselho especial ou lição que você tenta passar passar para todos os seus alunos que estão começando a trabalhar hoje com quadrinhos? Você considera a realidade deles muito diferente da sua quando você começou sua carreira?

Para um jovem artista, hoje a situação é mais fácil em alguns aspectos e mais difícil em outros. A impressão digital tornou a publicação independente muito mais fácil e barata. A internet tornou possível que você distribua seu trabalho pelo mundo inteiro praticamente sem qualquer custo. O problema é que é mais fácil para todo mundo. É muito mais difícil se destacar no meio da multidão, ser notado. A competição é muito, muito, mais acirrada.

Então meu melhor conselho para um jovem artista é que ele tente descobrir o que distingue o trabalho dele/dela dos outros artistas, tanto em estilo quanto nas histórias em ela/ele conta. Use as histórias da sua família, sua cultura, sua vizinhança, sua família, você. E a coisa mais importante é não ter medo de contar a verdade mais desagradável e audaciosa possível. Porque o desagradável é mais interessante e dramático que o agradável. As pessoas gostam e se identificam com sentimentos reais. Elas não só perdoarão seus erros, mas também vão amar você por eles.

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Ramon Vitral

Meu nome é Ramon Vitral, sou jornalista e nasci em Juiz de Fora (MG). Edito o Vitralizado desde 2012 e sou autor do livro Vitralizado - HQs e o Mundo, publicado pela editora MMarte.

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